sexta-feira, 30 de julho de 2021

O beijo da morte


A pandemia provocou em muita gente um estado de letargia e pânico infantil, uma espécie de morte em vida. O amadurecimento aponta para outro lado. A morte passa a ser vista como uma amiga que tomamos cuidado para que permaneça a distância. Dagomir Marquezi para a Oeste:


“Eu sei que determinada rua pela qual eu já passei não tornará a ouvir o som dos meus passos. Cada vez que me despeço de uma pessoa pode ser que ela esteja me vendo pela última vez. A morte, surda, caminha ao meu lado e eu não sei em que esquina ela vai me beijar. Qual será a forma da minha morte? Um acidente de carro? O coração que se recusa a bater no próximo minuto? A anestesia mal aplicada? A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida? O câncer já espalhado e ainda escondido? Ou, até quem sabe, um escorregão idiota num dia de sol?”

Raul Seixas — Canto para minha Morte


Por este planeta já passaram aproximadamente 117 bilhões de seres humanos. Destes, 109 bilhões já morreram. O que significa que tivemos 109 bilhões de experiências únicas de morte. Algumas foram naturais, outras premeditadas ou acidentais. Houve mortes súbitas, lentas, indolores, sofridas. Mas ela sempre aparece.

Aprendemos a desenvolver — especialmente nas culturas ocidentais — um medo irracional da morte, a negação atávica de uma experiência à qual estamos todos destinados a passar. “Eu não tenho medo da morte”, disse um dia Woody Allen. “Só não quero estar presente quando acontecer.” Em parte, essa rejeição está ligada ao sofrimento pelo qual passamos com a partida de pessoas queridas. Lidar com a perda não é um sofrimento exclusivamente humano. Muitas outras espécies animais choram seus mortos e praticam algum tipo de cerimônia fúnebre. Para um elefante, é doloroso ver a morte de um membro de sua manada. Mas é um fato natural, como o nascimento.

Os humanos não se conformam e procuram vencer a morte de todas as formas possíveis. A Enciclopédia Britânica cita civilizações antigas como as de egípcios, zoroastristas e hindus, que desenvolveram complexos conceitos para descrever a vida após a falência dos sinais vitais. Para ateus em geral, a morte seria o ponto-final, a última página, um corpo que se desfaz em miasmas e é devorado por vermes. Segundo eles, toda religião é ilusória. Para os que acreditam em vida espiritual, os ateus não teriam entendido que o verdadeiro sentido de nossa passagem pela Terra é justamente a preparação para o que vem depois.

Mas a morte em si permanece para crentes e ateus como a maior de todas as angústias. Carregamos a ansiedade existencial de desconhecer as respostas para duas questões fundamentais: 1) quando eu vou morrer? e 2) como eu vou morrer?. Tudo o que temos em mente é que ela caminha junto a nós, silenciosa e invisível, por toda a nossa vida. E não sabemos em que esquina ela vai nos beijar. A morte beijou Raul Seixas aos 44 anos, durante uma madrugada de 1989. Foi representada por uma pancreatite fulminante, diabetes e uma longa estrada no alcoolismo desenfreado.

Todos nós continuamos brevemente vivos mesmo depois que um médico decreta nosso fim. Segundo a Britânica, um minieletrocardiograma pode ser registrado vários minutos após a parada cardíaca. Afinal, um coração bate cerca de 2,7 bilhões de vezes durante uma vida. E tenta uma última chance de bombear sangue quando tudo o mais parece ter acabado. Três horas depois do falecimento, nossas pupilas ainda reagem, e músculos se contraem quando tocados.

Sempre houve essa dificuldade de identificar quando um ser humano atingiu o tal ponto sem retorno. Gregos antigos mantinham seus cadáveres à vista três dias antes de ser enterrados. Os romanos esticavam esse prazo para até oito dias. A preocupação cresceu muito durante o século 19, com histórias (algumas reais) de pessoas catalépticas que despertavam de um aparente óbito presas num caixão debaixo da terra. Essas narrativas inspiraram grandes autores de ficção de terror, como Edgar Allan Poe.

A partir da segunda metade do século 20, a medicina se dedicou a enganar a morte por meio de aparelhos que mantêm o coração e os pulmões funcionando artificialmente, e da alimentação por via intravenosa quando o aparelho digestivo não funciona mais. Os avanços nesse adiamento da morte estão indo tão longe que já não nos espantamos tanto quando alguém chega a mais de 100 anos de idade.

E, no entanto, continuamos morrendo. E toda morte é individual, como toda vida. Esse fato é esquecido quando passamos a pensar a morte em termos coletivos. Como nos 45 milhões de chineses mortos durante o reinado de Mao Tsé-tung, ou o 1,5 milhão de armênios massacrados pelos turcos no tempo da 1ª Guerra, ou ainda os 20 milhões de cadáveres na conta de Josef Stalin.

O exemplo mais simbólico dessa coletivização são os “6 milhões de judeus” mortos durante o regime nazista. É uma tragédia monumental, mas hoje encaramos o desastre desencadeado pelo hitlerismo como um número redondo de sete algarismos. O horror se dissolve no número, por maior que seja.

Caminho oposto é seguido pelo Museu Auschwitz. Por meio de sua conta no Twitter, a instituição individualiza cada uma das aproximadamente 1.100.000 mortes ocorridas nesse campo de concentração nazista, localizado na Polônia. Vemos a foto de cada vítima e um resumo de sua vida, às vezes breve demais.



Joseph Bremmer, judeu holandês nascido em Roterdã em 28 de julho de 1940. Em setembro de 1943, foi deportado para Auschwitz e assassinado numa câmara de gás. Tinha 3 anos de idade.


Vera Frisch, judia nascida em Osijek, Iugoslávia, em 27 de julho de 1932. Foi morta na câmara de gás de Auschwitz aos 11 ou 12 anos.


Jan Kolaczkowski, polonês de Krakow, pedreiro de profissão, nascido em 27 de julho de 1904. Foi transformado no prisioneiro 35709 de Auschwitz, onde faleceu em 17 de agosto de 1942, aos 38 anos.


Adolfina Mutz, operária polonesa nascida em Chandziówka em 27 de julho de 1910. Prisioneira número 11994 em Auschwitz a partir de 27 de julho de 1942, morreu em 2 de novembro, aos 32 anos.


Ilona Raabová, judia checa nascida em Praga em 15 de julho de 1934. Deportada para Auschwitz em 23 de outubro de 1944, morreu na câmara de gás aos 10 anos.

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Ervin David, húngaro judeu nascido em 18 de julho de 1938. Assassinado numa câmara de gás de Auschwitz em junho de 1944, antes de completar 6 anos.

Pronto. Dos 6 milhões de mortos, seis deixaram de ser um número. São nomes, rostos, histórias, trajetórias individuais. Coletivizar mortos em números arredondados é como matá-los pela segunda vez. O nome de cada uma das 2.983 vítimas do atentado de 2001 ao World Trade Center foi registrado em 152 placas de bronze, hoje expostas no Museu e Memorial do 11 de Setembro, em Nova York.

O Brasil não teve o mesmo respeito pelas vítimas da covid-19. Elas viraram um número corrompido, em que é difícil confiar. “552 mil mortos” virou uma plaquinha de identificação para que um senador pratique sua sórdida demagogia. A palavra “genocida” foi usada de maneira tão vulgar e leviana que se esvaziou em seu trágico significado. Por conta de uma agenda política mesquinha, as outras formas de morrer no Brasil foram praticamente esquecidas por mais de um ano. (Das dez principais causas de morte, metade delas se refere a doenças do aparelho cardiorrespiratório. Outras: demência, violência interpessoal, diabetes, acidentes de trânsito, doença renal crônica. Dados de 2016.)

A pandemia provocou em muita gente um estado de letargia e pânico infantil, uma espécie de morte em vida. O amadurecimento aponta para outro lado. A morte passa a ser vista como uma amiga que tomamos cuidado para que permaneça a distância. Mas que aceitamos quando for a hora do encontro e respeitamos pelas lições que nos dá. A consciência da inevitabilidade da morte nos dá a razão definitiva para valorizar cada um dos dias de vida que nos restam. Para fazer o que não foi feito, curtir o que foi adiado, focar o presente, aprender com o passado. Enquanto há tempo.

“Covardes morrem muitas vezes antes de sua morte”, escreveu William Shakespeare na sua peça Júlio César. “O valente só morre uma vez. De todas as coisas que já ouvi, a mais estranha é saber que os homens a temem, visto que a morte, um fim necessário, virá quando tiver de vir.” “O medo da morte se segue ao medo da vida”, completa Mark Twain. “Alguém que vive em sua plenitude está pronto a morrer a qualquer momento.”

A reescrita da história e a versão dos oportunistas


Borba Gato era um bandeirante. Portanto, não era um escoteiro desbravando novas terras. Mas Borba Gato nunca foi um mercador de escravos ou caçador de índios como os incendiários queridos de Boulos acreditam. Leonardo Coutinho para a Gazeta do Povo:


Guilherme Boulos, do PSOL, aprovou o atentado contra um monumento em São Paulo e até promoveu uma campanha pela libertação dos baderneiros que tocaram foco na estátua de Manuel de Borba Gato. Para ele, a estátua erguida em 1962 em homenagem ao bandeirante deveria ser substituída pela de Zumbi dos Palmares – quem merece todas as honras por ter lutado contra a escravidão.

Boulos é apenas um exemplo pinçado entre tantos outros que poderiam ilustrar a questão que aqui será tratada. O afã de reescrever a história sob a alegação de uma suposta versão dos vencidos provoca efeitos colaterais que vão desde alucinações, cegueira e até a mais profunda ignorância.

Borba Gato era um bandeirante. Portanto, não era um escoteiro desbravando novas terras. Mas Borba Gato nunca foi um mercador de escravos ou caçador de índios como os incendiários queridos de Boulos acreditam. O mundo em que ele vivia era hostil. Matar para não morrer era quase uma constante. Até hoje, exatamente hoje, indigenistas do departamento de índios isolados da Funai sabem o que representa o risco de atravessar territórios desses brasileiros que fizeram opção pelo não contato. Não se trata de relativizar a violência, mas é absolutamente desonesto medi-la sem considerar o contexto histórico.

Os “índios bravos”, como eram chamados e ainda são em áreas remotas da fronteira oeste do Brasil, não costumam perdoar. Matam. Os tempos mudaram e hoje eles têm o direito e a proteção do Estado para viver da forma que bem entenderem, em um modo muito parecido com aquele pré-Cabral.

Boulos fala em erguer uma estátua em homenagem a Zumbi. Não sei se Boulos faz ideia, mas o dono do Quilombo de Palmares tinha escravos negros como ele. Tinha, porque era normal ter. Lá na África, era regra escravizar os rivais perdedores. Eram os negros quem vendiam nos negros para aquela que foi uma das mais abjetas empresas da humanidade, que foi a escravidão.

Zumbi tem seu papel histórico, virtudes e defeitos. Merece reconhecimento, estudo e memória. Justa memória, como Borba Gato. Por que não? Ele matou cobrador de impostos da coroa, lutou na guerra dos Emboabas contra abusos da coroa e por posições nativistas e quando caiu em desgraça encontrou proteção entre os índios.

No século passado, quando a borracha era o ouro vegetal da Amazônia, os seringalistas “limpavam” a floresta promovendo uma autêntica debandada dos índios, que eram tocados sob balas. Fenômeno que ganhou o emblemático nome de correrias. Quem gasta algum tempo para estudar a história recente da região sabe que as correrias não ficaram presas no passado. Há relatos de seringueiros contemporâneos de Chico Mendes que também fizeram uso da pólvora para proteger seus seringais ou para expandir suas áreas para exploração, não só expulsando índios, mas também matando alguns ou muitos. Mas pouca gente aceita considerar estes capítulos de nossa história.

Quando o Black Lives Matter ameaçou tocar fogo na América como se o país fosse um grande Borba Gato, algumas estátuas foram para o chão e outras foram vergonhosamente vilipendiadas. Na Califórnia, uns estúpidos picharam um busto de Miguel de Cervantes como ele tivesse sido um “bastardo” escravocrata. Os manifestantes, tão superficiais quanto os incendiários paulistas, não faziam ideia de que o autor de “Dom Quixote” não só jamais teve escravos, como foi um por muitos anos.

A guerra pela construção de versões customizadas de um mundo ao próprio gosto já não respeita nem o que aconteceu ontem. A bravata do lawfare ganhou corpo e passou a ser usada como pretexto por corruptos pegos com a mão nos cofres públicos para se dizerem vítimas de aparatos de Estado. Lula, no Brasil; Cristina Kirchner, na Argentina; e Evo Morales, na Bolívia, embarcaram nesta mesma estratégia.

Nos Estados Unidos, congressistas democratas são a porta de entrada para os lobistas do petismo e assemelhados entrem em ação. Lula e Morales foram bater na porta desses parlamentares para vender teses fajutas. Não satisfeito com a destruição da Lava-Jato, Lula e seus acólitos abusam da boa-fé de políticos americanos para vender fumaça. Dizem que foi a CIA que deu origem à Lava Jato com informações coletadas ilegalmente pela NSA.

Há quem acredite na lorota.

Morales implodiu a frágil democracia boliviana, vilipendiou a Constituição que ele mesmo encomendou e fraudou as eleições de 2019. Como punição, enfrentou uma rebelião popular e acabou fugindo do país. Mas Morales não desistiu. Seus apoiadores contrataram “estudos acadêmicos” para negar a fraude e contrariar pareceres da OEA e de observadores internacionais. Seu grupo se beneficiou do caos gerado pela pandemia e da roubalheira generalizada de seus sucessores para pavimentar o retorno de seu partido, o MAS, em uma eleição realizada no ano passado.

De volta ao jogo, Morales quer cabeças. Assim como Lula, recrutou sua turma para ludibriar uma dezena de democratas que comeram a versão de que o que se passou na Bolívia foi um golpe com o amparo dos Estados Unidos. Uma idiotice sem tamanho que só quem estava na Lua nos últimos quatro anos pode acreditar.

Os americanos não foram capazes de se articular para resolver a sua principal agenda na América Latina, a Venezuela, o que faz pensar que Washington se meteria em um golpe na Bolívia. Donald Trump, que era o presidente quanto Evo Morales foi tirado do poder pelo próprio povo que se cansou de seus desmandos, estava querendo fazer sua “América grande novamente”. A Bolívia, com todo respeito, não existia.

Mas não importa; de Borba Gato a Bolívia, os fatos são meros inconvenientes. O que interessa e vale mesmo é a crença. A história está sendo reescrita por corruptos, traficantes, baderneiros e ladrões enquanto alguns incautos com suas tochas acham que são protagonistas dessa reescrita. Não se trata da versão dos vencidos. Mas da versão dos oportunistas.

A "delicadeza" do presidente de Portugal com Bolsonaro e Lula


Marcelo faz “quadratura do círculo” nos encontros com Lula, FHC e Bolsonaro, de olho em 2023 e no futuro das relações com o Brasil. Um “cálculo eleitoral” com um “álibi formal”, dizem politólogos. Pedro Bastos Reis para o Observador:


Na primeira vez que apertou a mão a Jair Bolsonaro, um dia depois da tomada de posse do Presidente brasileiro, em 2019, Marcelo Rebelo de Sousa falou numa “reunião entre irmãos” e num “tom fraternal”, embora o encontro tenha estado longe de ser caloroso. Na próxima segunda-feira, é de esperar que o cenário se repita, mas antes, nesta quinta visita ao Brasil desde que chegou à Presidência, estão também marcados “encontros de cortesia”, segundo o Palácio de Belém, de Marcelo com os ex-presidentes brasileiros Michel Temer, Fernando Henrique Cardoso e Lula e Silva. Cortesias à parte, são certamente encontros que não podem ser desligados do momento político que se vive no Brasil e do futuro das relações bilaterais de Portugal com o próximo líder do Palácio do Planalto.

Se Michel Temer está fora da política ativa depois de uma passagem curta e pouco popular pela presidência, Fernando Henrique Cardoso continua a ser um dos ex-chefes de Estado mais respeitados e influentes no Brasil, e o candidato que apoiar em 2022 terá uma ajuda importante para ambicionar a vitória. Já Lula da Silva, embora ainda não o tenha anunciado oficialmente, é apontado como candidato a disputar o Planalto com Bolsonaro, e as sondagens têm demonstrado que é, neste momento, o grande favorito à vitória. O momento político conturbado e a pré-campanha que já se vive no Brasil não serão indiferentes a Marcelo Rebelo de Sousa, que na visita de quatro dias terá todos estes fatores em conta.

“Marcelo tem consciência que a situação [no Brasil] é muito provavelmente de mudança e tem de salvaguardar as relações. Tem de preservar o futuro, não pode, simplesmente, regular-se pela contingência de quem está no poder. Tem de ter algo na manga para futuros entendimentos, sejam eles quais forem, e tem esse álibi formal”, defende José Manuel Leite Viegas, professor catedrático e jubilado de Ciência Política no ISCTE.

Esse “álibi formal”, explica o politólogo ao Observador, que destaca a “delicadeza política” do Presidente da República, refere-se ao convite feito aos três ex-presidentes, o que permite a Marcelo Rebelo de Sousa apresentar uma “igualdade de circunstâncias”, ao mesmo tempo que “não compromete nada com Bolsonaro e aproveita para manter e estreitar, com todo o cuidado para não melindrar ninguém, os laços”.

A viagem do Presidente ao Brasil, acompanhado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, conforme explicou fonte de Belém ao Observador, é uma “mera visita de trabalho destinada a participar na reinauguração do Museu da Língua Portuguesa, e não de uma visita oficial ou de Estado”. Para a reinauguração, o museu, encerrado desde dezembro de 2015 devido a um incêndio, contou com apoio financeiro de empresas portuguesas, e a sua reabertura é um momento importante para Portugal, nomeadamente para a divulgação da língua portuguesa.

Mas, além do lado simbólico, Marcelo quis aproveitar a reinauguração do Museu da Língua Portuguesa para se reunir com os principais atores políticos no Brasil, e é nesse sentido que foi feito o convite aos ex-presidentes a residir em São Paulo.

Sobre o que vai estar em discussão, quer no encontro com Jair Bolsonaro, quer com os ex-presidentes brasileiros — e em particular com Lula da Silva, por ser um hipotético candidato à presidência —, o Palácio de Belém fala em “meros encontros de cortesia” e remeteu a discussão sobre a “direção da política externa de Portugal” para o Governo. Já o Ministério dos Negócios Estrangeiros, questionado pelo Observador, disse que a visita “há de certamente contribuir para incrementar as relações bilaterais”: “Mas essas relações não dependem dos calendários eleitorais, quer do Brasil quer de Portugal”.

Quanto à situação política no Brasil, reina a prudência, e tanto em Belém como no Ministério dos Negócios Estrangeiros não são feitos comentários, com o gabinete de Augusto Santos Silva a referir que o “Governo português não se pronuncia, naturalmente, sobre aspetos de política interna brasileira”. Em relação ao objetivo dos encontros com o ex-presidentes brasileiros, o Ministério dos Negócios Estrangeiros escusou-se a responder, referindo apenas que o ministro vai acompanhar o Presidente da República, pelo que “não compete” ao Governo responder ao que vai ser discutido.

E em São Paulo, há também silêncio quanto à importância do encontro com Marcelo. Fonte próxima de Lula da Silva contou ao Observador que o ex-presidente aceitou o convite com “simpatia”, encarando-o como um convite na qualidade de ex-presidente e não de hipotético candidato ao Planalto em 2022, mas não se quis pronunciar sobre os tópicos que vão estar em discussão esta sexta-feira à noite, na residência do Cônsul-Geral de Portugal em São Paulo.

Portugal e Brasil têm mantido boas relações bilaterais ao longo dos anos, apesar de alguns altos e baixos, tendo-se verificado momentos de maior entusiasmo durante as presidências de Fernando Henrique Cardoso e de Lula da Silva — onde houve grande proximidade com o governo de José Sócrates —, e momentos mais frios durante a presidência de Dilma Rousseff e o Governo de Pedro Passos Coelho.

Mas, para Francisco Seixas de Costa, que foi embaixador no Brasil entre 2005 e 2009, “há um patamar de relações bilaterais entre Portugal e o Brasil que nunca se perde, independemente dos ciclos políticos, quer portugueses, quer brasileiros”, apesar de sublinhar uma “assimetria grande” na relação entre os dois países, com Portugal mais interessado em manter uma maior ligação ao Brasil. Conforme explica o embaixador ao Observador, tanto Michel Temer, como Fernando Henrique Cardoso ou Lula da Silva foram presidentes que, “no quadro da afirmação política institucional brasileira no passado, mostraram uma afetividade para com Portugal”, e essa é uma das mensagens que Marcelo tentará transmitir com estes encontros. Outra será a da “neutralidade” portuguesa.

“Marcelo Rebelo de Sousa, com estes encontros, procura criar uma imagem de normalidade da própria vida política brasileira, procura tratar a democracia brasileira como uma democracia normal, e eu acho isso extremamente positivo”, afirma Francisco Seixas da Costa. “Esta visita é o sublinhar e o manter de uma relação de natureza política estável, marcando precisamente a nossa neutralidade em relação à vida política interna brasileira”, acrescenta, notando que, no atual contexto de incerteza no Brasil, quer económica, quer política, não há condições para “saltos em frente significativos”, daí que Marcelo procure, nesta fase, “falar com os vários interlocutores políticos”.

Nesta neutralidade portuguesa, apostada em manter e aprofundar relações com o Brasil, não é, certamente, indiferente o contexto eleitoral no Brasil no próximo ano, e o cientista político brasileiro Guilherme Casarões acredita que, na visita de Marcelo Rebelo de Sousa ao Brasil, há, precisamente, uma vertente de “cálculo eleitoral”.

“Marcelo fez um cálculo apostando que Lula e Bolsonaro são os dois possíveis presidentes a partir de 2023. Bolsonaro não pode censurar Rebelo de Sousa por se encontrar com Lula, porque é um ex-presidente e uma figura importante, independentemente de ser candidato no próximo ano”, afirma ao Observador Guilherme Casarões, professor de Ciência Política da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP), da Fundação Getúlio Vargas. “É melhor como pretexto para Rebelo de Sousa encontrar-se com Bolsonaro e amenizar com o encontro com Lula do que encontrar-se apenas com Bolsonaro e ficar com aquele peso de se ter reunido com uma liderança tóxica para qualquer pessoa do campo democrático, à direita ou à esquerda”, acrescenta.

Nesse sentido, continua Casarões, todos os encontros de Marcelo Rebelo de Sousa são “perfeitamente justificáveis do ponto de vista do protocolo diplomático”, daí que o Presidente português possa “defender-se de qualquer crítica”.

Não é, portanto, de esperar que durante as suas reuniões Marcelo demonstre qualquer sinal de preferência quanto a um possível candidato à presidência, uma análise que é consensual entre os politólogos ouvidos pelo Observador. “A última coisa que Marcelo fará é dar um sinal que seja interpretado nesse sentido”, garante José Manuel Leite Viegas. No Brasil, reconhece-se também o cuidado do Presidente português.

“É um pouco perigoso que um chefe de Estado de outro país se coloque de uma forma muito favorável a um dos candidatos. O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa é muito cuidadoso em relação a isso”, sublinha ao Observador Carlos Melo, cientista político brasileiro, de ascendência portuguesa, do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), em São Paulo. “Mas, por outro lado, acho que é inteligente Marcelo conversar com todas forças políticas do Brasil”, acrescenta.

Se a conversa com Lula da Silva é aquela que gera maior expectativa, conforme refere o politólogo António Costa Pinto não existe “nenhuma empatia” especial entre o ex-presidente brasileiro e o Presidente português.

“Não há nada no passado, presente e no futuro de Marcelo para dar algum destaque particular a Lula. Nada os une. Tal como nada une Bolsonaro e Marcelo. Há muito mais a unir Marcelo e Fernando Henrique Cardoso”, explica ao Observador o politólogo e coordenador do Instituto de Ciências Sociais (ICS), notando que, com os encontros planeados, o Presidente da República faz a “quadratura do círculo”, reunindo-se com os pólos opostos — Lula e Bolsonaro — e Fernando Henrique Cardoso, crítico de Bolsonaro mas também dos governos do Partido dos Trabalhadores.

Esta visita, remata António Costa Pinto , “será a continuidade da relação especial com o Brasil”, uma vez que “Portugal terá sempre boas relações com o Brasil, faça chuva ou sol, independente da natureza do regime ou liderança política”.

Depois do encontro com Lula Silva na noite desta sexta-feira, Marcelo Rebelo de Sousa vai ter um sábado com uma agenda muito preenchida, começando a manhã com um pequeno almoço com Michel Temer e com o Presidente de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, e durante a manhã estará na reinauguração do Museu da Língua Portuguesa. Depois de se encontrar, durante a tarde, com a comunidade portuguesa em São Paulo e de participar na assinatura oficial da participação de Portugal como país convidado na Bienal do Livro de São Paulo de 2022, Marcelo janta com Fernando Henrique Cardoso.

O encontro com Jair Bolsonaro realiza-se apenas na segunda-feira, ​​no Palácio da Alvorada, em Brasília, na residência oficial do Presidente brasileiro. A organização da reunião entre os dois chefes de Estado está a cargo do ministério das Relações Exteriores brasileiro, o Itamaraty. Contactado esta quinta-feira pelo Observador, o setor de cerimonial referiu que apenas existia um email a dar conta da visita de Marcelo Rebelo de Sousa que iria cumprimentar Bolsonaro ao Planalto, não existindo qualquer programa, numa “visita protocolar” que se prevê rápida.

O Observador questionou o gabinete de imprensa do Presidente Jair Bolsonaro sobre a importância e a expectativa quanto à visita de Marcelo Rebelo de Sousa ao Brasil e o estado das relações bilaterais entre os dois países, mas não obteve respostas até à publicação deste artigo,

Na presidência brasileira parece não existir particular entusiasmo em torno da visita de Marcelo Rebelo de Sousa e de Augusto Santos Silva ao Brasil, e o cientista político Guilherme Casarões acrescenta que “as relações entre Portugal e Brasil perderam centralidade prática no governo Bolsonaro”, embora tenha existido um esforço para “recuperar os laços seculares luso-brasileiros, com ênfase na formação católica e europeia do Brasil”, além dos avanços no acordo do Mercosul com a União Europeia, uma prioridade para os dois países.

No entanto, apesar da falta de pompa e circunstância, Casarões considera que a visita de Marcelo Rebelo de Sousa ao Brasil pode ser importante para Bolsonaro manter uma agenda internacional de “estadista”.

“Durante o primeiro ano de governo, o Presidente brasileiro gastou muita energia nas relações com lideranças de extrema-direita globais — Trump, Benjamin Netanyahu, Viktor Orbán — mas deu pouca ênfase aos temas de longo prazo da política externa brasileira. Agora, com a pandemia arrefecendo e sob um novo ministro do exterior, o Presidente parece estar a procurar recuperar sua credibilidade internacional”, afirma o professor de Ciência Política da Fundação Getúlio Vargas. “Receber chefes de Estado, como Rebelo de Sousa, faz parte dessa mesma preocupação. Mas de pouco adianta ter boas relações internacionais se a situação do presidente, internamente, se complica a cada dia”, sublinha.

Num cenário de grande polarização, a popularidade de Bolsonaro tem estado em queda há vários meses e a pressão nas ruas a aumentar, sobretudo devido ao escândalo da Covaxin e à gestão da pandemia, o que tem vindo a isolar ainda mais o executivo brasileiro, não existindo qualquer diálogo com a oposição, que prepara a estratégia para as presidenciais de 2022, apesar de persistirem grandes divisões à esquerda e à direita.

Neste contexto de grande divisão interna, o cientista política luso-brasileiro Carlos Melo, dando como exemplo a proximidade nas últimas presidenciais em Portugal, em que o Partido Socialista não apresentou um candidato oficial, deixando implícito o apoio de parte significativa do ao atual Presidente, acredita que a visita de Marcelo pode dar um “sinal interessante para o oposição brasileira, dos liberais de direita aos progressistas de esquerda”, uma vez que, “nesse campo democrático, a imagem do Presidente Marcelo indica que é possível dialogar e estabelecer acordos”.

“Sendo Marcelo uma figura de diálogo e uma figura carismática, pode ser um bom interlocutor, embora ele não venha com essa pretensão. Às vezes é bom que um parente um pouco afastado chegue à nossa casa e ajude a compreender e resolver os problemas da família”, defende Carlos Melo, cujos pais nasceram nos Açores e emigraram para o Brasil.

A esquerda e Cuba: opção pela opressão.


Em vez de pedir liberdade, a esquerda apoia as ideias de sempre. Vilma Gryzinski:


Qual a explicação para o fetiche pelo castrismo das esquerdas paradas no tempo? Como é possível que aqueles que se consideram os detentores da superioridade moral da luta pelo bem fechem olhos, ouvidos e corações ao clamor que se ergueu da ilha no último 11 de julho pedindo “libertad, libertad, libertad”? Pode haver mensagem mais clara, mais primal, mais desesperada do que esta? Em lugar de se comoverem com a coragem dos cubanos que foram às ruas — gente de chinelo e roupas simples, como a dos bairros pobres Brasil afora —, as esquerdas continentais publicaram uma carta aberta no The New York Times pedindo o fim do embargo americano — um embargo que não embarga nada, fora investimentos diretos.

Agarrados à imagem autocomplacente que têm de si mesmos, de heroicos combatentes anti-imperialistas, e ao espaço mitológico que Fidel Castro — “um gênio do mal”, na definição do historiador italiano Loris Zanatta — criou para si mesmo, os ilustres signatários parecem passageiros de uma cápsula do tempo. Na vida real, cubanos que têm uma vida inteira de lealdade ao regime estão rompendo com ele em menos tempo do que se leva para dizer “Cuba libre”. Vale a pena ouvir as considerações inteligentes e bem argumentadas que estão fazendo. “Quero uma Cuba independente, soberana, sem ingerências estrangeiras”, escreveu o cineasta Fernando Pérez. “Mas uma Cuba inclusiva, com direito à palavra, ao pensamento livre e ao respeito à liberdade individual.” É possível ser mais irretocável? Talvez Pablo Milanés tenha encontrado palavras mais eloquentes. “É irresponsável e absurdo culpar e reprimir o povo que se sacrificou e deu tudo durante décadas para sustentar um regime que, no fim, o que faz é encarcerá-lo”, disse o compositor de Yolanda, tão lindamente cantada pelo mesmo Chico Buarque de Hollanda que assinou a carta no Times sem uma mísera palavra de solidariedade ou simpatia pelos jovens que estão sendo condenados, a jato, a penas de até um ano de prisão por irem às ruas gritar “No tenemos miedo”.

Cuba é uma relíquia da Guerra Fria e um produto da formidável capacidade de administrar o poder de Fidel Castro. Sem uma nem outro, virou uma espécie de museu das perversões do socialismo à moda latina, incluindo a elevação de Fidel ao altar sincrético das semidivindades continentais. Regimes assim são porteira fechada, não podem se reformar, promover alguma abertura, deixar a panela de pressão soltar alguns uivos ou talvez perder alguns anéis. Qualquer mínima alteração nessa estrutura, e os dedos imediatamente são perdidos. Os cubanos que agora dizem “chega” não têm a alternativa de sair caminhando, como fizeram os moradores de Berlim Oriental, e se tornar invencíveis pelo número impossível de ser reprimido. Mais intransponível que o Muro de Berlim é a muralha do Atlântico, mas o espírito de resistência que está aflorando nas ruas e nas redes não vai permitir uma volta ao status quo anterior. O gênio escapou da garrafa e não adianta bloquear a internet.

Publicado em VEJA de 4 de agosto de 2021, edição nº 2749

A verdade ressuscitada


Documentário sobre Cuba rasga fantasias dos devotos de ditaduras. Augusto Nunes para a nova edição da reviste Oeste:


Com o uniforme de oficial de cordão carnavalesco, um charuto hospedado no canto da boca, Fidel Castro está de saída do Congresso do Partido Comunista Cubano promovido em 1975. No poder há 16 anos, o ditador quarentão está em boa forma: depois de discursar por 20 horas seguidas, não exibe sinais de cansaço. Só parece intrigado com aquele carrinho de bebê ao lado de três cinegrafistas que acompanham a movimentação da lenda em seu apogeu. Fidel se aproxima do carrinho que, em vez de passageiros da primeira infância, transporta instrumentos indispensáveis a quem trabalha no mundo do cinema. Mira o jovem desconhecido e pergunta quem carrega aquilo: ele ou ela? Ele é Jon Alpert, ainda um novato na arte que o transformaria em celebridade. Ela é Keiko Tsuni, mulher de Alpert. Câmeras de vídeo digital da primeira geração são bastante pesadas, explica o marido. Fidel ensaia a retirada e é detido pelo convite audacioso: “Tem uma mensagem para o povo dos Estados Unidos?”. Assim começou a primeira conversa entre o jornalista principiante e o homem que havia dois anos não concedia entrevistas à imprensa ianque.

O mais loquaz orador do Caribe ficou uns poucos segundos em silêncio antes de declamar a mensagem. Louvou as virtudes dos norte-americanos comuns, elogiou os esforços dos intelectuais e trabalhadores e desejou-lhes sorte. “Quanto ao governo”, ressalvou, “todos sabem que não há nenhuma simpatia entre os governos de Cuba e dos Estados Unidos.” Foi a primeira (e a mais curta) das muitas conversas que teriam nas quatro décadas seguintes. Em 2016, às vésperas do 90º aniversário do ditador aposentado, encontraram-se pela última vez na casa de Fidel em Havana. O anfitrião depauperado autografa o colete de trabalho do visitante. Agora um sessentão grisalho, Alpert beija o rosto da lenda em seu crepúsculo. Ele voltaria semanas depois para filmar o sepultamento do fundador do regime comunista. Ao partir de Havana, levava o material que faltava para a edição do melhor de todos os grandes documentários que concebeu: Cuba e o Cameraman, lançado nos EUA em 2017 e incorporado recentemente ao catálogo brasileiro da Netflix.

Documentaristas interessados no resgate de períodos históricos vivem derrapando em roteiros que enfileiram entrevistas cara a cara tão excitantes quanto um desfile militar na Bolívia. Alpert reconstituiu a trajetória de Cuba entre os anos 70 e a morte de Fidel amparado num microcosmo composto de interlocutores selecionados com argúcia e sensibilidade — e dividido em três núcleos. Os irmãos Borrego são agricultores que aram a terra com juntas de bois. O negro Luis Amores e seus amigos sobrevivem com transações comerciais situadas na difusa fronteira que separa a contravenção do crime. E Caridad tenta resistir ao lado do casal de filhos à desesperança que começou com a renúncia ao sonho de prosperar como enfermeira. Os diálogos e imagens resultantes das visitas aos vértices desse triângulo e das conversas com Fidel fazem de Cuba e o Cameraman o mais soberbo, tocante, honesto e revelador documentário sobre a Era Fidel. Graças às sucessivas incursões pela ilha, Alpert se torna uma espécie de primo norte-americano dos integrantes do elenco e um amigo temporão do líder revolucionário. Nada disso impede que veja as coisas como as coisas são e conte o caso como o caso foi. Na primeira viagem a Havana, era um admirador dos revolucionários triunfantes. A visita derradeira foi feita por mais um ferido pela decepção. Em nenhum momento o cameraman emite juízos de valor, opina ou argumenta. O que mostra dispensa manifestos e discurseiras. Ao longo de 154 minutos, o palco do drama estaciona no tempo ou piora. Só não mudam os carrões norte-americanos que sacolejam nas ruas seja qual for o ano, o dia ou a hora da visita de Alpert.


Sem barulhos nem berreiros, o documentário implode mitos e crendices plantados pelos jardineiros do paraíso socialista no Caribe. O sistema de educação é gratuito e universal, certo? “Gostaria de comer mais”, diz uma estudante instada a revelar seu maior desejo. Nenhum cubano passa fome? “Ninguém consegue carne há muitos meses”, lamenta uma mulher na fila do racionamento ao saber que, naquela semana, sua família teria de contentar-se com um pão por dia. Num encontro com os Borrego, Alpert constata que um dos irmãos perdera a voz para o câncer na garganta. Na cena seguinte, ele conversa no hospital desprovido de remédios onde o lavrador ficara internado. Assombrado com a aparência e a idade do instrumento jurássico utilizado na cirurgia, Alpert pergunta ao médico quanto o governo lhe paga por mês. Vinte dólares, ouve. Desolado, o documentarista aparece na visita seguinte com um aparelho que, acoplado ao pescoço, reproduz um som vagamente parecido com a voz humana. A euforia do agricultor octogenário revela as diminutas dimensões dos sonhos possíveis.

Em 1975, as gordas mesadas remetidas pela União Soviética espalharam pela ilha a sensação de que as promessas revolucionárias seriam enfim cumpridas. A enxurrada de rublos financiou casas populares, novas escolas, equipamentos hospitalares, medalhas olímpicas, mais comida e outras razões para animar os intermináveis discursos de Fidel com gritos de Patria o Muerte. Nos anos 80, prédios em decomposição, a universalização da falta de água, o sumiço da coleta de esgoto e outras carências aflitivas prenunciaram mais uma estação tempestuosa. A queda do Muro de Berlim em 1989 e a dissolução da União Soviética dois anos depois anteciparam o pior dos invernos. É o único trecho do documentário que mostra Fidel Castro, um poço de certezas aparentemente inesgotável, sem saber o que dizer. Em algumas aparições, para espanto da plateia, vê-se um homem ligeiramente parecido com gente como a gente. Sempre traduzindo em voz alta para o inglês o que ele próprio acabara de dizer em espanhol, Alpert filma e narra momentos em que Fidel exibe o peito nu para provar que não usava coletes à prova de bala, ou garante que não teme atentados porque só morreria quando chegasse a sua hora, ou esparrama o corpo pela cama do quarto na Missão Cubana em Nova York, onde baixara para discursar na Assembleia-Geral da ONU. A bordo do avião que o trouxera de Havana havia um único cidadão norte-americano. Jon Alpert, naturalmente.


Cuba e o Cameraman confirma que o embargo decretado pelos Estados Unidos causa estragos de bom tamanho, mas infinitamente inferiores aos provocados pela economia planificada. Somem a cerveja, o rum, o leite, a carne. Multiplicam-se os exploradores do mercado negro, os traficantes de drogas, os ladrões, entre os quais os que consumiram em churrascos os animais que compõem o patrimônio dos Borrego. Camuflada pela ditadura comunista, a penúria em expansão é escancarada no documentário que, ao mostrar Cuba como Cuba é, torna bem menos surpreendente a onda de protestos que agitou a ilha há poucas semanas. Pena que Alpert não estivesse lá para filmar a verdade torturada por liberticidas sem remédio. O mais repulsivo dos negacionismos é negar que uma ditadura é uma ditadura. E não há patrulha mais torpe do que a que tenta silenciar quem enxerga a nudez do reizinho de estimação.

Essas torpezas ajudam a entender por que a chegada ao Brasil de Cuba e o Cameraman foi escondida pela Netflix e ignorada pelos segundos cadernos dos jornais. No País do Carnaval, os chamados críticos de cinema ficam com cara de criança que viu Nossa Senhora quando topam com idiotices do calibre de Democracia em Vertigem. E têm orgasmos múltiplos quando Petra Costa capricha na voz de quem canta incelenças desde o estágio no berçário. O documentário sobre Cuba comprova que uma Petra só teria chances de juntar-se à equipe que o produziu caso se escondesse no carrinho de bebê. Nesse caso, é provável que Fidel preferisse afastar-se às pressas. E não teria conhecido Jon Alpert.

A amante de 100 milhões de dólares: percalços do ex-rei da Espanha.


Briga por dinheiro depois de separação não é exclusividade do povão, mas Juan Carlos e a linda Corinna descem alguns degraus na baixaria. Vilma Gryzinski:


Imaginem a seguinte situação: um homem numa posição importante recebe uma comissão por baixo do pano e, para não expor seu nome, deposita o dinheiro na conta da amante num banco suíço, prevendo que garantiria um pé de meia quando finalmente ele largasse a esposa e os dois assumissem o romance.

Mas os dois rompem e, inconformado, ele começa a pressionar a ex-amante a devolver a bolada. Ela diz que o dinheiro foi um presente e o acusa de assédio moral.

Este é basicamente o roteiro que envolve Juan Carlos I, o desmoralizado rei emérito da Espanha, e Corinna Larsen, sua ex-amante.

A quantia envolvida não é pouca: 100 milhões de dólares, que promotores de dois países, Suíça e Espanha, querem associar a uma comissão paga pelo rei da Arábia Saudita a Juan Carlos, por ajudar a diminuir o valor orçado por uma empresa espanhola para implantar o trem-bala de Meca.

O caso já é conhecido há algum tempo e contribuiu para a vexaminosa saída pelas portas dos fundos do rei emérito, seu título oficial, quando deixou a Espanha na surdina e se homiziou nos Emirados Árabes Unidos, temendo que a polícia acabasse batendo à sua porta.

O escândalo voltou à tona porque Corinna Larsen agora acusa o ex-rei de assédio e difamação na justiça da Inglaterra, onde foi morar depois de deixar seu duplex em Mônaco, onde se dedicava à arte de promover contatos e negócios do mundo dos muito ricos e, eventualmente, aristocratas.

Ela diz ter ouvido do ex-amante que as consequências “não seriam boas” se não devolvesse o dinheiro que considerou, na época, uma prova de “amor e afeto”. Também acusa o então diretor do serviço secreto espanhol, general Félix Sanz Roldán, de pressioná-la a mando de Juan Carlos, insinuando ameaças sobre sua segurança e a de seus filhos.

O maior mal que o processo de Corinna, uma dinamarquesa que usou durante algum tempo o sobrenome e o título do segundo marido, o príncipe alemão Casemir Zu Seyn Wittgenstein, pode causar é ao rei Felipe VI, o filho certinho que procura se distanciar cada vez mais das trapaças do pai, mas que sempre pode ser prejudicado por aproximação.

Juan Carlos não tem mais reputação a salvar. Seu mundo começou a desabar em abril de 2012, quando sofreu uma queda durante uma caçada em Botswana e precisou ser levado de volta à Espanha. As aparências que mantinha, com uma certa cumplicidade da imprensa, desabaram.

Vieram à tona o caso com Corinna, os contatos suspeitos – o safári em Botswana tinha sido pago por um empresário sírio – e, mais chocante de tudo, a foto de uma caçada anterior, onde ele posava com a filha Elena ao lado de um elefante morto.

O processo de desmoralização desencadeado a partir daí, com o risco de levar junto para o buraco a monarquia, o levou a abdicar em favor do filho dois anos depois.

O caso com Corinna havia terminado há tempo. Segundo ela, quando ele lhe disse que não mantinha uma relação de exclusividade – e não existe ciúme maior do que o das amantes.

Os dois haviam se conhecido durante uma caçada na propriedade espanhola do duque de Westminster. Corinna trabalhava nesses eventos para pouquíssimos privilegiados promovidos por um fabricante de armas de caça da Inglaterra.

Depois de estabelecida praticamente como amante oficial do rei da Espanha, ela se mudou para o ramo de promoção de contatos e negócios.

Juan Carlos foi loucamente apaixonado por ela, a ponto de ter consultado advogados sobre a possibilidade de se divorciar da rainha Sofia. Chegou a pegar um avião para ir à Alemanha pedir a mão dela em casamento ao pai, o dinamarquês Finn Bonning Larsen, que durante muitos anos foi diretor da Varig na Europa.

Nas monarquias constitucionais europeias, reis e rainhas têm apenas um papel simbólico, que depende muito da imagem e da aprovação da opinião pública. Um dos argumentos dos defensores desse tipo de sistema é que o papel de chefe de Estado fica mais sólido e respeitável quando não envolve políticos.

Quando reis se comportam como aqueles que pretendem substituir com mais elegância, o argumento desmorona.

Na Espanha existe uma esquerda antimonarquista forte e a opinião pública flutua. O sistema todo se desmoraliza quando escândalos de corrupção solapam seus fundamentos.

Felipe é totalmente dedicado a criar uma imagem de monarca moderno, de comportamento impecável. Afastou a própria irmã, Cristina, da família quando o marido dela se enredou num caso de corrupção que o levou à cadeia. Renunciou publicamente a qualquer herança que viesse a receber do pai, como beneficiário de duas fundações de fachada que Juan Carlos criou para administrar seus recursos não contabilizados.

Na Inglaterra, são os filhos – e netos – que criam problemas para a rainha. No caso dos espanhóis, é o pai que cria problemas para o filho.

Existe ainda algum segredo inconveniente que o processo de Corinna contra o o rei aposentado possa revelar? Dificilmente.

Mas sempre é bom não subestimar a capacidade destrutiva de uma ex-amante que não quer devolver um presentinho de 100 milhões de dólares.

Como enfrentar a impostura


O presidente não mente de forma eventual, mas sistemática. A reação a isso deve ser institucional, com economia rigorosa de expletivos e exclamações. Editorial do Estadão:


O presidente Jair Bolsonaro deu 1.682 declarações falsas ou enganosas em 2020, o que dá uma média de 4,3 por dia, segundo um estudo anual divulgado ontem pela Artigo 19, organização britânica de defesa da liberdade de expressão.

Esse espantoso número mostra que o presidente não mente apenas de forma eventual, mas sistematicamente, o que constitui um evidente método. Sua intenção, já está claro, é usar o destaque conferido a seu cargo para confundir a opinião pública, de modo a dificultar a formação de consensos sobre a realidade. Sem esses consensos mínimos, o debate democrático se torna inviável, o que é precisamente o que Bolsonaro almeja.

Não à toa, como mostra o mesmo estudo, o presidente e seus assessores deram nada menos que 464 declarações públicas contra a imprensa em 2020, justamente para desacreditar as informações baseadas na realidade – matéria-prima do jornalismo profissional – e legitimar distorções produzidas pelo departamento de agitação e propaganda do bolsonarismo.

Se não traz novidade, pois afinal a mendacidade crônica de Bolsonaro e de seus camisas pardas, a esta altura, já é notícia velha, o estudo da Artigo 19 tem o mérito de dar a dimensão chocante daquilo que apenas se intuía: para Bolsonaro, mentir é uma virtude, talvez a principal da seita que lidera.

Um presidente com essas características impõe desafios inéditos na história republicana. As instituições democráticas, por definição, devem se alicerçar na veracidade dos fatos, para que as decisões que afetam a sociedade respeitem a realidade e, assim, sejam efetivas e aceitas como legítimas mesmo por aqueles que a elas se opuseram.

Quando a mentira impera nas mais altas esferas de governo, as decisões das instituições democráticas serão sempre objeto de desconfiança, instaurando-se o conflito – que é precisamente o combustível dos regimes de vocação autoritária. O conflito, tal como idealizado por esses governos, presume a criação de inimigos ubíquos, cujo combate demanda a politização dos menores aspectos da vida cotidiana, impedindo, mesmo nas relações pessoais e familiares, a formação de consensos triviais.

É claro que, num tal estado de coisas, a democracia se inviabiliza, razão pela qual as instituições democráticas devem reagir com firmeza a cada mentira proferida pelo presidente.

No entanto, essa reação deve ser, com o perdão da redundância, institucional. Isto é, deve se limitar a demonstrar as mentiras do presidente, com economia rigorosa de expletivos e exclamações. Deixar-se levar pela emoção, produzindo respostas exageradas às imposturas presidenciais, é fazer exatamente o que pretendem os vândalos da democracia: rebaixar o debate ao nível da briga de rua.

Por esse motivo, não foi adequada a recente reação do Supremo Tribunal Federal (STF), por meio de sua Secretaria de Comunicação, à enésima declaração do presidente Bolsonaro acerca das decisões da Corte que, segundo ele, o impediram de interferir na administração do combate à pandemia de covid-19.

“O STF não proibiu o governo federal de agir na pandemia! Uma mentira contada mil vezes não vira verdade!”, exclamou o Supremo em sua conta no Twitter, ao divulgar um vídeo para esclarecer que jamais proibiu Bolsonaro de trabalhar para conter a pandemia.

Além do tom indignado, fora de lugar, o uso de uma expressão que serve frequentemente para caracterizar a propaganda do regime nazista (“Uma mentira contada mil vezes se torna verdade”) cria desnecessário ruído.

Ademais, e isso talvez seja o mais importante, não serão comparações com o nazismo que farão o presidente se emendar. Ao reagir à mensagem do Supremo, Bolsonaro mentiu novamente, dizendo que a Corte “cometeu crime” por ter dado a governadores e prefeitos a possibilidade de “suprimir todo e qualquer direito previsto no inciso (sic) 5.º da Constituição, inclusive o ir e vir” – em referência às medidas de isolamento social. E arrematou: “Fizeram barbaridades acobertados pelo Supremo”.

Como se vê, ao presidente interessa transformar o País numa imensa rinha de galos. Nela, Bolsonaro joga em casa.

quinta-feira, 29 de julho de 2021

A vingança do "u": como a linguagem neutra recuperou a honra de uma vogal esquecida.


Com o uso disseminado dessa transinvenção chamada linguagem neutra, a mais oprimida das vogais finalmente ganha destaque. Via Gazeta, a crônica de Paulo Polzonoff:


Todos aprendemos na escola a repetir as vogais pela ordem “a, e, i, o, u”. Por quê? Não tenho a menor ideia. E, pensando bem, até me revolto um pouco com a criança alienada que fui e que não ousou questionar a professora sobre essa aberração hierárquica. Podia muito bem ser “i, e, u, o, a” ou “e, i, a, u, o”. A sequência só não podia começar com o patriarcal “o”.

Aliás, uma coisa a se destacar sobre as conquistas feministas ao longo do século é o fato de a letra “a” ser a primeira do nosso alfabeto latino. Pouca gente sabe disso, mas antes de Simone de Beauvoir, o alfabeto começava pelo “o”. Foram necessários milhares de sutiãs queimados para se vencer o machismo alfabético e para que o “a”, tradicionalmente associado a pessoas com vagina, assumisse essa posição de destaque.

De qualquer forma, uma coisa que sempre me incomodou na hierarquia própria das vogais foi o desprezo ao “u”. Ou, para usar a terminologia da moda, a ufobia (não confundir com ufofobia, que é o desprezo aos ufos, nem ufofofobia, que é o desprezo aos unicórnios fofos). Desprezado pelas demais vogais, o “u” sempre sofreu preconceito e, consequentemente, teve de se contentar com um papel histórico menor.

Na saudosa Enciclopédia Delta Universal da minha infância, por exemplo, a letra “a” ocupava todo um tomo, enquanto o “u”, coitado, tinha que dividir espaço com o “v”, o “x” e o “z” – aquele sacana. Na lista telefônica, o “a” era cheio de aristocráticos Albuquerques e Almeidas, enquanto o “u” se contentava com os raros e pobretões Urbanos e Uchoas. As pessoas têm sangue tipo “A”. Por acaso você conhece alguém com sangue tipo “U”?

E no jogo imperialista estadunidense “stop!”, que os cariocas chamam de “adedanha” ou “adedonha” (do tupinambá clássico “adhedhonyah”, que significa “brincadeira que sempre acaba em briga”)? Quando a letra sorteada era “a”, todo mundo ficava feliz. Nome, país, capital, animal e carro que começam com a letra “a” todo mundo sabe. Agora, quando a letra sorteada era “u”, sempre surgia alguém para sugerir “escolhe outra senão eu não brinco mais”. O que era até compreensível, naquela Idade das Trevas. Afinal, quero ver você me dizer, sem pesquisar, um esporte ou uma moeda que comecem com a letra “u”.

Uni-vos!

Por sorte, essa transinvenção genial chamada linguagem neutra (me recuso a usar o termo “não-binária” por ser, obviamente, biexcludente) surgiu a tempo de corrigir a injustiça, dando um protagonismo inédito ao oprimido “u”. Não que essa vogal que até para se dizer humilhada precisa da ajuda do ”h” tenha aceitação universal. Depois de vencer o “x” como substituto não-binário (ops!) das desinências de gênero, o “u” ainda tem um longo caminho de luta se pretende substituir de vez o “e” no coração de todus. Us do mundo, uni-vos!

E a que se deve o milagre? Mistério! Há detratores, inclusive, que dizem que o “u” se recusava a se submeter a esse uso. Que ele era ultrarreacionário ou ultraconservador, não lembro mais. Ou que ele preferia ficar quietinho na dele, arrancando das pessoas uma risada aqui e ali ao ser usado em rimas impublicáveis. Seja qual for o motivo, a verdade é que hoje o “u” ostenta todo garbosão o título de “vogal oficial do movimento trans”. Uhu!

Têm contribuído para que a honra do “u” seja recuperada em toda a sua formosura também toda uma geração disruptiva, para a qual as normas ortogramaticais são reconhecidamente uma forma de sedimentar uma estrutura segregacionista ulterior, hetero-organizada de modo a legar ao “u” o papel universal ultrajante de último.

Tanto é assim que, pela primeira vez na história, uma Olimpíada não ficará marcada pela paz universal, pela derrubada dos mitos raciais, pelo terrorismo, por casos de doping, pelos tombos no hipismo ou pelos meritocráticos (argh) recordes, e sim pelo uso apropriado da linguagem neutra. Isso graças aos sempre eruditos jornalistas esportivos que, ousada e revolucionariamente, têm se recusado a chamar os admiráveis e corajosos “elus” de “elas” ou “eles”, como exige a sociedade reacionária.

Toda vez que elu entra em campo, elu cai na piscina, elu saca, elu corre e elu tira o lugar de uma pessoa com vagina no pódio, damos um passo a mais rumo à criação de uma ditadura pronominal. Essa etapa intermediária é importante para que alcancemos nosso objetivo máximo: a instauração da utopia vogal. Quando, finalmente e de uma vez por todas, “a”, “e”, “i”, “o” e “u” serão iguais e indiscerníveis nas palavras.

Violência é tumor ditatorial que estende seus tentáculos pela sociedade


Violência foi plantada pela esquerda e é regada pela esquerda, ONGs, universidades e judiciário. Sem eles, não há guerrilha urbana nas favelas brasileiras. Bruna Frascolla via Gazeta do Povo:


A discussão da violência no Brasil lembra a letra de Raul Seixas: “eu também resolvi dar uma queixadinha/ Porque eu sou um rapaz latino-americano/ Que também sabe se lamentar”. Os motivos das queixas existem, mas tudo é porque somos latino-americanos e queixar-se é o nosso papel. Se for artista, então, pior ainda: “agora pra fazer sucesso/ Pra vender disco de protesto/ Todo mundo tem que reclamar”, canta Raul.

Queixa é oba-oba; não é análise séria. Por que há violência no Brasil? Porque há negros; negros são pobres; pobres roubam. E tome-lhe intervenção artística de gosto duvidoso bancado pelo edital de cultura aparelhado. Ao menos os artistas da época de Raul eram bons. E ao menos na época de Raul a violência não era um problema sério no Brasil.

Como mostrei ao tratar do movimento negro, nos anos 1970 o “genocídio” do negro brasileiro era apenas miscigenação e “embranquecimento” cultural. A morte causada pela guerrilha urbana dos narcotraficantes nas favelas foi uma bênção para o movimento negro, pois deu-lhe de presente cadáveres para ornar sua narrativa de genocídio. Pois falar de genocídio sem mortes é ridículo. No Rio de Janeiro, o perfil demográfico dos soldados do tráfico de fato tem características africanas visíveis, e não é um abuso dizer que negros morrem. Mas, com a explosão da violência na Amazônia, a demografia muda e é incrementada por uma população esmagadoramente parda, de aspecto indígena. Para instrumentalizá-la, fraudaram o IGBE e passaram a considerar negros os pardos.

Guerrilha comunista

No nosso oba-oba, encaramos como natural a violência no Brasil. Somos uns vira-latas tropicais, qualquer desculpa para o estado de coisas serve. Mas as cidades brasileiras não são violentas desde sempre. Se não acredita, pergunte a quem viveu em capitais nos anos 1970.

Nessa época, já haviam surgido as favelas, mas não a violência. Negros estão nas cidades brasileiras desde o século XVII, mas não se pode imputar a eles a violência desse período. (Dá até vergonha escrever este tipo de frase, porque sua negação é de um racismo tão evidente que nem deveria ser cogitada. Que fique, então, o registro de que a ideia tão em voga nas redações hoje – a de que negros estão associados à violência urbana, por causa do “racismo estrutural” – é uma ideia racista vergonhosa).

A primeira facção narcotraficante do Brasil surge com o nome de Falange Vermelha em 1979, no presídio de Angra dos Reis, no estado do Rio de Janeiro. Depois resolveu-se que falange era “coisa de fascista” e o nome mudou para o atual, Comando Vermelho. O leitor sabe que grupos terroristas comunistas atuavam, na década de 1970, na chamada “guerrilha urbana”; que assaltavam bancos e sequestravam gente importante em troca de dinheiro. Um nome célebre que conta essas coisas em detalhe é Fernando Gabeira, que sequestrou o embaixador Charles Elbrick e escreveu o autobiográfico “O que é isso, companheiro?”.

Nesse cenário, existiam os quadrilheiros nos morros: gente que fazia comércio ilegal como qualquer outro. A maconha já tinha consumidores de todas as classes sociais no Nordeste, onde é plantada desde o século XVII. (Chamava-se “fumo de Angola”, pois os bantus a trouxeram de lá e introduziram o seu uso aqui). Não havia comércio de derivados de cocaína. Havia, isso sim, comércio da própria cocaína – mas era coisa restrita à elite. Há uma razão óbvia para isto: a folha da coca só nasce no Peru, na Bolívia e na Colômbia, e a demanda é alta entre ricos de todo o Ocidente. Assim, é preciso trazer para o Brasil de modo ilegal um bem escasso procurado também por europeus e norte-americanos endinheirados.

Os quadrilheiros ficaram presos junto com os guerrilheiros em Angra dos Reis. Os guerrilheiro converteram os quadrilheiros e lhes ensinaram o modus operandi das guerrilhas marxistas. Em 1979, as FARC já tinham 15 anos. E seu modus operandi inclui o domínio territorial de áreas pobres e a tentativa de substituir o Estado, administrando justiça e fazendo favores.

Para que o Brasil se enchesse de viciados em derivado de coca, foram necessárias três coisas: invenção de uma droga que diluísse a cocaína (fazendo render mais), aumento da produção cocaleira e logística internacional. Inventou-se o crack, a Bolívia tornou-se um país cocaleiro esquerdista e, após a queda de Escobar, a Venezuela chavista transformou seu próprio exército no maior cartel distribuidor de cocaína do mundo (o Cártel de los Soles).

Intervenção no Rio

O Rio de Janeiro é um local crucial para entender a violência do Brasil. Primeiro, é o berço da facção narcoterrorista mais antiga do nosso país. Depois, em 1982, elegeu Leonel Brizola, que proibiu o ingresso de forças policiais nos morros cariocas. Assim, contribuiu com o modus operandi guerrilheiro ao tirar o Estado do local e entregar os moradores à tutela dos traficantes armados. Você pode clicar aqui e ver William Professor, um fundador do CV, declamando poesias na reitoria da UFRJ, cheio de prestígio.)

Não tenho nenhuma grande vivência de favela em Salvador. De gente que tem, ouvi que antigamente não existia a figura do “dono do morro”. O traficante Ravengar era conhecido de todos, mas era mais parecido com um comerciante irregular como outro qualquer. Não havia moleque com arma dando ordens a pai de família, como há hoje, e é isso que faz toda a diferença: a criação de um poder policial paralelo. Ouvi que isso começou na década passada. O primeiro governo petista na Bahia iniciou-se em 2007. Desde lá, Salvador vem se riodejaneirizando.

Algo a que se deu pouca atenção é a queda da violência no Brasil. Nosso país dispõe de poucos dados. Em 2020, numa série histórica divulgada pelo G1, cujos dados mais antigos são de 2007, constatou-se que 2019 tinha sido o ano com menor violência de todos. Desde 2018 a violência passara a cair em vez de subir.

O PT saiu do poder em 2016. O ano seguinte foi mais violento do que 2016, mas 2018 foi menos violento do que 2017. Teria o racismo estrutural tirado férias em 2018? Novamente, o Rio de Janeiro é o centro das atenções do país. Em 2018, o governo Temer faz uma intervenção federal contra o crime organizado no local. A população celebrou, outros estados queriam intervenção também, mas a Universidade recebeu a notícia desse jeitinho aí que está na foto que ilustra este texto, tirada por mim na Unicamp.

O mesmo balanço do G1 indica que o Brasil contrariou a tendência global de diminuição da violência na pandemia e 2020 retomou a tendência de crescimento. Mas, porém, contudo, todavia, só nesse ano o índice passou a computar bandidos mortos pela polícia. Os parâmetros mudara, portanto – e mudaram de um jeito que faz o índice subir.

Last, but not least, os bandidos contaram com uma baita ajuda do judiciário. As favelas de Salvador tiveram tiroteios no começo da pandemia por causa da soltura generalizada. Afinal, confinamento vale para todo mundo que não é bandido. E, no Rio de Janeiro, tivemos o neobrizolismo de Fachin, que nenhum carioca elegeu, mas que decidiu mesmo assim proibir a polícia de subir morro.

A violência no Brasil não é de geração espontânea, não é natural, não é – pelo amor de Deus! – uma consequência de haver negros em nossa sociedade. Foi plantada pela esquerda brasileira e é regada diuturnamente pela esquerda, por ONGs, por universidades e pelo judiciário. Sem eles, não há essa guerrilha urbana nas favelas brasileiras.

Enquanto isso, nos EUA…

Sem maquiagem do G1, os EUA são outro país que contraria a tendência global e cuja violência aumenta. A razão óbvia e ululante para isso é a campanha “Defund the police”, iniciada após o martírio do São George Floyd. É espantoso que esse radicalismo imbecil tenha surtido efeito nos EUA e eles ainda insistam no erro.

Os EUA são um país rico, com polícia bem treinada e leis que desestimulam o crime. Uma vez que se abrace uma ideia estúpida, nada disso impede que o crime aumente. Assim como no Brasil, nos EUA os progressistas têm uma agenda antipolícia que, no frigir dos ovos, é pró-tráfico.

É sempre bom lembrarmos que a atuação da polícia está sujeita às leis, as quais são elaboradas numa democracia. Submeter-se à polícia é, nos países democráticos, submeter-se à democracia. Mas não há democracia alguma a regular o poder armado exercido por traficantes. Ao contrário, instaura-se uma ditadura encastelada numa área pobre, que vai crescendo como um tumor e estendendo seus tentáculos no resto da sociedade.

Podemos dizer que há nas Américas uma tentativa de transformar tudo em Venezuela. Uma tentativa de colocar o poder armado na mão do dinheiro sujo, sem nenhum respeito por leis.