sexta-feira, 16 de novembro de 2018

As aventuras da coerência

Até certa altura pensei que a chamada “esquerda” era depositária da tradição de liberdade e garantia da democracia. Mas uma observação das suas reações políticas mostra algo diferente e inquietante. Texto do professor Paulo Tunhas, via Observador:


É muito curiosa a questão da coerência política. Não a dos políticos, mas a do cidadão comum, pelo menos aquele a quem a política mais ou menos interessa. Os políticos têm a vida tão difícil, são obrigados a tantas posições, que, fora uma ou outra área muito particular, variando segundo as características pessoais, lhes resta pouco espaço para a coerência, se a sobrevivência própria os preocupa. Para o homem da rua, pelo contrário, a coerência parece coisa facilmente atingível: não ter de tomar decisões políticas, como geralmente não tem de as tomar, ajuda, e muito. E isso permite-lhe, de resto, a censura fácil aos políticos.

A questão, para aqueles a quem a coerência política importa, põe-se, como se diz, existencialmente, isto é, é vivida como uma questão que ameaça fazer-nos entrar em conflito com nós mesmos, por mais avessos a dramatismos que sejamos. Tal ou tal mudança de opinião mais substantiva representa uma descontinuidade absoluta, ou, diferentemente, é detectável uma continuidade, uma coerência, que lhe subjaz? As mudanças de posição representam uma alteração radical das tendências, ou princípios, que governam o nosso entendimento do que deve ser a boa sociedade, ou, pelo contrário, significam apenas uma variação possível dessas tendências, ou princípios, ditada por razões exteriores ou interiores? Pode ser que estas questões pareçam demasiado abstractas. Talvez nada disso importe, na prática, por aí além, ou importe apenas ao próprio, quase intransmissivelmente. Mas, somando tudo, o melhor talvez seja levá-las mesmo a sério.

Há um caso clássico no capítulo que me tem entretido nos últimos tempos: o da relação entre os dois principais poetas do primeiro romantismo inglês, Wordsworth e Coleridge, com a revolução francesa. Quaisquer que sejam as diferenças entre a evolução de um e de outro, há sem dúvida um ponto comum. Tanto Coleridge como Wordsworth partiram de um entusiasmo (é a palavra certa) muito real pela revolução, acabando por mais tarde celebrar a clarividência de Burke, que havia previsto o desenrolar futuro dos acontecimentos. O caso de Wordsworth é particularmente interessante de seguir, já que no seu longo poema autobiográfico, O prelúdio, revisitou os seus sentimentos antigos, pondo-os face a face com os que ao escrevê-lo já experimentava. “Bliss was it in that dawn to be alive, / But to be young was very Heaven!” (os participantes de Maio 68 fazem muitas vezes seus sentimentos afins) convive com a rejeição (burkeana) das consequências da revolução.

Pode bem acontecer que a evolução das posições de Wordsworth e Coleridge represente algo como uma descontinuidade absoluta e uma alteração radical das tendências, ou princípios, que governam o entendimento da sociedade. E pode acontecer que não, que estejamos no domínio de uma certa continuidade implícita, no campo das variações possíveis a partir de uma identidade de fundo. A exemplo, exactamente, de Burke, que, a partir dos mesmos princípios, defendera a revolução americana e condenara a revolução francesa. Em todo o caso, para responder convenientemente à questão seria necessário esclarecer, entre outras coisas, a compatibilidade da futura concepção orgânica, tipicamente conservadora, da sociedade de Wordsworth e Coleridge com a adesão inicial aos princípios da revolução. O que ultrapassa largamente o meu modesto saber no capítulo e a dimensão de um artigo de jornal, embora me incline a pensar que tal compatibilidade existe.

Para escapar a estas dificuldades, há sempre o recurso à experiência própria, conhecida por dentro. O que, no meu caso, corresponde obviamente a um menos nobre exemplo do que os de Wordsworth e Coleridge. Desgraçadamente, o meu espírito não é merecedor de uma fenomenologia que recapitule os momentos da sua evolução. E, além disso, o género “História das minhas ideias políticas” deve ser reservado a quem teve ideias políticas. Ora, tirando quatro ou cinco princípios muito gerais, resultantes do contacto com o espectáculo assombroso da capitulação muito generalizada face à impostura comunista da defunta União Soviética e de outros mais orientais faróis do socialismo, e, bem mais tarde, com muitas reacções por essa Europa fora ao 11 de Setembro em que o ódio nihilista ao Ocidente se manifestou em todo o seu esplendor, o meu balanço na matéria é magro. Conheço, por interesse e dever profissional, muito do que a humanidade produziu como reflexão no capítulo, mas, fora da confortável distância que esse tipo de conhecimento assegura, a flexibilidade foi mais a regra do que a excepção. Não me encontro, portanto, particularmente bem colocado para, a partir da vivência própria, falar sobre coerência e incoerência nestas matérias. Mesmo assim, e correndo o muito sério risco do ridículo, vou fazê-lo, e pegando propositadamente no mais teratológico dos exemplos à minha disposição.

Em 1976, do alto da imensa sabedoria dos meus dezasseis anos, publiquei, numa revista, o meu primeiro texto impresso. Sob o título pomposo “Teses para a inversão dialéctica da cultura”, e depois de uma citação de Hegel (“Sou forçado a admitir que tudo continua”), tratava-se de uma imitação descarada do Guy Debord da Internacional Situacionista, acrescida do mau gosto (impossível em Debord) de citações incongruentes de estrelas do pensamento muito na moda à altura (Sade, Bataille, Gilles Deleuze e mais Sade, muito Sade). A ideia – tanto quanto é possível falar de uma relação entre o fluxo verbal das “teses” e uma qualquer actividade construtiva do espírito – era a da necessidade urgente de sacralizar o mundo através da anulação sacrificial (Bataille oblige) da distinção entre vida privada e vida social, algo que só se obteria através da des-sacralização da arte e da afirmação do desejo da revolução como expressão individual da revolução proletária. Perceba quem puder… Graças a Deus, e passado muito pouco tempo, eu próprio deixei de julgar que percebia, o que constituiu um progresso indiscutível em direcção a modos de pensar pelo menos mais claros.

E no entanto… Mais ou menos por acaso, reli no outro dia esta infantil prosa adolescente e, sem que me pareça que por efeito de uma excessiva benevolência, algo em mim foi sensível a uns milímetros de coerência entre o delírio adolescente e o que depois a vida me pôs, pouco a pouco, a pensar. Não me passa pela cabeça, é claro, sacralizar sacrificialmente o mundo, o que quer que isso queira dizer, ou explorar o desejo de revolução como expressão individual da revolução proletária (pobre “proletariado”, que, existente ou não existente, servias para tudo e mais alguma coisa). Mas naquela salgalhada encontrava-se subentendida uma vontade de liberdade expressa ao modo confuso e dogmático próprio à adolescência. De uma certa maneira, é-me impossível evitar pensar que, no meio do disparate e do sem-sentido gerais, aquilo constituia uma variação possível, embora extravagante, do desejo de viver numa sociedade livre.

Avisei que o exemplo seria teratológico – e o exemplo, além do seu ridículo, foi de facto teratológico. Mas posso-me felizmente encontrar exemplos menos grotescos e mais tardios. Até certa (e já longínqua, é verdade) altura, pensei que o que se chama “esquerda” era depositária da principal tradição de liberdade e de garantia da democracia. A pouco a pouco, no entanto, foram-se instalando dúvidas diversas no meu espírito. Não falemos sequer da extraordinária tolerância para com o totalitarismo comunista. Fiquemo-nos por certas características dos mais pactos socialistas democráticos. Uma leitura atenta dos seus escritos e uma observação das suas reacções políticas mais habituais, mostra algo de inquietante: a suposição praticamente constante da existência de uma legalidade maior do que a da simples legalidade formal da democracia. Isso vê-se todos os dias na tendência muito palpável em afectar a direita de um índice de ilegitimidade irredimível (a não ser que a direita seja de esquerda). Ora, não há reciprocidade nessa atitude. Nunca a direita democrática (em Portugal, por exemplo) encara a esquerda através de um tal prisma.

A atitude face à democracia é um sinal seguro da atitude face à liberdade. E é difícil evitar a conclusão que hoje em dia a direita se encontra mais próxima de defender a liberdade (não imaginando nunca uma legitimidade maior do que a legitimidade democrática) do que a esquerda, ou pelo menos o grosso da esquerda. A ser verdade isto, há alguma flagrante incoerência em transitar da esquerda para a direita, quando o motivo que nos ligava à segunda era a convicção de que esta representava a tradição da liberdade? Não consigo vislumbrar, francamente, o mais ténue argumento, excepto alguns lugares comuns da cartilha marxista, para sustentar a existência de tal incoerência.

O tema central deste artigo era o da coerência política. Por facilidade, admito, fui levado a acabar com a vexatória questão esquerda/direita. Mas não convém cair no fetichismo que a oposição tende a promover. Os elementos fundamentais da coerência política remetem para estratos de pensamento bem mais profundos, simbolizados pelo conflito sempre possível entre aquilo em que espontaneamente acreditamos, ou julgamos acreditar, e o caminho que o nosso pensamento tende a seguir, algo que as aventuras da oposição esquerda/direita só muito imperfeitamente dá a ver. O exemplo de Wordsworth e Coleridge em relação à revolução francesa ilustra-o. E cada um de nós, como o autor destas linhas, queira-o ou não, vive-o à sua diminuta escala, quanto mais não seja como desafio para se perceber a si mesmo..

Só os "neoliberais" não podem destruir o Estado

"Passámos décadas à espera do dia em que fossemos tão ricos como os mais ricos. Já não esperamos. Nunca as expectativas foram tão baixas em Portugal". Artigo de Rui Ramos, no Observador, em crítica à geringonça que governa (?) Portugal, irmã do PT e associados:


Uma das coisas mais bizarras deste tempo são os cumprimentos que os parceiros da “geringonça” se dão a si próprios pelo “rigor e equilíbrio” nas contas do Estado. Como se esse rigor e equilíbrio fossem uma opção. Num país endividado, totalmente dependente da ajuda europeia, e que estaria em apuros à primeira dúvida sobre as suas contas, não são uma opção: são uma obrigação. Portugal não é a Itália (e ainda está para se saber até pode ir a Itália). O governo minoritário socialista, sustentado pela geringonça, não provou nada em relação a 2001 ou a 2011: simplesmente, já não há condições, como então houve, para fazer défices do mesmo tamanho.

Há uns anos atrás, os sócios da actual maioria irritavam-se muito quando se dizia que não havia alternativa: agora talvez já tenham percebido o que isso quer dizer. É óbvio que há alternativa, mas é tão custosa e tão contrária a tudo o que somos e queremos, que nem o BE e o PCP, agora que são poder, se atrevem a propô-la. Não deviam ter escarnecido tanto da rendição do camarada Tsipras.

Do que a geringonça se gaba menos é daquilo que, essa sim, foi uma opção. Numa das conjunturas económicas e financeiras mais favoráveis dos últimos cinquenta anos, o governo optou por não fazer reformas. Não melhorou a eficiência do Estado nem, no que lhe dizia respeito, a competitividade da economia. Pelo contrário, manteve a carga fiscal dos tempos do ajustamento e sobrecarregou o Orçamento a favor das classes que, segundo a sabedoria oligárquica, decidem as eleições. Este, sim, foi um caminho que o governo escolheu e que poderia ter sido diferente.

A opção teve um aspecto revelador: para contrabalançar as benesses às suas clientelas, o governo não hesitou em recorrer a cativações, cortes de investimento e acumulação de dívidas, que estropiaram dramaticamente os serviços públicos. Deixou de haver dúvidas: para os partidos que apoiam a geringonça, o chamado Estado social vale sobretudo como um empregador. O serviço público é secundário. Eis porque transportes, hospitais, polícias, escolas e tribunais passam por aflições que, se tivessem ocorrido sob a “troika”, teriam inspirado furores mediáticos infindáveis. Mas para o jornalismo do regime, a grande questão da sociedade portuguesa é, actualmente, a alt-right no Brasil. A geringonça provou assim que um governo pode degradar os serviços públicos sem enfrentar mais do que notícias avulsas. Precisa é de ser de esquerda. Em Portugal, só os “neo-liberais” é que não têm licença para destruir o “Estado social”.

O custo da geringonça não é só o comboio que falha ou a consulta para daqui a um ano. É também uma das taxas de crescimento económico mais medíocres da Europa — embora disfarçada, em relação à média, pelo mau desempenho de algumas grandes economias, como a Itália. Nos últimos anos, muitos países convergiram com os níveis de riqueza médios da Europa. Portugal, ao contrário do que nos tínhamos habituado na segunda metade do século XX, não foi um deles, nem mesmo nas circunstâncias actuais, que dificilmente poderiam ser mais propícias (juros baixos, petróleo barato, acesso a alguns dos maiores mercados do mundo, etc.). Passámos décadas à espera do dia em que fossemos tão ricos como os mais ricos. Já não esperamos. Nunca as expectativas foram tão baixas em Portugal.

Dir-me-ão: não é um problema por que possamos culpar só este governo. Sem dúvida, mas é um problema para que este governo, tal como os anteriores governos socialistas, teve sempre uma só resposta: mais Estado, isto é, mais impostos e mais burocracia. É isso que têm feito os países cujas economias mais se expandiram na Europa nas últimas duas décadas? Não parece. Mas nunca houve geringonças de graça.

Os resistentes

"Soma dos esforços que pretendem contestar o novo governo se resume a continuar defendendo tudo o que a maioria do eleitorado acaba de condenar com seu voto", escreve J. R. Guzzo em sua coluna na edição impressa de Veja:


Depois do período das eleições, enfim resolvidas com a vitória de Jair Bolsonaro, vivemos agora o momento seguinte do calendário político como ele é entendido pelos que perderam — o período de resistência ao resultado das eleições. Atenção: não se trata simplesmente de fazer oposição. Trata-se de anunciar ao Brasil que os derrotados não aceitam o resultado estabelecido pelos eleitores; não valeu, dizem eles, porque só a gente tinha o direito de ganhar. A palavra “resistência” soa bonito, como em filme americano de guerra, mas naturalmente não é nada disso. Levando-se em conta a qualidade da oposição política atual, o que vem à cabeça na hora, quando a palavra “resistência” é utilizada pelo PT, é resistência de chuveiro elétrico ou de chapa para fazer tostex — pois não dá para ninguém pensar a sério, realmente, que o Sistema Lula-­PT-Esquerda vá resistir a alguma coisa gritando “Bom dia, presidente Lula”, na frente da cadeia de Curitiba, ou negando-se por “tradição democrática” a cumprimentar o candidato que a população elegeu. Mais ainda, surgem suspeitas de pane nos circuitos mentais do PT quando o partido entra na Justiça com um pedido de “anulação das eleições”, ou exige do STF a libertação imediata de Lula porque o juiz Sergio Moro foi escolhido como futuro ministro da Justiça de Bolsonaro. Isso não é resistir. Isso não é nada.

A soma de todos esses esforços que pretendem contestar o novo governo se resume ao seguinte: continuar defendendo tudo o que a maioria do eleitorado acaba de condenar com o seu voto, e dobrar os ataques contra tudo o que o eleitorado acaba de dizer que aprova. É uma coisa extraordinária. A maioria dos brasileiros decidiu, de uma maneira talvez mais clara que em qualquer outra ocasião na história recente do país, o que quer e, principalmente, o que não quer. A “resistência” vai na direção exatamente oposta. É como se não tivesse acontecido nada em 28 de outubro de 2018 — ou, mais ainda, é como se Bolsonaro tivesse perdido as eleições e o PT tivesse ganhado. O resultado é o que aparece todo dia no noticiário: uma coleção de alucinações, que a imprensa quer desesperadamente que você leve a sério, apresentadas como se fossem ações de combate contra o “avanço do fascismo” etc. etc. Que ações? Que combate? Vai saber. Qualquer coisa serve.

Temos, assim, jornalistas da Rede Globo defendendo a ideia de que a polícia não deve ser autorizada a atirar num sujeito que está no meio da rua com um fuzil automático na mão. Seu argumento: como se vai provar que essa pessoa está realmente com más intenções? E se ela não quer atirar em ninguém? E se o fuzil não for um fuzil, e sim um guarda-chuva? À primeira vista, parece que alguma coisa deu errado — que diabo essas moças estão falando? Mas não: é isso mesmo. No ato seguinte, aparece uma especialista-­técnica em “políticas públicas de segurança”, ou algo assim, e nos informa que os bandidos têm o direito de carregar fuzis para se defender da polícia e garantir, com isso, a sua legítima defesa. Na mesma emissora, uma apresentadora subiu um degrau a mais no “nível de lutas”, como se diz, e falou na necessidade de sabotagem. “Vamos sabotar as engrenagens deste sistema de opressão”, pregou ela no ar. “Vamos sabotar este sistema homofóbico, racista, patriarcal, machista e misógino” — palavra hoje na moda, essa última, que metade do público não sabe o que significa. O exame do Enem, uma semana depois da eleição, fazia uma pergunta sobre a linguagem privada dos travestis e suas raízes no idioma iorubá. Educadores apresentados como “antifascistas” comemoraram a inclusão da pergunta como uma importante derrota da direita conservadora e do novo “governo autoritário”.

Na mesma batalha para ficar no lado contrário ao do eleitor, o PT acha inaceitável que Moro tenha sido convidado para ministro da Justiça — uma prova, segundo a alta direção petista, de que a condenação de Lula foi uma “jogada” com Bolsonaro. De todos os problemas com essa ideia, o pior é que mais de 80% da população aprovou a ida de Moro para o novo governo. Não é só o PT que está na “resistência”. A ministra Cármen Lú­cia, depois de embolsar mais um aumen­to abusivo no próprio salário, lamentou a mudança “perigosamente conservadora” na situação política. Fernando Henrique, no exterior, faz campanha contra o novo governo — e por aí vamos. É a tal “superioridade moral” que os derrotados atribuem a si próprios. O que todos eles estão dizendo, na prática, é que o povo brasileiro, mais uma vez, votou errado.

Publicado em VEJA de 21 de novembro de 2018, edição nº 2609

Sobreviver ao ano que vem

"Não sei se exagero, mas sinto-me como se fosse a luta pela sobrevivência de um país viável". As impressões de Fernando Gabeira, em artigo publicado pelo Estadão:


É um momento de escolha de ministros, definição da estrutura do governo. Não importa o que saia daí, o que nos espera no ano que vem é inescapável: o Brasil pode quebrar. A reforma da Previdência não é só um momento de alívio para o governo Bolsonaro, mas também para 14 Estados em profunda crise financeira, entre eles Rio de Janeiro, Minas e Rio Grande do Sul.

Visitei Minas para ver melhor o que aconteceu nas eleições. Inédita na História, a vitória de Romeu Zema, do Partido Novo, contou com 71,8% dos votos. Foi um salto no escuro, preferível para os eleitores aos velhos partidos que dominaram o Estado: PSDB e PT.

A melhor forma de começar uma nova época é realizar a reforma da Previdência. Não resolve tudo, mas indica que o mais difícil foi feito. Paradoxalmente, a reforma é a maneira de seguir vivo até 2022, mas significa, no primeiro instante, uma perda de popularidade. Na Rússia, a reforma previdenciária roubou muitos pontos de aceitação do governo Putin. Sufocada pela Copa do Mundo, a resistência manifesta-se também numa desconfiança, uma sensação de perda. 

Segundo o Moscou Times, essa reforma foi decidida por Putin, mas seu déficit talvez pudesse ser facilmente coberto pelos excedentes do petróleo. Mas e os investimentos, a defesa? O governo precisava se antecipar.

No caso grego, a reforma talvez não tenha desgastado tanto a esquerda no poder. Era claramente inevitável. E havia a pressão da União Europeia. O ressentimento acabou canalizado para Angela Merkel.

No caso brasileiro, a reforma da Previdência tem uma chance singular. Ela é claramente uma forma de neutralizar o processo de transferência de renda dos mais pobres para os mais ricos. Ela tem um quê de Robin Hood, mas esse encanto sozinho não basta para emplacá-la. Em primeiro lugar, será preciso convencer os pobres de que, no fundo, estão ganhando com as mudanças; em segundo lugar, e isso é colossal, vencer a resistência das corporações, algumas articuladas com partidos da esquerda.

O ajuste fiscal será a primeira grande prova tanto para Bolsonaro como para Zema.

O ano que vem marca o início de uma fase triunfante do liberalismo. Ele bateu o marxismo no terreno, mas também partilha com ele um certo idealismo. Um vê no Estado o caminho da salvação, o outro vê no mercado. Como observa John Gray na sua crítica à Nova Direita na Inglaterra, ambos ignoram que são construções humanas e, como tal, imperfeitas.

Uma conclusão de Gray é que essas correntes idealistas veem a vida política de uma forma que conduz a derrotas. Elas tendem a investir num projeto de esperanças transcendentais, numa época sem fé. O conselho realista de Gray é baixar a bola, aceitar a humilde tarefa de uma improvisação sem fim, em que um bem é comprometido para salvar outros, uma espécie de equilíbrio entre os males necessários da vida humana e a perspectiva sempre presente do desastre a ser despachada para outro dia.

Não chego a tanto. Ele teorizava sobre os liberais que concluíam sua passagem pelo governo. Aqui, os vencedores precisam pôr suas ideias em ação.

Mas não consigo esquecer a experiência vivida no Congresso. Vi muitos grandes projetos. E vi sua trajetória real. Alguns deles costumo comparar com o grande peixe pescado pelo velho Santiago no romance O Velho e o Mar, de Hemingway. Comido aos pedacinhos, chegou à praia apenas como um grande esqueleto.

Assim como foi com o marxismo, os liberais vitoriosos correm o risco do que se chama húbris ideológico. Húbris é uma palavra grega que traduzimos como excesso de autoconfiança. De modo geral, esse excesso de autoconfiança é inerente à nossa prática de perseguir princípios universais, esquecendo a política como uma humilde discussão racional, uma acomodação mutual, em busca de um modus vivendi.

De qualquer forma, o Estado brasileiro é uma carga pesada nas costas da sociedade.

Lembro-me de que há quase uma década já discutíamos isso, da ineficácia de algumas estatais aos gastos escandalosos da máquina. Numa das comissões temáticas, questionei os gastos anuais do governo com viagens: R$ 800 milhões. Naquela época já havia um leque de possibilidades tecnológicas, do Skype às teleconferências. Essa escolha liquidaria os gastos. Mas reduziria os ganhos do funcionalismo com diárias.

A relação dessa gigantesca máquina político-partidária com a sociedade precisa ser resolvida em favor das pessoas.

O aumento dos juízes do STF vai nos custar R$ 6 bilhões. É um preço alto, caro, em bens e serviços. Mas tem um lado pedagógico: ficou claro para todo mundo como a elite burocrática se apossa de uma parte maior do bolo, numa sociedade mergulhada na crise econômica.

Creio que muitas pessoas votaram contra isso. Se minha presunção é verdadeira, está em curso uma modesta revolução cultural. Muitas pessoas que viam no Estado um provedor, e de certa forma a Constituição o moldou assim, começam a vê-lo como um obstáculo, sanguessuga.

Isso é o caminho para que seja revisto, de acordo com as circunstâncias históricas e culturais do Brasil de hoje. Não será necessariamente mínimo, que é uma construção ideal. Ele será o que resultar desse que, para mim, é o grande embate de 2019.

No passado, quando terminavam as eleições as pessoas se voltavam para seus problemas, o que é saudável. A verdadeira força transformadora, no entanto, virá da sociedade, e não de esquemas ideais. É possível que, num quadro de crise, ela continue alerta, pois agora começa a viver as consequências de sua escolha.

Não será um ano fácil. Aos que podem, é recomendável ao menos uma semana de férias. Isso porque a economia é apenas uma variável. Além dos 12 milhões de desempregados, parte do território urbano é ocupada por grupos armados, as cadeias são um barril de pólvora, a corrupção se estende pelo interior.

Não sei se exagero, mas sinto-me como se fosse a luta pela sobrevivência de um país viável.

Corporação insaciável

Justiça é um princípio que muitos juízes parecem esquecer, quando veem no cargo que exercem basicamente um instrumento que lhes garante um bem-estar que é negado à maioria dos brasileiros. Editorial do Estadão:


Dias depois de o Senado ter aprovado um reajuste de 16,38% nos vencimentos dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), o que acarretará um gasto de R$ 6 bilhões por ano - pois no Judiciário o efeito cascata é imediato, já que o salário da cúpula pauta o dos escalões inferiores da instituição, nos níveis federal e estadual -, entidades de magistrados afirmaram que não admitem o fim do auxílio-moradia. Segundo os jornais, o reajuste que favoreceu a magistratura teria sido negociado pelo presidente Michel Temer e pelo novo presidente do STF, ministro Dias Toffoli, em troca do fim desse penduricalho. No valor de R$ 4.377, ele é pago a todos os juízes, inclusive para os que têm casa própria no local em que atuam.

Apesar de seus membros terem sido beneficiados por esse acordo, essas entidades - lideradas pela Associação dos Magistrados do Brasil - agora exigem a criação de mais um benefício, em troca da extinção do auxílio-moradia, cuja constitucionalidade está sendo questionada no STF. Alegam que, como o reajuste de 16,38% apenas repôs a inflação dos últimos anos, o fim do auxílio-moradia acarretará uma redução nos vencimentos. Por isso, elas pressionam a mais alta Corte do País - inclusive com a ameaça de entrar em greve - para não julgar a matéria enquanto a magistratura não for agraciada com a criação de um adicional por tempo de serviço.

Para os juízes, que já estão entre as carreiras com os maiores salários e vantagens na administração pública, suas pretensões têm base legal, pois o auxílio-moradia está previsto pela Lei Orgânica da Magistratura. Contudo, o argumento é frágil, pois esse texto legal estabelece que esse tipo de ajuda de custo será concedido apenas “nas localidades em que não houver residência oficial à disposição do magistrado”. E a tendência do STF é de restringir o pagamento desse penduricalho só a quem não tiver residência na comarca em que trabalha e não ocupe imóvel funcional.

Além do discutível argumento legal, muitos magistrados apresentam um argumento não menos frágil para defender pretensões absurdas. Eles afirmam que ganham menos que advogados e diretores jurídicos de grandes empresas e bancos, cujas petições têm de julgar. Esquecem-se, porém, de que não há similaridade com o mercado de trabalho privado. Além de poder ser demitidos a qualquer momento, o que não acontece com os juízes, os advogados e diretores jurídicos da iniciativa privada têm seus salários e benefícios condicionados aos resultados de seu trabalho. No Judiciário, os vencimentos são depositados rigorosamente todo mês. Não bastasse isso, muitos penduricalhos são pagos a título de “verba indenizatória”, motivo pelo qual não são levados assim em conta tanto no cálculo do teto do funcionalismo público quanto para pagamento de Imposto de Renda. E se, de fato, esses magistrados se acham em condições de auferir os melhores salários pagos pela iniciativa privada, que se demitam do serviço público e tratem de disputar as vagas que ambicionam.

As pretensões da magistratura são imorais em todos os sentidos. A corporação se esquece de que as finanças públicas estão em colapso, dada a tendência do Estado de gastar mais do que arrecada. Despreza o fato de que a conta dos 16,38% de aumento de seus membros será paga por todos os brasileiros, inclusive os 12 milhões que hoje estão desempregados. E quando acena com a possibilidade de deflagrar greve, para tentar obter mais um penduricalho, comete grave deslize institucional. Afinal, quem decide litígios e demandas não pode agir em causa própria por motivos pecuniários. Cruzar os braços é negar um serviço essencial a quem depende dos tribunais para proteger seus direitos, o que não só é proibido por lei, como também é uma afronta às noções mais elementares de justiça. Justiça é um princípio que muitos juízes parecem esquecer, quando veem no cargo que exercem basicamente um instrumento que lhes garante um bem-estar que é negado à maioria dos brasileiros.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Monarquia, quartelada e república.

Texto de Carlos Ramalhete, colunista da Gazeta do Povo, sobre o 15 de novembro. Para refletir:


Hoje é um dia triste para o Brasil: o aniversário da medonha quartelada que arrancou o Brasil do rol dos países com um belo futuro e o jogou na vala comum da América Latina. Fala-se, como se fosse coisa boa, de uma “proclamação da República”, como se proclamar alguma coisa numa praça tivesse o poder de mudar a realidade. Mas não é o caso: o que mudou – para pior – a realidade brasileira foi a ação coordenada de um Exército corrupto, donos de escravos revoltados com a Abolição e temerosos da reforma agrária que distribuiria terras aos ex-escravos, e setores especialmente escabrosos da maçonaria. O povo brasileiro não teve nada a ver com isso. Aliás, para evitar que ele tivesse, e já sabendo que a quartelada certamente não teria apoio popular algum, a família imperial foi enfiada num navio na calada da noite e expulsa para a Europa, onde dom Pedro II acabou por morrer à míngua.

A América Latina havia sido colonizada por Portugal e Espanha. Nos territórios desta, os processos de independência estilhaçaram a antiga colônia, instalando em seu lugar uma multidão de paisecos insignificantes, entregues no mais das vezes a ditaduras corruptas que, na maioria dos casos, continuam até hoje. Já a América portuguesa transformou-se no Brasil. Num Brasilzão só. Costumo dizer que, na verdade, a independência não foi do Brasil, mas de Portugal: o Brasil saiu do processo muito mais rico que a antiga metrópole, que só veio a sair da rua da amargura com o dinheiro alemão que passou a entrar após sua admissão na União Europeia. Já o Brasil estava por cima da carne seca; quando da quartelada que nos jogou na lama, estávamos à frente dos Estados Unidos em desenvolvimento, e nada indicava que deixaríamos de estar. Ainda que em termos de governo a família imperial não tenha sido nenhuma maravilha, tínhamos um sistema político que se casava perfeitamente com a nossa cultura.

Dom Pedro I nos deixara sós para resolver pepinos de família na Terrinha; dom Pedro II foi feito imperador aos 15 anos, após o confuso período da Regência, e mostrou-se mais interessado em ciência e tecnologia que no exercício do Poder Moderador que lhe cabia, com a triste exceção da Crise Religiosa, em que preferiu a maçonaria à Igreja. Mas, apesar dos pesares, tínhamos então um sistema que nos poupou, enquanto durou, das infinitas reviravoltas e golpes de Estado que marcavam nossos vizinhos hispanófonos, e que passaram a nos marcar desde a queda da monarquia.

Temos, como têm os demais descendentes dos ibéricos, uma cultura profundamente personalista. Aqui, graças a Deus, as pessoas percebem-se como seres sociais, ligados aos demais por miríades de laços pessoais de parentesco, amizade, auxílio mútuo, amor e admiração. Não somos em nada semelhantes aos descendentes dos frios povos do norte europeu, que agarraram com unhas e dentes a possibilidade de libertar-se dos laços sociais trazida por Lutero, que ao negar a Comunhão dos Santos tornou a religião assunto de foro íntimo e pessoal: o fiel sozinho diante de Deus, sem nenhum auxílio. Da religião, por ser o que a cultura deles demandava, passou-se à sociedade como um todo, criando-se sistemas de organização social baseados num inexistente indivíduo, teoricamente igual em tudo aos demais e unido apenas por laços contratuais passíveis de revisão e ruptura. Isto jamais funcionaria aqui, e jamais funcionou. Um policial americano que não prendesse a própria mãe se ela fosse acusada (mesmo que injustamente) de um crime seria ostracizado. Já um policial brasileiro o seria se o fizesse. Sabemos, aqui, que o amor filial vale muitíssimo mais que o respeito à lei escrita. É isso que faz com que nossa sociedade tenha a capacidade (que falta às nórdicas) de manter-se tão ou mais ordenada na ausência dos sistemas sociais de punição formal. Aqui, onde há menos polícia há menos crime. Lá, forçosamente, é o contrário.

Este é um traço que praticamente todos os descendentes da gloriosa Roma têm. Os italianos, franceses, romenos e bascos são igualmente personalistas, assim como, claro, os espanhóis. Mas a Península Ibérica, de onde veio o grosso de nossa cultura, é ainda mais fortemente personalista que os demais países descendentes de Roma, por uma razão simples: tivemos de lutar por isto. Enquanto para os demais povos europeus o tempo do Medievo foi um tempo de relativa tranquilidade, os ibéricos estávamos arrancando palmo a palmo nossa terra ancestral das garras do Islã, heresia igualitarista e bibliólatra que tanto influenciou Lutero. Não caímos nem cairíamos na conversa de estelionatário do heresiarca alemão porque conhecíamos o peixe podre que ele estava vendendo, e derramáramos nosso sangue lutando contra ele por séculos e mais séculos.

Infelizmente, os sistemas políticos surgidos na rabeira do Iluminismo, em grande medida, nutriram-se desta seiva venenosa, antepondo o indivíduo – este ente de razão na prática inexistente, pois nenhum homem é uma ilha – à família, às sociedades intermediárias e a tudo o mais que constrói uma sociedade. A monarquia é uma maneira de mitigar as consequências deste erro de antropologia filosófica, deste desconhecimento do que é realmente o homem – “eu sou eu e minhas circunstâncias”, escreveu Ortega y Gasset. Na monarquia, temos alguém que é dono daquilo que fora dela não é de ninguém, por ser de todos. Não é necessário perverter toda a população – o que se propõe quando se diz que “é preciso educar o povo” – para que ela deixe a própria mãe de lado em prol de parágrafos patéticos prepostos por políticos a papéis.

Na monarquia, temos na sociedade maior um reflexo da sociedade menor e infinitamente mais importante que é a família. Com isto temos uma ordem social mais facilmente compreendida e introjetada que a irracionalidade da mixórdia de leis e decretos delirantes que se tenta fazer de base da ordem social na república.

Uma república pode funcionar, se for pequena. Muito pequena, do tamanho de uma cidadezinha do interior, em que as pessoas ainda sejam pessoas, não discursos publicitários. Maior do que isso, e o que se tem não é mais uma república, e sim – na melhor das hipóteses – um sistema de perpetuação de oligarquias e segredos ditos de Estado. É o que ocorre nos países de ascendência nórdica; veja-se, por exemplo, os maus bocados por que tem passado Trump em sua relação com o dito “Estado Profundo” americano, que indiscutivelmente manda mais que o presidente. Nos países que não têm uma cultura, como as nórdicas, predisposta à negação da sociedade real, mormente dentre os descendentes de Roma, o que se tem é uma sucessão de números de equilibrismo em um sistema intrinsecamente desequilibrado, sempre propenso a revoluções e mudanças súbitas. Basta ver a França ou a Itália ou, se quisermos algo ainda mais próximo de nós, nossos hermanos latino-americanos. A própria Espanha só foi voltar à paz quando, depois de quase um século de confusão, com uma horrenda guerra fratricida seguida por uma ditadura feroz, retornou à monarquia de onde jamais deveria ter saído.

Aqui mesmo, no Brasil, comemoramos como conquista de Copa do Mundo coisas que deveriam ser normais em um sistema republicano, como a transição pacífica de poder. Fazemo-lo por estas coisas na prática não serem nem um pouco normais. Para que existam, é preciso ou bem que a população nem tome conhecimento do que está a se passar (como ocorreu na “transição” da monarquia à república ou como ocorre na Suíça, em que o governo central tem tão pouco poder que muita gente nem sabe quem está lá) ou bem que se a tenha idiotizado a tal grau que ela acredite no que lhe é dito pelos poderosos. Assim que ela percebe o que está acontecendo, revolta-se. Basta ver, mais uma vez, a situação atual dos EUA, cuja polarização faz com que metade da população não aceite o presidente eleito pela outra, já desde o tempo de Obama.

A monarquia, destarte, além de ser um sistema mais natural de governo, tem ainda outra diferença importantíssima em relação à república: os incentivos. De incentivos move-se o mundo, dizem os economistas, com boa dose de razão. Um deles, Hans Hermann-Hoppe, curiosamente um liberal fanático (logo, individualista ao extremo) oriundo de uma cultura nórdica, dedicou-se a estudar os incentivos da monarquia e da república, chegando a conclusões que não são menos valiosas por serem evidentes quando se para para pensar nelas. Um monarca quer que seu filho herde um país em boas condições. Por isso, ele tem todos os incentivos adequados para que pense no longo prazo, para que proteja os mecanismos geradores de riqueza, para que, em suma, exerça corretamente o seu papel de mantenedor da ordem e gerenciador dos conflitos mais amplos da sociedade. Já um presidente tem quatro anos para encher as burras de dinheiro para que possa concorrer à reeleição, e depois mais quatro para fazê-lo novamente de forma a garantir a eleição de um seu poste ou coleguinha. Nada que só vá dar frutos além deste tempo pode interessar-lhe. Todo tipo de demagogia com resultados no curto prazo, contudo, ser-lhe-á tentador.

Um exemplo claríssimo disto nós temos Brasil afora, na forma das inúmeras estações de trem e da imensa malha de trilhos construídos pelo Império e abandonados pela República. Chega a dar raiva ver as estradas sobrecarregadas de caminhões e as estações de trem desativadas ou servindo para passeios turísticos de poucos quilômetros em belas locomotivas ainda do tempo de dom Pedro II. Afinal, asfalto rende votos; a cada dois anos é fácil recobri-lo com uma fina camada do chamado “asfalto de eleição”, para fingir que se está fazendo algo pelo contribuinte e eleitor. Abrir uma estrada em vez de uma ferrovia é um investimento do político no próprio futuro. Já trilhos são uma riqueza invisível, que não rende votos no imediato. É um investimento no futuro do país, que de nada serve ao político e de tudo serve ao monarca.

A população brasileira percebe isso, e o expressa de várias formas: temos “reis” a torto e a direito, de Pelé a Roberto Carlos, passando por inúmeros nomes de loja. Temos o respeito inato às figuras de autoridade que na verdade, vê-se, dirige-se a elas como se se dirigisse a um monarca. Tivemos até mesmo ocasião de perceber isso no terror que dominou os políticos quando, na rabeira da triste Constituição de 88, foi feito o plebiscito para escolher entre duas formas de república e a monarquia. Quando os sacripantas perceberam que, à medida que a população percebia que a opção “monarquia parlamentarista” significava voltar a ter um rei, as intenções de voto monárquico dispararam tanto que o plebiscito foi adiantado em meses! O que deveria ter tido quase um ano de campanha, para que se soubesse do que se tratava, foi rapidamente encerrado em dois meses. Uma vergonha para nosso país, e uma triste prova a mais – como se isso fosse necessário – de como a república é intrinsecamente desonesta, desde seu início até o fim que, espero, chegue em breve.

É por estas e outras que costumo dizer que, mesmo tendo uma – aliás, duas – família imperial em perfeitas condições de uso, qualquer imperador seria melhor que a continuação da república. Eu sinceramente preferiria que tirassem o Lula da cadeia onde merecidamente mofa e o pusessem no trono que se continuasse esta triste experiência, que já custou ao Brasil inúmeras vidas (nem falei de Canudos…), sua riqueza, seu desenvolvimento e sua paz interna.

Como se dizia na época do plebiscito, “caia na real; monarquia é o ideal”. E hoje é um dia de luto.

O drama da segunda idade

A partir de uma certa idade, as pessoas deixam de existir socialmente. Coluna de João Pereira Coutinho, via FSP:


Meus pensamentos estão com Emile Ratelband, o aposentado holandês que não se conforma com a idade. O homem tem 69 anos. Mas sente-se com 49 --no corpo e na mente. Por que motivo não pode Emile alterar a sua certidão de nascimento?

O gesto, inofensivo para os outros, teria impacto salvífico na sua particular existência. As oportunidades de trabalho seriam mais generosas --apesar de tudo, existe uma diferença entre ser um profissional de meia-idade ou a caminho da terceira.

E, em matéria sentimental, ter 49 funcionaria como bônus. Pelo menos, no aplicativo de encontros Tinder, no qual o pessoal se comporta como no açougue: as carnes mais frescas têm mais sucesso comercial.

Emile Ratelband tem razão. Começo pelo óbvio, que não me canso de relembrar às plateias politicamente corretas: vivemos na era vitimária, em que todo mundo pode ser uma vítima em potência. Mulheres, gays, negros. Ou, então, homens, héteros, brancos --há sempre um motivo qualquer para chorar.

Nessa orgia de dor, só os velhos parecem excluídos da comiseração universal. O que não deixa de ser injusto: os velhos são as vítimas reais da era contemporânea.

Numa cultura que celebra a velocidade, a juventude e a saúde com uma paixão patológica, os velhos são silenciosamente jogados para as margens da sociedade. A sociedade que trabalha. A sociedade que cria. A sociedade que se diverte.

É como se, a partir de uma certa idade, as pessoas deixassem de existir socialmente. Para quando cotas para os mais velhos --nas universidades, nas empresas, nos programas de televisão?

Mas Emile também tem razão quando compara a sua causa com todos aqueles que decidem mudar de gênero no registro.

Houve um tempo, hoje tido por arcaico, em que a biologia era determinante. Um homem ou uma mulher eram definidos pela configuração anatômica. Esse determinismo biológico ignorava, quando não desprezava, a subjetividade do indivíduo em matéria sexual.

O mesmo ocorre com Emile. Biologicamente, ele beira os 70. Mas, subjetivamente, ele sente-se com menos 20 anos. Devemos permitir que a tirania fisiológica tenha a última palavra na definição da nossa idade?

Penso que não. E, falando de Emile, falo também de mim próprio. Embora, no meu caso, a luta seja a inversa. Tenho 42. Sinto-me com 72. Quando falo com o meu advogado sobre o assunto, ele nunca me leva a sério. "O que você quer é receber dinheiro sem trabalhar."

Protesto e digo que não. Ou, melhor, digo que sim. Mas apenas porque é justo: se tenho 72 anos subjetivos, e se em Portugal é possível pedir a aposentadoria aos 67, sinto que o Estado já me deve cinco anos.

Mas a questão não é apenas subjetiva; é real e cotidiana. As especialidades médicas que frequento começam na letra A (de alergologia) e terminam na R (de reumatologia). Minto: já fui ao U (de urologia; probleminha sem importância) e o médico, um péssimo piadista, despediu-se de mim com um "adeus, até à próstata!".

Tenho exames médicos que são usualmente confundidos com os exames do meu avô. A minha dentição já não é a original.

E, sobre os hábitos de vida, aqui fica um dia típico: acordo às 10h; começo a mexer-me às 10h30; consigo levantar-me da cama às 11h; regresso para a cama às 12h depois do exercício (pilates em banho de imersão).

O almoço é ligeiro, quase sempre à base de líquidos (escoceses e irlandeses). Finalmente, sesta.

Quando acordo, leio, escrevo e converso (tudo sozinho). Só então desligo o aparelho auditivo para reuniões com os meus credores.

O jantar, usualmente excessivo, é em casa. Exercícios de reanimação também. Estou no sarcófago antes das 12 badaladas.

Será que tudo isso tem validade em tribunal? Espero que sim --e tenho a família, ou a parte dela que não levei à loucura, pronta para testemunhar.

Se, apesar de tudo, nenhum juiz se comover com o meu caso, só vejo uma saída: permuta de identidade. Que o mesmo é dizer: o holandês fica com a minha falsa juventude e eu não me importo de ficar com a idade dele e as benesses correspondentes.

Só não garanto que a minha identidade fará sucesso no mercado de trabalho: tenho uma fama que me precede e só o mundo das letras seria capaz de tolerar uma existência tão horizontal.

Sobre o Tinder, avança sem medo, Emile. Se for preciso, fazemos um primeiro encontro a três: você, a moça e o meu urologista para apoiar.

Dirceu agora erra até previsões sobre o passado

Agora que o Brasil sabe quem Lula é, o chefe do maior esquema corrupto de todos os tempos só terá chances de eleger-se em primeiro turno se for candidato a xerife de alguma ala de cadeia, escreve Augusto Nunes em sua coluna na Veja:


José Dirceu deveria estar há muito tempo na cadeia, e permanecer engaiolado até descobrir por que o vigarista promovido por militantes do PT a “guerreiro do povo brasileiro” só combateu os valores morais, as normas éticas, os bons costumes e, sobretudo, o Código Penal. Posto em liberdade pela desfaçatez da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, exerce o direito de ir e vir para repetir o mantra recitado pelos devotos desde que o deus da seita foi para o xilindró: “O PT tem que retomar a campanha pela anulação da condenação de Lula”.

No mais recente palavrório, o guerrilheiro de festim revelou que agora anda errando previsões até sobre o passado. “Sabemos que Lula venceria a eleição no primeiro turno, isso é um fato”, declamou o adivinho de galinheiro. Fato coisa nenhuma. Se tivesse trocado a cela pelo palanque, sofreria a mesma surra imposta a Fernando Haddad pelo Brasil que presta. O antigo fabricante de postes hoje só consegue tapear habitantes dos grotões nordestinos garroteados pela ignorância.

Mesmo antes que a Lava Jato mostrasse que o Pai dos Pobres era a fantasia preferida de um ladrão compulsivo, Lula nunca venceu uma eleição presidencial no primeiro turno. Agora que o Brasil sabe quem Lula é, o chefe do maior esquema corrupto de todos os tempos só terá chances de eleger-se em primeiro turno se for candidato a xerife de alguma ala de cadeia.

Bombas contra os desempregados

Sem dinheiro para festas de fim de ano, desempregados ainda pagarão impostos sobre seus gastos e financiarão benefícios concedidos a pessoas e a setores imensamente mais aquinhoados. Editorial do Estadão:


Cerca de 12 milhões de brasileiros passarão um fim de ano apertado, mal conseguindo pagar as despesas mais simples, e muitos ainda estarão em sérias dificuldades no fim de 2019, se a irresponsabilidade política ainda travar a criação de empregos. Nesse caso, o estrondo de pautas-bomba – projetos com aumentos de custos para o governo – ainda será mais forte que o dos foguetes e rojões típicos das festas. Sem dinheiro para festejar, esses desempregados ainda pagarão impostos sobre seus gastos, mínimos e indispensáveis, e assim financiarão os benefícios concedidos a pessoas e a setores empresariais imensamente mais aquinhoados. Quase metade dos trabalhadores em busca de uma vaga está desocupada há mais de um ano. Mais de um quarto, há mais de dois, segundo os últimos números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. O levantamento é realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os cidadãos à procura de trabalho há mais de um ano eram 5,05 milhões no terceiro trimestre, de acordo com a Pnad. Eram cerca de 40% dos 12,5 milhões de desocupados. O grupo há mais tempo desempregado – sem ocupação há dois anos ou mais – correspondia a 3,2 milhões de pessoas, 25% do total de desocupados.

Esse contingente é quase tão numeroso quanto a população do Uruguai (3,46 milhões de habitantes em 2017), incluídos bebês, crianças da escola básica e velhinhos há muito aposentados, e corresponde a 17,18% da população chilena.

Quando se pensa em tanta gente fora das folhas de pagamento há tanto tempo, fica difícil levar a sério o argumento invocado a favor do reajuste de salários para os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Incluído o enorme efeito cascata, esse reajuste deve impor ao setor público uma despesa adicional estimada em R$ 6 bilhões por ano. O mesmo tipo de comparação serve para avaliar qualquer outro mimo fiscal ou financeiro concedido a indivíduos e a empresas. Pouco ou nenhum avanço em termos de inovação, crescimento econômico e criação de empregos decorreu da maior parte dos incentivos custeados pelo contribuinte nos últimos dez anos.

Exemplos de enorme desperdício custeado pelos contribuintes – empregados e desempregados – são o Programa de Sustentação do Investimento (instituído em 2009) e a desoneração da folha de pagamento de dezenas de setores, como foi claramente mostrado em recente análise produzida pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

O estudo mostrou, entre outros fatos escandalosos, o aumento de demissões, a redução de admissões e o medíocre desempenho produtivo de várias das indústrias mais beneficiadas pela desoneração da folha. Apesar da evidente distribuição de benefícios sem a mínima cobrança de contrapartida, congressistas evitaram cortar as desonerações. Quando, finalmente, o fizeram, numa negociação com o Executivo, ainda mantiveram a vantagem para vários setores.

O mesmo desinteresse em relação a custos e benefícios vinculados ao uso de recursos públicos foi exibido, há pouco tempo, na aprovação de um novo programa de incentivos fiscais ao setor automobilístico. Neste caso, a iniciativa foi do Executivo, contra a orientação do Ministério da Fazenda. No Congresso, as vantagens fiscais propostas pelo governo ainda foram ampliadas.

Cada real adicionado aos custos do governo tornará mais difícil e mais demorada a solução da crise das contas públicas, exceto se a despesa – ou facilidade fiscal – produzir efeitos de curtíssimo prazo em termos de crescimento econômico e de criação de empregos. Não é o caso da série recente de mimos aprovados no Congresso. Muito mais provável é o surgimento de novas pautas-bomba. O presidente eleito e sua equipe têm razões para tentar, neste fim de ano, evitar o aumento de encargos para o governo. Muitos congressistas falharam na tentativa de reeleição e isso poderá dificultar negociações. Mas o esforço é necessário, especialmente porque, explícita ou implicitamente, será feito em nome de uns 12 milhões de desempregados.

Militares apostam em medidas liberais para o governo Bolsonaro dar certo

Coluna de William Waack, no Estadão, ressaltando importante saber o que pensam os militares. Como este blogueiro já disse por aqui, há mais liberais nos quarteis do que nas universidades:


No começo desta semana, um grupo seleto de investidores reunidos em Nova York ouviu em inglês de um integrante do “núcleo duro” do futuro governo que o presidente eleito, Jair Bolsonaro, quer mesmo aplicar um choque liberal na economia brasileira. Quer privatizar 100 de 160 estatais. Leiloar bons contratos para interessados em investir em infraestrutura. Reformar um sistema tributário caro. Priorizar, acima de qualquer coisa, o ajuste fiscal. E mudar o comércio exterior, no sentido de maior abertura.

Não, não era Paulo Guedes falando. Era o vice-presidente Hamilton Mourão. Combinam as ideias representadas por Guedes com a cabeça de quem passou mais de 30 anos pela formação de escolas militares, como são todos os oficiais envolvidos de uma forma ou outra com o novo governo? Pelo jeito, parece que sim. Mourão descreveu para os investidores em Nova York como “um bom negócio” a fusão da Embraer com a Boeing (chamada de “entreguismo” pelo retrógrado pensamento de esquerda no Brasil).

Na mesma ocasião, Mourão ecoou também o que o seu antigo chefe, o comandante do Exército, disse em várias entrevistas, a mais recente delas ao correspondente no Brasil do Financial Times – uma das mais influentes publicações internacionais e uma das poucas a não cair na narrativa de que o Brasil estaria elegendo uma nova ditadura militar. Os militares não vão se meter em política, garantiu o general Villas Bôas.

Mas em política eles estão profundamente mergulhados. Atuaram em dois momentos nevrálgicos – a possível concessão de habeas corpos a Lula no STF e nos momentos seguintes ao atentado contra Jair Bolsonaro – para evitar o que chamam de “ameaça de caos social e político”. Temiam uma bagunça generalizada, e a possível rebeldia de coronéis. Vários integrantes dos altos escalões penduraram a farda, vestiram o terno e foram para posições estratégicas (do ponto de vista político sobretudo) no governo. Alguns oficiais generais de farda participaram ativamente nos bastidores da campanha do presidente eleito. Embora a instituição das Forças Armadas não esteja oficialmente metida em política, a teia de relacionamentos profissionais e pessoais entre os “de fora” e os “dentro” do governo é de enorme coesão.

Relevante aqui, portanto, é saber o que eles pensam, e qual é o País que querem. A caricatura grotesca tem ocupado muitas vezes o lugar da análise, e a caricatura dos militares parados na década dos 1970 com a mentalidade de estatismo, autarquia e segurança nacional entendida em sentido muito estrito cedeu lugar para a convicção, entre os militares, de que soberania nacional é o resultado de economia forte e razoavelmente aberta, e que não há automatismos ou subordinações claras em alianças externas, sobretudo em relação às que prometam acesso a tecnologias e geração de conhecimento.

Há mais um aspecto político do papel dos oficiais militares: muitos comandantes viram na onda que levou Bolsonaro ao Planalto um freio no que eles chamam de “esquerdização” da sociedade brasileira. Nesse sentido, o olfato político dos militares que dizem não se meter em política parece ter sido muito melhor do que a “sabedoria” de políticos profissionais. Eles enxergaram cedo que ordem, segurança, hierarquia e honestidade – valores que boa parte do eleitorado identifica com militares – ajudariam a eleger Bolsonaro.

O problema está na frase pronunciada em tom de brincadeira pelo General Heleno, um dos nomes de maior prestígio em todo o estamento militar. “Se esse troço aí (o governo Bolsonaro) der errado, a única coisa boa da minha geração foi ter visto o Pelé jogar”, disse Heleno.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Adeus, escória bolivariana: embaixador Ernesto Araújo será o chanceler de Bolsonaro.

Diplomata fez campanha em favor do candidato do PSL em seu blog e escreveu artigo sobre a relação do Brasil com o governo de Donald Trump, além de criticar, com razão, o partido totalitário, que chama de "partido terrorista":


O presidente eleito, Jair Bolsonaro, anunciou nesta quarta-feira (14) o embaixador Ernesto Henrique Fraga Araújo, de 51 anos, como seu ministro das Relações Exteriores. O diplomata atua neste momento como diretor do Departamento de Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos do Itamaraty e, apesar de ter alcançado a posição de embaixador (ministro de primeira classe) na hierarquia do ministério, jamais conduziu uma embaixada brasileira.

Durante a campanha eleitoral, Araújo defendeu abertamente a candidatura de Bolsonaro por meio de um blog na internet, no qual chamou o PT de “partido terrorista”. No artigo “Trump e o Ocidente”, publicado pela revista do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (Ipri) no segundo semestre de 2017, ele defendeu que o Brasil reflita e defina se fará parte da visão de Ocidente do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

“O presidente Donald Trump propõe uma visão do Ocidente não baseada no capitalismo e na democracia liberal, mas na recuperação do passado simbólico, da história e da cultura das nações ocidentais”, afirma no resumo do texto. “Em seu centro, está não uma doutrina econômica e política, mas o anseio por Deus, o Deus que age na história. Não se trata tampouco de uma proposta de expansionismo ocidental, mas de um pan-nacionalismo”, completou.

O artigo causou impressão em Bolsonaro ainda durante a campanha eleitoral. Araújo será um dos mais jovens chanceleres da história do país. Entrou na carreira diplomática há 29 anos e serviu, no início da década, como ministro-conselheiro na Embaixada do Brasil em Washington. Nesse posto, atuou como braço direito do embaixador Mauro Vieira, ex-chanceler do governo de Dilma Rousseff.

Em sua carreira, Araújo assumiu várias posições de responsabilidade nas negociações internas e externas do Mercosul, o que o torna um especialista em questões sobre o bloco sul-americano. É autor de dois livros sobre o tema: “Mercosul Hoje”, escrito em parceria com o embaixador Sérgio Florêncio, e “Mercosul: Negociações Extrarregionais”.

Bolsonaro fez o anúncio pelo Twitter, depois de ter conversado com outros candidatos para o posto nos últimos dias. Entre eles, o embaixador do Brasil em Seul, Luís Fernando Serra, apontado como um dos favoritos. Pelo menos 14 nomes foram apontados na imprensa, desde a eleição de 28 de outubro, para a posição de chanceler.

Depois de informar pelas redes sociais, Bolsonaro deu uma entrevista à imprensa, em Brasília, ao lado de Araújo. O novo chanceler afirmou que pretende elevar o nível das relações do Brasil com todos os seus parceiros e “em benefício de todos, do povo brasileiro”.

Ao ser questionado sobre a futura relação do Brasil com a Venezuela, a retirada de Cuba de seus profissionais do programa Mais Médicos e outros temas críticos da Política Externa, porém, Araújo passou a palavra a Bolsonaro.

Nascido em Porto Alegre em 1967, Araújo formou-se em Letras na Universidade de Brasília e ingressou no Instituto Rio Branco, academia de formação e aperfeiçoamento de diplomatas, em 1991. No exterior, serviu na missão do Brasil junto à União Europeia, em Bruxelas, e nas embaixadas do Brasil em Berlim, em Ottawa e em Washington. É casado com a diplomata Maria Eduarda de Seixas Corrêa Araújo, filha do embaixador Luiz Felipe de Seixas Corrêa. (Veja.com).

O homem do braço de ouro

Bolsonaro parece ter percebido que seu articulador, Ônix Lorenzoni, não começou a atuar. E entrou pessoalmente no jogo. Coluna de Carlos Brickmann, publicada nesta quarta-feira:


Imaginemos que Paulo Guedes, o superministro, esteja certo em todas as reformas que propuser – ou que o superministro Sérgio Moro tenha sempre razão. E daí? Se não conseguirem convencer a maioria a segui-los, nada vai passar pelo Congresso. Não é só convencê-los de que estão certos. É mostrar a cada um que vantagem terá ao segui-los. Coisa para profissionais da política. Bolsonaro já teve duas derrotas antes de entrar em campo (aumento do STF, isenções para a indústria automobilística). Há outros itens caríssimos sendo votados, mesmo nesses dias parados. É hora de agir.

Bolsonaro parece ter percebido que seu articulador, Ônix Lorenzoni, não começou a atuar. E entrou pessoalmente no jogo. Já marcou para hoje um café da manhã com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia; e encarregou a deputada Teresa Cristina, que será sua ministra da Agricultura, de garantir o apoio da bancada ruralista, que ela preside, às reformas do Governo. Ela irá também trabalhar na articulação política, onde sempre se saiu bem.

Já houve a ordem para que Paulo Guedes fale menos. Mas há ainda os filhos do presidente (e no Congresso, mesmo quando se fala a verdade, é preciso tomar cuidado). O senador eleito Flávio Bolsonaro disse, à sempre atenta Rádio Bandeirantes, que a volta de Renan ao comando do Senado será ruim, “porque o Congresso precisa de um presidente ficha limpa”. É verdade – mas quem quer ouvir essa verdade? E Renan, sim, pode voltar.

O Senado sou eu

O Senado terá ampla renovação, mas não o suficiente para que pessoas como Renan (e, antes dele, Sarney) deixem de ter a cara da Casa. Renan já foi quatro vezes presidente do Senado, e isso não acontece por acaso. Ele é situação ou oposição, depende do que for mais conveniente. Pode apoiar Bolsonaro, claro, desde que para ele isso valha a pena. Flávio Bolsonaro, na entrevista à Bandeirantes, criticou “a prática de alguns parlamentares de criar dificuldades para extorquir o presidente em busca de cargos”. Pois é. E é com eles que é preciso negociar. Ou derrotá-los na batalha parlamentar.

Quem tem voto

Bolsonaro se elegeu bem, deu um tiro no alvo ao nomear Sérgio Moro para o Ministério, está fazendo uma esplêndida campanha de “gente como a gente” na Internet – veja, ele come hambúrguer no balcão em vez de ir a um restaurante de luxo, veja, ele corta o cabelo no mesmo barbeiro de sempre, veja, ele estava sentado no chão do aeroporto esperando a partida do avião, em vez de ir a uma sala VIP, veja, ele foi ao açougueiro do bairro comprar carne para fazer churrasco para os seguranças – mas isso tudo, se ao menos hoje lhe dá popularidade, não é levado em conta quando negocia com os parlamentares.

Aí é preciso colocar em vigor a lei da reciprocidade: ou o parlamentar ganha prestígio, associando-se a alguma iniciativa que lhe dê votos, ou é preciso encontrar outra maneira de envolvê-lo nos projetos do Governo. Não é essencial, sempre, que haja distribuição de cargos ou de vantagens contabilizáveis; mas é preciso achar a fórmula que leve a maioria dos 513 deputados e 81 senadores a se agregar àquilo que o Governo achar necessário. Espera-se que as velhas fórmulas, transportáveis em malas e envelopes, tenham perdido a antiga popularidade após a Lava Jato.

O grande nome

Bastou Moro aceitar o convite de Bolsonaro que caiu o mundo – não apenas os petistas furiosos com a condenação de Lula (embora ele tenha tido a condenação confirmada, e ampliada, pelo Tribunal Regional Federal), mas os que acham que deveria ter pedido demissão em vez de tirar férias, os que se queixam de fatos como a liberação do telefonema em que Dilma e Lula combinam como ele fará para ganhar foro especial e escapar do julgamento em primeira instância.

São minoria: de acordo com levantamento nacional da Paraná Pesquisas, 85,3% dos ouvidos aprovam a nomeação de Moro para o Ministério da Justiça. A pesquisa foi divulgada pela coluna Cláudio Humberto (www.diariodopoder.com.br) e abrange a faixa etária de 24 a 59 anos.

É adversário – e sabe

José Dirceu, ex-comandante do PT, ministro de Lula e Dilma – “capitão do time”, como Lula o chamava – diz que Bolsonaro terá base social, força e tempo para governar. Dirceu falou anteontem, ao lançar seu livro de memórias. “Há um Brasil profundo que se manifestou democraticamente e que o PT precisa entender.

O PT não foi derrotado apenas eleitoralmente nas eleições, mas ideologicamente”. Citou a questão da segurança pública: “Onde estava o PT quando o filho de uma mulher pobre chegava em casa sob efeito de drogas, ou em outros momentos igualmente trágicos na vida do brasileiro?” Aos poucos, disse, o PT se afastou “do dia a dia do povo”. E Bolsonaro, completou, “avançou sobre a base da qual o PT se afastou durante seus quatro mandatos”.

Escolas com partido e seus militantes

Dê uma olhada no Google. Procure por Escola Sem Partido e peça para ver imagens. Você terá ali verdadeira aula sobre os interesses em jogo. Noventa e cinco por cento, ou mais, dos cards, memes, gravuras e cartazes sustentam a ideia de que a escola, sem partido, emudece o professor e emburrece os alunos. E esperam que todos concordem. Artigo de Percival Puggina:

Escreveu-me certa feita um avô: “Minha neta estava estudando para a prova de História. Tema da prova: o período dos governos militares de 1964 a 1985. Como eu vivi esses anos todos como estudante e professor, muita coisa para mim é memória, enquanto para ela é história. Comecei a lhe explicar os motivos da ascensão dos militares ao governo do país, as encrencas que os movimentos ditos sociais arranjaram com os militares, etc. etc. Ela me interrompeu: ‘Vovô, o livro de História que eu tenho que estudar é petista, o professor é petista! Eu quero que você me explique o que eu devo responder para o professor me dar nota! A verdade você me conta depois!’".
Este país, aos poucos, vai acordando de um sono letárgico. O predomínio da esquerda, iniciado na Constituinte de 1988, nos conduziu a anos de chumbo do intelecto brasileiro, causando gravíssimas sequelas. Entramos numa nebulosa cultural onde nem em bilhões de anos se produziria vida inteligente. A sociedade se desagregou e brutalizou, a violência se instalou, a criminalidade – pasmem! – teve reconhecido seu viés revolucionário e ganhou salvaguardas do politicamente correto. Décadas de tortura da razão, da verdade, do bem.

Duas gerações de brasileiros foram, em boa parte, submetidas a isso por professores que, diante do espelho, se veem como ativistas de um projeto revolucionário. O que aconteceu com o ensino de História daria causa, fosse ela sujeito menos passivo, a um processo de reparação por danos. Outro dia, falando a um grupo de estudantes, perguntei se algo lhes havia sido ensinado, em aula, sobre a Revolução Russa. Todos estavam a par dos motivos sociais, do absolutismo monárquico dos czares e do triunfo dos bolcheviques em 1917. E por aí terminavam as dissertações! Nada lhes fora informado sobre o totalitarismo comunista, o genocídio e o verdadeiro laboratório de taras políticas proporcionadas pelo regime ao longo das décadas subsequentes. Ocultação sumária dos acontecimentos!

Gradualmente, nos últimos anos, a sociedade foi acordando de sua letargia para perceber o desastre em curso. O movimento e o projeto Escola Sem Partido refletem esse despertar. A reação a ele tem sido mais vigorosa do que a própria mobilização pelo projeto. Enquanto a mobilização é civilizada, a oposição tem o nível de uma campanha política petista, com direito a mistificação e histeria. Mobiliza pessoas que têm pela verdade da sala de aula o mesmo desapreço que têm pela verdade na História.

Olavo tem razão. Não há, mesmo, doutrinação porque sequer saberiam como promovê-la. Há pura e simples enganação e ocultação. Sepultamento de fatos e autores. Cuidadosa construção de versões. Glorificação de camaradas e companheiros. Ao mar da ignorância as cinzas inconvenientes.

É claro que, sob tais circunstâncias, a ideia de registrar em vídeo ocorrências de sala de aula passa a ser vista (aí nova inversão da realidade), como forma de “opressão do aluno sobre o professor”... Toda mente formada fora dessa cápsula ideológica, sabe que o verdadeiro opressor é o professor militante, ativista, abusador cotidiano de seu poder, e que o registro de imagem é mera atitude de defesa dos colegiais e de suas famílias. O cérebro esquerdista, porém, anda por caminhos e traça sulcos num deserto onde só existe o querer revolucionário. Por isso, o discurso do pluralismo, da diversidade e da infinita tolerância (com as pautas de seu agrado) e a ação absolutamente intolerante para com tudo que o contrarie.

Nessa perspectiva, o que o professor manipulador diz e faz, constrói e destrói em sala de aula precisa ser tão secreto quanto os contratos de financiamento proporcionados por Lula e Dilma aos camaradas ditadores mundo afora. Sigilo na sala de aula. Juras de cumplicidade. O que aqui se diz, morre aqui.

Dê uma olhada no Google. Procure por Escola Sem Partido e peça para ver imagens. Você terá ali verdadeira aula sobre os interesses em jogo. Noventa e cinco por cento, ou mais, dos cards, memes, gravuras e cartazes sustentam a ideia de que a escola, sem partido, emudece o professor e emburrece os alunos. E esperam que todos concordem.

Imenso respeito aos bons professores! Também eles são vítimas dessa crise a que não deram causa. Teimosamente abrem, todos os dias, as portas do saber e da arte de viver.

Má-fé e má vontade sabotam o Brasil

Derrotados atribuem a Bolsonaro todos os erros cometidos no país desde 28 de outubro. José Nêumanne, sobre a sabotagem de petistas e associados:


Às vésperas do segundo turno da eleição presidencial, durante o mês de outubro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) dedicou-se, em vão, a combater fake news no pleito, mas fez vista grossa à maior de todas as mentiras - pregada na campanha, que os institutos de pesquisa previam derrotada - do Partido dos Trabalhadores (PT) de Lula. Fernando Haddad, o petista que se apresentou à tarefa de representar o presidiário impedido de concorrer, foi o porta-voz da patranha absurda de que o País corria o risco de optar nas urnas pelo fim da democracia, com a instauração do neonazismo e do protofascismo em nossa República.

Em 28 de outubro, o capitão reformado do Exército e deputado federal há 27 anos Jair Bolsonaro obteve 57.797.456 votos, 55,13% do total dos válidos, contra 47.040.819, 44,87%, dados, em teoria, ao ex-prefeito de São Paulo, mas, na prática, ao verdadeiro titular da chapa, dono do PT e ex-presidente. A ampla margem majoritária de 10.756.637 passou a ser depreciada como desprezível por alguns políticos profissionais e pretensos analistas, que logo adicionaram à lorota uma conta não prevista na ordem constitucional vigente. Segundo esses derrotados, falta ao vencedor legitimidade porque, dos 147,3 milhões de eleitores brasileiros aptos, 42,4 milhões não sufragaram o vencedor, Jair Bolsonaro (PSL), a quem teriam faltado, graças a essa conta estúpida, 16 milhões de sufrágios. O argumento cretino, ao incluir votos nulos, em branco e eleitores ausentes, então, nessa hipótese estapafúrdia, levaria a calcular que quase 100 milhões de brasileiros detestariam o ladrão condenado Lula.

O chororô dos vencidos logo se tornou má vontade e má-fé na explícita sabotagem da vontade popular, expressa na eleição. A esquerda Rouanet e os devotos do padim de Caetés, então, negaram seu papel no Estado de Direito, definido pela palavra oposição, e adotaram o termo resistência, cunhado pelos maquis, que se negaram a aceitar a anexação da França aos invasores, pelas tropas nazistas de Hitler.

A troca, contudo, não teve o impacto desejado pelos pregadores do caos, que aí apelaram para o “assassinato da reputação” (apud Romeu Tuma Jr.) do eleito, que passou a ser o culpado universal por tudo o que é ruim. A deputada federal Luiza Erundina (PSOL-SP) reproduziu no Twitter um post que insinua ter sido Bolsonaro responsável pelo aumento do gás de cozinha. A 45 dias da posse, o profeta do apocalipse Fernando Henrique já alertou para a repercussão negativa no exterior de medidas que Bolsonaro adotar. Talvez fosse mais útil para seu projeto de “reagrupar” o centro preocupar-se menos com os humores de além-fronteira e mais com 13 milhões de desempregados que fazem da calçada seu lar.

À parte essas contribuições ao “festival de besteiras que assola o País”, como nos tempos do saudoso Sérgio Porto (Staniwlaw Ponte Preta), certo é que algumas verdades precisam ser aqui lembradas.

O Ministério do Trabalho (MT), que poderia ser extinto no próximo governo, resulta de uma legislação trabalhista que o estancieiro Getúlio Vargas, no Estado Novo, ditadura fascistoide em nossos tristes trópicos (apud Lévi-Strauss), traduziu ao pé da letra da Carta del Lavoro, de Mussolini. Sim, ele mesmo, o aliado de Hitler, herói confesso de Lula em seus tempos de líder grevista. Aliás, quem entende do setor é o ex-ministro do Trabalho e ex-presidente do Tribunal Superior do Trabalho Almir Pazzianotto, que foi advogado do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo à época do próprio Lula. Almir repete que quem emprega é empresa, não sindicato. Mas o MT também emprega muito: dirigentes dos partidos ditos trabalhistas, que controlam a máquina que lhes enche os bolsos de dinheiro roubado da tal Contribuição Sindical, para gáudio do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), de Roberto Jefferson, e do Partido Democrático Trabalhista (PDT), de Ciro Gomes.

Tentou-se ainda inculpar o ainda não empossado em episódio recente. Em Brasília para tratar da transição, Bolsonaro se disse contra o acordo infame pelo qual liderados pelo presidente do Senado até março, Eunício Oliveira, previamente demitido por decisão popular, se curvaram docemente à pressão telefônica do chefe do STF, Dias Toffoli. Tal “pacto” garfou os espoliados em R$ 4 bilhões/ano para engordar as contas bancárias dos maganões que se acham “supremos”, mas agem como mendigos Chanel ao depenarem o erário.

O presidente eleito falou em nome de todos os brasileiros que vai governar a partir de 1.º de janeiro e que pagarão a conta - os acusados de conservadores, como se conservar fizesse mal, os revolucionários que só usam chumbo do Diário Oficial e os miseráveis, aos quais se nega o pão para garantir champanhota e caviar aos ministros. Do caso todos saímos derrotados, mas coleguinhas e veículos de comunicação desolados com a prisão de um ladrão atribuem a derrota a um homem só: o presidente avant-la-lettre.

No dia seguinte ao de mais uma remessa dos escrúpulos às favas, ainda sem ter sido decretada a prévia volta à ditadura militar, o mesmo Senado transferiu parte da poupança nacional para os cofres das montadoras estrangeiras de automóveis no Brasil. Isso vem sendo feito desde a opção maligna do popular Juscelino Kubitschek pelo sucatamento do parque ferroviário em troca das rodovias, hoje controladas pelos transportadores de derivados de petróleo e víveres. E tornou-se obrigatória desde a passagem do chorado presidiário de Curitiba, a ponto de um lobista dos velhos tempos, Mauro Marcondes, estar preso em outra cela, em Brasília.

Este texto é um alerta de que esses lacrimosos “heróis” da democracia moveram guerra à ditadura militar sem usar em vão, em nenhum de seus documentos, essa sagrada palavra, pois eram vassalos de cruéis tiranias comunistas. E hoje, só para voltar a saquear o erário, sabotam não o futuro governo, mas o povo que o elegeu.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Eleições americanas 2018: que país é esse?

Via Estadão, o texto de Ana Paula do Vôlei, a melhor analista da realidade política norte-americana, dando banho em correspondentes globais como Carolina Cimenti, Jorge Pontual et caterva:


Lendo as análises e matérias de parte da imprensa brasileira sobre as eleições americanas do último dia 6 de novembro, tenho que confessar que não reconheço esse país que estão falando, mesmo morando aqui há quase 10 anos. Depois da “influência russa”, “atriz pornô derruba Trump”, “Trump bebe muito refrigerante diet e não tem animal de estimação”, agora temos a “onda Democrata” e o “impeachment de Trump”. Hm. Sigamos.

A onda que alguns analistas militantes andam surfando é a de meias-verdades, exageros e até bobagens sobre o desempenho de Republicanos e Democratas nas urnas e do futuro do governo Trump. O bufão laranja não é lá a figura mais carismática da política americana, e apesar de que distorcer fatos ou dourar pílulas a favor do partido de Obama seja comum, a sabotagem, palavra da moda para a política brasileira, anda sendo muito bem aplicada também quando o assunto é os EUA. Falta muito para colocarem alguns jornais na parte de ficção das livrarias?

Com a devida vênia aos militantes das redações tupiniquins, vamos aos fatos. O Partido Republicano perdeu o controle da Câmara dos Deputados, o que é normal e esperado, num resultado muito mais apertado e positivo para o presidente do que “a onda que derrubou os Republicanos” que vem sendo noticiada por aí. A verdade é que em apenas três vezes na história americana a Câmara não foi controlada, ou retomada, pelo partido oposto ao do presidente em questão nas eleições de midterms. O sistema político americano, brilhantemente arquitetado pelos Pais Fundadores, tem em si esse auto-ajuste para que um partido não fique no poder durante muito tempo. A alternância de poder, na Câmara, no Senado e na Presidência, está no DNA da política e do eleitor americano e é uma das engrenagens mais saudáveis e eficientes da república para o equilíbrio democrático.

No Senado, o partido Republicano teve uma vitória histórica, já que a alternância de controle é o mais comum, não apenas por manter a casa, mas por aumentar o número de senadores e ampliar sua maioria. O Senado para a atual presidência era a prioridade, uma vez que é na Comissão do Senado que nomes de juízes para a Suprema Corte são aprovados. Trump já nomeou dois juízes desde 2016 e tem nos próximos dois anos a possibilidade de nomear mais um, aumentando com folga a vantagem conservadora na Suprema Corte.

Nos governos de estado, os cinco candidatos apoiados por Trump venceram e os quatro apoiados por Obama e mais radicais à esquerda, abertamente socialistas como Andrew Gillum da Flórida, perderam. O desempenho nas urnas de uma ala patrocinada e encampada por Barack Obama e as celebridades de sempre de Hollywood tiveram um desempenho decepcionante, para não dizer pífio, nas urnas. As celebridades não conseguiram eleger ninguém e a tal “onda azul”, cor do Partido Democrata, só existiu no universo paralelo de parte do jornalismo que se recusa a fazer jornalismo e ainda permanece com pom-poms nas mãos em suas bolhas de torcidas partidárias.

Indiscutivelmente esta eleição mostra que o Partido Democrata foi empurrado um pouco mais para o centro-esquerda, algo óbvio depois de oito anos de Barack Obama e da retumbante vitória do Partido Republicano na eleição de 2016, a maior em quase 80 anos. Mesmo que ainda haja algumas pobres almas que ainda repitam a piada sem graça de que a Rússia teria decidido a eleição de Trump, uma teoria conspiratória constrangedora, de corar qualquer pessoa séria, o sentimento geral é que se o Partido Democrata não quiser ser atropelado por Trump em 2020 terá que colocar seus políticos análogos a Guilherme Boulos e Manuela Dávila para escanteio e voltar a ouvir os mais próximos de Geraldo Alckmin ou Marina Silva.

Até Mark Penn, antigo conselheiro dos Clintons, acaba de dizer que Hillary pode disputar a próxima eleição presidencial, sinalizando à ala mais socialista do partido que os “tucanos ianques” ainda não entregaram os pontos. A derrota de Andrew Gillum para o governo da Flórida é sintomática: ainda mais radical que os mais extremistas do seu partido, concorreu com algumas bandeiras de fazer o PSTU ou PSOL parecerem moderados. Gillum foi abraçado por Obama e seus minions, recebeu uma fortuna para disputar um estado com uma parte grande e importante da população de origem latina, e mesmo assim perdeu para o concorrente Republicano Ron DeSantis, um dos candidatos mais identificados com Trump e suas políticas este ano.

Não há dúvidas que ninguém no Partido Republicano fez festa por perder o controle da Câmara dos Deputados, mas as 26 cadeiras perdidas por Trump, mesmo número de Reagan em 1982, não são nada perto das 54 cadeiras que Bill Clinton perdeu em 1994 ou das 63 cadeiras que Obama viu trocarem de lado em 2010, perdendo ainda outras 13 em 2014, numa casa já dominada por seus opositores, perdendo também o controle do Senado. Sabemos que números e fatos podem ser um incômodo aos guardiões dos portões das narrativas, mas a verdade é que comparado a Obama, Trump e o Partido Republicano poderiam soltar fogos de artifício.

É importante ressaltar também que Trump estava com dificuldades para avançar suas principais agendas na Câmara, uma situação complicada para quem em tese controla a casa. Agora sem o controle será muito mais fácil culpar a oposição pelo obstrucionismo, o que da a ele uma ótima narrativa para 2020. A retomada da Câmara pelos Democratas significa mais poder no jogo e, consequentemente, mais responsabilidade. Muitos Democratas tentarão prosseguir com a agenda do impeachment, mas serão cobrados em 2020 por pautas impactantes na sociedade, como a da imigração e o sistema de saúde que são muito mais pertinentes e urgentes do que uma chuva de intimações e depoimentos com o foco apenas em novas investigações contra Trump.

Além da economia e da bolsa estarem em alta, com ganhos claros para o cidadão, especialmente das minorias com recordes históricos de emprego, o ISIS foi vencido, a Coréia do Norte emparedada e os famigerados acordos internacionais mais lesivos ao país estão sendo, um a um, questionados ou revogados. Os investimentos vão bem, obrigada, e a economia na América está voltado a um nível de euforia só vista nos tempos de Ronald Reagan, por isso, para a grande maioria silenciosa de eleitores moderados de ambos os partidos, impeachment não é prioridade e não agregaria nada à uma economia saudável e próspera como a atual.

O Partido Democrata continua numa luta interna feroz entre os mais extremistas para a esquerda, liderados por Barack Obama, e os social-democratas, liderados pelos Clintons (apesar de que a família é conhecida por mudar posições para seguir o dinheiro). Os opositores de Trump podem chegar divididos nas primárias como estavam na última, e se a próxima Câmara não encontrar nada contra Trump em alguma futura investigação, ele deve seguir confortável no comando do Partido Republicano, que deve aprovar seu nome por aclamação na próxima convenção para a corrida presidencial de 2020.

A chamada “onda azul” que foi prevista por muitos analistas, simplesmente não aconteceu. Os Democratas de melhor desempenho nas urnas foram, na sua maioria, os mais moderados, e nunca houve tantos candidatos ex-militares entre os azuis, um perfil muito mais comum no Partido Republicano. Na eleição onde eleitores moderados, de ambos os partidos, foram os vencedores, não vimos por aqui sequer uma marolinha Democrata. Onda mesmo, continua a das fake news. Segurem suas pranchas!