domingo, 28 de fevereiro de 2021

Como o identitarismo está afetando a saúde mental de uma geração


Há evidências abundantes de que a geração Z, a turma que hoje está na casa dos vinte e poucos anos, que foi para a escola com celular no bolso, é a geração com os mais altos índices de ansiedade e depressão da história, bem como as mais altas taxas de suicídio. Reportagem de Maria Clara vieira para a Gazeta do Povo:


Não é de hoje que os efeitos da cultura do cancelamento se fazem sentir nas universidades, nas artes, na política e, principalmente, nas redes sociais. A divisão do mundo entre oprimidos e opressores, canceladores e cancelados ou, no jargão dos mais jovens, “fadas sensatas” e “pessoas tóxicas”, hoje, tem sua face mais caricata exposta no reality show Big Brother Brasil, no qual alguns dos participantes se valem de seu pertencimento a um determinado grupo identitário para humilhar outros colegas.

Enquanto esta reportagem é escrita, o principal expoente deste comportamento na casa “mais vigiada do Brasil” é a psicóloga Lumena Aleluia, escolhida para o programa por sua militância e um bom humor que nunca deu as caras: deu lugar ao dedo em riste. O festival de discussões agressivas fomentadas pelo identitarismo pregado pela psicóloga e outros participantes levantou o debate sobre as consequências das teorias pós-modernas para além das políticas públicas: o que está em risco são os relacionamentos e o bem-estar de uma geração.

Há evidências abundantes de que a geração Z, a turma que hoje está na casa dos vinte e poucos anos, que foi para a escola com celular no bolso e chegou à faculdade quando termos como "interseccionalidade" e “representatividade” ganhavam espaço no currículo e no Twitter, é a geração com mais altos índices de ansiedade e depressão da história, bem como as mais altas taxas de suicídio.

Vários fatores ajudam a explicar esse quadro, resultado de um ciclo vicioso composto por aplicativos viciantes, jovens inseguros, pais e professores superprotetores cada vez mais dispostos a proteger os rebentos de “discursos que ameaçam sua existência” ao invés de ensiná-los que, às vezes, trata-se apenas de discordância. E a divisão do mundo entre grupos de vilões e mocinhos só ajuda a aprofundar o problema.

Culpa por ser branca

Membro da Heterodox Academy e doutor em psicologia clínica pela Universidade de Long Island, o psicólogo Andrew Hartz explica que ver a vida em termos de “tudo ou nada” é um fator de desregulação emocional, conhecido pelos pesquisadores como “clivagem”. “O mecanismo da clivagem é estudado por pesquisadores da saúde mental há mais de 80 anos. Sabe-se que quando um paciente divide grupos de pessoas ou ideais políticos como ‘preto no branco’, quase sempre está distorcendo a realidade”, explica Hartz, à Gazeta do Povo.

A consequência desta divisão, diz o psicólogo, é a adoção de comportamentos agressivos ou depreciativos, bem como a dificuldade crescente de avaliar e resolver problemas reais com parcimônia. Se, de um lado, o Brasil assiste aos exemplos do Big Brother, do outro, Hartz conta que, há poucos anos, atendeu uma paciente que sentia profunda culpa por ser branca.

“Em muitos casos, essas pessoas não estão exagerando: absolutamente tudo o que elas pensam e sentem com relação a outro espectro político, outra etnia ou outra orientação sexual é imoral, negativo, revoltante ou deprimente”, descreve o psicólogo, que compara a condição à forma como pacientes com depressão ou ansiedade se comportam.

“Se você aponta algo positivo do outro lado, eles se sentem atacados. É como se você estivesse invalidando todas as queixas e isso soa ofensivo. Além disso, para essas pessoas, sentir algo positivo sobre si mesmas ou sobre o grupo que odeiam é desconfortável, quase doloroso, mas é preciso fazê-las entender que é parte do remédio”. A clivagem, portanto, é sintoma de problemas de saúde mental — e não a solução.

“Criamos esse mecanismo porque, no curto prazo, lidar com sentimentos contraditórios sobre pessoas e causas é difícil e confuso; enquanto dividir o mundo é mais simples: você sabe quem é e sabe quem está errado. No longo prazo, entretanto, vêm as desvantagens, inclusive na forma do contágio social que temos visto: progressistas exageram de um lado, conservadores exageram de outro”, completa o psicólogo.

Negritude e feminismo

O identitarismo também compromete o desenvolvimento da resiliência, área de estudos do psicólogo Dennis Relojo-Howell, membro da British Psychological Society e fundador do portal Psychreg. “Uma das premissas básicas da psicologia é que um paciente que procura terapia só é capaz de alterar o próprio comportamento - e não esperar que o mundo inteiro mude. O problema das teorias pós-modernas é que elas removem toda a responsabilidade da pessoa e a ensinam que, por ser uma vítima, ela nunca estará errada. Na prática, estamos recompensando jovens por anular as próprias capacidades e destruindo sua fonte primária de resiliência”, explica.

Outro elemento agravante deste ciclo é o impacto das teorias identitárias na formação de psicólogos. “Eu me lembro de quando ouvia, na faculdade, que devíamos buscar práticas baseadas em evidências. Hoje tudo tem a ver com experiência pessoal. O estudo da saúde mental e a psicologia como um todo se tornaram um campo extremamente subjetivo”, explica Relojo-Howell.

A proliferação das teorias sócio-construtivistas na academia, em detrimento do conhecimento baseado em evidências calcadas no método científico, não é prerrogativa dos consultórios americanos ou britânicos: ela afeta também o Brasil. Formado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o psicólogo F., que pediu para não ser identificado, recorda que, durante uma das greves pelas quais passou na faculdade, os estudantes pediam por disciplinas “menos conteudistas” e mais focadas em estudos de negritude ou feminismo.

“A psicologia é uma área de estudo recente e, por isso, mais suscetível às teorias pós-modernas, calcadas apenas nas experiências pessoais e nas chamadas relações de poder. Não por acaso, algumas das áreas da psicologia que contam com estudos mais sólidos, como a psicologia evolucionista, vêm sendo deixadas de lado por abordar diferenças entre grupos com base em dados empíricos, ao invés de pregar o igualitarismo cósmico pregado pela esquerda”, explica F.

A psicologia evolucionista é o ramo que ajuda, por exemplo, a entender as diferenças entre os sexos — sumariamente negadas pela militância identitária — e fornecer dados importantes para a aplicação de tratamentos adaptados às necessidades de homens e mulheres. A terapia cognitivo comportamental, outra abordagem com farta evidência científica, ajuda os pacientes a reverterem pensamentos catastróficos e disfuncionais, o oposto da lógica militante que incentiva seus adeptos a jamais desconfiarem de seus próprios sentimentos e impressões e a inferir, o tempo todo, quais são as intenções maléficas por trás de qualquer fala que os desagrade.

Problema de “privilegiado”

Um terceiro efeito do identitarismo que ameaça a saúde mental da geração do cancelamento é a deterioração da relação entre terapeuta e paciente, dado que as teorias identitárias ordenam que se veja o próximo como integrante de um grupo a ser exaltado ou desmoralizado. F. conta que já trocou de terapeuta por relatar uma dificuldade para se relacionar com colegas de classe e ter sua queixa classificada como um problema de “privilegiado”. “É esperado que, às vezes, a psicoterapia exponha verdades que não estamos dispostos a aceitar. O problema é que no identitarismo o terapeuta já tem na cabeça um modelo pré-estabelecido de quem está certo e errado”, conta.

Em Nova York, Hartz conta que já atendeu um paciente que relatou ao terapeuta anterior que era contrário a ações afirmativas (como cotas raciais) e ouviu que deveria “rever suas posições racistas”. “Trata-se de uma linha tênue, mas não é nosso dever alterar a crença política do paciente — o que podemos avaliar é a forma como ele se engaja com ela”, explica.

O especialista também procura tratamento para pessoas que se sentem ostracizadas no ambiente de trabalho por terem opiniões impopulares. “Não há nada no mercado para elas”, lamenta. “Se você não está preso no mundo do tudo ou nada, você precisa ouvir todos os pontos. Isso ajuda, inclusive, a evitar o ressentimento por parte dos que são excluídos do debate — e que podem, por isso, adotar posturas mais extremas”, diz.

"Isentão"

Na semana passada, uma pesquisa da Universidade de Cologna que contou com mais de 1.800 participantes demonstrou que pessoas capazes de lidar com a ambivalência — a capacidade de enxergar nuances em pessoas e causas — fazem menos julgamentos enviesados e tendem a acreditar menos em notícias falsas. Em entrevista à Gazeta do Povo, a autora do estudo, Iris Schneider, afirmou que, embora este não tenha sido o foco da pesquisa, é sabido que experimentar emoções contraditórias com frequência traz benefícios para a saúde física. “Também sabemos que experimentar sentimentos contraditórios pode contribuir para um estado de bem-estar perene”, explica.

“Ser ambivalente, entretanto, pode fazer você se sentir inseguro e talvez um pouco ‘isentão’. Mas está tudo bem. A vida pode ser incômoda e precisamos aceitá-la, porque é somente a partir desse incômodo que podemos começar a aprender”, define a pesquisadora. “O que também pode ajudar é perceber que a ambivalência não é sinônimo de ser sem graça. É ser informado, matizado, equilibrado e atencioso. Basta lembrar de Scott Fitzgerald: 'o teste de uma inteligência de primeira classe é a capacidade de manter duas ideias opostas na mente ao mesmo tempo e ainda reter a capacidade de funcionar'”.

Humanidade caminha para o mundo dos imunes e o submundo dos invulneráveis


Como sustentar que pessoas vacinadas contra a Covid-19 continuem em prisão domiciliária? João Pereira Coutinho via FSP:


O dia que eu mais temia chegou: minha mulher está vacinada contra a Covid-19, eu não. Aliás, eu não sei quando estarei —fim do ano? Próximo ano? É indiferente. Ela, entrando em casa com uma coroa de rainha, foi buscar as malas e disse: “Meu bem, tente aproveitar a vida aqui em casa". "É isso que eu vou fazer lá fora. Adeus.”

Foi nesse momento que eu acordei, perturbado por meus sonhos de abandono. A minha senhora está vacinada, sim, mas num gesto de amor e sacrifício resolveu ficar na leprosaria.

Abençoada seja. Mas como negar que a humanidade caminha, cada vez mais, para dois planetas —o mundo dos imunes e o submundo dos vulneráveis?

Pensei no assunto quando lia sobre o programa israelense dos “crachás verdes”. Israel é caso de sucesso mundial na vacinação. E agora, para reabrir a economia e o país, exige que os cidadãos mostrem uma espécie de passaporte para provar que já foram vacinados (ou, em alternativa, que já tiveram o vírus e estão imunes). Sem passaporte, não há restaurantes, bares, academias ou sinagogas para ninguém.

Instintivamente, minha costela liberal reage com dor. E então relembro o famoso “princípio do dano”, popularizado por John Stuart Mill, e que funciona como um bom barômetro para as liberdades públicas. O Estado só deve interferir na liberdade dos indivíduos quando existe a possibilidade de dano para terceiros?

É um bom princípio, razão pela qual não me oponho ao uso obrigatório de máscaras: não é apenas a vida do sujeito que está em causa; são as vidas dos outros.

Mas as vacinas deveriam alterar esse cenário. Conferem proteção a quem as toma e, até ao momento, as variantes conhecidas do vírus parecem não cancelar essa proteção. A pergunta é inevitável: se a vacinação continuar a ser voluntária e eficaz, o ónus da responsabilidade não deve estar apenas nos indivíduos que decidem ou não tomá-la?

Infelizmente, não estou seguro sobre as premissas. Para começar, não sei até quando as mutações do vírus serão benevolentes. Sobretudo quando a resistência à vacinação pode criar as condições perfeitas para fortalecer o vírus. Nessas condições, a não vacinação pode representar um dano para terceiros.

Por outro lado, e por mais desconfortável que seja, a imagem de uma sociedade dividida entre imunes e vulneráveis, como sustentar que pessoas imunes devem continuar em prisão domiciliária?

E por que motivo as economias devem continuar fechadas quando uma parte da população pode começar a reverter essa ruína?

Esmagado pelas evidências, digo à minha mulher: “Não posso ser egoísta e prender você nessa masmorra". "Vai e viva!”

Ela me olha com preocupação psiquiátrica e, encolhendo os ombros, comenta apenas: “Não seja dramático e não se esqueça de usar a máscara quando sairmos". "Você ainda precisa, né?”

A polícia do pensamento aperta o cerco


Os casos de Ryan Anderson e Donald McNeil Jr. mostram que, no tribunal das políticas identitárias, os “crimes” jamais prescrevem. Editorial da Gazeta do Povo:


O Congresso norte-americano está prestes a votar um projeto de lei que segue os passos da equivocada decisão do STF brasileiro ao simplesmente equiparar a homofobia ao racismo. O Equality Act altera a Lei dos Direitos Civis, de 1964, para acrescentar “orientação sexual” e “identidade de gênero” entre as categorias merecedoras de proteção especial. Mas a lei não se limita ao justo e necessário combate à discriminação contra homossexuais ou pessoas transgênero: assim como a decisão judicial brasileira, ela deixa enormes brechas para ataques às liberdades de expressão e religiosa, bem como ao exercício da objeção de consciência. A crítica à ideologia de gênero ou à participação de homens biológicos no esporte feminino poderiam levar à responsabilização judicial.

Enquanto o Equality Act não é aprovado, os censores já agem por conta própria. É o caso da gigante Amazon, que deixou de vender o livro When Harry became Sally: Responding to the transgender moment, de autoria de Ryan Anderson, presidente do Ethics and Public Policy Center (EPPC) e ex-pesquisador da Heritage Foundation. Não se trata simplesmente de uma obra esgotada; a página referente ao livro, que permitiria também a compra das versões eletrônica (para o e-reader Kindle) e audiolivro, foi retirada do ar. A obra, lançada três anos atrás, em fevereiro de 2018, apresenta uma série de argumentos dos mais diversos tipos, dos biológicos e psicológicos aos filosóficos e antropológicos, em contestação aos defensores da ideologia de gênero e da facilitação de terapias de mudança de sexo, mas sem jamais incitar discriminação contra nenhum grupo de pessoas. Segundo Anderson, nem ele, nem a editora foram avisados da decisão da Amazon, contrariando as próprias diretrizes da loja, e até o momento não receberam nenhuma explicação; veículos de imprensa que entraram em contato com a Amazon também ficaram sem resposta.

“Isso não é sobre o modo como você diz, não é sobre quão rigorosa é a sua argumentação, não é sobre o quão caridosamente você apresenta as ideias. É sobre se você discorda da nova ortodoxia”, afirmou Anderson. Essa caça aos dissidentes poderia ter pouco efeito caso se tratasse de uma livraria de bairro, como afirmou Anderson em artigo no site First Things, mas que muda de dimensão quando quem comete a censura é responsável por 83% das vendas de livros em um país. Daí a inaplicabilidade, no caso em questão, do argumento liberal segundo o qual a Amazon, sendo uma empresa privada, pode decidir o que deseja vender. Especialmente quando toma suas decisões de forma contraditória, já que a gigante do varejo segue vendendo inúmeros livros que indubitavelmente seriam classificados como discurso de ódio ou que serviram de base para as ideologias mais assassinas das últimas décadas.

Anderson não é a única vítima recente da polícia do pensamento e da linguagem. Em mais uma prova de que, no tribunal das políticas identitárias, os “crimes” jamais prescrevem, um veteraníssimo repórter do New York Times foi obrigado a se demitir por causa de um episódio ocorrido em 2019. O jornal promoveu uma viagem ao Peru com estudantes de ensino médio, e Donald McNeil Jr. os acompanhou. Em determinado momento, como ele mesmo relata, foi perguntado por uma estudante se uma colega deveria ter sido suspensa do colégio por causa de um vídeo feito quando ela tinha 12 anos (ou seja, bem antes de entrar no ensino médio) e no qual usava uma injúria racial – McNeil não diz qual, mas trata-se de nigger (“crioulo”), que efetivamente é considerado um insulto pesado nos Estados Unidos. O repórter, então, quis saber o contexto no qual a palavra tinha sido usada: a garota estava citando alguém, um trecho de livro, uma letra de música, ou tinha a explícita intenção de ofender? E, ao pedir mais informações, acabou ele mesmo dizendo a “palavra proibida”.

Ora, ninguém com uma capacidade mínima de interpretação de texto julgaria que McNeil estivesse sendo racista na ocasião; ele apenas queria saber mais sobre a situação em que a garota suspensa usou a palavra nigger. Não bastou para a direção do jornal, que, em um ato digno dos totalitarismos soviético ou chinês, não apenas “convenceu” McNeil a se demitir, como também arrancou dele um pedido de desculpas incrivelmente constrangedor.

No texto dirigido aos colegas, McNeil afirmou que “originalmente, achei que o contexto em que usei essa palavra horrível poderia ser defendido. Agora percebo que não pode. Ela é profundamente ofensiva e dolorosa. O fato de eu até mesmo pensar que poderia defendê-la exibiu um julgamento extraordinariamente ruim”. E encerra dizendo “sinto muito. Eu decepcionei todos vocês”. Um “julgamento extraordinariamente ruim”, na verdade, é o daqueles que acreditam que o contexto não importa ao se julgar o uso de uma expressão considerada insultosa. Tanto é assim que o editor-executivo Dean Baquet acabou recuando da regra “não toleramos linguagem racista, independentemente da intenção”, escrita no comunicado sobre a demissão de McNeil. Mas, àquela altura, já era tarde demais para o repórter veterano.

Mas entre os dois casos há uma diferença crucial. Anderson sabe muito bem que foi vítima de uma injustiça e reagiu contra ela; McNeil aceitou até mesmo a autoimolação, o que levou muitos a questionarem os motivos de tal atitude. Se o jornalista, no fundo, sabe que nada fez de errado, que não estava sendo racista, e mesmo assim aceitou confessar um preconceito deplorável, ele se rendeu à polícia do pensamento de uma forma que, até pouco tempo atrás, só existia em distopias como 1984, de George Orwell. No entanto, se ele está mesmo convencido de que agiu mal, isso significa que já se chegou a um estágio de degradação intelectual extremamente preocupante. Pessoas supostamente sensatas se tornaram incapazes de fazer distinções básicas, aderindo a tabus linguísticos a ponto de a autocensura para não ofender a militância do momento já se tornar automática. Difícil saber qual das duas hipóteses deveríamos considerar pior.

PEC da imunidade não foi a última malandragem de Lira e do Centrão


Um exemplo de nova malandragem de Lira que pode estar por vir é a que ameaça a Lei da Ficha Limpa. É essa lei que impede, por exemplo, o ex-presidente Lula de ser candidato. Diogo Schelp para a Gazeta do Povo:


A proposta de emenda à Constituição (PEC) que procura regular a prisão de parlamentares, que ficou conhecida como PEC da Imunidade para seus defensores e "PEC da Impunidade" para os opositores, não foi a última malandragem de Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, e de seus aliados do centrão, para blindar políticos de serem punidos quando cometem crimes.

Por que "malandragem"? Ora, a PEC nasceu tendo como desculpa evitar situações como a prisão do deputado Daniel Silveira (PSL-RJ), em decisão ilegal do Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro Alexandre de Moraes determinou a prisão em flagrante por crime inafiançável de Silveira, que havia divulgado um vídeo ultrajante atentando contra a democracia e difamando integrantes da suprema corte.

O flagrante foi questionado por diversos juristas, pois baseava-se no argumento de que a permanência do vídeo online configurava uma continuidade do crime. Uma justificativa surreal, que abre precedente perigoso para qualquer um que queira se expressar na internet — onde praticamente tudo fica para sempre, até opiniões que já foram abandonadas por seus autores.

A Câmara dos Deputados poderia ter votado para derrubar a prisão de Daniel Silveira. Não para endossar seus atos, mas para se posicionar contra a decisão autoritária do STF.

Os deputados poderiam ter estabelecido esse limite entre os poderes, mas não o fez. A maioria votou por entregar a cabeça de Silveira numa bandeja para a Justiça, em articulação feita por Lira com as lideranças dos partidos e que contou com o silêncio cúmplice do presidente Jair Bolsonaro, de quem Silveira era fiel apoiador.

Aí entra a malandragem de Lira. Como ele próprio admitiu, o acordo para manter a prisão de Daniel Silveira passava pelo compromisso de, em seguida, votar a PEC que tornaria mais difícil a prisão de parlamentares — sem sequer cumprir os ritos normais da Casa, como uma análise cuidadosa na Comissão de Constituição e Justiça.

“Eu quero deixar claro que nós não teríamos a votação de sexta-feira passada [no dia 19, que manteve a prisão do deputado Daniel Silveira] se não houvesse o encaminhamento desta saída constitucional. Nós não teríamos o resultado que esta Casa deu, cortando na própria carne, se nós não tivéssemos esse acordo”, disse Arthur Lira na sessão desta sexta-feira (26), em que a oposição conseguiu evitar que a PEC fosse votada, obrigando-o a retirá-la da pauta e a colocá-la em tramitação normal.

A tentativa de votar, a toque de caixa, uma mudança na Constituição que daria novos privilégios a políticos encrencados com a lei foi um tapa na cara dos cidadãos de um país que vive o pior momento da pandemia do novo coronavírus e o índice mais alto de desemprego desde 2012.

A prioridade deveria ser discutir e votar medidas para facilitar a compra de vacinas e para encontrar uma saída fiscal para viabilizar a aprovação de um novo auxílio emergencial.

A motivação da PEC da Imunidade, a tentativa de mudar a Constituição como quem muda de roupa, atropelando prioridades, e o timing do projeto indicam que esta não será a última malandragem de Lira e do centrão.

Podemos esperar deles novas tentativas de blindagem, de manobras para ficarem fora do alcance da lei.

A pauta anticorrupção, promessa de campanha de Bolsonaro, praticamente não avançou nos últimos dois anos. E dificilmente avançará depois que o presidente fez o acordo com o centrão. Arthur Lira, nunca é demais lembrar, é réu por corrupção em dois processos que correm no STF.

Um exemplo de nova malandragem de Lira que pode estar por vir é a que ameaça a Lei da Ficha Limpa. Aprovada em 2010, ela proíbe que um político com o mandato cassado ou condenado por qualquer crime, ainda que caiba recurso, se candidate a um cargo eletivo durante oito anos.

É essa lei que impede, por exemplo, o ex-presidente Lula de ser candidato.

Pois em dezembro do ano passado, quando fazia campanha para a presidência da Câmara, Arthur Lira andou prometendo a deputados de partidos de esquerda que, caso obtivesse os votos deles, colocaria em votação alterações na Lei da Ficha Limpa. Mudanças essas, é claro, destinadas a esvaziar a lei, ou seja, deixá-la mais branda.

Na ocasião, Lira negou que estivesse prometendo apoio às mudanças na Lei da Ficha Limpa. Agora que já ocupa a presidência da Casa, porém, a retórica é outra. O tema estava na PEC da Imunidade e acabou sendo retirado do texto. Mas Lira já deixou claro que voltará a ser discutido "em momento adequado".

Arthur Lira diz que é preciso "corrigir distorções" e "excessos" na Lei da Ficha Limpa. Mas não é justamente rigor que se espera de uma lei que tem por propósito evitar que corruptos e outras categorias de criminosos sejam eleitos vereadores, prefeitos, deputados, senadores, governadores e presidente?

Enquanto isso, outras leis importantes para evitar a impunidade de políticos, como a que pretende extinguir o foro privilegiado para crimes comuns, tramitam a passos de tartaruga do Congresso Nacional.

Por que esses picaretas espirituais não dizem "não vá porque fulano está com Covid"?


O segredo desse povo que diz saber sobre você e seu futuro é falar coisas com grandes chances de ocorrer. Luiz Felipe Pondé para a FSP:


O astrônomo Carl Sagan (1934-1996) escreveu um livro que recomendo se você é uma daquelas pessoas que acredita que existem pessoas com o dom de prever seu futuro —“O Mundo Assombrado pelos Demônios”, editado pela Companhia das Letras. Uma pérola de ceticismo para iniciantes.

Queira dar atenção, por favor, a um detalhe em especial do ensinamento de Carl Sagan. Esse detalhe está ligado ao que ele dizia ser o método do Scooby-Doo: toda vez que você achar que tem algo de sobrenatural agindo em sua vida, no final, arranque a máscara desse agente e você verá um ser humano picareta por detrás dela.

O segredo desse povo que diz saber sobre você e seu futuro é falar coisas com grandes chances de ocorrer e que tornam impossível provar que ele errou. Queria ver um desses picaretas dizer para alguém agora, no meio da pandemia, “vai rolar uma viagem para o exterior”. Frases como “cuidado, tem alguém querendo prejudicar no trabalho” é afirmar que o círculo é redondo. Mas tem tonto que acredita.

A verdade é que esses picaretas nunca predizem o que pode ser provado como falso. Sagan dizia que nenhum dos grandes xamãs espirituais nos ensina nada que não saibamos. Em resumo: o mundo dos espíritos está contido no nosso mundo cultural. Só repete o que já sabemos.

Eles se mantêm numa esfera de afirmações vagas e possíveis, fora da aérea de falseamento, como se fala em epistemologia (teoria da ciência), segundo Karl Popper (1902–1994). Por exemplo, se eu disser daqui de onde escrevo que do seu lado tem uma pessoa que vai pedir um copo de água em dois minutos, você poderá facilmente falsear ou confirmar minha previsão “espiritual”. Meu enunciado é falseável, logo, para Popper e Sagan, tá valendo.

Mas, se eu disser que tem um espírito, que você não vê, de uma criança ao seu lado, facilmente você poderá ficar impressionado e começar a buscar coleguinhas que tenham, por acaso, morrido durante a sua infância, o que acontece com alguma frequência.

Se você for uma pessoa fácil de ser influenciada, acabará vasculhando sua memória a fim de encontrar algum fato que, mesmo de longe, comprove meu chute.

Uma dúvida me corrói o estômago. Qual? Por que esses picaretas não avisam a você algo assim: “Não vá àquela reuniãozinha de amigos porque fulano —ele deve dizer o nome preciso da pessoa— está positivo para Covid 19, apesar de ele não saber”?

Imagine a revolução epidemiológica que isso causaria? Você já pensou quantas vidas seriam salvas? Como alguém, em sã consciência, ainda pode crer que essas pessoas estejam sendo honestas com elas?

Ou será que alguns desses superdotados seres espirituais não poderiam ter avisado a todos: “Olhe, pessoal, vai rolar um vírus em Wuhan, na China, em dezembro de 2019, em tal lugar, em tais pessoas, vão lá e impeçam a pandemia”.

Ou não poderiam ter avisado para pessoas que morreram em acidentes de avião “não deixem esse avião decolar porque vai cair!”. Ou dizer para uma menina jovem “cuidado, esse cara que você está saindo vai engravidar você e sumir do mapa”. Ou “não vá por aquela rua porque você será assaltado no farol X”.

São tantos os exemplos que me cansam. E, imagino, cansam você também. Mas não. Esses picaretas do espírito falam coisas como “melhor fazer exames”, principalmente se a pessoa tiver mais de 50 anos, não? Para uma menina de 18, ele dirá “tem um colega na sua escola interessado em você”. Bom, se não tiver pelo menos um, você está ruim mesmo.

Ou “uma oportunidade de trabalho vai aparecer”. Claro, essa adivinhação vai dos 20 aos 60 anos do cliente. Ou “alguém está com problema de saúde na sua família”. Quem não tem alguém com problema de saúde na família?

Ficamos xingando governos e a OMS, mas ninguém toma satisfação desses farsantes que tiram dinheiro das pessoas dizendo que “seu filho perdoa” ou “mamãe, estou bem” —estando já morto.

Aqui vai uma proposta: exijamos de todos esses picaretas espirituais, já que não nos salvaram da pandemia de Covid-19, que nos digam algo de útil: que dia teremos vacinado toda a população do Brasil? #EuQueroaData.

2021 será um longo ano


Chegando a 2022, é bem possível que Bolsonaro tenha ventos a favor na economia e na política para sua reeleição. Mas a travessia de 2021 se torna cada vez mais difícil. Fernando Dantas para o Estadão:


Em recente entrevista neste espaço, Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual e ex-secretário do Tesouro, indicou como 2021 é o ano crítico da travessia de Jair Bolsonaro na tentativa de garantir um segundo mandato presidencial.

Na seara fiscal, o teto de gastos está apertadíssimo este ano, devendo levar as despesas discricionárias para seu mais baixo nível desde que o indicador é calculado. O risco de atrasos de pagamentos e paralisação de áreas específicas da administração federal é real. Investimentos no mínimo histórico vão acelerar a deterioração da infraestrutura a cargo da União.

Em 2022, porém, por causa de uma combinação favorável entre indicador/periodicidade dos indexadores do teto e das despesas obrigatórias, o governo vai poder gastar e investir mais do que em qualquer outro ano do governo Bolsonaro.

E tem mais, obviamente. Mesmo na hipótese mais pessimista sobre a campanha de vacinação no Brasil em 2021, o cenário de todo mundo é que, ano que vem, a pandemia esteja superada. É possível que isso leve a economia a andar com força em 2022.

O cientista político Jairo Nicolau, em seu livro “O Brasil Dobrou à Direita” e em pesquisas recentes, vem mostrando como a base de apoio de Bolsonaro é muito mais robusta do que apenas os extremistas de direita.

A união do presidente com o Centrão, no âmbito da Legislatura mais à direita em muitas décadas, faz de Bolsonaro, na visão do pesquisador, um líder conservador com grande capacidade de comunicação com a massa do eleitorado. Em alguns segmentos, como o dos evangélicos, essa vantagem do atual presidente é massacrante.

Assim, supondo que Bolsonaro “sobreviva” a 2021, pode chegar no ano eleitoral com a economia crescendo, dinheiro para gastar e uma base eleitoral segura a partir da qual buscará uma fatia majoritária do eleitorado.

O problema, porém (e aqui não é mais Nicolau que opina), é sobreviver a 2021. Nuvens de tempestade crescentemente pesadas estão se acumulando no horizonte.

A segunda onda da Covid-19 se mostra cada vez pior. A média semanal do número de mortes registradas (não ocorridas) a cada dia, na contagem do Ministério da Saúde, está em alta, e, acima de 1.100, já supera o recorde da primeira onda.

Relatos sobre superlotação, falta de vagas e episódios de colapso da rede hospitalar surgem simultaneamente de diversas partes do País. Crescem as indicações de que as novas cepas do coronavírus, mais transmissíveis, podem ser uma das explicações para a virulência da segunda onda.

A vacinação, por sua vez, parece cada vez mais uma arma cujo efeito acontecerá no médio, e não no curto prazo.

A experiência de países que estão avançados na imunização da população, como Israel e, em escala menor, Estados Unidos, indicam que a vacina de fato reduz contaminações e mortes e deve acabar com a pandemia.

O problema é que a maioria dos países, como o Brasil, ainda está muito longe de imunizar um percentual da população suficiente para que haja um efeito significativo na progressão da doença.

Dessa forma, tudo indica que a pandemia vai piorar antes de melhorar.

O efeito na economia é direto. O crucial setor de serviços, que vinha gradativamente se reabrindo, deve reverter a tendência (ou melhor, já está revertendo). Restaurantes que chegaram a encher em outubro voltaram a ficar vazios. Viagens são canceladas.

Dá-se muita atenção a aglomerações de jovens em bares e de pessoas nas praias, mas de forma mais discreta e pulverizada a oferta e demanda por serviços se contrai novamente, como já se refletiu em indicadores de dezembro.

Medidas oficiais de restrição de circulação também são implementadas por cidades e estados. Hoje, o Paraná decidiu fechar serviços não essenciais (a partir de meia noite) e ampliar o toque de recolher para o período das 20h às 5h.

Muitos analistas preveem que o PIB vai recuar neste primeiro trimestre. O mercado de trabalho, apesar de alguma recuperação desde o pior momento da pandemia, ainda se encontra no pior estado em muitas e muitas décadas.

A atividade rateando vai piorar as coisas, e o desemprego e a retração de renda devem bater com mais força.

Com a queda recente da popularidade de Bolsonaro, cresce a tentação de ser mais generoso na reedição do auxílio emergencial.

Correntes no Congresso acenam com a possibilidade de aprovar o auxílio agora, com orçamento em aberto, e deixar para depois as medidas (muito brandas, e 100% de médio prazo) de compensação fiscal.

Para piorar a incerteza, Bolsonaro interveio num rompante na Petrobrás, num gesto populista que coloca em xeque toda a agenda liberal de Guedes – inclusive na área fiscal.

Os termômetros do mercado já refletem a febre político-econômica. A bolsa cai forte, o dólar sobe mesmo com as intervenções do BC e a curva de juros está superempinada.

O Banco Central está no pior dos mundos: inflação e expectativas inflacionárias em alta, e atividade em baixa, em meio a forte incerteza sobre o regime fiscal.

O que salva é que o mundo ainda está relativamente favorável, com a retomada econômica na China e nos Estados Unidos e a alta das commodities que o Brasil exporta.

Mas há um risco pela frente. A “mãe” de todos os pacotes de impulso fiscal que Biden quer implementar, numa economia já previamente turbinada por impulsos monetários e fiscais, pode – para alguns analistas – provocar inflação nos Estados Unidos.

Se isso ocorrer e as taxas de juros americanas tiverem uma alta súbita e forte, pode ser o gatilho para crises macroeconômicas agudas em países emergentes vulneráveis como o Brasil. Seria o chamado “Deus nos acuda”.

Outra nuvem feia no horizonte é o destino de Paulo Guedes no governo, abordada hoje (sexta, 26/2) no Broadcast pelo meu colega Fábio Alves.

Será um longo 2021.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 26/2/2021, sexta-feira.

O "canto de cisne" de Castello Branco na Petrobras


É preciso dar continuidade ao trabalho de Castello Branco, em vez de promover uma repetição de 2014. Editorial da Gazeta do Povo:


Se o Conselho de Administração da Petrobras realmente confirmar a substituição de Roberto Castello Branco pelo general Joaquim Silva e Luna, o executivo termina seu período de dois anos à frente da maior estatal brasileira com razões para se orgulhar. A empresa fechou o último trimestre de 2020 com lucro de R$ 59,89 bilhões, e terminou o ano da pandemia com lucro líquido de R$ 7,1 bilhões – bem abaixo dos R$ 40 bilhões de 2019, mas mesmo assim um resultado notável diante de todas as circunstâncias deste 2020 atípico. Com isso, Castello Branco encerra sua passagem pela Petrobras com duas marcas importantes: o maior lucro nominal da história da companhia em 2019, e um resultado positivo em um ano de enormes dificuldades econômicas em todo o mundo, o que chamou de “recuperação em J”. Em circunstâncias normais, tal desempenho lhe valeria uma manutenção praticamente automática no posto, mas isso de pouco valeu para Jair Bolsonaro.

A Petrobras saiu destruída da era lulopetista. A Operação Lava Jato mostrou como a estatal havia sido saqueada em nome do projeto de poder petista, em conluio com outros partidos e empreiteiras, mas a corrupção esteve longe de ser o único fator responsável pela situação de calamidade da estatal. Em nome da reeleição, Dilma Rousseff impôs à Petrobras uma política de represamento artificial de preços dos combustíveis, o que levou a enormes prejuízos. Além disso, a direção da empresa tomou uma série de decisões de negócio desastrosas, resultado de negligência na elaboração de contratos, como no caso da refinaria de Pasadena, ou de camaradagem ideológica, como na refinaria Abreu e Lima, em que a Petrobras levou um calote da Venezuela bolivariana. Quando Dilma sofreu o impeachment, a estatal era a empresa petrolífera mais endividada do mundo.

Castello Branco é o terceiro presidente da era de reconstrução da empresa, iniciada com Pedro Parente, sucedido por Ivan Monteiro. A recuperação não ocorreu sem solavancos: Parente, um dos melhores quadros da equipe econômica de Michel Temer, pediu demissão em 2018, após interferências do Planalto sobre os preços do óleo diesel para apaziguar caminhoneiros em greve, em uma demonstração de que a tentação populista nunca abandona de vez os governos que têm nas mãos uma empresa como a Petrobras. Castello Branco, economista formado pela Universidade de Chicago, defende a privatização da estatal; na impossibilidade de conseguir este objetivo no curto prazo, empenhou-se em um programa de desinvestimento e venda de ativos, para ao menos acabar com o monopólio da empresa em atividades como o refino.

Diante de inúmeros resultados positivos – que incluem também a redução na dívida da empresa –, restou ao presidente da República acusar Castello Branco de ficar “há 11 meses em casa, sem trabalhar”, como se fosse um grande absurdo alguém que está no grupo de risco, devido à idade, se manter em home office durante a pandemia; dizer que “tem muita coisa errada” na estatal, sem explicar a que se referia; e alegar que estatais também precisam ter uma “visão de social”, uma senha para indicar que políticas de mercado não bastam e que uma estatal precisa estar disposta a arriscar sua própria saúde financeira em nome de plataformas políticas.

Resta saber que trajetória Silva e Luna terá à frente da Petrobras, substituindo um gestor que foi extremamente bem-sucedido à frente da estatal. Se realmente assumir disposto a seguir uma política populista, não tardará a ter um choque de realidade quanto aos fatores que influenciam o preço dos combustíveis, e terá de fazer uma escolha: ignorar a matemática, sacrificando a empresa, ou decepcionar caminhoneiros e outros grupos de apoiadores de Bolsonaro e que, nos últimos dias, defenderam o direito de o presidente intervir no que consideram uma política de preços inaceitável. É preciso dar continuidade ao trabalho de Castello Branco, em vez de promover uma repetição de 2014.

Todo dia ele faz tudo sempre igual


Coluna de Carlos Brickmann, publicada nos jornais deste domingo:


Já teve o chilique, já botou mais um fardado dentro do Governo, já pisou no Paulo Guedes mais uma vez (e nenhum dos dois se cansa!), já prometeu aos caminhoneiros que agora vai, que não precisam fazer greve – mas, por via das dúvidas, já fizeram a greve em Belo Horizonte, tumultuando a vida da cidade. Agora, é aquela questão matemática: pegue o preço da gasolina e do Diesel antes dessa confusão toda, some o chilique, some a promoção do fardado, multiplique pela humilhação do Superministro da Economia, e a conta vai dar exatamente o preço da gasolina e do Diesel antes da confusão.

Por que a vida dos caminhoneiros está tão difícil? Comecemos lembrando que Dilma, para agradar a categoria, financiou caminhões a juros de BNDES, estimulando os autônomos a trocar seus veículos. Perfeito: só que, embora baixos, os juros têm de ser pagos. Com mais caminhões do que o necessário, a tendência dos fretes é cair. O presidente já é Temer: para evitar uma greve, fixou um piso para o frete. Temer sabia, claro, que isso é impossível: se um cliente vai pagar cem e um caminhoneiro sem carga se oferece por 80, quem irá atrapalhar os dois? Mas Temer sabia também que seu mandato estava no fim, e o problema ficaria para o presidente seguinte. E Bolsonaro, para evitar uma greve, teve então seu chilique, disse que ia fazer e acontecer.

Mas não vai, não: as raízes desta crise estão fora de seu alcance. Não tem como reduzir o número de caminhões, nem de lotá-los. É jogo jogado.

O Real e o real

Mas por que Diesel e gasolina subiram tanto? Por dois motivos: primeiro, a desvalorização do Real – que vem se enfraquecendo dramaticamente. Das 30 moedas mais negociadas do mundo, o Real foi a que mais valor perdeu em 2020 – já no Governo Bolsonaro. Foram 28%. Lembra do dólar a R$ 4? Pois hoje oscila perto de R$ 5,50. São mais reais para pagar o mesmo barril de petróleo. O barril de petróleo também já não é o mesmo: faz frio nos EUA, o que aumenta muito o uso de combustíveis para aquecimento. O preço do fim de 2020 oscilava perto de US$ 50. Hoje, oscila em torno de US$ 65.

Ponha 30% no preço do petróleo, some mais uns 30% de desvalorização do Real, e tente manter hoje o preço do Diesel e da gasolina em 2020, já alto. Bolsonaro pode chilicar à vontade que não vai mudar a temperatura dos EUA. A desvalorização do Real é água passada, diga Guedes o que disser, tente Bolsonaro baixar o preço quanto quiser. Dilma fez isso e não deu certo.

Hotel da sucessão

Só quem conhece a história da TV brasileira recorda este programa de sucesso de 1955, na época da eleição que levou Juscelino Kubitschek ao poder. No hotel se hospedavam os personagens da campanha. Lá circulava não muito discretamente um objeto misterioso que convencia os políticos a mudar de opinião.

Economizar, jamais

A coluna Diário do Poder, de Cláudio Humberto, faz uma comparação impressionante entre Brasil e Estados Unidos. O Palácio do Planalto, sede do Governo brasileiro, tem 4.600 funcionários; a Casa Branca, sede do Governo americano, tem 460 funcionários. O presidente americano mora e trabalha na Casa Branca. O presidente brasileiro trabalha no Palácio do Planalto, mora no Palácio da Alvorada e dispõe da Granja do Torto; tem também à disposição o Palácio Rio Negro, em Petrópolis.

E a mania de palácios à vontade não é exclusiva dos presidentes, seja qual for seu partido: o governador de São Paulo mora e trabalha no Palácio dos Bandeirantes, tem um palácio no Horto Florestal, em São Paulo, tem outro palácio em Campos do Jordão. Para que? Para nada.

The British way

O primeiro-ministro britânico mora e trabalha numa casa em Downing Street, 10. A casa foi um presente do rei George 2º a seu principal ministro, Robert Walpole, por bons serviços prestados. Walpole aceitou o presente, desde que não fosse algo pessoal: a casa seria utilizada por quem quer que ocupasse o cargo.

Curiosidade

As notas Hotel da Sucessão; Economizar, Jamais; e The British Way foram publicadas originalmente em 2013, há quase oito anos. O mundo gira e o Brasil fica parado. O que acontece de novo é ainda pior: o Governo fica sossegado enquanto 250 mil pessoas morrem de Covid, mas se movimenta para, usando incontáveis e sólidos argumentos, ganhar o apoio do Centrão. Corte de despesas? Houve algum em qualquer dos três Poderes, excetuando os inúmeros cortes das 700 toneladas de picanha para a turma lá de cima?

O esperto

Daniel Silveira só agora está descobrindo que vai pagar sozinho por sua cafajestada. Está preso, Bolsonaro está quieto, seus colegas de Câmara estão preparando uma lei pela qual deputado não possa ir para a cadeia. Só ele.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Por que os democratas querem os imigrantes ilegais?


É tenebroso o futuro da política de fronteiras abertas. E o Partido Democrata repete chavões fofos para garantir um grande contingente de novos eleitores. Ana Paula Henkel via Oeste:


Um dos slogans da campanha de Donald Trump em 2016, desde as primárias republicanas, foi o famoso Build the wall (“Construa o muro”), uma marca registrada que ele também carregou durante os quatro anos na Casa Branca. A frase, que foi usada incansavelmente por seus opositores para tentar implicar Trump numa política xenófoba de imigração, refletiu durante sua passagem pelo Salão Oval como um dos pontos importantes para seus eleitores e para aqueles que têm a intenção de discutir o sensível tema da imigração ilegal com um mínimo de honestidade intelectual.

Entre as mais de 40 ordens executivas já assinadas por Joe Biden está aquela que determina a paralisação imediata dos trabalhos para a construção do longo muro que protege as fronteiras norte-americanas com o México. A obra foi iniciada ainda na administração de Bill Clinton, mas nunca teve apoio político dos democratas para avançar, mesmo durante os anos do governo de Barack Obama. Donald Trump, com sua agenda America First (“América Primeiro”), de não apenas empregar e dar atenção prioritária a norte-americanos, mas também de tentar reduzir a criminalidade no país, retomou a construção do muro sem medo de a medida ser usada negativamente por democratas defensores da agenda politicamente correta.

Dentro do novo espectro de medidas da ala radical de Biden e Harris está a concessão de cidadania a milhões de imigrantes ilegais. Normalmente, o caminho para a legalização da permanência desses imigrantes seria o green card. Entretanto, portadores de green card — o documento que assegura o direito a residir legalmente no país — não podem votar em eleições para cargos públicos nacionais, tais como deputados, senadores e presidente. Há poucas exceções, apenas para algumas eleições locais. A manobra dos democratas é clara: conceder cidadania norte-americana ao maior número possível de imigrantes ilegais para ganhar o voto desse contingente e assegurar a permanência no poder. O número oficial de estrangeiros ilegais é de 11 milhões, mas a Universidade de Yale e o Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT) calculam que exista uma quantidade relevante de “invisíveis”. O total estaria entre 16 milhões e 29 milhões, uma vez que muitas dessas pessoas se recusam a responder ao Censo com receio de deportação.

O radicalismo das fronteiras abertas de Joe Biden é um convite a um tsunâmi humano de migração ilegal. Isso já é demonstrado pelas mais recentes estatísticas da US Border Patrol (Patrulha de Fronteira dos EUA): as apreensões de adultos na fronteira sul em janeiro de 2021 aumentaram 182% em relação a janeiro de 2020, de 86.449 para 244.053 no total. Os movimentos de Biden parecem enfraquecer a fronteira. Além disso, sinalizam um pesadelo econômico, humanitário e de segurança nacional.

A América do ex-vice de Barack Obama já suspendeu todas as deportações e está desmantelando a política altamente eficaz que a administração Trump estabeleceu de “permanecer no México” para os requerentes de asilo. Biden pediu ao Congresso, de maioria democrata, que conceda anistia em massa àqueles que já estão aqui. Ele também anuncia promessas de benefícios públicos generosos para novos estrangeiros ilegais, como assistência médica financiada pelo pagador de impostos. Interesses poderosos se alinham para ajudar Biden a recompensar as grandes corporações com mão de obra barata e o Partido Democrata com novos constituintes.

Dr. Peter Navarro, importante conselheiro econômico da administração Trump na Casa Branca, acaba de publicar um novo relatório detalhando estatísticas que retratam o tamanho do risco, especialmente para a classe trabalhadora. O valor do trabalho de baixa qualificação tende a despencar, dada a concorrência desleal que adviria. Navarro também detalha os impressionantes custos da migração ilegal em massa. Em Estados progressistas, comandados pela ala radical democrata, como a Califórnia, o sistema de saúde Medicare já está aberto a todos os residentes, incluindo os ilegais. Somando-se as despesas com escolas públicas para crianças que vivem ilegalmente no país aos custos de moradia e julgamento para falsos pedidos de asilo, o gasto total do governo em todo o país para a imigração ilegal ultrapassa US$ 100 bilhões anualmente.

Além dos custos financeiros colossais, o tributo humano de fronteiras abertas acaba por infligir uma miséria totalmente desnecessária aos cidadãos norte-americanos das classes mais baixas. A maioria dos imigrantes ilegais chega sem intenção criminosa, mas uma minoria muito perigosa nesses grupos aterroriza as ruas praticando crimes 100% evitáveis. A violenta gangue mexicana MS-13 agora opera amplamente em todo o país e propaga o “script do asilo” para importar da América Central novos criminosos. As vítimas de seus crimes, notavelmente, quase sempre são cidadãos de ascendência hispânica.

Essa realidade contradiz a falácia democrata de que controlar a imigração é, de alguma forma, intrinsecamente uma medida preconceituosa. Na verdade, as minorias sofrem desproporcionalmente com a concorrência ilegal de salários e também com o crime perpetrado por ilegais perigosos.

O livro sobre o tema do historiador norte-americano Victor Davis Hanson, Mexifornia: A State of Becoming, é duramente criticado pela esquerda nos EUA, que acusa o professor do Hoover Institute, em Stanford, de ser racista e isolacionista. Hanson já abordava o tema em 2003, quando a obra foi lançada. Ele expôs graves preocupações que se provaram prescientes, como a de que muitas cidades californianas se tornariam “meio México, meio América”, rumo a um declínio cultural e econômico.

Em 2005, dois relatórios do Government Accountability Office, atualizados em 2011, já mostravam como Victor Davis Hanson estava correto: o primeiro levantamento descobriu que os estrangeiros criminosos (legais e ilegais) constituíam 27% de todos os prisioneiros federais. No entanto, de acordo com o Center for Immigration Studies, os não cidadãos representavam apenas cerca de 9% da população adulta do país. Assim, a julgar apenas pelos números nas prisões federais, os não cidadãos cometem crimes federais três vezes mais que os cidadãos.

No segundo relatório, as informações são ainda mais perturbadoras. Aos números: durante o ano de 2003, 55.322 estrangeiros encarcerados no país haviam entrado ilegalmente nos EUA e continuavam ilegais no momento da prisão; eles já haviam sido presos 459.614 vezes — uma média de 8,3 detenções por estrangeiro ilegal — e cometeram quase 700 mil crimes — média de 12,7 crimes per capita.

De todas as prisões, 12% foram por crimes violentos, como assassinato, roubo, agressão e crimes relacionados a sexo; 15% se deveram a roubo, furto e danos materiais; 24% eram por delitos de drogas; e as demais infrações foram por dirigir alcoolizado, fraude, falsificação, porte e posse de armas ilegais e obstrução da justiça.

Hans von Spakovsky, advogado, membro da Heritage Foundation e autoridade respeitada em assuntos atinentes a direitos civis e imigração, acrescenta que esses relatórios não fornecem um número preciso de crimes cometidos por estrangeiros ilegais: “Se houvesse uma maneira de incluir todos os crimes, os números provavelmente seriam mais altos, porque os promotores muitas vezes concordam em retirar as acusações contra um estrangeiro ilegal se tiverem a garantia de que as autoridades de imigração entrarão com processo de deportação”. Independentemente de como analisar essas estatísticas, as evidências suportam a tese original do professor Hanson e suas recomendações: necessidade de fiscalização nas fronteiras, documentos de identidade, sanções ao empreendedor que emprega imigrantes ilegais e, não menos importante, um programa de assimilação do estrangeiro ao país.

Um dos tópicos de destaque do livro de Hanson é a diferenciação da imigração mexicana de fluxos migratórios anteriores. Os defensores do status quo costumam dizer que há algumas estatísticas negativas relacionadas à primeira geração de imigrantes mexicanos, mas o mesmo ocorreu com italianos. O problema dessa afirmação, para Hanson, são os dados sobre a segunda geração de mexicanos. É grande a pobreza, a dependência da previdência estadual ou federal, a evasão do ensino médio e, finalmente, a ocorrência de atividades criminosas. Um em cada três homens mexicano-americanos com idade entre 18 e 24 anos na Califórnia relatou ter sido preso. O cenário na educação é dramático. O Distrito Escolar de Los Angeles, que é 73% hispânico, registra uma taxa de graduação de 60%. E, entre aqueles que se formam, apenas um em cada cinco se qualifica para o ingresso numa faculdade.

Em Mexifornia, Victor Davis Hanson defende também a tese de que um dos principais fatores para a não assimilação de muitos mexicanos é a proximidade geográfica de seu país de origem. Um agricultor indígena que veio da zona rural do México pode deixar Los Angeles e estar no país vizinho em três horas — menos que o tempo para vencer a distância entre São Paulo e Rio de Janeiro. Em contrapartida, imigrantes de nações como Japão, Filipinas, China e até Espanha estão completamente isolados da nação-mãe e são forçados a aprender inglês, assimilar a cultura local e juntar-se ao famoso melting pot, em vez de viver num enclave étnico.

Nascido e criado na Califórnia, Victor Davis Hanson se viu parte de uma minúscula minoria branca em meio a uma maioria mexicana e mexicano-americana durante boa parte de vida escolar. Por causa do casamento misto em sua família, os hispânicos estão bem representados em sua árvore genealógica e Hanson defende a ideia de que uma reforma migratória é necessária até para proteger aqueles que já estão nos Estados Unidos e contribuem de forma importante e honesta para a sociedade.

Para isso, o respeitado professor de Stanford diz que há uma razão pela qual as pessoas vêm construindo muros há 5 mil anos e alerta para a seriedade do debate, que deve ser estabelecido longe do campo do preconceito. O momento de discussões rasas sobre o assunto é perigoso e expõe a falácia dos justiceiros sociais. “Construa pontes, não muros”, repetem aqueles que, escolhendo o aplauso rápido e fácil, propagam frases de efeito em suas redes sociais a partir de seus smartphones, enquanto desfrutam de pleno conforto em condomínios fechados cercados de muros e proteção.

O atraso é nosso


A política está pondo em risco o futuro do país. O caso Petrobras já é a quinta baixa na chamada ala liberal do governo. Artigo de Ubiratan Jorge Iorio para a Oeste:


“Quando você quer ajudar as pessoas, você diz a elas a verdade. Quando você quer ajudar a si mesmo, você diz a elas o que elas querem ouvir.”
Thomas Sowell

O presidente do Brasil resolveu, há exatos sete dias, trocar o comando da Petrobras, substituindo o economista Roberto Castello Branco pelo general Joaquim Silva e Luna. As reações dos liberais genuínos e dos mercados financeiros foram, sem exceção, negativas e somente nos dois primeiros dias de negociação em bolsa depois do anúncio da mudança o valor de mercado da empresa caiu aproximadamente R$ 100 bilhões.

A troca, infelizmente, significa mais do que as aparências sugerem, porque não foi uma simples substituição de um bom gestor por outro. Faz-se imperativo não esquecer que esse “outro”, por mais competente que seja, é um general, e essa característica, certamente, acende expectativas quanto a um eventual retorno aos tempos rupestres em que a empresa era praticamente um albergue de luxo para militares reformados. O comando de meia-volta volver ordenado pelo presidente, somado ao seu fato gerador — a insatisfação com os reajustes internos dos preços do diesel —, representa um glória ao passado e um dane-se o futuro, um balde de gelo nas vendas de refinarias e um fuzilamento de qualquer possibilidade de privatização. Como certamente diria Roberto Campos, o atraso continua sendo “nosso”.

Licenças retóricas à parte, vamos aos fatos. Para começar, vamos listar os quatro motivos principais que determinaram a expressiva vitória do presidente Bolsonaro em 2018: 1º) a defesa de valores conservadores; 2º) o programa econômico mais liberal já apresentado por um candidato, cujo próprio nome, O Caminho da Prosperidade, alude a Hayek, um dos maiores economistas liberais do século 20; 3º) a revolta contra o inacreditável espetáculo de corrupção generalizada, incompetência na condução da política econômica e esquerdismo retrógrado, encenado na era das trevas que se abateu sobre o Brasil entre 2003 e 2016; e 4º) o receio de aprofundamento do modelo venezuelano, opção claramente explicitada no programa de governo do PT.

Há três tipos de eleitores de Bolsonaro: os conservadores, que prezam o respeito às tradições, usos e costumes, ameaçados pela espada da guerra cultural desembainhada pelos ditos “progressistas”; os liberais, defensores da superioridade da economia de mercado sobre o intervencionismo; e os antissocialistas de todos os matizes, incluindo aí a minoria de seguidores fanáticos.

A Petrobras é uma empresa em que o governo, por deter 50,26% das ações ordinárias, é acionista majoritário, mas isso não significa que toda e qualquer medida tomada por sua diretoria não deva buscar o melhor para os acionistas, incluindo os minoritários. Portanto, medidas tomadas por ingerência do acionista majoritário que o favoreçam e prejudiquem os demais — como, por exemplo, a prática de estabelecer preços artificiais para o diesel —, caso aprovadas pelo conselho da empresa, dão margem a enxurradas de peças na Justiça por parte dos que se sentem lesados.

Ainda, quando diretores ou membros da alta administração cedem a pressões para fazer o que for melhor para o governo, desconhecendo os interesses da empresa ou meramente subordinando-os a intenções políticas, podem estar infringindo as regras da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), bem como, no plano internacional, da SEC (Securities and Exchange Commission). Em outras palavras, a Petrobras, como empresa, é obrigada a tomar decisões técnicas, que incluem os preços, orientadas para a obtenção da maior lucratividade, ou seja, dos melhores resultados financeiros possíveis para todos os acionistas, inclusive os minoritários. Dessa forma, se os preços internacionais dos derivados aumentam e a empresa, por motivos políticos, não permite que os preços internos acompanhem a subida, a lucratividade, se as demais influências ficarem constantes, será menor e a diretoria será cobrada por isso. São as regras do jogo.

O governo é como aquele sujeito que possui mais da metade dos apartamentos de um condomínio mas se comporta como se fosse o único proprietário, atropelando os demais e tentando controlar o síndico e impor a sua vontade nas reuniões dos condôminos. Um dos argumentos dessas ações coletivas é o de que há ilegalidade quando o chefe de governo declara que a mudança no comando da empresa se deu por uma preocupação com o aumento nos preços dos combustíveis, uma vez que a política de preços da Petrobras não deve ser usada como uma política pública. Há argumentos sustentando que, se o conselho de administração aprovar o pedido de troca, tal ato seria ilícito, inclusive porque até os membros indicados pela União, quando aceitaram o cargo, assumiram compromisso com a defesa dos interesses da empresa e de todos os seus acionistas.

Francamente, é irracional defender a ideia de que a Petrobras, que foi durante muito tempo um totem adorado pelo nacionalismo infantil — do tipo que Einstein definia como “o sarampo da humanidade” —, não deve ser privatizada. Porém, por diversos motivos, nosso presidente não pensa assim e nem mesmo toda a reconhecida capacidade de argumentação de seu Posto Ipiranga conseguiu remover a minhoca verde-oliva de sua cabeça.

O profissionalismo que imperou durante a gestão iniciada em janeiro de 2019 levou a empresa a cortar custos operacionais, reduzir o endividamento e focar ativos de maior rentabilidade, produzindo benefícios como a redução do custo da dívida e a geração de caixa bastante elogiada pelos analistas de mercado. É forçoso acrescer que essa eficiência foi alcançada mesmo em um ano marcado por acontecimentos adversos, como a pandemia, a enorme recessão global e a pior crise da indústria petrolífera dos últimos cem anos, além de outras batalhas, algumas decorrentes de nossa legislação pré-histórica, contra sindicatos, justiça trabalhista, MPT, Anvisa, ANP, Cade, Sest, TCU, STF e dezenas de outras “letras”. Com todos esses pepinos, a empresa entregou a “recuperação em J” prometida e, para coroar o ano, ultrapassou a poderosa BP (British Petroleum) em valor de mercado.

Sim, é motivo de muita preocupação essa tentativa de interferência na empresa, anunciada logo após o presidente afirmar que jamais interferiria, porque derrama mais dúvidas sobre as reais intenções do governo de seguir a plataforma econômica liberal que tanto contribuiu para lhe dar a vitória. E são lastimáveis as críticas infantis de Bolsonaro ao presidente da empresa, do tipo “está há 11 meses em casa”, na tentativa de justificar-se denegrindo um economista e CEO de competência reconhecida há bastante tempo. Quem conhece a realidade das empresas na pandemia sabe que muitas das tidas como referências de eficiência estão adotando o trabalho remoto, que, aliás, reduz custos e pode exigir ainda mais dedicação dos executivos do que no modelo de trabalho no escritório.

Por mais que os bajuladores neguem, a política está colocando o futuro do país em risco. Esse episódio já é a quinta baixa na chamada ala liberal do governo. Antes, ao perceberem que o andamento da música do governo era, na melhor hipótese, liberal ma non troppo, quatro liberais já haviam tirado seus times de campo: o economista Mansueto Almeida, secretário do Tesouro Nacional; Rubem Novaes, também economista e presidente do Banco do Brasil; Paulo Uebel, secretário de Desburocratização; e o empresário Salim Mattar, responsável pelas privatizações.

O governo, com uma rapidez incomum, emitiu nesta semana sinais de que a agenda liberal ainda respira, com as apresentações midiáticas dos projetos de desestatização da Eletrobras e dos Correios. A resposta dos liberais a esses movimentos pode ser sintetizada em uma pergunta: por que, então, toda a trapalhada da mudança na Petrobras? Uma resposta plausível, com toda a franqueza, parece ser a de que o sacrifício de Castello Branco tenha sido motivado por velhas tendências acomodatícias de natureza política.

Toda ação humana pressupõe fins e meios para alcançá-los, mas, para produzir o bem, precisa ser baseada em princípios e um desses princípios é honrar a palavra empenhada. O presidente, em quem desejo sinceramente continuar a confiar, parece que não é mais senhor de sua vontade.

Moro no melhor país do mundo


Nosso país não aprendeu a olhar as mulheres como gado. Nem a ver gente estranha como membro de raça ou cultura, em vez de indivíduo portador de uma alma imortal. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo:


Ayaan Hirsi Ali foi chamada para o podcast de Jordan Peterson para falar do seu novíssimo livro, Prey: Immigration, Islam and the Erosion of Women’s Rights, que não existe em português, mas cuja tradução literal seria: Presa: a imigração, o Islã e a erosão dos direitos das mulheres. Ayaan Hirsi Ali nasceu na Somália, numa família muçulmana, e algumas etnias africanas acrescentam seus próprios traços culturais misóginos a uma religião que já não é boa com as mulheres. A família da autora é uma dessas, e ela, quando criança, tal como muitas meninas, foi submetida à mutilação genital que amputa o clitóris (às vezes os lábios menores também) e transforma a vagina numa coisa lisa costurada, a ser descosturada somente após o casamento. O casamento é arranjado pelo pai, que reivindica a posse da filha para entregá-la, como quem entrega um camelo, a um novo proprietário.

Contra todo determinismo social, Hirsi Ali prosperou na Europa. Seu livro Infiel caiu como uma bomba na Holanda. Ganhou versão cinematográfica pelas lentes de Theo van Gogh, assassinado por islamistas por causa disso. A própria Ayaan vive sob pesado esquema de segurança há tempos, por estar na mira dos mesmos algozes. Ademais, ela é uma apóstata, e a apostasia, na xaria, é punível com morte.

Todo esse seu florescimento só foi possível por causa das liberdades oferecidas pelo Ocidente. Quando o pai de Ayann apareceu na comunidade de imigrantes na Holanda para reclamar a sua posse e enviá-la para um marido no Canadá, a funcionária disse que ela não precisava ir – para o choque e, depois, o alívio da imigrante. Porque uma coisa que nós, brasileiros, temos dificuldade de entender é que há países onde grupos humanos convivem como água e óleo, sem se misturar e nem sequer falar a mesma língua. Então essas comunidades bárbaras existem capilarizadas no seio de países ricos, como a Holanda ou a Alemanha.

Como nós somos

É verdade que nós não temos a má fortuna de receber massas bárbaras de supremacistas culturais (que são os islamistas). Os europeus recebem porque são seus vizinhos ao Leste (Oriente Médio) e ao Sul (África). Mas acontece, fora do Brasil, de imigrantes fecharem-se em seus bairros, trabalharem em empregos rudimentares e nunca precisarem aprender direito o idioma do seu novo país. É como se esses venezuelanos, haitianos e sírios que hoje chegam nunca aprendessem português direito e tivessem filhos que tampouco aprendessem português direito e não tivessem sequer uma amizade – que dirá um namoro – com um falante nativo de português.

Ainda por cima, em países europeus é comum a cidadania ser pautada pelo jus sanguinis, de modo que um filho de imigrantes nunca seja reconhecido pelo país em que ele cresceu. Isso é bem visível em época de Copa do Mundo: as seleções do norte da África, região cheia de jihadistas, têm um monte de jogadores nascidos na Europa. Eles não se reconhecem como europeus e seu nacionalismo diz respeito ao país de seus pais ou avós. Enquanto isso, alguns negros da África subsaariana (que é menos islâmica) ganham às vésperas da Copa a cidadania do país em que passaram toda a vida, às vezes até desde o nascimento. No Brasil, não existe isso de você nascer como um cão vadio, sem o mínimo reconhecimento perante o Estado. Quem nasce no Brasil é brasileiro, mesmo que seja numa favela onde todo mundo troca tiro e o Estado não recolhe os corpos. Na Europa existem terras sem lei também, chamadas de banlieue (francês) ou no-go area (inglês), onde vidas baratas se amontoam e o Estado não põe o pé.

Mas, para além ou aquém de questões legais, fato é que é impensável alguém nascer no Brasil sem ser instado a falar a mesma língua dos habitantes. Se houver uma festa do trabalho, nem passará pela cabeça do brasileiro deixar de chamar o imigrante por ser imigrante. Ao contrário, este será objeto de curiosidade e sua companhia para conversa será disputada. Vem de um país em guerra? Todos se empolgarão com a ideia de ouvir em primeira mão as impressões daquele indivíduo diferente, porém familiar, sobre tudo aquilo que passa na TV num país tão exótico.

Quando não for tratado com curiosidade, o imigrante poderá passar por brasileiro na multidão, dado que não existe um tipo étnico brasileiro único e qualquer um – negro, branco, moreno, japa – pode passar por nativo. Se um marroquino islamista resolvesse se isolar no Brasil, sempre haveria quem olhasse para a sua cara no meio da rua e perguntasse, em português, se o ônibus tal já passou. Na Europa, não. Lá ele teria sempre o aspecto de imigrante, e seus filhos não-miscigenados também. Lá o branco não lhe dirigiria a palavra espontaneamente, mesmo que tivesse nascido, crescido e obtido a cidadania de um país europeu.


As mulheres fritas pelo multiculturalismo

Mas voltemos a Ayaan Hirsi Ali. Nos dias de hoje, a funcionária holandesa, bem como a maioria da opinião pública holandesa, acharia muito feio isso de dizer para uma somali que ela não precisa se entregar a um desconhecido porque seu pai surgiu de repente e assim determinou. Afinal, existem múltiplas culturas e moça Ayaan, em vez de ser olhada como uma alma individual e sagrada, seria tida por membro de uma cultura a ser respeitada. Respeita-se a cultura, não a pessoa. Sabem aqueles antropólogos que acham bom deixar o índio matar bebê gêmeo porque é uma questão cultural? Pois então: na Europa rica, o pós-modernismo está fazendo a mesma coisa com os filhos de imigrantes. Não com o índio perdido no meio da selva, que o brasileiro da cidade nem sabe que existe: é com a atendente do café deles, com a garçonete, com a diarista. Dalrymple vira e mexe escreve sobre o drama de suas pacientes nascidas e criadas na Inglaterra, formalmente cidadãs inglesas, a quem as famílias paquistanesas tratam como querem, porque a polícia não quer ser acusada de racista pelos burocratas progressistas.

É claro que, em suas bolhas, o europeu branco pode achar que tudo é um problema de gente morena que habita certos bairros ou no-go areas. Mas Ayaan Hirsi Ali tenta abordar, em seu novo livro, o problema que a combinação de imigração muçulmana e burocracia pós-moderna já causa para mulheres europeias de um modo geral.

Em primeiro lugar, é difícil tratar do assunto, porque a própria burocracia dificulta a análise de dados relativos à violência contra a mulher. Se um casal jovem bebe junto, vai para a cama e no dia seguinte a moça se arrepende, isso conta como estupro. Assim, zonas ricas sem imigração também vão ter um índice alto de violência sexual. Por outro lado, se uma mãe pobre está abrindo a porta de casa com um bebê no colo com medo de um homem predatório, isso não conta como violência sexual até que ela seja estuprada. E, quando ela for estuprada, terá todos os motivos para não meter a polícia no meio, caso more numa banlieue.

E se ela for branca, for estuprada por um árabe e procurar a polícia? Para encontrar registros de muçulmanos estuprando europeias, será preciso ler um a um os relatos das vítimas registrados pela polícia – porque a polícia, seguindo a ordem de burocratas pós-modernos, não vai registrar a nacionalidade ou a religião, para não fomentar o racismo. Nisso, espanta a arrogância dessa burocracia: como não percebem que, assim, fomentam uma grande incredulidade perante as instituições e que a falta de transparência não ajuda em nada a enxergar os imigrantes honestos? Só se eles, no fundo, acreditam mesmo na supremacia do homem branco, de modo que o estupro seja algo natural entre os povos ao sul do Mediterrâneo, sem distinção entre um islamista marroquino ou um brasileiro normal.

Conta ainda Hirsi Ali que existem áreas, nessas no-go zones, em que mulheres na rua são proibidas. Isso bate com relato de viagem de Dalrymple em Qualquer coisa serve: há banlieues nos arredores de Paris em que as mulheres simplesmente não põem o pé na rua. Entra o repórter para entrevistar uma, que garante estar satisfeita vivendo a sua própria cultura. O repórter não parece se perguntar se ela poderia responder outra coisa. Dalrymple tinha razão no seu ceticismo, pois Hirsi Ali conta que algumas feministas europeias quiseram entrar numa dessas áreas para mostrar a realidade das mulheres por lá. Obviamente, não puderam, e não havia garantias para a sua integridade física caso entrassem no maravilhoso “jardim” (como diria Kabengele Munanga) plantado por muçulmanos de terceiro mundo.

Hirsi Ali diz a um espantado Jordan Peterson que a mentalidade pós-moderna, sim, é supremacia branca. A humanidade inteira foi escravocrata em algum período e povos de todas as cores foram imperialistas, mas o pós-moderno acha que só o branco tem agência moral para assumir culpa. Por que isso? Árabes e negros são como menores de idade e só o branco deve ser legado a sério como ente moral?

Dar valor ao que temos

Para Hirsi Ali, o problema do Ocidente é ter parado de acreditar em si mesmo. A filosofia niilista dos pós-modernos é a expressão disso: a cultura ocidental passa a ser somente mais uma cultura entre várias culturas, sem nenhuma razão para ser preferível. A igualdade dos indivíduos perante a lei, a liberdade de expressão, o respeito à mulher e à dignidade da vida humana: tudo isso passa a ser tão valorizado quanto a gangue de jihadistas que espancam e estupram mulheres.

Nessas horas, cabe olhar para as nossas favelas e compará-las às banlieues e no-go areas da Europa rica. Em nosso país ocidental de formação cristã medieval, nunca será socialmente aceitável portar-se como estuprador perante uma mãe com um bebê abrindo a porta de casa. Nunca entrará nas cogitações do traficante mais vil a ideia de criar uma área onde as mulheres não possam pôr o pé na rua. E mesmo entre os traficantes mais vis o estupro é um crime abominável, a ser punido da maneira mais intimidadora.

Nosso país não aprendeu a olhar as mulheres como gado. Nem a ver gente estranha como membro de raça ou cultura, em vez de indivíduo portador de uma alma imortal. Isso, nenhum governo nos tira. A inflação pode chegar a um milhão por cento ao mês, o PSOL pode se eleger para o governo federal, o STF pode decidir abolir a letra A do alfabeto e os burocratas podem passar leis iguais às pós-modernas da Europa. Mas, para o bem e para o mal, o Estado brasileiro não é eficiente. E a formação cultural do nosso povo estará sempre lá, sólida, independente das bagatelas do noticiário. Com uma régua moral, e pecuniária ou política, digo que moro no melhor país do mundo.

O poder multiplicador de uma dose de vacina


As máscaras ajudaram? O distanciamento social também? Sim e sim. Mas não há como ignorar o fato de que, entre aquele que poderia ter sido o vetor que espalharia a doença e outras quatro famílias, havia uma vacina. Leonardo Coutinho para a Gazeta do Povo:


Na sexta-feira passada, meu filho adolescente passou a tarde com quatro amigos. Zanzaram pela cidade, pegaram metrô e terminaram o programa jantando juntos. Hambúrgueres, asas de frango encharcadas de molho barbecue e muita prosa depois de dias sem se encontrar e da neve que manteve quase tudo ainda mais trancado. Meia hora depois de chegar em casa, depois daquela tarde movimentada, ele desceu as escadas com os olhos arregalados. Um dos amigos havia acabado de ligar para informar que a professora de balé da irmã tinha diagnóstico de Covid-19. Ou seja, os garotos passaram a tarde e o início da noite juntos e expostos a uma pessoa que esteve em contato permanente com alguém que podia estar contaminado. Por mais que tenham usado máscaras, havia todos os ingredientes para algo dar errado. Logo depois da notícia de que o coronavírus poderia ter chegado dentro de nossa casa, ele revelou que restava torcer para a vacina funcionar. Apesar de ter apenas 17 anos, o amigo já havia recebido as duas doses de uma das vacinas disponíveis aqui nos Estados Unidos. Um ponto fora da curva por ele trabalhar em meio período em uma instituição que abriga idosos. Como havia dito meu filho. Restava confiar na vacina.

Foram cinco dias com todo mundo usando máscaras dentro de casa e, na medida do possível, isolamento. A receita foi repetida nas outras três famílias, principalmente porque, já no domingo, os pais do amigo também testaram positivo para Covid-19. Diante do quadro de contaminação geral na casa do rapaz, mais do que nunca restava confiar na vacina.

Nesta semana, os outros três garotos potencialmente expostos ao coronavírus também foram testados. Todos deram negativo. As máscaras ajudaram? O distanciamento social também? Sim e sim. Mas não há como ignorar o fato de que, entre aquele que poderia ter sido o vetor que espalharia a doença e outras quatro famílias, havia uma vacina.

Não faltam explicações sobre a relevância de o maior número de pessoas serem vacinadas para frear o alastramento de uma doença. Obviamente, as vacinas não são capazes de garantir 100% de eficácia. Mas, bem na prática, vivi nos últimos dias o compasso de espera de quem só não pegou a doença, porque entre o vírus e minha família havia uma pessoa vacinada.

Suponhamos que o rapaz tivesse sido contaminado e transmitido para os quatro amigos. E se esses amigos tivessem levado a doença para suas famílias. Teriam ocorrido pelo menos outras dezoito infecções apenas nos círculos familiares. Uma única pessoa vacinada protegeu facilmente mais algumas dezenas de pessoas, já que cada um daqueles potenciais doentes poderia ter interagido com mais pessoas.

A América do Sul parece já ter se livrado de seu pior momento desde o início da pandemia. O Brasil, por sua vez, ainda enfrenta o pico da segunda onda por suas complexidades regionais que produzem picos em momentos diferentes em cada parte do país, que vão estendendo a duração do período mais crítico do surto.

Na região, como em toda a América Latina, a batalha pelas vacinas virou a pauta central, onde todo mundo mira o sucesso do Canadá, no Norte, e do Chile, no Sul. Exemplos não tão exemplares assim.

Os canadenses assinaram contratos de compra de 400 milhões de doses – nove vezes mais que o necessário para imunizar sua população de 38 milhões de pessoas. E até agora aplicou apenas 1,7 milhão de doses, menos de 22% que o Brasil já foi capaz de aplicar até o dia 25 de fevereiro. Em termos per capita, os números canadenses melhoram, mas não se distanciam muito da realidade brasileira.

O Chile é uma belezura. No dia 24, o país apresentava uma taxa de vacinação de 16%, mais que o dobro da Europa (7%) e quase quatro vezes maior que a do Brasil (3,6%). Mas os números absolutos explicam o sucesso chileno. Com 19 milhões de habitantes, o Chile tem uma população menor que a da Região Metropolitana de São Paulo, onde vivem mais de 22 milhões de habitantes. Escalas incomparáveis, entretanto.

China e Rússia, que estão fazendo maior barulho para vender suas vacinas pelo mundo, não têm sido capazes de produzir doses nem para sua população. Segundo o último dado disponível da China, em 9 de fevereiro, apenas 40,5 milhões de chineses foram imunizados. Entre os russos, menos de 4 milhões já haviam recebido a vacina.

Há elementos suficientes indicando a incapacidade dos fabricantes entregarem as doses acordadas até para quem chegou na frente, como os canadenses. Mas, a pandemia provocou um efeito colateral improvável: cegueira. Quase ninguém consegue enxergar que não existem vacinas suficientes e que o vale-tudo por elas pode sair muito caro.

O exemplo do amigo do meu filho se tornou, em meu microcosmo social, a evidência de que boas vacinas serão capazes de nos proteger e nos permitir recuperar a vida normal. Mas é preciso disponibilidade. Potências como Alemanha e França aplicaram até agora menos doses que o Brasil. E não significa que nosso país está bem. É um indicativo de que todos estão em uma fila que não anda.

Quando o Supremo Tribunal Federal autoriza estados e municípios a negociar vacinas isoladamente, inclusive com produtos não aprovados, apenas abre as porteiras para o lobby internacional, a manipulação de governos como o chinês e o russo e pavimenta o caminho para uma praga típica de contratos emergenciais: a corrupção.

Não falta vontade no mundo. Faltam vacinas. Infelizmente.

Os esforços devem ser para que mais casos, como o do amigo do meu filho, se alastrem pelo mundo. Ele foi imunizado. O corpo dele deixou de ser uma arma silenciosa e se transformou em uma barreira que protegeu seus amigos e suas famílias. Mas não foi qualquer vacina. Não deve ser qualquer vacina. Não pode ser de qualquer forma. A pandemia vai passar e o que ficará depois dela?