terça-feira, 7 de agosto de 2018

O princípio do centrão

No pior cenário parlamentar, serão 500 os bandidos, mas em 500 — cidadãos eleitos, com mandatos finitos — também estará dividido o ímpeto autoritário, escreve Carlos Andreazza em sua coluna semanal no Globo:


Não há razão para otimismo. Nada indica — nem a legitimidade de um presidente eleito com 60 milhões de votos — que o Brasil será melhor a partir de janeiro de 2019. Os motivos para esse pessimismo são inúmeros. Todos derivam da criminalização da atividade política — da ascensão influente do discurso oportunista segundo o qual a política é o problema. A primeira vítima desse ambiente autoritário — esse em que a pregação contra os valores da democracia representativa se tornou a grande eleitora — é a falência da ideia de liderança construída, negociada, articulada.

O tal blocão, ou centrão, é tanto expressão disso quanto reação disfuncional à incriminação da política: apogeu do processo que transformou o Parlamento num grande baixo clero, movimento por sobrevivência do qual possivelmente se desdobrará um novo partido hegemônico — um novo PMDB — e em que não haverá mais líderes com quem tratar. Um Legislativo sem faces, sem nomes, sem identidades, mais varejista do que nunca — e mais fraco do que nunca. Em suma: Rodrigo Maia.

Em termos de eleição a presidente, estão dadas as condições para um novo ciclo ancorado em líder personalista, quiçá também justiceiro. Quem se lembra do modo avassalador como a simples especulação do nome de Joaquim Barbosa para a Presidência se traduziu nas pesquisas de intenção de voto? Ninguém sabia quem ele era nem o que pensava — e isso jamais importou. Encarnava o ideal de ruptura; como, a seu modo, também Jair Bolsonaro. Esse canto da antipolítica — do outsider, do que desafia o establishment — ainda longamente ecoará. Isso pode ou não se realizar eleitoralmente; e pode se realizar em graus diversos, daí que mais ou menos perceptíveis. Não faltam entre os candidatos aqueles que conjugam uma espécie de imperativo cuja materialidade significaria poderes não previstos ao chefe do Executivo.

Incontornável, nesse contexto, é o esvaziamento do diálogo como norte da vida pública; a transformação da cultura política de negociar em ato desprezível e sob permanente suspeita. E isso de tal forma, com tal intensidade, que não ter interlocução com políticos e partidos políticos de súbito se impôs como ativo eleitoral — o isolamento, talvez mesmo o sectarismo, como qualidade, como distinção, razão decisiva para votar em alguém. Em que pese a contribuição da péssima qualidade moral de seus integrantes para tal estado de coisas, nada justifica o achincalhe generalizado ao Congresso senão — com método — um projeto de poder que dependa de seu descrédito, de sua irrelevância.

Se o Parlamento é indistintamente um balaio de bandidos, criminosa será sua prática. Não se trata, porém, de prática qualquer, mas da própria dinâmica legislativa, a atividade política como instrumento de mediação — pilar fundamental da democracia conforme erguida pela civilização ocidental. Legislar não é simplesmente fazer leis. Pressupõe trâmites, processos, movimentos, composições, formulações, choques, sensos e dissensos, alianças, cessões e concessões — nada é mais essencialmente político. Se essa cultura da representação, perfeitamente legítima, é sequestrada, com sucesso, pela pregação de que consistiria em varejo espúrio por princípio, se as lideranças restam chapadas, e se o mundo real ensina que não há vácuo de poder que não seja imediatamente preenchido, ora: logo alguém legislará.

No pior cenário parlamentar, serão 500 os bandidos, mas em 500 — cidadãos eleitos, com mandatos finitos — também estará dividido o ímpeto autoritário.

A questão é: com a política criminalizada, marginalização cujos efeitos maiores e mais imediatos resultam na pequenez de um Congresso que, por sua vez, reage com covardia, quem faz política no Brasil hoje? Onde está confinado o princípio da representação, da delegação? Quem legisla no lugar do Legislativo? Quem, afinal, controla — na prática, breca, inviabiliza — a administração pública brasileira? Já escrevi — ingênuos avaliaram como piada — que não tarda a chegar o tempo em que sentiremos saudade de quando um presidente precisava apenas do apoio do Parlamento para governar.

3 comentários:

Anônimo disse...

POR SORTE TEMOS @ORDEM E PROGRESSO@ NA BANDEIRA!!

BRASIL FOI.

LAMENTAVELMENTE.

Anônimo disse...

Minha maior "quilometragem" ajuda na hora de não compartilhar do pessimismo do autor. O Brasil já está melhor desde agora, quando foi desmontada a hegemonia da esquerda rançosa e autoritária, cuja obra se vê na Venezuela e na Nicarágua. Não sei se os milhões de votos que o "capitão" receberá bastarão para elegê-lo, mas indicarão claramente o repúdio de boa parte do povo ao modus non operandi (só roubandi) petralha.

Anônimo disse...

De cara, Bolsonaro quer instalar o ensino à distancia para liquidar com os professores marxistas que povoam os centros educacionais, desde as escolas infantis até as universidades!