quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Até domingo

 Blog de folga. 

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Dinheiro na mão é vendaval


Coluna de Carlos Brickmann, publicada nos jornais de quarta-feira, dia 27 de outubro:


Pagar R$ 400 reais por mês para famílias que correm o risco de morrer de fome é dificílimo, fura o teto de gastos, arrebenta o Orçamento federal. E, se houver aumento no auxílio, não haverá como honrá-lo.

Mas o ministro da Educação, Milton Ribeiro, quer dividir instituições de ensino superior já existentes para criar cinco universidades e cinco institutos técnicos. Não será criada nenhuma vaga para estudantes. Em compensação, serão criadas vagas para 2.912 novos funcionários, com gastos novos (pedido do Centrão): de acordo com o Ministério da Economia, R$ 500 milhões por ano. O Ministério da Educação diz que o custo será de R$ 147 milhões – só isso, e o ministro acha que não é muito. Muito é o auxílio de R$ 400 mensais.

Falta dinheiro para R$ 400 mensais. Mas para aluguel de prédios de luxo, que ficam em boa parte desocupados, o Governo tem. A AGU, Advocacia Geral da União, paga R$ 1,5 milhão de aluguel mensal, revela o colunista Cláudio Humberto – e acrescenta que boa parte do prédio está desocupada há pelo menos dois anos. Pelos cálculos de um advogado da União, citado pelo colunista, só o aluguel pago pelos espaços vazios da AGU cobriria o valor extra do auxílio para um milhão de pessoas. A Procuradoria Geral da Fazenda Nacional faz parte da AGU, mas ocupa outro prédio, também vazio em boa parte.

Cláudio Humberto completa: mais de 20 prédios locados ao Governo Federal têm uso inferior a 20%. Não há orçamento que aguente.

A fonte dos recursos

Pegue sua conta de luz. Este colunista pegou a conta de uma pessoa que mora sozinha. O custo está discriminado direitinho: valor total, R$ 203,57. De eletricidade, mesmo, a conta é de R$ 49,97. Impostos diretos e encargos, R$ 60,54 – você paga mais de imposto do que de energia. É daí que sai todo o dinheiro para as mordomias e luxos brasilienses.

Mas não é só isso que sai de seu bolso: serviço de distribuição, quase tanto quanto de luz: R$ 47,70. E serviço de transmissão, R$ 8,53. Algum especialista certamente saberá dizer qual a diferença entre distribuição e transmissão. Encargos setoriais, seja lá isso o que for, R$ 8,88. Perda de energia no caminho até sua casa, você paga: R$ 11,56. Há R$ 2,45 de bandeira amarela, R$ 6,03 de bandeira vermelha, mais R$ 15,89 de iluminação pública.

Como o caro leitor usa também a luz das ruas, vamos fazer a soma: R$ 49,97 mais R$ 15,89, total R$ 65,86. Mesmo assim, só o imposto quase duplica a conta. E, no final, são R$ 203,57.

Mas há despesas

Afinal de contas, é preciso pagar despesas inadiáveis, como as novíssimas universidades que só terão custos, mas não terão vaga para nenhum estudante. E para pagar coisas como a farra aérea do dia 21 de agosto. Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, requisitou avião da FAB para viajar de Brasília a São Paulo com Michelle Bolsonaro, para assistir a um evento do programa Pátria Voluntária, coordenado pela primeira-dama.

Decreto do Governo Federal determina que a comitiva que acompanha a autoridade no avião deverá ser ligada à agenda a ser cumprida. Mas, apesar do decreto, o avião cujas despesas o caro leitor paga transportou sete parentes da primeira-dama, mais a esposa do ministro do Turismo, Sarita Pessoa, de carona. À noite, Damares e Michelle participaram da festa de aniversário do maquiador Agustín Fernandez. Na volta, Agustín Fernandez também pegou carona no voo, ao lado da filha mais velha, de três irmãos, de uma cunhada e de dois sobrinhos de Michelle, e de Sarita Pessoa.

Exemplo não seguido

Num país evidentemente muito mais pobre que o Brasil, a Alemanha, a primeira-ministra Angela Merkel passou as férias na Croácia, com o marido. Ela, por questão de segurança, viajou no avião oficial; o marido foi em voo comercial, ida e volta. E explicou: se viajasse no avião oficial, teria de pagar tarifa cheia de primeira classe, sem desconto. Preferiu economizar: voou em linha comercial, ida e volta, classe turística. Aliás, em recente entrevista, Angela Merkel disse que, nos 16 anos de poder, continuou morando em seu apartamento, sem empregada. Deixa o Governo sem precisar fazer mudança.

Pedra no caminho

Segunda-feira que vem é dia 1º, quando os caminhoneiros, tanto patrões como empregados, ameaçam entrar em greve. Wallace “Chorão” Landim, um dos líderes da paralisação de 2018, presidente da Associação Brasileira de Condutores de Veículos Automotores (Abrava), diz que não haverá recuo, a menos que o próprio Bolsonaro anuncie a mudança na política de preços de combustíveis da Petrobras. E não quer nem conversa com Tarcísio Gomes de Freitas, ministro da Infraestrutura, a quem acusa de ter feito promessas em nome do Governo sem jamais cumpri-las.

Ou Bolsonaro ou ninguém.

Mas...

Anteontem, a Petrobras anunciou nova alta na gasolina (7%) e diesel (9,1%). Com isso, só neste ano a gasolina subiu 73%, e o diesel 65,3%.

Será que existe direito ao sexo para quem não é branco, magro e perfeito?


Filósofa nos convida a imaginar nossos desejos livres das estruturas de poder, mas é impossível domá-los. A crônica de João Pereira Coutinho para a FSP:


Não é todos os dias que uma reputada professora de Oxford nos apresenta o conceito de "unfuckability".

Mas aconteceu: Amia Srinivasan, 36, é o fenômeno intelectual do momento —e a sua coletânea de ensaios, "The Right to Sex: Feminism in the Twenty-First Century" (Farrar, Straus and Giroux), é já considerada um clássico do novo pensamento feminista.

Das tribulações da pornografia à raiva dos "incels" (celibatários involuntários), sem esquecer as relações íntimas entre professores e alunos, não há território interdito para a indagação filosófica de Srinivasan.

Mas é o ensaio que dá título ao livro que merece maior atenção: será que existe um "direito ao sexo", sobretudo para aqueles que têm pouco?

A questão é respondida negativamente: em matéria sexual, ninguém deve nada a ninguém. Acreditar no contrário seria aceitar, perversamente, que os psicopatas "incels" têm alguma razão quando culpam as mulheres de não estarem disponíveis para aliviar as carências dos rapazes.

Porém, se não existe um "direito ao sexo", não haverá um dever de reavaliarmos os nossos valores para resgatar da "unfuckability" quem merece um segundo olhar?

O feminismo contemporâneo, segundo Srinivasan, centra-se apenas em questões de consentimento, procurando saber se a relação sexual foi ou não desejada.

Mas essa posição, argumenta a autora, acabou por encerrar o feminismo na lógica da livre troca capitalista: se o vendedor e o comprador participam voluntariamente no negócio, parece que é indiferente saber quais as condições que determinaram as dinâmicas da oferta e da procura.

Pois bem: Srinivasan está interessada nessas condições —as condições ideológicas do desejo. Aqueles que desejamos não são uma mera preferência pessoal ou natural. São o resultado de males vários —o racismo, o capacitismo, a gordofobia etc.— que levam a maioria a preferir corpos brancos a corpos negros, corpos perfeitos a corpos com deficiência, corpos magros a corpos gordos etc.

Naturalmente que Srinivasan não defende qualquer política coerciva que obrigue os seres humanos a sentirem desejo pelos "unfuckables", o que não deixa de ser um alívio.

Ela apenas nos convida a imaginar como seriam os nossos desejos se eles fossem realmente livres, ou seja, não condicionados por estruturas de poder (que, escusado será dizer, merecem ser desmanteladas).

Para ela, imaginar esse mundo não apenas é necessário como possível: quem disse que os nossos desejos não podem ser "transfigurados"?

Com a devida vênia à filósofa, digo eu: a ideia de que, pela força da vontade, é possível forçar o desejo por caminhos alternativos (e socialmente menos injustos) é não entender a natureza visceral e instintiva do desejo.

O coração deseja o que o coração deseja, para citar o velho adágio, e não o que os engenheiros sociais gostariam que ele desejasse.

Claro que nessa dança os mais belos têm vantagem. Mas isso não decorre de estruturas de poder que conscientemente marginalizam os feios.

Decorre, tão só, do fato humano, demasiado humano, de a alma se agitar mais facilmente com aquilo que é mais fácil. E não há coisa mais fácil do que desejar o que é belo.

Mas até essa regra tem exceções que a infirmam: só cabeças adolescentes partem do pressuposto de que o desejo não acolhe outros corpos, de outros tamanhos ou feitios.

O que Amia Srinivasan nos pede —um segundo olhar para os "unfuckables"— já acontece com um primeiro olhar, sem que a piedade, a compaixão ou a justiça social tenham alguma coisa a ver com o assunto.

A única forma de conseguir uma distribuição equitativa de desejos passaria sempre por um mecanismo coercivo em que os seres humanos seriam emparelhados por todos os motivos, exceto pelo único que interessa: a vontade de estarem juntos.

Seria, paradoxalmente, um regresso ao passado e aos casamentos combinados que se faziam, não por razões de inclusão, mas de propriedade (no duplo sentido da palavra).

Bem sei que Amia Srinivasan não aceita essa aberração. E que o seu convite para questionarmos as razões por que desejamos o que desejamos é apenas isso: um convite.

Mas, sabendo que as relações entre os sexos serão sempre território íntimo e movediço, talvez o máximo que podemos exigir é mesmo que o consentimento esteja presente sem equívocos.

Biologia é a melhor explicação para diferenças de escolha de carreira entre homens e mulheres


Nos países com mais liberdade e menos discriminação por sexo, homens e mulheres se tornam mais diferentes, não mais iguais, em escolhas de carreira. Artigo do biólogo Eli Vieira, publicado pela Gazeta do Povo:


Em 2010, a ciência da natureza humana ganhou um aliado improvável: um comediante e sociólogo norueguês, Harald Eia. Se tivéssemos de imaginar que tipo de pessoa faria uma obra influente a respeito disso, dificilmente escolheríamos essas características. A obra foi Lavagem Cerebral, uma série documental em sete episódios em que Eia, num estilo não-confrontativo e bem humorado, conversa com especialistas de instituições locais sobre esse tema, e depois, geralmente em viagens internacionais, pergunta aos biólogos e psicólogos que não ignoram a biologia se o que os especialistas pagos com impostos disseram estava certo. Geralmente, não estava.

O primeiro episódio trata do paradoxo da igualdade de gênero, ou seja, do fato de que, nos países com mais liberdade e menos discriminação por sexo, homens e mulheres se tornam mais diferentes, não mais iguais, em escolhas de carreira. Um dos entrevistados é Richard Lippa, autor de um estudo publicado dois anos antes da entrevista. O estudo impressiona pela escala: 200 mil participantes em 53 nações.

No estudo, Lippa mostra a importância da igualdade entre os sexos: os índices de “desenvolvimento de gênero” e de “empoderamento de gênero” da ONU se correlacionam de forma muito alta com a renda por pessoa. Faz sentido: quando a pessoa individual tem dinheiro, ele faz valer os seus direitos, e vice-versa. Mas a descoberta maior do estudo é que a realidade biológica do sexo foi a melhor explicação para as diferentes escolhas de carreira entre homens e mulheres. Mais de uma década após o estudo de Lippa, ele continua relevante.

“Eu escolhi minha profissão. Como é possível a explicação ser biologia?”

É importante notar que homens e mulheres são mais parecidos do que diferentes, afinal, são a mesma espécie. As diferenças estão na média, no agregado, nos padrões que vemos nos grupos. Esses padrões revelam tendências que têm uma parte biológica nos neurônios e nos genes, e nossa personalidade é parte do fenômeno, tem bases biológicas. Então, não é o caso de o indivíduo ser desprovido da capacidade de decidir, mas que ele tende a decidir guiado pelo que ressoa mais com o que brota espontaneamente dentro de si.

Em países livres e prósperos, os indivíduos podem escolher profissões que realizam as suas preferências. Em países pobres e sob regimes autoritários é a sobrevivência, e não o conforto entre a labuta e a personalidade, o que dita as decisões. Alegar que os países livres e ricos são patriarcados opressivos que conspiram contra a suas mulheres, e que isso explicaria sua maior diferença em escolhas de carreira, seria puro conspiracionismo.

A personalidade de homens e mulheres, na média, é diferente. Profissões diferentes atraem personalidades diferentes. Logo, homens e mulheres são atraídos por profissões diferentes em proporções diferentes. Elas são mais atraídas por profissões em que lidam com pessoas e cuidados. Eles são atraídos por profissões em que lidam com objetos inanimados. Isso se reflete até dentro de especializações: na medicina, eles vão preferir a radiologia, elas vão preferir a pediatria. Na programação de computadores, elas vão preferir a interface com o usuário, eles vão preferir a estrutura por trás disso. Sempre há exceções. Mas os padrões são informativos e têm a ver com biologia.

Quando os padrões são desafiados, é interessante notar que homens e mulheres que fazem escolhas de carreiras atípicas para seu sexo são, também no agregado, atípicos para seu sexo. É simplesmente verdade que há mais gays e lésbicas nesses grupos. Não é para se concluir que todos que optaram assim são gays e lésbicas, mas para se reconhecer a verdade de que há um agregado de gays e lésbicas em certas profissões, quando são livres para escolher, e que gays e lésbicas são atípicos para seu sexo pois a maioria das pessoas é heterossexual.

Também não se trata de afirmar que só a biologia explica essas coisas. Porém, seria insistir na ignorância ignorar a importância de seu papel, como fizeram vários dos entrevistados de Harald Eia.

As diferenças de personalidade

Diferentes métodos são usados para aferir os componentes da personalidade. Uma das teorias mais populares hoje é que a personalidade pode ser partida em cinco grandes características (Big 5): abertura a experiências, conscienciosidade (ser organizado, pontual, regrado), extraversão (se é introvertido ou extrovertido), agradabilidade (se é alguém aprazível ou sisudo) e neuroticismo (se tem tendência a emoções negativas).

Como explicam David P. Schmitt, do Departamento de Psicologia da Universidade Bradley, e colaboradores, observam-se diferenças de moderadas a grandes em agradabilidade, busca de sensações novas (correndo riscos, por exemplo), agressividade física, interesse em coisas versus interesse em pessoas, atitudes com relação ao sexo e comportamentos sexuais como masturbação e uso de pornografia. Você que está lendo é capaz de adivinhar para qual dos sexos cada uma dessas diferenças vai. Outras diferenças existem, e são menores.

O debate científico sobre as diferenças entre sexos no cérebro

Em 2015, na revista científica PNAS, um grupo liderado pela cientista israelense Daphna Joel publicou um artigo em que sugeria que a maior parte das pessoas têm um “cérebro mosaico” com relação ao sexo, o que parece sugerir que o padrão da humanidade é a ambiguidade sexual cerebral e que as aparentes diferenças naturais seriam construídas pela cultura. O artigo, por confirmar vieses progressistas, causou um imenso alarde na imprensa. Já as respostas ao artigo, na mesma revista e mesmo edição, que utilizaram os mesmos dados dele para mostrar o contrário, foram ignoradas.

Joel, junto à escritora Cordelina Fine e a neurocientista Gina Rippon, encampam uma oposição ao mainstream do estudo das diferenças de sexo que faz muito barulho na mídia popular e no departamento de relações públicas de instituições científicas, mas tem pouco entusiasmo na área. Melissa Hines, Larry Cahill e Simon Baron-Cohen são alguns dos pesquisadores que estudam essas diferenças.

No caso do último, estudioso do autismo, o assunto é importante porque meninos têm mais autismo que meninas, e Baron-Cohen propõe que o autismo poderia ter algo a ver com uma exacerbação no desenvolvimento de áreas do cérebro mais pronunciadas na masculinidade.

A dra. Hines desenvolve pesquisas brilhantes na área, um de seus resultados mais recentes foi que meninas com hiperatividade de glândulas adrenais, que produzem hormônio masculino em seu organismo, têm mais dificuldade em serem socializadas em normas sociais e são mais rebeldes.

Já o dr. Larry Cahill alerta para o perigo de presumir que os sexos são iguais no cérebro: ele conta, por exemplo, que as mulheres estavam tomando uma dose alta demais recomendada pela bula de um sonífero por causa da confusão da “igualdade”.

Hoje há uma pressão política para que todas as profissões atinjam 50% de vagas para cada sexo. Enquanto há profissões que atraem homens e mulheres nas mesmas proporções, essa é uma expectativa irreal para profissões que tocam nas diferenças naturais de cérebro e personalidade entre sexos. Leva a injustiças, como afastar os interessados e bajular os desinteressados. E à infelicidade, pois as pessoas não gostam de se dedicar a profissões que não ressoam com suas preferências e personalidades.

Tocqueville, historiador.


Pedro Schwartz resenha, para o Instituto Cato, a obra El antíguo regime y la revolución, do pensador Alexis de Tocqueville, que procura mostrar como, entre outras coisas, o crescimento do Direito Administrativo e a erosão das liberdades caminharam lado a lado:


En el Club Tocqueville no hace falta detallar la biografía del admirable Alexis Clerel de Tocqueville, pero sí colocar el gran libro que es L’ancien régime et la révolution en el contexto de los principales detalles de su evolución filosófica y política, pues normalmente se le recuerda sólo por La démocratie en Amérique.

Nació en 1805 pero lamentablemente murió en plena madurez en 1859. La familia Clérel de Tocqueville pertenecía a la vieja aristocracia normanda, lo que no huelga recordar porque así se explica el escándalo familiar que supuso su análisis de la posibilidad de funcionamiento de un sistema democrático en una extensa nación, como era la joven República americana. También hay que notar sus convicciones religiosas como católico que era. Cursó Derecho en la Universidad de París y accedió a la Magistratura por oposición. Fue enviado a EE.UU. para estudiar el sistema penitenciario americano, estudio que recogió posteriormente en un Informe escrito junto con su acompañante en el viaje, su gran amigo Gustave de Beaumont. Las observaciones durante su estancia de menos de un año, las plasmó en La démocratie en Amérique. Es extraordinario que, pese a la brevedad de su estancia y su rudimentario inglés, pudiera penetrar con tan gran fortuna en la sociología y la política de un país que le era extraño en más de un concepto. En 1835 publicó el resultado de su estudio en el famosísimo De la démocratie en Amérique. También en ese año se casó con una muchacha inglesa de clase media y muy activa en cuestiones de política social, Mary Mottley, lo que disgustó a su familia. El libro y el segundo volumen del mismo, publicado en 1840, tuvieron gran éxito, y no sólo en EE.UU. Ello le llevó a ser elegido académico de la Académie des Sciences Morales et Politiques y, honor supremo, de la Académie Française. También fue recibido Tocqueville con especial atención en Inglaterra, donde trabó amistad con Nassau Senior y Stuart Mill, quien por su influencia corrigió la tendencia centralizadora de obras anteriores. Luego inició una breve carrera política, que se inició con su elección como diputado del distrito de La Manche. Se mostró partidario de la Revolución de 1848, llegó a ser ministro de Asuntos Exteriores del Gobierno moderado desplazado por Luis Napoleón Bonaparte y, habiéndose opuesto al golpe de Estado que llevó a la proclamación de éste como emperador con el nombre de Napoleón III, sufrió una breve detención y abandonó la carrera política.

Tardó cinco años en publicar el libro del que estamos ocupándonos. L’Ancien Régime et la Révolution es un texto notable, todo al servicio de la claridad, por la paciente investigación histórica sobre la que basa sus conclusiones y por el elegante estilo literario con sus afortunadas metáforas, que recibió el reconocimiento de immortel de la Academia. También merece atención por sus tesis: subraya la tendencia a la centralización en Francia, no limitada tras la Revolución y el Imperio, y ya secularmente presente en la monarquía de los Luises. Los franceses, dice en la Introducción, prefieren el orden a la libertad. Él, por su parte, confiesa tener “una inclinación intempestiva por la libertad”.

“Plusieurs m’accuseront peut-être de montrer dans ce livre un goût bien intempestif pour la liberté, dont on m’assure que personne ne se soucie plus guère en France.”

[“Varios me acusarán a lo mejor de mostrar en este libro un aprecio intempestivo por la libertad, de la cual me aseguran que nadie apenas ya se preocupa en Francia”]

Se ha hablado mucho sobre el carácter aristocrático de la libertad según la concebía Tocqueville en su esencia y en sus efectos. Cito la frase siguiente, en la que Tocqueville castiga el deseo de riquezas del hombre democrático:
“El deseo de enriquecerse a cualquier precio, el gusto por los negocios, la búsqueda del bienestar y de los goces materiales, son las pasiones más comunes [en una democracia].”
Solamente la libertad, añade, puede combatir eficazmente los vicios de este tipo de sociedades.

En este punto sí que hay que volver los ojos hacia una conferencia que Benjamin Constant (1767-1830) pronunció en 1819 en el Ateneo de París, titulada De la liberté des Anciens comparée avec celle des Modernes. Los antiguos eran los ciudadanos de las polis griegas, para quienes, dijo, libertad significaba la participación directa en el gobierno de la ciudad; y los modernos querían libertad para poder dedicarse a su vida privada y sus negocios y todo lo más, elegir representantes que se ocupen de la política. Quería echar por tierra la ideología revolucionaria de Robespierre y sus acólitos, que desembocó en el Terror. Aquí se ve que Constant debería haber evitado una separación tan radical entre lo privado y lo público y haber seguido el camino señalado por Pericles en su discurso sobre las víctimas de la guerra contra Esparta. En todo caso, Constant sí que nos permite ver que Tocqueville no entendía del todo lo indispensable de la libertad económica para las libertades públicas.

La tesis del libro

Una de las conclusiones más interesantes de este libro fue que no debe atribuirse ni a la Revolución ni al Imperio la deriva de Francia hacia la centralización. El estudio de Tocqueville de este fenómeno contiene aplicaciones a cierta forma de ‘liberalismo’ muy en boga durante el s. XIX, también en España, en la que se confundió la filosofía liberal con la construcción racional de un Estado. Publicado con mucho éxito otra vez el libro que tenemos entre manos, no pudo por desgracia acabar otras obras prometidas pues murió prematuramente de tuberculosis, como otros grandes artistas y escritores de ese siglo.

El libro es un ejemplo preclaro de histoire raisonnée, de historia con tesis. No teman. Tocqueville no impuso su tesis a los hechos, sino que los observó para comprobar que la tesis no venía contradicha por ellos. Se esforzó por estudiar la legislación del Antiguo Régimen. Acudió a los archivos para estudiar la correspondencia de los administradores del sistema. Se fijó especialmente en las provincias donde el poder central no se imponía a las costumbres locales. También leyó los cahiers de doléances presentados a los États généraux por los tres estamentos sociales (clero, nobleza, y burguesía). Además, consultó las opiniones de otros politólogos como Montesquieu o Turgot. Todo ello le convenció de que podía sostener la tesis de la destrucción de las libertades por la centralización ya durante la monarquía. En la Francia del Antiguo Régimen se distinguían tres grandes territorios fiscales: Pays d’État, Pays d’Élection, y Pays d’Imposition. Los primeros gozaban de autonomía fiscal y sobre todo de realización del gasto público; el nombre de los segundos recordaba los territorios que en tiempos pasados habían podido elegir el sistema fiscal que preferían de los ofrecidos por el poder; a los terceros simplemente se les imponía. Pues bien, Tocqueville destacó con gran detalle documental en un apéndice el buen funcionamiento del sistema descentralizado en el País de Estado de Languedoc. Al observar lo que dijo Tocqueville de la descentralización en su tiempo, he reflexionado sobre lo ocurrido en el Estado de las Autonomías de la España de hoy: la descentralización se tuerce y estropea cuando las regiones reclaman la independencia para evitar la disciplina traída por la competencia de otras regiones.

Tocqueville y Marx

Es instructivo comparar el modo de hacer historia de Tocqueville, tan atento a los hechos y los documentos, con el de Carlos Marx. Cierto es que Marx consultó los datos de los Blue Books del Parlamento inglés en el Museo Británico. También atendió a las observaciones del libro La situación de la clase obrera en Inglaterra, escrito por su amigo y financiador Friedrich Engels (fábricas Marx vio pocas). Sin embargo, el objetivo que buscó con ahínco fue encajar los datos de la realidad en el lecho de Procrusto de una ley histórica hegeliana. Incluso se atrevió a augurar para el capitalismo un inevitable futuro de catástrofe. Pocos filósofos han errado tanto como él en su versión del pasado (acumulación primitiva), en su análisis del presente (inmiseración del proletariado), en sus predicciones (implosión del capitalismo)… Queda clara la diferencia entre el método ‘científico’ que aplicó Marx a la historia y el intento de Tocqueville de escribir la historia del pasado als es eigentlich gewesen ist, como realmente ocurrió, en expresión de Leopold von Ranke.

Gracias a su respeto de los hechos, consigue Tocqueville explicar por qué la Revolución cruel e igualitaria que bullía en toda Europa estalló con tanta violencia en Francia. Para ello se fija en tres elementos: el resentimiento del Lumpenproletariat que trabajaba en el campo o en los barrios obreros de París y Lyon; la injusticia sentida por el pueblo bajo ante el sistema fiscal; y el odio que inspiraba la Iglesia católica en gran parte del pueblo francés.

El antiguo régimen y la revolución está dividido en tres partes. El Libro primero argumenta que la Revolución destruyó las instituciones feudales, pero sin proponérselo rescató de las ruinas de la monarquía un elemento esencial del régimen anterior, a saber, la creciente privatización de la propiedad de la tierra a manos de los que la trabajan. El Libro segundo desmenuza la continuidad de la centralización ocurrida en el tiempo anterior, junto con la aparición del Derecho Administrativo, en realidad la construcción del Estado. El Libro tercero señala el notable peso de los intelectuales y continuos avances de la irreligión, como combustible de la quemazón del antiguo régimen.

La construcción del Estado

Tocqueville es especialmente perceptivo al señalar el crecimiento del Derecho Administrativo y la erosión de las libertades como fenómenos parejos. Como ya he dicho, son muchos los historiadores que califican la creación y reforzamiento del Estado durante los siglos XVIII y XIX como una obra del liberalismo. El Estado, especialmente cuando crece su centralización, puede ser un instrumento de la seguridad, pero no de la libertad. Tocqueville era de esta opinión, como hemos visto al hablar de los Pays d’État como era el Languedoc en el antiguo régimen. Como en la monarquía, los tribunales ordinarios eran independientes, aunque lentos, los ministros y los funcionarios que mandaban tendieron a crear tribunales excepcionales, que tuvieran en cuenta los intereses del Estado. A ello contribuía una figura procesal expresiva de la preminencia del soberano, la évocation: el Consejo Real podía llamar a sí cualquier caso presentado ante la jurisdicción ordinaria.

Tocqueville añade a esta descripción de la creciente obesidad del Estado un capítulo transido de suave ironía, el Libro III, capítulo VI, cuya lectura aconsejo vivamente. Es un capítulo sobre “Las costumbres del funcionariado”.

El intendente y sus subordinados lo controlaban todo, lo que provocaba largos retrasos en sus reacciones y decisiones (nunca menos de un año en los expedientes vistos por Tocqueville). Prefieren la esterilidad a la iniciativa. Los delegados locales de los intendentes y los síndicos de las parroquias municipales nada hacían sin permiso. Las comunicaciones entre ellos, dice Tocqueville en tono de suave reconvención, las escriben en un estilo “décoloré, coulant, vague et mou”, incoloro, escurridizo, vago y blando. Peor aún, al ponerse de moda los sentimientos humanitarios y aumentar la influencia de Diderot y Rousseau, su estilo se hace “onctueu et presque tendre”, untuoso y casi tierno. Buscan la destrucción de todos los poderes intermedios. Todo se resume en hacer que la Administración ocupe el sitio de la Divina Providencia.

La importancia de los filósofos ilustrados

Tocqueville señala que los escritores, como él los llama, cobraron en Francia más importancia que en ningún otro país. Su actitud crítica ante la Iglesia, la nobleza y las autoridades acabó destiñéndose en la conciencia de las clases ilustradas. Estos filósofos, al carecer de experiencia política, se mantienen, en sus intervenciones en la cosa pública, en un plano puramente especulativo. Delineaban, cada uno a su modo, “une sociéte imaginaire, où tout paraît simple et coordoné, uniforme, équitable et conforme à la raison”, una sociedad imaginaria, donde todo parece simple, uniforme, equitativo y conforme a Razón.

A nosotros, historiadores del pensamiento económico, nos interesa su durísima crítica a los fisiócratas o ‘economistas’, como él los llama. Los cultivadores de la historia del análisis económico nos interesamos por ellos porque fueron de los primeros en presentar su teoría con un modelo matemático o al menos aritmético. También aplaudimos su eslogan “laissez faire, laissez passer, tout va de soi”. Tocqueville los descalifica por su teoría política, proponer que todas sus recetas debe aplicarlas un déspota ilustrado. Parece que estamos oyendo la voz de Hayek cuando distinguía entre el liberalismo a la escocesa, con Hume, Smith y Ferguson, y el liberalismo continental, a la Rousseau y los enciclopedistas.

La Filosofía social de Tocqueville

Tocqueville, un verdadero amante de la libertad, distingue la tradición de autogobierno de la ideología de la ingeniería del orden social. Rechaza la construcción de un Estado omnipresente, objetivo de los modernizadores. Se opone a la centralización, que desmigaja la sociedad y convierte los individuos en pasto del poder. Rechaza el absolutismo y la ilusión de las reformas impuestas desde arriba. Ve la búsqueda sin límites del bienestar como la antesala del Estado opresor.

Cierto es que le faltaba la comprensión de un orden económico espontáneo, basado en libres acuerdos al margen del orden administrativo. Debemos perdonárselo, porque es valiosísima su contribución a la filosofía de la libertad. Y ahora, ¡a leer L’ancien régime et la révolution!

Este es el texto del discurso que dio Pedro Schwartz en el Seminario de Pensamiento Político organizado por el Club de Tocqueville (Barcelona, España) el 1 de octubre de 2021.

Para saber más:

Constant, Benjamin (1819): De la liberté des Anciens comparée à celle des Modernes. Wikipedia (wikipedia.org).

Hayek, Friedrich von (2009): Individualismo verdadero y falso. Unión Editorial.

Marx, Karl (con la ayuda de Friedrich Engels) (1848): El manifiesto comunista. Muchas ediciones.

Tocqueville, Alexis (1835. 1840): De la démocracie en Amérique. Edición bilingüe de Eduardo Nolla para Liberty Fund. http://files.libertyfund.org/f iles/2286/Tocqueville_1532.02_LFeBk.pdf

Tocqueville, Alexis: La democracia en América. Edición crítica y traducción de Eduardo Nolla. Editorial Trotta.

Tocqueville, Alexis (1859): L’Ancien Régime et la Révolution. (7th ed. 1866) | Online Library of Liberty (libertyfund.org)

Tocqueville, Alexis: El Antiguo Régimen y la Revolución. Editorial Ariel. https://www.tagusbooks.com/leer?isbn=9788491812579&li=1&idsource=3001

Muita pose, pouco serviço: o desmanche da popularidade de Joe Biden.


Nenhum presidente americano perdeu tantos pontos em tão pouco tempo em quase oitenta anos - e a chances de recuperação são discutíveis. Vilma Gryzinski:


Num mundo em que o copo de Joe Biden está meio cheio, ele fecha um acordo sobre o pacotaço de 3,5 trilhões de dólares ainda este mês, o entupimento nas linhas de abastecimento logo é superado pelo engenho humano, o preço da gasolina não vira caso para internação psiquiátrica, a inflação volta a “níveis aceitáveis” em 2022 – palavra de Janet Yellen, hoje secretária do Tesouro -, a pandemia reflui e a assombrosa máquina da economia americana entrega seus frutos fabulosos.

Gradativamente, ele recupera a popularidade, compensa os 11,3 pontos perdidos em nove meses de governo – uma queda nunca vista desde 1945 -, fantasia-se com o manto de novo Franklin Roosevelt e tudo melhora a tempo de esquentar as máquinas para a campanha pela reeleição de 2024.

Com o copo meio vazio, nada disso acontece. Ou acontece apenas parcialmente, sem nunca recuperar os 56% de aprovação que ele teve nos três primeiros meses de governo. Os 44,7% que tem atualmente viram padrão – deixando-o na incômoda posição de presidente com índice mais baixo de aprovação nessa altura de seu mandato, com exceção de Donald Trump.

É uma ironia que Biden, eleito com avassalador apoio de todas as elites mais influentes como o homem que iria exorcizar os Estados Unidos da odiada presença de Trump, hoje faça companhia a ele no limbo dos presidentes impopulares.

Até os programas humorísticos como o Saturday Night Live, que incineravam Trump em sátiras destruidoras – a melhor de todas diabolicamente encarnada por Alec Baldwin, hoje naufragado no trágico caso da diretora de fotografia que matou acidentalmente -, estão começando a despertar para o potencial de Biden como personagem a ser ridicularizado.

No último programa, o presidente contracena com o personagem que era anos atrás, quando “todo mundo gostava de mim” e “a imprensa me chamava de tio Joe”.

O político de gestos populistas e pose de galã da terceira idade, com seus óculos escuros modelo aviador e uma imprensa majoritariamente não só favorável como disposta a relevar qualquer possível “probleminha”, foi desmontado tanto por fatos sobre os quais tinha pouco controle – como a retomada da pandemia quando a coisa já parecia controlada – quanto por desastres inteiramente fabricados por ele mesmo, como a vexaminosa retirada do Afeganistão.

Para sorte de Biden, o país deixou de ser notícia e sumiu do mapa. Mas em seu lugar entraram assuntos movidos por correntes poderosas que afetam a economia planetária, como os engasgos que a recuperação pós-pandemia acelerou. O descompasso entre demanda e oferta criou os pesadelos logísticos do momento.

Os americanos estão com dinheiro no bolso, economizado durante a retração pandêmica, e querem gastar. Em agosto, torraram o equivalente atualizado a 15 trilhões de dólares. Se os produtos não chegam, é claro que se instaura um clima de frustração – e um ambiente fértil para o aumento da inflação.

Os problemas logísticos coincidiram com dois fenômenos. Primeiro, um presidente de 78 anos que passou descansando 106 dos seus 276 dias na Casa Branca – um levantamento feito pela CNN. Justa ou injustamente, passa a imagem de um presidente sem gana de trabalhar, principalmente quando várias crises simultâneas estão bufando no pescoço da nação.

Outro fenômeno: o secretário dos Transportes e ex-rival Pete Buttigieg desapareceu no meio da crise logística. Em meados de outubro, soube-se que ele estava em licença paternidade desde agosto.

Como seus filhos gêmeos são de um casamento homossexual, os críticos morderam os cotovelos o quanto deu, temendo que qualquer referência à licença deixasse transparecer preconceito ou condenação moral. Mas o fato é que um ministro ausente num momento vital e um presidente dado a longos fins de semana criaram a imagem de um governo à deriva.

“Podem falar o nome de qualquer crise e o presidente Biden e sua equipe não têm a menor ideia de como resolvê-la”, escreveu o New York Post num editorial – o jornal é um dos raros que criticam Biden sem restrições.

É claro que são críticas do ponto de vista conservador, centradas principalmente na guinada para a esquerda que Biden, um moderado histórico, deu uma vez eleito, adotando como seu um programa multitrilionário do qual “o verdadeiro autor é Bernie Sanders”, o senador socialista.

Apesar do discurso enrolado, dos escorregões verbais e da imagem de descolamento da realidade que passa, Biden é um político com meio século de experiência, capital que está empregando na tarefa de negociar com dois senadores democratas, Joe Manchin e Kyrsten Sinema, as “pontes” que faltam para a aprovação do pacote social de 3,5 trilhões – é claro que toda a oposição republicana está fechada contra.

Manchin e Sinema vão acabar concordando com o pacote, depois de arrancarem concessões de Biden, inclusive a possível retirada do aumento de impostos para empresas, um ponto de honra da esquerda democrata.

É assim mesmo que funciona, como todo mundo sabe em Brasília. Muitos pontos às vezes são incluídos em grandes projetos com o propósito não-declarado de servir como peças a serem rifadas na hora da negociação.

Joe Biden vai cantar vitória quando convencer os senadores renitentes, com razão. Mas a agenda progressista tem que ser ajustada ao mundo real. Segundo uma pesquisa recente, apenas 37% dos americanos acham que o governo e o Partido Democrata, obcecados por mudança climática e questões raciais e de gênero, estão focados nos problemas que realmente preocupam a população.

Não existe copo meio cheio que resista a isso.

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

O tesoureiro do Centrão e a cloroquina fiscal


A escolha entre responsabilidade fiscal e assistência social é um falso dilema, ao menos numa mente liberal, tão em falta atualmente em Brasília. Alexandre Borges para a Gazeta do Povo:


As declarações intempestivas de Paulo Guedes desde a última sexta (22), com ataques chulos, ad hominem, aos críticos, tentando justificar a injustificável cloroquina fiscal que, na prática, acaba com o teto de gastos do governo federal, lembra os piores expedientes da esgotosfera alugada. A kenosis pagã do ministro, sua conversão pública ao bolsonarismo mais messiânico, está completa.

A escolha entre responsabilidade fiscal e assistência social é um falso dilema, ao menos numa mente liberal, tão em falta atualmente em Brasília. Uma economia funcional, livre, aberta, em crescimento, com as contas públicas em ordem é, em si, um programa social poderosíssimo, como o Plano Real mostrou nos anos 90. Quem paga a conta da inflação, dos juros altos, do real depreciado, da recessão, não é quem tem milhões de dólares em off-shores, é quem está disputando restos de comida em caminhões de lixo.

O mercado corre para precificar a turbulência da semana passada, mas não há qualquer indício, no momento, de que vai desembarcar. Num áudio vazado ontem do banqueiro André Esteves, dono do banco BTG-Pactual, mostra como os financistas brasileiros continuam acima das flutuações econômicas que sangram a classe média e os pobres do país. Como diz o velho ditado, rir com dente é fácil.

Com a cloroquina fiscal, a bilionária pedalada fura-teto, o liberal de palestra assume o posto de tesoureiro do Centrão. Sob o pretexto de viabilizar o Auxílio Brasil, ou Bolsa Reeleição, preserva-se as famigeradas emendas de relator, o fundão eleitoral, enquanto se corta verba de absorventes para mulheres pobres e se dá o maior calote em precatórios que se tem notícia. Enquanto isso, toca fake news diversionista na veia, como na falsa polêmica envolvendo vacinas e AIDS.

Guedes reservou parte da munição disparada pela metralhadora verbal nos últimos dias para a imprensa independente. Sobrou também para o Congresso e para o Judiciário. No discurso do ministro, não existe qualquer espaço para uma discordância democrática. Toda posição contrária é fruto de “militância”, “má vontade” ou de ataques políticos ao “presidente bem intencionado”. É a síntese do pensamento autoritário que alinha Guedes ainda mais ao extremo-bolsonarismo.

Como mostrou a coluna de hoje de Adriana Fernandes e Idiana Tomazelli no Estadão, o fura-teto guedista cria uma “bomba fiscal” para o próximo governo. Romper o teto de gastos sempre foi uma bandeira da esquerda, defendida por Lula, Ciro, Haddad, Boulos, entre outros, e ver um liberal de palestras neste barco diz uma coisa ou outra sobre seus princípios e motivações.

O guedismo é a doença infantil do liberalismo. Enquanto o Centrão passa a boiada, seus arautos dão um duplo twist carpado para justificar, minimizar e relativizar. São pagos para isso e podem até ter majorado a tabela pelos novos serviços prestados. Afinal, alguém tem que faturar com tudo isso, mesmo que sobre seiscentos mil cadáveres.

Celebrando a democracia liberal


Na semana passada, no luso-anglo-americano Estoril Palace Hotel, decorreu a 29ª edição do maior encontro anual de Estudos Políticos entre nós. E celebrou a democracia liberal. Texto do professor João Carlos Espada para o Observador:


Decorreu na semana passada a 29ª edição anual do Estoril Political Forum, promovido pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, sob o Alto Patrocínio do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Mais de 600 pessoas acorreram durante os três dias do encontro ao Hotel Palácio do Estoril — o hotel dos aliados anglo-americanos durante a II Guerra Mundial e também o berço do James Bond de Ian Fleming.

Na semana passada, essa tradição liberal democrática foi reafirmada. O título global do encontro era inequívoco: “On the 80th Anniversary of the Atlantic Charter: Structuring a New Alliance of Democracies”. Oradores dos mais diversos países e das mais distintas Universidades, sobretudo europeias e americanas, mas também do Brasil e da África lusófona, convergiram na defesa da democracia liberal.

E a democracia liberal bem precisa de ser de novo defendida nos dias que correm. Ela assenta num dualismo sofisticado, dificilmente compreensível pelo radicalismo tribal que hoje domina as redes sociais. Por um lado, a democracia liberal assenta no pluralismo e na concorrência entre partidos rivais que aspiram obter a maioria em Parlamentos nacionais — e, por essa via, derrotar o partido rival; por outro lado, esse pluralismo e essa concorrência assentam num comum acordo e num comum escrupuloso respeito pelas regras gerais da democracia parlamentar. Nos bons velhos tempos, essas regras eram chamadas de “civility” ou “gentlemanship”.

Estas regras foram recordadas no Estoril a propósito de dois documentos históricos que estiveram em distribuição durante os trabalhos: A Carta do Atlântico, assinada por Roosevelt e Churchill a 14 de Agosto de 1941, cujo 80º aniversário deu o título ao Encontro; e o Discurso de Westminster do Presidente Ronald Reagan perante o Parlamento britânico, a 8 de Junho de 1982. Os dois documentos constituem vigorosas defesas da democracia liberal: o de 1941 sobretudo contra a tirania nazi; o de 1982 sobretudo contra a tirania soviética.

O discurso de Reagan no Parlamento britânico levou à criação em 1983 do “National Endowment for Democracy” — uma instituição independente, com apoio bi-partidário de Republicanos e Democratas, apostada na defesa e apoio aos dissidentes em regimes autoritários. Quando o Muro de Berlim finalmente caiu, a 9 de Novembro de 1989, o “National Endowment for Democracy” era já uma instituição famosa entre os dissidentes do império soviético. Tornou-se em seguida ainda mais famosa, devido ao seu apoio às transições à democracia na Europa central e de leste.

Carl Gershman, fundador do NED em 1983 e seu presidente até há pouco mais de um mês, esteve no Estoril para celebrar a causa da democracia liberal. Um dos momentos altos do programa do Estoril foi precisamente a sua conversação no Jantar George Washington com outro veterano da causa democrática — Marc Plattner, fundador em 1990 do “Journal of Democracy”, publicado pelo “International Forum for Democratic Studies”, e seu director até ao ano passado. Marc é também o presidente do “International Advisory Board” do IEP-UCP.

Não seria possível transmitir aqui o entusiasmo e a sabedoria da conversação entre os dois veteranos da causa democrática. Mas vale ainda assim a pena recordar as mensagens que fizeram questão em sublinhar.

Em primeiro lugar, a importância crucial de identificar com clareza as novas ameaças autoritárias no mundo de hoje, sobretudo expressas pela China, pela Rússia e pelo fundamentalismo islâmico. Em face dessas ameaças, em segundo lugar, a importância crucial de preservar e reforçar a Aliança Atlântica, combatendo as tendências unilateralistas americanas e as tentações “neutralistas” na Europa. Em terceiro lugar, a importância crucial de expandir a aliança das democracias à escala global, sobretudo para a região do Indo-Pacífico. Finalmente, a importância crucial de reforçar internamente as democracias liberais, reforçando a saudável concorrência entre partidos rivais ao centro e isolando os extremos tribais.

Sintomaticamente, estes temas foram também sublinhados na sessão de abertura dos trabalhos, na segunda-feira, em que José Manuel Durão Barroso amavelmente participou com Car Gershman e Wilhelm Hofmeister, director da Fundação Konrad Adenauer para Lisboa e Madrid. Os mesmos temas foram centrais na Palestra Memorial Ralf Dahrendorf, proferida também na segunda-feira por William Galston, da Brookings Institution, em Washington, que foi assessor político do Presidente Clinton.

Na sua célebre crónica semanal no jornal “Expresso”, Miguel Monjardino escreveu amavelmente no sábado passado sobre o Encontro do Estoril. Miguel é um dos professores preferidos pelos alunos do IEP e um clássico participante nos Encontros do Estoril (ainda nos tempos dos encontros no Convento da Arrábida, entre 1993 e 1999). Na crónica deste sábado passado, alertou para a debilidade do debate estratégico na nossa praça pública. Receio que possa ter toda a razão.

O Estoril Political Forum tem procurado, nos últimos 28 anos, dar um modesto contributo para animar esse necessário debate estratégico. E a 30ª edição ficou já marcada para Junho do ano que vem — no luso-anglo-americano Hotel Palácio do Estoril, naturalmente. Celebraremos nessa data os 650 anos da mais antiga aliança no mundo — a aliança luso-inglesa celebrada em Tagilde (Braga) em 10 de Julho de 1372. E esperamos também poder voltar a contar com o incontornável baile de encerramento com os “Lisbon Swingers”, liderados pelos nossos queridos Amigos Professores António e Manuel Pinto Barbosa.

Já agora, para concluir: God Save the Queen!

Cabeça fria até o fim: na despedida, Angela Merkel defende a Polônia.


Colegas da União Europeia estão uivando de raiva, mas a primeira-ministra alemã segura o freio de sanções que podem abalar estruturas. Vilma Gryzinski:


As longas cerimônias de despedidas parecem que não vão acabar nunca. Angela Merkel está aproveitando bem o fim de seus dezesseis anos como chefe do governo alemão.

Celebrada como “bússola moral” e “monumento”, ela ouviu de Charles Michel, o presidente do Conselho Europeu, num dos elogios mais extravagantes, que sua “extrema sobriedade e simplicidade” eram uma “poderosa arma de sedução”.

Por trás da torrente de elogios, muitos burocratas e líderes políticos estão loucos para ver a primeira-ministra pelas costas.

É graças a ela que a União Europeia ainda não começou a aplicar multas na Polônia, país que tem um governo de direita e faz muitas coisas que o establishment europeu não gosta: não aprova casamento gay, não libera o aborto, não aceita refugiados e, motivo do atual conflito, não aceita, em virtude de uma decisão do Supremo Tribunal, que a legislação europeia esteja acima da constituição polonesa.

Questões de soberania nacional são altamente complicadas, pois a dinâmica natural da União Europeia é cada vez mais se sobrepor aos países membros, muitos dos quais continuam a gostar do conceito de estado-nação e não querem se diluir numa entidade supranacional. Esse conflito sem solução foi um dos motivos que levou uma pequena maioria dos britânicos a votar pelo Brexit.

Angela Merkel, que se tornou uma espécie de fiadora da União Europeia por força natural do peso econômico da Alemanha e pelo respeito e a autoridade conquistados por mérito próprio, acha que poderia ter havido uma solução negociada que evitasse o Brexit.

Não quer ver os mesmos erros cometidos em relação à Polônia, embora as situações sejam bem diferentes.

A Polônia tem muito menos autonomia do que a Grã-Bretanha, inclusive por não ter mantido a moeda própria, como fizeram os britânicos com a libra. É também o país mais beneficiado pelas verbas da União Europeia, tem 70 bilhões de euros a receber em créditos emergenciais da pandemia, 88% da sua população é a favor de continuar na união e o governo se declara “um membro fiel” do grande grupo.

Se não quer sair, vai ter que se curvar?

A situação se complica aí. Se retroceder, e ainda por cima numa questão envolvendo o Supremo e a iindependência nacional, uma questão existencial na Polônia, o governo se desmoraliza. Se não retroceder, incorre em punições pelo “desafio direto à unidade da ordem jurídica europeia”, nas palavras de Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia. Emmanuel Macron, da França, e Mark Rutte, da Holanda, querem que o castigo comece imediatamente.

Angela Merkel defende mais negociações. Já discursou de forma muito eloquente sobre a importância de manter a Polônia “no centro da Europa” – um jogo de palavras, tanto pela posição geográfica do país, quanto por sua história, tendo sido tantas vezes invadida e dividida entre as potências vizinhas, Alemanha e Rússia.

A Polônia na União Europeia é uma garantia de estabilidade e de proteção contra o eterno clima de ameaça criado pela Rússia. Os próprios poloneses entendem isso muito bem. Angela Merkel colocou o peso da merecida estatura a favor de cabeças mais frias. Talvez tenha pesado um pouquinho também o fato de que, nascida Angela Dorothea Kesner, ainda tem a referência do nome ancestral polonês, Kazmierczak, da sua família paterna.

“É imperativo fazer todo o possível para manter a Europa unida”, apelou ela.

Como está de partida, pode ser que, pela primeira vez, suas palavras não sejam levadas em conta.

Olaf Scholz, seu substituto, do Partido Social Democrata, vai ter o maior prazer em seu unir ao time dos cabeças quentes e ignorar a mulher sob cuja sombra vai ter que mostrar capacidade de liderar a Alemanha e a Europa.

Se criar, mais uma vez, a impressão de que uma Alemanha que intimida a Polônia não estará correspondendo à responsabilidade histórica que seu país, querendo ou não, carrega.

Para chorar no banheiro


Ainda que condenado, Bolsonaro jamais reverá seus gigantescos erros na pandemia. Fernando Gabeira para o Globo:


Quando saiu o relatório da CPI da Covid, Flávio Bolsonaro disse que seu pai o receberia com uma gargalhada típica do Bolsonaro. Não há graça nenhuma em ser acusado de crimes contra a humanidade, algo tipificado pela Convenção de Roma e adotado pela ONU.

Depois daquela frase “minha vida aqui é uma desgraça”, Bolsonaro confessou, recentemente, que chora no banheiro. Esconde da mulher, que o acha o machão dos machões e, estupidamente, perde uma chance de chorar no ombro dela. Mas o que esperar do machão dos machões?

O único consolo que Bolsonaro pode encontrar nessa acusação é a chance de responder a quem o chama de genocida: “Alto lá! Genocida não, apenas cometi alguns crimes contra a humanidade”.

Embora tenha explicado aqui, usando até Freud na sua visão de negacionismo, até hoje não entendo bem por que Bolsonaro e tantos seguidores se recusaram a dar importância ao vírus.

Creio que houve nessa negação muito de guerra cultural: se os adversários se preocupam tanto com o coronavírus, uma maneira de enfrentá-los é desmistificar o perigo.

O ex-ministro Ernesto Araújo via na pandemia um perigoso processo de dominação autoritária internacional. O próprio Bolsonaro insistiu no tema da liberdade e, na célebre reunião de abril de 2020, chegou a desejar a luta armada contra as medidas de distanciamento social.

Existe uma ponta de paranoia. É como se os adversários, não os tendo dominado por argumentos, adotassem agora teses científicas como a preservação da vida para conquistar o que sempre aspiraram: roubar sua liberdade.

Tenho certo escrúpulo de avançar nesse caminho, pois a distância da realidade, nas mentes perversas, pode funcionar como um álibi.

Não se julga um crime contra a humanidade a partir de uma avaliação psicológica. O que importa são mais de 600 mil mortos e todos os mecanismos de negação oficial responsáveis por esse número escandaloso.

Quando houver o julgamento e puder escrever sobre ele, pretendo levar em conta todas as dimensões que me preocupam. Hannah Arendt, no julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém, nos contemplou com uma importante visão da banalidade do mal. Citei seu argumento no Tribunal Russel, em Roma, quando falava da tortura e torturadores no Brasil.

Mas, agora, sinto-me diante de uma situação muito diferente. Constatei inúmeras situações em que o negacionismo de Bolsonaro se manifestava em pessoas comuns. Em muitas delas, tive a sensação de que temiam reconhecer a gravidade do vírus porque isso seria se render ao outro. Era como se houvesse dentro delas uma espécie de pavor em concordar, como se fosse realmente uma ameaça à própria identidade.

No caso de Bolsonaro, além de negar porque o vírus ameaçava seu governo, ele sempre ressaltava o comportamento de maricas de quem dava muita importância à pandemia.

Sua imitação dos movimentos de quem sente falta de ar, além da crueldade que encerra, era também uma espécie de crítica ao que ele considera frescura: agonizar por falta de oxigênio.

Mesmo que seja condenado, Bolsonaro jamais reverá radicalmente seus gigantescos erros na abordagem da pandemia. Aceitar as evidências é algo mais perigoso que perder o governo ou mesmo ir para a cadeia.

Na verdade, há um tipo de angústia que define seu comportamento e que, por sua profundidade, é mais ameaçadora que a própria falta de ar.

Bolsonaro está condenado a não mais tomar um caldo de cana na esquina, a chorar longe do ombro da mulher, a responder por crime contra a humanidade — tudo isso porque não conseguiu decifrar o próprio enigma.

Quem vive tão enfaticamente na escuridão não poderia ter nos oferecido outra coisa senão um governo de trevas.

Tripé "liberal"


A social-democracia empreendeu, no poder, medidas de cunho liberal, enquanto os ‘liberais’ atuais estão se mostrando discípulos dos petistas. Artigo do professor Denis Rosenfield, publicado pelo Estadão:


O governo “liberal” de Bolsonaro inovou em seu liberalismo ao inventar um novo tripé: o bolsa eleitoral, dito “Auxílio Brasil”; o bolsa caminhoneiro, denominado por um de seus líderes de bolsa “esmola”; e o bolsa “Centrão, conhecido por emendas parlamentares dos mais diferentes tipos, além de cargos governamentais.

Tais iniciativas são todas paliativas, algumas tidas por temporárias, quando vieram para ficar, numa aparente obediência às regras legais e constitucionais; outras almejam a permanência do grupo no poder, tendo como objetivo assegurar a reeleição do atual presidente. O mesmo uso que se faz de ajuda aos pobres, embora necessária, encobre uma desmedida política, que não hesita diante de nada para alcançar as suas finalidades, a custo de produzir o desmoronamento fiscal, econômico e social do País. O que mais espanta é o desaparecimento de qualquer perspectiva de trabalho pelo bem comum, esquartejado nos interesses particulares e corporativos.

Evidentemente, os pobres devem ser ajudados. Trata-se de respeito moral com o próximo e obediência política à Constituição. Ocorre, porém, que tal argumento está sendo empregado para furar o teto da lei dos gastos públicos, como se essa infração fosse condição deste atendimento social. Atente-se para o fato de que o alvo do governo consiste em abrir a porteira para o estouro da boiada, pois, em ato imediatamente seguinte, o presidente anunciou que, com a folga obtida, criaria o bolsa esmola para os caminhoneiros e pagaria e ou aumentaria as emendas parlamentes. Ou seja, estabelece como regra a irresponsabilidade fiscal, hipoteca o futuro e aumenta a espiral dos juros e da inflação, com péssimas consequências para os investimentos privados nacionais e estrangeiros. Os mesmos pobres atendidos hoje pagarão por isso amanhã.

Acontece que o governo precisa seguir o seu novo tripé. Poderia, ao contrário do que faz, não dar mais nenhuma bolsa Centrão, transferindo estes recursos para os mais necessitados. Poderia reduzir os subsídios fiscais concedidos a vários setores empresariais; poderia reduzir o custo da máquina pública; poderia reduzir privilégios nos diferentes Poderes, alguns exorbitantes. Se assim o fizesse, estaria adotando uma posição liberal no verdadeiro sentido do termo. Contudo, optou por assassinar o liberalismo em nome da causa liberal!

O governo do ex-presidente Fernando Henrique, criticado por ser social-democrata e, nesse sentido, de “esquerda”, foi muito mais liberal do que o apregoado por seus detratores. Levou a cabo um impressionante e bem-sucedido programa de privatizações, reformando o Estado, algo que o atual governo foi incapaz de fazer. Elaborou um exitoso combate à inflação graças ao Plano Real, cujos alicerces estão sendo agora desmontados. Criou uma Lei de Responsabilidade Fiscal, complementada pela Lei do Teto de Gastos Públicos, de iniciativa do ex-presidente Michel Temer, algo que está sendo substituído pela irresponsabilidade fiscal.

A social-democracia empreendeu, no poder, medidas de cunho liberal, enquanto os “liberais” atuais estão se mostrando discípulos dos petistas. Não sem razão, o ex-presidente Lula está elogiando as iniciativas de ajuda aos pobres, não cansando de repetir que, caso eleito, não seguirá a responsabilidade fiscal e a Lei do Teto de Gastos Públicos. Isto é, as afinidades entre os petistas e os ditos “liberais” expõem um parentesco para além das clivagens tradicionais entre (extrema)direita e esquerda.

Com a mudança legal do indexador de cálculo da Lei do Teto de Gastos Públicos, uma artimanha jurídica para cobrir de legalidade uma atitude ilegal, o governo também se mostra um seguidor dos petistas, pois, na verdade, estamos diante de uma nova forma de “contabilidade criativa”. A da ex-presidente Dilma foi, em sua dimensão, menor do que a que está sendo atualmente implantada, e terminou pagando por isso. Os atuais detentores do poder, cientes disso, procuraram dar uma cobertura jurídica para evitar tal desenlace, o que não diminui a sua responsabilidade.

Eis por que o bolsa Centrão é tão importante. Graças a isso, o impeachment tem muito menos chance de prosperar, possibilitando que os recursos públicos sejam partidariamente, privadamente e corporativamente apropriados. Numa situação completamente atípica, o presidente perde o controle do Orçamento, contentando-se com discursos em todos os cantos do País como se não mais precisasse governar, procurando tão exclusivamente a sua própria reeleição.

O cenário é totalmente esquizofrênico na medida em que o País real, em suas necessidades e carências, encontra-se divorciado de sua classe política e das narrativas presidenciais, de nítido teor demagógico. Diz-se respeitar a lei numa flagrante violência da mesma, como se a irresponsabilidade fiscal tivesse mudado de nome. A perversão no uso das palavras é mais um indicativo do desmoronamento da moralidade pública e, sobretudo, de respeito para com o País.