quinta-feira, 9 de agosto de 2018

A civilização como alternativa

Muitos estudantes com 16 anos vão votar e nenhum acha relevante a ditadura militar. Texto de Valentina de Botas, publicado na coluna de Augusto Nunes:


No parque temático das canalhices eleitorais, petistas e congêneres vão ao limite da indignidade e dão mais um passo para que Lula participe das eleições mesmo inelegível preso ou solto. Impedido pela Lei da Ficha Limpa, ele participa de modo sujo mesmo: conturbando o jogo, cuja legitimidade ele e a súcia que comanda só reconhecem quando vitoriosos. Lula mantém sem titular a chapa aberrante com dois vices, Fernando Haddad e, de stand by, Manuela d’Ávila. A insubmissão à lei não é coisa só de quem é a-velha-política: João Amoêdo desafia a lei eleitoral, que ele conhecia quando se lançou à campanha, segundo a qual só participam dos debates os candidatos cujo partido ou coligação tenha ao menos cinco parlamentares. Quando aprovada na reforma política em 2017, a lei foi elogiada até por quem hoje a critica: inteligente, dispensaria as emissoras de convidar candidatos com pouca relevância eleitoral aos quais os participantes não fazem perguntas. Ela faculta às emissoras de TV a palavra final. Amoêdo acha que a lei é boa e deve ser acatada se for convidado, aí a coisa estará legitimada. Mas se, ainda segundo a lei que é boa, ele for barrado, a lei boa não presta e ele promete recorrer à Justiça. Amoêdo poderia reivindicar sua participação, mas condicionar a legitimidade dos debates a ela equivale a escolher quais leis acatar. Novidade tão idosa quanto o próprio sistema.

Na semana passada, dei uma palestra na escola onde minha filha estuda. Trata-se de um projeto em que os pais são convidados para falar de sua experiência profissional a estudantes dos 2º e 3º anos do ensino médio. A conversa foi também interessante porque, sendo a maioria dos palestrantes composta por advogados, engenheiros, médicos, comerciantes e pequenos empresários, os estudantes se surpreenderam com uma revisora de textos, professora de português para estrangeiros e tradutora. A surpresa deles me animou. Eu os cativei relatando o início de minha formação com um professor de datilografia que falava “vamos aprendermos a batermos à máquina de escrevermos”. A sintaxe singular provocou risos e mencionei o curso de datilografia enquanto projetava cenas do filme “Jurassic Park”. Teve drama com final feliz também e suspense quando cenas de Hitchcock me ajudaram a contar como, já profissional experiente, esqueci num táxi as provas de um livro técnico sobre o qual assinara um contrato de sigilo comercial. E vocês aí achando que a vida de uma revisora é monótona.

De onde terá vindo tal resistência à lei num país em que, desde a promulgação da Constituição atual até julho de 2017, foram editadas 5.481.980 leis, segundo o site Poder360? Da indolência do indígena? Da malandragem do africano? Em Uma Breve História da Humanidade, Yuval N. Harari ensina que os homens respondem ao meio ambiente, que o modificam segundo suas possibilidades para atender suas necessidades, das imediatas como a sobrevivência, às mais sofisticadas como o desenvolvimento da religiosidade. A cada interpelação do meio, uma resposta dos respectivos povos. O general Hamilton Mourão, vice na chapa de Jair Bolsonaro, deu uma aula de baixa antropologia, de nenhuma sensibilidade política e de mera ignorância quando trocou o conhecimento por superadas teses cientificistas do século 19 para dizer, com desassombro perturbador, que parte de nossas mazelas resulta da indolência e da malandragem, legadas pelo índio e pelo africano. Para alguns que não veem a civilização como alternativa, Mourão e Bolsonaro são apenas uma dupla boa e sincera que nos resgataria da estupidez do politicamente correto, só que para a estupidez do simplesmente intolerável porque a parte boa não é sincera e a parte sincera não é boa: o resgate não passa pela civilização e é uma aposta na vocação do Brasil em naturalizar espantos.

O filme encantador “A Época da Inocência”, do Scorsese (cuja trilha sonora espetacular de Elmer Bernstein minha assistente-filha sugeriu sem margem para negociar que eu trocasse por “outra tipo menos nada a ver, mãe; não, sério”), conduziu o relato sobre minha indecisão em escolher entre continuar lecionando na rede estadual, a estudantes do curso noturno do ensino médio que trabalhavam nos quais eu revisitava a colegial que fui, e passar a lecionar para estrangeiros. Contei à jovem audiência (idade entre 15 e 17 anos) o que vi na rede pública, o flagelo que explica, a meu ver, em grande parte a desolação do ensino público: indivíduos sem vocação para o ofício que escolheram pelas comodidades de um cargo público que paga pouco, mas exige pouco. Não idealizo a profissão nem a vejo como missão: o professor é um profissional como qualquer outro que precisa trabalhar para sobreviver, mas em poucas profissões a vocação é tão determinante para a eficiência, é condição inerente ao ofício; do contrário, o aluno não se entusiasma pelo conhecimento, este perde valor e o professor, autoridade. A educação pública não terá conserto enquanto houver estabilidade para o professor e não se restabelecer a meritocracia para avaliar os alunos.

Mourão prova ser o vice ideal de um presidenciável que, ainda que alguns analistas o protejam de si mesmo enquanto expõem o país a uma figura tosca que ameaça presidi-lo, seu despreparo ficou evidente nas entrevistas no Roda Viva e na da GloboNews. Em que pesem a gravidade das revelações do jornalista Augusto Nunes sobre os rumos do programa da TV Cultura e a nota controversa que Miriam Leitão balbuciou, nenhum dos entrevistadores é candidato a presidente, por isso é preocupante que seu desempenho tenha recebido mais destaque do que o de Bolsonaro, aquele cuja foto é a que aparecerá na urna em outubro. No excelente A Imprensa Como Inimiga, publicado em sua coluna no Estadão, nesta segunda-feira, Vera Magalhães mostrou as coisas como são: a bisonhice acachapante de Bolsonaro explodiu na sua incapacidade de responder questões básicas sobre os desafios do próximo presidente, formatada numa postura reativa, típica de personalidades paranoides com uma compreensão conspiratória da história para justificar a caça ao contraditório, aspectos higienizados por parte da imprensa enquanto Bolsonaro e seguidores acusam a outra parte de inimiga e a qual ameaçam de retaliação se ele se eleger, o que os flagra ao lado de petistas num mesmo lócus extremista de indolência moral e malandragem autoritária: o problema, os extremos traduzem, não é a imprensa ter lado, mas que lado a imprensa tem.

Na seção de perguntas que encerrou a conversa com os colegas de minha filha, as eleições foram discutidas em razão das perspectivas da economia e do mercado de trabalho. Muitos estudantes com 16 anos vão votar e nenhum acha relevante a ditadura militar em debates ou em entrevistas dos candidatos, mas todos acham fundamental saber se quem repudia Maduro e Noriega também repudia Pinochet e Médici, se quem repudia terroristas repudia torturadores. Porque isso revela o caráter do candidato e este determina a distância que o país estará da civilização.

(OBSERVAÇÃO: Amoedo desistiu da ação).

8 comentários:

Danir disse...

Considerando que os candidatos já estão definidos e entronizados, com a excessão de um certo criminoso condenado em segunda instãncia, eu peço à Sra. Valentina, que me diga: Devo anular meu voto, devo deixar meu voto em branco, devo simplesmente não comparecer à eleição, devo votar em algum dos candidatos socialistas/comunistas, ou devo votar em quem é do centrão? Ah, me esqueci de perguntar se devo votar talvez num candidato que venha da e defenda a floresta. Eu estou um pouco cansado. Vejo pessoas adjetivarem o Bolsonaro como um monstro sem levarem em consideração o contexto de suas declarações. Vejo condenarem o governo militar com sua mão pesada, sem levarem em conta que estávamos sob um ataque contra nossa liberdade, nossa soberania e nosso futuro como cidadãos de uma democracia. É claro que eu não apoio nenhum torturador, embora tenha certeza que no caso dos governos militares isto foi uma excessão. Entretanto, se tivermos que contrapor a ação dos defensores da liberdade como uma Dilma Roussef, um Marighella, e outros nomes que hoje estão anistiados e recebendo em alguns casos polpudas pensões versus um ou outro militar que cometeu um excesso desumano; eu fico com os militares. Note-se que quem provocou atentados e matou civis inocentes e justiçou os próprios companheiros foram os socialistas que buscavam instaurar uma ditadura do proletariado nos moldes cubanos. Mesmo que seja lamentável, ainda assim os poucos militares que praticaram algum crime, estavam reagindo a uma situação que não foi provocada por eles. Na minha opinião, tentar criticar o Bolsonaro por sua opinião, sem considerar uma leva de comunistas que mataram, mandaram matar e appoiaram assassinatos em nome de uma ideologia é uma hipocrisia. Todos foram anistiados, militares e terroristas, só que as vitimas dos terroristas não receberam nem prêmios nem indenizações nem pensões, simplesmente foram violentadas por icones de uma ideologia assassina. Deus perdoe os militares que porventura agiram com crueldade no afã de fazer justiça e terminar uma ameaça real, mas que perdoe tambem aqueles que escolhem lutar por uma causa justa e que não tem vergonha de expor sua convicção. Quando uma situação de conflito real acontece e coloca em risco a integridade de toda uma sociedade, alguem tem que assumir e fazer o trabalho sujo, para que articulistas sensíveis e ciosos da justiça, da igualdade e do amor ao próximo possam escrever discursos indignados e severos contra quem de algum modo se sacrificou pela sua segurança. Pensem no que aconteceu na Europa na década de 1940, em Cuba, no Vietnan, no Camboja, na China, na Nigéria, e em muitos lugares onde os "defensores do paraiso socialista" atuaram sem freios ou oposição digna de nota. Eu vou conscientemente votar em Bolsonaro, embora não festeje atos de tortura eventualmente praticados por militares. Ele tambem não defende, mas compreende que um militar tem como moto eliminar o inimigo. De uma certa forma poética, eles evitaram que passassemos por suplicios muito maiores. Com toda crueza do fato em si. Saudações.

Danir disse...

Aproveito para pedir desclpas à Sra. Valentina pelos erros em meu texto. Fui escrevendo de forma fluida e não me preocupei em revisá-lo. Coisas da vida.

Anônimo disse...

Keep calm and calm down, VB. Também nos EUA, o vice-presidente Dan Quayle era capaz de batatadas como o célebre episódio potatos/potatoes, e nem por isso o país regrediu.

Todas as ditaduras são condenáveis? Perfeito. Mas nem todas são iguais. Como colocar no mesmo balaio um pinochet, que convoca um plebiscito sobre sua permanência e acata seu resultado, e el coma andante de Cuba, que continua desgraçando seu país (e outros!) até depois de morto?

Anônimo disse...

Dica gramatical: em que pese a, em vez de em que pesem.

Anônimo disse...

Danir, seu texto está muito bom, com a força da sinceridade e da convicção. Apenas corrija excessão (que é um excesso grande), escreva exceção.

Anônimo disse...

ESSES ESTUDANTES ACIMA, POBRES COITADOS, POIS NO TEMPO DO REGIME MILITAR HAVIAM 05 000 ASSASSINATOS/ANO E NA DITADURA COMUNISTA DO PT e aliado da bandidagem geral, reduziu a prisão em 1/6 da pena - NESSE ANO SÃO 63.500!
E OLHE QUE OS ÚLTIMOS ACUSAVAM OS MILITARES DE ATIRAREM PARA DEPOIS PEGUNTAR!...

leo guedes disse...

O tempora, o mores. Não está fácil para quem tenha, ao menos, dois neurônios em atividade. O Brasil, penso eu, está se projetando como aquela cobra que se alimenta engolindo o próprio rabo. Um momento histórico que, para o bem do futuro, deveria ser banido dos livros e até da memória das pessoas. Procuro entre bons articulistas, pessoas que se mostram equilibradas, ponderadas, com algum estudo e compreensão dos movimentos políticos, econômicos e sociais e, mesmo assim, pouco encontro que me satisfaça. A esquerda tem companhia ao recomendar que tudo, absolutamente tudo, está errado. Não há vivalma neste país que seja considerado normal, sensato, equilibrado, o suficiente para se candidatar à presidência. A todos faltam virtudes e seus vícios ultrapassam de longe o que se espera de um governante. Mas nem pense em anular, ou não votar. Da mesma forma será atacado por inúmeras razões. Não é só esportivamente que estamos engasgados com o sete a um. Estamos perdendo de goleada da barbárie, da ignorância, da falta de perspectiva. Mesmo que tem um pouquinho de massa cinzenta parece estar contaminado pela mesma cor cinza que caracteriza suas reflexões. O tempora, o mores. Ainda que a longo prazo todos estaremos mortos, há vida em abundância e para algum lugar iremos. Percebo que estamos diante de duas vertentes bem diferentes e radicais, os idealistas que sonham com homens virtuosos e os cínicos que dão como certo que a barbárie é um fato inerente à conduta humana. Se alguém me perguntar sobre o rumo que tomaremos, não tenho dúvida em indicar o Posto Ipiranga como solução.

Danir disse...

Olá Anônimo. Obrigado pela observação. Normalmente costumo revisar meus textos, mas neste caso deixei passar esta batatada. Coisas da vida.