terça-feira, 26 de junho de 2018

A possibilidade de Neymar

"Não interessa como Neymar leva sua vida privada. Falo de futebol. Em campo, suas escolhas — mesmo as brilhantes — denotam imaturidade. Não sei se tem estrutura para crescer rapidamente. Um craque deve — costuma — ter". Carlos Andreazza, no jornal O Globo:


Craques também envelhecem. É o desafio da inteligência: apurar a técnica — dirigir os recursos — segundo as contingências do corpo. Penso em Romário. Quem se lembrar do início de sua carreira encontrará um jovem cujo futebol dependia da velocidade para fulminar. Já estava ali a sutileza para finalizar; mas era a rapidez com que ultrapassava os adversários o que prevalecia.

Aquele jogador decisivo de 1994 não era o mesmo. Evoluíra. Forçadamente, como impõe a existência. Havia ao menos uma cirurgia no joelho. Ainda muito veloz, mas para disparos menores e sobretudo menos frequentes, tornara-se cerebral, minimalista mesmo, mestre em se antecipar, senhor dos poucos metros da área, o maestro da ciência de se posicionar, medindo-se e ao redor, regendo o corpo a corpo, para resolver — para fazer o gol ou dá-lo — em não mais que dois, três toques na bola. Reinventara-se para sobreviver em alto nível. E o que produzira era muito melhor.

O Ronaldo artilheiro de 2002 não era o atacante driblador explosivo de antes das tragédias que lhe moeram os joelhos. Da longa temporada em que esteve sem jogar, entretanto, saiu um centroavante que entendera seus extremos e se recompusera — ainda mais letal.

Não terá sido assim também com Pelé? Craque sempre, aquele menino de 1958, beneficiado pelo efeito surpresa de sua aparição, mudaria muito até a glória final do veterano em 1970. Estudar o modo maduro como se posicionou — os recuos à intermediária e a economia de seus toques na bola — nos gramados do México é aula menos de tática futebolística do que de estratégia militar. Pelé, o melhor de todos, jogou sem bola. Uma das vantagens de ter centralidade é poder dar centralidade aos demais; deslocar-se para espaços menos objetivamente cruciais, atrair consigo a atenção dos adversários e assim abrir terreno ao avanço livre — fatal — de um aliado. Ajuda se este for Rivelino, Tostão, Gérson, Jairzinho, Paulo Cézar ou Carlos Alberto. Ou Philippe Coutinho. Ou Marcelo.

Chego a Neymar. É ainda um jovem. Ficou, porém, três meses sem jogar. A expectativa a respeito de seu retorno é delirante. Deriva da ignorância acerca das circunstâncias que o limitam — e que o limitarão até o fim do mundial. Questão de fato. Não de paixão. Fato fisiológico. Não existe, dado o padrão de exigência física atual, a mais mínima chance de um atleta que esteve inativo por noventa dias voltar em forma competitiva capaz de executar o mesmo volume de imperativos — inclusive o de “vai, resolve aí” — que cumpria até antes da contusão. Isso não o torna dispensável, mas impõe que se descarte a fantasia.

Neymar é um craque disponível para a seleção brasileira — essa é uma boa notícia. Mas um que regressa depois de se recuperar de uma cirurgia. Impossível seria que reaparecesse de súbito pronto a jogar da mesma maneira, insisto, como jogou até antes da lesão. As duas primeiras partidas do mundial evidenciaram que lhe falta a detonação de arranque — a irrupção para o drible que desarma defesas — que sempre justificou seu individualismo. Ele precisa compreender esse estado.

Logo após três meses de estaleiro, Neymar simplesmente não pode ser o jogador que é. Não consegue. Não conseguirá. Isso não o faz prescindível. Ser craque é condição que decorre também da inteligência, da capacidade de raciocínio e improviso, do gênio para leitura do tabuleiro em que se converte o campo de jogo, da fonte técnica da qual extrair soluções criativas — talvez mesmo a de se reinventar, de se recolocar, de buscar novo lugar no jogo e no trato com a pelota, um jeito mais dinâmico de correr e correr a bola.

Neymar esteve noventa dias sem jogar. Seu corpo não tem — agora — meios de responder ao comando por ser o que era antes. Seu cérebro, no entanto, jamais parou de funcionar. Não há mal em ser — ou simular ser — coadjuvante. Há sabedoria, elemento surpresa, em distribuir — em multiplicar — a centralidade. É possível ser jovem e maduro. Um jogador mimado é frágil; tende a confundir malandragem com infantilidade. Não interessa como Neymar leva sua vida privada. Falo de futebol. Em campo, suas escolhas — mesmo as brilhantes — denotam imaturidade. Não sei se tem estrutura para crescer rapidamente. Um craque deve — costuma — ter.

Se quer ganhar a Copa, Neymar precisa — hoje — pensar fora da blindagem dos que o tratam como se pudesse ser aquele que os músculos ora lhe negam e desamarrar a cancha à ascensão decisiva dos outros craques, porque felizmente os há nesta seleção, não muitos, Marcelo e Coutinho, mas com fundamentos suficientes para, em conjunto, levar o time longe.

Neymar tem equipe para ser campeão do mundo tanto quanto não tem corpo para ser o melhor desta vez. Ou entende e controla já a porção generosa da inteligência, ou não será o melhor do mundo nem terá a Copa para levantar. O choro é certo.

Um comentário:

Unknown disse...

Como uma verdadeira arte e suas seleções de milhões de telespesctadores e telepesctadoras uma arte passando de uma nação para seus pés,agora a gorduchinha é toda sua sua vai Brasil vai que é sua NEYMAR JR.