quinta-feira, 26 de maio de 2022

"Germ Games"


Após as notícias sobre o aumento global dos casos de varíola do macaco, começo a achar que nós somos as peças no tabuleiro desses tais “jogos gérmicos” concebidos por Bill Gates. Flavio Gordon para a Gazeta do Povo:


“Todo mundo precisa de um técnico. Não importa se você é um jogador de basquete, um tenista, um ginasta ou um jogador de bridge.” (Bill Gates)

No fim de 2021, Bill Gates declarou que os governos do mundo deveriam se preparar para enfrentar futuras pandemias e ataques bioterroristas com vírus da varíola. O alerta foi dado em entrevista a Jeremy Hunt, presidente do Comitê Seleto de Saúde e Assistência Social do Reino Unido, para o think tank Policy Exchange. A preparação deveria incluir o investimento de bilhões de dólares em pesquisa e desenvolvimento, bem como a criação de uma força-tarefa contra pandemias por parte da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Além dessas propostas, o fundador da Microsoft sugeriu também a prática daquilo que chamou de “germ games” (“jogos gérmicos”, em tradução livre), uma espécie de exercício preparatório para o enfrentamento de eventuais novos surtos, quer de origem natural, quer de origem terrorista. “Custará provavelmente cerca de um bilhão por ano para uma força-tarefa ao nível da OMS, para fazer o controle e aquilo que chamo de ‘germ games’, em que você pratica” – disse Gates. “Imaginemos que um bioterrorista ataque dez aeroportos com o vírus da varíola. Como responder a isso?”

A fala de Bill Gates é de 4 de novembro de 2021. Coisa de seis meses depois, cá estamos nós, às voltas com o anúncio de uma possível nova pandemia, agora justamente de... varíola. Não sei o que pensa o leitor, mas, após as notícias sobre o aumento global dos casos de varíola do macaco – situação que já leva autoridades de saúde em várias partes do mundo, inclusive da nossa Anvisa, a cogitar medidas restritivas similares às adotadas para a Covid-19 –, começo a achar que nós somos as peças no tabuleiro desses tais “jogos gérmicos” concebidos pelo outrora vendedor de vacinas digitais (os antivírus da Microsoft), e hoje vendedor de vacinas analógicas. Afinal, já tivemos um desses jogos antes. E conhecemos a estranha coincidência de ele haver antecipado a pandemia global que, meses depois, devastaria o planeta.

Aconteceu em outubro de 2019, mesma época em que – mais uma estranha coincidência! – a China estava adquirindo quantidades inéditas de testes PCR. Naquele momento, a Fundação Bill e Melinda Gates, o Johns Hopkins Center for Health Security e o Fórum Econômico Mundial (entidade responsável por publicar o libelo globalista Covid-19: the Great Reset) reuniram 15 lideranças das áreas de negócios, saúde pública e governança para um estranho evento, com o pitoresco nome de “Event 201: a global pandemic exercise”.

O referido “germ game” teve três horas e meia de duração, no decorrer das quais os participantes – dentre eles George Fu Gao, então diretor do Centro de Prevenção e Controle de Doenças da China – eram confrontados com cenários dramáticos e vários dilemas, tendo por missão formular respostas e propor soluções para uma hipotética pandemia causada por... um novo coronavírus. Ausente num jogador comum, essa capacidade de antever a jogada é marca registrada do craque. E, em se tratando dos “germ games”, Bill Gates é indubitavelmente um craque.

Mas os jogos mundiais pandêmicos não estariam completos sem a presença de um outro jogador de destaque: Anthony Fauci. Também aproximadamente no mesmo momento em que a China comprava quantidades extraordinárias de testes PCR, e que Bill Gates e seus companheiros de equipe faziam exercícios de futurologia sobre uma pandemia de coronavírus, a FDA (U.S. Food and Drug Administration) aprovava uma nova vacina de prevenção contra a varíola comum e... contra a varíola do macaco. A vacina foi produzida pela Bavarian Nordic, empresa que recebeu da Niaid (U.S. National Institute of Allergy and Infectious Diseases), perpetuamente comandada por Fauci, um subsídio de US$ 100 milhões. Empresa de sorte, não é mesmo?

E isso não é tudo. Em 28 de fevereiro deste ano, meses antes do mais recente surto global de varíola do macaco, foi publicado na revista científica chinesa Virologia Sinica um estudo que reunia fragmentos do genoma do vírus da varíola do macaco, a fim de permitir a sua detecção via testes PCR. A metodologia utilizada é conhecida como TAR (recombinação associada a transformação), descrita como “essencial para preparar clones contagiosos de grandes vírus de DNA e RNA”. O estudo admite que, aplicado à pesquisa em virologia, o método TAR “pode suscitar preocupações sobre segurança, sobretudo quando o produto reunido contém um conjunto completo de material genético capaz de ser recuperado num patógeno contagioso”.

Ah, já ia quase me esquecendo de contar ao leitor: o referido estudo é coautorado por nove pesquisadores do... Instituto de Virologia de Wuhan (IVW). Sim, aquele mesmo, em cujos laboratórios com índices insuficientes de biossegurança se realizavam pesquisas em “ganho de função” financiadas pela mesma Niaid de Anthony Fauci, e que pode muito bem ter sido a origem do Sars-CoV-2, hipótese que o “consórcio” mundial de imprensa nos garantiu se tratar de uma “teoria da conspiração” (como já discutimos em vários artigos, aqui, aqui, aqui e aqui).

Para quem, mais uma vez, ouse especular que as novas mutações do vírus da varíola do macaco possam ser fruto de experimentos conduzidos no IVW ou qualquer outro laboratório, a pecha de “teoria da conspiração” já está novamente à disposição, pronta para uso. Já para os incorrigíveis, segundo os quais toda essa corrida sanitária talvez não passe de um pretexto para o controle político totalitário, estão abertas novas vagas em maravilhosos centros de reeducação para a cidadania global. Os jogadores estão prontos. O tabuleiro, montado. E as peças, cá estamos. Let’s play!

Amado Líder


Em artigo para o Instituto Cato, Macario Schettino aborda o livro de Diego Fonseca sobre o populismo na América Latina, na Espanha e nos Estados Unidos:


Diego Fonseca ha escrito un gran libro. Amado Líder es grandote: 664 páginas (que debieron ser 666; algo falló), de letra pequeña, distribuidas en 16 capítulos. Pero también es grande. Todo lo que usted quiso saber acerca del populismo en América Latina, España y EE.UU. está ahí. Todo. Recomiendo leer, especialmente, el capítulo 1, que condensa buena parte del argumento; el 6, que enfatiza el peso de la religión organizada en el populismo; el 11, dedicado a las redes sociales; el 13, sobre identidad y polarización. Los últimos tres capítulos, y la coda, van más a profundidad, e intentan semblantear el futuro.

Pero permítame presentarle algunas frases de Fonseca:

“No hay proyecto populista que no pretenda la acumulación de poder en la figura de Amado Líder” (378). “Amado Líder promete ser distinto a sus antecesores y levantar el país. Recuperarlo. Tomarlo de este mal presente y lanzarlo al futuro en reversa, porque el espejo en que se mira está en el pasado, en el mito fundador, la idealización de una nación que ya no existe –o que nunca existió–” (153).

“El caudillo puede contradecirse y negar la contradicción, y salir airoso porque el discurso populista rara vez tiene restricciones de coherencia… El uso de las palabras como herramientas de confusión –los ‘hechos alternativos’, la mentira, la posverdad, las verdades mejoradas– es intrínseco al asalto discursivo contra la democracia representativa… No puedes tener un debate con quien reniega de los hechos y la honestidad intelectual” (227-8). “Amado Líder desdeña los hechos; su retórica está preñada de imágenes, invocaciones, mistificaciones y mitificaciones, exigencias de lealtad y creencia, todo bajo formas discursivas simples, llanas, capaces de ser comprendidas con facilidad” (181).


“Amado Líder no suele sugerir o persuadir, no tiene interés en discutir o dialogar para conseguir acuerdos; prefiere el monólogo y, dentro de él, el atajo del argumento absoluto y la retórica imperativa” (231). “Amado Líder precisa devaluar la realidad para hacerla manejable. Reducir al maniqueísmo el universo de contradicciones y conflictos de la vida social, económica y política. Un lenguaje público pobre afecta la calidad de la democracia” (251).

“Amado Líder radicalizará las percepciones. Su discurso nada en la emoción. Se regodea en la violencia simbólica. Cuando sea cuestionado por su agresividad, dirá que es una víctima, que obstruyen su derecho a expresarse con libertad, que es objeto de una campaña de desprestigio” (268). “Amado Líder adora el calor de las masas, dado que –narcisista al fin– está hambriento de aprobación” (253). “Por eso en estados de cinismo y nihilismo agudos, Amado Líder brilla: porque el populismo es la negación de la democracia representativa bajo la idea de que el caudillo y ciudadanos se entienden en la misma mesa… El gran valor de ese caudillo es la idea de la cercanía identitaria” (60).

“La demagogia no tiene otro recurso que escapar hacia delante, pues apenas modifica el rumbo para acomodarse a la discusión gris de la política convencional… pierde el favor de aquellos defraudados a los que, vaya, prometía no defraudar” (131).

“Queremos soluciones urgentes y tenemos poca paciencia… pero quien promete hacerlo no lo hará: Amado Líder nos deja peor. Más rotos, incapaces de sostener la convivencia” (655).

Fonseca cubre en su libro muchos de los temas que hemos revisado en esta columna (populismo, redes, identidades, racionalidad, discurso), pero desde una perspectiva diferente. Es más un editor buscando equilibrio que un columnista identificando procesos. Tal vez por eso deba recomendar más leer el libro y aprovechar que este sábado 28 a las 18 horas estará Diego platicando con los lectores en El Sótano en Coyoacán (M.A. de Quevedo 209).

Este artículo fue publicado originalmente en El Financiero (México) el 25 de mayo de 2022.

Há quem se satisfaça com pão e pano


O mundo de hoje certamente não aceitaria um negro sorridente cantando essas palavras. É obrigação revoltar-se contra as injustiças do mundo e pedir pano e pão – arco, não. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo:


Certa feita uma Big Tech, numa dessas propagandas compulsórias que nos empurram, resolveu me mandar apreciar a cultura negra. A imagem era a de um sujeito emburrado com uma roupa de basquete. O Brasil, segundo diz o IBGE ideologizado, é um país de maioria negra. O Brasil certamente não é a terra do basquete. O basquete tampouco é um esporte com uma relação especial com a África, e no Brasil, em particular, o esporte remete à figura altona de Oscar, que acontece de ser branco e ter sobrenome alemão. No esporte predileto do país, porém, pensamos em Pelé, que acontece de ser negro. Ainda assim, sempre esteve claro para nós, brasileiros, que não há uma relação entre o esporte e a cor. Atrelamos Pelé antes à nacionalidade brasileira que à cor negra, e a ele contrapomos Maradona, que acontece de ser branco mas enxergamos antes como um argentino. Não à toa, esse negro que é considerado rei e símbolo nacional tem a sua vida pessoal vilipendiada pelo movimento negro, que não se conforma com sua figura altiva, alegre e bem sucedida. Por fim, se eu fosse associar algum esporte à cultura negra no Brasil, seria a capoeira, que, apesar de ser um esporte brasileiro, tem suas origens em comunidades de escravos negros, e traz distintas marcas musicais da África.

O próprio fato de ser uma arte marcial musicada é uma atipia dentro das artes marciais. Aqui o militante ressentido dirá que a música e a dança eram disfarces do negro revoltado para distrair os brancos. Pedem então que acreditemos que a música e a dança fazem parte da religiosidade negra (seja no candomblé ou na gospel music) de maneira espontânea, mas que na luta era só fingimento. Bobagem. Isso reflete o humor depressivo deles, que, com todo o conforto material, não são capazes de ter a leveza de espírito dos seus (aliás, nossos) antepassados escravos.

Raízes retrabalhadas

O berimbau é um instrumento brasileiro, como se pode inferir pela cabaça. Se a cabaça do berimbau é do continente americano, o berimbau não pode ter sido trazido pronto da África. O arco com uma corda, porém, é um instrumento comum em várias culturas africanas. Somos então levados a imaginar neste país a figura de um escravo africano que, em algum momento de descanso, se entregou ao lazer de experimentar a sonoridade das coisas novas da terra e achou uma boa ideia prender a cabaça ao arco. Na verdade, a própria presença do arco já é um indício do valor que um objeto musical tinha para os escravos. No começo do século XVIII, Antonil registrou que o conselho dos senhores no trato com os escravos era resolver tudo com três P: pau, pão e pano. Num ato de liberdade, o escravo acrescentava por conta própria à sua realidade o arco, e, depois, o berimbau. O movimento negro, hoje, só quer reivindicar pão e pano. O arco é alienação, consciente mesmo é quem pede quinhões maiores daquilo que o trabalhador já ganha de qualquer jeito, ou – o que é novidade desde o fim da servidão – a chance de conseguir ser um trabalhador, nem que seja mediante cota racial. Aí ele se submete com gosto a ser avaliado pelo físico, igual a um cavalo.

Tal como o português, o negro se adaptou às coisas da terra e usou-as para aprimorar a sua cultura. O berimbau e o atabaque são invenções do negro no Brasil, que pôde continuar a sua musicalidade sem grandes rupturas com a África. Em toda a América com presença negra, chegou a batucada, cujo ritmo sincopado se misturou com a música de outras culturas e criou novos gêneros musicais. Uma aparente exceção são os EUA, onde a musicalidade negra remete a instrumentos de sopro em vez de percussão. Ainda assim, os EUA seguem a regra geral de ter os negros como expressão poderosa no campo musical. Seus gêneros musicais originais que caíram no gosto do mundo – o jazz e o rock – são música de origem negra.

A excepcionalidade dos EUA se explica pelos Black Codes, de 1832, que proibiam os negros de tocarem tambor. Privados do seu instrumento predileto, deram um jeito de continuar o ritmo com outros.

“Que mundo maravilhoso!”

E aqui voltamos ao negro de cara amarrada com camisa de basquete. Há não muito tempo atrás, cultura negra dos EUA remetia a música de qualidade. Grandes personalidades eram Ray Charles, Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Louis Armstrong e, como não, o pioneiro Jimi Hendrix. O jazz e o rock transcenderam o nicho negro e se espalharam pelo país antes de se globalizar. Por outro lado, desconheço um esportista que tenha, nos EUA, ocupado uma posição similar à de Pelé. Eles não têm um esporte nacional predileto; negros gostam de basquete e brancos jogam aquelas coisas esquisitas cujas regras ninguém entende (futebol americano, hóquei, beisebol). Tampouco sei de campanhas difamatórias movidas contra grandes personalidades da música. Em vez disso, noto um desvanecimento da memória num mundo em que todo o tempo parece estático dentro de um manualzinho corporativo a-histórico de Robin diAngelo (a Djamila lá deles). Negro? O que é um negro? Um cara enfezado com roupa de basquete, um manifestante do BLM, uma vítima da sociedade, George Floyd. E nada mais. Se falar de Luther King virou coisa de direita, quem vai se importar com uma singela canção, que exclama “Que mundo maravilhoso”?

Essa, sim, uma canção cuja melodia todo ocidental conhece na voz marcante de Louis Armstrong, ainda que não saiba a letra nem conheça o cantor. Ele lançou a música em 67 com a autoria de um pseudônimo desconhecido (na verdade eram Bob Thiele e David Weiss), e a música não demorou a ser um estrondoso sucesso mundial. A letra diz: “Vejo o verde das árvores, o vermelho das rosas também […] As cores do arco-íris, tão lindas no céu, estão também nas caras das pessoas indo e vindo. Vejo amigos se cumprimentando, perguntando ‘Como vai você?’. Eles na verdade dizem ‘Eu te amo’. […] Eu penso comigo mesmo: Que mundo maravilhoso!”.

O mundo de hoje certamente não aceitaria um negro sorridente cantando essas palavras. É obrigação revoltar-se contra as injustiças do mundo e pedir pano e pão – arco, não. E o que vale primeiro para os negros (tenham em mente o experimento social de desagregação familiar tão denunciado por Thomas Sowell e Walter Williams) em seguida passa a valer para todos: somos bombardeados por uma propaganda que nos manda reclamar da vida o tempo inteiro, dando um jeito de nos vitimizarmos. Se você for um homem branco heterossexual, pode muito bem alegar que é gordo, neuroatípico ou inventar uma identidade de gênero para chamar de sua. E depois deve pedir sempre mais pão e mais pano, como se uma mão tão poderosa, capaz de prover tanto pão e tanto pano, não estivesse associada também ao pau.

É provável que muita gente instruída, se prestasse atenção à letra de “What a Wonderful World”, achasse o eu lírico um idiota. Esperto mesmo é quem “sabe” que o mundo é somente horrível e passa o maior tempo possível enfezado. Depois se droga (com drogas lícitas ou ilícitas) e não sabe por quê.

O mundo é do tamanho do mundo. Há como o mundo ser horrível e maravilhoso ao mesmo tempo, e a sabedoria manda pensarmos de vez em quando, conosco mesmos, que mundo maravilhoso. Sem dúvida, é mais fácil fazer isso do mesmo jeito que o eu lírico, por meio de coisas pequenas do dia a dia, em vez de depositar as esperanças em política institucional ou correntes intelectuais. Um escravo era capaz de encontrar prazer distinto de pão e pano, e duvido muito que o fizesse por meio de ideologia ou política.

Ian Morris e a seleção cultural da humanidade


O historiador britânico sustenta, em "Caçadores, camponeses e carvão", que cada sociedade tem o sistema de valores que melhor se adapta ao seu nível de desenvolvimento. Juan Avilés para El Cultural:


Durante los últimos cuarenta años la Encuesta Mundial de Valores, impulsada por una red mundial de científicos sociales, ha realizado en casi cien países siete oleadas de sondeos que ofrecen una detallada visión de los valores predominantes en las distintas sociedades. El análisis de sus resultados muestra que tales valores se pueden disponer en dos ejes, uno que contrapone los tradicionales a los seculares y racionales, y otro que contrapone los de supervivencia a los de auto-expresión. El desarrollo económico contribuye al creciente predominio de los valores seculares y racionales y los de auto-expresión, pero subsisten diferencias debidas a factores culturales y religiosos.

¿Es posible retroceder en el tiempo y analizar la evolución de los valores predominantes a lo largo de los milenios? Ese es el ambicioso objetivo que el historiador británico Ian Morris (1960) se plantea en Cazadores, campesinos y carbón. Su tesis es que cada sociedad tiene el sistema de valores que mejor se adapta a su nivel de desarrollo, que a su vez puede medirse por su nivel de consumo de energía.

Desde ese punto de vista la historia de la humanidad puede dividirse en tres fases: la de los cazadores y recolectores, con un consumo total de energía de 5.000 kilocalorias diarias como máximo; la de las sociedades agrarias, definidas como aquellas que alteran el patrimonio genético de las plantas cultivadas y del ganado, en las cuales el máximo se sitúa en las 30.000 calorías; y las que se basan en los combustibles fósiles, que han superado ese techo.


El enfoque de Morris es el de la selección cultural, la cual favorece aquellas innovaciones que mejor se adaptan al entorno no sólo natural sino social. Hace miles de años millones de personas tuvieron que decidir en qué medida seguían practicando la caza y la recolección o se dedicaban a cultivar sus campos y cuidar su ganado, con el resultado neto de que la agricultura y la ganadería se difundieron por todos los lugares favorables y el anterior modo de vida se vio cada vez más marginado. El ambivalente balance de ello fue un aumento del consumo de energía, un incremento de la carga de trabajo para casi todos y una desigualdad social mucho mayor.

El libro dedica sendos capítulos a analizar el consumo de energía, los rasgos demográficos, las desigualdades económicas, políticas y de género y la incidencia de la violencia en los tres tipos de sociedades ya citados. Es admirable la capacidad de Morris para concentrar tan alto grado de información relevante en tan pocas páginas, pero ello no puede hacerse sin dejar de lado cuestiones importantes y caer en inevitables simplificaciones. Lo fundamental queda sin embargo muy claro.

Respecto a los valores predominantes pueden resumirse en que los cazadores eran muy reacios a las jerarquías económicas y políticas, asumían una jerarquía sexual marcada pero no extrema y aceptaban un elevado nivel de violencia interpersonal; los miembros las sociedades agrarias aceptaban, o se resignaban a, una desigualdad económica y política extrema, incrementaron la sumisión de la mujer al varón y se beneficiaron de una reducción de la violencia interpersonal; y finalmente nosotros aceptamos, no siempre de buen grado, las desigualdades, proclamamos la igualdad política, rechazamos cada vez más la sumisión de la mujer y vivimos en las sociedades más pacíficas de la historia.

¿Somos mejores que nuestros antepasados? No, advierte Morris, sino que gozamos de la energía abundante y barata que durante dos siglos nos han proporcionado los combustibles fósiles, un legado de los devastadores incendios forestales del Carbonífero. Con el inquietante efecto colateral que conocemos: el calentamiento global.

Un capítulo particularmente interesante (que desafortunadamente concluye con unas breves y decepcionantes páginas sobre lo que puede ofrecer el futuro) aborda los dos grandes procesos de cambio de la historia humana: la revolución agraria y la revolución industrial. La primera comenzó hace unos 12.000 años en las colinas del Medio Oriente y en los milenios sucesivos no sólo se extendió a nuevas tierras sino que surgió de manera independiente en otros lugares. La segunda se inició en Gran Bretaña a finales del XVIII y en un par de siglos se ha extendido por todo el planeta.

Como puede verse, las tesis de Morris son altamente provocadoras y un rasgo original de su libro es que incluye los textos de un estudioso de la Antigüedad clásica, un especialista en la historia china, una filósofa y una novelista, quienes sin negar los méritos del autor le critican desde diferentes puntos de vista, ofreciendo material adicional para la reflexión del lector. Y ese es el gran mérito de Cazadores, campesinos y carbón: induce a reflexionar sobre nuestro pasado y nuestro futuro.

En mi modesta opinión, la gran pregunta no es cómo sustituiremos a los combustibles fósiles sino la de saber si los valores que hasta ahora llamábamos occidentales se convertirán en universales al compás del desarrollo económico. Los optimistas pueden aludir a lo cerca que está Japón de Alemania en la encuesta de valores.

Sergio Moro e a "vingança dos corruptos"


Incentivado pelas inexplicáveis decisões do STF contra a Lava Jato e auxiliado por setores da opinião pública que incensam Lula como o “democrata” que ele não é e nunca foi, o petismo parte de vez para a vingança. Editorial da Gazeta do Povo:


O processo de reversão de todas as conquistas da Operação Lava Jato, como o Brasil inteiro sabe, não termina com a anulação das condenações dos corruptos, nem com a aprovação de leis que dificultem futuras operações de combate à corrupção. É preciso que aqueles que se empenharam em desmascarar os esquemas orquestrados pelo PT sejam desmoralizados, humilhados e punidos. Assim, no fim do mês passado, em uma atitude nada surpreendente, quatro deputados federais e um deputado estadual de São Paulo, todos petistas, impetraram ação na Justiça Federal em Brasília contra o ex-juiz Sergio Moro, acusando-o de cometer “atos gravemente violadores da moralidade administrativa, da legalidade e da impessoalidade”. Nesta segunda-feira, o juiz Charles Renaud Frazão de Morais, da 2.ª Vara Federal Cível de Brasília, aceitou a denúncia, solicitou que Moro – que agora se torna réu – apresente a sua defesa e intimou o Ministério Público Federal.

A peça, redigida por advogados do grupo Prerrogativas, é não apenas questionável do ponto de vista puramente processual, como apontaram vários juristas ouvidos pela Gazeta do Povo, mas também é um exemplo perfeito da inversão de valores promovida pelo revanchismo petista contra a Lava Jato e aqueles que a conduziram no Judiciário e no Ministério Público. “o ex-juiz Sergio Moro manipulou a maior empresa brasileira, a Petrobras, como mero instrumento útil ao acobertamento dos seus interesses pessoais”, afirma a ação, quando na verdade quem “manipulou” a estatal à exaustão foi o petismo, que usou a empresa, em conluio com empreiteiras e partidos da base aliada, para a manutenção antidemocrática de seu projeto de poder, tudo fartamente documentado e confessado por alguns dos principais envolvidos no esquema.

Não podia faltar, obviamente, o discurso segundo o qual o desemprego e a crise foram causados pelo combate à corrupção, já que as empresas pegas pela Lava Jato durante as investigações acabaram demitindo e paralisando suas obras como consequência das punições sofridas – punições, aliás, previstas na Lei Anticorrupção, aprovada e sancionada durante o governo de Dilma Rousseff. Que o petismo insista nessa artimanha mostra o desprezo do partido pela inteligência do brasileiro, pois a verdadeira causa da decadência dessas empresas foi o fato de seus donos terem abraçado com entusiasmo o esquema do petrolão. Tratar o combate à corrupção como um mal, como se tivesse sido melhor a perpetuação da ladroagem, é mostrar o pouquíssimo apreço que a lisura no trato da coisa pública tem na escala de valores petista.

A ação também abusa de um truque já exposto em outras ocasiões pela Gazeta do Povo: a transformação da discordância a respeito de escolhas permitidas ao juiz, dentro do seu espaço de interpretação e discricionariedade, em “abusos” ou ilegalidades. Voltam à tona, assim, episódios como a condução coercitiva de Lula e a divulgação do conteúdo de ligações entre ele e a então presidente Dilma Rousseff. Todas decisões perfeitamente amparadas na legislação, que Moro aplicou com rigor, sim, mas um rigor que não infringiu a lei, muito menos de maneira deliberada e sistemática como pretendem fazer crer os petistas. Para completar o teatro de absurdos da ação judicial, ela ainda cita episódios posteriores à atuação de Moro na Lava Jato, em uma tentativa falaciosa de atribuir as condenações por ele proferidas não ao enorme conjunto probatório levantado pelas investigações, mas à concretização de um “plano de carreira” pessoal de Moro e que incluiria necessariamente uma “perseguição” ao petismo, abrindo a possibilidade de o ex-juiz ocupar os cargos que acabou ocupando no governo Bolsonaro e, depois, na iniciativa privada.

Incentivado pelas inexplicáveis decisões do STF que vêm anulando todo o trabalho da Lava Jato e auxiliado por setores da opinião pública que incensam Lula como o “democrata” que ele não é e nunca foi, o petismo parte de vez para a vingança, como havia dito o ministro Luís Roberto Barroso ao votar contra a suspeição de Moro no plenário do Supremo. Tanto o ex-juiz quanto o ex-procurador Deltan Dallagnol são os alvos preferenciais desta campanha sórdida, que busca fazer dos dois exemplos do que acontece a quem se dedica a enfrentar os corruptos no país – o ex-coordenador da Lava Jato acaba de receber uma notificação tão absurda quanto inacreditável do Tribunal de Contas da União (TCU), cobrando R$ 2,8 milhões relativos a gastos com passagens e diárias de procuradores. Cada iniciativa persecutória destas que prospera é um aviso de que, no Brasil, o crime segue compensando e quem enfrentá-lo acabará sofrendo as consequências.

Em defesa do populismo


Com o povo ou com a elite: esta é a partida que se joga hoje. Miguel Ángel Quintana Paz para The Objective:


El populismo tiene mala fama. También le ocurre a la viruela del mono o a la gente aburrida. Usted, amigo lector, tal vez crea que se trata en los tres casos de reputaciones bien merecidas.

Sin embargo, hoy trataré de argumentar que quizá nos hallemos ante algo similar a la mala prensa del colesterol o los gatos negros: quizá estemos aquí ante un descrédito injusto. Porque hay colesterol bueno y colesterol malo; y acaso el populismo también contenga alguna modalidad deseable. O porque lo importante de los gatos, como diría Den Xiaoping, es que, blancos o negros, cacen ratones; y acaso el populismo nos ayude a atrapar algunos roedores que urge capturar.

Empecemos por apartar un malentendido: a menudo se confunde el populismo con la mera demagogia, con la retórica facilona, con apelar a los instintos del público en lugar de su pura razón. Este significado de «populismo» abre interrogantes interesantes: ¿de veras la democracia puede funcionar entre seres que solo fueran racionales como ordenadores? ¿No son las emociones algo esencial en nuestra relación con otros humanos, y por tanto también con los que compartimos un país? Mas de momento dejaremos todo esto de lado. Bástenos matizar que no trataremos del «populismo» en este sentido aquí.

Algunas definiciones de populismo han intentado ir más allá. Hace años se difundió la siguiente: «Es populista aquel que ofrece soluciones simples a problemas complejos». Pese a su éxito, la frase resulta paradójica: ¿qué habría de malo en que una solución fuera simple? ¡Siempre será mejor eso a que resulte complicadísima! Miro alrededor y veo a mucha gente agobiada por problemas que tendrían una fácil solución. El problema es de ellos, no de tal solución simple.

Ahora bien, se me dirá que quien acusa al populista de idear soluciones sencillas no lo hace porque sean eso, sencillas, sino porque resultan equivocadas. Está bien, pero eso nos arroja ante nuevas paradojas. «Ofrecer soluciones equivocadas» ¿no es de lo que siempre han acusado los liberales a los socialistas? ¿Y los socialistas a los liberales? Y también los conservadores a los marxistas, y los marxistas a los fascistas, y estos a las personas de «centro centrado». ¿Qué tienen de nuevo, pues, los populistas, como para definirlos con un rasgo que sirve para cualquiera que no piense, en política, como yo? ¡Ya sabíamos que quien de mí discrepa es, fijo, por lo equivocado que está!

Parecería, pues, que hacen falta mejores herramientas que esas para entender lo que el populismo es.

Probemos con una definición etimológica. Pero aquí es donde se agravan los problemas del que ansíe denostar el populismo sin más. Porque «populismo» procede del latín populus, que significa «pueblo»; y que si lo traducimos al griego nos lleva a demos, que es de donde proviene nuestra querida democracia. Dicho de otra manera, ser populista empieza a parecerse a ser lo que todos (educadores, periodistas, políticos) nos repiten una y otra vez que hemos de ser: ¡demócratas, por favor! Algunos incluso nos sugieren esa vía como panacea: la educación mejorará siendo «más democrática», y también las instituciones, quién sabe si el tráfico también. Ante tanto «democratismo» y elogio al pueblo, ¿por qué luego nos insisten en que democracia sí, pero populismo no?

Reconozcamos, en todo caso, que hay un sentido de «populismo» del que hacemos bien en guardarnos. Se trata de un significado muy académico. Hace ya unos años que dos filósofos, el argentino Ernesto Laclau y la belga Chantal Mouffe, lo extendieron por todo el mundo. El primero escribió incluso un libro en 2005, La razón populista, que acabaría convirtiéndose en la biblia de muchos marxistas conscientes de que, tras el derribo de cierto Muro berlinés, algo había que remozar.

A Laclau lo leyeron en España los Pablo Iglesias Turrión, los Juan Carlos Monedero y, sobre todo, los Íñigo Errejón. Este último acabaría publicando una obra con la otra autora citada, Mouffe. Su título, Construir pueblo, no engaña a nadie: el populismo es la columna que lo vertebra.

Para estos marxistas, la noción de «clase obrera» ha quedado un tanto desfasada. Pocos se sienten ya en Occidente miembros de un «proletariado» que no tiene «nada que perder, salvo sus cadenas», como postulaban Marx y Engels, allá por su Manifiesto comunista de 1848. Hoy los asalariados sí que tienen más cositas que perder: las cadenas, de acuerdo, pero acaso las musicales o la de oro que me regalaron en la comunión de niña; súmese a ellas también la televisión inteligente, el coche, las vacaciones en la playa, quizá incluso el apartamento que nos hemos comprado allí. Urgía renovar, pues, el viejo mensaje marxista. Y Laclau y Mouffe sugirieron unas cuantas pistas.

La principal, la que los convierte en portaestandartes del populismo, es la que resume el ya citado título de Mouffe y Errejón: hay que «construir pueblo». Si hay que construir algo es porque no existe. Este populismo, izquierdista, cree que hay que convencer a la gente de que sus diferentes deseos (una subida de sueldo, disponer de una guardería para los niños, que no me agredan por la calle…) confluyen todos ellos en un mismo ente que podrá satisfacerlos: el de un «pueblo» nuevo, al que capitaneará un líder (izquierdista, por supuesto) que luchará en batalla contra los malvados oligarcas que se lo quieren impedir. Para explicar todo esto, Laclau, Mouffe o Errejón usan un vocabulario algo alambicado (cadena de demandas, antagonismos, significantes vacíos…), pero prescindamos aquí de él.

Es probable que a usted, amigo lector, ya le haya sorprendido esta idea de una izquierda que, por un lado, se dice populista, pero por otro lado no cree que exista un pueblo real (sino solo en el que ella pueda, propaganda mediante, «construir»). Ahora bien, me temo que deberá reservar aún parte de su capacidad de asombro. Porque la versión española de este populismo resultaría aún más estrambótica (quizá por ello esté desinflándose tan rápido como ascendió). He aquí el pasmo: estos populistas españoles de izquierda ¡ni siquiera creen que el que haya que construir sea pueblo español! Optan más bien por una mélange de pueblo catalán, vasco, leonés, berciano… (De hecho, otro problema añadido es que nunca nos dejan del todo clara la lista precisa de «pueblos» que constituirían nuestra nación).

En suma, raros populistas españoles son estos que, por las dos razones aducidas, no creen en el pueblo español. Razonable resulta la mala fama de este tipo de populismo izquierdoso, pues. Pero no se trata del único posible. ¿Y si hubiera otro color populista, diferente al de izquierdas? ¿Un populismo que sí creyera en el pueblo español? ¿Que no aspirara a «construirlo», sino solo a reconocerlo y asistirlo? ¿Por qué habría de resultar indeseable un populismo así?

Estamos hablando, naturalmente, de un populismo de derechas. Un populismo como Dios manda: que no nos venga a «construir» a los españoles, porque ya estamos de sobra construidos. Que solo venga a defendernos, a promocionarnos, a servirnos. ¿Tan peligroso resultaría un movimiento así?

Alguien inquirirá (acaso desde su chalé centroderechista, tan cómodo junto a la sierra madrileña): vaya, vaya, ese populismo debería defendernos… pero ¿contra quién? ¿Es que acaso hay alguna amenaza contra nosotros, españoles de a pie, en la que necesitemos ayuda? ¿No estoy tan tranquilo yo, aquí en mi jardincito, gozando de mi piscina y mi buena conciencia? ¿No es un tanto belicoso eso de creer que nos debamos defender?

Semejantes preguntas, me temo, cada vez parecen más y más retóricas en un mundo donde se nos multiplican las asechanzas. Por supuesto que hay gente se la tiene jurada al pueblo español, y ansía resquebrajarlo: ya sea desde el nacionalismo periférico (que también quiere «construir»… sus naciones) o desde la izquierda que con él gobierna (y que además añade otras fragmentaciones: mujeres contra hombres, heterosexuales contra LGBT+, gitanos contra payos…). Con todo, más allá de nacionalistas e izquierdistas, hoy cunde otra amenaza contra nosotros (de la que ellos son solo peones). Una amenaza de la que ya hemos hablado en THE OBJECTIVE en diversas ocasiones: aquí o aquí. Una amenaza que resulta mucho mayor.

Podemos presenciar un desfile de tales peligros justo estos días en Davos, durante la reunión que celebra en tal paraje suizo el Foro Económico Mundial. Sus planes son, de puro transparentes, invisibles para muchos. Pero no cabrá aducir que no nos lo adviertan con claridad.

Para empezar, y después de que decenas de jets privados allí les hayan congregado, nuestras élites están hablando de que ya es hora de empezar a controlarnos uno a uno las «emisiones de carbono» que cada cual cometamos. Tal vez mediante algún método similar a los probados en China, o al recién experimentado aquí pasaporte covid. ¿Se imagina no poder montar en un bus, o tener que bajar la calefacción de casa, solo porque usted ya ha emitido esta semana más CO2 del que le permite un señor que lo decidió en su jet? ¿O porque usted se portó mal en Facebook ayer por la mañana? ¿Ha pensado usted las ganas que le vendrán de insultar a ese señor por tal cosa? No se preocupe, en Davos también han reparado en eso: anteayer mismo la comisaria australiana de Seguridad Internáutica anunció que habrá que recalibrarnos derechos humanos como la libertad de expresión, porque ¡hay que ver lo mal que la usamos algunos en internet!

Al propio Klaus Schwab, presidente del Foro de Davos, tampoco cabe acusarle de críptico. Échele una ojeada a su nuevo libro, La gran narrativa, que surge de un encuentro en los Emiratos Árabes Unidos (país que, por cierto, ya tiene implantado un Programa de Recompensas al Ciudadano, según el cual se otorgan puntitos en función de cómo se porte cada uno de bien). Como señalaba Hughes hace unos meses, en todo el volumen, de 200 páginas, la palabra «libertad» aparece solo tres veces; la idea de controlarnos y hacer frente a los «populistas» que se enfrentarán a sus bondadosotes planes, muchísimas más.

Mas allá donde prolifera el peligro crece también lo que nos salva, predijo Hölderlin; y en ese desprecio de nuestras élites por el populismo está la clave que nos debe orientar. En efecto, ¿qué nos queda ante las nefastas élites mundiales que nos han tocado en estos inicios del siglo XXI? Esas que se preocupan más de que usemos los pronombres correctos que de las menguantes clases medias. ¿Qué nos queda frente a su descomunal poder político y económico, un Leviatán como jamás se vio?

Nos queda solo la posibilidad de unirnos: y a eso que, unido, hace más difícil el ser vencido, es a lo que llamamos pueblo. El mismo pueblo que se supone que gobierna en democracia, por mucho que nuestras élites acaten a otro de sus gurús, Yuval Harari, y crean que hemos de irnos olvidando, o al menos hackeando, lo que antes llamábamos libertad individual. El mismo pueblo que puede poner trabas en su nación a megacorporaciones hoy mayores que muchos Estados; el mismo pueblo que puede deponer a sus gobernantes inicuos y sustituirlos por otros; el mismo pueblo que sabe reivindicar su civilización milenaria ante la última ocurrencia (por ejemplo, antinavideña) de cualquier burócrata o ricachón.

Si apoyar a ese pueblo en vez de a Google o Microsoft es populista, seamos pues populistas. Si apoyarlo es poco racional, seamos lo que ellos llaman irracionales. Si el populismo es «dar soluciones simples a problemas complejos», seamos simples, pero también resolutivos. Porque el verdadero antónimo de populista no es, por mucho que nos digan, ni «racional», ni «sofisticado», ni «demócrata». El auténtico opuesto de «populista» es mucho más simple: elitista. Arriba o abajo. Ellos o nosotros.

Con la élite o con el pueblo: esa es la partida que hoy se juega. Dejemos a la izquierda con su pueblo aún por construir y a su vez con los trece o veinte pueblos que según ellos constituyen España: defendamos al pueblo español que, abandonado por sus clases política y económica, aún sobrevive entre nosotros, aunque cada vez sea más pobre y desorientado. Llevémoslo sin complejos a la conquista del Estado. Dejemos que nos acusen de populistas por ello. Y respondamos alegres: sí, soy populista, ¿y qué?

A Colômbia vai entrar no eixão esquerdista redivivo na América Latina?


É bem possível que Gustavo Petro, candidato a presidente pela frente de esquerda, protagonize uma virada sem precedentes no país. Vilma Gryzinski:


A palavra que Gustavo Petro mais fala, em tom pausado e articulado, é “paz”. É claro que isso reflete um desejo praticamente unânime da população da Colômbia, um país tão parecido e ao mesmo tempo tão diferente do Brasil, em especial pelo radicalismo, à esquerda e à direita, que já o levou várias vezes à beira do abismo, sem os amortecedores que aqui desarticulam as crises agudas.

O primeiro lugar de Petro, um ex-guerrilheiro que foi prefeito de Bogotá, está garantido, com cerca de 42% dos votos. Ainda há dúvidas sobre quem disputará o segundo turno com ele. As últimas pesquisas mostram que o candidato da direita tradicional, Fico Gutiérrez, foi ultrapassado por Rodolfo Hernández, conhecido como “o velhinho do TikTok”, uma figura folclórica que faz uma campanha alternativa, marcada por caravanas – de carro, caminhão, a cavalo ou até lombo de burro -, prometendo “acabar com a corrupção”. Lembra alguém?

A divisão de forças praticamente garante a eleição de Petro, inaugurando na Colômbia, infensa à primeira onda “bolivariana”, um governo que parecia impossível, devido à força – e às artes negras – da direita.

Será também, se confirmada, uma vitória excepcional para o eixão de esquerda que em março acrescentou uma joia inesperada, o presidente comunista do Chile, Gabriel Boric, e aguarda ansiosamente a eleição de outubro no Brasil.

Não que a esquerda esteja particularmente bem na foto. O bloco Cuba, Nicarágua e Venezuela é uma das piores vitrines do planeta. Alberto Fernández enfrenta na Argentina uma espantosa desaprovação de 72%, compatível com a crise econômica. Boric, de 36 anos, que seria a cara – e os braços tatuados – da nova esquerda, mal foi eleito, com 56% dos votos, e viu sua popularidade despencar para 38%.

A incapacidade latino-americana de empurrar as fatias mais pobres para uma camada de renda melhor – a exceção parecia ser o Chile, mas deu no que deu -, de combater a corrupção endêmica e de ter governos razoavelmente funcionais alimenta o voto nas esquerdas. Problemas novos, como a pandemia e seus reflexos econômicos, reforçam o impulso.

Gustavo Petro e sua candidata a vice, Francia Márquez, falam em paz e, claro, contra o discurso do ódio, mas ele diz, sem alterar o tom, que o governo é comandado por “ladrões e assassinos”. Também tem um discurso messiânico sobre a produção de petróleo – é da escola que prefere a mandioca. E promete o “perdão social”, que tiraria da cadeia corruptos condenados.

Foi algo semelhante, mas negociado e aprovado pelo legislativo, que abriu as portas para que o M19 – ou Movimento 19 de Abril – saísse da guerrilha e entrasse na política convencional. O grupo foi um dos vários nascidos dos desdobramentos do período conhecido como La Violencia, o objetivo nome dado aos dez anos de guerra civil retratados em vários livros de Gabriel García Márquez.

O M19 começou roubando a espada de Bolívar – uma obsessão esquerdista dos países do norte da América do Sul – e chegou ao atentado mais espetacular, a tomada do Palácio da Justiça, com mais de 300 reféns. Onze dos 21 juízes do Supremo Tribunal estavam entre os cem mortos na brutal intervenção do Exército.

O grupo guerrilheiro também começou a sequestrar parentes de grandes traficantes de cocaína, o que gerou uma reação contrária, o Morte aos Sequestradores (MAS), um dos vários grupos paramilitares que infernizaram a Colômbia. Em determinadas fases, tanto forças policiais e militares quanto os próprios guerrilheiros aliaram-se aos traficantes, numa delirante espiral que só começou a ser controlada depois da morte de Pablo Escobar e de várias derrotas impostas à esquerda armada.

Protegido pela Venezuela, o maior grupo guerrilheiro, as FARC, só seguiu o mesmo caminho do M19, de renúncia à luta armada, em 2016 – assim mesmo, alguns remanescentes persistem.

Sequestros, assassinatos políticos de alto impacto, mobilização forçada de agricultores obrigados a pegar em armas, reação brutal dos paramilitares – e, pairando, acima de tudo, o poder da coca – traumatizaram a Colômbia e levaram a eleições sucessivas de Álvaro Uribe, o mais odiado nome da direita antes de Jair Bolsonaro, e de seus candidatos.

Será este o ciclo que Gustavo Petro vai quebrar? Conseguirá ele manter a estabilidade, com todos os seus defeitos, tão duramente conquistada? Fará algum estrago catastrófico na economia, embora tenha o mau exemplo venezuelano bem ali do lado? Romperá a maldição latino-americana de governos de esquerda incompetentes que se alternam com os de direita igualmente? Ou inchará o Estado até além dos limites, o que basicamente é o programa das esquerdas hoje?

“Se fosse com seu dinheiro, faria este gasto? O que os pobres ganham com este investimento?”, costumava perguntar Rodolfo Hernández, o empreiteiro da direita populista quando era prefeito de Bucamaranga, onde continua muito popular.

São perguntas que Gustavo Petro, se eleito, terá que responder. O pior é que já suspeitamos das respostas.América Latina


Delírios da "wokeness": o equívoco e o inequívoco.


Os agressores tornam-se vítimas, obrigadas a agir, e as vítimas agressores, disfarçando a sua maléfica causalidade sob as vestes hipócritas. Foi assim no 11 de Setembro. Voltou a sê-lo agora. Texto do professor Paulo Tunhas publicado pelo Observador:


Dia 24 de Fevereiro tudo mudou. Andávamos muito ocupados – eu, pelo menos, andava – com os delírios da wokeness que se manifestavam a propósito de tudo e mais alguma coisa, com o seu cortejo de “cancelamentos” e proibições sem fim. Podíamos chorar, como Heráclito, ou rir, como Demócrito, para recorrer a um topos clássico, mas era difícil ser verdadeiramente indiferente às torceduras que a linguagem, por exemplo, sofria às mãos da nova classe de tutores morais que nos caiu em cima. De repente, tudo isso passou para um longínquo segundo plano. O espectáculo da brutalidade da invasão russa da Ucrânia e da estupidez daqueles que, face à guerra, simpatizam – à esquerda e à direita, convém sempre lembrar – com a autocracia de Putin e desprezam a heroicidade dos ucranianos, lembrou-nos uma divisão incomparavelmente mais profunda da sociedade. Se muito da wokeness nos faz pensar nas piores extravagâncias da “lei seca” nos Estados Unidos, a invasão russa recorda – por mais prudente que se seja em matéria de analogias históricas – a violência destruidora do nazismo e a adesão que este a muitos suscitou. Entre as duas coisas há um abismo sem fundo.

É o abismo entre o equívoco e o inequívoco. Não é suficientemente notado que o grosso do delírio do chamado “politicamente correcto” assenta em intuições que são essencialmente justas e que se podem em geral resumir no respeito pelos outros. É claro que, a partir dessas intuições, e apelando a alguns dos piores instintos humanos, muito evoluiu para a loucura sistemática, graças à propensão autoritária dos iluminados do costume, que nunca falham este género de coisas. Mas não é talvez errado ver nesta evolução mais uma manifestação – particularmente perversa, admito – daquilo que, em meados do século XIX, Tocqueville chamou “despotismo democrático”: uma igualdade minuciosamente regulamentada por um Estado tutelar. Há, portanto, algo de equívoco na wokeness com que temos de conviver: ela simultaneamente assenta em intuições morais justas e condu-las à insânia possível em democracia.

Sem medo nem esperança


O desequilíbrio entre os poderes é um desafio para Lula e Bolsonaro. William Waack via Estadão:


Se as pesquisas se confirmarem e Lula acordar presidente em outubro, a dúvida é saber se ele conseguirá reconhecer o cargo que já ocupou. Prisioneiro de um imaginário do passado, Lula não demonstrou até aqui ter compreendido o esvaziamento da função do chefe do Executivo, situação agravada por dois presidentes fracos, Dilma e Bolsonaro.

Nem se enxerga o grau de desequilíbrio entre os Poderes da República. Desde a primeira vitória eleitoral de Lula, há exatos 20 anos, o Legislativo assumiu prerrogativas e poderes inéditos, ao mesmo tempo que ampliou seu fracionamento e prosseguiu o esfacelamento dos partidos políticos. É altamente simbólico que o Centrão tivesse ocupado instâncias nevrálgicas dentro do Palácio do Planalto.

Talvez esse fato explique a razão de o chefe do Executivo acusar o STF como o principal adversário que o impediria de governar. Não é objetivo deste texto discutir quem é o “culpado” pelo ativismo político do Judiciário. O fato é que o STF tem sido legislador, tem interferido no Executivo (goste-se ou não disso), suas decisões têm enorme impacto sobre a economia (em questões tributárias, por exemplo) e virou um contendor com notável influência na disputa político-eleitoral.

Se Lula não for capaz de criar uma “corrente” de forças convergentes – até aqui não conseguiu –, dificilmente arrancará de volta do Legislativo as ferramentas de poder. O peso dos diversos interesses do Centrão é muito grande e as ameaças de Arthur Lira, o atual primeiro-ministro, de partir para alguma forma de parlamentarismo não são apenas moeda de troca a ser negociada com o ocupante do Planalto.

Com o STF trata-se de perspectiva igualmente espinhosa. A “judicialização da política” não é fenômeno recente, mas, sim, um processo que vem se intensificando. Não basta a tal “vontade política”, da qual Lula tanto fala, para “restaurar” ao STF a condição original de Corte constitucional. É o papel da instituição que vem mudando – portanto, duas ou mais nomeações para o tribunal pouco alteram o quadro geral.

Os resultados das urnas em outubro serão contestados por Bolsonaro (já estão sendo), e há dúvidas apenas sobre o grau de virulência ou até violência. Mas o quadro geral promete ser o de estabilidade desse desequilíbrio, com severas limitações para qualquer presidente. Esse tipo de “previsibilidade” ajuda a explicar o ambiente geral de pouco medo, mas também de poucas esperanças.

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Supervilões se reúnem em Davos: por que as elites globais parecem ter saído de uma distopia?


A confabulação de 2020 em Davos foi chamada de “Great Reset” [“Grande Recomeço” ou “Grande Reajuste”] e promovia as ideias do industrialista alemão Klaus Schwab para a reconstrução da sociedade e da economia depois da pandemia de Covid-19. Michael Brendan Daugherty para a National Review, com tradução para a Gazeta do Povo:


Por que será que os nossos líderes não conseguem imaginar nada além de um futuro de privação e controle?

Veja, todo mundo já acreditou em uma ou outra teoria da conspiração. Os americanos confessam exatamente isso em pesquisas. Em 2018, 66% dos Democratas em uma pesquisa do YouGov disseram que era crível que a Rússia tivesse interferido na contagem de votos em 2016 para eleger Trump. Em 2022, o YouGov pesquisou os Republicanos e só 22% disseram que a eleição de Joe Biden foi legítima.

Estranhamente, esses resultados inquietantes de pesquisas são em si um tipo de conspiração em voga. Eis a minha teoria. Sem qualquer coordenação entre eles, os respondentes a essas pesquisas usam a vantagem do anonimato para dizer que acreditam no pior a respeito de seus inimigos políticos. Ao expressar dessa forma a sua animosidade política, acabam alimentando-a pelo outro lado. Esses respondentes partidarizados criam desinformação por acidente a respeito de si próprios, isto é, que eles são malucos com quem não se pode conversar racionalmente, só derrotar. Assim, indivíduos agindo racionalmente acabam produzindo uma maior irracionalidade.

E isso me leva à reunião de muitos chefes de Estado, chefes executivos de empresas e outras pessoas de elite no Fórum Econômico Mundial (WEF), que está acontecendo mais uma vez em Davos, Suíça. O Fórum Econômico Mundial é fonte permanente para teóricos da conspiração e adeptos do QAnon, tendo superado há tempos a Comissão Trilateral, o Grupo Bildeberg e o Bohemian Grove. [N. do T.: QAnon se baseia na alegação de que uma ou mais pessoas com codinome “Q” revelaram que um grupo de pedófilos poderosos que extraem substâncias misteriosas de crianças para sua própria longevidade tramaram contra a reeleição de Trump; Comissão Trilateral é uma ONG fundada em 1973 pelo banqueiro e filantropo David Rockefeller para estimular cooperação entre o Japão, a Europa ocidental e os EUA; Grupo Bildeberg é uma conferência anual iniciada no Hotel Bildeberg nos Países Baixos em 1954 para evitar guerras mundiais e fomentar o livre mercado no mundo; Bohemian Grove é um acampamento na Califórnia pertencente ao “Clube Boêmio”, um clube exclusivamente masculino que se reúne desde 1899 por duas semanas durante o verão, tem homens ricos e famosos, da cultura e da política, como membros.]

A confabulação de 2020 em Davos foi chamada de “Great Reset” [“Grande Recomeço” ou “Grande Reajuste”] e promovia as ideias do industrialista alemão Klaus Schwab para a reconstrução da sociedade e da economia depois da pandemia de Covid-19. Foi dos vídeos esquisitos de promoção do WEF, que faziam “Oito Previsões para o Mundo em 2030”, que veio a frase alarmante “Você não terá nada e será feliz”.

As outras previsões diziam que haverá novos impostos climáticos, que você terá órgãos feitos em impressoras 3D em vez de doados, que os imigrantes serão bem recebidos, e que você provavelmente não comerá muita carne. A palavra “reajuste” começou a aparecer em discursos do Joe Biden, do primeiro-ministro canadense Justin Trudeau e da primeira-ministra neozelandesa Jacinda Ardern. Pode-se ver resistência ao estilo de vida descrito pelo Grande Reset sempre que um jovem conservador diz “Não viverei em uma cápsula. Não comerei insetos.”

Davos é uma valiosa oportunidade de networking para os seus participantes. Permite que os chefes de empresas tenham uma boa chance de fazer lobby junto ao governo americano para ganhar ajuda e advertir o primeiro-ministro irlandês contra aumentar impostos, tudo no mesmo almoço. Mas as obsessões de Schwab com a cooperação política global, com o ambientalismo e “a quarta revolução industrial” — a ideia dele de que o próximo grande salto na produtividade capitalista se dará pela integração da tecnologia com a própria pessoa humana — garante que as apresentações serão um misto de globalismo utópico que de alguma forma combina visões de austeridade global (para reduzir emissões de carbono) com pesadelos a respeito de um punhado de líderes corporativos e políticos terem acesso direto à tua amígdala.

Eis a empolgação de um executivo da Pfizer com a ideia da obediência humana global ao tomar pílulas da Pfizer:

“O presidente executivo da Pfizer Albert Bourla explica uma nova tecnologia da Pfizer para uma plateia em Davos: ‘pílulas ingeríveis’ — uma pílula com um pequeno chip que manda um sinal sem fio às autoridades relevantes quando o fármaco tiver sido digerido. ‘Imaginem a conformidade [dos pacientes com ordens médicas]’, diz ele.”

— Jeremy Loffredo, no Twitter, 20 de maio de 2022.

Ou veja o presidente de uma das maiores multinacionais chinesas imaginando um futuro em que todos os seus movimentos e tudo o que você come são rastreados para dar a você uma nota que reflita o quão ruim é a sua vida para o planeta.

“O presidente do Grupo Alibaba, J. Michael Evans, no Fórum Econômico Mundial, orgulha-se do desenvolvimento de um ‘rastreador de pegada individual de carbono’ para monitorar o que você compra, come e para onde viaja.”

— Andrew Lawton, no Twitter, 24 de maio de 2022.

E eis o presidente executivo da Microsoft contando como os desenvolvedores de software estão ganhando assistência da inteligência artificial enquanto escrevem seus códigos. De forma que talvez todos os trabalhos de escritório, ou todos os humanos, em breve terão um “copiloto para toda tarefa cognitiva”.

“Satya Nadella [CEO da Microsoft] diz que ‘ter um copiloto para toda tarefa cognitiva está bem ao seu alcance’ graças ao poder da inteligência artificial. Assista à sessão ao vivo aqui.”

— Fórum Econômico Mundial, no Twitter, 24 de maio de 2022.

Pensar-se-ia que um futuro tecnológico com impressão 3D finalmente aumentaria a produtividade de grandes artesãos, que permaneceu estagnada por séculos e se tornou tão proibitiva que essas artes e profissões estão sendo perdidas completamente para produtos pré-fabricados. Uma descoberta desse tipo permitiria a reconstrução do ambiente físico nos estilos mais luxuosos como o georgiano, Tudor ou espanhol colonial, porém disponíveis para as massas. As fazendas e pastagens praticamente se administrariam sozinhas, fazendo alimentos melhores, mais baratos e entregando-os mais frescos. Os grandes educadores dariam aulas a todos aqueles que as quisessem. As novas descobertas tecnológicas limpariam a atmosfera.

Mas de forma nenhuma é isso o que estão imaginando. Para a davosia [N. do T.: trocadilho com burguesia], o futuro é que as suas tripas lhe delatem e então chegue uma mensagem vibrando em todos os dispositivos da casa e alertando a seus bichos de estimação que saiam da sala enquanto ela é feita de câmara de gás sedativo para que você seja dopado em conformidade com a Pfizer. Depois, uma multinacional chinesa lhe informa que o incidente do gás sedativo e do esquadrão da Pfizer trouxe sérias penalidades à sua nota de carbono, dessa forma adiando em muitos anos a mais a sua tão esperada porção racionada de carne. Como auxílio no futuro, o copiloto cognitivo da Microsoft tomará para si ainda mais responsabilidades e tarefas antes creditadas a você.

Na verdade, é uma crise para as elites globais que todas as ideias que têm para a solução de problemas vão no sentido de subtrair mais da nossa humanidade e mais da liberdade da nossa civilização. A única visão que têm do futuro é a de uma população dopada, alimentada à base de comida falsa, entretida por telefones grudados em sua cara e controlada por máquinas. Elas veem a nossa reação negativa a isso e imaginam só mais truques elaborados para nós, e sonham com labirintos insolúveis nos quais possam nos jogar.

Essas ideias parecem, quase ao pé da letra, os clichês das primeiras linhas de um rascunho para um filme distópico, as palavras metidas na boca de personagens para que sejam identificados como os supervilões do enredo antes que o James Bond, ou o Jason Bourne, ou o Ethan Hunt apareça para empalá-los com seus talheres caros.

E eu digo essas coisas com toda a seriedade. Como os respondentes das pesquisas do YouGov, as elites de Davos se apresentam como vilãs incorrigíveis. As pessoas que falam desse jeito estão quase implorando por homens de sangue quente que se levantem raivosos para destituí-las violentamente. Sério. Parece até um desafio. Preocupo-me que o meu próprio escore oculto de crédito social agora esteja sendo penalizado severamente só por notar que essas pessoas estão dizendo coisas tão doidas que a propulsão narrativa da história na qual estão se inserindo só pode terminar com o seu arrependimento e conversão, ou com a sua deleitosa derrocada.

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Michael Brendan Dougherty é redator sênior do National Review Online.

Modelo de país capitalista, o Chile seguirá o mesmo caminho da Venezuela?


Rainer Zitelmann, colaborador do Instituto Liberal, entrevista o professor chileno-alemão Axel Kaiser:


O Chile foi considerado há muito tempo como um país capitalista modelo na América do Sul. No Índice de Desenvolvimento Humano 2022, o Chile ocupa o primeiro lugar entre todos os países da América Latina. No Heritage Foundation’s Index of Economic Freedom de 2022, ele está em vigésimo, à frente de EUA e Reino Unido. Em 2018, a taxa de pobreza no Chile capitalista era de 6,4%, em contraste com 76,6% na Venezuela socialista.

Apesar da incrível história de sucesso do Chile — sobre a qual escrevo com mais detalhes no meu livro O Capitalismo Não é o Problema, é a Solução –, os chilenos votaram no candidato socialista Gabriel Boric nas eleições do ano passado e votarão em uma nova constituição em 4 de setembro de 2022. Como isso pôde acontecer? Em Santiago, falei com Axel Kaiser, titular da Cátedra Friedrich Hayek da Universidade Adolfo Ibáñez, uma das principais universidades do Chile. Ele também é o fundador do think tank libertário The Fundación para el Progreso no Chile.

Pergunta: Em 4 de setembro, os chilenos votarão em uma nova constituição. Você alerta para os perigos; quais são suas principais críticas?

Axel Kaiser: Em sua essência, a nova constituição é moldada por uma profunda desconfiança do mercado e uma confiança quase ilimitada no Estado. Com 499 artigos, é a constituição mais longa do mundo, mas, em vez de tomar como exemplo boas constituições como a Lei Fundamental alemã, eles copiaram muito de constituições como as da Venezuela e da Bolívia. Um grande problema é que os direitos de propriedade estão sendo erodidos. Até agora, quando o Estado expropriava as empresas, era obrigado a pagar-lhes o preço total de mercado em dinheiro. De acordo com o rascunho da nova constituição, em breve o Estado será obrigado a pagar apenas um “preço justo” indefinido, e não será em dinheiro. Além disso, garante todos os tipos de “direitos sociais”, como o direito ao trabalho — isso é mais conhecido na constituição da RDA, onde o artigo 15 afirmava: “O direito ao trabalho é garantido”.

Pergunta: O projeto de constituição também consagra os direitos dos povos indígenas no Chile. Isso parece bom em princípio. Mas você se opõe.

Axel Kaiser: Sim, porque essa mudança acabaria com a aplicação uniforme da lei no Chile. Haveria zonas autônomas, por assim dizer, onde a aplicação da lei chilena seria limitada. Já hoje, o Estado do Chile só pode fazer cumprir suas leis por meio de regulamentos de emergência, porque a anarquia e a violência prevalecem em muitas dessas áreas do sul. Até mesmo nosso novo presidente Gabriel Boric, que criticou duramente esses regulamentos de emergência no período que antecedeu as eleições, agora teve que usá-los porque a violência está aumentando cada vez mais. Os perpetradores da violência são grupos extremistas de esquerda, mas estão intimamente ligados ao crime organizado, especialmente ao tráfico de drogas.

Pergunta: O fato de Boric ter mudado sua abordagem desde a eleição não é nada incomum para os políticos — e, neste caso, também é bem-vindo. As esperanças daqueles que acreditam que ele seguirá uma política relativamente moderada serão cumpridas?

Kaiser: Em comparação com os comunistas, que estão se tornando cada vez mais influentes, apesar de sua modesta parcela de votos, Boric é, é claro, moderado. Por outro lado, ele é, sem dúvida, um socialista convicto. Antes de seu discurso de posse em 11 de março deste ano, ele beijou demonstrativamente a estátua de Salvador Allende. Para os socialistas, este é certamente um símbolo importante, mas, para muitos outros, alimenta os temores de que ele embarque em um caminho radical no fim das contas.

Pergunta: Boric e seus apoiadores vencerão o referendo sobre a nova constituição em 4 de setembro?

Kaiser: O índice de aprovação de Boric está caindo. No ano passado, quando os chilenos votaram se deveria haver uma nova constituição ou não, 78% eram a favor! Em outras palavras, uma maioria esmagadora. Mais recentemente, várias pesquisas relataram que a maioria dos chilenos é contra a nova constituição. Mas muita coisa pode acontecer entre agora e 4 de setembro, o resultado ainda é incerto.

Pergunta: Parece que Boric e seu governo estão se contendo até depois da votação, quando poderiam implementar medidas mais radicais.

Kaiser: Boric já mostrou dois rostos durante a campanha eleitoral. Na primeira rodada ele espalhou slogans radicais, na segunda rodada ele foi moderado. Isso permitiu que ele conquistasse muitos eleitores centristas.

Pergunta: Sim, minha namorada, que vem do Chile, certamente não é de esquerda, mas também votou em Boric porque viu o candidato da oposição, José Antonio Kast, como de extrema direita. O que você acha dele?

Kaiser: Kast é um conservador nacionalista e, portanto, está à minha direita, porque sou libertário. Porém, por outro lado, a mídia de esquerda exagerou, retratando-o como um nazista. Eles também usaram argumentos injustos, por exemplo, apontando que seu pai era membro do NSDAP. Mas, sem dúvida, muitos chilenos votaram da mesma maneira que sua namorada — eles não eram realmente a favor de Boric, mas contra Kast.

Pergunta: Na Venezuela, Hugo Chavéz também declarou antes da eleição que não estava em nenhuma circunstância planejando nacionalizar as empresas e até se descreveu como o “Tony Blair do Caribe”, ou seja, como um social-democrata orientado para o livre mercado. Na verdade, suas políticas rapidamente se radicalizaram cada vez mais até que terminaram em ditadura e caos. O Chile vai se tornar uma segunda Venezuela?

Kaiser: Eu ainda acredito no bom senso do povo chileno e que não chegará a isso. Mas de qualquer forma, estamos enfrentando anos difíceis e amargos. O que mais me preocupa é o aumento da violência no país. E um retorno à política de livre mercado geralmente bem-sucedida, que, a propósito, também foi apoiada pelos socialistas nas últimas décadas — embora com algumas ressalvas — me parece improvável. Por que os socialistas facilitariam as nacionalizações com a nova constituição se não tivessem planos correspondentes na manga? E, logicamente, os planos para introduzir o imposto sobre a riqueza também assustarão os investidores.

Rainer Zitelmann é doutor em História e Sociologia. Autor de 22 livros, lecionou na Universidade Livre de Berlim e foi chefe de seção de um grande jornal da Alemanha.