quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

O radicalismo da moderação


Neste ambiente tribal, tão centrado nas questões identitárias, o grande radicalismo está mesmo em ser-se moderado: um cartão de visita para vários insultos. Pedro Morais Vaz para o Observador:


No seu livro Como Ser Um Conservador, Roger Scruton brinda os leitores com um dos exercícios de maior honestidade e abertura intelectual que tenho visto. Scruton, um rosto incontornável do conservadorismo, procura esboçar o que nos resta enquanto sociedade, interrogando-se acerca das verdades contidas no nacionalismo, no socialismo, no capitalismo, no liberalismo, no multiculturalismo, no ambientalismo, no internacionalismo e no conservadorismo. No caso do nacionalismo, por exemplo, Scruton entende que este é perigoso da mesma maneira que o são as ideologias, na medida em que “ocupa o espaço deixado vazio pela religião e, fazendo-o, incita o verdadeiro crente a venerar a ideia nacional e, simultaneamente, a procurar nela o que ela não pode dar”, desde logo a finalidade última da vida. Significa isto que não podemos extrair nenhum mérito do nacionalismo? Não. Para Scruton, quando nos questionamos a que pertencemos e o que define as nossas lealdades e compromissos enquanto sociedade, não encontramos a resposta numa religião ou em laços de tribo ou de sangue, mas em coisas que partilhamos com os nossos cidadãos, designadamente o território, a história e os costumes. Aqui reside a “verdade” do nacionalismo.

Nos dias que correm, este espaço para a problematização minguou. Abundam as certezas absolutas, mesmo – para não dizer sobretudo – em temas que ninguém domina (de que a pandemia que atravessamos é um bom exemplo), e escasseia a tolerância face a visões diferentes, o que compromete as possibilidades de diálogo, fundamentais numa cultura democrática. Esta lógica de acantonamento tem sido fortemente potenciada pelos fenómenos das redes sociais. Cada um de nós só “segue” e lê quem pensa como nós (ou, pelo menos, de forma idêntica), o que logicamente contribui para fortalecer (ainda mais) as nossas convicções e para incentivar o repudio, ou mesmo a ridicularização, de todas as restantes.

Este “apelo da tribo”, de que a cultura democrática e liberal nos vinha libertando, representa a negação do individuo como ser soberano e responsável – como bem explica Mario Vargas Llosa na sua mais recente obra. Este espírito tribal, tão característico de grandes espectáculos como os antigos circos romanos, os jogos de futebol ou os concertos pop, nos quais o indivíduo desaparece (engolido pela massa) e suspende a racionalidade, é agora transposto para a política.

É neste contexto que a “moderação” é vista como uma fraqueza. Neste mundo de claques, não há lugares a meios termos ou a grandes interrogações: ou se está connosco ou se está contra nós, sendo que os adversários (rectius, os inimigos) não merecem sequer o dispêndio do nosso latim. O impropério é mais eficaz e dá, seguramente, menos trabalho do que desmontar um argumento. As reacções ao abaixo assinado “A clareza que defendemos” são disso um bom exemplo. O texto podia ser criticado por muitas coisas, desde logo por não identificar com clareza os seus alvos. O que assistimos, ao invés, foi a uma chacina pública. Alguns dos subscritores chegaram a ser desacreditados não pelo que alguma vez fizeram, disseram ou escreveram, mas, imagine-se, pelas suas companhias…

Sejamos claros: a moderação não se confunde com relativismo, mas com a noção de que a democracia não se reconduz a uma tirania do poder vigente. A moderação é, acima de tudo, uma postura, um modo de estar, assentes nas noções de falibilidade e perfectibilidade humanas. Um moderado não tem necessariamente menos convicções do que qualquer outra pessoa; mas, ao discuti-las, não precisa de rebaixar os seus oponentes ou de os integrar em conspirações malévolas. A abertura para o diálogo, a predisposição para escutar abertamente as preocupações de quem não pensa como si, não significa vender a alma ao Diabo. É por isso que o exercício de Scruton é tão desconcertante: como pode um homem que testemunhou bem de perto a crueldade do mundo comunista encontrar alguma “verdade” contida no socialismo?

Hoje, é mais fácil alistarmo-nos num dos lados da barricada e juntarmos a nossa voz aos coros instalados. Neste ambiente tribal, tão centrado nas questões identitárias, o grande radicalismo está mesmo em ser-se moderado: um cartão de visita para vários insultos mas, ainda assim, o melhor remédio para os tempos que vivemos.

Eurodeputado na orgia, cantora na festa e outros infratores famosos.


Políticos e celebridades que não respeitam as regras para segurar a Covid-19 tentam se safar com fracos pedidos de desculpas - às vezes, nem isso. Vilma Gryzinski:


Depois de uma “longa reflexão”, o húngaro Jozsef Skajer, deputado por seu país no Parlamento Europeu, resolveu renunciar.

A reflexão durou exatamente quatro dias, o período entre o flagrante no eurodeputado, pego pela polícia belga ao tentar fugir pela janela de um apartamento no primeiro andar onde rolava uma festa de sexo grupal com 25 homens, e a constatação de que não daria para continuar.

“Não consumi drogas”, acrescentou Skajer, flagrado em Bruxelas, sede do Parlamento Europeu, com as mãos ensanguentadas na tentativa de fuga e uma mochila devidamente revistada. Sobre as “pílulas do amor” – também conhecidas como ecstasy -, encontradas na mochila, disse: “Não eram minhas e nem sei como foi colocada lá”.

A história é irresistível, inclusive pelo detalhe nada desprezível de que a festa onde a polícia baixou, por infração às medidas de distanciamento para o combate à Covid-19, era frequentada por homossexuais.

Skajer é um dos fundadores do partido Fidesz, o mesmo do primeiro-ministro Viktor Orbán, detestado por progressistas de todos os matizes. O governo húngaro é contra o casamento gay.

“Lamentar profundamente” o próprio erro, como fez o ex-deputado, é o mínimo que prescreve o manual de amenização de danos prescrito para pessoas famosas quando flagradas infringindo regras que, em alguns casos, elas mesmas criaram.

Outro ponto do manual: isolar a mancada como um erro pontual, uma exceção numa vida ilibada.

“Peço que avaliem meu passo em falso contra o pano de fundo de 30 anos de trabalho duro e dedicado”, apelou o deputado húngaro de 59 anos, casado, dois filhos.

“Foi um erro de julgamento sério e indesculpável”, disse Rita Ora, a curvilínea cantora britânica de origem albanesa, também surpreendida no sábado pela polícia numa festa de 30 anos num restaurante londrino.

A cantora disse que a festa, com convidados famosos como a modelo e atriz Cara Delevingne, foi fruto de uma decisão “ao sabor do momento”, como se uma festa para trinta pessoas se materializasse, de repente, do nada.

Outras privilegiadas pela fama: as australianas Nicole Kidman e Dannii Minogue puderam entrar em seu país, onde vigem várias das restrições mais severas do mundo, sem fazer a quarentena obrigatória de 14 dias num hotel fechado pelo governo.

As restrições também são bem rígidas na Califórnia, onde o governador Gavin Newson ignorou a regra número um da vida digital – os celulares estão em toda parte – e foi ao jantar de aniversário de um amigo num restaurante famoso.

“Todos nós somos humanos. Todos nós não correspondemos às expectativas algumas vezes”, filosofou Newsom ao admitir o erro.

O lobista que ofereceu a festa tentou alegar que o jantar tinha sido num espaço ao ar livre – mas lá estavam as fotos de celular para desmentir.

Newsom passou dias levando pancada de adversários políticos republicanos, especialmente suculentas por ele ter sido casado com Kimberly Guilfoyle, atual companheira de Donald Trump Jr.

O governador pelo menos admitiu o erro, ao contrário de Nancy Pelosi, a presidente da Câmara, que se recusou a pedir desculpas quando apareceu num infame vídeo – de celular – andando sem máscara num salão de cabeleireiro. Ainda por cima, disse que a dona do salão é quem deveria se desculpar pela “armadilha”.

A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude e pelo menos fingir alguma contrição é necessário para disfarçar o fato de que os famosos e poderosos vivem num mundo com regras diferentes das que valem para todos nós.

O Brasil cansa


No País os problemas se repetem, num ‘script’ exasperante. O Brasil cansa. Artigo do economista Fabio Giambiagi para o Estadão:


No Brasil, já se disse que o futuro era o elemento unificador do país: no passado, podíamos estar mal, mas a ideia de que haveria um futuro desenvolvimento à nossa espera, como uma espécie de destino manifesto do País, dava-nos certo conforto para enfrentar as mazelas do dia a dia. E cá estou eu de novo falando do que nos aguarda. Ou, como diria o Caetano, “ou não”...

Revisitando os livros que organizei, sozinho ou com algum colega, eu já tinha produzido até agora nove coletâneas só de “agendas para o País”, desde o meu primeiro livro com esse perfil, que organizei em 2003 com A. Urani e José G. Reis. Como nos embates ideológicos alguma dose de veneno é inevitável, já fui objeto da crítica de que “Giambiagi produz sempre o mesmo livro”. Na vida temos de aprender a ter humor e devo reconhecer que a frase, embora ferina, tem um quê de verdade. Não me considero, porém, “culpado” por isso, pelo simples fato de que a realidade se repete!

Basta reler os títulos de alguns dos capítulos do meu livro de 2003 (há quase 20 anos!): Por que o Brasil cresce pouco?, Abertura e crescimento: passado e futuro, As razões do ajuste fiscal, Mercosul: após a ‘paciência estratégica’, o quê?, Reforma tributária: sonhos e frustrações, O setor elétrico: a reforma inacabada, A abertura do setor de petróleo e gás: retrospectiva e desafios futuros, etc. Os títulos não parecem de um livro de 2020?

Se volto aos mesmos temas de sempre, como se vivêssemos num eterno Dia da Marmota, em que os acontecimentos se repetem regularmente, é porque no País não apenas a economia demora a “engatar uma segunda” há tempo, como estamos discutindo algumas reformas há mais de 20 anos e os problemas se repetem, num script exasperante. O Brasil cansa.

Naquele mesmo livro de 2003, Reformas no Brasil: Balanço e Agenda – onde a epígrafe era “O Brasil não tem problemas, mas apenas soluções adiadas”, frase genial de Câmara Cascudo –, tive o privilégio de, entre os diversos autores, contar com capítulos de um amigo que depois viria a se tornar ministro da Fazenda; de outro que seria diretor do Banco Central; de um terceiro, economista-chefe de um dos grandes bancos nacionais; e, finalmente, de nada menos que outros seis que posteriormente se tornaram excelentes funcionários de organizações multilaterais.

Os problemas se repetem, mas com o tempo não dá para abusar dos amigos. Assim, depois de ter perturbado vários deles, entendi que era um bom momento para tratar dos velhos problemas, porém com nomes novos, e propus à editora organizar um livro com o denominador comum de serem todos autores jovens, num elenco em que o único “coroa” seria o organizador.

O livro – que chegará às livrarias no próximo dia 10 – tem como título O Brasil do Futuro (Editora GEN), envolvendo um jogo de palavras, por tratar do amanhã, mas também por conter capítulos de autores que já começam a frequentar o debate, juntamente com outros ainda mais jovens, que têm as credenciais para vir a fazê-lo com assiduidade nas próximas décadas. Para mais de um capítulo liguei para amigos ocupando altos cargos e perguntei: “Que nome você me sugere que pode estar sentado no seu lugar daqui a 10 ou 15 anos?”. Foi uma satisfação reunir esses autores e trabalhar com eles.

Aos temas que são os “mesmos suspeitos de sempre” (a capacidade de crescimento da economia, o ajuste fiscal, o conflito federativo, o grau de abertura da economia, a agenda da infraestrutura, etc.) adicionei nesta oportunidade, seguindo a sábia sugestão de um velho amigo, um bloco de capítulos sobre os chamados “novos desafios”, associados ao mundo em mutação no qual vivemos. Essa parte do livro inclui um capítulo sobre o futuro dos meios de pagamento, um segundo sobre como o fenômeno do Big Data está penetrando em todas as áreas da produção, uma reflexão sobre como a inteligência de dados pode ser utilizada para a redefinição das políticas públicas e uma análise sobre o futuro do trabalho num mundo “uberizado”.

Vivemos num país complexo, onde as transformações são complicadas. Por outro lado, em que pese a perpetuação de alguns eternos desafios, outros foram sendo vencidos. Hoje temos juros baixos e uma inflação parecida com a do chamado Primeiro Mundo, a miséria é inferior à de 30 anos atrás, conseguimos aprovar uma reforma previdenciária digna desse nome, etc. Esses foram temas de capítulos que foram “sumindo” das minhas coletâneas, felizmente.

Uma das coisas que me fazem conservar a chama do otimismo em relação ao Brasil é que neste país temos vários elementos positivos. Um deles é o fato de termos um contingente de pessoas extremamente qualificadas para ocupar a função pública. Foi assim no passado com funcionários de primeiro, segundo e terceiro escalões que desempenharam com brilho suas funções – alguns dos quais tive a honra de contar entre os autores de livros meus.

Tenho a certeza de que vários desses jovens autores de agora escreverão páginas boas de nossa História nos próximos 30 anos.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

O Cavalo de Troia chinês


O risco de intervenção do governo chinês nas empresas locais com o intuito de obter informações sensíveis dos demais países é absolutamente não desprezível. Artigo do professor Christian Vonbun, publicado pela Gazeta do Povo:


É imperativo defender o livre comércio. Uma das razões para o atraso da economia brasileira é a insistência em mantê-la relativamente fechada à concorrência internacional. Todavia, por vezes, é preciso considerar as implicações geopolíticas de fazê-lo.

O mercado 5G alcançou US$ 784 milhões em 2017 e espera-se movimento de US$ 48,8 bilhões em 2027, segundo a Markets & Markets. Seu desenvolvimento é impulsionado pela internet das coisas, por crescentes demanda e velocidade das conexões, dada a cada vez maior centralidade dos celulares e de computadores permanentemente conectados.

As redes 5G são mais flexíveis que as 4G e vão usar bandas de frequência disponibilizadas pela aposentadoria de tecnologias como a televisão analógica, entre outras. Mas podem também se integrar à infraestrutura atual, permitindo a continuidade de prestação de serviços usando hardwares da geração passada. Devem apresentar grande economia de escala e baixos custos facilitando o roaming internacional, por exemplo.

Os maiores competidores no mercado são Huawei (China), Ericsson (Suécia), Samsung (Coreia do Sul), Nokia Networks (Finlândia), ZTE (China), NEC (Japão), Cisco (EUA), CommScope (EUA), Comba Telecom Systems (Hong Kong), Alpha Networks (Taiwan), Siklu Communication (Israel) e Mavenir (EUA). A Huawei é líder do mercado de infraestrutura, com 14 centros de P&D e presença em 170 países.

O desenvolvimento do setor industrial do 5G ainda é nascente, mas deve desempenhar papel vital nos setores manufatureiro, de saúde, industrial, automotivo e, entre outros, o aeroespacial e de defesa.

Isso acende importante sinal de alerta. Uma combinação de hardware e software que seja usada na comunicação entre duas partes pode ser usada para vigiar, espionar e interferir na mesma. E a infraestrutura 5G é um entreposto vital ao processo de transmissão de dados. Disso decorre a necessidade de auditorias de segurança, mas, principalmente, de confiança no fornecedor desses sistemas. Se é verdade que qualquer das empresas listadas pode quebrar a privacidade das comunicações, é evidente que o risco extremo em caso de descoberta não torna esta uma opção atraente do ponto de vista de gestão de negócios.

Todavia, há intrincados mecanismos de participação estatal na regulação e na gestão de empresas na China, que se demonstra cada vez mais agressiva em seus planos de hegemonia geopolítica por meio da construção ilegal de ilhas artificiais no Mar do Sul da China, em Zonas Econômicas Exclusivas de diversos países, bem como de sua estratégia “Colar de Pérolas”, que cerca a Índia em seu próprio território. Isso sem contar a quebra do acordo com o Reino Unido de manter a autonomia de Hong Kong até 2047 e as constantes ameaças a Taiwan.

A estratégia norte-americana, a partir do terceiro quarto do século 20, foi de avalizar o investimento internacional e a integração chinesa aos mercados mundiais, o que se esperava acarretar o fim do regime. Uma crença parecida com a expressa por F.A. Hayek em Lei, Legislação e Liberdade, de ser impossível a convivência de mercados livres com ordens políticas tirânicas. Mas essa ruptura ainda não se verificou e não se sabe o tempo que levará.

O fato é que esse acolhimento da China pelo mercado mundial levou a importantes realocações da estrutura produtiva global e financiou o desenvolvimento tecnológico e militar da China. Isso está levando a crescente instabilidade, ao contrário de maior cooperação pacífica, a ponto de se discutir a ascensão de nova Guerra Fria.

O risco de intervenção do governo chinês nas empresas locais com o intuito de obter informações sensíveis dos demais países é absolutamente não desprezível. Assim como o reforço financeiro decorrente, que pode e deve ser usado para expansão adicional das potencialidades geopolíticas de uma ditadura cuja ambição declarada é obter a hegemonia mundial. Esse é um risco que o mundo livre não pode subscrever. O Brasil deve também banir essas empresas, mesmo que a maiores custos e menor eficiência do 5G.

Christian Vonbun é doutor em Ciências Econômicas pela Uerj e é professor da pós-graduação em Escola Austríaca do Instituto Mises Brasil.

Hannah Arendt: como a solidão alimenta o autoritarismo.


Arendt foi a mais aguda observadora dos totalitarismos, cujas raízes procurou explicar, convencida de que os regimes podem cair, mas seus instrumentos de controle tendem a sobreviver. Ela soube ver o papel da ideologia no isolamento dos indivíduos e na renúncia à liberdade de pensamento. Samantha Rose Hill, em ensaio publicado por Letras Libres:


“Por favor, escríbeme regularmente, si no me voy a morir aquí.” Hannah Arendt no solía empezar así las cartas a su marido, pero en la primavera de 1955 se encontró sola en un “páramo”. Tras la publicación de Los orígenes del totalitarismo, recibió una invitación para ser profesora visitante en la Universidad de California, Berkeley. No le gustaba la atmósfera intelectual. Sus colegas no tenían sentido del humor y la nube del macartismo sobrevolaba la vida social. Le dijeron que habría treinta alumnos en sus clases de licenciatura: había ciento veinte en cada una. Detestaba dar clases magistrales cada día: “Sencillamente no puedo exponerme ante el público cinco veces por semana: es decir, no salir nunca del ojo público. Es como si tuviera que ir por ahí buscándome a mí misma.” El oasis que encontró era el estibador convertido en filósofo Eric Hoffer, pero también tenía dudas sobre él: le dijo a su amigo Karl Jaspers que Hoffer era “lo mejor que puede ofrecer este país”; le dijo a su marido Heinrich Blücher que Hoffer era “muy encantador, pero no brillante”.

Los periodos de soledad no eran raros para Arendt. Desde muy pequeña, tenía una aguda percepción de ser diferente, una outsider, una paria, y a menudo prefería estar sola. Su padre murió de sífilis cuando ella tenía siete años; ella fingió toda clase de enfermedades para evitar ir al colegio y quedarse en casa; su primer marido la dejó en Berlín tras la quema del Reichstag; fue apátrida durante casi veinte años. Pero, como sabía Arendt, la soledad es parte de la condición humana. Todo el mundo se siente solo de vez en cuando.

Al escribir sobre la soledad a menudo se cae en uno de estos dos campos: la memoria excesivamente indulgente, o la medicalización racional que trata la soledad como algo que puede curarse. Los dos enfoques dejan al lector un poco frío. Uno se obsesiona con la soledad, mientras que el otro intenta librarse de ella por completo. Y esto en parte se debe a que la soledad es muy difícil de comunicar. En cuanto empezamos a hablar de soledad, transformamos una de las experiencias que se perciben de manera más profunda en un objeto de contemplación y algo sometido a la razón. El lenguaje no consigue capturar la soledad porque la soledad es un término universal que se aplica a una experiencia particular. Todo el mundo experimenta la soledad, pero lo hace de forma distinta.

Como palabra, loneliness es relativamente nueva para el idioma inglés. Uno de sus primeros usos está en la tragedia Hamlet de William Shakespeare, que se escribió en torno a 1600. Polonio ruega a Ofelia: “Lee de este libro, que mostrar ese ejercicio puede dar color a tu soledad.” (Le aconseja que lea un libro de oraciones, para que nadie sospeche de que esté sola: la connotación es no estar con los demás, en vez de cualquier sentimiento de desear estarlo.)

A lo largo del siglo xvi, a menudo se evoca a la soledad en sermones para asustar a los parroquianos y alejarlos del pecado: a la gente se le pedía que se imaginara en lugares solitarios como el infierno o una tumba. Pero bien avanzado el siglo xvii, la palabra se utilizaba pocas veces. En 1674, el naturalista inglés John Ray incluyó “soledad” en una lista de palabras de uso poco frecuente, y la definió como un término para describir lugares y personas “lejos de sus vecinos”. Un siglo más tarde, la palabra no había cambiado mucho. En el Diccionario de la lengua inglesa (1755), Samuel Johnson describió el adjetivo lonely únicamente en los términos de estar solo (el “zorro solitario”) o un lugar desierto (“rocas solitarias”), de manera similar a como Shakespeare utilizó el término en el ejemplo anterior de Hamlet.

Hasta el siglo xix, la soledad estaba vinculada con una acción –cruzar un umbral, viajar a un lugar fuera de una ciudad– y tenía menos que ver con las emociones. Descripciones de la soledad y el abandono se utilizaban para inducir el terror de la inexistencia en los hombres, para hacer que imaginaran el aislamiento absoluto, separados del mundo y el amor de Dios. Y, en cierto modo, tiene sentido. La primera palabra negativa que dice Dios sobre su creación en la Biblia aparece en el Génesis tras hacer a Adán: “Y el señor Dios dijo: No es bueno que el hombre esté solo; le haré ayuda idónea para él.”

En el siglo xix, en la modernidad, la soledad perdió su conexión con la religión y empezó a ser asociada con los sentimientos laicos de la alienación. El uso del término empezó a aumentar bruscamente después de 1800 con la llegada de la Revolución industrial, siguió subiendo hasta los años noventa del siglo XX y se estabilizó, para ascender de nuevo en las primeras décadas del siglo XXI. La soledad tomó carácter y causa en Bartleby, el escribiente de Herman Melville (1853), en las pinturas realistas de Edward Hopper y en el poema La tierra baldía de T. S. Eliot (1922). Estaba enraizada en el paisaje social y político, se le daba un aire romántico, se poetizaba, se lamentaba.

Pero a mediados del siglo XX, Arendt se acercó a la soledad de otro modo. Para ella, era algo que podía hacerse y algo que podía experimentarse. En los años cincuenta, cuando intentaba escribir un libro sobre Karl Marx en el apogeo del macartismo, empezó a pensar en la soledad y su relación con la ideología y el terror. Arendt pensaba que la experiencia de la soledad había cambiado bajo las condiciones del totalitarismo:
Lo que prepara a los hombres para el dominio totalitario en el mundo no totalitario es el hecho de que la soledad, antaño una experiencia liminal habitualmente sufrida en ciertas condiciones sociales marginales como la vejez, se ha convertido en una experiencia cotidiana.
El totalitarismo en el poder encontró una forma de cristalizar la experiencia ocasional de la soledad en un estado permanente. A través del uso del aislamiento y el terror, los regímenes totalitarios crearon las condiciones para la soledad, y luego apelaron con propaganda ideológica a la soledad de la gente.

Antes de marcharse a dar clase en Berkeley, Arendt había publicado un ensayo sobre “Ideología y terror” (1953) que abordaba el aislamiento y la soledad (tanto en el sentido de loneliness como en el de solitude, a veces traducido como “vida solitaria”) en un Festschrift por el setenta cumpleaños de Jaspers. Este ensayo, junto a su libro Los orígenes del totalitarismo, se convirtió en la base de su muy solicitado curso en Berkeley, Totalitarismo. Se dividía en cuatro partes: la decadencia de las instituciones políticas, el crecimiento de las masas, el imperialismo y el surgimiento de partidos políticos como ideologías de grupos de interés. En su conferencia inaugural, presentó la asignatura reflexionando en torno a cómo la relación entre la teoría política y la ideología se ha vuelto dudosa en la era moderna. Argumentó que había una voluntad creciente y general de prescindir de la teoría en favor de meras opiniones e ideologías. “Muchos”, dijo, “creen que pueden dispensar de la teoría por completo, lo que por supuesto significa que solo quieren que su propia teoría, la que subyace a sus opiniones, se acepte como la verdad del evangelio”.

Arendt se refería al modo en el que la “ideología” se había empleado como deseo para divorciar el pensamiento de la acción: ideology en inglés viene del francés idéologie, y se utilizó por primera vez durante la Revolución francesa, pero no se volvió popular hasta la publicación de La ideología alemana (escrito en 1846) de Marx y Friedrich Engels y luego Ideología y utopía (1929) de Karl Mannheim, que Arendt reseñó para Die Gesellschaft en 1930.

En 1958 se añadió una versión revisada de “Ideología y terror” como nueva conclusión a la segunda edición de Los orígenes del totalitarismo.

Los orígenes del totalitarismo es una obra de seiscientas páginas dividida en tres secciones sobre el antisemitismo, el imperialismo y el totalitarismo. A medida que Arendt trabajaba en él, el texto fue cambiando para incorporar nueva información sobre Hitler y Stalin que llegaba de Europa. La conclusión inicial, publicada en 1951, giraba en torno a la idea de que, aunque los regímenes totalitarios desaparecieran, los elementos del totalitarismo permanecerían. “Las soluciones totalitarias”, escribió, “pueden sobrevivir a la caída de los regímenes totalitarios en forma de fuertes tentaciones que aparecerán cada vez que parezca imposible aliviar la miseria política, social o económica en una manera digna de los hombres”. Cuando Arendt añadió “Ideología y terror” a Los orígenes del totalitarismo en 1958, el tenor de la obra cambió. Los elementos del totalitarismo eran numerosos, pero en la soledad encontró la esencia del gobierno totalitario, y el terreno común del terror.

¿Por qué la soledad no es obvia?

La respuesta de Arendt era: porque la soledad separa radicalmente a la gente de la conexión humana. Definió la soledad como una especie de páramo donde una persona se siente abandonada por todo lo humano y por la compañía humana, incluso cuando la rodean los demás. La palabra que utilizaba en su lengua materna para designar la soledad era Verlassenheit: un estado de ser abandonado, o de abandono. La soledad, argüía, “es una de las experiencias más radicales y desesperadas de la humanidad”, porque en la soledad somos incapaces de realizar toda nuestra capacidad para la acción como seres humanos. Cuando experimentamos la soledad, perdemos la capacidad de experimentar cualquier otra cosa; y en soledad no podemos empezar de nuevo.

Para ilustrar por qué la soledad es la esencia del totalitarismo y el terreno común del terror, Arendt distinguía la soledad del aislamiento, y soledad en sentido de loneliness, de soledad como solitude. El aislamiento, argumentaba, a veces es necesario para la actividad creativa. Incluso la mera lectura de un libro, dice, requiere cierto grado de aislamiento. Uno debe apartarse a propósito del mundo para hacer sitio a la experiencia de la soledad pero, una vez que está solo, siempre puede volver:
El aislamiento y la soledad no son lo mismo. Yo puedo estar aislado: es decir, hallarme en una situación en la que no pueda actuar porque no hay nadie que actúe conmigo, sin estar solo; y puedo estar solo: es decir, en una situación en la que yo, como persona, me siento abandonado de toda compañía humana, sin hallarme aislado.
El totalitarismo utiliza el aislamiento para privar a la gente de compañía humana, imposibilitando la acción en el mundo, y a la vez destruye el espacio para estar solo. La banda de hierro del totalitarismo, como la llamaba Arendt, destruye la capacidad humana de moverse, de actuar y de pensar, mientras enfrenta a cada individuo en este aislamiento contra los demás y contra sí mismo. El mundo se vuelve un páramo, donde no son posibles ni la experiencia ni el pensamiento.

Los movimientos totalitarios utilizan la ideología para aislar a los individuos. Aislar significa “hacer que una persona esté o permanezca sola o lejos de los demás”. Arendt dedica la primera parte de “Ideología y terror” a descomponer las “recetas de ideologías” en sus componentes básicos para mostrar cómo se hace:
Las ideologías están separadas del mundo de la experiencia vivida, e impiden la posibilidad de nuevas experiencias;

Las ideologías se ocupan de controlar y predecir la marea de la historia;

Las ideologías no explican lo que es, sino lo que ha llegado a ser;

Las ideologías dependen de procedimientos lógicos de pensamiento que están separados de la realidad;

El pensamiento ideológico insiste en una “realidad más verdadera”, oculta tras el mundo de las cosas perceptibles.
Nuestra forma de pensar en el mundo afecta a las relaciones que tenemos con los demás. Al inyectar un significado secreto en cada acontecimiento y experiencia, los movimientos ideológicos se ven forzados a cambiar la realidad de acuerdo con sus afirmaciones cuando llegan al poder. Y eso significa que uno ya no puede confiar en la realidad de sus experiencias vividas en el mundo. En vez de eso, debe aprender a desconfiar de sí mismo y de los demás, y a confiar siempre en la ideología del movimiento, que debe ser correcta.

Pero para hacer que los individuos sean susceptibles a la ideología, primero debes destruir su relación consigo mismos y con los demás haciéndolos escépticos y cínicos, de forma que ya no puedan confiar en su propio juicio:
De la misma manera que el terror, incluso en su forma pretotalitaria y simplemente tiránica, arruina todas las relaciones entre los hombres, así la autocoacción del pensamiento ideológico arruina todas las relaciones con la realidad. La preparación ha tenido éxito cuando los hombres pierden el contacto con sus semejantes tanto como con la realidad que existe en torno de ellos; porque, junto con estos contactos, los hombres pierden la capacidad tanto para la experiencia como para el pensamiento. El objeto ideal de la dominación solitaria no es el nazi convencido o el comunista convencido, sino las personas para quienes ya no existen la distinción entre el hecho y la ficción (es decir, la realidad empírica) y la distinción entre lo verdadero y lo falso (es decir, las normas del pensamiento).
La soledad organizada, engendrada a partir de la ideología, conduce al pensamiento tiránico, y destruye la capacidad que tiene un individuo para distinguir entre hechos y ficción, de hacer juicios. En soledad, uno es incapaz de llevar una conversación consigo mismo, porque la capacidad que tiene para pensar se ve en un compromiso. El pensamiento ideológico nos aparta del mundo de la experiencia vivida, mata de hambre la imaginación, niega la pluralidad y destruye el espacio entre los hombres que permite que se relacionen de formas significativas. Y una vez que el pensamiento ideológico ha arraigado, la experiencia y la realidad ya no tienen efecto sobre el pensamiento. En vez de eso, la experiencia se somete a la ideología al pensar. Por eso cuando Arendt habla de la soledad, no solo habla de experiencia afectiva de la soledad: habla de una forma de pensar. La soledad surge cuando el pensamiento está separado de la realidad, cuando el mundo común ha sido reemplazado por la tiranía de las demandas lógicas coercitivas.

Pensamos a partir de la experiencia, y cuando ya no tenemos nuevas experiencias en el mundo a partir de las cuales pensar, perdemos los criterios de pensamiento que nos guían a la hora de pensar en el mundo. Y cuando uno se somete a la autocompulsión del pensamiento ideológico, renuncia a la libertad interior de pensar. Es este sometimiento forzoso de la deducción lógica lo que “prepara a cada individuo para la tiranía en su solitario aislamiento frente a todos los demás”. El libre movimiento para pensar se ve sustituido por la corriente propulsiva y singular del pensamiento ideológico.

En uno de sus diarios, Arendt se pregunta “Gibt es ein Denken das nicht Tyrannisches ist?” (“¿Hay una forma de pensar que no sea tiránica?”). Sigue la pregunta con la afirmación de que la cuestión es evitar que te lleve la marea. ¿Qué permite a los hombres dejarse llevar? Arendt arguye que el miedo subyacente que atrae a alguien a una ideología es el miedo a la autocontradicción. Este miedo a la autocontradicción es el motivo por el que pensar es peligroso: porque pensar tiene el poder de desarraigar nuestra fe, nuestras creencias, nuestro conocimiento de nosotros mismos. Pensar puede desnudar todo lo que apreciamos, en lo que confiamos, lo que damos por sentado día a día. Pensar tiene el poder de deshacernos.

Pero la vida es caótica. Entre el caos y la incertidumbre de la existencia humana, necesitamos una sensación de lugar y sentido. Necesitamos raíces. Y las ideologías, como las sirenas en la Odisea de Homero, nos atraen. Pero quienes sucumben al canto de sirena del pensamiento ideológico deben apartarse del mundo de la experiencia vivida. Al hacerlo, no pueden confrontarse consigo mismos al pensar porque si lo hacen se arriesgan a socavar las creencias ideológicas que les han dado su concepción de propósito y lugar. Por decirlo de manera muy sencilla: la gente que se suscribe a una ideología tiene ideas, pero es incapaz de pensar por sí misma. Y esa incapacidad de pensar, de hacerse compañía a sí mismos, provoca que se sientan solos.

El argumento de Arendt sobre la soledad y el totalitarismo no es fácil de tragar, porque implica un elemento de ordinariedad en las tendencias totalitarias que apelan a la soledad: si no te satisface la realidad, si olvidas lo bueno y siempre pides algo mejor, si no estás dispuesto a enfrentarte cara a cara con el mundo tal como es, serás susceptible al pensamiento ideológico. Serás susceptible a la soledad organizada.

Cuando Arendt escribió a su marido: “Sencillamente no puedo exponerme ante el público cinco veces por semana: es decir, no salir nunca del ojo público. Es como si tuviera que ir por ahí buscándome a mí misma”, no se quejaba vanidosamente del foco. La exposición constante a una audiencia pública hacía que le resultara imposible mantener compañía consigo misma. Era incapaz de encontrar el espacio privado y reflexivo para pensar. Era incapaz de poblar su soledad.

Esa es una de las paradojas de la soledad. La soledad como solitude o vida solitaria requiere estar solo mientras que la soledad como loneliness se revela de forma más aguda en compañía de otros. Del mismo modo que dependemos del mundo público de las apariencias para obtener reconocimiento, necesitamos el dominio privado de la vía solitaria para estar solos con nosotros mismos y pensar. Y eso es lo que perdía Arendt cuando perdía el espacio para estar sola consigo misma. “Lo que torna la soledad tan insoportable”, escribía, “es la pérdida del propio yo, que puede realizarse en la vida solitaria...”.

En la vida solitaria puedes hacerte compañía a ti mismo, entablar una conversación contigo mismo. En esa soledad, no pierdes contacto con el mundo, porque el mundo de la experiencia siempre está presente en nuestros pensamientos. Por citar a Arendt (que a su vez citaba a Cicerón): “Un hombre nunca está más activo que cuando no hace nada, nunca menos solo que cuando carece de compañía. Eso es lo que el pensamiento ideológico y el pensamiento tiránico destruyen: nuestra capacidad para pensar con y para nosotros. Esa es la raíz de la soledad organizada.” ~

Loquidauners x Negacionistas: o jogo do século.


Mas o que é isso?! Que coisa feia, seu juiz! Entrada ver-go-nho-sa de Átila, o Huno, em Vacina. Isso é lance para cartão vermelho, não é, Arnaldo? Paulo Polzonoff Jr. para a Gazeta do Povo:


Bem amigos da Rede Globo. Estamos aqui do glorioso Estádio Jack Dorsey, o Tuitão, para mais uma partida emocionante neste ano de 2020. A partida, você sabe, era para ter sido disputada na Arena Pública, carinhosamente chamada pelo torcedor de Debatezão, mas uma rachadura nos pilares que sustentam o debate público fez com que o espetáculo fosse transferido para esse campo novinho em folha, mas já tão sujo.

Apita o Árbitro e o coronavírus rola pelo gramado. Hoje é o dia pelo qual todo mundo esperava. A grande final do campeonato Covid-19 entre Loquidauners e Negacionistas. O time da casa leva vantagem, porque conta com os artilheiros Dória e STF e, no meio-campo, com o grande armador Átila, o Huno da Ciência. Já os Negacionistas têm sua maior força na defesa, com o goleiro Bom Senso e a zaga liderada pelo experiente, ainda que velho e cansado, Zoínho da Liberdade.

— Galvão.

— Diga lá, Tino.

— E essa final tem outro componente interessante: as acusações recentes de que a China, principal patrocinadora dos Loquidauners, teria pagado bandidos para intimidar o goleiro Bom Senso, que foi encontrado desacordado num banco de praça. Vamos ver como os jogadores reagirão a esse escândalo extra-campo.

Tem razão, Tino. A partida promete com mais esse elemento. Vale lembrar que, lá no começo do campeonato, um dos principais jogadores dos Loquidauners, o Autoritarismo, foi surpreendido no exame antidoping – e nada aconteceu com ele. Só falta agora vira-lata entrar em campo para este jogo ficar completo.

E lá vem o time dos Loquidauners. Quarentena Gourmet passa por Curva Achatada, dá um drible em Taxa de Mortalidade e um chapéu (que beleza!) em Hidroxicloroquina, passa para Átila que lança Dória e... O bandeirinha dá impedimento. Estava mesmo impedido, Arnaldo?

— A regra é clara! O jogador não pode impor um lockdown antes das eleições. A festa da democracia não pode parar.

— Mas depois das eleições pode, Arnaldo?

— A regra é clara. Depois das eleições vale tudo!

Bom Senso dá uma bicuda no coronavírus, mas os Negacionistas não conseguem manter o controle da narrativa. E lá vem Loquidauner no ataque de novo. Quer comentar, Casagrande? Você está quietão hoje...

- É... Os Loquidauners são um time muito bom, né? E eles vieram com um esquema certinho pra sufocar o adversário. Eles treinaram muito o controle da narrativa. E isso é mérito do treinador Má-Fé e seu preparador físico Ignorância.

Realmente este campeonato mostra o grande trabalho de Ignorância neste clube novo, mas muito poderoso. E lá vem Átila de novo, sempre ele comandando as jogadas ali pelo meio do campo. Olha a elegância com que ele domina a narrativa e usa a Ciência para lançar o ataque contra a meta do Bom Senso.

— Galvão.

— Diga lá, Tino.

— Mudança importante no time dos Negacionistas. Sai a Hidroxicloroquina e entra Vacina com a camisa 10.

Isso deve mudar todo o esquema tático dos Negacionistas. Depois de meses no Departamento Médico, Vacina entra em campo para tentar mudar a história dessa final comprada pela China. Vai demorar um pouco ainda, porque a Vacina está sem ritmo de jogo, mas... Mas... Mas o que é isso?! O que está acontecendo?! Que coisa feia, seu juiz! Entrada ver-go-nho-sa de Átila, o Huno, em Vacina. Isso é lance para cartão vermelho, não é, Arnaldo?

- Uma entrada criminosa mesmo, Galvão. Tem que expulsar. Tem que expulsar. Resta saber se a China também não comprou esse Árbitro aí.

Cenas fortes mesmo. Vacina está estendida no chão. Parece desacordada. Será que aconteceu algo mais grave? Não, não. Aos poucos dá para ver que Vacina se levanta. Parece que está tudo bem e ela vai continuar no jogo, sob protestos da imensa torcida adversária que, da arquibancada virtual, grita “Fica em casa! Fica em casa!”

— Galvão.

— Diga lá, Casão.

— A Vacina é um jogador controverso. Tem muito torcedor negacionista que não gosta dela.

Verdade. Mas é uma minoria de arruaceiros da Torcida Organizada Terra Plana. Uns brutamontes que não reconhecem um jogador que começou a carreira no inesquecível e marcante Varíola Esporte Clube e que hoje está aí, jogando seu melhor futebol, mesmo depois dessa falta absurda de Átila.

É Vacina quem está com a bola. Ela faz tabelinha com Zoínho da Liberdade, que toca para o goleiro Bom Senso, que dá uma de líbero, avança, abandona mesmo o gol, se transforma em volante, passa por Átila com um elástico, segue em frente, passa por Autoritatismo, por Cientificismo, já virou atacante, olha Vacina de frente pro goleiro Iluminismo, vai marcar, vai marcar...!

Mas não é possível! O que foi que aconteceu, Tino?

— Não sei e ninguém sabe, ninguém viu, Galvão. Jack Dorsey mandou apagar os refletores do estádio.

É preciso matar o homem branco?


Sob a capa de ativista antirracista, Mamadou Ba mais não é do que um agente político. A luta antirracista mais não é do que nova semântica, essencial para reforçar a “luta pela transformação social”. Rodrigo Adão da Fonseca para o Observador:


Nos últimos dias, o espaço mediático foi conquistado pela controversa discussão à volta das recentes afirmações de Mamadou Ba, autointitulado ativista antirracista, que numa conferência digital sobre o “racismo e avanço do discurso de ódio no mundo” transmitida no canal “Pensar Africanamente”, no YouTube, terá afirmado, de forma tida como bombástica, ser necessário, por uma questão de sobrevivência, e cita-se, “matar o homem branco”. Defendeu Mamadou Ba que para se “evitar a morte social do sujeito político negro” é necessário “matar”, não um homem branco qualquer, mas o “homem branco, assassino, colonial e racista”.

Rapidamente as redes sociais foram tomadas pelas habituais formas de luta fratricida, na sua formulação digital, tendo a batalha mais épica sido travada no Twitter entre os que questionaram o conteúdo eminentemente racista das afirmações, e os que vieram contextualizar o pensamento de Mamadou Ba como sendo meramente metafórico. Dentre as várias afirmações proferidas ganharam visibilidade as de André Azevedo Alves, questionando se [a]pelar publicamente à “morte do homem branco” conta como racismo e apelo ao genocídio”, e as inúmeras respostas que recebeu de toda uma psitacista esquerda unida, em Dolby Surround, justificando as intervenções de Mamadou Ba como tendo sido proferidas no contexto do pensamento de Frantz Fanon. Destaco, neste particular, as de Francisco Seixas da Costa que, com a habitual acutilância e assertividade que marcam o seu alter ego virtual, sentenciou: “Há limites para a estupidez e para a desonestidade: quem não leu Frantz Fanon e não sabe interpretá-lo, às tantas também deve achar que o conceito freudiano de “matar o pai” deve ser levado à letra. Estudassem!”, e as do Secretário de Estado da Energia, João Galamba, que numa manifestação visivelmente freudiana, carregada de quilowatts, desabafou: “Este senhor dá aulas a pessoas. Diz que é professor.

Ora, tendo-me eu interessado bastante ao longo dos anos pelo tema das relações entre racismo, desigualdade e democracia, e lido com atenção e sentido crítico a obra de Fanon e várias das suas expressões e adaptações, decidi trazer para esta coluna reflexões que não são viáveis nas limitações de carateres de uma rede social. Será a referência pública à “morte do homem branco”, no sentido que lhe dá Fanon, uma manifestação de racismo e um apelo ao genocídio, ou simplesmente a expressão deve ser lida no sentido “metafórico”? Qual o sentido e o alcance, em Fanon, da referência em questão? Será esta linha de pensamento a mais adequada para combater o racismo, ou será esta “luta” meramente instrumental, subordinada a uma ação política mais vasta? Será Fanon um pensador a quem valha a pena, hoje, creditar méritos, seja no plano das ideias, seja como expressão de pacifismo e símbolo antirracista?

A obra de Fanon flui entre o sociopolítico e o psicológico, sendo uma das expressões mais conhecidas da chamada “psicopolítica”. Nascido em 1925, é nos anos 50 que Fanon constrói uma narrativa de fusão entre as correntes dominantes da psicanálise de Freud, o existencialismo de Sartre, e o marxismo. Fanon escolhe para si uma politização explícita do psicológico, trazendo uma série de preocupações e conceitos ostensivamente psicológicos para dentro do registo do político. Fá-lo, aliás, de uma forma bastante criativa e até poética, tendo inspirado obras cinematográficas de inegável valia, como, entre outras, “La noire de“, do senegalês Ousmane Sembène (1966), por muitos considerado o pai do cinema francês, ou produções mais recentes, como o galardoado “Chameleon Street”, de Wendell B. Harris (1989), ou o interessantíssimo “Frantz Fanon: Black Skin, White Masks”, de Isaac Julien (1995). O pensamento de Fanon está intimamente ligado também à realidade lusófona, tendo inspirado o importante filme, “Sambizanga”, de Sarah Maldoror, mulher de Mário Pinto de Andrade (primeiro presidente do MPLA, afastado por Agostinho Neto), produzido em 1972, adaptação duma novela de José Luandino Vieira, A vida verdadeira de Domingos Xavier, que conta a história de Maria, uma mulher que de cadeia em cadeia procura o seu marido preso; ou a curta-metragem do brasileiro Aloysio Raulino, “O Tigre e a Gazela”, de 1976, disponível online no portal oficial do PortaCurtas.

Nas suas duas obras emblemáticas, Fanon procura perceber até que ponto a psicologia humana está intimamente ligada a forças sociopolíticas e históricas, construindo uma narrativa psicopolítica onde emprega conceitos e explicações psicológicas e psicanalíticas para descrever e ilustrar o funcionamento do poder, em particular, o colonial. Pode-se, assim, a meu ver, concluir sem dificuldade que no plano argumentativo não se apreendeu suficientemente a proposta de Fanon se não dermos espaço para perceber – e no meu caso, rebater – o político dentro do psicológico e o psicológico dentro do político.

Por partes: é a meu ver inegável a importância da obra “Peau noire, masques blancs”, (1952), como ensaio e proposta, sobretudo, como abordagem teórica para tentar identificar os problemas da identidade negra em contextos racistas e coloniais, bem como os vários complexos psicoexistenciais e os seus efeitos prejudiciais, não apenas nos sonhos dos negros, mas também na sua vida real. Não sendo a psiquiatria a minha área de estudo, consigo, ainda assim, perceber o interesse do apelo e da proposta feitas e aceitar sem dificuldade o impacto que a escravatura e a colonização poderão ter tido na construção do imaginário das pessoas de raça negra, e as implicações nos seus comportamentos. Fanon diz ter rastreado as implicações dessa resposta – do negro que deseja ser branco – nos domínios da linguagem, sexualidade, sonhos e comportamento, encontrando em cada instância a persistência desse desejo – a apropriação da língua e da cultura do branco, o desejo de um cônjuge ou parceiro sexual branco, o sonho de ficar branco. É esse conflito entre o desejo fundamental e a patologia que resulta da impossibilidade de o realizar, que forma o ponto focal da análise de Fanon, tão bem sintetizado no título “Pele Negra, Máscaras Brancas”. O sonho de ficar branco, como condição neurótica é, porém, apresentado já de uma forma mais figurada na obra “Os miseráveis da terra”, onde com mais detalhe e sentido político se discorre sobre a “condição nervosa” do status do nativo, os seus distúrbios de personalidade, e o conflito que se gera entre um impulso ou desejo poderosos e a necessidade de o reprimir. A “neurose da negritude” que Fanon nos apresenta é exatamente o “sonho de ficar branco”, isto é, o desejo de atingir o nível de humanidade concedido aos brancos em contextos racistas e coloniais, o qual, porém, acaba reprimido pela impossibilidade de alguém concretizar esse sonho, dentro de um corpo negro.

Sendo a construção apelativa, sobretudo no contexto dos anos 50 e 60, a primeira grande crítica que se pode fazer é que, ao contrário daquilo que é o domínio da medicina, que enquadra os traumas e as neuroses dentro dos limites da psicologia individual, a proposta de Fanon extrapola tais ideias para fazer delas fenómenos psicológicos explicitamente sociais, enraizados nos contextos históricos e políticos específicos da colonização, onde as desigualdades sociais e políticas estão na base do que poderia ser visto como um problema exclusivamente intrapsíquico. Fanon defende, aliás, a existência de uma neurose cultural, que visa manipular a dimensão inconsciente, assente numa constelação de postulados e proposições que lentamente e com a ajuda de livros, jornais, escolas e seus textos, anúncios, filmes, rádio, fazem o seu caminho dentro da mente, empurrando o símbolo do Mal para tudo o que é negro. Particularmente na Europa, “onde o negro [seria] o símbolo do mal”, onde “concreta ou simbolicamente, o homem negro [representaria] o lado mau do personagem”. O conceito de inconsciência coletiva seria assim a melhor forma de explicar como o racismo pode funcionar de forma herdada, compartilhada por todos os europeus ou brancos, consolidando-se num sistema político de representações que projetam os arquétipos dos valores mais baixos para serem representados pelo negro, assumindo a negritude a fórmula do mal.

Acresce que, como referi inicialmente, Fanon nunca quis limitar a sua análise a uma dimensão psicológica, sendo antes, esta, instrumental da sua proposta política. Fanon procura na psicanálise de Freud e nos seus pressupostos científicos a justificação e o caldo necessários para desenhar um negro oprimido, a expressão africana do proletário, que ajudaria a calibrar o historicismo marxista para o tornar pertinente na libertação colonial. Ora, é na fusão da análise psicológica com as grelhas do marxismo e do existencialismo, na politização explícita do psicológico, que radica o seu carácter violento. Violência esta que se procura legitimar na ideia de opressão cultural e racial. Como muito bem analisou o Rui Ramos aqui no Observador, o pensamento e a obra de Fanon “[justificaram] (…) as violências dos colonizados sobre os colonizadores”, nas guerras coloniais, mas também, digo eu, as ações criminosas de grupos como o Partido das Panteras Negras, nos EUA, não sendo por isso factualmente possível olhar para o seu legado ignorando o rastro de sangue e dor que objetivamente inspirou.

A recuperação da linguagem marxista assente no trauma e no conflito que Fanon corporiza, responsável pela morte de muitos brancos e negros, tem, porém, vindo a fazer o seu caminho nos últimos anos, sobretudo numa certa Academia e em partidos políticos de franja. O pensamento de Fanon faz, por exemplo, parte do cimento ideológico que suporta o Black Lives Matter e os mais recentes movimentos de resistência que trouxeram o caos às ruas do EUA, estando, assim, intimamente ligado a uma forma violenta, de rutura, de combate ao racismo. Mamadou Ba faz desde longa data parte dessa corrente. Sob a capa de ativista antirracista, Mamadou Ba mais não é do que um agente político. Como o próprio abertamente afirmou, a luta antirracista mais não é do que uma nova semântica, um novo sentido para o conceito de “classe”, essencial para reforçar a “luta pela transformação social (…)”. Mamadou Ba entende que é necessário convocar para o “combate (…) categorias como a raça, a orientação sexual e outras que tais” para assim se marcar a agenda política da esquerda. Estas categorias devem ser vistas como ferramentas operativas na luta pela “hegemonia cultural”, ocupando o espaço das “direitas e da social-democracia”. Importa apelar a estas “subjetividades para fazer política”, na linha dos “ensinamentos do Trotsky nos seus escritos (…), olhando para a forma como é ensinada a História e construída a cultura para poder convocar contracultura”, usando a “produção cultural como espaço de disputa pela hegemonia e [expressão] da forma como queremos construir a sociedade”.

É inegável que a raça é ainda um dos fatores de desigualdade. Estamos longe de ter construído em Portugal, mas também nas sociedades mais evoluídas, comunidades onde todos temos, à partida, condições para realizar os nossos sonhos de vida, sem arquétipos de cor. Mas é importante assinalar que o discurso de rutura que Mamadou Ba – e as extremas-esquerdas – querem recuperar, até hoje, apenas se interessa pela questão racial como forma de executar um programa de transformação social totalitário, que quer ser hegemónico, e que não nega, se necessário, o uso da força. A raça é para estas correntes políticas uma mera categoria subjetiva instrumental, uma projeção de um homem novo, inexistente, cuja ideia de base há muito devia estar – metaforicamente – enterrada.

Em sentido simétrico, infelizmente não falta à direita quem procure por estes dias recuperar a questão racial, étnica ou religiosa como forma de criação de estigmas e arquétipos de desvalorização coletiva, com fins meramente instrumentais e políticos, e que apenas ajudam a criar uma lógica dialética de extremos, com claro prejuízo para a afirmação de valores e direitos individuais.

A humanidade está a evoluir a passos largos para uma integração global, onde rapidamente as categorias raciais deixarão de fazer sentido. O homem branco, o homem negro, e todas as categorias que hoje conhecemos, irão morrer de morte natural, sem que tenhamos de os assassinar, física ou culturalmente. Um elevado grau de miscigenação é o corolário lógico de uma sociedade global, integrada e livre, onde todos temos os mesmos direitos e deveres. Ora, a única fórmula política universalmente testada que promove a mobilidade social e fomenta a liberdade chama-se acesso à educação, num ambiente de pluralismo e defesa dos valores individuais; sem tribalismos ou construções artificiais que reduzam a pessoa a uma categoria religiosa, racial, sexual, ou de género, enclausurando-as em narrativas vitimistas, capturáveis politicamente. Por isso, muitos dos que queremos combater o racismo, apenas exigimos mais e melhor Escola. Os únicos homens que temos de matar – e apenas na nossa psique – é esse Homem Novo, sonhado por tantos, e que apesar de permanentemente adiado, tanta dor continua a causar na projeção do seu desejo. E esse Homem Velho, rezingão e desconfiado, que ainda acha que há espaço no futuro para o estigma e a segregação.

Portugal: um país cada vez mais pobre e cada vez mais na cauda da Europa.

Post de João Cortez para o blog blog português O Insurgente:


As políticas socialistas têm-se revelado um grande sucesso, com Portugal a ficar cada vez mais na cauda da Europa (ler aqui e aqui). A OCDE publicou hoje as suas projecções de crescimento económico para os anos de 2020, 2021 e 2022, e sem surpresa, no conjunto dos 46 países analisados, Portugal é o país com o pior crescimento económico previsto para o conjunto dos três anos. É obra – muitos parabéns à geringonça e em particular ao António Costa.

De acordo com estas previsões, em 2022, o PIB de Portugal será 5,1% inferior ao PIB registado em 2019.



Insanidade é aplicar as mesmas políticas e esperar resultados diferentes. Não obstante, os portugueses parecem sofrer do Síndrome de Estocolomo – cada povo tem os governantes que merece.

As eleições municipais apontam o fim do ciclo paulista no Brasil


Os “do contra” sinalizam uma ruptura incondicional com essa ordem paulista do Brasil, vigente até 2018. Não necessariamente são bolsonaristas, mas são necessariamente antipetistas e desprezam os tucanos. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo:


A redemocratização do Brasil trouxe a ascendência de São Paulo no cenário nacional. Sarney (MDB-MA) e Collor (PRN-AL) funcionaram como uma espécie de mandato tampão das oligarquias nordestinas. Um emedebista de Minas Gerais, surpreendentemente, causou o fim da hiperinflação ao colocar um sociólogo marxista na pasta da Economia, e o resto é história: de 1994 a 2014, as eleições presidenciais foram disputadas entre PT e PSDB, dois partidos nascidos no seio do departamento de sociologia da USP.

Nesse período, os atores mais constantes na vida nacional foram estes dois partidos, mais a dupla egressa do bipartidarismo da era militar: MDB (ou PMDB), antigo partido democrático de oposição, e DEM (ex-PFL, surgido da ARENA), antigo partido de situação. Esse bipartidarismo imposto de cima fez com que não fosse possível falar em partido paulista ou partido mineiro, como na República Velha. Ao cabo, DEM e MDB (usemos seus nomes atuais) acabaram por se identificar com cacicados locais. São partidos regionalistas, que costuram uma colcha de retalhos para entregar à Câmara e ao Senado. Em Brasília, os partidos paulistas tinham de se haver com essas bancadas entregues pelos cacicados locais.

Em 2018, a primazia paulista na eleição presidencial se esfacelou: o PSDB não só não foi ao segundo turno, como ficou em quarto lugar, com míseros 4% dos votos válidos. Logo à sua frente, estava uma liderança nordestina, Ciro Gomes (PDT-CE); e atrás, com 2,5% dos votos, o neófito Amoedo (NOVO). Em primeiro lugar ficou Jair Bolsonaro, político periférico do Rio de Janeiro, que concorreu com uma legenda de aluguel.

Em 2020, esse processo de despaulistização avança. Pela primeira vez na história desta democracia, nenhuma capital elegeu o PT. E o PSDB levou quatro, sendo apenas uma de um grande colégio eleitoral: São Paulo, sua casa. O PSDB perdeu Belo Horizonte para um outsider reeleito. Sobraram-lhe uma no Nordeste (Natal) e duas na Amazônia (Porto Velho e Palmas).

Principais partidos com identidade pelo país

Existem aqueles partidos amorfos ao qual se chama popularmente de Centrão. PP, Avante, Republicanos, Patriotas, PSL etc. Não os coloco na análise porque a filiação a esses partidos não é muito informativa; muitas vezes funcionam como legenda de aluguel para quem queria sair avulso como candidato. O MDB, embora seja um saco de gatos, tem história, e é reconhecível por sua organização regional.

Até aqui, listei quatro partidos importantes (DEM, MDB, PSDB, PT), e agora acrescento mais três partidos: PSB, PDT e PSOL. PSB e PDT são, hoje, partidos de oligarquias nordestinas: a do falecido Eduardo Campos, candidato à presidência em 2014 (substituído por Marina Silva), e a de Ciro Gomes. São o poder do Recife e de Sobral no mapa regional, e ganharam, somados, 4 capitais, todas no Nordeste. (Como o partido herdeiro do varguismo gaúcho se tornou o partido da oligarquia de Sobral é assunto para verdadeiros cientistas políticos.)

E o último é o PSOL, uma espécie de seção do PT voltada para o funcionalismo público — não é de admirar, portanto, que tenha despontado no começo entre cariocas e gaúchos, cidadãos assombrados pelo fantasma de Brizola. Este ano o PSOL ficou melhor do que o PT, porque levou uma capital (Belém), e levou Boulos ao segundo em São Paulo. Isso pode dar a impressão de que o PSOL está substituindo o PT, mas acho mais apropriado falar em uma fusão. Afinal, o PT deixou de lançar candidaturas próprias em algumas cidades para apoiar o PSOL. Este foi o caso de Belém, Manaus e Florianópolis.

As esquerdas no Brasil

Não existe nenhuma capital do Brasil em que o PT e o PSOL tenham disputado relamente votos. Há briga verdadeira entre PSB e PT (vide os primos no Recife), mas não entre PT e PSOL. Assim, prefiro dizer que em alguns estados o PSOL absorveu PT na capital. À exceção do Pará — onde, aliás, o PSOL ganhou —, isso só aconteceu do Sudeste para baixo: Minas, São Paulo e Santa Catarina. É de se presumir que o psolista Edmilson, ex-petista e político tradicional do Pará, não tenha adotado um discurso tão ideológico quanto o dos seus correligionários ao sul. O voto deve ter sido mais pessoal e menos partidário.

Deixando teoria política de lado, e adotando o vocabulário eleitoral brasileiro da década passada, podemos dizer que esquerda significa adesão ao lulismo. PT e PSOL são, no frigir dos ovos, a mesma coisa. Já os nordestinos só aderem depois de descobrir que não podem ganhar para o PT. Campos e Ciro são satélites por falta de opção; querem que o PT seja o seu satélite. Daí, brigam.

Há estados em que um dos dois partidos nordestinos foi a principal força política de esquerda da capital, desbancando os lulistas leais. São eles: Ceará, Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Sergipe, Acre, Rio de Janeiro e Paraná. Só obtiveram vitória no Nordeste. (Repito: considero aqui os 7 partidos analisados. Houve lugares em que o Cidadania, ex-PPS, teve mais destaque, mas o Cidadania não é relevante, e não adere sempre a Lula.)

E há estados cujas capitais tiveram o PT como principal força política de esquerda, sem chance para oligarcas nordestinos esquerdistas: Amazonas, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Bahia, Espírito Santo, Goiás e Mato Grosso do Sul. Em todas, perdeu.

Por fim, há dois estados onde todas as forças de esquerda são pífias: Roraima (que tem a crise da Venezuela no nariz), Rondônia e Mato Grosso.

É digno de nota que no Rio de Janeiro, na Bahia e em Goiás os candidatos mais votados desses partidos de esquerda tinham o nome de urna com uma patente, ou seja, candidatavam-se como Delegada Fulana ou Major Sicrana. Isso é um marco daquilo que podemos caracterizar como candidaturas do contra. As lideranças locais sentiram o declínio do petismo, e mimetizaram os do contra.

Onde estão os do contra

Digo “do contra” apenas para sinalizar uma ruptura incondicional com essa ordem paulista do Brasil, vigente até 2018. Não necessariamente são bolsonaristas, mas são necessariamente antipetistas e desprezam os tucanos.

O único estado onde um do contra levou a capital foi o Espírito Santo. Lá se elegeu o Delegado Pazolini, de 38 anos de idade, que ingressou na vida pública em 2018, ano que foi marco da ruptura.

Por pouco, dois do contra não levam as capitais do Pará e do Ceará, estado sede do clã Ferreira Gomes. Em Belém, um completo neófito em legenda de aluguel, com zero experiência de vida pública, desbancou políticos tradicionais e quase ganha a prefeitura, que terminou elegendo um psolista. Terá sido a rejeição ao PT a causa de sair um candidato filiado ao PSOL? Sikêra Júnior, fenômeno de audiência sediado no estado vizinho, viajou para Belém na antevéspera da eleição, e estava em cruzada contra o partido da “lacração”. (Que a audiência de programa popular já conheça o termo, é coisa digna de nota). É sensato apontar um grande sentimento de ruptura no Pará, uma vez que por pouco não trocam um político conhecido por outro totalmente desconhecido, e que lá o PT nem saiu candidato.

Em Fortaleza, quase ganha do candidato de Ciro Gomes um do contra em legenda de aluguel. O Capitão Wagner ingressou na política em 2011 como policial amotinado (uma espécie de Cabo Daciolo sóbrio), mas nunca alçou voos altos. Desde 2018, cresceu na vida pública, e pela primeira vez ousou tentar a prefeitura.

No Recife, o sucesso da esquerda pode ser atribuído a Bolsonaro. Tradicionalmente, o ex-ministro da educação, Mendonça Filho (DEM), disputa com a prole de Arraes. Mas Bolsonaro fez campanha por uma delegada desconhecida que terminou em quarto lugar, com 14% dos votos válidos. Mendonça ficou com 25, apenas 2 atrás de Marília Arraes, e não pôde ir ao segundo turno. Que Bolsonaro tenha tanta força no Recife, é digno de nota.

O país

É verdade que os eleitores votam pensando em ônibus e IPTU, mas isso não significa que o desempenho dos partidos seja irrelevante para ver o cenário nacional. Afinal, as elites políticas conversam entre si, e escolhem ou criam partidos. Por que se filiar ao PT e não ao PSOL? Ao DEM e não ao MDB? As capitais são importantes para enxergarmos as escolhas partidárias feitas pelas elites.

No Nordeste, há três elites políticas tradicionais com notoriedade nacional: Ciro Gomes do Ceará, Arraes/Campos de Pernambuco e ACM da Bahia. Todos filhos e netos de políticos. O Nordeste não mudou. E o grosso da região (especialmente a Bahia) está sempre pronto para apoiar qualquer governante que se sedimente em Brasília. Essa foi a única região onde os estados todos votaram todos pela manutenção do status quo na eleição de 2018.

Na Amazônia, há uma confusão tremenda: legendas de aluguel vão parar no segundo turno. Há políticos tradicionais, mas nem sempre eles estão em legendas tradicionais. Os partidos do segundo turno nas capitais dos dois maiores estados da região foram PSOL, Patriotas, Avante e Podemos. Em 2018, os únicos estados que votaram pela manutenção do status quo foram o Pará e Tocantins. A capital de um elegeu a muito custo o PT disfarçado de PSOL, e a do outro foi uma das 4 capitais do PSDB.

No Centro-Oeste, o PSD (uma espécie de alternativa ao MDB criada por Kassab) levou Campo Grande e foi para o segundo turno em Goiânia. O MDB levou Goiânia e Cuiabá.

No Sul, sem grandes mudanças. A capital da Lava Jato elege fácil um político antipetista tradicional, os catarinenses nem têm a chance de votar oficialmente num petista (só no PSOL), e os gaúchos põem a lulista pra correr no segundo turno. O Sul parece continuar mais ou menos o mesmo.

No Sudeste, o Rio continua o mesmo, e São Paulo é um capítulo à parte. Olhemos para Minas Gerais: esse importante estado, que por tanto tempo aderiu à polarização paulista (vide Aécio e Pimentel), pôs já em 2016 na sua capital um outsider; em 2018, pôs no governo do estado uma zebra completa, e agora reafirma sua posição. O prefeito Kalil e o governador Zema têm em comum o fato de serem empresários populares, de serem outsiders, e de tentarem ter luz própria, em vez de se venderem como bolsonaristas. Será uma tendência a ser repetida nacionalmente?

Kalil ganhou pelo PHS em 2016, concorreu agora pelo PSD e ganhou no primeiro turno. Em segundo lugar ficou um bolsonarista com quase 10%. Os belo-horizontinos tiveram a chance de votar no primeiro ministro de Direitos Humanos indicado por Lula, responsável por uma Cartilha do Politicamente Correto. Ele ficou com 1,88%. O PSOL foi bem maior, e teve 8,33%.

Meu chute

Teríamos sido espertos se prestássemos atenção à capital de Minas Gerais em 2016: ela prenunciava ruptura. Minas é aquele estado que sempre vota no presidente eleito. É urbano e rural, é populoso e diverso.

Se Minas sinalizar o futuro do Brasil, então teremos uma eleição mais digital, mais pragmática, menos ideológica e mais pessoal. Com o WhatsApp se criou um novo estilo de campanha menos impessoal, mais formiguinha. De minha parte, acho um bom Brasil. Quem reagirá a ele? Toda aquela elite empresarial-amiga inflada por São Paulo — vide a herdeira da Andrade Gutiérrez financiando Boulos). Toda a imprensa tradicional que não consegue sobreviver na internet. O funcionalismo, classe inflada pelo PT.

A ver no que vai dar. De tédio, não morreremos.

Toda mulher deve sentir aversão por homens que se declaram feministas


É mais honesto recorrer à velha canção do bandido do que à nova cantada do feminismo. A crônica de João Pereira Coutinho para a FSP:


Odiar os homens não tem nada de especial. Conhecendo a espécie, diria que é quase um milagre o fato de as mulheres se interessarem por nós. Mas Pauline Harmange vai mais longe: ela odeia os homens e declara isso no livro Moi les Hommes, Je les Déteste. Informa a Folha de S.Paulo que haverá edição brasileira no próximo ano, pela Record. Aplaudo.

Já escrevi sobre o fenômeno Harmange nesta coluna. Mas só recentemente li o livro, em edição inglesa, porque não consegui a edição francesa na altura da polêmica. Relembro: um assessor do governo de Emmanuel Macron ameaçou processar o selo Monstrograph por “apologia da misandria”. A editora, temerosa, não liberou reimpressões. O assessor em causa era um homem. Isso mostra como Pauline Harmange tem alguma razão para odiar quem odeia, embora eu talvez abrisse uma exceção para o cavalheiro em causa: graças à inteligência fulgurante do personagem, o manifesto virou best-seller internacional.

Mas Harmange tem razão noutras coisas. A primeira delas é a aversão que qualquer mulher deve sentir por homens que se declaram “feministas”. Ri alto quando li esse trecho. Conheço casos. Machos que usam o feminismo para sinalizarem a sua virtude – e, em certos casos, para poderem dormir com as mulheres. Nas palavras da autora, só canalhas como os homens seriam capazes de se apropriar de um termo que expressa a luta secular das mulheres por um mundo de igualdade e direitos. Da próxima vez que você, leitor, sentir a tentação de se declarar feminista, cale a boca. É mais honesto recorrer à velha canção do bandido do que à nova cantada do feminismo.

Por outro lado, são interessantes as reflexões de Harmange sobre a suposta equivalência entre “misoginia” (ódio às mulheres) e “misandria” (ódio aos homens). Serão a mesma coisa? Teoricamente, talvez. Mas Harmange argumenta que as consequências são distintas. A misandria não provoca vítimas. A misoginia tem um longo histórico de violência e morte. Concordo. E, sobre isso, acrescento: serei o único a sentir repulsa por “homens” que se sentem vulneráveis ou até vítimas do empoderamento feminino?

Nem todos somos como o patético assessor francês, no fim das contas. E é aqui que o manifesto de Harmange perde o seu fulgor: na ideia abstrusa de que a misoginia é um exclusivo dos homens. Ou, então, na afirmação pueril de que existe uma irmandade entre as mulheres. A história desmente essas fantasias: para cada feiticeira queimada, houve uma denunciante de feiticeiras. Para cada sufragista, uma antissufragista.

Anos atrás, lembro-me de ler uma história cultural da misoginia (Misogyny, do saudoso Jack Holland) na qual o autor lembrava os massacres de Ruanda. Para nos dizer que uma outra Pauline, no caso a ministra hutu Pauline Nyiramasuhuko, teve um papel crucial no genocídio das mulheres tutsis. Inversamente, como negar que existiram homens – do Iluminismo à emancipação política, sem esquecer a invenção da pílula – que estiveram do lado das mulheres? O corte radical com metade da espécie, mais do que ignorância, me parece erro estratégico para as etapas que faltam.

Por último, é estranho que uma feminista perspicaz como Harmange não repare no elefante que está no meio da sala: a misoginia, longe de ser uma afirmação de superioridade masculina, é o seu oposto – um produto do medo e da ansiedade dos homens face às mulheres. Nunca encontrei uma explicação satisfatória para esse medo e para essa ansiedade. Complexo de castração? Freud é um grande escritor, admito, mas mantenho o que disse Nabokov sobre ele: “É a aplicação de mitos gregos às partes íntimas”.

Prefiro os mitos gregos propriamente ditos. Como lembrava Jack Holland na referida história sobre a misoginia, o mito de Pandora é matricial nesse temor; as aventuras de Adão e Eva também. A mensagem é comum: cuidado com as mulheres, elas serão a perdição da humanidade! E por quê? Arrisco uma hipótese: porque, em ambos os casos, são as mulheres que exibem uma vontade de conhecimento e de liberdade que sempre assustou as almas medíocres. Mesmo que essa vontade seja o princípio, e não o fim, de toda a esperança.

“Eu detesto os homens”? O título é bom, madame Harmange, mas ficaria melhor com um ligeiro acerto: “Eu detesto os homens e algumas mulheres – mas é dos homens que sinto pena”.

Os últimos, tristes e simbólicos momentos da vida de Maradona.


Mas a profusão de suspeitas de negligência em torno de sua morte acrescenta uma dimensão a mais na melancólica história de decadência. Vilma Gryzinski:


Nenhum ídolo morre de causas naturais na Argentina.

Aliás, em outros lugares do mundo, mortes repentinas de celebridades sempre são acompanhas de teorias conspiratórias.

Mas em nenhum outro país é tão poderosa a confluência de ídolos ceifados prematuramente, comoção nacional, funerais dramáticos, culto aos mortos e suspeitas que nunca se desfazem.

De Eva Perón, levada pelo câncer aos 33 anos e, depois de morta, transformada em objeto de tétricas disputas, a Alberto Nisman, o promotor que se suicidou ou foi suicidado, os mortos continuam a falar por muito tempo.

Com esse pano de fundo, Diego Maradona ainda terá muito a dizer.

O que já foi constatado sobre seus momentos finais é uma tristeza. O arco de patifarias vai desde as fotos que funcionários terceirizados da funerária tiraram ao lado do corpo até o descontrole que aconteceu durante o velório na Casa Rosada, com troca de acusações políticas entre o governo federal e a prefeitura de Buenos Aires, de oposição.

Sob sigilo, fontes do governo de Alberto Fernández queixaram-se que a culpa pelo tumulto foi da primeira mulher de Maradona, Claudia Villafañe, ao insistir que o corpo deveria ser enterrado na tarde seguinte à morte, sem tempo para que todos da multidão o vissem.

Culpar a viúva consegue inaugurar um capítulo novo na história das vilanias.

Piores são as dúvida que se acumulam sobre o tratamento médico, formando um quadro de suspeitas de negligência por ação ou omissão.

Maradona recebeu alta prematura do hospital onde fez cirurgia para um hematoma subdural? Não teve as intervenções médicas necessárias? Teve o atendimento devido da equipe de enfermagem domiciliar? Levou um tombo e bateu a cabeça do lado oposto ao da operação? Foi negligenciado em suas últimas horas de vida?

O jogador com certeza resistia aos tratamentos e controles obrigatórios depois da cirurgia

“Diego odiava os médicos, mas comigo era autêntico”, disse seu médico pessoal, Leopoldo Luque, que circulava na esfera dos amigos e dos “amigos” que cercavam o jogador, instigando-o a ceder aos muitos vícios que destruíram sua vida ou sem capacidade de se opor a eles.

“Ele tinha autonomia e decidia o tempo todo”, garantiu o médico, agora sob investigação por suspeita de homicídio culposo.

“Era muito difícil, me expulsou um monte de vezes de sua casa. Expulsava e depois chamava de volta.”

Como obrigar um paciente rebelde a receber tratamento? Luque diz que não tem as respostas.

“Eu pedia que se levantasse para receber as filhas, mas ele não queria receber as filhas”.

Outro amigo antigo disse que o entorno de Maradona, antes da operação, o estimulava a beber justamente para impedir os contatos – e a possível intervenção – das filhas mais velhas. Quando chegavam para visitar o pai, ele já estava desabado no quarto, com o celular desligado.

“Não restam dúvidas para elas de que o responsável pelos cuidados médicos era Leopoldo Luque”, contrapôs uma fonte ligada às filhas sobre o depoimento delas aos promotores que investigam o caso. Um detalhe que chamou a atenção: elas notaram que o pai estava muito inchado, “principalmente na barriga e nas pálpebras”.

As filhas assinaram a alta do pai, contrariando a recomendação da Clínica Olivos, onde ele fez a cirurgia neurológica. O hospital propunha internação em local especializado em tratamento para dependentes de álcool.

A relação com Dalma e Giannina, filhas do primeiro casamento, era tumultuada. Maradona chegou a gravar um vídeo anunciando que deserdaria as duas.

“Maradona não estava em condições de decidir. Estava há três dias trancado no quarto ”, garante Rodolfo Baqué, advogado da auxiliar de enfermagem Dahiana Madrid.

A auxiliar conseguiu apenas uma vez fazer controles mínimos como tirar a pressão e contar os batimentos cardíacos. Ou pelo menos é o que diz.

Segundo Dahiana, o cuidador do turno da noite chegou a registrar que Maradona estava com 115 batimentos por minuto.

“Todos sabemos que pacientes cardíacos não podem passar de 80”, disse o advogado dela. “O corpo de Maradona estava avisando que havia problemas com a frequência cardíaca e não foi ajudado nem sequer com os remédios que os pacientes cardíacos tomam para manter a frequência em 80”.

Dahiana já mudou seu depoimento, dizendo que ter registrado que havia tirado os parâmetros médicos habituais no dia da morte de Maradona, sem que na realidade tivesse conseguido acesso para fazê-lo, por sugestão de seu chefe no serviço de atendimento domiciliar.

Uma fonte ligada aos promotores do caso já antecipou: “Depois dos primeiros cinco dias de investigação, pelo que vimos a condução era absolutamente negligente. Era uma internação domiciliar totalmente deficiente. Um descontrole total e absoluto”.

É comum dizer sobre alguém que morre depois de uma trajetória de excessos que viveu a vida que quis, do jeito que quis.

Na verdade, os dependentes vivem a vida como as substâncias de seu vício querem. É uma trajetória destrutiva e cruel. Michael Jackson, Prince, Amy Winehouse, Whitney Houston, entre os mais famosos, são uma triste comprovação disso.

Ainda no hospital onde fez a cirurgia neurológica, o jogador perguntou o que fariam se fossem Maradona, segundo contou ao Infobae um integrante de seu círculo íntimo.

Um deles respondeu: “Não gostaria de ser Maradona nem por um minuto”.

“Viram só?”, respondeu ele. “Isso acontece comigo todos os dias”.

“Estou cansado, gostaria de tirar umas férias de ser Maradona”.