terça-feira, 1 de maio de 2018

Dois impostores

O fracasso e o triunfo não devem depender dos aplausos das bancadas. Coluna de João Pereira Coutinho, publicada na FSP:

Jantar social. Os pais falam dos filhos. Da escola, claro. E de todas as atividades fora da escola, onde a descendência passeia seus talentos. Tênis, futebol, natação. Um deles, hipismo. E uma pessoa pergunta se eles falam de crianças ou de atletas de alta competição.

A pergunta é redundante: os filhos “competem” e eles seguem os “competidores”, de norte a sul do país, como “groupies” de banda rock.

Em rigor, eles não falam dos filhos. Falam deles próprios —das suas vaidades e, ponto importante, das suas frustrações. Onde está o mal?

Um filme a que só agora assisti ajuda na resposta. Falo de “Borg vs. McEnroe”, obra competente de Janus Metz sobre o famoso duelo em Wimbledon, corria 1980, que opôs Björn Borg e John McEnroe. Borg tinha vencido quatro vezes e tentava o feito de vencer uma quinta. McEnroe buscava sua primeira vitória.

Na “New Yorker”, o crítico Richard Brody tem razão quando afirma que o filme, só agora estreado nos Estados Unidos, desconstrói as ideias feitas que temos sobre os ídolos. 

Borg, o atleta glacial com uma precisão de drone militar, afinal tinha uma vida de obsessão-compulsão devotada a rituais vários, insanos, esgotantes. McEnroe, a “prima donna” rebelde que passava metade do jogo a quebrar raquetes e a paciência do juiz, era um gênio matemático, bastante mais cerebral do que a figura pública deixava imaginar.

Mas aquilo que mais me interessou no filme foi ver como o talento de ambos respondia à ambição dos progenitores. No caso de McEnroe, a ambição do pai, que gostava de exibir as aptidões matemáticas da criança perante os amigos, como se ele fosse um animal de circo. 

No caso de Borg, a ambição do pai “substituto” —o técnico Lennart Bergelin, que chegou três vezes às quartas de final de Wimbledon e que espera do discípulo a compensação pelas suas próprias derrotas passadas. Ao meio da narrativa, já não sabemos se a ambição de Borg é genuína ou apenas um simulacro da ambição de Lennart. 

O que sabemos, e sentimos, é que Borg é uma tristeza em forma humana, incapaz de retirar do tênis o mesmo prazer e liberdade que experimentava no seu bairro sueco, quando batia bolas contra a porta da garagem.

Especialistas no assunto dirão que esse “spleen” é inevitável quando se atinge o cume de um desporto e a pressão aumenta na mesma medida. Será que a minha instintiva hostilidade ao desporto me impede de compreender isso?

Talvez. A esse respeito, lembro-me bem das aulas de ginástica, quando as minhas perguntas filosóficas ensandeciam o professor. Ele, como um sargento de filme, gritava para o regimento: “Vamos ver quem chega primeiro!” Os meus colegas iniciavam a corrida como galgos atrás da lebre. Eu, parado na linha da partida, olhava o sargento e questionava: “Mas o que ganho eu com isso?”

O sargento, próximo da apoplexia, falava em “respeito por nós próprios” ou qualquer outro clichê. Eu tentava dizer que tinha bastante respeito por mim próprio, sobretudo quando parado. O homem, para não desmaiar, ordenava: “Duche!” Era a única vez em que eu corria como um atleta. 

Acontece que a minha desconfiança perante a “alta competição” não é questão pessoal. É, uma vez mais, filosófica. E não se aplica apenas ao desporto; também serve para qualquer atividade humana.

Para usar a linguagem aristotélica popularizada pelo filósofo Kieran Setiya, existem dois tipos de atividades: as “télicas” e as “atélicas”. As primeiras procuram um fim determinado e são avaliadas pela concretização desse fim. As segundas valem por si, não pelo sucesso ou insucesso do resultado.

Óbvio: muitas das coisas que fazemos são télicas por definição. Eu, por exemplo, tenho de concluir um livro e entregá-lo no prazo combinado. Mas a minha vida seria insuportável se o ato de escrever estivesse apenas dependente das boas críticas ou dos bons prêmios.

O prêmio que importa está no processo da composição, não nos estímulos externos que são sempre dúbios e conjunturais. Mais cedo ou mais tarde, tudo termina em fracasso. Exceto se a ideia de fracasso (e de triunfo) deixar de depender dos aplausos das bancadas. 

No filme, e antes do jogo final, Borg e McEnroe estão sentados lado a lado, em silêncio, infelizes que Deus me livre. Por cima deles, uma inscrição de dois versos de Rudyard Kipling na parede: “Se conseguires enfrentar o Triunfo e o Desastre/ E tratares desses dois impostores da mesma forma”. 

É o meu “match point”.

7 comentários:

Anônimo disse...

Excelente! São por textos dessa altíssima qualidade que tornam o Blog do Orlando Tambosi uma leitura diária obrigatória.

Orlando Tambosi disse...

Obrigado, Anônimo,

o mérito, no caso, é do Coutinho.

Abraço

Anônimo disse...

dilma em buenos aires:

https://www.eldestapeweb.com/el-mensaje-dilma-rousseff-contra-mauricio-macri-n43000

https://www.infobae.com/politica/2018/05/01/cristina-kirchner-recibio-a-dilma-rousseff-en-su-departamento-de-recoleta/

Anônimo disse...

Churchill, que está tão em voga, dizia: no sports. Porém, contra os males do sedentarismo permito-me recomendar as antigas e sábias práticas orientais que ajudam a harmonizar o corpo e o espírito, como o yôga e as artes marciais.

Anônimo disse...

O colunista não deve ter filhos ou não sente orgulho dos seus.
Deve esconder os seus filhos dos amigos como deve ter sido a sua infância, zero de orgulho paterno...

Catellius disse...

Com todo respeito ao Coutinho, cujos textos são quase sempre lúcidos e agradáveis de ler, ele se revelou um completo parvo nesse artigo.

Todas culturas humanas, evoluídas ou não, de todos continentes, tiveram e têm competições esportivas, que são, em última análise, uma celebração do bom combate, exercícios de guerra e caça, exibição de virilidade para as fêmeas, etc.

Um dos pontos altos da civilização clássica foi o ato de cessar guerras temporariamente para as competições nos Jogos Olímpicos. Esparta e Atenas competindo em plena Guerra do Peloponeso. Os vencedores eram recebidos em suas "polis" como verdadeiros heróis. Por isso o boicote aos Jogos Olímpicos feito pelos EUA e pela URSS colocou-os abaixo dos gregos na escala civilizatória, pelo menos na capacidade de "levar na esportiva"... rsrs.

Enfim, um texto franzino escrito por um franzino que tentou achar uma explicação filosófica para sua aversão ao esporte, certamente explicada pelo fato de não ter sido competitivo, de não ter arrancado palmas das meninas e tapas nas costas dos colegas mais viris. Se o texto viesse do Usain Bolt, teria mais credibilidade. Mas não seria menos ridículo.

Se há vários "fins" em se pintar uma bela pintura, que é encher os olhos dos observadores, superar-se, perseguir a beleza, etc. Por que os mesmos fins não são reconhecidos pelo Coutinho nos esportes? Sim, a sua corrida na escola equivale a uma pintura infantil na aula de artes. Mas se pegarmos os pináculos dos esportes, como pegamos os pináculos da arte, não reconhecemos que Nadia Comăneci inspirou, encantou, superou-se, etc., explorou os limites do corpo humano, influenciou, etc? Logicamente, o impacto de um David de Michelangelo é bem maior. Foi só uma comparação.

Enfim, só há uma expressão para definir o autor do texto:

parvo no úrtimo

kkkkkkk

Catellius disse...

ps. não me refiro à parte do texto que trata especificamente do filme e dos dois tenistas.