terça-feira, 17 de julho de 2018

O que Popper viu em Churchill

Daniel Mahoney comenta o livro do professor João Carlos Espada sobre a tradição anglo-americana da liberdade (vista por um olhar europeu), ressaltando a admiração do grande filósofo Karl Popper por Churchill, o líder que salvou o mundo do avanço totalitário:


O teórico político português João Carlos Espada escreveu um muito sério e instrutivo livro sobre as bases políticas e intelectuais que sustêm a tradição anglo-americana da liberdade. A sua perspectiva é uma ‘continental’ marcada por uma grande admiração pela sobriedade e liberdade que animam a prática dos povos falantes de inglês. Como guias têm um amplo grupo de teóricos e estadistas que iluminam os “modos de vida cumpridores da lei e da moral” que até à data evitaram o colapso da liberdade anglo-americana num relativismo epistemológico e moral pleno, a maldição do racionalismo (e irracionalismo) continental durante dois séculos.

Para começar, Espada procura decifrar o “Mistério Britânico”, de como o racionalismo Lockeano na Grã-Bretanha evitou que surgisse um “projecto adversarial” que deduzia “esquemas políticos de primeiros princípios rivais” e que incessantemente trabalhava para acabar com “modos de vida existentes...porque não tinham sido planeados pela ‘Razão’”. O livro de Espada é uma defesa eloquente da razão prática contra um Racionalismo que paradoxalmente dá espaço a um relativismo ilimitado. Ele não rejeita as ideias de Locke sobre direitos naturais ou mesmo o recurso aos primeiros princípios de liberdade. Mas rejeita os esforços para os reinterpretar como “um projecto radical para o redesenhar completo da sociedade – politicamente, socialmente, e moralmente.” A este respeito, ele sustenta-se no grande estadista anglo-irlandês Edmund Burke. Burke recusava ver a Revolução Gloriosa de 1688 como uma inovação radical e interpretava-a primordialmente como uma recuperação das antigas liberdades ameaçadas pelo absolutismo monárquico. A liberdade moderna, na visão de Burke, sustém-se nas tradições morais e políticas que antecedem o Iluminismo. A grande clarividência de Burke foi ver que nada decente e humano podia ser construído sob a fina e auto-destrutiva camada da vontade humana. Um ethos de dever e obrigação devem inteirar até a mais livre forma de vida.

Como argumentou Irving Kristol, outra grande influência de Espada, a liberdade prospera apenas quando evita confrontar e erodir o capital moral e os conteúdos morais que precedem a liberdade moderna e dos quais esta gradualmente emergiu. A liberdade entendida como autonomia radical ou pura vontade dá inevitavelmente azo à tirania ou ao niilismo ou a ambos. Pode dizer-se que a apropriação e modificação burkeanas da liberdade lockeana permitiram evitar que esta atingisse extremos. A tradição e a liberdade se fortaleceram mutuamente e assim trabalharam contra a ilusão de que uma sociedade livre podia surgir de uma tabula rasa, de um “ano zero” revolucionário que visava destruir o capital moral e herança humana do Ocidente Cristão. Como argumentaram os historiadores Elie Halévy e Gertrude Himmelfarb, a Inglaterra criou uma sociedade notavelmente dinâmica e inovadora evitando ao mesmo tempo a “Revolução” que tamanha devastação provocaria em França e em grande parte da Europa continental. Na Europa continental Locke foi absorvido de estômago vazio, como argumentou o filósofo Anthony Quinton, enquanto que os ingleses se apropriaram dele sobriamente para os seus próprios propósitos conservadores e reformadores. Domaram Locke e fizeram dele um servidor de uma tradição ampla de liberdade Ocidental.

Dois dos heróis deste livro são Winston Churchill e Karl Popper. Podem parecer constituir um estranho par. Popper, nascido na Áustria, pode ter errado ao ver sugestões de totalitarismo em Platão (devia ter prestado mais atenção ao livro VIII da República) mas o seu compromisso sóbrio e fundamentado com a liberdade ao estilo-inglês não pode ser posto em causa. Como conta Espada, Popper introduziu Espada à grandeza humana de Winston Churchill, o homem que pura e simplesmente salvou a civilização ocidental. O estadista magnânimo viu através das mentiras e enganos do assassino tirano ideológico que Hitler era (no seu primeiro encontro, Espada ficou surpreendido ao ver quantos livros de e sobre Churchill podiam ser encontrados na biblioteca do filósofo anglo-austríaco).

Para Espada, Churchill incorporou o melhor da tradição anglo-americana (lembremo-nos que ele era americano do lado da mãe). Ele desprezava o bolchevismo e não tinha qual- quer das ilusões da direita iliberal acerca do regime nacional-socialista. Ele visava corrigir os defeitos da economia de mercado enquanto se opunha ao confiscar socialista da liberdade humana. Ele acreditava no civismo político e na transferência pacífica de poder entre governo e oposição. Um homem de fé religiosa questionável, reconheceu livremente o contributo que o Cristianismo tinha dado à civilização liberal. Não é possível encontrar um defensor mais robusto da “ética Cristã” contra o niilismo moderno e o totalitarismo. Seguindo Popper, Espada conclui que Churchill era “muito simplesmente, um grande homem”. A sua luta contra o nazismo e comunismo era indissociavelmente conservadora e liberal. Como Espada argumenta de forma convincente, Churchill revoltou-se contra os esforços dos totalitarismos de esquerda e de direita para “reorganizar a vida social a partir de cima, impondo sob os modos de vida existentes um plano dedutivo baseado numa ideologia total, num esquema de perfeição.” Em Hitler, Lenine, e Estaline, ele viu “o fanatismo grosseiro daqueles que queriam demolir todas as barreiras ao exercício irrestrito da sua vontade.” Nos seus escritos e acções, Churchill defendeu habilmente essas barreiras incluindo o governo Constitucional, a religião judaico-cristã, gentlemanship e liberdade civil, política e económica. Ele era ainda um grande ainda que amador historiador (e vencedor do Prémio Nobel da Literatura) que capazmente registou os seus nobres feitos contra os colossos totalitários e que deixou para a posteridade elegantes testemunhos da tradição anglo-americana da liberdade. Tal como Burke, ele era um intransigente oponente das políticas da vontade, um defensor de uma tradição da liberdade humana. As reflexões de Espada acerca da grandeza Churchilliana são um dos pontos altos do livro.

Ao ler este livro fiquei com uma apreciação muito mais completa e profunda de Karl Popper enquanto pensador e ser humano. A sua admiração por Churchill, claro, conta muito. Espada mostra que Popper via através do “racionalismo dogmático” com o seu desmedido desejo de certeza em assuntos humanos. O racionalismo dogmático não consegue ver o valor da tradição e dos padrões herdados. Paradoxalmente, ele mina simultaneamente a decência moral e o progresso científico (que, no final de contas, é impossível se não for construído sobre o trabalho – e suposições – dos nossos antepassados). O racionalista dogmático rapidamente tem certeza apenas acerca de uma coisa – “não há padrões morais.” Popper define, de forma brilhante, “como o racionalismo dogmático leva a um relativismo absoluto,” prejudicando precisamente os bens e barreiras que um grande estadista como Churchill tanto fez para defender. Abertura nada tem a ver com niilismo superficial ou com um desprezo condenável das decoros de cidadãos comuns não iluminados pela “filosofia sofisticada do relativismo.” Tal como Espada, Popper enfatizou os fundamentos conservadores da nossa tradição liberal.

Espada, com razão, admira Madison, Burke, e Tocqueville, todos aqueles grandes pensadores e estadistas que defendiam a dispersão do poder social e político. Baseando-se no sociólogo conservador Robert Nisbet, ele argumenta que a verdadeira liberdade não pressupõe nem a libertação do indivíduo da autoridade social nem uma participação vaga numa “Vontade Geral” unitária. Ao invés disso, liberdade, entendida de forma correcta, é oposta a qualquer forma de colectivização e apoia “a diversifcação e descentralização do poder na sociedade.” Tal como qualquer liberal de pensamento conservador, Espada fala dos “pequenos pelotões” de Burke e das associações de Tocqueville, instituições intermediárias entre o estado e o indivíduo. E, tal como a maioria dos conservadores europeus e dos liberais clássicos, ele exagera as afinidades existentes entre Jean-Jacques Rousseau e Robespierre. Rousseau não era um defensor do terror nem pensava que a liberdade podia prosperar num estado-nação representativo grande e heterogéneo. Na minha perspectiva, ele teria ficado aterrado com o evoluir da Revolução Francesa e com as coisas feitas em seu nome. Afirmo isto não para pôr em causa que Rousseau tem alguma responsabilidade pelas formas como o seu pensamento pode tão facilmente ser vulgarizado.

Este leitor fica com uma questão irritante. O que fazer quando o capital moral da nossa grande tradição começa, como indubitavel- mente tem acontecido, a erodir, e a erodir rapidamente? Como é que devemos confrontar aquilo a que Walter Lippmann já em 1929 chamava de “ácidos da modernidade”? Nos dias de hoje, a tradição precisa de ser suportada com todos os recursos da razão e isso significa uma filosofia política liberal conservadora digna do seu nome. Tal como argumentou Gertrude Himmelfarb, “a razão não degenera necessariamente em racionalismo, nem as ideias em ideologias.” A razão prática deve ser defendida nos seus próprios termos, e não meramente enquanto resíduo de uma nobre tradição. Por isso a crítica necessária do racionalismo deve culminar na recuperação da razão autêntica, a começar pela razão prática. O livro de Espada, um acto de recuperação intelectual de uma ordem elevada, utilmente aponta na direcção certa. (Revista Nova Cidadania, Lisboa).

Um comentário:

Anônimo disse...

Gentlemanship, que grande princípio.