quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Politicamente correto: a Igreja Universal da Micrologia.

"Um micrólogo é alguém que sofre da compulsão extrema a emitir juízos sobre os mínimos detalhes dos comportamentos dos outros. Se bebe cerveja, não devia: devia beber vinho. Se bebe vinho, que horror!". Artigo do professor Paulo Tunhas, publicado pelo Observador:


Nunca simpatizei por aí além com a expressão “politicamente correcto”. É verdade que ela serve perfeitamente para designar em termos gerais uma atitude muito corrente nas nossas sociedades, pelo menos desde os anos noventa do século XX: o policiamento activo de certas formas de comportamento, em particular do uso da linguagem, que anteriormente se classificariam naturalmente de indiferentes. O problema que vejo na expressão é que ela não revela o fundo patológico que torna esse tipo de atitude malsã e deletéria: a ideia que, precisamente, nada há que seja indiferente e que tudo, mas mesmo tudo, é merecedor de vigilância social apertada.

A ideia que nada é indiferente e que tudo é susceptível de um juízo moral tem um nome óptimo: micrologia. Um micrólogo é alguém que sofre de uma compulsão extrema a emitir juízos sobre os mínimos detalhes dos comportamentos dos outros. Se bebe cerveja, não devia: devia beber vinho. Se bebe vinho, que horror!, devia beber cerveja. E por aí adiante. Em tempos passados, havia muitas maneiras de lidar com este tipo de maluquinhos e, descontando os casos mais agressivos, eles não ameaçavam ninguém. O problema hoje em dia é que a micrologia se tornou uma espécie de religião de Estado. O Estado não pára de micrologizar um só instante, ajudado por prestimosos bandos que descobriram na possibilidade de uma qualquer especialização micrológica uma razão de vida e, às vezes, um modo de vida. Que isso ameaça a nossa liberdade é algo que salta aos olhos, pelo menos a quem tenha olhos para a liberdade.

Como vivemos tempos de neurose e má-fé, é necessário acrescentar o óbvio. A existência de uma certa dose de vigilância social sobre algumas formas de comportamento que tendemos a entender como indiferentes (no uso da linguagem, por exemplo) não só não é um mal como constitui um factor civilizacional. É no mínimo discutível que os efeitos por ela produzidos resultem na modificação da nossa natureza, mas a hipocrisia é necessária à vida social. E se acreditarmos na ideia segundo a qual um progresso para o melhor na vida social é possível e desejável, a hipocrisia recomenda-se mesmo. Apesar de tudo, pode bem acontecer que a máscara se cole à pele. A civilização é isso, e não há nada de patológico nisso.

Dito de outra maneira. Por mais cépticos que sejamos em relação à eventualidade dos nossos queridos corações caminharem velozmente em direcção a perfeições nunca vistas, há uma espécie de obrigação de pensarmos que um progresso para o melhor é possível. Um progresso sem dúvida artificial, fenomenal e não essencial, mas progresso à mesma. E é legítimo (do meu ponto de vista, muito desejável) estabelecer uma narração conjectural desse progresso que compreenda todos os momentos de relativa vitória sobre dominações sortidas. Nessa narrativa conjectural, que contém em si a ideia de um sentido da história construído por nós mesmos, igualdade e liberdade caminham juntas sem contradição alguma.

Onde é que a patologia aqui se introduz? Em larga medida, quando o progresso é visto como dando-se nos nossos próprios corações e como obedecendo a uma necessidade de qualquer espécie e não a um gesto de liberdade. Quem assim entende as coisas, gente pouco aliviada que se dá importância, logo aspira ao lugar de vigilante administrador dos costumes, uma situação favorável aos delírios de virtude. E é com essa gente que o perigo começa a espreitar e a liberdade a fugir. A obsessiva micrologia introduz-se em todo o lado. O processo é favorecido pela omnipresença de um Estado tutelar e infantilizador que cria indivíduos à partida disponíveis a desempenharem o papel de clientes anónimos da Igreja Universal da Micrologia.

Como em todos os casos destes, a única solução é lembrar-lhes que ninguém lhes encomendou o sermão. E que o espaço do indiferente existe mesmo. Sem ele não há a liberdade de que não gostam.

PS. Sem nada a ver com isto. Li no outro dia, numa biografia de Cícero, que no tempo dele os edis de Roma, aquando da organização das festas da cidade, eram obrigados, se queriam caprichar no espectáculo, a completarem o magro orçamento disponível com dinheiro dos seus próprios bolsos. Quando ocupou o cargo, Cícero lá arranjou maneira de salvar as aparências e, depois dele, César endividou-se a valer. Talvez valesse a pena os nossos presidentes de Câmara seguirem essa velha prática romana. Mal não fazia, de certeza.

Um comentário:

Anônimo disse...

Sim, deixemos claro aos catões de agora (já que a coluna termina citando Cícero, em alto estilo) que ninguém lhes encomendou qualquer sermão, e que eles podem bem enfiar a viola no saco e ir caçar sua turma.