quinta-feira, 24 de maio de 2018

Sobre meninas e lobas

"Hillary e Meghan passarão para a posteridade como ícones para as mulheres? Veremos. O tíquete para a relevância nos livros de história não se compra nos guichês do Partido Democrata, o que inclui seus despachantes na imprensa. Já as lobas de Helen Castor estão a salvo de modismos passageiros e fúteis e de ideologias revolucionárias de butique, seus nomes serão lembrados muito tempo depois que essa geração constrangedora de afetados e engajados tenha desaparecido. God save the real queens". Texto de Ana Paula Henkel (Ana Paula do Vôlei), via Estadão:


Uma daquelas jóias perdidas no Netflix é a série da BBC “She-Wolves: England’s Early Queens” (2012), criada e estrelada pela historiada PhD de Cambridge e escritora Helen Castor. É uma chance de viajar com a autora pela fascinante trajetória de algumas das mulheres mais extraordinárias da monarquia britânica, daquelas que realmente desafiaram o poder, as convenções e fizeram história. Feminismo raiz e não de butique.

Logo no primeiro episódio somos apresentados a mais antiga das “lobas”, chamadas assim até por Shakespeare: Matilde de Flandres (1031-1083), primeira mulher a exercer o cargo de rainha britânica com autoridade e não apenas como esposa decorativa do rei. A série ainda relembra Leonor de Aquitânia (1122-1204), Isabel da França (1295-1358), Margarida de Anjou (1430-1482), Joana Grey (1536-1554), Maria I (1516-1558) e Elizabeth I (1533-1603). Uma história de mil anos com mulheres que, para muitos deslumbrados e desavisados de hoje, aparentemente nunca existiram. Como ensinou Orwell, “quem controla o passado, controla o futuro”.

A monarquia britânica não inventou a mulher com poder, mas deu a elas, de Matilde de Flandres até Elizabeth II, não apenas a coroa e os rapapés mas também a possibilidade de governar de verdade. Acredita-se que a Rainha de Sabá tenha governado há 3.000 anos uma região tão vasta que incluía a Etiópia, o Egito e parte da península arábica. Quando ouviu falar da sabedoria do Rei Salomão, viajou até seu encontro e o que dizem sobre o que aconteceu entre eles deixaria as atuais feministas de sofá de cabelo em pé.

Outra rainha famosa da região foi, evidentemente, Cleópatra (69 a.C.-30 a.C.), a egípcia que governou um dos maiores reinos da antiguidade depois de vencer o irmão numa guerra e que com muita habilidade conseguiu conter os avanços do Império Romano, o mais poderoso da época. Lia em doze línguas e gostava de conversar com interlocutores no idioma do convidado, era uma exímia diplomata, foi amante de Júlio César e depois de Marco Antonio, com quem se casou. De novo, uma mulher que exerceu o poder sem meios tons e com uma mente estratégica reconhecida e respeitada até hoje. Se estivesse entre nós provavelmente não teria tempo, nem paciência, para vestidos pretos e hashtagsde araque.

Mesmo que você não queira buscar exemplos tão distantes no tempo e não citar Catarina, a Grande, a Rainha Vitória, ou nomes mais recentes como Golda Meir, Grace Kelly, Eva Peron, Indira Gandhi ou a fenomenal Margareth Thatcher, basta Elizabeth II, rainha do Reino Unido há 66 anos, o mais longo reinado de todos, linda e poderosa aos 92 anos, para entender como se fez tanto barulho por quase nada em relação ao casamento do seu neto, o menino-problema Harry, que ocupa um longínquo sexto lugar na linha de sucessão do trono, e a americana Meghan Markle. Custo a acreditar que a moça representará mais do que uma nota de pé de página na história britânica, mas quem avisa os lacradores e problematizadores da imprensa?

Depois de um casamento que não poderia ter sido mais cristão e tradicional, os engajadinhos das redações, entre uma forçada de barra cafona e outra e num impressionante contorcionismo ideológico, tentaram emplacar a tese de que a “feminista” de Hollywood teria sido um exemplo para a causa ao virar princesa, por ter exercido seu direito de querer virar princesa. Mas não é isso que nós, rotuladas de ultraconservadoras e caretas, recatadas e do lar, defendemos todo dia? O direito de ser o que você bem quiser! “Ah, mas Meghan é diferente! Ela é “feminista” e votou na Hillary!”. Ah, ok.

Hillary Clinton, a ex-primeira-dama americana, que permanece casada com um predador sexual cujos rastros ajudou a esconder, é curiosamente vista também como um exemplo para algumas mulheres. Depois de culpar todo mundo, exceto ela mesma, pela última derrota nas eleições presidenciais de 2016, Hillary disse, com o apoio de Michelle Obama, que as mulheres que não votaram nela foram, na verdade, constrangidas por maridos, filhos e companheiros e “forçadas” a votar no oponente. Na curiosa visão de liberdade de Hillary, a única maneira de nós mulheres sermos livres é votando nela, qualquer outra opção, ou escolha, é tratada com desprezo, arrogância e até xingamentos, como “deploráveis”. Que deselegante. Make Hillary great again.

Hillary e Meghan passarão para a posteridade como ícones para as mulheres? Veremos. O tíquete para a relevância nos livros de história não se compra nos guichês do Partido Democrata, o que inclui seus despachantes na imprensa. Já as lobas de Helen Castor estão a salvo de modismos passageiros e fúteis e de ideologias revolucionárias de butique, seus nomes serão lembrados muito tempo depois que essa geração constrangedora de afetados e engajados tenha desaparecido. God save the real queens.

3 comentários:

Anônimo disse...

"Todo menino é um rei", dizia um samba de Roberto Ribeiro. Toda mulher pode ser uma rainha para o seu parceiro, desde que não fique com esses modismos e frescuras "de butique", como diz a autora.

SHAMI disse...

QUO VADIS
Pô.Tô frustrado.
Nada da nossa ANITA ..a Garibaldi lógico,dentre outras brasileiras empoderadas realmente ?.
Eu não guento.

ARS disse...

Uma lista rápida de Grandes líderes do sexo feminino e suas principais contribuições à humanidade: Catarina de Médici (França), massacre de huguenotes na noite de São Bartolomeu; Rainha Cristina (Suécia), suas aulas de filosofia na madrugada mataram René Descartes de pneumonia; Maria Antonieta (França), mandou o povo comer brioches; Maria, a Louca (Portugal), inconfidência mineira; Rainha Vitória (Grã-Bretanha), apogeu e declínio do império britânico; Jiang Qing (Madame Mao, China), revolução cultural persegue e mata milhares de chineses; Golda Meir (Israel), consolidação do estado de Israel; Imelda Marcos (Filipinas), coleção de milhares de sapatos; Margaret Thatcher (Grã-Bretanha), fim da guerra-fria; Angela Merkel (Alemanha), estagnação na economia alemã; Dilma Rousseff (Brasil), maior depressão econômica da história do Brasil.