quinta-feira, 26 de abril de 2018

Visões da liberdade em uma aventura hospitalar

Paulo Tunhas, professor de Filosofia na Universidade do Porto, descreve no Observador sua aventura hospitalar para, digamos, tratar de "uma vida sem excessos de moderação particularmente notórios". Ainda bem que tudo deu certo:


Entreguei-me às autoridades terça-feira, dia 10, por volta do meio-dia, depois de décadas e décadas em que o meu estatuto foi praticamente o de fora-da-lei. As autoridades eram representadas pela urgência do Hospital de Santo António e a minha confissão deve ter sido convincente, já que lá fiquei internado numa enfermaria por doze dias. Somando tudo, aos cinquenta e sete anos, e depois de uma vida sem excessos de moderação particularmente notórios, podia ter sido muito pior.

Talvez um dia, porque se trata de uma experiência comum, e portanto tendencialmente interessante, volte a isto. Não vai ser hoje, de certeza, limitando-me a dizer que há muito me tinha esquecido de quanto se pode sonhar com comida. E quando falo de comida não me estou a referir a sorvetes de cabeça de vitela, a bifes de rodovalho ou a sopas de framboesa, como se chama à comida em certos restaurantes selectos. “Comida” é aqui mesmo aquilo de que falam os programas de Anthony Bourdain, nos seus momentos mais radicais. Não dou exemplos, para permitir o exercício da imaginação.

Se referi a minha aventura hospitalar, foi por causa da liberdade. Toda a gente fala de liberdade como se fosse uma coisa una e absolutamente indivisível, quando ela é, como a virtude segundo alguns filósofos, ao mesmo tempo una e múltipla. Para mais, exigimos liberdades distintas segundo as idades. E, naturalmente, em certos momentos precisamos de rever as exigências anteriores e acomodá-las aos tempos novos, para, desgraça!, as restringir. Perceber-se-á que uma cama de hospital sugira banais reflexões deste tipo. Mais: que as torne praticamente inevitáveis.

Elas ainda ocupavam o meu espírito, dois dias depois de ter voltado a casa, quando, em frente à televisão, assistia ontem às comemorações do 25 de Abril. O 25 de Abril (complementado pelo 25 de Novembro) foi uma coisa óptima e apanhou-me na idade ideal (13 anos), a tempo de Salazar e Marcello Caetano não terem contado quase para nada na minha vida. Claro que uma parte dos mais vocais celebrantes do dia continuam, à superfície e na profundidade do seu espírito, a ver naquilo que se passou depois do 25 de Novembro uma traição aos ideais totalitários que sempre foram os seus. E que o folclore da coisa – a linguagem, a música, o ritual dos cravos – irrita em momentos de maior sensibilidade. Mas desde há muito que a treta – respirar Abril, dizer Abril, viver Abril, e por aí adiante – não tem que nos incomodar demais. Quando muito, dá para rir.

Resta a questão da liberdade. Em frente à televisão, estava a prestar, confesso, pouca atenção ao que se dizia, dedicando o melhor do tempo a um livro já com uns anos de Jean-François Revel sobre a história da sensibilidade gastronómica da Antiguidade aos nossos dias, Un festin enparoles. A questão do livro é a de saber como, em certas épocas, era o gosto, o sabor, de uma refeição e de um vinho e o que é que as pessoas gostavam de comer e beber, qual era o seu gosto. O livro é óptimo, apresso-me a dizer. Mas de vez em quando ouvia, vinda da televisão, a palavra “liberdade”, que, coisa única nas celebrações, me desconcentrava.

Porquê? Volto atrás. A liberdade não é susceptível de uma determinação absolutamente unívoca. É algumas coisas, contra outras coisas, e o peso das coisas que é varia com o tempo, para lá de certos redutos inegociáveis. Por mim, creio que a liberdade individual era, sob muitos aspectos, muito maior, digamos, em 1980, do que é agora. Mas sob outros aspectos certamente que não. O problema está quando esta equivocidade natural e constitutiva do termo é reacalcada e a liberdade é apresentada, não apenas nos seus aspectos mais gerais e vagos, mas nos seus mais ínfimos detalhes, como uma realidade total e perfeitamente definida, susceptível de ser exemplificada alínea após alínea, como “as mais amplas liberdades” de que Álvaro Cunhal gostava de falar. Não é assim. Desses discursos o que mais salta aos olhos, regra geral, é antes o sentimento de uma ameaça à liberdade nas suas condições mais gerais.

Ouço, aqui e ali, lamentos sérios sobre a falta de liberdade que existe na sociedade portuguesa, quer dizer: sobre a falta de uma verdadeira concepção alargada e pluralista da liberdade, como aquela que os clássicos do liberalismo (Tocqueville ou Stuart Mill, por exemplo) defendiam. Percebo e, pela minha vez, levo a sério. Mas esses lamentos tendem a esquecer que qualquer concepção de liberdade encontra os seus alicerces e os seus limites (o seu tecto, por assim dizer) numa tradição. Ora, a nossa tradição, a nossa casinha, é pequenina e esperanças sanguíneas não são recomendáveis: temos de andar sempre um bocadinho curvados. Se fosse preciso prova disso, os discursos de ontem mostraram-no perfeitamente.

2 comentários:

Anônimo disse...

Temo pelo futuro de Portugal, todos os sinais nos mostram que a Liberdade está pouco a pouco sendo asfixiada.

Anônimo disse...

Todos os livros de Jean-François Revel são "óptimos".