domingo, 27 de maio de 2018

E a biologia se tornou campo da ideologia

O ódio ao heteropatriarcado substituiu o ódio ao capitalismo. O sexo virou gênero. Eis o bioprogressismo, segundo artigo publicado por Helena Matos no Observador, edição de domingo: é nisso que deu o progressismo politicamente correto:


Depois do direito à maternidade através das barrigas de aluguer temos a eutanásia como expressão do direito à morte: “Despenalizar a eutanásia não chega. Morrer é um direito, uma liberdade” – declara Paula Teixeira da Cruz. Mariana Mortágua a propósito da eutanásia fala d’A derradeira liberdade.

Por outras palavras, a biologia tornou-se o campo da ideologia. E o progressismo passou a bioprogressismo. Como não se actualizou o habitual argumentário da libertação o resultado é no mínimo grotesco: fala-se em direito à morte e em última liberdade como se a morte fosse algo que podemos conquistar ou a que podemos renunciar.

Inevitavelmente o mundo bioprogressista concebe a sua intervenção como crucial para corrigir o erro (o delírio é tal que num primeiro momento quase somos levados a crer que em Portugal ou não se morre ou se morre de forma indigna). Desenham-se cenários redentores para a maravilhosa legislação que o legislador-bioprogressista se apressa a fazer, faltando apenas dizer que desse dia em diante morreremos felizes para sempre.

A pressa para regular a morte é tanta que alguns dos projectos apresentados na Assembleia da República parecem inacabados: o PEV nem se deu ao trabalho de especificar os procedimentos a adoptar se o pedido for negado ou quando o paciente fica inconsciente. Já o BE não definiu quem fica automaticamente de fora.

Na verdade nada disto conta porque, como a prática da eutanásia noutros países tem mostrado, rapidamente se alarga o âmbito das pessoas a quem se pratica eutanásia dos doentes lúcidos em sofrimento insuportável para crianças, pessoas que até tinham mudado de vontade, jovens deprimidos, velhos senis ou nem tanto…

Provavelmente a eutanásia não será aprovada. Por agora, claro. Porque uma das coisas que caracteriza o bioprogressismo é que ele nunca se dá por derrotado. A sociedade é que não estava preparada para as suas propostas! Assim enquanto outro assunto não lhes captar as energias lá os teremos a quererem libertar-nos da morte! E nós, claro, a reboque das suas agendas libertadoras que mais não são que decálogos tirânicos. Porque o objectivo esse mantém-se inalterado: controlar a sociedade. Apenas muda o objecto: onde antes estava o burguês está agora o homem branco. O heteropatriarcado substituiu o capitalismo. A família já não é para destruir mas sim para instrumentalizar: o sexo passou a género, os pais a progenitores, a maternidade a procriação, a morte a direito. Tudo de preferência medicamente assistido que é o mesmo que dizer que estatizado. (Ah, já me esquecia, deixou de se falar de família quando se referem os cuidados aos mais velhos: agora a expressão correcta é cuidador. Mais uns tempos e teremos a carreira de cuidador, o regulamento do cuidador, os procedimentos do cuidador, a certificação do cuidador, o certificado de cuidador…)

Na verdade ou nos libertamos do fatalismo quase biológico com que temos dado como adquirida esta superioridade do progressismo ou acabaremos todos a discutir dentro de alguns anos (não muitos) como foi possível termos pactuado com um crime como são as barrigas de aluguer. Ou não termos percebido que a eutanásia enquanto direito à morte reivindicado por uma minoria mediatica e socialmente poderosa se podia transformar no dever de morrer em momento considerado oportuno para uma multidão de pessoas mediaticamente invisíveis e socialmente frágeis.

PS. Dois anos e dois meses depois de deixar a Presidência da República, Cavaco Silva voltou à política. Não me estou a referir à sua mais que esperada posição contra a eutanásia mas sim àquele aviso: “Como cidadão, sem responsabilidades políticas, o que posso fazer para manifestar a minha discordância é fazer uso do meu direito ao voto contra aquelas que votarem a favor da eutanásia. Nas eleições legislativas de 2019 não votar nos partidos que apoiarem a legalização da eutanásia e procurar explicar àqueles que me são próximos para fazer a mesma coisa”. Cavaco está a gozar a maior liberdade que um político pode ter: já ocupou todos os cargos que ambicionou logo pode dizer o que pensa e fazer o que quer. Até apelar ao voto no CDS. Em conclusão: quanto vale hoje Cavaco no PSD?

Um comentário:

Anônimo disse...

O Brasil é mesmo muito adiantado! Salvo engano, já temos a carreira de cuidador e toda a sua burocracia (im)pertinente.