quinta-feira, 17 de maio de 2018

O mito fundador que é a desgraça dos palestinos

É fácil e popular culpar Israel por todos os massacres. Mais difícil é perceber que nunca haverá paz enquanto os palestinos forem reféns de uma cultura de vitimização mitificada na sua “catástrofe”. Lúcido artigo de José Manuel Fernandes, publisher do jornal Observador:


Nakba. A palavra árabe para “catástrofe”. Nakba, o mito identitário que os palestinianos celebram – o mito que enquanto for glorificado tornará impossível a paz e continuará a alimentar uma espiral de violência sem fim. Como a desta semana.

Vimos as imagens de violência, sabemos que morreram dezenas de pessoas, ignoramos que eram quase todos (50 em 62) operativos do Hamas e logo culpamos acefalamente ora Israel, ora o Presidente Trump por ter decidido transferir a embaixada dos Estados Unidos para Jerusalém. Mas quantos procurámos conhecer o significado de a campanha de manifestações e protestos ter sido baptizada como a “Grande Marcha do Retorno”?

E quantos fizemos estas perguntas simples: Retorno aonde? Retorno de quem? Retorno quando?

A resposta a estas perguntas dá-nos a chave para a eternização deste conflito sem fim. O retorno de que falam os promotores destas manifestações “não violentas” é o retorno dos palestinianos não aos territórios ocupados por Israel há meio século, na Guerra dos Seis Dias, mas a todo o território de Israel, a todo aquele território que resultou da guerra de independência de 1948. O retorno que reivindicam implica o puro e simples desaparecimento do Estado de Israel. O retorno com que sonham não comporta a presença de judeus no Médio Oriente.

A reivindicação do retorno está indissociavelmente ligada à celebração da Nakba, a “catástrofe”, ao que os palestinianos recordam como sendo a traumática expulsão de centenas de milhares de árabes das aldeias, vilas e cidades de Israel durante a guerra de 1948. A reivindicação do retorno traduz o desejo de voltar a travar essa guerra de há 70 anos na esperança de, desta vez, conseguirem o que na altura não conseguiram: empurrar literalmente os judeus para o mar até que não restasse na Palestina um só defensor da existência de uma pátria judaica.

Para compreendermos esta realidade não basta olharmos para as miseráveis condições de vida em Gaza ou elaborarmos longas tiradas sobre “a maior prisão a céu aberto do mundo”. É preciso recuar aos turbulentos anos de 1947 e 1948 e, em vez de remexermos nos arquivos e vasculharmos a memória à procura de quem cometeu mais brutalidades, mesmo atrocidades, nas diferentes guerras que cruzaram a Palestina entre o fim do mandado britânico e a consolidação do Estado de Israel – a guerra civil entre árabes e judeus, a guerra de ambos contra os ingleses e, por fim, a guerra do nascente estado judaico contra todos os estados árabes vizinhos –, ficarmo-nos pelo reconhecimento de que se criou então uma nova realidade. E essa nova realidade chama-se Estado de Israel.

Não tinha de ser como foi. A partição decidida pelas Nações Unidas, se tivesse sido aceite pelos árabes, teria garantido aos palestinianos um território mais vasto e Jerusalém teria ficado sob mandato internacional. Mas os árabes não aceitaram e os fundadores do Estado de Israel, com Bem Gurion à cabeça, prefiram aceitar, declarar a independência e depois lutar, mesmo que fossem escassas as hipóteses de, sozinhos, derrotarem cinco exércitos árabes (Egipto, Síria, Líbano, Jordânia e Iraque). Mas a verdade é que derrotaram.

Estima-se que, nessa altura, 700 mil árabes tenham fugido das suas casas nas zonas que ficaram sobre controle do novo Estado recém-proclamado.

A historiografia ainda hoje se divide sobre as razões fundamentais desse êxodo. Do lado palestiniano fala-se de limpeza étnica deliberada. Do lado israelita de uma fuga que teve muitos motivos mas que também foi incentivada pelos líderes árabes e palestinianos da época. Certo é que a maioria dos árabes fugiu então de suas casas, uns em pânico, outros por não quererem viver sob as novas autoridades, outros ainda forçados a partir pelo exército judaico.

Mas esses refugiados não foram os únicos que essa guerra gerou: ao mesmo tempo que os árabes fugiam de Israel, os países árabes expulsavam centenas de milhares de judeus que neles viviam, por vezes em comunidades com quase dois mil anos. O destino dessas vagas de refugiados é que foi diferente – tão radicalmente diferente que em boa parte explica a teimosa persistência do conflito.

Os refugiados judeus foram acolhidos por Israel e integrados no país que então nascia. Juntaram-se às vagas de refugiados que continuaram a chegar da Europa e da então União Soviética, e se a sua absorção nem sempre foi fácil, ela acabou por determinar o DNA do novo Estado.

Já os refugiados palestinianos foram – literalmente – atirados para campos de acolhimento provisórios mas onde ainda hoje vivem muitos dos seus descendentes. Os países árabes não os quiseram acolher. Os vizinhos árabes nem sequer permitiram a constituição de uma Palestina independente: depois da derrota dos exércitos árabes em 1948, a Jordânia anexou a região a que então se chamava Cisjordânia – hoje conhecida por Margem Ocidental – e o Egipto tomaria a seu cargo a Faixa de Gaza. Só quase duas décadas depois, na sequência da Guerra dos Seis Dias, Israel ocuparia esses territórios, assim como os Montes Golã, a norte, e a Península do Sinai, a ocidente.

Na prática os refugiados de 1948, espalhados por esses territórios assim como pela Jordânia e pelo sul do Líbano, ficariam como que reféns da estratégia árabe de nunca reconhecer Israel e de nem sequer aceitar a presença dos judeus na Palestina. Gradualmente a Nakba foi-se tornando no principal elemento da identidade palestiniana, uma identidade que não existia antes, nem no período do Império Otomano, nem sequer durante o Mandato Britânico. Com o culto e a celebração da Nakba veio também a reivindicação permanente do retorno, alimentada quer pelo discurso dos líderes palestinianos (tanto dos moderados como dos radicais) e materializada em relíquias guardadas nos campos de refugiados e mostradas em manifestações ou aos jornalistas estrangeiros, como as chaves das casas abandonadas aquando do êxodo de 1948.

Um comentário:

Anônimo disse...

E é um problema grave desses, antigo e cabeludo, que os geniais lullalau e megalonanico queriam resolver com uma partida de futebol.