quarta-feira, 6 de junho de 2018

Não falem em "mama'; não falem em "princesa".

"Nos anos 50, as mulheres eram vítimas de homens que não as queriam ouvir; hoje, são vítimas de mulheres que também não as querem ouvir. Tal como acontecia com os velhos moralistas, as novas ativistas do feminismo não pretendem escutar as mulheres — pretendem mudá-las, moldá-las, reeducá-las. A bem ou, se necessário, a mal". De fato, há muitas semelhanças entre o moralismo e o feminismo, escreve Miguel Pinheiro no Observador:


Isabel Moreira devia conhecer esta história. Na década de 50, Fanny Rosenow e Teresa Lasser tiveram cancro da mama e, depois de serem submetidas a “mastectomias radicais”, sobreviveram. Durante esse doloroso processo, trocaram confissões e receios e perceberam que havia algo de terrivelmente errado: as mulheres que estavam na mesma situação que elas não tinham apoio, nem ajuda — perdidas entre o choque e a confusão da doença, ninguém as guiava, ou informava, ou consolava. Em vez de seguirem em frente, Fanny Rosenow e Teresa Lasser voltaram atrás, para ajudarem quem veio depois: criaram um grupo de apoio para mulheres com cancro da mama, que se tornaria numa das principais instituições na sua área. E perceberam imediatamente que o primeiro passo para quebrar o vazio era mostrarem que existiam. Por isso, decidiram colocar um anúncio no The New York Times, o jornal mais lido e respeitado dos Estados Unidos. Quando Fanny telefonou para o departamento comercial, já com o cheque pronto para ser assinado, transferiram misteriosamente a chamada para um editor de Sociedade. Ao fim de uns segundos, ele explicou-lhe o que se passava: “Lamento, senhora Rosenow, mas o Times não pode publicar nas suas páginas a palavra ‘mama’ nem a palavra ‘cancro’. Talvez possa pôr no anúncio que se trata de um encontro sobre doenças da parede torácica”.

E assim Fanny percebeu como um misto de moralismo e paternalismo criara um denso silêncio que contribuiu para o sofrimento e morte de muitas mulheres. O raciocínio de quem decidia o que podia ou não ser publicado num jornal era simples e implacável: não era aceitável escrever a palavra “mama” porque ela remetia para a sexualidade; e as mulheres sérias, nos anos 50, não podiam ser vistas como estando associadas a desejos sexuais. Por isso, em vez de se falar abertamente de uma doença que por acaso era designada pela palavra “mama”, e assim ajudar e salvar milhões de mulheres, preferia-se esconder a palavra — e, escondendo a palavra, esconder a doença também.

De forma involuntária, a sociedade dos anos 50 criara um beco sem saída: os homens, que dominavam a linguagem, não se queixavam porque não sofriam da doença; e as mulheres, que sofriam da doença, não se podiam queixar porque não dominavam a linguagem.

Hoje, a palavra “mama” é tão comum que pode aparecer em qualquer jornal de paróquia sem provocar escândalo ou repulsa. E as mulheres, felizmente, já partilham com os homens o domínio da linguagem. Mas continua a haver palavras que não se podem escrever, nem dizer. Nem, aliás, pensar. Por exemplo: “princesa”.

De certeza que já perceberam onde é que eu quero chegar. O Bloco de Esquerda, a deputada do PS Isabel Moreira e vários grupos feministas ficaram chocadíssimos com a utilização da palavra “princesa” na campanha do Governo que pretende combater o aumento de consumo de tabaco entre as mulheres, um dos grandes problemas de saúde pública da atualidade. Segundo parece, a filha da fumadora que aparece no filme publicitário é vítima de um terrível estereótipo, “uma vez que a menina é vista como uma princesa”.

É uma mudança tristemente irónica. Nos anos 50, os americanos não conseguiam ser suficientemente literais: para eles, uma “mama” era um apelo à pornografia, não era só uma parte do corpo. Em 2018, as novas activistas do feminismo são excessivamente literais: para elas, uma “princesa” é apenas a mulher que casou com um príncipe.

Na realidade, como todos sabemos, uma “princesa” não é apenas e só isso — aliás, no dia a dia dos portugueses, não é mesmo nada disso. Quando uma mãe trata a filha por “princesa” não está a dizer: “Tens de casar com um homem que tenha uma coroa e que te sustente até ao fim da tua vida”. O que ela está a dizer é: “Tu és capaz de ser tudo o que quiseres e não há ninguém superior a ti, nem mesmo as princesas, porque tu já és uma princesa”.

Uma pessoa escreve isto e cora de vergonha porque percebe que chegámos a um ponto em que é preciso explicar o óbvio. Não por uma questão de burrice: as novas activistas do feminismo sabem muito bem o que quer dizer a palavra “princesa” para as mães portuguesas. Simplesmente, isso não lhes importa porque a política está à frente de tudo. Um dos seus nichos eleitorais é a igualdade de género e, portanto, vão descobrir problemas de igualdade de género em todo o lado — mesmo onde eles não existem.

As novas activistas do feminismo estão a usar uma velha táctica totalitária que sempre serviu para acelerar rupturas de comportamento nas sociedades. Basta ler o “1984”, de George Orwell. Primeiro, elas apropriam-se das palavras; depois, dão a si próprias o poder de decidir o que essas palavras querem dizer; por fim, decretam quais são as palavras aceitáveis e quais são as palavras que devem levar ao exílio social quem tiver a ousadia de as usar. Nunca nos devemos esquecer: quem domina as palavras, domina a política; e quem domina o discurso público, domina as pessoas.

Numa fase inicial, algumas dessas pessoas questionam e argumentam, tentando contrariar o exercício de distorção da linguagem, como eu estou a fazer aqui. Mas, ao fim de algum tempo, cedem e conformam-se, para não arranjarem problemas ou chatices.

Nos anos 50, as mulheres eram vítimas de homens que não as queriam ouvir; hoje, são vítimas de mulheres que também não as querem ouvir. Tal como acontecia com os velhos moralistas, as novas activistas do feminismo não pretendem escutar as mulheres — pretendem mudá-las, moldá-las, reeducá-las. A bem ou, se necessário, a mal.

P.S.: A história de Fanny Rosenow está contada no livro “The Emperor of All Maladies — A Biography of Cancer”, de Siddharta Mukherjee.

2 comentários:

Anônimo disse...

Os homens não sofriam da doença? Em termos. Foi a causa mortis de Santiago Dantas.

Anônimo disse...

Podem esperar os incríveis debates presidenciais num país falido politicamente, falido economicamente com mais de 20 milhões de desempregados outros tantos milhões de subempregados, com 50 mil assassinatos por ano e milhões de assaltos, com a infraestrutura caindo as pedaços e deficitária sendo que uma greve de caminhoneiros para o país, pois o único meio de transporte é o rodoviário a pauta das discussões e as "plataformas" os milhares de candidatos ao legislativo será: feminismo, LGBTXPQYUIKLNM e afro-o-escambáu. Resumindo será o de sempre: Represento... Mais direitos... Porgramas... para mulher, negro e veado.