domingo, 1 de julho de 2018

O impacto do sentir

Entrevista do neurocientista António Damásio publicada na revista Veja desta semana:
O neurocientista português António Damásio consagrou-se, em seus 74 anos, como um dos intelectuais que mais compreendem o funcionamento do nosso cérebro. Ao lado da mulher e colega de profissão, a também portuguesa Hanna, de 75 anos, ele chefia o centro de pesquisas de sua área na Universidade do Sul da Califórnia. Em seu primeiro best-seller, Erro de Descartes (1994), Damásio explorou a ideia de como o conjunto de mente e corpo nos define. Em seu novo livro, A Estranha Ordem das Coisas, lançado em junho no Brasil pela Companhia das Letras, acrescenta outro elemento essencial a essa fórmula: os sentimentos. Na entrevista a VEJA, por telefone, o acadêmico explicou como a raiva, a alegria e outras expressões humanas foram e são motores do processo civilizatório, mesmo que, por vezes, emoções coletivas possam levar a retrocessos. Radicado nos Estados Unidos desde os anos 1970, ele falou em português — mas, em alguns termos técnicos, resvalou no inglês. A seguir, sua entrevista.
Por que, nos últimos anos, pesquisadores como o senhor e o primatólogo holandês Frans de Waal estão levando a ciência a estudar os sentimentos, quando, historicamente, ela analisava mais o intelecto? São duas as razões. Primeiro, houve no século XX uma tendência intelectualista. Dava-­se valor à razão, mas considerava-se que o afeto era algo que não merecia estudo. Mais que isso, pensava-se na necessidade de suprimir as emoções, pois não valia a pena manifestá-las. Essa filosofia levou ao menosprezo da vida, ou ao menos desse aspecto essencial dela. Hoje compreendemos que o sentimento integra o conjunto de corpo e mente, sendo determinante para tudo o que a humanidade construiu. O segundo motivo para a falta de pesquisas do gênero algumas décadas atrás é técnico: provou-se bem mais complicado explicar nossos afetos do que nossa razão.
Por quê? O intelecto está ligado ao córtex cerebral, cuja estrutura é resultante de uma evolução moderna do cérebro. É simples analisá-lo. Já os sentimentos advêm do tronco do cerebelo, da espiral da medula, dos nervos periféricos, enfim, de uma mecânica cuja origem se confunde com o princípio da evolução dos seres vivos. Essa estrutura, a história de sua formação e como ela age são aspectos muito difíceis de ser estudados. Só agora começamos a desvendá-los. Aposto que nos próximos cinco anos serão publicadas conclusões científicas que vão revolucionar esse entendimento e, logo, o que é ser um humano.
De onde vêm os sentimentos? De um processo biológico que se mescla ao sistema formado por corpo e mente. Eles desempenham um papel fundamental no progresso civilizatório. A raiva, a alegria, a tristeza delinearam a cultura, as artes, as guerras, a ciência, a tecnologia, tudo o que nos define. Agora, para entender o contexto, é preciso levar em conta que existem dois aspectos do viver. Um é orgânico, relacionado ao corpo. Daí vêm as emoções. Se o organismo não está saudável, ele manifesta isso externamente. Nota-se quando alguém se mostra feliz ou tomado pela amargura. Por exemplo, se um indivíduo sente uma dor enorme no coração, devido a uma doença cardíaca, seu sofrimento é evidente, de forma objetiva. Já os sentimentos são outra coisa. Eles refletem aspectos internos e estão associados à mente ou, como se definia antigamente, à alma. Por estarem dentro de nós, são subjetivos. Consequentemente, não se exibem em público. Podemos esconder sentimentos, mas não emoções. Funciona assim: meu corpo pode se revelar feliz; mas, internamente, talvez eu me sinta deprimido. Ao mesmo tempo, há momentos em que emoções e sentimentos estão em sincronia. Tudo o que um ser humano faz, individual ou coletivamente, é reflexo de demonstrações emotivas e sentimentais.
Somos seres mais sentimentais do que racionais? Não. Trata-se de uma mistura. O que quero ressaltar é que é preciso compreender que, além da razão, podemos usar os sentimentos a favor do processo civilizatório. Alguns acham que estou diminuindo os seres humanos ao dar a ideia de que as emoções e o sentir nos guiam. Isso porque anteriormente a ciência se apoiava na proposta de que a razão era o que nos separava de outros seres vivos. É uma análise errada. Apresentamos sentimentos de complexidade e dimensão incomparáveis aos de não humanos. É o que nos torna o animal mais especial deste planeta. Meu novo livro é uma tentativa desesperada de mostrar como funcionamos do ponto de vista dos sentimentos, para que possamos dominá­-los em busca de tirar o melhor deles.
Por que o senhor diz que é uma tentativa desesperada? Há muitas mazelas que poderiam ser evitadas pelo maior controle dos sentimentos. Extraindo o melhor deles, podemos construir nossa história, as tecnologias, as ciências e as sociedades culturais.

De que maneira somos superiores aos não humanos, como o senhor define? As emoções estão presentes há bilhões de anos nos seres vivos, mesmo em bactérias. Estas já manifestam fisicamente estados que indicam se estão bem ou mal — sem, no entanto, dominar capacidades mentais. As raízes de nossos sentimentos são fruto de milênios de evolução, que nos levaram de manifestações emotivas primárias a processos elaborados. Isso só foi possível pelo aparecimento do sistema nervoso, e do cérebro, em intrincados organismos multicelulares. Foi quando os humanos progrediram, usando esse avanço como propulsor. Cães, gatos, chimpanzés têm tanto emoções quanto a capacidade do sentir, mas o que acontece conosco é que ligamos isso ao conhecimento acumulado, criando-se assim a humanidade.
Quando nos tornamos seres sentimentalmente evoluídos? No momento em que passamos a nos reunir em torno de fogueiras. Foi aí que compreendemos as vantagens sociais dos sentimentos, como a forma como eles nos ligam em laços familiares.

O senhor aponta os sentimentos como um fator evolutivo, que nos ajuda a sobreviver no mundo. Como explicar, então, que eles nos levem a decisões como o suicídio? Organismos em estado regular de saúde buscam a felicidade, por meio de exibições sentimentais. Às vezes, porém, há falhas no cérebro. A depressão é uma doença desse gênero, que nos leva a decisões nada condizentes com o processo evolutivo, como a de se matar. Pessoas não se suicidam por esporte, mas sim por causa de uma alteração química na mente. É claro que fatores externos pesam também. É por isso que, hoje, com tantas perturbações sociais, o índice de suicídio está aumentando.
Os sentimentos, quando ganham um caráter coletivo nas redes sociais, como o Facebook, têm mais chance de ser deturpados ou adquirir formas extremadas? Sim. A internet tornou mais fácil e rápida a contaminação social nesse sentido. Essa é uma das mazelas que poderiam ser evitadas, como mencionei. Redes sociais têm vantagens, pois agilizam a comunicação. No entanto, permitem que o conhecimento se alastre sem dar abertura para a reflexão. Isso pode gerar reações impulsivas de uma maioria, refletidas em likes e dislikes instantâneos. Esse é um cenário que inevitavelmente arrasta multidões em direção a polos sentimentais. As consequências sociais e políticas dessa rápida adoção do sentimento alheio são perigosas.
Quais seriam esses efeitos? Periodicamente, uma parcela do mundo cede aos sentimentos coletivos, o que leva a extremismos. Assim surgiram o nazismo e o comunismo tal como existiu. O descontrole dos sentimentos coletivos na internet pode levar a autocracias.
Como controlar isso? Com a disseminação de conhecimento. É necessário fazer um esforço para ensinar as pessoas, desde a infância, a lidar com os próprios sentimentos. Existem expressões do tipo que devem ser tidas como positivas ou negativas. Se compreendermos quais situações provocam efeitos ruins, como a raiva, evoluímos e combatemos tanto o que ocorre hoje com o radicalismo na internet quanto o que pode culminar em ditaduras.
Como implementar esse ensino? É preciso vontade social e política. Ocorre que, por nossa biologia, é natural manifestar sentimentos como o ódio, que levam a conflitos danosos. Deveríamos implementar nas escolas a educação ligada à inteligência emocional, para mostrar as vantagens consequentes dos bons sentimentos e da contenção dos ruins. A esperança é, com isso, criar condições para uma vida melhor, em busca do progresso civilizatório. Pelo ponto de vista da ciência, um começo poderia ser a instituição de aulas ligadas a sentimentos, como as de técnicas de meditação.
E se nada for feito? Se não tomarmos ciência de nossas atitudes emocionais, é inevitável a repetição da história. Nosso corpo e nossa mente estão programados para a reprodução do que sempre fizemos. Temos de ser racionais em relação a isso. Hoje, a falta, para uma maioria, de conhecimento histórico, sentimental e do estado atual do mundo pode conduzir, mais uma vez, ao surgimento de governos autoritários, ao aumento do terrorismo, ou seja, às manifestações culturais provenientes dos sentimentos negativos.
De que maneira os sentimentos coletivos radicalizados, como acontece no Brasil de hoje, podem guiar os votos em uma eleição presidencial? Os sentimentos nos levam em direção a situações que achamos que serão mais favoráveis a nós, com menor sofrimento. Quando há a convicção de que um candidato pode nos levar a essa felicidade, o impulso é apoiá-lo. Trata-se, porém, de uma situação enganosa. É preciso racionalizar na hora de votar. Olhar para os fatos, não para o discurso, e ter perspectiva histórica para avaliar se determinado político — e não quero citar nomes — não adota comportamentos que tendem a levar a atrocidades, como ocorreu com o nazismo.
Se progredimos cultural e cientificamente, também podemos evoluir em nossos sentimentos? O leque de emoções com que trabalhamos é o mesmo desde os primórdios. Já com os sentimentos, avançamos em como lidar com eles. Aprendemos a ser menos violentos do que há 1 000 anos. Também evoluímos em nossa bondade, o que deu origem a movimentos que pregam a paz. Mas há riscos novos. Por exemplo, estamos desenvolvendo inteligências artificiais capazes de simular emoções, mas não de sentir de verdade, justamente por não terem vida. Isso pode acabar na fabricação de monstros que nos veem como ameaças.
Publicado em VEJA de 4 de julho de 2018, edição nº 2589

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