sábado, 2 de junho de 2018

O direito a viver sem dignidade

Enquanto a esquerda sonha em subjugar a natureza humana à lei, a “direita” reza para que a lei a limite, o que não sendo o mesmo é igualzinho. Uns querem o aval do Estado, os outros querem a objecção do Estado. Do Estado, e da regulamentação quotidiana a seu cargo, é que ninguém se livra. Da coluna semanal de Alberto Gonçalves no Observador:


Não tenho opinião definitiva, ou sequer provisória, sobre o suicídio assistido. Se tivesse, provavelmente não a divulgaria aqui, já que não sou grande adepto da pornografia “confessional” em voga. Em toda a recente histeria, o único pormenor notável foi a pretensa equivalência, mais ou menos unânime, entre a eutanásia e a liberdade individual. A sério? Repare-se nos partidários da despenalização: o Bloco em peso, o PS quase em peso, a ala marxista do PSD e aquele deputado entregue à bicharada (quanto ao PCP, que jamais se preocupou com a morte de uma só alminha exterior ao culto, votou contra por pirraça e exibição de “força negocial”). Não parece esquisito que a defesa da liberdade individual dependa de alucinados que ocupam as respectivas vidas a tentar suprimi-la? Se parece esquisito, é porque é esquisito. E certamente falso.

Na eutanásia, como nas legalizações do casamento homossexual, da “interrupção voluntária da gravidez”, do consumo de drogas leves, da prostituição e do que calha de ser considerado “fracturante”, recorre-se ao isco da “liberdade” para consumar o que afinal é um processo de nacionalização dos comportamentos. Na vastíssima maioria das situações, as pessoas conseguem matar-se, dormir com pessoas do mesmo sexo, abortar, injectar silicone, consumir haxixe ou terebentina e frequentar casas de meninas às segundas, quartas e sextas sem obstáculos relevantes e, sobretudo, sem necessitar que o Estado seja informado a respeito. E é esse pormenor que apoquenta a esquerda.

A esquerda, por tradição e vício, nunca se ofendeu com o constrangimento das acções de cada cidadão: o que a ofende é que o cidadão as pratique à revelia de um poder idealmente ominipresente, para não dizer totalitário. Não importa o que os sujeitos podem ou não podem fazer, contanto que não o façam fora de um quadro normativo, e ideológico, tutelado por ministérios, comissões, direcções-gerais e geral entulho administrativo criado para empregar os eleitos (digamos) e fiscalizar a ralé. A coberto de um suposto entusiasmo face à possibilidade de “escolha”, a esquerda procura garantir que a escolha é nula, ou no mínimo legitimada por dois ou três decretos, com assinaturas reconhecidas, facturas, taxas e emolumentos. Abortar numa clínica particular? Horror inominável. Abortar no SNS do dr. Arnaut? Proeza cívica e avanço civilizacional. As “causas” da esquerda não visam libertar o próximo, mas submetê-lo ao seu arbítrio.

E, perguntam-me (façam de conta que sim), as “causas” da direita, ou daquilo que em Portugal passa por direita? No fundo, no fundo, no fundo, não diferem muito. Por razões que me escapam, ou que prefiro que me escapem, boa parte da “direita” disponível também se preocupa imenso com a conduta íntima do semelhante. No caso, detesta que criaturas que não conhece de lado algum durmam com criaturas de sexo idêntico, abortem, tomem drogas, amputem a pilinha ou se desgracem de outras maneiras – e, em público ou em privado, reclama proibições apropriadas. Enquanto a esquerda sonha em subjugar a natureza humana à lei, a “direita” reza para que a lei a limite, o que não sendo o mesmo é igualzinho. Uns querem o aval do Estado, os outros querem a objecção do Estado. Do Estado, e da regulamentação quotidiana a seu cargo, é que ninguém se livra.

Falta apurar se alguém, neste manso país de patuscadas e bola, gostaria de se livrar. Umas dúzias de excêntricos, talvez. Isto são demasiados anos de dependência larga e trela curta. E por isso há uma espécie de ironia em ver tanta gente exigir morrer com dignidade enquanto vive sem dignidade nenhuma.

Notas de rodapé

1. O eng. Guterres, personalidade que em boa hora depositámos na ONU, anunciou um dia de jejum “em solidariedade com os muçulmanos de todo o mundo”. Em vão. Por um lado, porque além de durar um mês, não é a dieta o exercício que mais distingue e exalta (em ambos os sentidos) os muçulmanos actuais. Por outro, porque ficar, por uma vez, sem comer até ao pôr-do-sol – lapso que por esquecimento ou preguiça eu próprio cometo com frequência – é manifestamente insuficiente para controlar o colesterol desse grande estadista, cuja saúde tanto nos aflige. Só descansaremos quando o vazio no estômago se comparar ao que lhe vai na cabeça. De qualquer modo, é óbvio que o homem nasceu para o cargo que ocupa. E, com dietas assim, ocupa é o termo.

2. Enquanto se sucedem maravilhosas notícias sobre a economia caseira, o jornalismo que temos prefere ocupar tempo e espaço com futebol. Assim nunca iremos a lado nenhum. E se formos não o saberemos por falta de informação.

3. Parece que a sra. Merkel passou por Portugal. Quase não se deu por nada, e há motivo para a discrição: ao contrário de visitas – ou simples menções do nome – anteriores, a esquerda não organizou uma manifestação, um protesto, uma vigília, uma rábula cómica, um murmúrio sequer contra a outrora conhecida como “a Gorda”. Restaram apenas as imagens da submissão risonha de Costa, o Esbelto, e a enésima confirmação de uma gente tão peculiar que qualquer insulto pecaria por defeito.

Um comentário:

Anônimo disse...

Protesto! Esse craque tem de falar mais do Brasil, assunto nunca falta.