terça-feira, 3 de julho de 2018

Raio X das universidades federais: uma leitura.

Artigo do professor de Economia Roberto Ellery, da UnB, publicado pelo Instituto Liberal, analisa os dados fornecidos pelo governo sobre os investimentos nas universidades federais (reproduzo abaixo os parágrafos finais do texto):


(...) O financiamento das universidades federais é um tema de extrema relevância que deve ser discutido com cautela. Sei que existe uma tentação de mandar as federais para o espaço e que várias ações das próprias universidades, inclusive a resistência a inovações na gestão, alimentam essa tentação, mas a questão é bem mais delicada do que pode parecer. Grande parte dos laboratórios e dos melhores pesquisadores do país estão nas universidades federais, nelas também estão alguns de nossos mais promissores jovens. Construir um sistema de universidades privadas nos moldes americanos leva tempo e pode não ser viável no médio prazo, as próprias universidades públicas dificultam tal construção à medida que oferecem condições vantajosas para atrair professores e alunos.

Privatizar as universidades pode ser um caminho, mas vai ser difícil encontrar compradores e, talvez ainda mais difícil vencer a resistência da classe média em ver privatizado um dos poucos serviços prestados pelo estado que ela ainda prefere aos serviços privados. Para não falar nos desafios legais de transferir para o setor privado uma força de trabalho regida pelo Regime Jurídico Único, para o leitor ter uma dimensão do que estou dizendo considere apenas a questão dos aposentados e dos servidores ativos que tem direito a aposentadorias com salário integral.

Dadas tais dificuldades acredito que a médio prazo o caminho é usar uma gestão inspirada em universidades públicas de outros países (o modelo das universidades públicas da Califórnia pode ser um ponto de partida) revendo a questão da carreira docente, principalmente no que tange à estabilidade precoce. A escolha de dirigentes (reitores, diretores, chefes de departamento e coordenadores) deve ser feita por outros processos que não as eleições periódicas dignas de “prefeituras do interior”. Imagino algo como o reitor escolhido por um comitê que pode ter participação de membros da comunidade acadêmica, porém esta representação não pode ser majoritária, usando critérios relacionados a capacidade e experiência em gestão de universidades. Uma vez escolhido o reitor será avaliado a partir de metas impostas pelo comitê que o escolheu. Diretores, chefes de departamento e coordenadores seriam escolhidos pelo reitor e também estariam sujeitos a metas.

Os Conselhos Universitários também teriam que ser reformados. Já participei de todos os conselhos superiores da UnB, é simplesmente impossível tomar decisões bem informadas em um conselho com sessenta ou setenta pessoas. Os grandes conselhos podem até continuar existindo, mas se reuniriam no máximo uma vez por semestre para avaliar o desempenho dos administradores de acordo com os parâmetros estabelecidos. Conselhos menores, entre sete e onze membros, ficariam responsáveis por acompanhar a gestão e avaliar questões estratégicas para a universidade. É possível pensar um arranjo em que os pequenos conselhos justificam suas decisões diante dos grandes conselhos;

Já falei em outro lugar a respeito da questão do financiamento (link aqui e aqui). Para além dos projetos e parcerias gosto de citar um post do Economista X (link aqui) com várias sugestões para o financiamento da USP que podem ser adaptadas para as universidades federais. Um último ponto que causa muita polêmica e que não vou deixar passar em branco é a questão da cobrança de mensalidades. A cobrança dos custos integrais me parece inviável, se fosse possível seria o caso de considerar a hipótese de privatização, logo, se for para ter cobrança, deve haver uma forma de transição que será tão mais suave quanto maior for a resistência política dos beneficiados pela ausência de mensalidades. Minha proposta é começar devagar com uma taxa de matrícula semestral que não seria cobrada de alunos de renda baixa conforme critérios estabelecidos pela universidade ou pelo MEC. Em uma universidade com cerca de trinta e cinco mil alunos de graduação, como a UnB ou a UFBA, me parece razoável supor que pelo menos vinte mil estariam em condições de pagar uma taxa semestral de, digamos, mil reais (menos de R$ 200 por mês). Isso daria cerca de vinte milhões de reais por semestre ou quarenta milhões por ano, muito pouco perto do orçamento total de uma universidade como a UnB (cerca de R$ 1,7 bilhões), mas equivale a um quarto dos quase R$ 160 milhões que a UnB recebeu de repasses para cobrir despesas não obrigatórias em 2017. Me parece um bom começo.

Leia o artigo na íntegra, com todos os gráficos da análise, aqui.

Um comentário:

SHAMI disse...

QUO VADIS
Eu não obtive e nem terei resposta da real performance de uma certa federal do sul sobre o percentual de formandos anualmente ou por semestre.
O site muito bonito tanto quanto confuso NÃO DÁ CHANCES de se obter a relação entre o número de estudantes entrantes e os diplomados.
A EVASÃO CERTAMENTE É ALTÍSSIMA principalmente em certas áreas onde creio chegar aos 70-80 % ou mais!.
Como resposta da indagação sugeriram dirigir correspondência a um certo setor,com certas pessoas,etc,etc.

eu não guento