domingo, 27 de maio de 2018

Humilhar-se, pagar, ser enganado.

Coluna de Carlos Brickmann, publicada hoje em diversos jornais do país:


O caro leitor se preocupa com as negociações entre Governo e líderes dos caminhoneiros grevistas? Preocupe-se mais: é tudo pior do que parece.

Greve de caminhoneiros não houve: o que houve é locaute, paralisação promovida por patrões. Greve é regulada em lei. Locaute é proibido por lei.

Governo não há: o sistema oficial de informações (apelidado, veja só, de “inteligência”) não sabia da paralisação. O festejado ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, candidato à Presidência, não tinha percebido que a alta dos preços do diesel, por mais correta que fosse, estava prejudicando o setor dos transportes, e não havia pensado em nenhuma compensação para salvá-lo. Quando a paralisação foi deflagrada, o Governo não sabia o que fazer. Presidido por um doutor em Direito Constitucional, em vez de recorrer à lei deixou-se conduzir pelo Congresso. Tudo bem, nosso Congresso é o melhor que o dinheiro pode comprar, mas parece insaciável. Cobrou mais e reduziu a receita do Governo, já atolado num imenso déficit.

Na hora de negociar com os líderes da paralisação, o Governo já deveria ter notado que se tratava de um locaute: praticamente só havia empresários do outro lado da mesa. Michel Temer poderia (e deveria) exigir ao menos o fim dos bloqueios nas estradas. Preferiu deixar a lei pra lá, ceder tudo, pedir desculpas por existir, para a qualquer custo evitar o confronto.

Esqueceu a dignidade do cargo, humilhou-se. E teve o confronto.

Voracidade

A redução de impostos aprovada às pressas pela Câmara derruba em mais R$ 12 bilhões a receita do Governo (que já é insuficiente para cobrir as despesas). O substituto de Meirelles no Ministério da Fazenda, Eduardo Guardia, diz que não há onde buscar dinheiro para cobrir o rombo. Mas a voracidade dos nobres parlamentares era tão grande que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, filho de conhecido economista, errou na conta: garantiu que o custo seria de R$ 3,5 bilhões. Quem liga para R$ 8,5 bilhões de diferença? Afinal, não é ele que paga a conta. E por que tanta vontade de baixar impostos? Ora, alguns parlamentares para dizer aos eleitores que lutam contra tanto imposto. Outros, para lembrar aos setores beneficiados que um voto nessa questão que tanto lhes interessa é precioso, vale ouro.

O confronto

Sejamos sinceros: a Presidência da República é exercida, hoje, pelo general Sérgio Etchegoyen, de excelente reputação. Tem problemas: suas decisões, como presidente de fato, têm de passar pelo presidente de direito, Michel Temer. Ele participou (ao lado do ministro da Segurança Pública, Raul Jungman, e do ministro da Defesa, general da reserva Joaquim Silva e Luna), da reunião em que Temer anunciou que as Forças Armadas iriam participar do confronto com os caminhoneiros. Na véspera da reunião, quando Temer ainda acreditava que os líderes da paralisação cumpririam o acordo de trégua com o Governo, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, já determinava a mobilização da tropa. Não tomou essa decisão sozinho, nem por ordem de Temer. Se, como prometeu um dos líderes da paralisação, os militares não forem obedecidos, pode haver incidentes sérios. Militar manda ou obedece. E a ordem é desbloquear as estradas, com apoio das PMs. É um confronto complicado: boa parte dos líderes da paralisação quer ver as Forças Armadas dirigindo o Brasil.

Lembrando

Há alguns anos, este colunista visitou Guaxupé, simpática cidade mineira que hospeda a maior cooperativa de café do mundo. Na época, com preços mais baixos do que hoje, a Cooxupé movimentava US$ 300 milhões por ano. O maior shopping center da cidade chama a atenção: é igualzinho a uma estação de estrada de ferro. O motivo é que lá, antes, era a estação ferroviária. Um dia, houve um problema na linha da Fepasa, no Estado de S.Paulo, que exigia a troca de uns dois quilômetros de trilhos, reforço da base de concreto e brita e novos dormentes. O Governo paulista preferiu desativar a linha, isolando Guaxupé. E os US$ 300 milhões anuais de café passaram a seguir para Santos de caminhão. Quem dá força à paralisação?

Pá de cal 1

A ideia de Lula, de registrar sua candidatura à Presidência e esperar que alguém a impugne, para ganhar tempo até, quem sabe, as eleições, pode morrer nos próximos dias: o Tribunal Superior Eleitoral deve votar a norma que impede o registro de candidatos que não atendam aos requisitos da Lei da Ficha Limpa. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, a tendência do TSE é aprová-la por unanimidade. Em seguida, o Ministério Público pediria uma decisão que torne automática a proibição de pedir registro ao TSE.

Pá de cal 2

Se Alckmin tem hoje dificuldade para decolar, imagine se Josué Alencar sair mesmo candidato pelo mesmo setor político e pagando sua campanha.

7 comentários:

Anônimo disse...

Olha Temer:

https://g1.globo.com/politica/blog/andreia-sadi/post/2018/05/27/em-reuniao-temer-pede-prioridade-para-porto-de-santos-e-demonstra-otimismo.ghtml

Claro, ele "acionista"!!!

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Eu vou votar Carlos Brickmann para presidente já que sabe tanto.

ARS disse...

A greve dos caminhoneiros é uma resposta dos consumidores de combustível contra a política de achaque diário do monopólio estatal, que vende imposto travestido de combustível.

César de Castro Silva disse...

Ironias à parte, Anônimo,o Carlos Brickmann disse tudo em poucas linhas, foi isso mesmo que aconteceu, estamos no mato sem o cão de caça. O Pedro Parente, o Meirelles e o Temer pensavam em recuperar a Petrobras, destruída pelo lulopetismo em 13 anos de desgoverno, em menos de um ano, via aumento de combustíveis, causando todo esse caos.Esqueceram que estamos em um país pós saqueado pela esquerda e atolado em uma crise econômica e política profunda, que requer um governo forte, enérgico e não de um vacilão como o nosso atual.
Tudo isso teria sido evitado com um plano real para recuperação da Petrobras, sem os criminosos aumentos diários dos combustíveis, em mais de 4 ou 5 anos, de acordo com a realidade do Brasil, país que depende eminentemente do transporte rodoviário para sobreviver.
Vejam a ironia, o próprio avião do Presidente da República ficou no solo sem combustível, no Aeroporto de Brasilia, também inoperante para voos e decolagens por falta de combustível.Essa greve(locaute) serviu para mostrar a nossa fragilidade como a maior nação da América do Sul.
Qualquer paisseco organizado nos conquista facilmente, infelizmente.

AHT disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
AHT disse...

Locaute ou Greve, estamos criando um monstro que por qualquer coisinha os caminhoneiros - mesmo que sem participação dos patrões, mas sob influência de "ideólogos do caos" - vão parar o país, com ou sem motivos. É o que passa em Colômbia: os caminheiros param o país por qualquer coisinha e o povo, por mais "p da vida" que possa ficar, assiste e sofre as consequências - e, pior, os graves problemas continuam atormentando a todos.

Anônimo disse...

Se é locaute, "praticamente só havia empresários do outro lado da mesa", porque não acabou. Acredito que o governo negociou com as pessoas erradas. O problema afeta principalmente os autônomos e o governo negociou com com representantes dos empresários, que pelo visto não tem moral nenhuma junto aos seus associados. O setor de inteligência do governo, após o governo petista, ficou cada vez mais "desinteligênte".

Anônimo disse...

VEM AÍ AOS POUCOS OS CARROS ELETRICO, O A GÁS E A ENERGIA SOLAR E A OUTROS MODELOS QUE, CADA VEZ MAIS DISPENSARÃO O PETROLEO!
COMBUSTÍVEIS FOSSEIS ESTARÃO VÁLIDOS APENAS POR ALGUNS ANOS E NADA MAIS.
A data de validade do produto PETROLEO está com data marcada, não em 100%, mas caindo até chegar seu NÃO uso em alta escala, como hoje!