segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Direitos humanos para animais? O caso de uma orangotango considerada "mulher".

Conferir direitos humanos a criaturas não-humanas estabelece um precedente perigoso, com ramificações em potencial para várias outras facetas das relações entre os seres humanos e os animais. Artigo de Randall Otto sobre esta "antropomorfização", traduzido para a Gazeta do Povo:


No dia 7 de novembro de 2019, a revista Newsweek publicou um artigo com um título maravilhoso: “Orangotango É Considerado Legalmente uma Pessoa, Muda-se para a Flórida e Vira Mulher”. Numa época em que as identidades transgêneras despertam debate e questões éticas, sugerir que uma orangotango chamada Sandra pode mudar de espécie e se mudar de Buenos Aires para a Flórida como mulher — tudo graças a uma declaração legal — é “estranho”, como a Associated Press chamou o caso, se é que não uma maluquice. O caso de Sandra é o ponto alto de ações na justiça para tirá-la do zoológico onde ela era obrigada a viver até que condições melhores fossem conseguidas.

Em 2015, a sentença de uma juíza argentina disse que, legalmente, a orangotango não era simplesmente um animal. A sentença tinha como objetivo, nas palavras da juíza, “apresentar a sociedade a algo novo, o fato de os animais serem entes com sentimentos e que o primeiro direito que eles têm é nosso dever de respeitá-los”.

A sentença é resultado de um pedido de habeas corpus feito em nome da orangotango. Para justificar o uso de uma ação geralmente usada para questionar a legalidade da prisão de uma pessoa, a juíza, em essência, “redesignou” a espécie do orangotango para lhe conferir direitos humanos. Dar direitos humanos e o caráter legal como pessoa a animais não-humanos, contudo, demonstra uma incapacidade de diferenciar a senciência da alta consciência, personalidade e alma racional, prerrequisitos para tais direitos – sendo que a consciência, a personalidade e a alma racional são únicas aos seres humanos. As diferenças entre as pessoas prevalecem, independentemente das sentenças judiciais.

O uso de Habeas Corpus para animais

O caso de Sandra, a orangotango, não é o primeiro de um pedido bem-sucedido de habeas corpus em nome de um animal “preso” num zoológico. Um tribunal argentino deu um habeas corpus para uma chimpanzé chamada Cecília em novembro de 2016. Em 2017, a Suprema Corte da Colômbia deu um habeas corpus a Chucho, um urso, determinando que ele fosse tirado de um zoológico e colocado num habitat mais apropriado para a espécie.

As mesmas medidas não tiveram sucesso nos Estados Unidos, mas a maré pode estar mudando. Em 2014, a Suprema Corte de Nova York determinou, no caso de um chimpanzé chamado Tommy, que “um chimpanzé não é uma ‘pessoa’ com direitos e proteções previstos pelo instrumento do habeas corpus”. O tribunal disse que a incapacidade de responsabilidade o chimpanzé o tornava inelegível aos direitos humanos.

A Suprema Corte de Nova York usou o mesmo precedente num caso de 2015 envolvendo os chimpanzés Hércules e Leo, decidindo em favor da Stony Brook University, que defendia o seu direito de usar os animais em experiências. Ainda assim, o juiz reconheceu que “medidas para estender os direitos legais aos chimpanzés (...) são compreensíveis; no futuro talvez elas tenham sucesso” e que “as ações agora talvez se acumulem”.

Outras ações realmente tiveram sucesso em 16 de novembro de 2018, quando um juiz de Nova York deu um habeas corpus em nome de Happy, um elefante do Bronx Zoo, determinando que ele fosse solto num santuário mais apropriado. As ações agora talvez se acumulem. Chimpanzés e elefantes, claro, não se tornaram repentinamente autoconscientes nem agentes responsáveis. Mas argumentos antropomórficos em defesa de animais sencientes agora fazem parte do mundo jurídico.

A questão da pessoalidade legal: alguns animais são “como a gente”?

O Non-Human Rights Project, que entrou com as duas últimas ações nos Estados Unidos, busca estender os direitos humanos a baleias, orcas, golfinhos e chimpanzés, e também a qualquer outro animal que demonstrar cognição e autonomia o bastante para ser reconhecido como “pessoa em termos jurídicos” e para receber liberdade pessoal. O Great Ape Project (GAP), organizado pelos filósofos Peter Singer e Paola Cavalieri em 1993, busca também “defender os direitos dos grandes primadas não-humanos” (chimpanzés, gorilas, orangotangos e bonobos).

O dr. Pedro Ynterian, fundador do GAP Project no Brasil, explica que chimpanzés “pensam, sentem, odeiam, sofrem, aprendem e até transmitem o aprendizado. Eles são 'como a gente'. A única diferença é que eles não falam, ainda que se comuniquem por sinais, sons e expressões faciais. Precisamos garantir os direitos deles à vida e liberdade”.

Se os chipanzés “são como a gente”, exceto por não falarem, então é claro que deveríamos lhes dar os direitos à vida, liberdade e a busca pela felicidade. Aquilo que Thomas Jefferson diz ser “autoevidente” no século XVIII — que todos os seres humanos “recebem do Criador” esses direitos inalienáveis — já não se limita tão claramente aos humanos.

Mas temos de deixar claro que os chimpanzés — assim como baleias, golfinhos e outras criaturas —, por mais sencientes que sejam, não são como a gente. O antropólogo Russell Tuttle resume com habilidade vários estudos sobre nossos ancestrais mais próximos em seu magistral livro Apes and Human Evolution [Macacos e a evolução humana]. Os chimpanzés são capazes de aprender e os melhores processos permitem que eles resolvam problemas. Eles se reconhecem, exibem comportamento intencional, conseguem fingir, cooperar e retribuir, e têm capacidade mental (raciocínio, compreensão, percepção, sentimento) comum a muitas espécies.

Mas eles não têm uma linguagem. A chimpanzé Washoe (1965–2007), embora criada desde o primeiro ano de idade interagindo diariamente com seres humanos, aprendera, aos cinco anos de idade, a fazer 132 sinais da Língua Norte-americana de Sinais e a entender centenas de outros. Isso não é nada em comparação a um ser humano médio, que aprende 60 mil palavras entre o nascimento e a idade adulta, começando aos dois anos e a uma taxa de oito a dez palavras novas por dia.

Stephen Budiansky demonstrou, em seu livro If A Lion Could Talk: Animal Intelligence and the Evolution of Consciousness [Se um leão pudesse falar: a inteligência animal e a evolução da consciência] que esforços para reproduzir o “efeito Washoe” mostraram que, ao contrário do uso espontâneo e criativo da linguagem por crianças (inclusive surdas), os sinais dos chimpanzés são apenas uma forma de obter uma recompensa do professor. “Os macacos imitam sinais que seus professores usam”, cometem muitos erros ou usam sinais questionáveis que requerem uma interpretação “muito generosa”.

Esse é o “antropomorfismo reprovável” que Budiansky e outros apontam como o grande problema dos estudos com animais — a tendência de perceber características humanas em ações de animais. Tuttle conclui que Washoe e outros chimpanzés em estudos semelhantes são “solucionadores de problemas, e não estão usando a linguagem como forma de transmitir um sentido”.

Como os computadores processam linguagem sem demonstrar consciência, é difícil dizer que chimpanzés e outros hominídeos não-humanos detêm aspectos da linguagem e cultura que sejam simbolicamente mediados por ideias, crenças e valores — sem falar na moral, no conceito de verdade e na espiritualidade, coisas que parecem envolvidas na ideia real de autonomia. Animais não-humanos não são essencialmente racionais como os seres humanos.

Racionalidade, senciência e ordens de consciência

A racionalidade não é um poder exclusivamente humano, e sim uma forma distinta de ter capacidades. Descrever um ser humano como racional não é descrever propriedades necessárias para que uma espécie tenha direitos. É algo que caracteriza a natureza humana em si. Os predicados, como diz Matthew Boyle, “expõem não as características que os indivíduos precisam ter se pretendem pertencer a uma espécie, e sim atributos que caracterizam diretamente uma natureza substancial em si”.

“Racional”, portanto, não é uma característica de algumas espécies animais, e sim o que constitui a forma humana de ser unicamente diferente de todas as outras criaturas. A ação intencional e a subjetividade, a ação com base na análise conceitual das opções, tudo envolvendo intencionalidade e raciocínio reflexivo, são característicos dos seres humanos, que se enquadram sozinhos na descrição de animais racionais.

A juíza argentina decidiu que uma orangotango era uma pessoa não-humana com base na senciência. Muitos estão preocupados com o “contrabando da consciência” envolvido no uso do termo “senciência”. Embora o próprio Darwin considerasse a imaginação “uma fonte grave de erros” capaz de levar uma pessoa a projetar aquilo que espera obter, o uso, por parte da etologia cognitiva, de “histórias, analogias e antropomorfismo para chegar às suas conclusões” talvez agrave esse problema.

O assunto deu origem a toda uma indústria de livros sobre a vida emocional dos animais. O neurocientista Joseph LeDoux, em seu recente livro A Deep History of Ourselves [Uma história profunda de nós mesmos], está entre os “muitos que estão enfrentando essas ideias, argumentando que versões de antropomorfismo com nomes que parecem científicos não se qualificam como abordagens comportamentais científicas (...) A não ser que se exclua interpretações inconscientes alternativas nos animais, não se deve falar em consciência”.

Já em 1940, C. S. Lewis falava do sofrimento animal: “devemos separar senciência de consciência”. Ele dizia que, ainda que os animais tenham um sistema nervoso com o qual experimentam sensações, eles não têm uma alma (racional) nem personalidade capazes de diferenciar isso da sensação, de dizer “estou com dor”. Assim, “muito do parece ser sofrimento animal não é sofrimento no sentido real do termo”, já que os seres humanos “podem estar vendo no animal um 'eu' para o qual não há prova clara”.

Mas defensores dos direitos dos animais costumam nivelar a senciência à consciência sem deixar claro o que é a consciência. A Declaração Cambridge sobre a Consciência, de julho de 2012 e assinada por vários neurocientistas, reafirmava que animais não-humanos – incluindo todos os mamíferos e aves e outras criaturas, como polvos — têm os substratos neurológicos necessários para a geração de consciência. Supõe-se, aqui, que a senciência, em geral vista como a capacidade de sentir de uma forma diferente da razão e percepção, está envolvida na consciência, mas de que tipo?

O psicólogo Merlin Donald está entre os vários que sugerem ordens diferentes de consciência, notando que há ao menos três definições: consciência enquanto estado — que envolve concentração, prontidão e sonhos, algo que muitos mamíferos e não-mamíferos têm; consciência enquanto estrutura — arquitetonicamente a ver com a cognição, emoção, ação e autorregulação geralmente encontradas nos mamíferos mais desenvolvidos e também algumas espécies de aves e que os permite alcançarem um objetivo de curto prazo e se comportar como se tivessem uma unidade de experiência; e, finalmente, consciência como instrumento representacional, o que é algo exclusivo dos seres humanos porque depende da capacidade humana da expressão simbólica encontrada na linguagem

Os direitos humanos são exclusivos dos seres humanos

Muitas criaturas têm vários graus de senciência e capacidade cognitiva, incluindo algum nível de consciência. O que diferencia a espécie humana de todos os animais não-humanos é a consciência de si mesmo: o reconhecimento do ser que é ontologicamente distinto do pensamento — sabe-se sujeito à experiência, agente responsável e pessoa. Tudo isso faz parte de ser um animal essencialmente racional e, sob a perspectiva judaico-cristã, um ser criado à imagem de Deus.

Os seres humanos são diferentes de todos os outros animais. Essa afirmação não se baseia num conjunto de propriedades e capacidades encontradas em alguns, mas talvez não todos, humanos. Inabilitar ou tirar uma propriedade não muda algo que é essencial. Uma águia cega ainda será uma águia e um humano inconsciente ou que ainda não nasceu ainda é um ser humano.

Os animais não têm livre-arbítrio, moralidade com base em ideias de virtude, dever e valores e direitos intrínsecos, ou qualquer conceito de verdade, pensamento abstrato e linguagem. Nenhum truque jurídico será capaz de conferir a um orangotango ou qualquer outra criatura o caráter de ser suficientemente “como a gente” a ponto de ele se tornar uma criatura autônoma com direitos únicos aos seres humanos. A espécie não é juridicamente definida, e sim divinamente determinada.

Juristas precisam desistir da ideia de dar direitos humanos a animais não-humanos,  porque eles não são como a gente.

Conferir direitos humanos a criaturas não-humanas estabelece um precedente perigoso, com ramificações em potencial para várias outras facetas das relações entre os seres humanos e os animais. As diferenças entre os seres humanos e os animais precisam ser mais bem definidas na filosofia, teologia, ciência, direito e jornalismo. Apesar da definição clara do que senciência, consciência, personalidade e pessoalidade significam, a tendência humana em antropomorfizar talvez ganhe força, fazendo com que os não-humanos entrem no reino dos seres humanos dignos de direitos.

Nenhum animal não-humano, contudo, deve ser encarado como um ser com direitos humanos. Nenhuma orangotango jamais pode se tornar mulher – uma fêmea adulta humana. A despeito das manchetes sensacionalistas, Sandra ainda é uma orangotango que agora mora na Flórida com outros orangotangos — mas fêmea, não mulher —, destinada a sempre ser uma orangotango, sem capacidade de compreender qualquer conceito de direitos. Ela talvez não faça ideia disso, mas nós, seres humanos, fazemos.

Randall Otto é professor de religião no Southwestern College de Wichita, Kansas, e mentor em humanidades na Thomas Edison State University de Trenton, Nova Jersey.
© 2020 Public Discourse. Publicado com permissão. Original em inglês.

Serão os filhos amigos da divisão das tarefas domésticas?

Comecemos pelo princípio: os rapazes e as raparigas não são iguais. E a identidade de gênero não é uma discriminação da Natureza. Eduardo Sá, via Observador:


O mundo sempre foi machista e matriarcal. É claro que ninguém, no seu bom senso, pretende que uma clivagem como essa se perpetue. Porque não é justa! Até porque, amparada por barreiras jurídicas, permitiu que se instituísse, de forma obscena, a existência de um “sexo forte” e de um “sexo fraco” que legitimou práticas que nos envergonham a todos. Mas é também verdade que hoje, na ânsia de se lutar contra um sexismo que discriminou e discrimina as mulheres, se escorregará, algumas vezes, para um populismo sexista que transforma, invariavelmente, os homens nos “vilões da história”. E é por isso que, quando se fala da divisão de tarefas domésticas, como aconteceu num estudo recente da Visão e do IKEA, não deixa de ser curioso que a maioria dos inquiridos a tenham considerado justa.

Comecemos pelo princípio: os rapazes e as raparigas não são iguais. E a identidade de género não é uma discriminação da Natureza. Não tem de ser. Os rapazes e as raparigas nascem diferentes. E são diferentes na forma como apreendem a realidade, como a sintetizam ou como se manifestam nela. É claro que a estas particularidades se acrescentam formatos educativos que, às vezes, acentuam as diferenças e que, às vezes, as esbatem. Sem que, contudo, homens e mulheres sejam iguais. Aliás, a forma como a educação nos “formata” contribuiu para que, “em cima” daquilo que nos distingue, “à partida”, haja uma tão infindável quantidade de aspetos que compõem a nossa identidade que as singularidades das nossas relações significativas, a nossa experiência de vida, a nossa educação e as nossas escolhas nos tornam a todos — mais, ainda — únicos e inimitáveis. “Todos diferentes; e todos iguais”. Ou, talvez de forma mais clara: todos muito mais únicos do que iguais. Sem que, contudo, “por fora”, não deixem de existir algumas características (cada vez menos preponderantes) que distinguem os homens das mulheres. Que não legitimam privilégios, discriminações, imparidades ou seja o que for. Mas que existirão, todavia.

O que se deve acentuar é que, dum modo notável, e em muito pouco tempo e por mérito dos pais, a forma como se foram educando, escolarizando ou socializando as raparigas e os rapazes sofreu mudanças profundas. Tão profundas e tão transversais que a prática das famílias, considerando a educação e as oportunidades que lhes damos, é um belíssimo exemplo de paridade. É verdade que, sobre tudo isso, os nossos filhos poderão ter nos exemplos de paridade que lhes damos como pais alguns enviesamentos “escorregadios” de desigualdade. Mas se eles são educados de forma, tendencialmente, igual, porque motivo é que, quando chegamos à divisão das tarefas domésticas, ela parece ser do género: “Casa e crianças para mim – impostos, bricolage e automóveis para ti”? O que o inquérito da Visão e do IKEA nos deixará entender é que a maioria dos casais divide as funções domésticas desta forma “tradicional”. Mas que também a maioria dos homens e das mulheres sente esta divisão como justa. A verdade é que me parece que o estudo ia à procura da divisão das tarefas domésticas e os casais, porventura, terão respondido com base na divisão das tarefas familiares.

É precisamente aqui que se sente “um antes e um depois” na vida de uma família. Se a paridade representa — bem! — uma agenda própria de um mundo que se preocupa em ser mais justo, a maternidade (que será o traço que nos liga a um mundo do passado, pautado pelas diferenças biológicas), introduz diferenças profundas na vida de um casal, a partir do nascimento de um bebé. Que faz com que, com as experiências de parentalidade, os pais se tenham de dividir pelos seus trabalhos, pelos trabalhos da casa, o trabalho com as crianças e o trabalho que uma relação amorosa exige. O que sugere que, a partir do nascimento de um bebé, os pais “fraturem” muito mais do que seria o seu desejo a divisão das tarefas familiares, levando a que um casal concorde que a mãe chame a si a maternidade e os cuidados com as crianças e que o pai compense isso tudo com mais trabalho, mais rendimento, menos tempo em casa e menos divisão de tarefas domésticas, quando se trata de considerar os trabalhos de casa e o trabalho com as crianças. O trabalho com uma relação, como se percebe, será o que fica mais comprometido no meio disto tudo. Até porque pai e mãe passam a “correr” para todos os lados, sentindo-se sempre “em falta” em relação a tudo aquilo que lhes é exigido. E um e outro acumulando ressentimentos que os separam, devagarinho, porque as divisões dos seus diversos trabalhos entram por um “piloto automático” onde “se tapa a cabeça e destapam os pés” o tempo todo. Afinal, se uma criança (em valores desatualizados) pode custar até 75€ por dia, a sua preponderância na divisão das tarefas familiares pode ter um impacto tal que “atropela”, quase por completo, os ganhos que a educação para a paridade nos trouxe.

Ou seja, o desejo de paridade existe. A educação para a paridade existe. A justeza da paridade não se discute. Só que a quase absoluta ausência de políticas de família, quando se trata de dividir as responsabilidades de uma criança pela família e pelo Estado, faz com que os pais sejam “tributados” três vezes: são tributados como todos os cidadãos; são duplamente tributados porque as deduções do IRS, considerando os nossos filhos, talvez suponham que os educamos nas “lojas dos 300”; e são triplamente tributados porque a forma como são penalizados, no trabalho e na carreira, porque são pais, é absurda. Tudo num mundo neo-liberal que imagina o trabalho como se as pessoas, por vezes, não fossem pessoas mas “força produtiva”. E como se elas (para que nada interfira com aquilo que produzem) ganhassem mais se não fossem pais.

Em resumo, todos nós queremos a paridade! Porque todos nos sentimos injustiçados pela sua ausência! Agora, quando ficamos só pelo discurso sexista em relação às desigualdades na distribuição das tarefas domésticas podemos estar distraídos. Porque se trabalhamos (todos os dias) para um mundo mais paritário e mais justo, sentirmos que a parentalidade acentua as desigualdades é que não se entende.

Raiva do governo? Assim não dá para fazer oposição.

A questão é tirar eleitores de Bolsonaro e trazê-los para o seu lado; ao invés disso, a oposição passa o tempo todo dizendo que esses eleitores são “fascistas”. Coluna de J. R. Guzzo, publicada pela Gazeta:


Uma das questões mais curiosas do chamado “quadro político” do Brasil de hoje é a existência de um dos governos mais intensamente odiados por seus adversários, que jamais pôs os pés em Brasília. É o diabo, porque esse governo não está aí pela força: foi eleito democraticamente, em eleições livres e limpas, por quase 58 milhões de cidadãos, a maioria absoluta do eleitorado que foi votar nas eleições presidenciais de 2018.

Fazer o que? Democracia tem mesmo esses problemas; você é obrigado a fazer eleições, e nas eleições o outro lado pode ganhar. Dá para odiar, é claro – mas, além de odiar, o que precisamente pode fazer de útil quem está contra o governo Jair Bolsonaro, seu ministério e seus generais? A resposta clássica é: fazer oposição consistente, de um lado, e apresentar um ou mais nomes realmente viáveis para ganhar as próximas eleições, de outro.

Do contrário, fica essa coisa para lá de esquisita que temos hoje: raiva sem limites do governo e, ao mesmo tempo, na vida real, céu de brigadeiro (ou mar de almirante) para esse governo ir tocando muitíssimo à vontade a sua vida.

Grita-se muito alto, assina-se muito “manifesto” de artista, a mídia vive praticamente em transe contra o que considera o pior governo que o Brasil já teve e as crises, cada vez mais fatais e cada vez mais curtas, não param nunca – só que não acontece nada.

A origem dessa anomalia está na falta, justamente, de uma oposição coerente e de alguma liderança que possa ser levada a sério dentro dela, como mencionado acima. Oposição é algo muito mais fácil de exibir em público do que praticar de verdade.

Para agir com eficácia, qualquer força de oposição tem de fazer nexo – e no Brasil de hoje isso não existe. É preciso ter um programa com propostas alternativas ao que o governo está fazendo; é preciso dizer o que está errado e o que você vai fazer, concretamente, para consertar isso. Você precisa ter condições, em suma, de prometer que fará o contrário do que está sendo feito. Ninguém na oposição clássica – PT e seus ajudantes, mais o que se chama de “esquerda” – está fazendo esse trabalho. Quanto à liderança, tudo que se tem é um grande zero.

É difícil. O que a oposição poderia propor de contrário ao que o governo está fazendo? Juros mais altos? Aumento nos índices de desemprego? Mais inflação? Mais mulheres no ministério? Retomada no número de homicídios, que caíram mais de 20% em um ano? Entregar o país de volta às empreiteiras de obras públicas?

No terreno dos nomes para liderar a oposição a coisa fica ainda mais opaca. Um nome desses, para ter força real, precisa em primeiro lugar mostrar que é um candidato com chance de ganhar de Bolsonaro na eleição de 2022. Onde está ele? Um outro problema sério para os adversários do governo em geral, e para a esquerda em particular, é a recusa de enfrentar Bolsonaro no seu campo e em seus termos. Querem ganhar do presidente, estranhamente, acusando-o de agir como os seus eleitores esperam que ele aja; não pode dar certo.

A questão é tirar eleitores de Bolsonaro e trazê-los para o seu lado; ao invés disso, a oposição passa o tempo todo dizendo que esses eleitores são “fascistas”. Fica complicado atrair apoio desse jeito. Situação ruim no governo? Está pior fora dele.

Brasil é país agrícola. Aceita que dói menos.

Artigo de Alexandre Garcia, publicado pela Gazeta do Povo:


Meu primeiro prêmio no jornalismo foi resultado da cobertura do escoamento da safra de soja para o porto de Rio Grande, na boleia de um Fenemê. Foi em 1972. De lá até hoje, a área plantada não chegou sequer a dobrar, mas a colheita quintuplicou, numa invejável produtividade, que compete com o meio-oeste americano. Um bilhão e meio de habitantes do planeta podem ser alimentados pelo trabalho e tecnologia de 5 milhões de produtores rurais brasileiro. Produzem quase uma quarta parte do PIB e respondem por metade das exportações. Somos campeões mundiais em açúcar, café, suco de laranja, soja, carnes. A produção da terra passa de 1 bilhão de toneladas. O agro, com toda sua cadeia econômica, gera 40% dos empregos no Brasil. Um sucesso absoluto.

Naqueles anos em que eu iniciava o jornalismo nas páginas de economia do Jornal do Brasil, a ênfase era para o sonho de o Brasil tornar-se um país industrializado. O mundo desenvolvido tinha por sinônimo a industrialização. A agricultura e pecuária pareciam atividades do passado. Hoje a indústria patina nos números, na renovação, na atualização. Vai bem a indústria voltada para o campo e lavoura – moderna, digitalizada.

Mas o setor industrial foi ultrapassado pela agropecuária na participação do PIB. Enquanto os produtores rurais pensam para o futuro e vivem o futuro, com todas as dificuldades de escoamento e embargos tributários e trabalhistas, a indústria parece presa a um ritmo discreto e lento.

O mundo urbano parece não se dar conta da riqueza do agro. Há quem pense que o alimento aparece na prateleira do supermercado vindo de alguma indústria. Já ouvi uma repórter falar em “fábrica de leite”. Esclareci a ela que fábrica de leite se chama vaca. Já fui visitado por um menino carioca que nunca havia visto uma galinha com penas e cacarejando no galinheiro; só o frango depenado e limpo no balcão frigorífico. E há os que combatem os que produzem no campo, sem saber que seu prato farto e acessível a cada refeição é produto do entusiasmo dos produtores rurais. O agro foi o que nos fez respirar, equilibrando nossas contas externas, quando os anos Dilma nos afogavam em recessão.

Hoje no campo, insumos essenciais já são o computador e a conectividade. O campo está digitalizado. Há milhares de produtores trabalhando com defensivos naturais e buscando fertilizantes que diminuam a dependência dos importados. E tudo isso ocupando apenas uns 8% do território nacional. Os ruralistas do brasilzão real estão dando exemplo de desenvolvimento e progresso, mesmo com o emaranhando de normas, que parecem ser de um país masoquista, que quer ser pobre mas tem um tremendo potencial para ser riquíssimo. O potencial de produzir cada vez mais o mais essencial dos produtos, que é o alimento.

Vargas Llosa: "Retorno a Berlim".

Há 28 anos a cidade ainda estava em ruínas, especialmente no Leste, e agora cresce e se reconstrói de maneira frenética. É um formidável centro de cultura, paraíso da música, dos museus e do teatro. Artigo do escritor Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura, publicado por El País:


Para o poeta José Emilio Pacheco, o olfato dizia se os livros eram bons ou ruins. Estive em uma livraria nos Estados Unidos com ele; cheirava as estantes e o nariz ordenava o que devia comprar ou rejeitar. Comigo acontece com as cidades o que a ele acontecia com os livros; basta chegar a um aeroporto ou a uma estação e imediatamente sei se a cidade me aceita ou me resiste. Em relação a Berlim, soube instantaneamente que poderia viver lá a vida toda e que também meu esqueleto descansaria feliz em terra berlinense. Estive lá durante todo o ano de 1992 e agora voltei apenas por três dias, também ao Wissenschaftskolleg, para ouvir um novo fellow, meu amigo Efraín Kristal, que escreverá um livro sobre Borges. Ele nos explica com luxo de detalhes o que já fez e, sem dúvida, será um ensaio cheio de revelações e surpresas.

Embora os 28 anos tenham mudado o aspecto da cidade –então ainda estava em ruínas, especialmente no Leste, e agora cresce e se reconstrói de maneira frenética–, continua sendo o paraíso da música, dos museus e do teatro: um formidável centro de cultura. Quase três décadas atrás, passear por Unter den Linden em direção à Ilha dos Museus era andar entre ruínas; agora reapareceram os palácios e as óperas, e mansões suntuosas e às vezes feias, como a Embaixada da Rússia, que ocupa um imenso quarteirão inteiro. Então, o arquiteto italiano Renzo Piano tinha inventado a ressurreição da Potsdamer Platz; lembro-me de que trouxe mergulhadores russos, que trabalhavam submersos na água e voltavam à Rússia de avião para passar os fins de semana com as famílias. Agora a Potsdamer Platz brilha na noite com seus belos e gigantescos edifícios iluminados, um dos quais é o famoso Museu do Cinema e outro é o Teatro Marlene Dietrich, a quem os berlinenses perdoaram, pelo visto, que durante a guerra tenha cantado para os soldados norte-americanos...

Não sei se existem muitos centros no mundo como o Wissenschaftskolleg, mas, de qualquer forma, deveriam abundar. É um centro público que convida todos os anos entre trinta e quarenta pesquisadores de diferentes países e disciplinas, durante um semestre ou um ano, para concluírem uma investigação ou um livro. A única obrigação que têm é fazer uma exposição para os outros bolsistas sobre o que pensam fazer e depois almoçar duas ou três vezes por semana com os outros pesquisadores. No ano que passei lá, o personagem mais misterioso era um romeno; havia sido professor universitário nos tempos de Ceaucescu. Deu um curso marxista contra a religião, mas, como nos explicou, secretamente se converteu ao que depreciava em suas aulas e agora era especialista em anjos, ou seja, angeólogo. Ele nos fez uma exposição notável sobre a miríade de anjos –e todas as suas variantes e números– que povoam o paraíso. O que nunca pudemos saber é se ele realmente acreditava no que contava. Vinte e oito anos depois, me dizem que ninguém ainda conseguiu descobrir; isso sim, o romeno em questão foi desde então nada menos que ministro das Relações Exteriores de seu país. Está muito claro que, acredite neles ou não, os anjos agradecidos acreditam nele.

Outro fellow, com o qual me encontrava todas as manhãs na academia, não era menos extraordinário. Tinha sido aceito em Oxford, onde esperava se dedicar ao Egito. Mas o arabista que era seu professor o convenceu a se dedicar ao Sudão, um país do qual a universidade acabara de adquirir documentos muito antigos. Assim o fez. E se tornou, a julgar pela bela exposição que nos deu, um extraordinário especialista naquele país. Conhecia sua história, sua geografia, as variantes de sua língua. Mas nunca havia pisado no país fundamentalista ao qual tinha dedicado a vida, nem o pisaria, pois era judeu e, ainda por cima, israelense. Havia dedicado toda sua ciência e toda sua vida a um país em que jamais colocaria os pés. E não há dúvida de que o amava de todo o coração. Falava entusiasmado sobre os sudaneses que, disfarçados e tomando mil precauções, viajavam para se reunir às escondidas com ele na Europa.

Assim que entrei no Kolleg, descobri Eva, que nos dava aulas de alemão ao amanhecer. Pensei aterrorizado se iria me perguntar se ainda me lembrava de cor do poema de Goethe que, nos dias de euforia, costumava recitar aos gritos. Mas não o fez, felizmente. E também estava lá, como vindo do fundo dos séculos, aquele que dirigia a instituição quando estive nela: Wolf Lepenies. Passou muitos anos no Instituto de Altos Estudos de Princeton e agora voltou a Berlim como fellow da instituição que dirigiu durante vários anos com mão de mestre. Filósofo, ensaísta, poliglota, Lepenies nos deslumbrava toda vez que abria a boca e principalmente quando propunha algum brinde: fazia isso citando alguma ideia, verso ou frase que tivesse a ver com o assunto. Os anos não passaram por ele; continua sendo o mesmo de então, ao menos em simpatia e verbo. Ele me apresenta o romancista deste ano, o búlgaro Georgi Gospodinov, e a nova diretora do Kolleg, a historiadora Barbara Stollberg-Rilinger.

Uma coisa que me impressiona é que todos os fellows deste ano me parecem muito jovens; dizem-me que há, entre eles, vários músicos e um médico que dirige um grande hospital nos Estados Unidos. Lembro que entre nós havia um coreógrafo que ensinava exercícios de relaxamento à noite. A instituição distribuía ingressos para concertos, óperas e apresentações de teatro. Eu adorava principalmente os espetáculos montados em Berlim Oriental por jovens que armavam seus palcos entre as ruínas e que eram, em geral, imigrantes dos países do Leste. Sua presença era um indício da pujança e da versatilidade da vida cultural da velha capital alemã, que já então recuperava, no campo da cultura, sua condição de aberta ao mundo, de cidade multicultural e multilíngue.

Graças a Wolf Lepenies pude estudar e fichar muitos desenhos e gravuras de George Grosz, dispersos em museus e galerias de Berlim. Ainda devem estar, em alguma maleta esquecida, as muitas fichas daquele ensaio que nunca escrevi sobre o virulento desenhista e pintor que, acredito, encarnou melhor do que ninguém os anos conturbados de Weimar. Trabalhei muito nele e até fui visitar um de seus filhos nos Estados Unidos, um músico de jazz que me mostrou cartas e até um álbum de família de Grosz. De repente, nesta viagem, senti uma vontade irresistível de retomar aquele projeto, esquecido desde então. Pobre Grosz: salvou-se por milagre se ser morto pelos nazistas, enfurecidos com as ferozes caricaturas que fazia deles. Foram ao seu apartamento em Berlim e ele os recebeu amavelmente, fazendo-se passar pelo mordomo do pintor e aproveitando a confusão para fugir pela janela. Nos Estados Unidos, o terrível Grosz suavizou-se e perdeu o ódio e a fúria que o faziam pintar. Tornou-se bom e suas pinturas perderam a pugnacidade e a virulência de antanho. Voltou a Berlim somente em 1945. E, naquela noite, festejado pelos amigos, bebeu sem limites; quando voltou ao apartamento que lhe tinham emprestado, caiu na escada e o zelador o encontrou morto na manhã seguinte, no porão, por conta dos golpes que sofreu.

Grunewald, o bosque de Berlim onde fica o Wissenschaftskolleg, não mudou tanto quanto o resto da cidade. Lá estão os lagos, as árvores, agora nuas por causa do inverno, os bandos de melros que resistem ao frio e, é claro, os corredores que enfrentam os ventos atrozes e as geadas. Caminhei muitas vezes por esse bosque naquele ano e fui dando forma àquele enxame de fichas que me permitiram lembrar e descrever a campanha eleitoral que, durante três anos, me afastou da minha máquina de escrever e dos livros, minha verdadeira vocação. Voltei a ela e por isso sempre tive uma enorme gratidão por aquele ano berlinense. Esta rápida viagem, trinta anos depois, é um bom momento para lembrar isso.

Eutanásia: a dupla escolha do Parlamento e do Presidente.

A eventual aprovação da eutanásia no Parlamento, sem ter havido um debate prévio com os eleitores, constituiria uma irresponsável aventura política, adverte o professor João Carlos Espada:


Na votação sobre a eutanásia que na quinta-feira terá lugar no nosso Parlamento, não está “apenas” em causa a escolha sobre a matéria ética da eutanásia — o que certamente já não seria pouco. Está também em causa — e, em termos estritamente políticos, talvez fundamentalmente — a relação de confiança entre os deputados e os seus eleitores. É sobretudo neste plano político que é surpreendente o comportamento dos nossos dois maiores partidos democráticos — o PS e o PSD.

Nenhum destes partidos fez referência ao tema da eutanásia nos seus manifestos eleitorais. O tema nunca foi discutido nas suas campanhas eleitorais. Acresce que os seis últimos bastonários da Ordem dos Médicos, incluindo o actual, declararam a sua oposição à legalização da eutanásia. E uma inédita declaração conjunta de representantes de oito comunidades religiosas (incluindo cristãos, judeus, mórmons, hindus, budistas e muçulmanos), condenou em 2018 a eutanásia — e voltou agora a fazê-lo. Apesar disso, o PS decidiu manter a sua proposta de legalização da eutanásia, a somar à do BE, à do PAN, do PEV, e agora também à da IL. E o PSD candidamente declarou neutralidade sobre o tema — o que em primeiro lugar significa neutralidade sobre a hipótese de aprovação da eutanásia sem prévia discussão do tema com os eleitores.

A pergunta é a seguinte: sabem os deputados do PSD e do PS qual é o sentimento dominante dos seus eleitores sobre a matéria da eutanásia? Não pretendo sugerir que os deputados devam sempre seguir o sentimento dos seus eleitores. Mas seguramente sustento que devem estar em conversação com eles e cruzar argumentos com quem os elege sobre matérias indiscutivelmente cruciais.

Sei que está na moda tratar os eleitores como “pouco esclarecidos” e “reféns do populismo”. Vários livros bizarros têm recentemente sido escritos para “provar” a ignorância dos eleitores e a sua incapacidade de escolher com conhecimento de causa. Essa tem sido uma das — a meu ver muito pobres — explicações da popularidade dos partidos chamados “populistas”.

Há, no entanto, uma outra explicação bastante plausível do fenómeno populista, corroborada pela generalidade dos inquéritos de opinião: crescentes faixas dos eleitorados nas democracias europeias e nos EUA percepcionam os decisores políticos como indiferentes — quando não premeditadamente hostis — aos seus pontos de vista e até aos seus modos de vida. Uma boa parte desta hostilidade é sentida precisamente nas questões fracturantes que parecem estar na moda entre certos sectores ditos “esclarecidos”. A questão da eutanásia é seguramente uma questão maior entre as várias questões “fracturantes”.

Por este motivo estritamente político — compatível aliás com diferentes posições éticas sobre a eutanásia — lamento ter de dizer que a eventual aprovação da eutanásia no Parlamento, sem ter havido um debate prévio com os eleitores, constituiria uma irresponsável aventura política.

Que essa aventura seja zelosamente defendida pelo Bloco de Esquerda não me surpreende. É possível que a proposta de legalização da eutanásia possa até corresponder ao sentimento dominante entre os poucos eleitores do BE (que aliás se consideram uma “vanguarda esclarecida”). O Partido Comunista, em contrapartida, apesar de também se considerar uma “vanguarda”, parece ter sensatamente percepcionado que a proposta não estaria em consonância com o seu eleitorado . O CDS desde o início declarou a sua oposição à proposta, o que parece claramente em consonância com o ideário do partido e com o sentimento dominante entre os seus eleitores. Mas o comportamento dos dois maiores partidos do nosso regime democrático, o PS e o PSD, é dificilmente compreensível.

Em suma, na votação da próxima quinta-feira, todos os deputados devem ter consciência de que enfrentam uma dupla escolha: uma diz respeito à matéria ética da eutanásia; a outra diz respeito à relação de confiança entre eles e os seus eleitores. Para os defensores da democracia representativa e da confiança dos eleitores no seu Parlamento, a segunda deveria ter prioridade sobre a primeira. E um genuíno debate público sobre a eutanásia poderia ser tranquilamente promovido em seguida — o que, aliás, devia ter sido activamente promovido na mais recente campanha eleitoral, sobretudo pelo PS e pelo PSD, que já enfrentaram uma situação idêntica em Maio de 2018.

Na verdade, o argumento que acabo de apresentar é exactamente idêntico ao que aqui apresentei naquela altura — quando as propostas favoráveis à eutanásia foram sensatamente derrotadas no Parlamento. Para protecção da democracia parlamentar, o mesmo deveria acontecer na próxima quinta-feira. Se isto não acontecer, julgo que o Presidente da República deveria recordar ao país os princípios subjacentes a uma democracia parlamentar que presta contas aos seus eleitores — e deveria agir em conformidade.

Guzzo: "Cada vez menos gente presta atenção na opinião do papa".

Benção de Francisco a Lula não vai servir para absolver o ex-presidente da sua situação de ladrão, estabelecida pela Justiça brasileira. J. R. Guzzo:


Houve um tempo em que o papa era infalível. Não se tratava de um “modo de dizer” ou de uma crença opcional – era doutrina católica, ou dogma, e se você não acreditasse nisso, estava sujeito a cometer pecado mortal e, se morresse de repente sem ter tido tempo de se confessar, poderia ir direto para o inferno.

Era, pelo menos, o que diziam os padres. Hoje em dia, nem a Igreja exige que os fiéis acreditem nisso.

Mais: o próprio papa é o primeiro a concordar que o mundo mudou. A “infalibilidade do papa” em questões religiosas deve ser vista, hoje, como um indicador, e não como uma verdade acima de discussão.

A benção do papa Francisco a Lula, assim, não vai servir para absolver o ex-presidente da sua situação de ladrão, estabelecida pela Justiça brasileira – condenado em dois processos seguidos, e no primeiro deles em três instâncias, por corrução e por lavagem de dinheiro.

Nada consta

Ninguém, nem o papa nem Lula, estava querendo uma absolvição de verdade; queriam apenas uma espécie de “nada consta” perante a opinião pública.

O problema é que cada vez menos gente presta atenção na opinião do papa – até porque há cada vez menos católicos e grande parte dos que permanecem fiéis criaram o hábito de pensar com a própria cabeça.

É assim pelo mundo afora. É assim no Brasil também.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Metrópoles

Abstinência sexual

O fato é que meninas engravidam e meninos, não; e isso não é questão de gênero. Coluna de Luiz Felipe Pondé, via FSP:


Abstinência sexual. O termo é horroroso. Vibrações evangélicas. Repressão sexual. Todo inteligentinho que acha os anos 1960 o máximo tem alergia a isso. Com relação aos evangélicos, ter preconceito contra eles é quase um pré-requisito pra ser aceito nos clubes dos chiques, dos descolados e dos inteligentes.

A ministra Damares pode vir a ser a segunda presidenta (risadas?) do Brasil. Acho que, se isso acontecesse, os chiques, descolados e inteligentes entrariam em combustão. Falar em sexo sempre dá pau.

A verdade é que, tecnicamente, a ministra Damares tem razão. Não por qualquer razão ligada ao pecado, mas sim porque, como aprendíamos na faculdade de medicina nos anos 1980, adiar a entrada na vida sexual, principalmente das meninas de classes sociais vulneráveis, é uma ferramenta comportamental de grande uso para evitar gravidez indesejada, violência contra a mulher, filhos abandonados que migram para o crime e outros quebrantos.

Concordo que é sempre péssimo a convergência entre religião, Estado e política em geral. Apesar de que o socialismo é uma religião pra muita gente que se diz laica. Assim como o mercado para muitos liberais mal formados. Mas a ingerência de grupos religiosos no Estado é ruim mesmo. Quem deveria pregar a abstinência?

Entretanto, diante da falência generalizada do Estado brasileiro, a cultura evangélica tem salvado vidas. O descoladinho, bem-nascido, pode achar isso coisa de ignorante, mas, no caso aqui, o ignorante é o descoladinho.

Religiões são ferramentas poderosas de organização da vida. Já tive alunas que contaram em sala de aula suas histórias de como seus pais evangélicos as mantiveram longe do destino comum de suas amigas no bairro: engravidar aos 14 ou 15 anos do menino traficante mais popular do bairro. Que logo seria assassinado e a deixaria com uma barriga sem pai.

Semana passada eu dizia que a moral nunca é original. Pobres de espírito não entendem isso porque confundem moral com um lançamento novo de desodorante. A moral, em matéria de filhos, é, basicamente, cuidar, cuidar, cuidar. Prova disso é que os millennials narcisistas não querem ter filhos porque querem saber de antemão pra onde irão no Réveillon sem se preocupar com os pentelhos.

Qualquer um que tenha filha sabe que deve cuidar pra que ela não entre na vida sexual de forma irresponsável. É que os descoladinhos gostam de fingir que não. Claro que quem tem filhos também se preocupa.

Hoje em dia o mundo é tão chato que, quando falamos de coisas que terminam em "a" ou "o", é necessário escrever mais 20 páginas pra explicar o que queremos dizer. A semântica de gênero tornou-se retardada. O fato é que meninas engravidam e meninos, não. E isso não é uma questão de gênero.

Os evangélicos entregam algo bem longe de qualquer moral original. Lembre-se: a moral nunca é original. A vida é, basicamente, trabalhar, cuidar, pagar boletos, às vezes férias, ter amizades para o fim de semana, adoecer e conseguir ter acesso a médicos.

Os evangélicos entregam vida em família, rede de solidariedade, parceria econômica e de trabalho, programa de fim de semana, namorados e namoradas que você conhece a família e alimento espiritual.

O descoladinho, provavelmente bem-nascido, que vive em algum bairro chique da zona oeste ou sul, deve achar esse alimento espiritual junk food, e o seu tipo de budismo light melhor, porque não engorda. Mas a verdade é que o budismo light do descoladinho só serve pra deixá-lo em forma física. A entrega dos evangélicos é mistura pura. Feijoada de sábado. Mocotó. Aquilo que o descoladinho brinca de comer na zona norte.

Enquanto se berra ao redor das palavras da ministra Damares (ver Jesus na goiabeira dá medo mesmo...), as pesquisas de comportamento mostram a queda da atividade sexual entre os mais jovens.

A abstinência sexual está pegando não por conta da proposta dos evangélicos somente. Está pegando por conta da medicalização, da depressão e do medo que assola os mais jovens, enquanto a caravana descoladinha come ceviche orgânico.

Imprensa: os vigaristas da adversativa não se emendam.

O que interessa à direção da Folhona é o que vem depois do “mas”, crava Augusto Nunes:


Disfarçados de redatores de manchetes da primeira página, os vigaristas da adversativa não se emendam — e são duros na queda. Sempre que aparece uma notícia boa, eles anabolizam alguma irrelevância, conferem-lhe o mesmo peso da que realmente interessa e, sempre depois de um MAS precedido pela vírgula, infiltram a ressalva concebida para decretar o empate.

Foi que fez a Folha na manchete deste domingo: “Sob Bolsonaro, crime cai e emprego cresce, mas área social piora". A direção do jornal deve achar que a área social estaria bem melhor se a criminalidade subisse e o desemprego crescesse.

Coronavírus: um certo medo ajuda, pânico demais atrapalha.

Crianças engarrafadas, gatos mascarados e cientistas que esquecem estar falando para leigos assustados criam ambiente em que pavor substitui a precaução. Vilma Gryzinski:


“Considerando-se como o vírus parece ser transmissível e o fato de que todos os adultos podem ser infectados – temos menos dados sobre crianças –, 60% é um número razoável para o tamanho da epidemia”, diz o professor Neil Ferguson, da Faculdade de Saúde Pública do Imperial College.

“O que ainda não sabemos, é quantas pessoas vão morrer. Nossa melhor estimativa no momento é que talvez 1% das pessoas infectadas podem morrer”.

Com toda a frieza de um estudioso dos vírus – e o conhecimento da propagação dos predecessores do novo corona, ele fala com cabeça de cientista para gente que escuta com ouvidos de leigos apavorados.

Como o professor está tratando da Grã-Bretanha, acaba de admitir, “potencialmente”, 400 mil mortes.

A parte do “potencialmente” é empurrada para o fundo do arquivo mental de humanos programados para reagir rapidamente a perigos.

E poucas coisas podem parecer mais perigosas do que um vírus que já infectou 71.000 pessoas e matou 1 770 pessoas (apenas nove fora da China).

Números inevitavelmente superados a partir do momento em que são escritos.

Isso se forem confiáveis. Uma fonte da Casa Branca já disse que o governo americano “não tem um alto nível de confiança” nos números chineses.

Ninguém tem, para falar a verdade. Principalmente depois que “apareceram” mais 15 mil infectados na semana passada, de uma vez só, devido a uma mudança de metodologia na contagem.

O medo do corona – ou Covid-19, o nome oficial da coisa – já provocou o cancelamento de eventos tão diferentes quanto uma grande exposição de tecnologia de celulares em Barcelona e um desfile militar na Coreia do Norte.

No Brasil, sem um único caso, como em toda América Latina e Caribe, já começam a circular pessoas com máscaras.

Além do medo, natural, tem a boataria. Um exemplo: o método norte-coreano usado para um infeliz que tentou escapar da quarentena, o fuzilamento.

Quem secretamente não pensou que métodos norte-coreanos podem ser necessários nessa hora?

O pânico é um péssimo conselheiro e gera decisões irracionais, mesmo quando apenas inócuas, como improvisar “máscaras” feitas com garrafões de plástico para os filhos ou coberturas faciais para gatos, uma das novidades na China.

Uma certa dose de medo ajuda a prevenir uma doença para a qual os especialistas dão apenas a frustrante recomendação de sempre: lavar as mãos.

Muito, principalmente depois de usar transportes públicos.

Como convivemos desde sempre com os vírus, mas variedades mais recentes como Sars e cepas de influenza aceleram os estudos sobre os índices de contágio, os números ficaram mais precisos.

Aviões, trens de metrô e ónibus – além de aeroportos e estações – são ambientes altamente favoráveis à propagação de vírus espalhados pelos jatos invisíveis disparados quando um doente espirra, tosse, segura algum objeto ou mobiliário com mãos contaminadas.

Número preciso: aumentam seis vezes a probabilidade de contágio.

Uma vez expelido, o corona pode continuar ativo por quatro ou cinco dias. Ou até nove, em ambientes frios, entre outras condições favoráveis.

Sem falar na “nau maldita”, o navio de turismo Diamond Princess, ancorado no Japão, que virou um viveiro de corona: já são 454 infectados.

Os estudos chegam a detalhes incríveis. Um exemplo: aumentar a assiduidade da lavagem de mãos nos dez aeroportos mais “influentes” do mundo reduziria em até 37% as epidemias respiratórias.

O pessoal não colabora? Metade das bandejas obrigatórias na esteira de inspeção de bagagens abriga algum vírus de respiratório comum, seja resfriado ou gripe (estudo da Universidade de Nottingham)?

Pelo menos escolha um lugar mais seguro no avião. Os piores (Emory University, de Atlanta) são os das primeiras seis fileiras logo depois da entrada, à direita, mais as primeiras poltronas adjacentes da parte central.

Os melhores: bem do meio, do lado da janela.

Se estiver em Londres, terá que pegar o metrô como todos os outros mortais? A estação de King’s Cross St. Pancras, eixo nacional e internacional, já apareceu como campeã no índice de pessoas com algum tipo de gripe (15 a 10 infectados por cem mil).

Ah, sim, o melhor lugar no táxi ou no Uber é bem atrás do banco do motorista. Mas isso só para evitar os eflúvios eventualmente contagiosos dele. Se um passageiro infectado tiver passado por ali…

Melhor ficar em casa. Principalmente se estiver vindo de algum lugar mais suspeito, para preservar os outros de contaminação.

A autoquarentena, duas semanas de retiro voluntário, está entrando na moda. Pega bem para a imagem, principalmente nas redes sociais.

Na China, os números são, como sempre, espantosos. Segundo um levantamento do New York Times, 760 milhões de pessoas, mais da metade da população, estão submetidas a algum tipo de restrição, controle ou vigilância sobre a livre movimentação.

A colaboração voluntária depende do nível de confiança nas autoridades, uma conjunção dificílima de aferir, ainda mais num país sem fundamentos democráticos, incluindo liberdade de expressão e de imprensa.

Nesse quadro, é um espanto o estudo de dois biólogos da Universidade do Sul da China, Botao Xiao e Lei Xiao, sobre “as possíveis origens” do novo corona.

O estudo dá algum embasamento ao que parecia a mais louca teoria conspiratória: a probabilidade de que o vírus tenha “escapado” de algum dos dois laboratórios de alta segurança que fazem pesquisas com doenças propagadas por vírus.

Um deles, o Centro de Controles de Doenças de Wuhan, fica a 280 metros do mercado de peixes e frutos do mar (entre outras coisas) que é considerado o epicentro da epidemia.

Neles eram usados 155 morcegos do tipo Rinolophus afines capturados na província de Hubei e 450 na de Zhejiang. Um pesquisador, segundo os biólogos, relatou um incidente em que foi atacado por um morcego e entrou em contato com seu sangue. O mesmo pesquisador entrou em contato com urina de morcego.

Duas falhas de segurança num ambiente em que tudo tem que seguir protocolos com exigências máximas indicam um problema sistêmico.

Qual a confiabilidade do estudo dos biólogos, que compararam os genomas dos vírus em pacientes humanos e nos morcegos de laboratório, encontrando de “96% a 89%” de coincidência?

E o que vai acontecer com eles?

E quem serão os heróis e vilões da série da Netflix?

Os evangélicos e as eleições

Os evangélicos estão distribuídos em vários partidos, embora votem alinhados entre si. A sua estratégia consiste em captar o maior número possível de eleitores em diferentes configurações partidárias, atendendo a conveniências regionais. Texto do professor Denis Rosenfield, publicado pelo Estadão:


Os evangélicos estão no centro do debate nacional. Tornaram-se atores políticos, pautando sua ação em valores conservadores, incluindo desde costumes até questões dogmáticas, como a mudança da Embaixada do Brasil em Tel-Aviv para Jerusalém. Ao contrário dos católicos, que não seguem normalmente os dizeres políticos de seus padres, eles tendem a observar as orientações de seus pastores. É bem verdade que os católicos são numericamente superiores aos evangélicos, porém tal diferença não tem relevância eleitoral.

Ademais, por muito tempo os católicos abandonaram posições religiosas em benefício de posições esquerdistas da Teologia da libertação, apoiada pela CNBB. Criou, por sua Pastoral da Terra, o MST e sempre o apoiou desde então. Não mais respeitou o direito de propriedade, afastando a Igreja dos empreendedores rurais. Esses setores da Igreja foram firmes apoiadores dos governos petistas.

O eleitorado evangélico considera os costumes sob uma ótica religiosa. Aí não entra em questão uma discussão propriamente racional, pois o seu fundamento se encontra num texto bíblico, que fornece os critérios do juízo e da ação. Assim é o caso do aborto, do casamento homoafetivo, dos textos didáticos sobre gênero e do que o PT considera politicamente correto. Aliás, esse partido começou a perder seu eleitorado evangélico ao contrariar essa pauta de valores. Quando Bolsonaro se manifesta sobre a pauta de costumes, tem em mente precisamente esse eleitorado.

Outro ponto de princípio dos evangélicos diz respeito à mudança da embaixada brasileira para Jerusalém. Trata-se de uma questão dogmática, não sujeita a discussão: Jesus ressuscitará quando Jerusalém se tornar a capital do Estado judeu. Passa, então, a correr outro tempo, o do processo de conversão dos judeus, passando ambas as religiões a ser uma, sob os princípios do cristianismo, principalmente o reconhecimento de Jesus Cristo como Messias.

Bolsonaro comprometeu-se com esse seu eleitorado a fazer tal mudança. Seu compromisso continua, embora por questões conjunturais tenha sido adiado. Muito provavelmente realizará essa mudança em 2021, um ano antes da eleição presidencial. Ao cumprir sua promessa, terá apoio maciço da comunidade evangélica. Note-se que Trump assim conquistou o apoio do eleitorado evangélico, ganhou as eleições e cumpriu a sua promessa.

O PT está aqui mal colocado, pois optou pelo politicamente correto de forma esquerdizante e se chocou de frente com os evangélicos. As contrariedades e os ressentimentos se traduziram no apoio ao candidato Bolsonaro em 2018. As posições antissemitas/antissionistas do PT igualmente tiveram papel importante no distanciamento. Lula tenta uma reaproximação, porém suas dificuldades são imensas. A visita ao papa tampouco atenua o problema, ao dirigir-se a outro eleitorado, além de seu caráter manifestamente inapropriado ao envolver o santo padre numa questão política, a da corrupção e do roubo em seus governos, sem arrependimento nem confissão.

Tomemos o exemplo da Assembleia de Deus. Essa confissão tem no Brasil em torno de 20 milhões de membros. São pessoas acima de 14 anos de idade, capazes de fazer a escolha de sua religião, quando então se tornam parte integrante dela, em sentido pleno. Considerando a idade eleitoral de 16 anos, quase todos são eleitores, em sentido estrito. Não barganham com questões dogmáticas, como certos preconceitos veiculam contra os evangélicos. Foram missionários suecos que a introduziram no País. São pessoas extremamente sérias e comprometidas com sua religião. A Igreja Universal do Reino de Deus, numericamente menor, tem, por sua vez, enorme importância midiática, por ser proprietária da Rede Record. Trata-se de uma rede de comunicação que abarca principalmente as classes C e D.

Qualquer PEC ou projeto de lei, para ser aprovado na Câmara dos Deputados, necessita passar pelo crivo da bancada evangélica. Após a bancada da agricultura e da pecuária, é a segunda em importância. A Câmara tem 513 deputados federais e a bancada evangélica, 86. Outras estimativas chegam a 106. O Senado tem 81 parlamentares e a bancada evangélica, 9. Outras estimativas chegam a 14. Qualquer articulação parlamentar de governo deve passar por tratativas com essa bancada, que sempre sustentará suas questões de princípio, mesmo quando não forem objeto específico de negociação.

Os evangélicos estão distribuídos em vários partidos, embora votem alinhados entre si. A sua estratégia consiste em captar o maior número possível de eleitores em diferentes configurações partidárias, atendendo a conveniências regionais. Ademais, escolhem candidatos preferenciais em cada Estado, concentrando neles os seus votos. Os candidatos escolhidos são pessoas próximas das lideranças religiosas e delas dependem, agindo organicamente. Muitos são “filhos espirituais”, assessores e discípulos.

Bolsonaro extraiu bem essa lição. O PT não a levou em consideração. Os demais candidatos deverão enfrentar essa questão.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Greta será Petra no futuro

As semelhanças entre ambas estão na ampla influência que suas famílias exerceram, observa Juliano Enamoto na Gazeta:


Peço a devida vênia ao leitor para o título cacofônico, mas é um fato que me chamou a atenção ao encontrar, nas mídias sociais, uma postagem de Greta Thunberg e, logo em seguida, uma publicação de Petra Costa. O que estas personagens têm em comum? O que o futuro nos reservará em matéria de neoativismo de esquerda?

Ambas ganharam fama e notoriedade há certo tempo. Greta Thunberg é uma famosa ativista no auge de seus experientes 15 anos, cuja maior “revolução” foi um chamado a uma greve escolar para salvar o planeta, o que, sem eufemismo, inspira os alunos a matarem aula. Petra Costa tem seu sucesso graças ao documentário Democracia em Vertigem, com sua narrativa reescrevendo a história, “apagando” a crise econômica advinda da “Nova Matriz Econômica”, a real responsabilidade do Partido dos Trabalhadores nos recentes escândalos de corrupção, além de fantasiar a manipulação do impeachment pelo PSDB, tornando milhões de brasileiros (protagonistas daqueles eventos) meros fantoches.

Há um hiato geracional entre as mencionadas figuras públicas, elas residem em hemisférios distintos, mas é indissociável a percepção de que a infanto-juvenil ativista Greta Thunberg no futuro será uma ativista tal qual Petra Costa o é atualmente.

As semelhanças entre ambas estão na ampla influência que suas famílias exerceram. Uma elite financeira, no caso tupiniquim: os pais de Petra Costa são notórios militantes de esquerda desde que se conheceram em sua época de faculdade e continuam a sê-lo ainda hoje, o que demonstra que a maturidade nem sempre advém do tempo; seu nome é uma homenagem a Pedro Pomar, fundador do Partido Comunista Brasileiro; e, curiosamente, ela é neta de um dos fundadores da empreiteira Andrade Gutierrez, estando no núcleo essencial do escândalo de corrupção da Petrobras e outros negócios escusos. Uma constante na esquerda caviar brasileira é a glamourização de conceitos marxistas por seletos membros de uma elite financeira.

A infanto-ativista Greta Thunberg tem uma família de atores conhecidos, também essenciais para a deflagração de suas ações, pois incentivou os protestos, inclusive com referência a uma “rebelião juvenil”, conclamando os alunos a faltarem às aulas, no seu Skolstrejk för klimatet (“greve da escola pelo clima”), que nada mais é do que matar aula por um protesto de efeitos práticos inúteis, passando à sua meteórica ascensão recente com seus discursos altamente produzidos mas vazios de conteúdo e resultados práticos.

Além disso, ambas são figuras centrais em obras de documentários. Petra, com seu filme distópico, um olhar particular do que não foram os eventos que ocasionaram o impeachment. Já no caso de Greta Thunberg, sua “luta” será o destaque de um documentário da BBC que promoverá encontros da jovem com cientistas (impressionantes os diálogos que devem suceder), além de relatar sua vida pessoal e a migração da infância para a vida adulta (!?).

A recente entrevista da cineasta Petra Costa à CNN é um espetáculo à parte, com inúmeras frases desconectadas com a realidade, feitas para chocar o público americano. Talvez um telespectador norte americano ficasse no mínimo estupefato com as informações veiculadas sobre “genocídio dos brasileiros negros”, “rituais satânicos”, “bebê demônio” ou “transformação da Floresta Amazônica em savana a qualquer momento”.

Durante a cerimônia do Oscar, Petra Costa não deixou de trazer uma mensagem política expressa, com direito a uma cômica presença de um membro de sua equipe com um boné do Movimento dos Sem-Terra, e um cartaz que pedia “Stop invading indigenous lands”, ou “Parem de invadir as terras indígenas”. Uma piada pronta, além de contar com a cota indígena e a sempre presente Marielle (em que a demora da conclusão do inquérito, triste realidade de milhares de casos, favorece a narrativa). O simbolismo do protesto, já manjado por brasileiros, talvez seja exótico naquele local, mas a insignificância é o destino final deste ato, assim como o do documentário Democracia em vertigem.

São informações demais para serem digeridas e muitas mentiras para serem refutadas, não por uma narrativa, mas pelos fatos e a própria realidade que impõe-se diante de qualquer visão ideológica, a ponto de o Movimento Brasil Livre ter feito um vídeo em inglês, chamado And the Oscar goes to... CORRUPTION. The Edge of Hipocrisy, denunciando as mentiras de Petra Costa e seu documentário. Sinceramente, a entrevista da cineasta a ridiculariza mais que seu documentário.

Da mesma forma, quando vejo as falas ou eventos de Greta Thunberg, toda a pompa, o silêncio e o ar de seriedade, aquela expectativa por pérolas de sabedoria ou a receita da pedra filosofal, e comparo com o que ocorre de verdade, não deixo de pensar na máxima de Horácio: “parturiunt montes, nascetur ridiculus mus”, ou “a montanha pariu um rato”.

As mentiras e ativismo que ambas representam, “denunciando” governos e figuras do espectro conservador, apresentando uma distopia, afirmando que vivemos em uma era neofascista, busca desenhar com tintas mentirosas quase um cenário da década de 30 do século passado.

O alento está no fato de que a internet permite ridicularizar o pensamento distorcido de ambas, suas falas absurdas, o descolamento de suas posições com fatos e a realidade. Quem já não viu memes com o “How dare you?” de Greta, ou não começa a reproduzir trechos da fala de Petra com a história do “bebê demônio” e do “genocídio dos brasileiros negros”? Greta será Petra no futuro e o humor desnudará ambas as figuras, tornando ridículas suas ideias tão asseveradas com ares de seriedade. O único aspecto relevante em ambas é o caráter cômico da figura pública que representam.

Juliano Rafael Teixeira Enamoto, formado em Direito e pós-graduado em Didática do Ensino Superior, é procurador da Câmara Municipal de Sapezal (MT).

Singularidades de um símio sem pelo: como evoluiu o homo sapiens.

Da monogamia à cor da pele e ao corpo sem pêlos: "Encontros imediatos com a humanidade" examina alguns dos processos evolutivos que conduziram às bizarras criaturas que nós somos. José Carlos Fernandes para o Observador:


A biologia humana e a história evolutiva do Homo sapiens têm servido para justificar programas nacionalistas, exploração colonial, invasões, genocídios ou, mais prosaicamente, quem na casa fica com o encargo de lavar a loiça e mudar as fraldas aos bebés. Porém, aquilo que é proclamado como “natural” em termos de sexualidade, estrutura familiar e hierarquias sociais e étnicas tem, habitualmente, pouco de “natural” e, muito menos, de inevitável (ver Sexo: Pecando contra a Natureza e contra Deus).

Este uso socio-político da biologia seria sempre de lamentar, mesmo que os seus fundamentos fossem cientificamente comprovados, mas acontece que a maior parte desta argumentação tem vindo a assentar em percepções flagrantemente erradas, em factos isolados e descontextualizados ou em meras especulações e fantasias, e no tremendo equívoco de ver o ser humano como se fosse apenas uma “máquina biológica” e não resultasse de uma complexa interacção entre biologia e cultura.

Mapa das “raças” europeias, elaborado em 1922 por Hans F.K. Günther, um defensor da eugenia.
O estudo da natureza humana defronta-se com vários obstáculos de monta: por um lado, o conhecimento sobre o passado evolutivo do homem tem uma forte componente de incerteza e especulação e estão constantemente a surgir novos elementos que põe em causa teorias que tinham aceitação genérica há 10 ou 20 anos – quanto às que vigoravam há um século e que serviram de base a muitas práticas racistas e eugénicas ou que fundamentaram a perpetuação de situações de desigualdade de género, estão desacreditadas (o que não impede que sejam perpetuadas por políticos e activistas de pendor reaccionário). Por outro, boa parte das experiências de biologia comportamental que podem ser conduzidas para apurar a estrutura e raízes do comportamento das outras espécies não podem, por imperativos éticos, ser aplicadas a seres humanos.


O que a paleoantropóloga Sang-Hee Lee, nascida na Coreia do Sul e que lecciona na Universidade da Califórnia, em Riverside, se propõe no livro Encontros imediatos com a humanidade: Uma nova visão sobre a evolução humana é recorrer às mais recentes descobertas no seu campo para oferecer explicações a algumas perguntas que emergem naturalmente quando nos damos conta das peculiaridades físicas e comportamentais que distinguem o Homo sapiens dos outros símios e dos mamíferos em geral. O livro foi publicado em língua inglesa em 2018, com o título Close encounters with humankind: A paleoanthropologist investigates our evolving species e contou com a colaboração na redacção de Shin-Young Yoon, editor de uma revista coreana de divulgação científica em que Lee colabora, e surge em Portugal pela mão da Vogais, com tradução de Tiago Marques (em Espanha recebeu o título, mais colorido, de No seas Neandertal!).

O livro compõe-se de 22 ensaios, breves e acessíveis a quem não possua qualquer conhecimento prévio de paleoantropologia, que tentam lançar luz sobre questões tão diversas como a localização do “berço” da humanidade ou a relação entre o Homo sapiens e o Homem de Neanderthal. No texto que se segue abordar-se-ão apenas alguns destes tópicos.

Apesar dos progressos realizados nas últimas décadas (incentivadas por disposições legislativas como a introdução de licenças de paternidade), os homens estão ainda longe de despender tanto tempo com as crias como as mulheres, mas mesmo os homens de antanho tinham muito mais responsabilidades no cuidado dos filhos do que os restantes símios ou que os restantes mamíferos – na maioria destes, o macho apenas contribui com o esperma e depois vai à sua vida.

Acontece que, por comparação com as crias dos restantes mamíferos, as crias humanas são todas “prematuras” – o seu cérebro enorme obriga a que sejam evacuadas do útero muito antes de estarem “acabadas” e prontas para enfrentar os desafios mais elementares do mundo exterior.

Mas há mais: como os Homo sapiens vivem em sociedades muito complexas, que envolvem elaboradas relações de cooperação e a execução de tarefas especializadas, são precisos muitos anos de treino para que as crias alcancem a autonomia – já era assim nas sociedades de caçadores-recolectores, mas a “adolescência” dos Homo sapiens foi prolongando-se com a marcha da civilização, o que faz com que, no mundo desenvolvido de hoje, a dependência dos pais possa só terminar após a conclusão do doutoramento, no início da quarta década de vida.

A “adolescência” dos Homo sapiens foi prolongando-se com a marcha da civilização, o que faz com que, no mundo desenvolvido de hoje, a dependência dos pais possa só terminar após a conclusão do doutoramento, no início da quarta década de vida.

Sendo estas crias tão indefesas e dependentes até tão tarde, teriam poucas possibilidades de sobreviver se fossem cuidadas apenas pela mãe, daí a necessidade de envolvimento do pai. Colocando a questão num ponto de vista “cínico”, o Homo sapiens macho é forçado a contribuir para a criação e educação das suas crias porque se ele empregasse a estratégia dos machos de outras espécies de mamíferos, as crias morreriam e os seus genes não seriam transmitidos. Mas aqui levanta-se um problema: como pode o macho ter a certeza de que aquelas crias são mesmo suas?

Em The Third chimpanzee: The evolution and future of the human animal (1992), Jared Diamond confronta o Homo sapiens com os seus primos em termos de estrutura social: os orangotangos adultos são solitários; os gibões adultos vivem como casais monogâmicos isolados; os gorilas vivem em haréns polígamos, formados cada um deles por várias fêmeas adultas e um macho dominante; os chimpanzés-comuns [Pan troglodytes] vivem em comunidades apreciavelmente promíscuas de fêmeas e machos; os chimpanzés-pigmeus [ou bonobos ou Pan paniscus] formam comunidades ainda mais promíscuas de ambos os sexos”. O Homo sapiens tem, pois, a particularidade, entre os mamíferos, de viver em grupo e ser monogâmico, combinação que só tem paralelo nas gaivotas e nos pinguins.

O gibão macho tem razoável garantia de que as crias lançadas no mundo pela sua parceira são suas porque os casais de gibões vivem dispersos em florestas em que a densidade das suas populações é baixa e a probabilidade de a fêmea se cruzar com outro gibão macho e ter um “caso amoroso” não inspira preocupação, mas o Homo sapiens macho nunca sabe o que pode acontecer “em casa” enquanto está ocupado a perseguir um mamute ou no congresso dos técnicos oficiais de contas.

Por outro lado, do ponto de vista da fêmea, há interesse em manter o macho vinculado a si de forma permanente e não apenas no período em que está sexualmente receptiva – daí ter surgido a teoria de que as fêmeas do Homo sapiens desenvolveram a particularidade, por comparação com os outros símios, de não exibirem sinais exteriores de estarem em período de ovulação – e a evolução terá levado esta ocultação de informação ao ponto de nem sequer as próprias fêmeas terem consciência de que estão em fase fértil. Deste arranjo resultou que “os seres humanos fazem sexo constantemente, independentemente dos ciclos férteis, e os homens acabam por voltar sempre às mesmas mulheres” (Lee).

No caso dos babuínos, as fêmeas fazem questão de anunciar publicamente quando atravessam o período fértil: os tecidos em torno dos genitais incham desmedidamente e ganham uma cor vermelha ou rosa intensa

Esta teoria, que defende que “a união de um homem e de uma mulher, mediada pela troca de sexo e comida, conduziu a um compromisso na evolução humana que consiste na divisão do trabalho por género, na família nuclear e no bipedismo”, implicando que “os machos cuidassem das fêmeas e da sua descendência”, foi postulada pelo antropólogo Owen Lovejoy no artigo The origin of man, publicado na revista Science em Janeiro de 1981 e tem tido aceitação generalizada. Porém, Lee, invocando investigações realizadas nas últimos 30 anos, põe em causa o modelo de Lovejoy: “Os humanos não são a única espécie a praticar sexo recreativo durante e fora do período de estro [fase fértil]. Os golfinhos e os bonobos [chimpanzés-pigmeus ou Pan paniscus] mantêm uma actividade sexual contínua, mas não têm famílias nucleares. Esse ideal de uma família nuclear é, muito provavelmente, produto do capitalismo e da economia de mercado, e não um imperativo biológico”.

Lee vai ainda mais longe ao defender que “os humanos não têm um estro oculto, ao contrário da hipótese base do Modelo de Lovejoy. As mulheres comportam-se de forma diferente, consciente ou inconscientemente, durante o período de ovulação; e os homens reagem em conformidade, consciente ou inconscientemente”.

Porém, neste ponto Lee parece ter-se esquecido de que, muito antes de haver capitalismo e economia de mercado, já existia uma fortíssima pressão evolutiva para que homens e mulheres formassem casais monogâmicos persistentes: a necessidade de cuidar de crias lerdas e sem “competências de sobrevivência” até ao fim da longa adolescência, uma dor de cabeça que não atormenta nem golfinhos nem bonobos.

No caso dos golfinhos-nariz-de-garrafa ou golfinho-roaz (do género Tursiops, que é o mais comum na natureza e que é invariavelmente o que se vê nos aquários e oceanários), as crias mantêm uma ligação à mãe durante 3-6 anos, mas ganham autonomia cedo – aos 3-4 meses já começam a capturar e comer peixe – pelo que a mãe golfinho não necessita de um parceiro com quem partilhar o fardo – e, com efeito, até à data não se recolheram provas de que, no seu habitat natural, os golfinhos machos intervenham no cuidado das crias. Quanto aos bonobos, são desmamados por volta dos 4-5 anos e começam a afastar-se das mães por volta dos 6-7 anos; as crias recebem atenções pontuais pela parte de outros machos e fêmeas do bando (aloparentalidade), o que é compreensível numa situação em que, devido à extrema promiscuidade, qualquer das crias pode ter genes de qualquer dos machos, mas a mãe é, basicamente, o único cuidador.

Lee também contesta o argumento da monogamia subjacente ao Modelo de Lovejoy: “Tal como os outros símios machos, um humano do sexo masculino não dispõe de uma forma directa de saber com certeza se é o pai genético dos filhos que está a criar […] Tendo em conta a quantidade substancial de recursos de que as crianças necessitam para crescer, seria de esperar que mais homens tomassem medidas para se certificarem da paternidade, mas não é o caso. Assim, a paternidade parece ser um conceito cultural e não um papel biologicamente determinado. Nas relações monogâmicas, os homens acreditam que os filhos produzidos nessas uniões são seus”.

Pode, porém, perguntar-se a que medidas de comprovação de paternidade poderiam os homens recorrer antes dos testes de paternidade através da análise do DNA, que só surgiram na década de 1980 e só se tornaram expeditos e pouco dispendiosos na década de 1990. Outra forma de aferição de paternidade são os testes aos grupos sanguíneos, mas também são recentes: no início do século XX descobriu-se que os grupos sanguíneos eram transmitidos geneticamente, mas foi preciso esperar até à década de 1930 para que os testes serológicos se tornassem minimamente expeditos e acessíveis. De qualquer modo, o apuramento dos grupos sanguíneos raramente dá respostas conclusivas quanto à paternidade: por exemplo, um casal em que marido e mulher são de tipo 0 só pode gerar crianças do tipo 0, pelo que se um filho for do tipo A, a “traição” é óbvia; porém, se a mulher tiver um amante que também é do tipo 0, não serão estes testes a denunciá-lo.

A partir do momento em que as sociedades humanas ganharam alguma perspicácia e uma vaga compreensão da hereditariedade, os homens terão começado a usar um indicador prosaico e intuitivo para avaliar se aqueles que tinha como filhos eram efectivamente seus: as semelhanças físicas consigo e com os seus ascendentes. O nascimento de um bebé de cabelos louros numa comunidade inuit da Gronelândia só poderia significar que a mãe tivera momentos de intimidade com um membro da colónia viking mais próxima enquanto o esposo andara na caça à foca.

Lee espanta-se por, “mesmo com a tecnologia actual, poucos homens se [darem] ao trabalho de realizar [um exame de paternidade], optando por acreditar que são os pais biológicos dos filhos”. Aqui, Lee revela um pensamento pouco subtil: no mundo moderno e nas sociedades desenvolvidas, o casamento assenta numa relação de confiança mútua e um marido que, numa relação estável, seja suficientemente obtuso para solicitar um teste que comprove que é ele o pai biológico dos seus filhos está automaticamente a estilhaçar essa relação e, muito provavelmente, a pôr fim ao casamento.

Não é por acaso que os testes de paternidade surgem sobretudo em situações de conflito, quando o casal se separou ou está em vias de separar-se e estão em jogo o pagamento de pensões alimentares ou heranças, ou ainda o apuramento da nacionalidade das crianças face às leis de imigração, ou quando alguém alega ser filho der alguém rico e/ou famoso para obter ganhos financeiros e de prestígio. A prática de um marido, por rotina, solicitar o teste de paternidade a cada filho nascido, seria tão intolerável como a de a mulher ter de entregar todas as semanas o telemóvel ao marido para este passar em revista as chamadas por ela efectuadas e recebidas.

Lee conclui o capítulo sobre a emergência da paternidade afirmando que “homens e mulheres são machos e fêmeas, mas também são entidades culturais para lá da biologia”. Não é exactamente uma conclusão revolucionária ou uma revelação, embora por vezes biólogos e antropólogos possam esquecer-se disso no calor das discussões.

Boa parte das convicções racistas assenta em diferenças na cor da pele, por serem as que saltam à vista até dos espíritos menos perspicazes, e não é por acaso que os termos derrogatórios usados para designar outras raças se fixam na cor da pele: “pretos”, “escarumbas”, “amarelos”, “peles-vermelhas”.

Esta obsessão com cores de pele, que, nalgumas sociedades coloniais levou ao aparecimento de complexas hierarquias assentes nas gradações entre branco e negro, impede que nos apercebamos de uma particularidade do Homo sapiens face aos outros mamíferos: fixamo-nos na pele porque podemos vê-la, por não estar coberta por pêlos, ao contrário do que se passa com a esmagadora maioria dos mamíferos e com todos os mamíferos de dimensões similares às nossas, que têm pelagens de cores diversas, mas cuja pele costuma ser de um branco rosado. Como Lee realça, os pêlos dão imenso jeito: “Criam uma barreira contra perigos como a radiação ultra-violeta, os espinhos, as presas dos animais […], estabilizam a temperatura corporal”. Na verdade, o Homo sapiens até possui uma densidade de folículos similares às de animais de dimensões similares, só parecemos pelados porque “os nossos pelos são finos e curtos”.

Que pressões evolutivas terão actuado para que o Homo sapiens tivesse perdido um revestimento que parece só ter vantagens? A resposta estará possivelmente no local de origem dos antepassados do Homo sapiens e nos seus hábitos alimentares. Há cerca de 2.5 milhões de anos, nas savanas africanas que foram conquistando terreno às florestas tropicais úmidas, em resultado de alterações climáticas, alguns dos nossos antepassados terão sido forçados a abandonar a dieta dominantemente vegetariana – que ainda hoje é a dos restantes símios – para incorporar a carne. A princípio, esta poderá ter provindo de carcaças abandonadas por predadores providos de músculos, garras e dentes mais poderosos, mas, pouco a pouco, estes antepassados, tirando partido de uma especial aptidão para trabalhar em grupo e de uma invulgar capacidade de aprendizagem, foram tornando-se em temíveis caçadores.

Os felinos das savanas africanas preferem caçar nas horas mais frescas – a pelagem tem múltiplas utilidades mas é um empecilho se se pretender correr ao meio-dia nas planícies do Quénia – e costumam capturar a presa num sprint breve, pois o seu tipo de fibras musculares é apto para arranques “explosivos” mas tem mau desempenho em provas de resistência.

Estes novos símios adoptaram tácticas cinegéticas bem diferentes das dos felinos: uma vez que estavam mal servidos de músculos, garras e dentes e os seus pés, concebidos originalmente para circular sobre as árvores, eram (mesmo depois de terem sido modificados por uma dupla arqueação) pouco apropriados para provas de velocidade no solo, apostaram em capturar as presas pela exaustão, perseguindo-as em passo de corrida sob o sol inclemente. Por vezes, os caçadores, sendo mais lentos no sprint do que a presa, poderiam perdê-la momentaneamente de vista, mas sendo capazes, graças às suas superiores capacidades de raciocínio, de seguir o seu rasto, eram capazes de encontrá-la novamente um quilómetro à frente e pô-la novamente em fuga, impedindo-a de arrefecer e recuperar as forças. Ao fim de umas horas a repetir este processo, as presas acabariam por entrar em sobreaquecimento e desfaleceriam ou ficariam, pelo menos, suficientemente debilitadas para que os caçadores humanos as abatessem com facilidade.

Terá sido assim que os nossos antepassados perderam os pêlos: a sua ausência (ou, mais rigorosamente, a sua expressão reduzida) permite transpirar abundantemente e, assim, manter o equilíbrio térmico mesmo ao meio-dia, quando os leões não conseguem melhor do que ficar espapaçados à sombra, de bocarra aberta, a ofegar. Mas o sol dos trópicos africanos não deixa de ser inclemente mesmo para quem transpira, pelo que o processo evolutivo manteve uma pelagem abundante na parte do corpo mais exposta à radiação solar quando o sol vai alto (para quem tenha adoptado a postura erecta): o topo do crânio.



A perda da cobertura de pêlo corporal, ao deixar a pele exposta directamente à radiação ultra-violeta, criou riscos de queimaduras e outras lesões cutâneas graves para estes bizarros caçadores do meio-dia. A pressão evolutiva resolveu o problema desenvolvendo um bloqueador da radiação solar: a produção de melanina deu à pele branca rosada dos símios caçadores um tom bastante escuro, por vezes de um negro intenso. Por muito que isto custe aos supremacistas brancos, os nossos antepassados eram, provavelmente, todos negros.

Mas a humanidade não ficou circunscrita às savanas da África tropical: a sua crescente eficácia como caçadores e a sua facilidade de adaptação a novos ambientes e situações (um produto das suas superiores capacidades intelectuais) permitiu que os nossos antepassados se fossem espalhando pelo planeta, em sucessivas vagas de migração. Aí encontraram climas bem mais nebulosos e chuvosos do que os das savanas e, na Europa e Ásia setentrionais, e, em particular, durante a Idade do Gelo, encontraram mesmo situações de escassa luminosidade durante meses a fio.

A pressão evolutiva resolveu o problema desenvolvendo um bloqueador da radiação solar: a produção de melanina deu à pele branca rosada dos símios caçadores um tom bastante escuro, por vezes de um negro intenso. 

Nestas condições, a melanina, tão útil nas regiões tropicais, não só deixou de ser útil como se tornou num empecilho, já que bloqueava a passagem da radiação solar, indispensável à síntese de vitamina D que se processa nas camadas inferiores da pele. Assim, nos climas com insolação reduzida, os nossos antepassados terão perdido a melanina e readquirido um tom branco rosado. Como escreve Lee, “o mapa-mundi da cor da pele” mostra que esta segue uma gradação alinhada, aproximadamente, com a latitude, com algumas irregularidades de tom “em função de há quanto tempo a população vive naquela região e de quanta vitamina D se encontra presente na sua dieta quotidiana “ (quanto mais vitamina D for tomada por via oral menos dependente fica o organismo de a sintetizar através da exposição ao sol).

O que é mais surpreendente é quão recente na história humana poderá ser a pele pálida: Lee cita um estudo de 2015, por David Reich e da sua equipa da Universidade de Harvard, que defende que “a pele clara dos europeus surgiu há menos de 5.000 anos”. Esta hipótese parece contradizer o que se sabe sobre as migrações do Homo sapiens: estes terão chegado à Europa e Ásia setentrionais há mais de 40.000 anos e aí viveram durante a Última Idade do Gelo, que se estendeu entre 115.000 e 11.700 anos antes do nosso tempo. Como poderiam humanos de pele negra ter produzido vitamina D sob uma tão reduzida insolação?

Lee sugere que a aparição da pele branca foi o resultado da descoberta e adopção da agricultura. Até então, os Homo sapiens, tal como os homens de Neanderthal (que alguns consideram uma espécie à parte e outros como uma sub-espécie do Homo sapiens), tinham uma dieta com elevada proporção de carne, que assegurava a vitamina D de que precisavam, mesmo em climas com baixa insolação. Quando o Homo sapiens se tornou sedentário e passou a obter o grosso da sua alimentação não da caça mas da agricultura, o reduzido conteúdo de vitamina D presente nos cereais, legumes e frutos terá levado, nas regiões com menor insolação, à emergência da pele clara, que facilita a síntese sub-cutânea de vitamina D.

A confirmarem-se estas suposições e atendendo a que se estima que o Homo sapiens tenha surgido há 500.000 anos, isso significa que fomos “pretos” durante 99% da nossa existência enquanto espécie. Aqui está matéria que pode fornecer matéria para reflexão aos europeus que sugerem que as pessoas de pele mais escura devem ser devolvidas a África.