segunda-feira, 6 de julho de 2020

Pós-humanismo, o novo anti-humanismo.

Não se trata apenas de uma melhoria em muitas limitações de nossa espécie, mas uma recriação ou um redesenho do homem realizados pelo próprio homem, auxiliado pela ciência e pela técnica. Artigo do professor e juiz de Direito André Gonçalves Fernandes, publicado pela Gazeta:


Um dia desses, resolvi assistir, num conhecido canal de história da televisão, a um especial sobre o pós-humanismo. Curioso notar que, à semelhança de todos os fenômenos anunciados e datados do século 20, como a superpopulação ou o neomaltusianismo, o especial tematizado já antevia a resolução de inúmeros problemas sociais e o advento do novo homem lá pelos idos de 2050.

Fiquei muito feliz com o ano, porque tenho grandes perspectivas de estar vivo para ser testemunha de mais outro fenômeno anunciado, datado e não realizado. O pós-humanismo é um movimento que visa mudar a mente e o corpo do homem pela biotecnologia, a fim de aprimorar suas habilidades e até lhe dar outras novas. Eu, sinceramente, gostaria de ser um pouco mais alto. Ajudaria bastante na disputa do rebote dentro do garrafão ou na subida de rede no saque-e-voleio.

Embora os objetivos últimos do pós-humanismo tangenciem a utopia, eles podem influenciar a realidade, porque promovem uma aplicação ilimitada da biotecnologia ao ser humano e mesmo uma mentalidade de rejeição das limitações e sofrimentos naturais que condicionam nossas atitudes em relação aos doentes e às pessoas com deficiência. E por quê?

Porque é um movimento cultural, científico e intelectual que considera um dever ético melhorar as capacidades do homem, sejam elas de natureza biológica, psicológica ou moral. Essa melhoria é justificada por vários propósitos, alguns úteis para o homem, como a eliminação da dor e do sofrimento associados a doenças e envelhecimento, e outros bem caricaturescos, como a melhoria de nossas sociedades pela eliminação de comportamentos inadequados e a possibilidade de imortalidade.

A linguagem pós-humanista é composta por uma gramática utilitária e, por isso, é muito importante debater os termos daqueles aprimoramentos, no sentido de se saber onde termina a ação terapêutica e onde começa a modificação do ser humano. Em outras palavras, quais aspectos podemos considerar desumanos e, portanto, que devem ser eliminados, e quais, por respeitarem a dignidade da pessoa humana, devem ser mantidos.

Basicamente, devemos, no fundo, perguntar o que é o homem e o que queremos que ele se torne. Um questionamento não só para a antropologia filosófica, mas uma hesitação sobre nós mesmos e que bate às portas de nossa consciência, porque os interrogativos que daí sucedem tocam diretamente a todo nosso ser, a nossa origem e ao nosso fim último.

Acerca do homem, a abordagem pós-humanista não aceita uma identidade humana com seus limites e condicionamentos. Seus defensores defendem a construção de um futuro em que o homem não tenha certas privações e ainda goze de capacidades altamente aprimoradas, quando não a possibilidade de novos seres diferentes que transcendam o próprio homem.

Portanto, não se trata apenas de uma melhoria em muitas limitações de nossa espécie, mas uma recriação ou um redesenho do homem realizados pelo próprio homem, auxiliado pela ciência e pela técnica. Não é a valorização daquilo que consideramos positivo no homem, mas a possibilidade de se propor, como objetivo, um ser híbrido ou completamente diferente do ser humano.

O pós-humanismo seria articulado em várias fases, na medida em que os meios necessários se tornassem disponíveis. Em resumo, podemos dizer que as medidas seriam de natureza eugênica (eliminação de embriões ou fetos com anomalias congênitas), nanotecnológica (implantação de "microchips") e terapêutica (uso de drogas para a potencialização de habilidades ou eliminação de aspectos negativos da personalidade).

O manejo da terapia genética também é considerado, não apenas para a cura de indivíduos, mas também para a produção de mudanças estéticas na prole. Da mesma forma, o pós-humanismo visa transcender os limites humanos da temporalidade, com propostas para uma existência pós-biológica, por meio do despejo do cérebro de um homem num computador ou a conformação de uma realidade híbrida, parte orgânica e parte cibernética. Nem Matrix teria um enredo melhor.

Em todas as propostas, o corpo é um mero instrumento e, com isso, resta claro que o pós-humanismo supõe uma concepção antropológica materialista, como se dá no evolucionismo e no estruturalismo. Essa visão é reducionista do ser do homem, porque, ao partir do dualismo de natureza cartesiana, o indivíduo é definido apenas por seus estados de consciência, especialmente aqueles ligados ao exercício da razão.

Mas não é só. Tal concepção reduz a essência humana, considerando que o dado corpóreo não compõe sua definição e que o respeito ao homem está estritamente ligado ao exercício efetivo da racionalidade. Se a isso se acrescenta a concepção contemporânea de uma liberdade emancipada e criativa da própria natureza humana, sem limites e com base em eleições existenciais sucessivas, o pós-humanismo parece ser, definitivamente, a cereja no bolo da refundação do homem pelo próprio homem. Prometeu ficaria com inveja.

Por outro lado, a razão instrumental, que norteia o pós-humanismo, encontra elementos de resistência no próprio ser humano. Os caprichos da vontade, alçada como motor do processo de reengenharia humana, encontrariam limites associados à condição do corpo humano. Seria necessário, então, obter mais possibilidades de escolha, porque a liberdade teria chegado a um limite, correspondente ao de nossa estrutura biológica.

O que se faria? A resposta seria simples: mudar essa corporalidade, imperfeita e oprimida pela natureza, ao nosso bel prazer. Em suma, manipular o dado mental sobre o corporal, no afã de se tirar o máximo proveito do corpo em prol de uma felicidade pautada pelo bem-estar sensível ou afetivo.

O pós-humanismo radicaliza e leva, às consequências finais, os postulados do cientificismo e, assim, a atividade científica alcança, sob essa perspectiva, a total autonomia em relação à ética personalista. Em seu lugar, centraliza a vida ética do indivíduo em sua autonomia que, lastreada na visão dualista cartesiana, concebe-a como uma consciência livre que se constrói de acordo com critérios que ela atribui a si mesma, sendo o dado corpóreo o propício campo de atuação emancipatória desse eu.

O projeto da modernidade de moldar um novo homem já era um tanto presunçoso, mas, pelo menos, o homem ainda existia. Com a cegueira da pós-modernidade, a situação torna-se mais crítica: não há mais homem e o que vale é o anti-humanismo mais evidente, pois é impossível reafirmar o homem, como propõe o pós-humanismo, se seus postulados partem de uma negação radical da essência do próprio homem.

André Gonçalves Fernandes, Post-Ph.D., é juiz de direito, professor-coordenador de filosofia e metodologia do direito do CEU Law School, pesquisador da Unicamp, professor-visitante da Universidade de Navarra e membro da Academia Campinense de Letras.

Qual o signo de quem defende máscara para corona durante o sexo?

Partilho aqui algumas pequenas ideias que considero úteis nesse mundo dos sofrimentos afetivos contemporâneos. Luiz Felipe Pondé, via FSP:


Você acredita em astrologia? Eu não. Mas as mulheres acreditam, logo, isso é o que importa. E mais: em épocas em que todo mundo virou um cientista de ocasião, não vejo razão para não arriscar uma carreira tardia na ciência dos astros.

Nas minhas recentes pesquisas em astrologia, percebi que um dos campos em que há mais precisão "científica" na área é a dos perfis sexuais. Partilho aqui algumas pequenas ideias que considero úteis nesse mundo dos sofrimentos afetivos contemporâneos.

Talvez os perfis básicos e as frases que dizem logo após o sexo possa ajudar você a se encontrar no amor, por que não?

Pessoas nascidas sob o signo de Áries são conhecidas por serem ma¡s cruéis e violentas. As controvérsias teóricas acerca do seu comportamento sexual vão de um oposto a outro: alguns dizem que é o signo que menos sente falta de sexo, outras dizem que, após o sexo, o ariano, a ariana ou x arianx (neste assunto, gênero é essencial, mas, nos próximos signos, vou simplificar porque todo saco tem limite) diz: "você de novo?!".

Já o taurino, conhecido por ser escravo da luxúria, da comida e da bebida, é reconhecido como sendo aquele que, logo após o sexo, olha de um lado para o outro e diz: "vamos pedir uma pizza?"

Geminianos, internacionalmente conhecidos por terem duas caras, após se deliciarem com o objeto humano ao seu lado, se lembram de dizer algo (para outras pessoas, algo essencial num relacionamento, mas para o geminiano nem tanto) que é: "agora vamos conversar?".

Cancerianos são o tipo que mais chora no zodíaco. Quando não está chorando é porque está doente. Conhece uma pessoa, chora, acaba transando e, assim que acaba, olha dos olhos dela e diz: "vamos casar amanhã?".

E leão? Ah, leão. Centro do zodíaco, se não se achar o centro do universo, desmancha como pó. Evidentemente que, após o sexo, nosso leonino olha nos olhos da feliz parceira que teve a bênção do universo de conhecê-lo e diz: "eu sei que para você foi o melhor sexo do mundo, nem precisa me dizer".

O que dizer dos virginianos e virginianas? Sofredores em nome da ordem, da limpeza, das previsões estratégicas, durante o sexo já ficam atentos para que nenhum movimento desarrume em demasia a cama ou o quarto. Virginianos se apegam à ordem de um quarto mesmo que tenha entrado nele pela primeira vez cinco minutos antes. Por isso que, após o sexo, essa coisa melada, suja e cheia de odores, a primeira coisa que diz é: "tenho que lavar esse lençol!".

Librianos são conhecidos por serem confusos, indecisos, e promíscuos no sexo. Num grupo, costuma ser a pessoa mais rodada do pedaço. Após uma dessas rodadas, sua frase seria, talvez, algo como: "se para você valeu, para mim também valeu". A falta de opinião nos librianos seria uma condição natural.

Escorpião, escorpião. Rancoroso, ressentido, cruel, vingativo. Logo após o sexo diria (não necessariamente faria): "acho que agora posso desamarrar você.

E sagitário? Mochileiro, irresponsável, aventureiro, alguém em que o investimento afetivo pode seguramente fazer você sofrer. Sua frase: "na próxima vamos fazer na cama?". Carros, banheiros de avião, escada de prédios são locais preferidos para sagitarianos transarem.

Os capricornianos, sempre pensando em dinheiro, não necessariamente tendo dinheiro porque o gozo está na contabilidade e no controle e não no ganho em si, passa o sexo pensando em quanto está custando aquilo tudo. Logo após, solta a pérola: "mas no que você trabalha mesmo?".

Os aquarianos, segundo alguns, seres avançados, segundo outros, seres desprovidos de qualquer coração, diriam: "estou anos-luz na sua frente, portanto, não me procure".

E, por último, os piscianos, para alguns o melhor signo do zodíaco, doce, sem maus sentimentos, para outros, xarope total e perdido no mundo, sua frase seria: "qual seu nome mesmo?". Não por promiscuidade, mas, simplesmente, por xaropice.

Uma incógnita: qual seria o signo de alguém que se diz especialista em sexo e defende o uso de máscara durante o ato sexual? Não saberia essa pessoa que a boca é um órgão sexual essencial?

Em defesa da esquerda e da direita democráticas

Não há democracia liberal sem pelo menos dois partidos rivais que concorrem entre si no Parlamento. Artigo do professor João Carlos Espada, via Observador:


Pode ser impressão minha, como se costuma dizer, mas tenho observado com surpresa uma crescente relevância dada pela comunicação social a um pequeníssimo partido, com um único deputado, que dá pelo nome bizarro de “Chega”.

Uns artigos são contra, outros são a favor, outros ainda são mais ou menos. E quase todos prevêem grande potencial de crescimento. Alguns garantem mesmo que já cresceu imenso. Em qualquer caso, todos fazem publicidade a um partido menor e com menor capacidade de articulação do seu programa político — se é que o tem.

Trata-se sem dúvida de uma dissonância cognitiva. Não gostaria de especular sobre as motivações que a alimentam. Mas não é difícil percepcionar as consequências políticas — intencionais ou não — dessa dissonância cognitiva.

Em primeiro lugar, a publicidade ao “Chega” é sobretudo útil à esquerda radical. Funciona como confirmação da sua delirante visão da “direita” como “inimiga da democracia”. A ideia hoje é re-criar a dicotomia “Fascismo ou Revolução”, agora na versão “Chega ou Esquerda Radical”. Mantém-se desta forma a ignorância da esquerda troglodita sobre a democracia liberal (por eles designada capitalista) que se funda na rivalidade pacífica e civilizada entre esquerda e direita democráticas.

Aquela visão troglodita da esquerda radical foi entre nós corajosamente enfrentada e derrotada por Mário Soares, enquanto líder do Partido Socialista e da esquerda democrática. Atrevo-me a pensar que continua a ser do interesse próprio esclarecido do Partido Socialista tentar permanecer fiel ao legado de Mário Soares.

Em segundo lugar, temos as consequências da publicidade ao “Chega” no âmbito da direita democrática. Aqui, o fenómeno é ainda mais bizarro — porque é simplesmente suicida.

Muita gente anda zangada com a liderança do PSD de Rui Rio. Isto pode ser compreensível — dado que, salvo melhor opinião, o Dr Rui Rio não tem explicado com vagar (para já não dizer com vigor) o que distingue o seu programa. Mas, em vez de apresentarem novas ideias para o PSD, alguns críticos de Rui Rio não têm melhor ideia do que apostar no crescimento de um grupelho radical — basicamente com o objectivo de poder dizer que é o alegado “centrismo” de Rio que faz crescer o “Chega”.

Receio ter de dizer que, na base desta comum aposta de uma certa “esquerda” e de uma certa “direita” na conversa sobre o Chega, está uma profunda ignorância política — que, sem receio, deve ser enfaticamente denunciada e ridicularizada como aquilo que realmente é: primitiva, terceiro-mundista, tribal.

A esquerda que define a direita como fascista (que para eles é sinónimo de capitalista) é a esquerda do terceiro mundo que alimentou as ditaduras comunistas na Rússia, na China, na Coreia do Norte, em Cuba, na Venezuela e lugares afins.

A direita que define a esquerda como comunista (e, muitas vezes, também como “capitalista”) é a direita terceiro-mundista — que infelizmente teve algum impacto episódico, embora trágico, no continente europeu, um pouco menos episódico, possivelmente menos trágico, na Península Ibérica e na América Latina.

Essa chamada “direita” (em rigor, uma mera versão contra-revolucionária do colectivismo revolucionário anti-liberal) simplesmente ignorou — e continua a ignorar — que Churchill, De Gaulle e Adenauer, Ronald Reagan e Margaret Thatcher foram líderes conservadores anti-comunistas e anti-fascistas. É aquela mesma chamada “direita” que provincianamente ignora estes factos e que continua a dizer hoje que o PSD de Sá Carneiro e o CDS de Adelino Amaro da Costa eram… “de esquerda”.

Dois pontos devem ser recordados contra o provincianismo terceiro-mundista da esquerda e da direita colectivistas e anti-liberais:

Primeiro, não há democracia liberal sem pelo menos dois partidos rivais que concorrem entre si no Parlamento. Os seus programas devem ser saudavelmente distintos e concorrenciais. Mas ambos devem simultaneamente convergir enfaticamente na defesa comum das regras gerais da democracia liberal. Nenhum partido sério da esquerda ou da direita democráticas admite ou jamais admitiu a menor dúvida sobre as suas credenciais demo-liberais.

Segundo, convém não projectar no eleitorado as pulsões tribais da chamadas “redes sociais”. Uma coisa é o que a bolha mediática propaga — outra coisa é o que os eleitores escolhem nas urnas e nos seus modos de vida quotidianos.

Dois exemplos recentes podem ilustrar estas observações:

No Reino Unido, os radicais anti-Churchill, anti-capitalistas e anti-semitas da dupla Corbyn/McDonnell tiveram uma derrota histórica nas últimas eleições de Dezembro do ano passado; e o novo moderado líder trabalhista, Sir Keir Starmer, está agora a re-centrar o seu partido, revelando uma robusta e credível alternativa à (também histórica) maioria de centro-direita obtida por Boris Johnson.

Nos EUA, o sr. Trump venceu as últimas eleições com base na resistência ao radicalismo crescente e algo delirante do partido democrata. Entretanto, os democratas puseram a andar o bizarro sr. Bernie Sanders e re-centraram o discurso com Joe Biden. Este re-centramento imediatamente pôs em causa a vantagem nas sondagens do sr. Trump.

Em suma: como dizia Mário Soares — contra Álvaro Cunhal e os saudosistas do antigo regime — devemos confiar no bom senso dos eleitores. E, como dizia Winston Churchill, “Study History, Study History!” (mas, de preferência, não apenas da América Latina ou da Península Ibérica…).

Post-Scriptum: É incontornável registar que, contra ventos e marés da esquerda e da direita radicais, o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa tem procurado defender o “equilíbrio do navio” — uma expressão consagrada de Edmund Burke e Michael Oakeshott (dois conservadores liberais) sobre a democracia liberal, fundada na concorrência civilizada entre esquerda e direita democráticas. Voltarei a este tema.

O projeto de lei das fake news como escudo para a crítica legítima

Artigo do empresário Roberto Rachevsky, publicado pelo Instituto Liberal:


Resumo da ópera:

A imprensa reclama da concorrência das redes sociais na disseminação de notícias dizendo que não há credibilidade naquilo que é postado pelos particulares.

Claramente, a imprensa não quer concorrência no negócio de contar fatos verdadeiros e narrativas mentirosas.

Os políticos de esquerda, por sua vez, e de direita também, querem controlar a imprensa e as redes sociais pelo mesmo motivo e outros mais.

Esses mentirosos contumazes também desejam o monopólio na difusão de falsas promessas e inverdades. Arrogantes com baixa auto estima, preferem silenciar quem os crítica, em vez de melhorar a própria performance praticando virtudes simples como a honestidade e a integridade.

O projeto de lei das fake news é mais uma tentativa dos poderosos de criar um escudo contra a crítica legítima dizendo que estão combatendo a injúria, a calúnia e a difamação que já possuem previsão legal e exagerada a coibi-las.

É inadmissível que o povo seja censurado por criticar seus representantes que têm demonstrado na sua maioria – há exceções – serem especialista em mentiras, trapaças, roubos e corrupção.

Bolsonaro vai deixar o fim da Lava Jato como legado?

Augusto Aras, chefe da Procuradoria-Geral da República (PGR), está em guerra com a força-tarefa de Curitiba e seus desdobramentos em outras capitais depois de tentar, por meio de sua equipe mais próxima, obter documentos sigilosos. Diego Schelp, via Gazeta do Povo:


"Apoiar a Lava Jato é fundamental no combate à corrupção no Brasil. O fim da impunidade é uma das frentes que estanca o problema, outra é atacar a corrupção na sua raiz, pondo fim nas indicações políticas do governo em troca de apoio", prometeu Jair Bolsonaro antes do primeiro turno das eleições que o levaram ao cargo de presidente da República. Mas eis que os fatos se encaminham para a direção oposta: o fim da Lava Jato. Será este um dos maiores legados do governo Bolsonaro? O que os brasileiros que ajudaram a eleger o capitão acham disso?

Vejamos quem são os atores políticos que hoje concentram sua artilharia na Lava Jato. Augusto Aras, chefe da Procuradoria-Geral da República (PGR), está em guerra com a força-tarefa de Curitiba e seus desdobramentos em outras capitais depois de tentar, por meio de sua equipe mais próxima, obter a cópia de documentos sigilosos das investigações no Paraná, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Os procuradores se opuseram, alegando que o acesso a tais informações devem ser individualizados e concedidos apenas mediante autorização judicial. Aras também vem trabalhando para desmontar a estrutura investigativa dos times da Lava Jato.

O episódio do acesso aos dados levou ao pedido de demissão de três procuradores da Lava Jato na PGR e a uma sequência de bate-boca público entre integrantes da força-tarefa e a equipe de Aras.

O próprio conceito de forças-tarefas para investigar casos de corrupção está em xeque, com a alegação de que mobilizam procuradores demais, trabalhando em condições privilegiadas. Um dos recentes críticos desse modelo foi o vice-procurador-geral Humberto Jacques de Medeiros, auxiliar direto de Aras.

O plano de Aras é acabar com as forças-tarefas e centralizar as investigações com a criação da Unac (Unidade Nacional de Combate à Corrupção e ao Crime Organizado), vinculada diretamente a ele. O argumento é o de que forças-tarefas como a Lava Jato desfrutam de autonomia demais e permitem comportamentos abusivos entre os procuradores que delas participam.

De fato, o sucesso subiu à cabeça de muitos procuradores. No entanto, foi esse modelo que permitiu investigar, expor e punir o maior esquema de corrupção da história do país. Nunca tantos figurões foram condenados e presos por crimes do colarinho branco. Um órgão centralizado na PGR, com seu histórico de engavetamento — e, atualmente, com um procurador-geral que faz campanha por uma vaga no STF —, teria obtido esse resultado?

Claramente, não. De resto, para os abusos dos integrantes do Ministério Público Federal existe a corregedoria da instituição.

Uma coisa é certa: as aves de rapina do dinheiro público apenas aguardam o enfraquecimento da capacidade de investigação do MPF para colocar novamente suas garras de fora.

Não se pode dizer que Bolsonaro não tem responsabilidade nisso. Ao distribuir cargos a indicados do centrão, o grupo de partidos fisiológicos do Congresso, ele aliou-se e tornou-se dependente do apoio de parlamentares encrencados no petrolão e no mensalão. O fim da Lava Jato é um sonho para eles.

Além disso, foi Bolsonaro quem nomeou Augusto Aras fora da lista tríplice do MPF e vem seduzindo o procurador-geral com uma possível vaga de ministro no Supremo Tribunal Federal. Por ora, Aras tenta encontrar erros e por freio na força-tarefa. E, em agosto, decidirá pela prorrogação ou pelo fim da Lava Jato em Curitiba.

Em algum momento a força-tarefa terá mesmo que se encerrar, mas que isso seja uma decisão técnica, baseada nas perspectivas de investigação. Não em interesses políticos, como vem sendo o caso.

Os desdobramentos da Lava Jato em outros estados indicam que ainda há o que investigar e denunciar, como prova a recente acusação contra o senador José Serra (PSDB-SP) por lavagem de dinheiro, pelo MPF de São Paulo.

Os procuradores da Lava Jato em Curitiba veem na tentativa de ingerência da PGR uma estratégia para enfraquecer o ex-juiz federal e ex-ministro da Justiça Sergio Moro e seus planos eleitorais. O coordenador da força-tarefa, Deltan Dallagnol, foi na mesma linha em uma entrevista recente. Segundo essa versão, a PGR estaria fazendo o jogo político de Bolsonaro, que considera Moro o seu judas e quer enfraquecê-lo para não ter de enfrentá-lo nas urnas em 2022.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, entrou na briga e disse que as reclamações de Dallagnol comprovam que a Lava Jato é um "movimento político". Maia defendeu o direito da PGR de colher informações sigilosas das forças-tarefas.

Entende-se: o próprio Maia foi investigado na Lava Jato e há um inquérito contra ele dormindo nas gavetas da PGR. Em maio, o ministro do STF Edson Fachin cobrou o procurador-geral a decidir se denuncia ou não Maia e seu pai, César Maia, por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica eleitoral. Segundo a Polícia Federal, ambos receberam dinheiro indevido da Odebrecht.

Nos últimos dias, revelou-se também que a PGR vem procurando provar que os procuradores da Lava Jato omitiram, em documentos, os nomes completos de Maia e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, para conseguir investigar os dois, que possuem foro privilegiado, indevidamente.

Ou seja, o fim da Lava Jato é uma daquelas causas capazes de unir petistas, bolsonaristas, os novos aliados de Bolsonaro no centrão e Rodrigo Maia.

A militância bolsonarista pode até, com alguma ginástica argumentativa, eximir o presidente de culpa pelo fim da Lava Jato. Mas dizer que ele cumpriu a promessa de campanha de apoiá-la e de cortar a corrupção pela raiz com o fim das indicações políticas... só rindo.

Desarmamentismo, o relativismo vestido de branco.

A ideologia que dominou o país durante tanto tempo tornou politicamente incorreto, preconceituoso e elitista pretender estabelecer distinção entre os leitores destas linhas e a bandidagem que os acossa e intranquiliza. Percival Puggina:


Como entender que pessoas esclarecidas defendam, com argumentos tão pouco sensatos, a vulnerabilidade dos cidadãos de bem? Como entender que, no referendo de 2005, mais de 33 milhões de brasileiros, minoritários na votação, mas ainda assim, num expressivo contingente, tenham votado contra seu próprio direito de defesa? Cidadãos de bem que não querem o direito de defender a própria vida, a vida de sua família e o seu patrimônio? Que confiam essa tarefa essencial a um poder estatal comprovadamente incapaz de executá-la? Custei a descobrir a resposta a essas inquietações. Ela se encontra, exatamente, na ideia um tanto abstrata de “cidadão de bem”! Incontáveis vezes, ao longo dos anos, em centenas de debates, esse tema me foi lançado como carta forte, em forma de pergunta: "O que é, afinal, um cidadão de bem, quem são tais pessoas?".

Aqueles que no começo do século XXI conceberam o Estatuto do Desarmamento e os que se recusam a votar uma lei que atenda melhor os anseios e necessidades dos cidadãos de bem não sabem responder a essas perguntas e as propõem como quem sugere um enigma!

É claro que não saber o que seja uma pessoa de bem, se a indagação sobre as características de tais seres humanos se dilui no silêncio de nebulosas dúvidas, se a diferença entre um cidadão honrado e um bandido é tão sutil que não pode ser estabelecida, então todos somos suspeitos e perigosos. Não podemos ter acesso a armas. A ideologia que dominou o país durante tanto tempo tornou politicamente incorreto, preconceituoso e elitista pretender estabelecer distinção entre os leitores destas linhas e a bandidagem que os acossa e intranquiliza.

Deu para perceber? Desarmamentismo é o velho relativismo vestido de branco!

Quem o defende não sabe mesmo, olhando no espelho ou ao redor, o que seja um profissional correto, um governante probo, um bom aluno, um comerciante honesto, um atleta leal, um soldado valoroso, um pai de família dedicado, um trabalhador esforçado, um patrão justo. É ruim, não? Pois bem, senhores e senhoras que não sabem o que seja uma "pessoa de bem": a resposta à vossa pergunta é...

Não, não a darei. Embora congruente com a indagação, o esclarecimento seria descortês.

O enigma norte-americano: casos de vírus aumentam e mortes diminuem.

Mais exames, tratamentos melhores e até mutação no comportamento e na carga viral ajudam a entender a disparidade entre as duas curvas. Vilma Gryzinski:


Quem acompanha o noticiário tem motivos para acreditar que os Estados Unidos estão na beira do precipício. Quase 60 mil infectados num único dia, caminhando para 100 mil, segundo disse o infectologista chefe Anthony Fauci.

São os motivos errados.

No pico da epidemia, em 19 de abril passado, morreram 1.733 pessoas com Covid-19. Ontem, foram 273. No Brasil, um dia antes, foram 1.111.

Desde o auge, as duas curvas – contagiados e mortos – começaram a se separar nos Estados Unidos, num movimento chamado de jacaré abrindo a boca. E a boca não para de abrir.Governo Bolsonaro: Sinais de paz Leia nesta edição: a pacificação do Executivo nas relações com o Congresso e ao Supremo, os diferentes números da Covid-19 nos estados brasileiros e novas revelações sobre o caso Queiroz

O retorno do fechamento de estabelecimentos comerciais em estados importantes como o Texas e a Flórida cria a impressão de que situação está fora de controle.

O “refechamento” é uma opção ruim para todos, principalmente para os proprietários, que gastam para abrir de novo e em seguida perdem um faturamento já não muito animador.

Mas não é uma situação desbaratada. Fora exceções localizadas como Houston, dados como a ocupação de leitos de UTI indicam uma taxa que oscila, como pequenas ondas, em torno dos 60%, em nenhum momento perto do estado crítico.

O primeiro motivo da disparidade entre casos confirmados e mortos é o aumento do número de testes – nenhum outro país fez mais testes do que os Estados Unidos. Foram quatro milhões na semana passada.

Outra hipótese, levantada por Fauci: o vírus passou por uma mutação para ficar mais contagioso, uma adaptação típica dos agentes infecciosos movidos pela mesma e unânime lei da própria reprodução.

A mutação foi detectada, ainda sem confirmação, numa espícula, as “garrinhas” de proteína que se acoplam a células saudáveis do sistema respiratório, transformando-as em produtoras de clones do vírus.

O fato de que tenha se tornado mais contagioso não significa que o Sars-CoV-2, o nome oficial do novo coronavírus, seja necessariamente mais deletério, o que aumentaria a gravidade dos casos e o índice de mortos.

Segundo um estudo de Stanford, baseado em testes de anticorpos, a letalidade real do vírus é de 0,25%. Ou seja, mata uma pessoa em 400.

Nos dois extremos, o mais letal e o menos, ficam o influenza, com 0,1%, e o Ebola, com 50% de letalidade.

O abaixo-assinado de 239 especialistas divulgado ontem pelo New York Times, apelando pelo reconhecimento de que o vírus paira no ar através de aerossóis, assustou muita gente.

Um vírus aerotransportado teria um alcance de contágio muito maior, principalmente em ambientes fechados e sem ventilação.

A ideia comum de que isso aconteça leva os leigos a ter ideias “profundamente idiotas”, segundo os termos nada amenos do epidemiologista Bill Hanage, de Harvard.

“Temos a noção de que a transmissão aérea significa gotículas que pairam no ar capazes de nos infectar muitas horas depois, esparramando-se pela rua e entrando pela caixa de correio até conseguir entrar em nossas casas”.

Não é absolutamente isso que acontece, coincidem todos os cientistas, numa dose de alívio de alcance mundial.

Já pensaram se tivéssemos que usar máscaras dentro de casa, o tempo todo, para escapar de um vírus voador?

O tratamento dos pacientes de Covid-19 também está avançando, embora não existam medicamentos específicos para a doença.

Os dois remédios adaptados mais úteis, segundo estudos mais recentes, são o remdesivir, originalmente um remédio para Ebola que nunca chegou a ter esse uso.

Problemas: o custo e a rapidez do governo americano ao adquirir 99% dos estoques do antiviral.

O remdesivir acelera a recuperação de pacientes que ainda não chegaram ao estágio derradeiro de precisar de respiradores, diminuindo o tempo de hospitalização.

Ele é produzido apenas pela Gilead, um laboratório especializado em antivirais. O tratamento costuma ser de cinco doses diárias.

Preço nos Estados Unidos para pacientes em sistemas públicos de saúde, como o Medicare: 390 dólares por dose, num total de 2.340.

Para pacientes com planos privados de saúde, salta para 3.120 dólares.

Muitíssimo mais barata, mas politizada a ponto em que nem estudos científicos convencem, para um lado ou outro, é a hidroxicloroquina.

Um estudo feito pelo Henry Ford Health System, um programa de saúde sem fins lucrativos na região de Detroit, o berço do automóvel, teve os seguintes resultados:

Dos 2.541 pacientes em seus hospitais estudados entre 10 de março e 2 de maio, morreram 26,4% dos que não receberam o medicamento.

Entre os que tomaram a hidroxicloroquina em no máximo 48 horas depois de hospitalizados, o índice de mortes foi de 13%.

Não esperem ver grande divulgação desse estudo.

Como Donald Trump disse, em maio, que tinha tomado preventivamente o medicamento para malária, formou-se uma torcida mundial para que: a) a hidroxicloroquina seja considerada o pior remédio do universo; e b) o coração presidencial não aguente a dose.

Não é preciso nem falar sobre o similar brasileiro.

Os Estados Unidos são parecidos com o Brasil no sentido da grande extensão territorial e do sistema federativo pelo qual os estados conduzem os programas de saúde pública.

Os dois países hoje estão nos dois primeiros lugares da lista de mais casos de Covid-19.

No índice de mortes por milhão de habitantes, os Estados Unidos têm 400 e o Brasil, 305 – amplamente superados por Bélgica, Espanha, Reino Unido, Itália e até a Suécia, com seu programa especial de buscar, sem declará-la, a imunidade de rebanho.

Sobre esta, dois novos estudos indicam que o alcance da infecção seja maior do que o constatado até agora se for usado o critério do linfócitos T, especializados no combate a infecções, e não apenas o nível de anticorpos específicos para a Covid-19.

Extrapolando-se os resultados dos estudos, o número de pessoas que já tiveram contato com o novo vírus chegaria a 30% em Londres e 40% em Nova York.

Para alcançar a imunidade de grupo, é preciso que o índice seja de 60% a 70%.

O bichinho continua a dar um trabalho danado, mas seus pontos fortes e fracos vão sendo desvendados pela maior concentração de estudos científicos da história da humanidade.

Faz parte do processo que estes estudos sejam, eventualmente, contraditórios e contestados.

É batendo cabeça que o conhecimento científico, ajudado pela prática clínica, avança.

Os valores e a "nova normalidade"

Medo da morte, medo da insegurança social e econômica. Como viver sob tais circunstâncias? Artigo do professor Denis Rosenfield para o Estadão:


Talvez não nos tenhamos dado conta devidamente de que o mundo mudou. O que vivíamos antes não se faz mais presente senão sob o modo da lembrança e do anseio, enquanto o que nos espera está sendo apenas vislumbrado. Falamos uma linguagem fruto de nossa condição anterior, como quando verbalizamos a nossa situação sob o modo da pré e da pós-pandemia, como se este período atual fosse passageiro, a ser apenas atravessado. 

Se há, estrito senso, um pós-pandemia, ele se situa posteriormente à descoberta, industrialização e distribuição maciça de uma nova vacina, capaz de controlar esta doença, se é que não teremos no futuro outros eventos do mesmo tipo. 

Religiosos diriam que voltamos a ter pandemias, tempestades, pragas bíblicas como a dos gafanhotos e mortes que se acumulam em escala planetária. Moralmente, as relações humanas estão mudando, seja na quarentena, seja no desrespeito a regras que sejam melhores para a saúde de todos. A transgressão não deixa de ser um reconhecimento de que há uma nova normalidade, por mais que possamos ter dificuldades de admiti-la.

Seria tentado a dizer que antes de um “pós-pandemia” viveremos ainda bons meses, nãos se sabe quantos, de um lento e doloroso processo de saída, em que os caminhos a serem trilhados estão sendo somente vislumbrados. E nesta travessia as relações humanas estão sendo transformadas, comparecendo outros valores e formas de comportamento. A pandemia nos põe diante dos limites da condição humana e do seu próprio significado. 

A finitude da condição humana, enquanto questão, surge com a irrupção do coronavírus, atingindo o corpo mesmo das pessoas e confrontando-as com a ameaça da morte súbita, imprevista. As pessoas são extraídas do seu cotidiano, passam a viver uma reclusão forçada e são levadas, queiram ou não, à introspecção. Algumas se voltam para a solidariedade, o fortalecimento da família, outras se sentem desorientadas ou mesmo abandonadas. Dentre elas aparecem diferentes demandas, como a ajuda familiar, o apoio dos amigos, até as mais propriamente “políticas”, decorrentes de pedidos de maior intervenção estatal. 

A sociedade foi atingida por um inimigo presente e invisível, que tudo controla e ameaça, não deixa nenhum espaço para o descuido. Qualquer um pode ser atingido, sem sequer se dar conta de que o seu destino pode ter mudado, quiçá para sempre. Milhões de pessoas são afetadas pela crise econômica, o desemprego é estratosférico, a renda familiar cai vertiginosamente, as empresas menores não têm como se sustentar, cria-se um clima geral de insegurança. De um lado, o medo da morte; de outro, a insegurança social e econômica. Como viver sob tais circunstâncias? 

Atentemos para o uso de máscaras e a relação que assim se estabelece com o outro. Crianças nas escolas, na volta às aulas, serão obrigadas a usar máscaras e a guardar uma distância sanitária dos colegas. O que isso significa? Significa que o outro não é uma companheira ou um companheiro, mas uma ameaça, nela e nele serão vistas a doença e a morte. Num shopping, num comércio, numa empresa, numa repartição pública surge o medo do outro, o sentimento de uma ameaça constante. Os valores morais sofrem uma grande transformação, seja ela consciente ou não. Em todo caso, as relações humanas estão sendo profundamente alteradas.

Pensa-se hoje na retomada da economia, como se estivéssemos na iminência de uma volta à normalidade anterior, com, por exemplo, os mesmos patamares de renda e de consumo. Há uma questão que se impõe: será que as pessoas voltarão a consumir da mesma maneira? Será que o consumo como valor não teria ele mesmo se tornado problemático? Talvez não baste a reabertura de shoppings e de comércios se essa mudança de valores e de comportamentos não for pensada e outras mensagens não forem transmitidas, baseadas na vida e na valorização dos outros.

Na quarentena as pessoas aprenderam a viver com menos bens materiais e apreciando mais as relações humanas nos microcosmos em que foram obrigadas a se inserir, como a família, o casamento, as relações amorosas e os amigos. Desapareceu a noção do entretenimento como era antes: ida a bares, restaurantes, lojas, shoppings, cinemas. Surgiram outros entretenimentos, como os streamings, a leitura de livros e a conversa – ou mesmo o silêncio – com o próximo. Todavia, para além desses entretenimentos, perguntas relativas à doença, à morte e à vida ganharam relevância. Sentimentos como o medo e a insegurança tomaram conta das pessoas. 

Nos Salmos já aparecia a ideia de que “o início da sabedoria é o medo do Senhor”, que pode também ser lida em nosso contexto como uma indagação sobre o sentido mesmo da condição humana no recurso a um Senhor que venha em nosso auxílio se o soubermos reconhecer. Em Hegel aparece a mesma ideia: o “início da sabedoria é o medo (da morte violenta)”; em nossa condição, o medo da morte que pode irromper a qualquer momento sob a forma do coronavírus. Não caberia uma indagação sobre o saber e os nossos valores?

domingo, 5 de julho de 2020

Frederico Lourenço: "É urgente que o ensino volte a proporcionar grego e latim".

Na edição dominical do Observador, Rita Cipriano entrevista o tradutor e ensaísta Frederico Lourenço, que verteu para o português a Bíblia grega em seis volumes e acaba de lançar uma antologia de poetas gregos em edição bilíngue. Lourenço defende a volta do grego e do latim ao ensino secundário:


Em 2006, Frederico Lourenço publicou pela Cotovia uma antologia de poesia grega. Na altura, tentou “evitar sobreposições com a lendária Hélade de Maria Helena da Rocha Pereira” e também poemas de Arquíloco, Sólon e Simónides, porque estavam para sair traduções feitas por colegas seus. “Achei que não fazia sentido colidir com o trabalho deles”, admitiu, por email, ao Observador.

Passados 14 anos, e com uma edição há muito esgotada, Lourenço decidiu que estava na altura de revisitar a sua coletânea, acrescentando-lhe novos textos, outros poetas e, sobretudo, tendo em conta as novas descobertas no campo da poesia grega, que faziam com que o volume anterior estivesse desatualizado. Esta nova edição, Poesia Grega de Hesíodo a Teócrito chegou às livrarias no dia 26 de junho, pela Quetzal. Contém textos de 11 autores da Antiguidade Clássica, na sua tradução para o português mas também, e pela primeira vez, no grego original.

Frederico Lourenço explicou ao Observador que a necessidade de rever a sua Poesia Grega adveio sobretudo “da rapidez com que edições de poesia grega ficam desatualizadas, por causa das novas descobertas que vão sendo feitas no Egito, donde vêm os papiros que, desde o século XIX, nos têm alargado o horizonte da poesia grega e também da literatura dos primeiros cristãos”.


No caso da sua antologia, estas descobertas afetaram sobretudo o capítulo dedicado a Safo, a famosa poeta da ilha de Lesbos. “Senti necessidade de fazer uma nova edição, tendo em conta esses novos contributos”, afirmou o classicista, salientando que “Safo é de tal forma importante, apesar dos poucos textos que nos chegaram dela, que a ideia de ter dado a ler uma Safo ‘errada’ me incomodava, porque desde 2014 temos mais informações”.

Safo é um “milagre” na história da poesia grega. Nascida em Lesbos na segunda metade do século VII a.C., num meio aristocrático, é uma das poucas mulheres que se sabe terem escrito poesia na Grécia Antiga. É também a primeira que se sabe ter cantado o amor entre mulheres. “Temos nomes de outras mulheres, mas nada de significativo nos chegou delas”, explicou o tradutor, frisando que “Safo é mesmo um milagre”. Da sua sua extensa obra, que enchia nove volumes na Biblioteca de Alexandria, chegaram-nos apenas algumas dezenas de fragmentos, traduzidos quase na totalidade por Lourenço nesta nova edição da Poesia Grega.

No entanto, esse pouco é o suficiente para a considerarmos um nome de primeira importância na literatura greco-latina. Há um perfume de perfeição em Safo que, na minha opinião, só voltaremos a encontrar em Vergílio”, afirmou o professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Safo é um dos autores que Maria Helena da Rocha incluiu na Hélade (uma antologia de cultura grega publicada originalmente em 1959 que, na sua versão final, reúne mais de cinco centenas de textos de autores como Anacreonte, Ésquilo ou Heródoto), mas os fragmentos que a helenista selecionou não contêm quaisquer referências homossexuais. “A antologia da Doutora Rocha Pereira tinha lacunas gritantes, dado que ela tentou impor um photoshop idiossincrático à poesia grega, eliminando dela toda a poesia de temática homossexual”, considerou Lourenço, que fez questão de incluir desde o início na sua antologia “essa poesia homossexual por ela eliminada”.

É por causa de novas descobertas como as referentes a Safo que Frederico Lourenço considera que o estudo da poesia grega é sempre um work in progress, “no sentido em que vamos tendo testemunhos novos em que basear o estudo, devido a papiros entretanto descobertos e publicados, mas também no sentido em que os estudos dos helenistas contemporâneos trazem cada vez mais iluminações sobre a materialidade poética do texto. Por exemplo, em 2006 nem eu nem ninguém tinha uma ideia segura sobre a métrica de muitos poemas de Píndaro, porque o livro revolucionário de um japonês chamado Kiichiro Itsumi, Pindaric Metre, só foi publicado em 2009. Hoje sim, percebemos muito melhor o que é a tessitura rítmica de um poema de Píndaro”, exemplificou.

Ele, tu e eu (fr. 31 PLF)

Aquele parece-me ser igual aos deuses,
o homem que à tua frente
está sentado e escuta de perto
a tua voz tão suave

e o teu sorriso maravilhoso. Na verdade isto
põe-me o coração a palpitar no peito.
Pois quando te olho num relance, já não
consigo falar:

a língua se me quebrou e um subtil
fogo de imediato se pôs a correr debaixo da pele;
não vejo nada com os olhos, zunem-me
os ouvidos;

o suor escorre-me do corpo e o tremor
me toma toda. Fico mais verde do que a relva
e tenho a impressão de que por pouco
não morro.

Um dos poetas que o classicista não incluiu na primeira versão da sua coletânea e que agora fez questão de traduzir foi Hesíodo. “Hesíodo é, a seguir a Homero, o prelúdio de toda a poesia greco-latina.” Os dois autores partilham, aliás, várias características linguísticas, o verso em que compuseram (hexâmetro) e a datação das suas obras mais antigas (cerca de 700 a.C.). No caso de Hesíodo, este lugar pertence à Teogonia, importante fonte mitológica que narra a origem do mundo e dos deuses. A sua outra obra, Trabalhos e Dias, trata-se de um repositório de sabedoria popular referente à agricultura, astronomia e superstições várias, que relata, entre outros episódios, o mito de Pandora e o mito das Cinco Idades, explicações para o trágico destino do ser humano.

Juntamente com a Ilíada e a Odisseia, as duas obras de Hesíodo compõem os quatro grandes poemas da “aurora grega”, e Lourenço inclui excertos de ambos na sua antologia. Porém, este poeta é muito menos conhecido do que Homero, o que Lourenço considera prender-se fundamentalmente “com o facto de a poesia de Hesíodo não ser narrativa. Aliás, por alguma razão as passagens mais admiradas de Hesíodo são as narrativas, como o Mito das Cinco Idades ou o Mito de Pandora. Pela mesma razão, as pessoas interessam-se menos pelas Geórgicas de Vergílio e mais pela Eneida”.

Frederico Lourenço admitiu que “se esta edição não fosse bilingue, talvez não tivesse sentido necessidade de incluir Hesíodo, porque há uma boa tradução da sua poesia na Imprensa Nacional. Mas vi a oportunidade como um pretexto para ajudar as pessoas a ler Hesíodo em grego”, afirmou. “Além de que os temas tratados nos trechos que selecionei de Hesíodo vão dar o mote a muitos poetas tanto na Grécia como em Roma.”

Safo é considerada a primeira autora da literatura europeia
Também Calímaco, a outra novidade desta nova edição da sua antologia, é essencial para quem se dedique ao estudo da poesia latina. “Considero a leitura de Calímaco obrigatória para quem se dedique ao estudo da poesia em Roma. Em Coimbra leciono, entre outras coisas, uma cadeira chamada Poesia Latina. Nela convido os alunos a perceber quão importante foi a influência de Calímaco em Roma”, disse, lembrando que o poeta, “funcionário da Biblioteca de Alexandria, era leitor e apreciador de Hesíodo”.

A ideia de fazer uma edição bilingue, em português e no grego original, partiu do editor da Quetzal, Francisco José Viegas, e foi desde logo abraçada pelo tradutor, que acredita que “a necessidade de edições bilingues” é “cada vez mais premente”. O também professor considera “lamentável que não haja em Portugal edições de textos gregos e latinos bilingues, como a coleção ‘Gredos’ em Espanha ou a coleção ‘Loeb’ de Harvard” e diz estar “cada vez mais convencido de que não faz sentido nenhum estarmos a dar a ler traduções destes textos sem o texto original”.

“O próprio facto de, na página par, estar o mesmo texto da página ímpar, só que na língua original, há-de levar as pessoas, mais cedo ou mais tarde, a perceber que algo não está a correr bem num sistema educativo como o nosso, em que o grego desapareceu e o latim é residual”, afirmou, acrescentando que, na sua opinião, é “uma questão de urgência máxima que o nosso ensino secundário volte a proporcionar aulas de grego e de latim. Somos a vergonha da Europa”.

Este ano tive uma aluna italiana Erasmus, que nos chegou a Coimbra com cinco anos de latim no ensino secundário e mais dois no universitário. Nada como uma experiência dessas para perceber quão parolos nós somos.”

O classicista já tinha considerado numa entrevista anterior ao Observador, concedida a propósito do lançamento da Nova Gramática do Latim no ano passado, que era importante que “o acesso às línguas clássicas, sobretudo no que toca ao latim”, começasse no ensino secundário, “bem antes do 10.º ano. Diria que o momento ideal seria no 5.º ou 6.º ano de escolaridade. Começando bem cedo, os alunos teriam a possibilidade de aprender latim de forma lúdica, progressiva”, disse.

Ensinar latim e grego a partir do zero na universidade numa licenciatura que só dura três anos parece-me uma solução muito problemática. (…) Que competência numa língua adquire uma pessoa já adulta no espaço de três anos? Não digo que não haja alunos sobredotados que conseguem esse feito extraordinário, de chegaram ao fim de uma licenciatura de três anos com uma boa competência em latim ou em grego. Mas são a exceção.”

Esta foi a primeira edição bilingue do classicista, o que significa que, além da tradução, foi também responsável pelo estabelecimento do texto em grego. Uma experiência que classificou como “apaixonante”. “Segui o critério habitual da coleção ‘Loeb’ de Harvard, que é de estabelecer o texto com base nas informações oferecidas pelas edições críticas já existentes ou por artigos em revistas especializadas, no caso dos papiros”, começou por explicar. “Por muito que eu adorasse, não tenho possibilidade de passear pela Europa a consultar manuscritos gregos em Paris, Viena, Londres ou Berlim. Fiei-me nas informações dadas em edições que são de reconhecida fidedignidade.”

Ode Olímpica II
a Terão de Agrigento,
vencedor na corrida de cavalos (476 a.C.)

Hinos soberanos da lira!
Que deus, que herói, que homem celebraremos?
Na verdade, Pisa pertence a Zeus. Os Jogos Olímpicos
estabeleceu-os Héracles,
como primícias da guerra.
Mas Terão, graças à quadriga vitoriosa,
deve ser proclamado, ele que é justo na consideração dos hóspedes,
o baluarte de Agrigento,
preclaro sustentáculo da cidade, descendente de antepassados ilustres,

os quais, esforçando-se muito no coração,
obtiveram uma sacra morada à beira rio, eles que eram
o olho da Sicília; avançava o tempo que lhes fora fadado,
juntando riqueza e felicidade
às virtudes que lhes eram congénitas.
Mas ó tu, Crónida filho de Reia, que reges a sede do Olimpo,
o cume dos concursos e o vau do Alfeu!
Agradado com os meus cantos,
protege-lhes de bom grado a terra pátria

em prol da progénie vindoura. Uma vez as coisas feitas,
quer com justiça ou para lá da justiça,
nem o Tempo, pai de todas as coisas,
conseguiria invalidar o termo dos atos.
Só que o esquecimento surgiria com um destino feliz:
pois sob as nobres alegrias morre o sofrimento,
subjugado na sua malevolência,

quando o Destino de deus atirar
em direção ao alto a ventura sublime. Esta frase vem a propósito
das filhas de Cadmo de belos tronos, elas que sofreram enormidades.
Mas a dor profunda despenha-se
ante a presença de melhores benesses.
Vive pois entre os Olímpios, depois de morrer no fragor
do relâmpago, Sémele de longos cabelos; e Palas
ama-a sempre; e também
Zeus pai; e mais ainda a ama o filho, portador de hera.

E dizem que no mar,
no meio das marinhas filhas de Nereu, uma vida imperecível
foi concedida a Ino, para todo o sempre.
Na verdade, dos mortais não está determinado
o termo da morte,
nem quando chegaremos ao fim do dia tranquilo,
filho do sol, com o que há de bom incólume.
É que torrentes diferentes de lados diferentes
correm em direcção aos homens com prazeres e dores.

Assim o Destino, que a herança paterna
desta família detém — o benevolente fado –, à ventura pelos deuses dada
ainda acrescenta algum sofrimento,
que será de novo revertido noutro tempo;
desde aquele dia em que o filho fadado 1 matou Laio
ao dar de caras com ele, cumprindo o oráculo
há muito proferido em Delfos.

Vendo tal coisa a Fúria aguçada,
matou-lhe a belicosa descendência em recíproca carnificina.
Mas sobreviveu Tersandro ao tombado Polinices,
e em competições de jovens
e nas lutas da guerra
foi honrado, vergôntea salvadora da casa de Adrasto.
Por isso fica bem que aquele cuja raíz vem desse sémen,
o filho de Enesidamo,
encomiásticos cantos e liras tenha a sorte de encontrar.

Pois em Olímpia ele próprio
recebeu o prémio; em Delfos, para ele e seu irmão,
— e no Istmo também –, as Graças em conjunto
trouxeram as coroas floridas pelas quadrigas
de doze voltas. Ganhar
liberta das preocupações quem entra na competição.
A riqueza adornada com virtudes
traz destas coisas e daquelas
o momento certo, ao apoiar funda e selvagem ambição:

é um astro resplandecente, veríssima
luz para o homem! Se quem possuísse a riqueza soubesse o futuro,
que dos que morrem aqui na terra
logo os espíritos impotentes
pagam as penas; quanto às faltas cometidas neste reino de Zeus,
debaixo da terra alguém as julga,
proferindo a sentença com obrigatoriedade hostil.

Porém em noites sempre iguais,
gozando a luz do sol em dias sempre iguais, os bons
recebem existência menos penosa, sem revolverem
a terra com a força das mãos,
nem a água do mar,
em prol de exígua sobrevivência; mas, junto dos honrados
pelos deuses, aqueles que se alegraram nos juramentos cumpridos
têm uma existência isenta de lágrimas,
ao passo que os outros sofrem dores que ninguém ver aguentaria.

Mas aqueles que ousaram três vezes
ficar num lado e no outro, mantendo a alma livre
de toda a espécie de injustiça, esses seguem a vereda de Zeus,
além da torre de Crono. Aí, à volta da ilha
dos bem-aventurados, sopram
as brisas do oceano; refulgem as flores de ouro,
umas em terra nas árvores lustrosas,
enquanto a outras alimenta o meio aquático;
de tais flores entrelaçam as mãos com grinaldas e tecem coroas,

sob as sentenças justas de Radamanto,
a quem o grande pai mantém sentado à sua beira,
o marido de Reia, ela que de todos
tem o trono mais elevado.
Peleu e Cadmo contam-se entre eles.
E Aquiles, a quem trouxe — após ter persuadido
o coração de Zeus com súplicas — a mãe.

Foi ele que derrubou Heitor, de Tróia
a forte coluna invencível, e deu Cicno à morte,
assim como o filho etíope da Aurora. Muitas
são as velozes flechas que tenho debaixo
do braço na aljava,
flechas que falam a quem compreende! Mas em geral
é preciso intérpretes. Sábio é quem muito sabe por natureza.
Os que precisam de aprender são como corvos
alarves na garrulice, que grasnam em vão

contra a ave sagrada de Zeus.
Aponta o arco para o alvo: vai, meu coração! Em quem
acertaremos de novo com espírito gentil, disparando
as setas da fama? Na verdade,
apontando para Agrigento,
proclamarei sentença jurada com mente veraz:
em cem anos nenhuma outra cidade gerou
homem mais benfazejo nas intenções
para os amigos nem com mão mais generosa

do que Terão! Mas ao louvor chega a saciedade
quando não é contida com justeza, mas, instigada por homens gananciosos,
pretende linguajar
e obscurecer as belas acções
de homens bons. Pois os grãos de areia escapam à contagem.
E todas as alegrias, que aquele homem proporcionou aos outros,
quem as poderia contar?

"Poesia Grega de Hesíodo a Teócrito". Tradução de Frederico Lourenço

A falta de tempo é um dos problemas que Lourenço espera que possa ser ultrapassado quando se reformar. “Talvez quando me reformar me possa dar ao luxo de fazer uma edição a partir do zero, com a consulta direta dos manuscritos”, admitiu ao Observador. “Terei de escolher um autor de quem haja manuscritos na Biblioteca Laurenciana de Florença, porque ela fecha sempre às 14h. O resto da tarde será para rever igrejas e voltar todos os dias aos Uffizi”, que guarda alguns dos mais importantes trabalhos dos grandes mestres da pintura italiana.

Escolher o seu museu favorito em Florença parece ser fácil, mas o mesmo não se pode dizer quando se trata de selecionar um poema favorito da sua antologia. “Adoro todos.” Ainda assim, “se tivesse de escolher o meu poema preferido da poesia grega, excetuando a Ilíada e a Odisseia, que estão no topo de pirâmide, escolheria a ‘Ode Olímpica II’ de Píndaro, cuja edição e tradução me deram uma felicidade enorme”. E porquê? Porque “é um poema espiritualíssimo sobre o Agora e sobre o Além, imbuído de um misticismo que tem tudo a ver comigo. Na arte, na literatura e na música, prefiro de um modo geral as coisas santas às profanas, embora eu próprio de santo não tenha nada e até seja, em termos de personalidade, saudavelmente profano.”

Assistimos ao primeiro filme brasileiro ganhador do Oscar (com spoilers)

“An Airport for Disgusting Flies” arrecadou inacreditáveis 6 mil cestas-básicas em todo o mundo. Mas o sucesso comercial do filme não intimida Karlo Amarhal, que diz que estuda uma continuação ainda mais surpreendente. Paulo Polzonoff Jr. para a Gazeta:


E o Oscar vai para... “An Airport for Disgusting Flies”, de Karlos Amarhal.

Foi a primeira vez que o Brasil ganhou o Oscar. O experiente diretor, produtor, roteirista, ator, cantor, figurinista e cabeleireiro Karlos Amarhal tinha chegado perto com “Big Ears to Kindle Fire”, a pungente e ao mesmo tempo revoltante história de Thyago, um menino com orelhas-de-abano que enriquece depois de processar os coleguinhas de pré-escola que tiravam sarro de suas abas – e que abas! Na época, o filme foi indicado a 34 estatuetas, mas não levou nenhuma, o que gerou acusações de brasilofobia. A produção premiada daquela noite foi o duro, amargo e perturbador “Was Rin-tin-tin the Racist Dog Ever?”, sobre o célebre cão dobermannófobo.

E pensar que este caminho para a consagração do audiovisual do meu Brasil varonil começou a ser pavimentado há muitos anos pela atriz Flaviana Karma. Que, até ser cancelada pela turba ensandecida (mais detalhes abaixo), entrou para a história como a autora das imortais palavras “Criminalizem a gordofobia!”. Na época ninguém deu muita bola e houve quem até risse da causa da atriz. Mas pouco depois x ministrx do Legisciário (ou Judilativo) entendeu o tamanho do problema (sem trocadilho) e determinou que discriminar uma pessoa com IMC superior a 25 era um crime análogo ao racismo, mas muito diferente, porque tinha mais peso (com trocadilho) na Escala Manu de Quepeninha.

O mundo inteiro parou para ver quando Gumercindo Farias, o primeiro acusado de gordofobia, foi julgado e condenado à morte ao ser flagrado na calçada assoviando a melodia de “Gordo Baleia, Saco de Areia”, funk para sempre marcado na memória coletiva na voz de Caê III, o Detãrd. Mais tarde a pena foi reduzida para prisão perpétua, depois trinta anos em regime fechado, depois semiaberto, depois tornozeleira eletrônica, depois vem cá, esquece isso, me dá um abraço e vamos fundar uma ONG.

De lá para cá, muita coisa mudou. A própria Flaviana Karma teve sua estátua derrubada quando descobriram que ela tinha interpretado voluntariamente papéis como a “obesinha engraçadinha” em alguns programas de televisão. Mesmo destino teve a estátua de Jô Soares. Houve alguma conversa de extremistas de ultradireita sobre devolver o Cristo Redentor ao local, mas tudo não passou de um delírio fascista.

Amarhal, que era uma criança quando tudo isso aconteceu, inspirou-se na luta que observava no próprio lar para produzir seus primeiros filmes, entre eles a trilogia formada pelo musical “Sua Napa Não Me Protege da Chuva”, o romântico, mas não sexista “Nosso Amor é Maior que o Estrabismo” e o drama histórico “De-de-demoro Pra Di-dizer que Te-te-te-te Amo”. Todos sabiam que um dia Amarhal ganharia um Oscar, só não quando, embora uma senhora da etnia romani tivesse lhe dito que seria num dia 15 de agosto.

“An Airport for Disgusting Flies” surge no momento certo. Ano passado, o mundo foi tomado por manifestantes pedindo o fim da calviciefobia, popularmente conhecida como carecofobia. Centenas de milhares de homens e mulheres quebraram os centros históricos das maiores cidades do mundo para fazer pressão pelo fim dessa que é considerada por muitos historiadores A Última Injustiça do Mundo.

O filme conta a história de Saulo, um homem calvo que está andando tranquilamente pela rua quando vê uma senhora e um senhor conversando na esquina e apontando em sua direção. Apavorado e com a psique já em frangalhos, ele espreme os olhinhos para, com muito esforço, ler os lábios da mulher. Ela diz “Ali, perto daquele careca”. E a partir daí o filme deixa de lado o drama individual de Saulo para falar do drama de todas as pessoas portadoras de deficiência capilar.

Até o final, do qual não posso deixar de falar. A cena em que Saulo, diante do espelho, se despede do último fio de cabelo em sua cabeça lustrosa é, nas palavras do crítico Phu Takeuspa, uma “obra-prima comparável à Estátua de Davi II, que substituiu a representação heteronormativacisbranca do racista Michelangelo”.

“An Airport for Disgusting Flies” arrecadou inacreditáveis 6 mil cestas-básicas em todo o mundo. Mas o sucesso comercial do filme não intimida Karlo Amarhal, que diz que estuda uma continuação ainda mais surpreendente. “Algo me diz que sobrou um cabelinho na nuca”, sugeriu ele em entrevista recente. Será que estamos diante do surgimento de uma franquia de sucesso que quebrará o recorde mundial do drama histórico “Todxs”, com a 64ª continuação prevista para estrear mês que vem?

Enquanto o roteiro de “An Airport for Disgusting Flies 2” não fica pronto, Karlo Amarhal trabalha na cinebiografia de sua maior (!) musa inspiradora, Flaviana Karma. Intitulada “If Only I Could Close my Mouth Shut”, a produção terá no papel principal a jovem atriz Enza di Enza, que desde que nasceu vem se preparando para o papel comendo cinco Big Macs por dia.

[Se você gostou deste texto, mas gostou muito mesmo, considere divulgá-lo em suas redes sociais. Agora, se você não gostou, se odiou com toda a força do seu ser, considere também. Obrigado.]

"Votação nacional" na Rússia: uma farsa em vários atos.

A organização de loterias entre os eleitores foi um dos métodos "inovadores" utilizados para angariar votos. E Putin considera-se agora legitimado para se recandidatar e se manter no poder até 2036. José Milhazes, via Observador:


A forma e os métodos utilizados para o Kremlin conseguir os seus objectivos, deixam claro que o actual regime de Vladimir Putin não chegará ao fim através de eleições democráticas e condenam a Rússia a novas turbulências no futuro.

Os resultados ficaram, até, um pouco além daquilo que os organizadores da “votação nacional” esperavam: quase 80% dos eleitores inscritos votaram a favor, com uma afluência às urnas de 65%. Para dar um ar de credibilidade ao escrutínio, o “não” recebeu o apoio de 21,26% dos votantes.

O dirigente político que afirmara, em 2005, que “não tenciono mudar a Constituição em circunstância alguma”, não conseguiu passar no teste do poder absoluto e considera-se agora “legitimado” para se recandidatar ao cargo de presidente em 2024 e 2030. Putin sai desta “votação” com poderes ainda mais reforçados, nomeadamente no que respeita à formação do governo russo.

Para que estes resultados pudessem ser conseguidos, foi necessário utilizar “métodos clássicos” e formas “inovadoras” de participação no escrutínio.

Entre os métodos clássicos, é de salientar a forma como os poderes regionais obrigaram os funcionários públicos a participar no escrutínio. Foram numerosas as queixas de médicos, enfermeiros e muitos outros, que foram obrigados a votar no seu local de trabalho ou a trazer uma prova de voto consumado no local de residência.

Na “área militar”, o caso mais flagrante registou-se nas Forças Armadas da Rússia, onde a afluência às urnas foi de 99,9% dos inscritos. No “campo civil”, ele aconteceu na Chechénia, república do Cáucaso russo dirigida pelo tirano Ramzan Kadyrov, onde 97,36% votaram no “sim”.

A organização de lotarias para os votantes foi também outra fórmula de atracção utilizada. E, em numerosos casos, as urnas foram transportadas até casa dos eleitores, parques, em bagageiras de automóveis para “facilitar a vida ao eleitorado”.

No que respeita às inovações, é de salientar o facto de a votação se ter prolongado por cinco dias. As autoridades justificaram esta novidade com a pandemia da Covid-19, embora, num país que continua a registar diariamente mais de seis mil contaminados, colocando-o no primeiro lugar da Europa e num dos países do mundo mais afectados pela pandemia, fosse mais lógico adiar a sua realização.

A votação, aliás, estava marcada para Abril, quando o surto pandémico não tinha ainda tomado as dimensões actuais, e foi adiada para Julho, mas os planos de Vladimir Putin não puderam esperar mais.

Os resultados do escrutínio foram de tal forma do agrado das autoridades, que Ella Panfilova, a presidente da Comissão Eleitoral Central da Rússia, já veio afirmar que esta experiência das urnas abertas ao longo de cinco dias, é para continuar. Ficou por explicar como foi possível garantir a inviolabilidade das urnas durante esses dias, mas alguns dos “observadores internacionais”, ligados à extrema-direita alemã e italiana, já vieram declarar que tudo correu dentro dos conformes.

A criação de uma onda ultra-patriótica no país foi outra das formas tradicionais de levar os russos às urnas. Foi essa a razão porque Vladimir Putin transferiu a parada militar de 9 de Maio, dia em que se comemora a vitória do Exército Vermelho sobre o nazismo alemão em 1945, para o dia 24 de Junho, ou seja, para a véspera do início da votação. A pandemia voltava a deixar de ser um obstáculo à manifestação do poder militar russo.

Outra inovação foi a publicação de resultados de sondagens no decorrer do acto eleitoral e o anúncio preliminar de resultados durante o último dia da votação. No primeiro caso, a direcção do VTzIOM, empresa de sondagens controlada pelo Kremlin, justificou a sua publicitação, afirmando não saber que era proibido. No segundo caso, a explicação teve como argumento tratar-se de uma “prova de transparência” do escrutínio.

Durante a campanha eleitoral, os adeptos do “não” foram, ainda, praticamente marginalizados pelos órgãos de comunicação social ligados ao Kremlin e o facto das oposições parlamentar e extra-parlamentar não terem conseguido tomar uma posição única face à votação, facilitou a vida aos organizadores do espectáculo. Parte da oposição apelou ao boicote do escrutínio e parte incitou ao voto no “não”.

Arrisco-me a escrever uma ideia que, provavelmente, não agradará a muitos. Será que Vladimir Putin poderia vencer esta votação sem recorrer a velhas e novas formas de fraude eleitoral? Talvez conseguisse e uma das razões principais prende-se com o medo das mudanças bruscas na sociedade russa. São muitos, aqueles que ainda se recordam das dificuldades económicas e sociais sentidas no final da era da União Soviética e na década de 1990, não querendo arriscar o regresso de situações análogas.

Se as autoridades russas não conseguirem controlar a pandemia de Covid-19, no entanto, e se a situação económica e social continuar a deteriorar-se, o regime de Vladimir Putin poderá ter de enfrentar ondas de protesto sem precedentes. Foi esta, aliás, uma das razões que levou o dirigente russo a realizar a votação em tempo de pandemia.

A política do Presidente Putin começa também a criar atritos dentro das próprias elites russas, algumas delas descontentes com o aumento da influência dos “siloviki” (políticos saídos dos serviços secretos soviéticos/russos) nas estruturas de poder. Será preciso esperar para ver se Putin conseguirá manter o poder até 2024 e ter condições para se recandidatar.

P.S.: Estou curioso para saber qual é a posição do Partido Comunista Português face aos resultados da “votação nacional”. Deverão ter dificuldade em expressar regozijo, porque os comunistas russos votaram contra as emendas à Constituição. Ou será mais lucrativo continuar a lançar elogios a Putin?