terça-feira, 30 de novembro de 2021

Blog em férias por uma semana

 


Aos leitores, um grande abraço.

Até a próxima semana.

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

"A Conspiração Antivacina": grandes virtudes e pequenos defeitos de um documentário.

O bobalhão da foto é irmão de Jeremy Corbyn, troglodita ideológico do trabalhismo inglês.

Em 2020, quando foram anunciadas vacinas de alta eficácia da Moderna, Pfizer e Janssen, os antivax em geral e Wakefield em particular já “sabiam”, antes de olhar qualquer dado, que seriam um "embuste", quando não alegavam que o novo coronavírus e a pandemia eram invenções. Eli Vieira para a Gazeta do Povo:


“Uma nova verdade científica não triunfa pelo convencimento de seus oponentes”, disse em sua 'Autobiografia Científica' (1950) o físico Max Planck, “é raro acontecer de Saulo se tornar Paulo. O que de fato acontece é que os seus oponentes gradualmente saem de cena pela morte”. Essa visão trágica do progresso científico, que assim aconteceria um funeral por vez, felizmente não é verdade para todos os envolvidos. Mas parece ser verdade para pessoas como Andrew Wakefield, retratado em detalhes no documentário 'A Conspiração Antivacina', no catálogo da HBO Max Brasil, originalmente do britânico Channel 4. O filme, de pouco mais de uma hora, é um documento importante e bem-produzido sobre os efeitos de crenças sem base a respeito das vacinas.

Wakefield, 65, é um ex-médico britânico que alegou, em um artigo publicado em 1998 pela revista The Lancet, que a vacina tríplice viral (para sarampo, caxumba e rubéola) causaria autismo nas crianças, pela via de uma inflamação intestinal. Tentativas de repetir os achados de Wakefield falharam. O Conselho Geral Médico britânico cassou a licença de Wakefield em 2010, após conduzir um inquérito e concluir que ele cometeu uma série de negligências, incluindo maus tratos a crianças com deficiência.

Investigações jornalísticas também revelaram que ele tinha conflito de interesses: se sua hipótese fosse aceita, ele lucraria milhões de dólares anualmente com um teste. No mesmo ano de 2010, a Lancet removeu o artigo. Nada disso serviu para convencer Wakefield a pelo menos tentar refazer o seu estudo. Em vez disso, como mostra o documentário, ele se mudou para os Estados Unidos e fez parceria com praticantes de “medicina alternativa”, e agora é um ativista antivacina em tempo integral. Mora na Flórida, onde tem boa vida.

Nos Estados Unidos, o fundador do movimento antivacinas encontrou apoiadores endinheirados, incluindo uma herdeira da fortuna da farmacêutica Johnson & Johnson. Celebridades como Jim Carrey e Robert DeNiro começaram a levantar dúvida sobre a segurança das vacinas. Donald Trump deu ouvidos a Wakefield, mas o movimento sempre transcendeu as barreiras políticas: um dos antivax mais atuantes no Reino Unido hoje, por exemplo, é Piers Corbyn, irmão mais velho de Jeremy Corbyn, que durante uma temporada recente na liderança do partido Trabalhista tentou aproximá-lo do socialismo marxista.

Os efeitos da popularização da rejeição às vacinas logo começaram a aparecer. Surtos de sarampo e caxumba começaram a voltar, inclusive nas comunidades ao redor das melhores universidades americanas. Elites naturebas progressistas estavam parando de vacinar seus filhos. A pandemia trouxe uma grande oportunidade para o movimento antivax. Em 2020, quando foram anunciadas vacinas de alta eficácia da Moderna, Pfizer e Janssen, os antivax em geral e Wakefield em particular já “sabiam”, antes de olhar qualquer dado, que seriam um "embuste", quando não alegavam que o novo coronavírus e a pandemia eram invenções.

O documentário mostra que o que os antivax têm a seu favor é uma mera coincidência: o mesmo período em que a tríplice viral é administrada, dos 18 meses a dois anos de idade, é quando as crianças que têm autismo começam a dar sinais de seu neurodesenvolvimento diferenciado. O autismo hoje é explicado na maior parte por variantes genéticas comuns em combinações raras e variantes genéticas raras. Com base na pesquisa com outras características complexas, como a altura, a perspectiva é que a parte inexplicada seja esclarecida, em parte também em variantes raras ainda não conhecidas.

A parte mais chocante do filme são as “terapias alternativas” para autismo que ocorrem entre os antivax. A pior delas é chamada por um de seus fabricantes de “Solução Mineral Milagrosa”. Na verdade, é uma solução de água sanitária. Esses pais administram água sanitária para suas crianças por via oral ou anal. Em contato com a mucosa, a água sanitária a transforma em sabão. A criança então expele tecido morto da luz intestinal, que é tratado como um sinal de que a criança está sendo purgada das toxinas das vacinas e curada do autismo. Sem dúvida, uma grande ignorância e preconceito contra o espectro do autismo acompanha essas intervenções e a crença de que a “culpa” é das vacinas.

Onde o documentário poderia ganhar mais nuance

A Conspiração Antivacina é um ótimo filme para apresentar ao público os perigos do movimento iniciado por Wakefield e da formação de crenças de forma irracional. Famílias são rompidas, vidas são perdidas, recursos são desperdiçados.

Há partes em que o documentário poderia ter sido mais nuançado. Por exemplo, as vacinas tradicionais são tratadas como a mesma coisa que as novas vacinas de mRNA. Mas há um importante debate semântico a respeito disso. Alguns propõem que os produtos de mRNA da Moderna e da Pfizer não são vacinas, mas terapia gênica.

Nenhuma das duas coisas é óbvia à primeira vista. Já que vacina consiste em apresentar uma versão enfraquecida do patógeno ao sistema imune, apresentar uma única molécula do patógeno pode ser essa versão enfraquecida, então esses produtos seriam vacinas. Mas essa molécula, a proteína S, não é apresentada diretamente, mas fabricada pelas nossas próprias células a partir da instrução do mRNA, o que lembra algum tipo de terapia gênica. Há alguma plausibilidade aí, mas poderia ser forçada.

A função de uma terapia gênica é prover alívio para alguma insuficiência provocada por mutações ou outros defeitos genéticos. Pode ser que se desenvolva terapia gênica cujo tratamento é administração do mRNA, mas isso seria um subconjunto. Haveria terapia gênica de outros tipos: baseada em iRNA (RNA de interferência), por exemplo, e baseada em modificar o DNA, o que não é o caso dos produtos da Pfizer e da Moderna. Então chamá-los de terapia gênica é como chamar cidade de vila: às vezes é, às vezes não é.

Mais importante que a semântica é o fato de que ainda estão em aberto questões a respeito das vacinas de mRNA como a miocardite em homens jovens, que ainda não podemos afirmar com certeza se é mesmo menos preocupante que a própria COVID-19. Se alguns espectadores interpretarem o documentário como se endossasse que toda preocupação com efeitos colaterais é igual ao dogmatismo inconsequente do Wakefield, isso seria um problema.

O documentário não faz esforço em dissipar essa má interpretação, e não traça distinção entre preocupações liberais legítimas com o autoritarismo sanitário e o movimento antivacinas. O único que parece preocupado com liberdade no documentário é Wakefield, falando por um telão na Trafalgar Square em Londres. É preciso mostrar que a defesa da liberdade não é inimiga da vacinação, e nisso o filme falha.

Nos últimos dez minutos, especialmente, o documentário conta que os negros americanos são especialmente propensos a recusar as vacinas e aceitar a mensagem dos antivax por serem uma minoria que desconfia do governo. Como sabem todos os que acompanharam política americana durante a pandemia, um dos maiores responsáveis por inflar essa desconfiança foi o movimento Black Lives Matter e seus apoiadores na academia, na grande mídia e nas artes, que fazem sensacionalismo com casos não representativos de encontros da polícia com a população negra do país para confirmar os dogmas da ideologia identitária.

Não que não haja motivos para desconfiar das autoridades, e, em especial, das farmacêuticas, cuja ficha suja não é tocada no documentário. Nem todas as crenças absurdas dos antivax são completamente destituídas de alguma correspondência longínqua com a realidade. Apesar desses problemas, o documentário vale a pena.

Biografia de Lula torna o leitor cúmplice de uma farsa político-intelectual


Em “Lula, volume 1”, o biografado é um herói abnegado, um ungido vítima de uma injustiça e investido da missão de provar sua inocência e, mais uma vez, salvar o país do jugo das elites. Paulo Polzonoff para a Gazeta do Povo:


Terminei de ler “Lula, volume 1”, de Fernando Morais, há uma semana. Abandonei o Kindle sobre o criado-mudo e, sei lá, fui viver a vida. Não fiz anotações, não dei estrelinhas no Goodreads. Sabendo que teria de escrever sobre o assunto, o máximo que consegui concatenar ao virar a última frase foi o título que encima esta coluna. E que, por puro milagre, não esqueci.

Foi necessária uma bronca do meu editor para que eu me lembrasse da leitura do calhamaço inútil. “Quero o texto sobre a biografia do Lula sobre a minha mesa até as 17h!”, exigiu ele. Me prontifiquei a fazer o que fosse possível. E, assim, os dias foram passando sem que eu fosse capaz de escrever sobre um livro que nada mais é do que um razoável fenômeno editorial oportunista de uma época corrompida pela estupidez ideológica.

Meu trabalho de Hércules tinha um complicador: o fato de eu escrever, em tese, para uma maioria de leitores que não nutre exatamente admiração pelo biografado. Nem pelo biógrafo. Ora, eu mesmo não nutro admiração ou simpatia por eles. Se Lula desperta em mim alguma coisa além de asco é só porque se trata de uma figura de inegável importância histórica. Quanto a Fernando Morais, eu agradeço pelo prazer que senti ao ler "Chatô" na adolescência. Fora isso, que pena, Fernandinho. Que pena!...

Aí se impõe o primeiro desafio ao leitor: como consumir com “neutralidade”, ou melhor, com honestidade intelectual um produto que se sabe de antemão contaminado por desonestidades político-intelectuais de toda sorte? A meu ver, é impossível. E olha que eu tentei, hein? Ah, se tentei. Linha por linha dos primeiros capítulos eu li dando todos os tipos de descontos para o autor e o objeto de sua obra. Mas o que fazer se, também linha por linha, me deparava com adjetivos e advérbios malandramente planejamentos para compor uma peça de propaganda muito distante de se passar por documento histórico?

É isso o que “Lula, volume 1” faz: torna o leitor cúmplice de uma farsa político-intelectual. Político-editorial? Político-historiográfica? Enfim, uma farsa. Como se o simples ato de ler 600 páginas chancelasse a falsa narrativa épica do herói descalço que virou imperador dos pobres, foi preso injustamente por um juiz malvado e ressurgiu das cinzas nos braços do povo, em meio a um regime fascista. Olha só esse trecho aqui (um dos poucos que anotei) em que Fernando Moraes fala da violência das delações premiadas que culminaram com a prisão de corruptos e corruptores: “Nem todos, porém, se deixaram vergar à violência. Isso não ocorreu apenas entre militantes do PT, como o bancário João Vaccari Neto...”

Em resumo, se eu lesse “Lula, volume 1” no ônibus, teria que ficar balançando negativamente a cabeça, só para mostrar aos outros passageiros que não concordo com nada daquilo. O que, por lógica, me faz crer que a biografia tenha sido escrita justamente para que os militantes exibam a sua fidelidade ao líder petista, numa triste (mas provável) sinalização de desvirtude. Curiosamente, só senti uma espécie de prazer intelectual ao ler “Lula, volume 1” depois que comecei a imaginar como um militante petista estava lendo aquele troço. Digo, tudo o que eu lia levemente indignado o petista deveria estar lendo com um prazer escandaloso.

A começar pela opção do autor de contar a vida de Lula partindo de sua prisão. Veja só. O homem governou o país por 8 anos; durante esse tempo, falou e fez o que quis; se deixou de fazer alguma coisa, não foi por falta de oportunidade; teve o apoio (comprado) do Congresso, do Judiciário, da maioria da população; deixou o cargo com recordes estratosféricos de aprovação. E ainda assim o biógrafo tem a pachorra de me dizer que Lula estava sendo preso para impedir a salvação do Brasil?

Sem falar nos muitos momentos, uns mais explícitos, outros até que sutis, de idolatria. “Lula aparentava tranquilidade” é uma descrição que, não por acaso, aparece trocentas vezes ao longo da narrativa da prisão. Que, por sinal, Fernando Morais introduz como um momento de ruptura na normalidade democrática. “A atmosfera era a de um modorrento fim de expediente como qualquer outro”, escreve Morais. Na primeira frase do livro!

Em “Lula, volume 1”, o biografado é sempre racional. Sempre carinhoso. Sempre compreensivo. Se Lula se zanga, sua ira é justificável. Afinal, ele é um herói abnegado, um ungido vítima de uma injustiça e investido da missão de provar sua inocência e, mais uma vez, salvar o país do jugo das elites. Não que eu, conhecendo o trabalho de Fernando Morais como conheço, esperasse dele uma “análise crítica” de Lula. Mas seria demais pedir um pouco de parcimônia? Um pouco de humanidade – no sentido até de se querer entender as motivações erradas de um personagem que é imperfeito por ser humano, e não só por ser petista, esquerdista, comunista, adorador de ditadores, mitômano, narcisista, messiânico, hipócrita, etc.

Felizmente para Morais, consta que o livro está vendendo bem, obrigado. Cinquenta mil cópias teriam sido vendidas na primeira semana. O que só prova que, entre os raros leitores deste país, Lula ainda é uma sereia de canto mortalmente sedutor. Isso sem falar nos que compraram o livro apenas para expô-lo na mesinha de centro, a fim de que ele sirva de tema de conversa. Ou provocação.

Infelizmente para Morais, e felizmente para quem resiste a se deixar seduzir pela sereia rouca, acintosos esforços de propaganda como “Lula, volume 1” tendem a perder força com o tempo, sobretudo depois que o biografado morre, o mito se decompõe e a verdade prevalece, senão nas estantes dos quartos-e-salas fedorentos da intelligentsia, nesse éter justo que chamamos de imortalidade.

Recordando Holodomor e celebrando a democracia liberal


Recordar a tragédia do Holodomor implica recordar as trágicas consequências do totalitarismo soviético. Por contraste, implica também celebrar a democracia liberal — assente na recusa do estado total. Texto do professor João Carlos Espada para o Observador:


1 Realizou-se na passada quarta-feira, 24 de Novembro, na Universidade Católica Portuguesa, um debate sobre a tragédia do Holodomor, a fome premeditadamente produzida em 1932-33 na Ucrânia pelo regime comunista soviético que gerou milhões de mortes. A iniciativa contou com a colaboração do Instituto + Liberdade, dirigido por Carlos Guimarães Pinto, que trouxe à Universidade Católica a exposição itinerante internacional “Totalitarismo na Europa” — inaugurada em Portugal no Palácio da Bolsa, no Porto, em Agosto, depois na Universidade de Coimbra, agora aberta ao público na Católica de Lisboa, graças ao generoso Anfitrião, Paulo Pinto, professor da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica e director do Cultura at Católica.

O debate, num vasto auditório totalmente preenchido, contou com eloquentes intervenções de Carlos Guimarães Pinto, Aline Beuvink, Rita Seabra Brito, João Pereira Coutinho e José Miguel Sardica. Não seria possível resumir aqui a riqueza e profundidade das intervenções então apresentadas.

2 Mas talvez seja possível recordar aqui que esta evocação da tragédia do Holodomor foi inserida numa Aula Aberta da cadeira de Mestrado e Doutoramento do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica intitulada “Tradition of Liberty” (que tenho o prazer e privilégio de leccionar). Trata-se de uma cadeira sobre ideias políticas — história das ideias políticas, sobretudo, embora não exclusivamente, no século XX. Não se trata, por isso, de uma cadeira de História dos acontecimentos políticos do século XX.

No entanto, no centro da cadeira “Tradition of Liberty” sobre as ideias políticas está a premissa fundamental de que as ideias têm consequências. E as ideias políticas têm e tiveram retumbantes consequências políticas — algumas delas simplesmente trágicas.

3 Não é por isso por acaso que a cadeira “Tradition of Liberty” começa com um primeiro capítulo, designado “The Total State vs. Liberal Democracy”, dedicado ao “Manifesto Comunista” de Marx e Engels publicado em 1848; em seguida ao artigo de Benito Mussolini na Enciclopédia Italiana, em 1932, sobre “A doutrina do fascismo”; e, finalmente, à conferência de Carl Schmitt, de 1931, sobre “Quando o Parlamento não pode ser soberano”.

Estes três textos, que são apresentados na íntegra aos alunos e não através de interpretações pessoais do docente, convergem na defesa do que os próprios autores designaram como “Estado Total”: a ditadura do proletariado, na expressão de Marx e Engels; o ‘estado totalitário’, na designação de Mussolini; o ‘estado total’, na designação de Schmitt. Todos estes autores escreveram contra a democracia liberal, que apelidaram de “burguesa, oligárquica e capitalista”. E todos eles defenderam como alternativa um ‘estado total’.

4 Esta ideia do ‘estado total’ traz-nos de volta à tragédia do Holodomor. Trata-se de uma das mais chocantes expressões de como as ideias têm consequências. A fome na Ucrânia nos anos 1932-33 não foi resultado de causas naturais. Ela foi inteiramente provocada pela vontade política em nome de uma ideia — a ideia de destruição da propriedade privada, em nome da imposição de um novo modo de produção colectivista, alegadamente ditado pelo rumo inexorável da história e cientificamente interpretado pelo novo estado total, a ditadura do proletariado, liderada pela sua vanguarda, o partido comunista.

5 É incontornável recordar aqui o filósofo austro-britânico Karl Popper (1902-1994), um dos mais devastadores críticos dos totalitarismos, da chamada esquerda e da chamada direita, (também ele incluído na cadeira “Tradition of Liberty”). Disse Popper sobre Karl Marx que o dogmatismo ideológico marxista assentava na teoria alegadamente científica de que a história tinha um sentido pré-determinado — o comunismo — que Marx teria decifrado. Popper mostrou que essa teoria não podia ser científica, uma vez que, não possuindo horizonte temporal definido, não admitia a possibilidade de ser refutada pelos factos.

Popper alertou em seguida para as devastadoras consequências (a)morais do historicismo marxista, alegadamente científico. Marx desprezara o papel das escolhas morais das pessoas, considerando-as uma ‘ilusão moralista e burguesa’. Os valores morais seriam meros produtos da época histórica e serviam apenas para justificar os interesses materiais das classes sociais.

Karl Popper argumentou em seguida que este alegadamente científico relativismo historicista abria caminho à tirania do capricho, ou da vontade liberta de qualquer escrúpulo moral, ou do estado total.

6 A tragédia do Holodomor foi uma terrível expressão de como as ideias têm consequências — e de como o chamado “socialismo científico” de Marx, Engels, Lenine e Staline destruiu todas as fronteiras morais.

7 Vale a pena recordar que, no dia seguinte ao evento sobre o Holodomor na Universidade Católica, ocorreu o 25 de Novembro — aniversário da restauração da democracia entre nós, em 1975, e, por coincidência este ano, também Thanksgiving Day na América — “Land of the Free, Home of the Brave”. As duas datas celebram a democracia liberal, assente na limitação do poder e na rivalidade civilizada entre pelo menos dois partidos rivais, um ao centro-direita outro ao centro-esquerda, sob o primado da lei.

Sintomaticamente, o Thanksgiving Day é agora contestado pela esquerda radical americana, que o acusa de “burguês, oligárquico e capitalista”. Entre nós, o 25 de Novembro é usualmente esquecido pela esquerda radical — que o acusa de “burguês, oligárquico e capitalista”. Mas há também agora entre nós cronistas auto-designados de “direita” (qual delas? seria útil perguntar), que acusam o 25 de Novembro de ter sido “burguês, oligárquico e capitalista” — e, ainda por cima, “de esquerda”.

Tal como os da extrema-esquerda, estes autores de uma auto-designada “direita” (qual delas?, volto a perguntar) argumentam que teria sido preferível ter havido em Portugal, em Novembro de 1975, um confronto entre extrema-esquerda e extrema-direita. Mário Soares, Sá Carneiro, Adelino Amaro da Costa, Ramalho Eanes, Ernâni Lopes e Aníbal Cavaco Silva felizmente salvaram-nos desses tribalismos terceiro-mundistas rivais.

8 E é de terceiro-mundismo que se trata, quando assistimos hoje à identificação do chamado “centro” como lugar de cobardia, ou como recusa da rivalidade entre partidos de centro-esquerda e de centro-direita. Nas democracias liberais ocidentais (por contraste com as pseudo-democracias do terceiro-mundo lideradas por “Generais Tapioca”), o “centro” não designa um partido nem uma coligação de partidos. Apenas designa um chão comum de acordo constitucional, sobre o qual necessariamente devem concorrer partidos rivais, um ao centro-direita, outro ao centro-esquerda.

Winston Churchill — um orgulhoso “burguês, capitalista e parlamentar” — explicou isso muito bem em Outubro de 1943 no discurso sobre a reconstrução do Parlamento britânico, entretanto destruído pelos bombardeamentos aéreos do ardentemente anti-burguês “nacional-socialismo dos trabalhadores alemães” (liderado pelo Cabo Hitler). O Parlamento britânico, disse Churchill, devia ser reconstruído na sua tradicional disposição rectangular, de forma a manter clara a sua função moderadora, pluralista, liberal e democrática: de um lado está o partido do Governo, do outro está o partido da Oposição — cuja principal missão consiste em controlar o Governo no Parlamento e em preparar-se para destituir o Governo vigente nas próximas eleições.

Por outras palavras, ambos rivalizam entre si e simultaneamente subscrevem entre si as ancestrais regras civilizadas da soberania do Parlamento. Por este duplo motivo — de rivalidade política e de convergência constitucional (dificilmente entendível pelos tribalismos do terceiro mundo dos Generais Tapioca) — o líder do Governo e o líder da Oposição lideram lado a lado a procissão dos deputados da (eleita) Câmara dos Comuns em direcção à (não eleita) Câmara dos Lordes, para assistirem ao Discurso da Rainha.

9 Para concluir, tenho o prazer de enfrentar a pergunta que Karl Marx, Benito Mussolini e Carl Schmitt (podíamos acrescentar Friedrich Nietzsche, para não ter de mencionar os menores Cabo Hitler ou os camaradas Lenine e Staline) dirigiram às democracias “burguesas, oligárquicas e capitalistas”: “Quem e em nome de quê definiu as regras das democracias burguesas, oligárquicas e capitalistas?”

A resposta do Ocidente — liberal, democrático, anti-autoritário — é basicamente pluralista. As nossas regras constitucionais não foram inventadas por ninguém, por nenhuma revolução nem mesmo por nenhum déspota esclarecido do chamado Iluminismo continental. Elas simplesmente emergiram gradualmente, através de reformas e não de revoluções, fundadas nos preceitos morais herdados de Atenas, Roma e Jerusalém.

Holodomor, o Holocausto comunista, foi abafado por intelectuais ocidentais.


Termo quase desconhecido vem à tona quando se analisa o histórico do atual conflito entre Rússia e Ucrânia. João Pereira Coutinho via FSP:


Amanhã será o quarto sábado de novembro. O que significa que será altura de relembrar o Holodomor. Escrevo essa palavra –Holodomor– e pressinto que muitos leitores não sabem do que estou a falar.

Esse desconhecimento é revelador da forma ambígua como o mundo olha para os crimes do comunismo, sobretudo quando comparados com os crimes do nazismo.

Se eu tivesse escrito "Holocausto", não haveria dúvidas. Mas Holodomor, ou seja, a grande fome soviética promovida por Stálin em 1932-1933 e que provocou 4 milhões de mortes só na Ucrânia (estimativa conservadora), é conceito obscuro.

Para preencher essa lacuna, recomendo um livro: "Red Famine", de Anne Applebaum. Depois do clássico de Robert Conquest, "The Harvest of Sorrow", publicado em 1986, a obra magistral de Applebaum é um monumento historiográfico contra o esquecimento.

Não é uma experiência agradável, aviso já, porque a martirizada Ucrânica sempre foi aquele elemento estranho na mundividência bolchevique —um problema político, pela sua forte identidade nacional; uma oportunidade econômica, por ser o celeiro da Europa.

E a revolução precisava desse celeiro para alimentar as tropas do Exército Vermelho, os membros do partido, os simpatizantes da causa.

Além disso, a exportação de grão para uma Europa faminta depois da Primeira Guerra Mundial também servia como arma preciosa para Lênin forçar os restantes países a reconhecerem o novo Estado soviético.

Quem pagava a fatura dessa espoliação era o campesinato ucraniano. As primeiras grandes fomes na Ucrânia acontecem entre 1921 e 1923 e o saldo oscila entre os 250 mil e os 500 mil mortos.

Se esses números nos parecem dantescos, eles empalidecem dez anos depois quando Stálin promove a coletivização forçada da agricultura soviética.

"Coletivização" é palavra demasiado branda para descrever um processo que implicava o confisco da propriedade privada; a reinstituição da servidão "de fato" para os trabalhadores do Estado; a eliminação quase completa de uma classe artificialmente criada —os "kulaks", inicialmente camponeses mais abastados, mas depois qualquer opositor do regime; e, finalmente, a punição pela fome.

Tal como na década de 1920, era necessário cumprir cotas de produção cada vez mais excessivas e irrealistas. E, quando a produção não correspondia ao plano de Moscou, a "requisição" dos bens era o passo seguinte, executada por hordas tão famintas como os próprios camponeses.

Para agravar o problema, Stálin impediu o deslocamento regional dos trabalhadores em busca de comida. Aprisionados à suas terras estéreis e condenados à fome, tudo servia como alimento —ervas, raízes, cascas de árvores. O canibalismo não foi uma raridade.

Ler as páginas de Anne Applebaum com testemunhos de sobreviventes é das experiências intelectuais mais duras que conheço. Mas ler a forma como a "intelligentsia" ocidental ocultou esses crimes é igualmente insuportável.

Um desses "idiotas úteis" foi Walter Duranty, o correspondente do "New York Times" em Moscou, que garantia em artigos de puro servilismo que a fome era um mito. As suas reportagens, sem surpresa, ganharam o prêmio Pulitzer.

Nem todos colaboraram com a mentira. A mais importante exceção foi Gareth Jones, o jornalista galês que viajou para a Ucrânia em inícios da década de 1930 para testemunhar o horror.

Também sem surpresa, não houve prémio Pulitzer para Jones. Mas existe um filme recente que relembra a sua vida e coragem: "A Sombra de Stálin", de Agnieszka Holland. Recomendo.

Era William Faulkner quem afirmava: "O passado nunca está morto. Na verdade, nem sequer passou". É uma frase que serve como uma luva para o tempo presente.

Primeiro, porque os "idiotas úteis" continuam tão úteis (e tão idiotas) como sempre.

Mas também porque as autoridades ucranianas acreditam que a Rússia, em 2022, vai invadir o país em operação de larga escala. Verdade? Mentira?

Ninguém sabe. Mas depois da anexação da Crimeia e com milhares de tropas russas na fronteira ucraniana, é pelo menos verossímil. E a história só reforça essa verossimilhança.

Como disse Vladimir Putin, o fim da URSS foi "a maior catástrofe geopolítica" do século 20. Razão pela qual o ano de 2022 tem um simbolismo especial: passarão 100 anos sobre a constituição da União Soviética.

Em política, nada é mais letal do que a força da nostalgia.

O "momento Moro" é passageiro ou duradouro?


A confirmação de que pretende disputar a presidência e as articulações que ele iniciou com outros partidos gerou uma reação dos adversários e teve um reflexo nas últimas pesquisas que sem dúvida criaram o que se pode chamar de "momento Moro". Diogo Schelp para a Gazeta do Povo:


Alguém pode, com certa razão, já de saída questionar o título acima. "Momento Moro"? Pode-se falar isso de um pré-candidato à presidência que aparece apenas em terceiro ou quarto lugar nas intenções de voto, a depender da pesquisa, e cerca de 20 pontos percentuais atrás do segundo colocado, o presidente Jair Bolsonaro?

Sergio Moro, o ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro da Justiça de Bolsonaro que há três semanas filiou-se ao Podemos, realmente está longe de ser favorito na corrida eleitoral. Mas a confirmação de que pretende disputar a presidência e as articulações que ele iniciou com outros partidos gerou uma reação dos adversários e teve um reflexo nas últimas pesquisas que sem dúvida criaram o que se pode chamar de "momento Moro".

Se não, vejamos. Depois de o Podemos lançar seu nome e após o ex-juiz começar a conceder entrevistas em série, a chamada terceira via, o bololô de candidatos que se apresentam como alternativa à polarização Lula-Bolsonaro, levou um chacoalhão.

Primeiro, por causa do efeito do momento Moro nas pesquisas. Em algumas delas, ele até aparece com dois dígitos de intenção de voto, com certa vantagem em relação ao quarto colocado, Ciro Gomes (PDT), fora da margem de erro. Os analistas mais afoitos chegaram até a falar em uma possível desistência de Ciro.

Segundo, porque Moro engatou em conversas com outros partidos, em busca de alianças: Cidadania, Patriota (o partido do senador Flávio Bolsonaro), Novo, Republicanos (ao qual o presidente Bolsonaro cogitou se filiar) e, mais importante, o União Brasil, fusão de PSL e DEM. A nova sigla nasce com a maior bancada na Câmara dos Deputados e um dos maiores nacos do fundo eleitoral, além de um ótimo tempo para propaganda gratuita em rádio e TV.

Ou seja, Moro mal entrou na corrida e já está mais adiantado naquilo que outros nomes da terceira via ainda sofrem para fazer: unir esforços em torno de uma candidatura única.

Terceiro, porque essas conversas já renderam até uma desistência que o favorece (outras podem se seguir). O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, que era cogitado como candidato do União Brasil para a presidência e pontua 2% de intenção de voto nas pesquisas, avisou aos correligionários que não vai concorrer mais e recomendou o apoio a Moro. Há uma articulação para lançar Mandetta, que ganhou projeção durante a pandemia e até a simpatia de uma parcela da centro esquerda, a vice de Moro.

Quarto, porque a entrada de Moro no que podemos chamar de corrida de classificação motivou a adesão de nomes importantes. O Podemos anunciou a filiação do general Carlos Alberto de Santos Cruz, também um ex-ministro de Bolsonaro, em um movimento que pode servir de incentivo para outros militares entrarem no barco morista, incluindo o vice-presidente Hamilton Mourão, que já foi descartado por Bolsonaro em sua chapa para 2022.

O partido deve receber na próxima semana o ex-procurador da Lava Jato Deltan Dallagnol. Até a deputada estadual Janaína Paschoal, do PSL em São Paulo, que chegou a ser aventada como vice de Bolsonaro em 2018, em entrevista na semana passada, não descartou a ida para o partido de Moro. O Podemos está aproveitando o momento Moro.

A questão é saber se o momento Moro pode ser duradouro ou apenas fogo de palha. Por enquanto, sua conversão definitiva em político é novidade. Suas entrevistas e discursos ganham atenção no noticiário. As críticas dos adversários, que ora o chamam de "comunista", ora de "agente da CIA", dão ainda mais ênfase ao seu nome.

No entanto, com o passar do tempo, quanto mais ele se arrisca da falar de outros assuntos, como economia e questões comportamentais, mais os seus pontos fracos se tornarão conhecidos.

O momento Moro pode passar e, em vez de se refletir em crescimento nas pesquisas, resultar em estagnação. Se isso ocorrer, outras forças políticas terão menos incentivo ou ímpeto para engajar-se em conversas para unificar a terceira via em torno de Moro.

O resultado da confusa prévia do PDSB e a estratégia a ser adotada por Ciro Gomes a partir de agora podem ter um impacto para estancar o momento Moro, mas não muito. No fundo, o fator primordial será se o ex-juiz conseguirá criar uma persona política que vá além da temática anticorrupção.

Em memória de Antonio Escohotado


O Instituto Juan de Mariana presta homenagem ao filósofo e ensaísta espanhol Antonio Escohotado, falecido em 21 de novembro:


Ha muerto, a los 80 años, Antonio Escohotado, premio Juan de Mariana 2019. Más que en otros casos, su vida es ejemplo de la libertad que defendió en su obra escrita. Escohotado fue un trabajador incansable del conocimiento. Buscó la verdad sin descanso; un empeño que le llevó a defender la libertad en un sentido muy amplio, no sólo frente a la tentación autoritaria del poder, sino frente a la pulsión censora de una parte relevante de la sociedad.

Escohotado dejó escrito en Caos y orden que «La influencia del totalitarismo ha llevado a disociar sistemáticamente libertad formal y libertad material, por más que sean cara y cruz de la misma moneda: Allí donde lo uno no está asegurado, no está asegurado lo otro». Una vez definimos el entorno ude los derechos de la persona, que no se pueden violar, nos queda el resto del infinito terreno de la acción del hombre; y esa es la libertad formal. La libertad material, tal como la entendía Antonio Escohotado, que supone estar a la altura de los propios objetivos vitales.

Su Historia general de las drogas escribió la obra de referencia en ese campo. Se acercó a ese problema desde un punto de vista plural, utilizando la historia como la sociología, la economía como el derecho, y el resultado es millar y medio de páginas que muestran que la prohibición es ilegítima, atenta contra la libertad, y además causa males mucho más graves que los que intenta solventar.

Caos y orden es el máximo ejemplo de la capacidad de Antonio Escohotado para aunar distintas disciplinas, a las que suma la filosofía y la física, en una obra eminentemente original, y de largo alcance. El filósofo propone un camino difícil, pero no árido, que parte de conceptos de la física y concluye en una visión de la sociedad y la cultura abierta, flexible y libre.

Pero es su apabullante historia del comunismo, Los enemigos del comercio, su obra más importante. Si la concluyó fue porque no supo, cuando comenzó a trabajarla, que hacerlo bordeaba los límites de lo imposible. Un empeño sin descanso logró que Escohotado haya escrito la mejor obra sobre el comunismo, que comienza en los albores del pensamiento y llega hasta nuestros días.

Escohotado nos deja, además, una forma de estar en el mundo. Nos invita a no permanecer impasibles y a no caer en el desaliento cuanto nuestra libertad está amenazada. Nos emplaza a no ser victimistas, sino luchadores. Para serlo basta con seguir su ejemplo.

Descanse en paz.

Peter Doocy: o único repórter que não dá vida mansa a Joe Biden.


A arte de entrevistar presidentes gritando perguntas em eventos ao ar livre deu ao repórter da Fox uma oportunidade que colegas deixam passar. Vilma Gryzinski:


É uma tentação chamar Peter Doocy de “o Jim Acosta de Joe Biden”. Vamos resistir a ela porque é uma falsa comparação. Enquanto Acosta, da CNN, confrontava Donald Trump em tom agressivo, Doocy, o setorista de Casa Branca da Fox, só levanta a voz quando o ruído ambiental, tipo rotor de helicóptero ao fundo, exige. Na maior parte do tempo, principalmente quando está fazendo perguntas a Jen Psaki, a porta-voz presidencial, ele mantém um inalterável e monocórdio tom.

Como é o único a fazer perguntas mais contundentes, Doocy acaba repercutindo nas emissoras concorrentes – ao contrário de Jim Acosta, que se transformou em protagonista, desafiando um dos mais basilares mandamentos dos jornalistas, que é não virar o assunto principal.

Doocy resiste a isso, embora inevitavelmente seja celebrado nos sites conservadores quando consegue emboscar a falante porta-voz. Com 33 anos, vistosa cabeleira loira e maxilar quadrado igual ao do pai, Steve Doocy, um dos apresentadores do programa matinal Fox & Friends (o favorito de Trump, que ligava frequentemente quando estava na Casa Branca), ele tem como maior adversário do momento o próprio ego. Virar estrela do jornalismo de televisão é um teste bravo.

O objetivo de qualquer repórter deveria ser fazer as perguntas que os entrevistados prefeririam não ouvir, mas na vida real a situação é outra. A grande imprensa em peso apoia Biden – alguns diriam até que trabalhou eficientemente por sua eleição – e isso se reflete no comportamento dos jornalistas que cobrem a presidência.

No governo Trump, o presidente só queria falar com a Fox, única representante da direita entre os grandes órgãos – o Wall Street Journal pende para o lado conservador preferencialmente em assuntos econômicos, seu forte.

Agora, a situação se inverteu.

Embora os coleguinhas detestem admitir, todo mundo presta atenção quando chega a vez de Doocy fazer suas perguntas a Jen Psaki na entrevista diária. Numa das mais recentes, ele perguntou, em tom inalterável, se Biden pretendia pedir desculpas a Kyle Rittenhouse por tê-lo chamado de “supremacista branco”.

Rittenhouse é o jovem de 18 anos que matou dois manifestantes na cidade de Kenosha, quando os Estados Unidos estavam pegando fogo com os protestos contra a morte de George Floyd. Fotos, vídeos e testemunhos mostraram que ele agiu em defesa própria, contrariando não só opiniões, mas também informações distorcidas divulgadas pela maioria esmagadora da imprensa (alguns meios chegaram a dizer que os mortos eram negros, num indício de que nem sabiam de quem estavam tratando).

Jen Psaki fez um tremendo jogo de palavras e conseguiu escapar da armadilha sobre o hipotético pedido de desculpa de Biden.

Num mundo hollywoodiana, os dois acabariam se apaixonando – uma ideia não tão absurda assim, uma vez que aconteceu no passado com James Carville, o conselheiro político de Bill Clinton, e Mary Matalin, alta funcionária do governo Reagan e de Bush pai e filho. Na realidade, Doocy e Psaki são casados com os respectivos cônjuges.

A sociedade americana está hoje muito mais partida, com os dois lados da política se comportando como inimigos e não metades divergentes de um debate necessário para a democracia. A imprensa refletiu esse estado de espírito, afastando-se da ética da independência que fez sua glória no passado.

Imprensa não precisa ser imparcial, mas tem que ser justa para honrar os princípios do jornalismo. Ou seja, não deve distorcer fatos em favor de suas simpatias políticas ou partidárias. O caso do dossiê apontando – falsamente – ligações escusas de Donald Trump com o regime russo, promovido com fervor pela grande imprensa, foi o maior exemplo de como a aversão política pode virar distorção jornalística. Ou mentira mesmo.

Curiosamente, Peter Doocy e Jen Psaki já contrariaram esta tendência. Ambos fazem declarações mutuamente positivas e dizem ter um relacionamento amistoso longe das câmeras.

Psaki é combativa, honrando a cabeleira ruiva (descende, numa curiosa mistura, de gregos, poloneses e irlandeses). Na época em que era porta-voz de Hillary Clinton no Departamento de Estado, os russos tentavam ridicularizá-la, comparando suas roupas algo simplórias com o glamour de sua equivalente eslava, Maria Sakharova.

Como pode acontecer com qualquer porta-voz, ela eventualmente descamba para o exagero – um outro modo de chamar inverdades. Recentemente, disse que “nenhum economista” estava preocupado com o aumento da inflação, passando já dos 6%. Pulularam opiniões contrárias. Principalmente, claro, na Fox.

É ruim quando o papel de fiscal do governo, uma das principais atribuições da imprensa, fica praticamente limitado a um único órgão. Mas é bom quando presidentes, seus porta-vozes e os repórteres que falam com eles diretamente não se engalfinham como inimigos, repetindo a agressividade de Jim Acosta contra Trump e vice-versa.

“Eu gosto dele”, já disse Biden sobre Doocy. O presidente tem mais de meio século na política e sabe que mesmo quando não gosta de um repórter, tem que disfarçar.

O pai de Peter Doocy já foi satirizado no Saturday Night Live (“Ele acha hilário”, diz o filho) e a vez do repórter vai acabar chegando. Será a glória.

O que fará Doocy sem Biden? Tem um bom tempo ainda para que isso aconteça. Mas ele é esperto e deve ter visto como os colegas que ficaram órfãos de Trump estão penando. Jim Acosta hoje é um enfadonho comentarista.

Sem um presidente para odiar, os militantes do antitrumpismo na imprensa perderam os dentes. Um chegou a, valorosamente, perguntar qual o sabor do milkshake que Biden estava tomando. Pode acontecer em qualquer lugar.

O labirinto da pornografia


Da espiral da dependência de conteúdos pornográficos brotam terríveis patologias sociais: violência, abuso sexual, pedofilia. Carlos Alberto Di Franco para o Estadão:


A pornografia é um negócio poderoso e devastador. Causa dependência, desestrutura a afetividade, desestabiliza a família e passa uma pesada conta no campo da saúde mental. Mas o mais grave, de longe, é a estratégia de “mesmitificação” do material pornográfico. Eliminou-se o carimbo de proibido. Deu-se ao conteúdo pornográfico um toque de leveza, de algo sexy e divertido. Na prática, no entanto, a pornografia tem a garra da adicção e as consequências psicológicas, afetivas e sociais da dependência mais cruel. Joga o usuário num labirinto sombrio. Na era da internet, a pornografia invadiu computadores, implodiu relacionamentos e algemou muita gente. A pornografia produz uma imagem cínica do amor e transmite uma visão da sexualidade como puro domínio do outro.

Norman Doidge, importante psiquiatra canadense, tem tratado do tema com clareza e realismo. Mostrou, por exemplo, o que acontece no cérebro do consumidor assíduo de pornografia. A repugnância inicial aos conteúdos pornográficos, fruto dos naturais filtros morais, vai cedendo espaço ao acostumamento. O usuário demanda uma dose cada vez maior e mais “sofisticada” para obter os mesmos resultados. É a espiral da dependência. E dela brotam terríveis patologias sociais: violência, abuso sexual, pedofilia.

Frequentes denúncias de pedofilia na internet demonstram que a rede está se transformando no principal meio de aliciamento e exploração sexual de crianças. Apesar de proibidas pelas legislações, imagens de crianças em cenas de sexo pipocam constantemente na internet.

Abusadores criminosos põem à disposição do público arquivos com fotos pornográficas. Depois de localizadas, elas passam a circular entre usuários da rede e até em locais que poderiam ser considerados públicos. A crescente presença da pornografia infantil tem chocado a sociedade.

O problema, independentemente da justa indignação da opinião pública, não é de fácil solução. Envolve, de fato, inúmeras dificuldades de caráter político e operacional. Um mundo que não é capaz de estabelecer uma política unitária no combate às drogas dificilmente conseguirá desenhar uma plataforma comum na guerra à pornografia.

Na verdade, medidas preventivas são bastante limitadas. Policiar um sistema tão vasto e com tantos recursos técnicos seria uma tarefa extremamente cara e de resultados incertos. Embora seja possível bloquear o acesso aos sites publicamente conhecidos como pornográficos, os programas de filtros, apresentados como uma alternativa para impedir o acesso às páginas inconvenientes, diminuem o problema, mas não bloqueiam a perversa criatividade dos delinquentes do ciberespaço.

Algumas medidas, no entanto, podem e devem ser adotadas. A Polícia Federal tem feito um trabalho excelente, responsável e competente. A frequente identificação e prisão de predadores da internet é alentadora. Os responsáveis pela divulgação de pornografia infantil, racismo, publicidade de drogas ou outros crimes devem ser rigorosamente punidos. Denunciar é um dever.

Afinal, a rede mundial não pode ser transformada num instrumento da patologia e do crime.

Mas a raiz do problema, independentemente da irritação que eu possa despertar em certas falanges politicamente corretas, está na onda de baixaria e vulgaridade que tomou conta do ambiente nacional. Hoje, diariamente, na televisão, nos outdoors, nas mensagens publicitárias, o sexo foi guindado à condição de produto de primeira necessidade.

Atualmente, graças ao impacto da TV e da internet, qualquer criança sabe mais sobre sexo, violência e aberrações do que qualquer adulto de um passado não tão remoto. Não é preciso ser psicólogo para que se possam prever as distorções afetivas, psíquicas e emocionais dessa perversa iniciação precoce. Com o apoio das próprias mães, fascinadas com a perspectiva de um bom cachê, inúmeras crianças estão sendo prematuramente condenadas a uma vida “adulta” e sórdida. Promovidas a modelos e privadas da infância, elas estão se comportando, vestindo, consumindo e falando como adultos. A inocência infantil está sendo impiedosamente banida. Por isso, a multiplicação de descobertas de redes de pedofilia não deve surpreender ninguém. Trata-se, na verdade, das consequências criminosas da escalada de erotização infantil promovida por alguns setores do negócio do entretenimento.

Os problemas levantados pelo mau uso da internet, embora gravíssimos, são infinitamente menores que os benefícios trazidos por este notável canal de aproximação dos povos, de democratização dos conhecimentos e de globalização da solidariedade. Seus desvios não serão resolvidos por meio de ineficazes tutelas governamentais. Você, e só você, pode defender sua família.

Chegou para a família a hora do diálogo, da formação e do protagonismo responsável. A educação para o exercício da liberdade é o grande desafio dos nossos dias. A aventura da liberdade responsável, desguarnecida de ilusórias intervenções do Estado, acabará gerando uma sociedade mais consciente e amadurecida.

domingo, 28 de novembro de 2021

O dono do mundo


Xi Jinping poderia ter seguido a rota do pai. Mas decidiu seguir o caminho de Mao Tsé-tung. Dagomir Marquezi para a revista Oeste:


“O grande ditador fica imóvel como um buda enquanto seus asseclas deslizam pelo palco. Assistindo a Xi Jinping através de binóculos no Grande Salão do Povo, em Pequim, fico maravilhado com sua compostura. Estamos em 2014. Xi recentemente assumiu o poder como líder da nação mais populosa do mundo e sua segunda maior economia. De vez em quando, ele vira uma página enquanto a voz no alto-falante continua. O próprio Xi fala apenas em grandes ocasiões. Ele nunca toca a caneca de porcelana com chá diante de si (uma bexiga de ferro é um requisito para a liderança na China). Nem um olhar, nem uma sobrancelha levantada trai qualquer sentimento. Seu aplauso no final é breve. Enigmático até o fim, ele se levanta e sai do palco com um andar ondulante e satisfeito.”

A cena foi testemunhada por Michael Sheridan, correspondente do jornal britânico The Times no leste da Ásia por duas décadas. Sete anos depois da cerimônia descrita por Sheridan, Xi Jinping endureceu de vez o regime. Garantiu o direito de se reeleger em 2023 — e continuar no poder para sempre.

Virou num certo sentido o “dono do mundo”. Sob suas ordens, uma nova doença mortal chamada covid-19, surgida na China, foi ocultada e negada até paralisar o restante do planeta. Hoje, escreve Michael Sheridan no Times, “satélites assassinos giram nos céus, mísseis nucleares escondem-se em seus silos, uma frota de novos navios de guerra ronda os oceanos e o maior Exército da Terra treina para guerras que desafiarão a imaginação. Ele ameaça Taiwan, uma ilha democrática reivindicada pela China, arriscando um confronto com os Estados Unidos. Seus agentes prendem muçulmanos no extremo oeste da China e perseguem dissidentes em Hong Kong. Suas decisões abalam os mercados de ações, movimentam moedas, enriquecem algumas nações e obrigam outras ao endividamento. Quando você vai às lojas, o preço de tudo que você compra é influenciado por ele”.

Esse poder aparentemente absoluto de Xi Jinping ofusca os problemas reais da China, tão grandes quanto o próprio país. Graças à política de filho único adotada por décadas pelo regime comunista, a população está envelhecendo. Como essa política fazia com que fetos femininos fossem abortados, hoje faltam mulheres no país. A política ferrenha (e irreal) de tolerância zero ao coronavírus cobra seu preço no crescimento econômico. O endividamento do país é monumental. Os preços estão subindo, e Xi Jinping reage como qualquer governo de esquerda: tentando combater a inflação com a pesada mão do Estado. O mercado imobiliário é uma bomba especulativa explodindo aos poucos.

25 pessoas mandam em 1,4 bilhão

O apego de Xi Jinping ao poder vai além de uma estratégia política. Xi sabe o que acontece quando um dirigente perde a luta de foice no escuro que é o Partido Comunista Chinês. Ele mesmo subiu ao poder lutando contra um rival chamado Bo Xilai. Ao perder a briga, Bo foi acusado de “corrupção e abuso de poder” e condenado à prisão perpétua num presídio de segurança máxima.

“Para Xi, os inimigos estão em todos os lugares”, descreve a reportagem de Michael Sheridan no Times. “Ele não deixa o país desde janeiro de 2020, quando se aventurou em Mianmar. Existe um único caminho a seguir — governe pelo resto da vida, sem uma estratégia de saída.”

Para se impor, Xi teve de controlar a burocracia do Partido Comunista Chinês, que tem 95 milhões de membros — uma gota no oceano da população nacional, de 1,4 bilhão de habitantes. Não é fácil se tornar um membro. O mundialmente conhecido ator Jackie Chan quer se filiar, mas não pode porque, segundo consta, ele “traiu sua esposa e seu filho, usou drogas”.

Dentro do clube fechado que é o Partido Comunista existe um pequeno grupo de controle: o Comitê Central, com apenas 205 membros. E dentro desse círculo existe outro foco ainda menor de decisões, a Secretaria Política, com 24 homens e uma mulher. Essas 25 pessoas, escolhidas internamente pelo partido, governam o país mais populoso do mundo. Acima de tudo e de todos está Xi Jinping, que, assim que assumiu a liderança, capturou para si as três “coroas” do poder — ele é o líder do partido, o presidente do país e o comandante das Forças Armadas.

É esse modelo ultraconcentrado, burocrático e tirânico de poder que foi recentemente elogiado pela ex-presidente petista Dilma Rousseff. Para ela, a China é um “modelo admirável. Representa uma luz nessa situação de absoluta decadência e escuridão que é atravessada pelas sociedades ocidentais”.

Dilma e Xi em 2013

As demonstrações cada vez mais insistentes e ameaçadoras de poder da China seriam na verdade um sinal de fraqueza? O regime comunista estaria num beco sem saída? A China Comunista seria uma estrutura apodrecida à espera do desabamento, como a União Soviética de 1991?

Michael Beckley e Hal Brands escreveram recentemente na revista Foreign Affairs: “O governo da China está escondendo uma séria desaceleração econômica e voltando ao totalitarismo frágil. O país está sofrendo de severa escassez de recursos e enfrenta o pior colapso demográfico em tempos de paz da História. Os gastos com idosos vão triplicar até 2050. Não menos importante, a China está perdendo acesso ao mundo acolhedor que possibilitou seu avanço”.

Em consequência de sua agressividade, a China está sendo tratada com reservas crescentes na Austrália, Índia, Japão, Filipinas e em vários países da Europa, fora os Estados Unidos e o Canadá. Produtos chineses de alta tecnologia são vistos com desconfiança, pois poderiam servir de instrumento de espionagem e controle a serviço do regime. Beckley e Brands notam que o crescimento do PIB chinês caiu de 15% em 2007 para 6% em 2019, e meros 2% em 2020 — por conta da pandemia que eles mesmos causaram. Estudos mais rigorosos citados pelos autores sugerem que o governo está mentindo, e que o PIB cresce metade do que alega.

“A China está traçando um arco que geralmente termina em tragédia: uma subida vertiginosa seguida pelo espectro de uma queda dura”, alertam Beckley e Brands. “O que acontece quando um país que quer reordenar o mundo conclui que isso não poderá ser feito pacificamente? Tanto a História quanto o atual comportamento da China sugerem que a resposta é: nada de bom.”

Jude Blanchette, especialista em China no CSIS (Centro de Estudos Estratégicos Internacionais), discorda. Em artigo para a mesma revista Foreign Affairs, ele lembra que essa perspectiva de colapso do regime foi anunciada muitas vezes: no fim do reinado de Mao Tsé-tung (1976), na sangrenta repressão da Praça Tiananmen (1989) e na queda da URSS dois anos depois. Considera que a economia está crescendo mais lentamente, mas não entrando em colapso.

Em seu artigo, Jude Blanchette nota que o regime autoritário pode “mobilizar e canalizar recursos com velocidade impressionante”. O desrespeito a qualquer direito humano, o desprezo pela liberdade e a degradação do meio ambiente não importam — o partido consegue o que quer com força bruta e propaganda patriótica.

Segundo Blanchette, o “PCC em 2021 está mais forte, mais capaz e no comando de mais recursos do que em qualquer outra época em seus 100 anos de história. Xi construiu uma estrutura de poder em torno dele na qual qualquer desafio à sua autoridade seria extremamente difícil de se realizar. (…) Sabe em primeira mão que o sistema político da China é um esporte sangrento, que exige demonstrações constantes de poder e dominação”.

As pulgas e os milhões

Xi Jinping é filho da “aristocracia vermelha”. Nascido em 1953, é o primeiro dirigente máximo a nascer depois da revolução. Seus pais lutaram pela implantação do comunismo durante a revolução de Mao Tsé-tung, em 1949. Viviam confortavelmente em Pequim como membros privilegiados do partido.

Em 1962, quando Xi tinha 9 anos de idade, aprendeu que não existe segurança no Partido Comunista Chinês. Seu pai, Xi Zhongxun, caiu em desgraça com Mao Tsé-tung, num dos muitos expurgos movidos a paranoia do “Grande Timoneiro”. Quatro anos depois, o país foi tomado pela loucura extremista da Revolução Cultural. Foi um período muito duro para o jovem Xi Jinping, que caiu na miséria, passou fome, não tinha onde morar e era constantemente “comido pelas pulgas”. Esse período de sofrimento explica em boa parte sua obsessão em nunca mais sair do poder

Xi com o irmão e o pai, em 1958.

Ironicamente, seu pai, Xi Zhongxun, passou seus anos de desgraça política lendo o autor-símbolo do liberalismo, o escocês Adam Smith, além das memórias escritas por Winston Churchill. Quando Deng Xiaoping assumiu o poder, em 1978, reabilitou Xi Zhongxun. O pai de Xi Jinping ajudou o novo presidente da China a implantar alguns dos princípios de liberdade econômica que transformaram o país na grande potência que é hoje.

Com o pai reabilitado, o jovem Xi Jinping voltou ao conforto, mas revelou-se ambicioso e disciplinado. E iniciou sua planejada ascensão no Partido Comunista. Segundo documentos diplomáticos americanos, o futuro ditador agia de maneira contraditória nessa época. Por um lado, seguia sem contestar as regras da ortodoxia comunista. Por outro, exibia uma mente aberta, simpática ao budismo, às artes marciais e a práticas milenares de saúde.

No campo, na juventude.

Com o tempo, a mente se fechou. Em 1986, Xi teve um romance fulminante com a cantora de ópera Peng Liyuan. Em um ano, estavam casados. Foi uma união muito lucrativa. Levantamento da Bloomberg em 2012 descobriu que a família estendida de Xi Jinping e Peng Liyuan já possuía o equivalente a US$ 376 milhões em negócios relacionados a minerais, imóveis e componentes de celulares. O patrimônio incluía uma mansão em Hong Kong com preço estimado em US$ 31 milhões, que permanecia vazia a maior parte do tempo. Nada estava no nome do dirigente comunista. A investigação da Bloomberg tentou conhecer os detalhes desses negócios, mas deu de cara com um muro de burocracia e censura a documentos oficiais.

Com a mulher

A ausência da verdade

Poderoso, impiedoso, exibindo seus trens-bala, suas impressionantes conquistas espaciais e seus letais mísseis hipersônicos, Xi Jinping parece imbatível e destinado a determinar os destinos do mundo. Ultrapassar os Estados Unidos como a maior potência econômica do planeta parece apenas uma questão de tempo.

Roger Garside, ex-diplomata britânico e especialista em assuntos chineses, não pensa assim, segundo declarou ao Times: “O corpo político da China está em estado terminal, e somente um transplante político pode salvá-lo. Os inimigos de Xi sabem disso, mas ele, não. A contradição entre a reforma econômica e a paralisia política produziu toda uma série de problemas profundamente arraigados — uma montanha de dívidas, grande e crescente desigualdade, corrupção sistêmica, profunda desconfiança interna e externa e a ausência da verdade. Agora, um confronto com os EUA sobre os mercados de capitais está se aproximando rapidamente. Quando vier, uma crise financeira chinesa se tornará uma crise política”.

O artigo do Times mostra que a economia da China está estatizada na prática. Empresários sobrevivem apenas se obedecerem ao que Xi Jinping e a cúpula do Partido Comunista determinarem. Se saírem da linha, serão acusados de corrupção e desaparecerão no pântano jurídico do país. Jack Ma, criador do gigante Alibaba, criticou a burocracia estatal e sumiu por meses para retornar menos rebelde. O magnata imobiliário Ren Zhiquiang escreveu um post em seu blog reclamando das medidas adotadas para enfrentar a covid-19 por “um palhaço que se despiu e que ainda queria ser o imperador”. Pegou 18 anos de cadeia e teve de pagar uma multa equivalente a US$ 668 milhões.

Num regime em que tudo é controlado e proibido, a verdade é substituída por versões oficiais. Os 25 membros do politburo do Partido Comunista não sabem o que acontece de verdade no país. Ninguém se arrisca a apontar os erros e os defeitos do sistema. Por baixo dos sorrisos e dos aplausos das cerimônias oficiais, as rachaduras se espalham, pois ninguém se atreve a falar sobre elas.

Xi Jinping poderia ter seguido a rota do pai. Podia ter lido mais Adam Smith e aprofundado as reformas iniciadas por Deng Xiaoping. Aí talvez a China pudesse se tornar uma potência realmente invencível. Mas Xi decidiu seguir o caminho de Mao Tsé-tung, aquele mesmo que desgraçou sua infância, atormentou sua família e a China como um todo, matando 50 milhões de pessoas no processo.

Ninguém mais sabe o que fazer com os jovens porque nunca se soube


Guerras culturais assolam a política, a academia, a mídia, a psicologia, a família. Luiz Felipe Pondé via FSP:


Nossa espécie viveu na imobilidade por milhares de anos ao longo da sua lenta evolução. Essa imobilidade histórica, social e política, desenhou uma vida psicológica que lhe era simétrica. A repetição de formas sociais de modo infinito ao longo do tempo garantia a continuidade de hábitos que serviam como parâmetros inconscientes da existência.

O certo e o errado, seja lá o que isso seja, a vida após a morte, seja lá como for, o significado dos sonhos e dos desejos sexuais, as formas sociais de organização desses desejos, deuses e deusas a serviço de nossa sanha por significados que cobrissem, como uma manta de luz, a escuridão dos nossos sentidos para além da banalidade da física do mundo, tudo isso junto é o que sempre fomos sem saber exatamente o que éramos.

A imobilidade do mundo social mantinha esse processo sem mudanças. Acabamos por viver de modo inercial, sem saber o que fazíamos, incluindo aí a desconhecida psicologia ancestral.

De repente, tudo isso acabou num transtorno conhecido como modernidade. O movimento, as rupturas, cantadas em prosa e verso pela arte, pela literatura, pela filosofia, pelas ciências, pelos manifestos futuristas, se fizeram cotidiano.

O determinismo social, até então cego, passou à luz do dia, e decidimos que nós teríamos ciência o bastante para conduzir um processo gigantesco do qual até ontem nem tínhamos conhecimento da existência.

Do que se trata, afinal, essa descrição? Trata-se do livro "100 Years of Identity Crisis, Culture Wars over Socialisation", recém-lançado pelo sociólogo Frank Furedi (De Gruyter, uma editora alemã fundada em 1749). Furedi permanece sem tradução no Brasil, talvez por não ser conservador para os conservadores e não ser progressista para os progressistas. Essa divisão idiota que continua destruindo o pensamento público. A inteligência sob a bota da política partidária.

Furedi pergunta: de onde vieram a crise de identidade e as guerras culturais que dominam o espaço público? Não vou dar spoiler, mas apontarei como, a partir do cenário descrito acima, para o autor húngaro radicado no Reino Unido, surgiu esse fenômeno, hoje hegemônico, que assola a política, a universidade, a mídia, os psicoterapeutas e o que restou das famílias.

Para além do diagnóstico apontado nos primeiros parágrafos acima, importa ao sociólogo a causa imediata do surgimento da adolescência como objeto da psicologia.

Sabe-se da importância de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), com o seu livro "Emílio" nessa invenção do jovem. Mas fomos muito mais longe do que imaginava nosso passeador solitário. O ponto de partida para Furedi é a desorientação que se abateu sobre os pais, ou as gerações mais velhas, como decorrência} do processo acima descrito.

Ninguém mais sabe o que fazer com os jovens. E por quê? Porque ninguém nunca soube. Ninguém "formava" ninguém, a imobilidade da repetição infinita —paradoxo proposital— das formas sociais conduzia um processo em que a própria imobilidade repetida se constituía em cegueira.

Nessa ruptura, as ciências e a psicologia chamaram para si a capacidade —que nunca tivemos a rigor— de dizer como se formam jovens saudáveis. E aí, o caldo entornou tornou porque, como são campos de conhecimento que surgiram dessa mesma ruptura e aceleração da vida social, as ciências dos adolescentes são neófitas e não têm tempo suficiente para constituir nenhum saber de fato. Sem a máquina institucional acadêmica, qualquer um perceberia a ignorância de fundo dessas ciências.

O desespero dos pais —identificados como ultrapassados—, os interesses de mercado dessas próprias profissões, a desorganização crescente da imobilidade social e histórica, que mantinha a vida como sempre foi, se somam para criar o terreno do embate acerca de quem tem a última palavra sobre como deve ser um adolescente.

A parafernália ideológica tomou de assalto a ignorância que se diz conhecimento, submetendo a psicologia à bota político-partidária referida acima. Na verdade, ninguém sabe o que está fazendo com os adolescentes. Estamos no escuro.