domingo, 23 de setembro de 2018

Por que mudei meu voto para Bolsonaro

"Ou mudamos agora, ou continuaremos a naufragar no populismo social-democrata, empobrecendo o país e assistindo ao êxodo em direção à Lisboa, Miami – ou para nós, cariocas, bandeando para mais pertinho, indo morar/trabalhar em São Paulo. Sim, o Rio está pior do que qualquer outro estado nacional, mas isso é papo para outro artigo". Texto de Paulo Stewart, empresário do ramo de shoppings centers e tecnologia, publicado pelo Instituto Liberal:


Há muito venho amadurecendo a ideia de escrever este artigo. O Brasil terá em três semanas sua votação mais eletrizante desde a redemocratização, não apenas pela dinâmica eleitoral temperada pela Lava Jato e profunda depressão econômica, como também pela prevalência das redes sociais no debate de mais de 100 milhões de eleitores que comparecerão às urnas. Do planalto central à Faria Lima, passando por Curitiba, Ipanema ou Juiz de Fora e rincões do Nordeste, o clima é tenso e o debate político—institucional sobre o Brasil que vivemos e o Brasil que queremos prevalece. Jamais imaginei que a uma semana da Copa do Mundo as pessoas pudessem dizer o nome dos 11 ministros do STF, mas não soubessem a escalação da seleção brasileira. Sinal de novos tempos.

Sou da geração das Diretas Já e aos 20 anos vivi a transferência de poder dos militares aos civis. Processo civilizado, sem turbulência, violência ou qualquer exigência (compensatória) por parte daqueles que detinham o poder – não estou aqui defendendo a ditadura militar, mas simplesmente relatando o ocorrido na transição. Tancredo, ainda que eleito pelo voto indireto, representava esperança de melhor futuro ao Brasil que novamente estabeleceria uma democracia representativa, republicana. Mas o que veio a seguir, com hiato de alguns anos de mudanças positivas, foi desastroso. No rastro de uma nova constituição dita cidadã que criou arcabouço institucional de um país protecionista, engessado, Estado paternalista e gastador para proteger os interesses do povo, sofremos com os governos que se sucederam desde então.

Sarney caiu de paraquedas na cadeira de presidente e, com as medidas equivocadas e populistas do plano econômico que leva seu nome, deflagrou a primeira onda de uma série que nos levou da euforia à depressão seguidas vezes. Em poucos anos passamos por inúmeros planos econômicos – todos com a mesma essência e consequentemente os mesmos erros de formulação. Cruzado I, Cruzado II, Bresser, Verão, Collor I, Color II. Todos congelando preços, ativos e poupança. Todos buscando fazer o certo, mas utilizando premissas erradas.

Paralelamente, nestes anos, a classe política que ficou fora do cenário político durante a intervenção militar, embevecida pelo poder que novamente estaria ao alcance de suas articulações fisiologistas e caneta do executivo, se lançou com voracidade na disputa de pedaços do orçamento público para atender a seus redutos eleitorais, causas idealistas ou, no pior dos casos, suas próprias contas bancárias. E o Brasil, jovem democracia que se libertava da opressão militar, acreditava que aqueles que estavam no poder eram bem intencionados e a correção de rumos viria com a alternância do poder. Afinal de contas, assim é em qualquer país que pratica eleições livres sob a égide de uma democracia representativa. Fomos duramente castigados. Não pela democracia, mas pelo sistema que se criou, ancorado na fragilidade das instituições, concentração de poder e ambiente permissivo a falcatruas onde prevalecia a impunidade.

Fomos ludibriados por Collor, que além de nos deixar com 50 cruzeiros no bolso e afundar o Brasil com seus dois planos econômicos, institucionalizou 15% como pedágio para se fazer negócios com o governo. Com o impeachment daquele que de fenômeno nas urnas acabou defenestrado do Palácio do Planalto, Itamar Franco assume o poder e pela segunddo vez em mandatos consecutivos o vice passa a ser número um. De inofensivo e sem nenhuma expressão, um tanto maluquinho, Itamar consegue a proeza de emplacar o Plano Real que finalmente ferii de morte o dragão da inflação.

E foi na esteira do Plano Real que nosso primeiro social—democrata assumido, Fernando Henrique Cardoso, se elege presidente e novamente temos a sensação de que agora vai! Mas o Plano Real, brilhante na formulação da política monetária, manteve controle do câmbio e simplesmente ignorou o lado fiscal. O preço que pagamos por esses erros, combinado com o que na minha opinião maculou a “era FHC”, que foi vender a alma ao diabo para se perpetuar no poder com a emenda da reeleição, foi travar a economia, decuplicar o endividamento e impulsionar o fisiologismo populista, nefasto, de um “centrão” que sem nenhuma identidade agiu sempre em benefício próprio, atendendo a seus interesses em detrimento do interesse majoritário da nação brasileira.

A alternância do poder trouxe mais do mesmo. Lula, astuto e de grande inteligência emocional, ascendeu ao poder na esteira de sua carta aos brasileiros virando as costas para tudo que defendeu até então. Com a caneta na mão, iniciou período de saqueamento à nação jamais antes visto desde o desembarque de Cabral na Bahia, institucionalizando e sistematizando a corrupção, enganando a população com o manto da inclusão social. Lula criou a ilusão de que fazia o governo para os pobres quando, na prática, o que fez foi incluir o pobre no orçamento através de programas e bolsas sociais diversas que muito pouco fizeram para acabar com a miséria. A fórmula está errada. Não é com a transferência do dinheiro público para os miseráveis que estes deixarão a pobreza.

Mas o plano de eternização no poder do PT começou a ruir com a ação penal 470 – vulgo mensalão – que teve na figura do implacável justiceiro Barbosão a coragem e competência para enfrentar o status quo e pela primeira vez na corte máxima brasileira prevaleceu a “teoria do direito (domínio) do fato”, a partir da qual, para julgar crimes do colarinho branco, não mais seria precisa uma prova cabal, material, escrita. O conjunto das evidências e circunstâncias do ilícito, se suficientemente consistentes e comprobatórias, seria suficiente para condenação. Este foi o primeiro ponto de inflexão. Sempre que me lembro do Roberto Jefferson desferindo ao Zé Dirceu suas palavras proféticas e apocalíticas “Zé, eu tenho medo do senhor… Vossa Excelência provoca em mim meus sentimentos mais primitivos…”, jogando toda a m. no ventilador, penso que ele merecia uma estátua defronte ao Congresso. Naquele momento o mensalão se sacramentou. No meu modo de ver, a Lava Jato não aconteceria se não tivéssemos passado pelo mensalão.

Mas o que espantou todos nós, brasileiros e brasileiras que sobrevivem fora do círculo intimo do poder e capitalismo de favores, foi a audácia e ousadia daqueles governantes e empresários amigos do Rei que continuaram a dragar recursos do Estado para aumentar suas riquezas pessoais. Chega de cinismo! Precisamos acordar deste pesadelo sem fim! O Brasil já não aguenta mais ser saqueado por criaturas do mal, verdadeiros vampiros quem como não produzem seu próprio sangue, precisam sugar o dos outros para viver, enquanto nos afundamos em mais uma crise – esta deflagrada pela nossa presidenta Dilma, poste do Lula, que não cometeu nenhum erro novo, mas sim conseguiu fazer todos os erros ao mesmo tempo. Há mais de três anos estamos assolados por depressão econômica ampla, profunda e demorada, a pior de toda a história republicana brasileira, desta feita associada à crise moral e ética, levando o país ao esgotamento de sua capacidade regenerativa.

E agora, o que fazer? Estamos diante de uma encruzilhada. Vem aí novas eleições. É hora de debatermos alternativas e decidirmos em quem votar. Temos que nos perguntar o que queremos e qual candidato apresenta maiores condições de nos atender naquilo que queremos. O que precisamos para sairmos desse lamaçal é caminhar na direção de nos tornarmos uma grande sociedade aberta; nos abrirmos para os mercados; respeito aos contratos, propriedade privada e liberdades individuais; desburocratizar; redesenhar o papel do Estado – que deve ser mínimo, atuando para garantir o bom funcionamento das instituições, prover segurança e ordem, e saúde e educação básicas aos mais desfavorecidos; promover gestão pública voltada à eficiência dos serviços públicos e para isso privatizar, diminuindo a dívida pública, liberando recursos para as atribuições básicas do Estado; acabar com privilégios; eliminar gastos supérfluos e desnecessários ao funcionamento da máquina pública; ter absoluta responsabilidade fiscal e descentralizar o poder.

Com exceção de Bolsonaro e Amoedo, todos os partidos e candidatos que se apresentam ao pleito são mais do mesmo, frutos da mesma árvore. Naturalmente com sutis diferenças na formulação de suas plataformas de governo, mas na essência são todos iguais. Eleger qualquer um desses será perseverar nos erros que nos levaram à caótica situação em que nos encontramos. Einstein profetizou que “insanidade é continuar a fazer as mesmas coisas e esperar resultados diferentes”.

Por que mudei meu voto: apesar de ser o candidato com que tenho mais afinidade, do ponto de vista prático, Amoêdo não tem chances. Gosto dele e louvo sua iniciativa de se lançar candidato, mas primeiro deverá incluir o NOVO no legislativo para então tentar o executivo. Bolsonaro, a quem faço restrições à forma com que em certos momentos manifesta suas opiniões, é um ser político, fenômeno incontestável destas eleições. Além disso, tem por trás a cabeça pensante do Paulo Guedes. Se eleito, formará maioria de centro-direita e terá o Congresso ao seu lado para implementar as medidas de que precisamos para (de uma vez por todas) deixarmos de ser “o país do futuro” e finalmente caminharmos para sermos nação próspera e verdadeiramente desenvolvida.

Sou otimista por essência e convicção. Cabe-nos fazer o que estiver ao nosso alcance para mudar o que não está funcionando, em nome daquilo que acreditamos ser o melhor e principalmente do legado que queremos para minhas filhas e futuras gerações. No que tange às eleições, só há uma boa alternativa: Bolsonaro. Ou mudamos agora, ou continuaremos a naufragar no populismo social-democrata, empobrecendo o país e assistindo ao êxodo em direção à Lisboa, Miami – ou para nós, cariocas, bandeando para mais pertinho, indo morar/trabalhar em São Paulo. Sim, o Rio está pior do que qualquer outro estado nacional, mas isso é papo para outro artigo…

Em defesa da família tradicional

A esquerda, em geral, é contra a liberdade em quase tudo, só defendendo "a liberdade para abortar e para os homossexuais se casarem, porque quer destruir a família tradicional". Isto vale em Portugal em também no Brasil. Acompanhe artigo de João Marques de Almeida, publicado pelo Observador:

O ataque à família tradicional é a maior causa do Bloco de Esquerda. A propósito de quase tudo, do aborto ao casamento entre homossexuais e à eutanásia, passaram os últimos vinte anos a atacar a visão da sociedade assente na família tradicional. Alguém acha que o Bloco de Esquerda se preocupa genuinamente com a liberdade de escolha das mulheres e dos homossexuais? São contra a liberdade de escolha sobre o modo como educamos os nossos filhos, como tratamos os nossos doentes, como gastamos o nosso dinheiro, como usamos a nossa propriedade, e até como recebemos os turistas. Ou seja, são contra a liberdade em quase tudo. Só defendem a liberdade para abortar e para os homossexuais se casarem porque querem destruir a família tradicional. Esta estratégia é inteligente porque torna muito mais difícil defender a ideia de família tradicional. Hoje, queremos todos ser modernos e olhar para tudo como igual. Além disso, a defesa dessas causas deu a um bloco, geneticamente totalitário, a imagem de um partido a favor das liberdades individuais. Eis uma das maiores farsas da democracia portuguesa.

Não sou contra a união civil entre homossexuais. Nem sequer sou contra a adopção de crianças por homossexuais. Muitas delas terão uma vida melhor do que teriam se não fossem adoptadas. E, parece-me, que o critério da qualidade da vida das crianças, deve ser o mais importante de todos. Mas um casal de homossexuais não é o mesmo que um casal de heterossexuais e uma família com mães (oupais) de mesmo sexo não é o mesmo que uma família com mãe e pai. Dois pais não substituem uma mãe e duas mães não substituem um pai. Tudo isto me parece tão óbvio que até é estranho escrevê-lo. O facto de me sentir obrigado a escrever esta crónica mostra o sucesso do Bloco de Esquerda. Aqueles que defendem a família tradicional não devem ter medo de o fazer. Não é reacionário, nem anti-moderno.É fundamental para uma sociedade educada, forte e livre.

Também sei muito bem que as famílias tradicionais estão longe de serem perfeitas. Sou divorciado, por isso sei do que falo. Mas mesmo uma mãe e um pai divorciados têm como principal obrigação educar os seus filhos e, não juntos, mas em conjunto. Além disso, continuam a ser um pai e uma mãe. As mulheres e os homens não são simplesmente diferentes, são complementares. Nos afectos, nas emoções, na inteligência, no carácter, nada substitui uma mãe e um pai. Isto não é uma questão académica ou teórica. É um facto da vida.

Um país com políticas públicas para proteger a família tradicional, por exemplo que reforcem a igualdade profissional entre as mães e os pais, ou que promovam a natalidade, será um país com uma sociedade mais forte e com maior coesão social. Tocqueville descrevia a família como a “a instituição onde se aprendem os primeiros hábitos do coração.” ‘Hábitos do coração’, para Tocqueville, significava a capacidade de partilhar, de ajudar, de resistir aos excessos de individualismo, a responsabilidade individual. É na família que se aprendem muitas das virtudes que mais tarde fazem de nós cidadãos responsáveis. Por isso, até um pensador de esquerda, como Anthony Giddens, reconhece que a família é a “fonte de responsabilidade cívica.”

A educação da família, e aqui incluo a família alargada, sobretudo os avós e os tios, também é fundamental para criar cidadãos preparados para lutarem pela sua liberdade e para resistirem aos abusos arbitrários dos poderes políticos. Uma sociedade livre necessita de instituições intermédias fortes. A família é uma das principais instituições que se encontra entre o individuo e o Estado. Por isso, os caminhos para os totalitarismos começam pelos ataques à família. Um conjunto de indivíduos isolados e perdidos é o terreno fértil dos poderes totalitários, como Hannah Arendt (“As Origens do Totalitarismo”)tão bem explica.

Finalmente, a família extensa é essencial para transmitir a humildade suficiente para impedir que nos tornemos absolutamente centrados em nós próprios, como se fossemos o princípio e o fim de tudo. Mais do que qualquer outra instituição, a família mostra que quase nada começou connosco e que muito continuará depois de nós. Os avós, os pais, os filhos e os netos ilustram o modo como Edmund Burke definiu a sociedade: “um contrato entre os vivos, os mortos e os que estão por nascer.” Se algumas esquerdas atacam esta visão de sociedade, compete às direitas defendê-la. Se não o fizerem, estão a demitir-se de uma das suas principais obrigações. Sobretudo nunca devem ter medo de o fazer, porque também estão a defender a liberdade individual.

PIB nacional quer Bolsonaro eleito no primeiro turno

Nizan Guanaes
Banqueiros, empresários e alguns políticos concordaram em dois pontos: o deputado Jair Bolsonaro deve ser eleito no primeiro turno. Isto seria bom para os negócios e para o país. Do Blog do Noblat:


Foi um jantar inesquecível, produzido nos seus mínimos detalhes de bom gosto, o que reuniu na última terça-feira (18) em São Paulo, na mansão de Donata Meirelles e do seu marido, o publicitário Nizan Guanaes, grande parte do Produto Interno Bruto do país (PIB) para homenagear o empresário Jonas Martins, presidente da Confederação Nacional da Agricultura.

Nos amplos jardins da mansão, e depois nas mesas decoradas com girassóis, as conversas giraram, basicamente, em torno de um assunto: a eleição presidencial e as chances dos candidatos. Banqueiros, empresários e alguns políticos concordaram em dois pontos: o deputado Jair Bolsonaro deverá se eleger. E seria bom para os negócios que fosse logo.

Quer dizer: no próximo dia 7, sem ter que disputar o segundo turno com Fernando Haddad (PT), como indicam as mais recentes pesquisas de intenção de voto. Isso economizaria ao país tempo e dinheiro. E poria fim ao risco da eventual volta do PT ao poder, rejeitado por todos eles. Um bilionário pecuarista mineiro, mas não só ele, era um dos ardentes defensores da ideia.

Um ex-presidente de banco preferiu ouvir sem se manifestar. Mas não houve uma só voz discordante. Bolsonaro, na avaliação geral, é o candidato que já se comprometeu em adotar as medidas necessárias que darão tranquilidade a quem produz e emprego. De resto, na linha do “Agro é Pop, Agro é Tech, Agro é Tudo”. O economista Paulo Guedes é seu maior avalista.

Esquerda autofágica devora mais um: Ian Buruma.

Abusos politicamente corretos causam baixas entre seus próprios defensores; o último foi o escritor holandês que despencou do topo do mundo literário, escreve Vilma Gryzinski na coluna Mundialista:


Não está fácil ser de esquerda pura e dura ultimamente. Se o renascimento da direita, desde mundo civilizado até as nossas plagas, infundiu um novo ânimo a seus antagonistas naturais, os autodenominados progressistas também se entredevoram em disputas obscuras, no mundo acadêmico e outros nichos.

Feministas radicais contra todo mundo que tenha cromossomo Y, outras feministas radicais “contra” transgêneros – defendendo que ninguém pode se “tornar” mulher sem passar pelo vale de lágrimas que enxergam na condição feminina – são um dos desdobramentos mais curiosos dessas lutas internas.

“Quando homens com grande poder econômico como o produtor Harvey Weinstein são os abusadores, a coisa muda, disse ela. “Se você abre as pernas porque ele diz ‘seja boazinha e te dou um papel num filme’, isso equivale a consentir e agora é tarde demais para ficar reclamando”.

O #MeToo também derrubou o fino, equilibrado e elegantemente progressista Ian Buruma, escritor holandês radicado nos Estados Unidos, onde havia assumido a direção do The New York Review of Books.

É o mais importante jornal literário do mundo – só rivaliza com o inglês, sua ex-cria, em nomes, temas e reações entre o pessoal que usa paletó com reforços de couro nos cotovelos, o estereótipo do professor universitário/escritor encastelado na academia.

Buruma caiu por três motivos. Primeiro, achou que os casos de abuso não penalizados criminalmente abriam um terreno instigante para discussão. Como é ser acusado, perder o emprego, a carreira, a reputação?

Segundo, achou que a discussão poderia ser travada em termos racionais e até provocativos, entre adultos, esquecendo-se que o “autoritarismo liberal” é um fenômeno em plena expansão.

Terceiro, fez tudo isso no momento em que os Estados Unidos estão mesmerizados com o caso de Brett Kavanaugh.

Nomeado por Donald Trump para a Suprema Corte, estava a um passo da aprovação quando apareceu uma psicóloga dizendo que, durante uma cervejada entre adolescentes, foi agarrada e apalpada por ele num quarto escuro. Na época, ela tinha 15 anos e ele, 17.

O caso não permite dúvidas: Kavanaugh vai se ferrar. Qualquer questionamento à acusadora, Christine Blasey Ford, será considerado uma prova irrefutável de machismo. Os mais de trinta anos transcorridos desde e episódio denunciado? Contextualização? Esclarecimentos?

À falta de uma reviravolta cinematográfica, nada será possível.

Quem está com Trump, vai ter que enfiar a viola no saco para não parecer um misógino hediondo. Quem está contra, já saboreia de canudinho a cabeça do juiz.

SELVAGEM DO SEXO

Buruma, obviamente, é da turma contra Trump e acha, entre inúmeras outras definições refinadas e chiques, que “a retórica fascista está se infiltrando de volta”, num processo chamado de normalização.

Também já criticou as atuais “erupções de hipermasculinidade”, entre as quais inclui gestos que considera falsos de Trump, uma maneira de disfarçar um “homenzinho branco assustado por ter perdido o controle”. E outros blablablás sobre “machismo político” do tipo.

O que não o ajudou em nada quando abriu espaço para Jian Gomeshi, um jornalista canadense de origem iraniana, bonitão e bem sucedido, despachado para o Hades depois de ser acusado por várias ex-namoradas de dar tapas, socos e mordidas durante o sexo.

Como é praticamente impossível – sem os procedimentos investigativos habituais – diferenciar sexo selvagem de selvagem fazendo sexo, Gomeshi foi absolvido pela justiça canadense. Num dos casos, fez um acordo de conciliação.

Nem é preciso dizer que Gomeshi também é da tribo progressista e fazia o maior sucesso num programa de entrevistas de televisão.

”Eu me tornei uma hashtag”, era o título de seu artigo fatídico. Se passar por coitadinho não pegou bem para ele. E pegou muito pior para Buruma, que ainda deu uma entrevista defendendo sua decisão.

“É bem irônico: como diretor do New York Review of Books, publiquei um número dedicado aos perpetradores do tipo #MeToo que não haviam sido condenados pela justiça, mas sim pelas redes sociais.”

“Agora, eu mesmo fui condenado pelo Twitter, sem o devido processo legal.”

Bye, bye, Buruma. O escritor e ensaísta é um especialista em China e Japão – com duas esposas nipônicas no currículo – e provavelmente vai sobreviver fora do Olimpo literário onde estava há pouco tempo.

Talvez até descubra as delícias secretas do pensamento não dominado pelas amarras mais exageradas do politicamente correto, como aconteceu com a escritora Lionel Shriver (mulher, apesar do nome de homem).

Ela cometeu a loucura, do ponto de vista do universo da intelectualidade progressista, de criticar a Penguin Random House por se comprometer que até 2025 todos os livros publicados refletiriam a composição populacional da Grã-Bretanha, “levando-se em conta etnia, gênero, sexualidade, mobilidade social e deficiências”.

TURBA DIGITAL

Shriver, americana radicada em Londres e autora do livro que virou filme Precisamos Falar sobre o Kevin, acha que a editora deveria publicar os melhores livros que estivessem a seu alcance, não estabelecer cotas.

“A Random Penguin House não considera mais que sua raison d’être é a aquisição e disseminação de bons livros. Em lugar disso, pretende espelhar as porcentagens das minorias no Reino Unido com precisão estatística.”

Para piorar a situação, ela também disse que o manuscrito de “um transgênero gay caribenho que abandonou a escola aos sete anos” seria publicado quer fosse ou não “um monte de papel reciclado tedioso, incoerente e confuso”.

Foi massacrada. Agora, transformou-se em provocadora profissional. Seu último artigo na Spectator diz que a questão dos transgêneros tomou o lugar da causa homossexual como bandeira.

Vê muitas pessoas ansiosas, sussurrando que “talvez não seja certo dizer a crianças de três ou quatro anos que têm que ‘decidir’ a qual gênero pertencem, numa idade em que sequer compreendem o que é gênero”.

Ou que talvez operações de mudança de sexo não sejam invariavelmente “a cura para problemas que sobrevivem intatos à cirurgia”.

Pode ser até que exista um contexto social induzindo a disseminação dos casos de transgêneros?

Nossa, se Lionel Shriver continuar assim vai acabar acreditando na “ideologia de gêneros”. Um perigo.

Talvez até, quem sabe, Ian Buruma, entre para a turma dos que preferem estudar, conhecer e escrever sobre situações complexas, com todas as nuances, sem medo das fogueiras da turba digital.

A escolha de Sofia

"O tempo passou e não há um nome sequer do centro que não seja nanico. Até Alckmin: quatro vezes governador de São Paulo, uma vez, em 2006, candidato à Presidência (tomou uma surra de Lula, após garantir que os tucanos eram contra as privatizações ─ justo eles, que privatizaram com sucesso a Vale e a telefonia), até agora não conseguiu tornar-se conhecido do Nordeste. Perde em São Paulo, sua base eleitoral, reduto dos tucanos, para Jair Bolsonaro". Coluna dominical de Carlos Brickmann:


Meryl Streep, obrigada pelos nazistas a decidir qual de seus dois filhos iria morrer (e, caso ela não o escolhesse, ambos seriam mortos), ganhou o Oscar pelo filme “A Escolha de Sofia”. Os eleitores brasileiros, obrigados a escolher entre dois candidatos que se destacam pelo radicalismo, também serão premiados: receberão o prêmio que Luzia ganhou atrás da horta.

É difícil para o eleitor anticomunista votar num candidato que, quando Hugo Chávez chegou ao poder na Venezuela, elogiou-o (“uma esperança para a América Latina”) e comparou-se a ele. Disse que Chávez não era anticomunista e ele, Bolsonaro, também não era. “Não há nada mais próximo do comunismo do que o meio militar”.

É difícil para o eleitor petista que vai ao delírio só de ver o retrato de Lula ser obrigado a votar num laranja confesso, que troca seu nome de família, aquele que seus pais utilizam, para, como o Chefe, usar o sobrenome de Lula (e não é só o sobrenome: faz-se chamar de Luís Fernando Lula Haddad). Usa máscaras de Lula para induzir eleitores a votar em seu nome. E confessa não ter a menor ideia do que fará sem viajar a Curitiba para visitar o Chefe na cadeia. Cafezinho com açúcar ou adoçante? É Lula que sabe.

Jaques Wagner, lulista entre os lulistas, rejeitou o papel subalterno que lhe queriam atribuir, de boneco de ventríloquo. Haddad se rebaixou, feliz.

Tudo atrasado

Fernando Henrique, a 16 dias da eleição, propôs aos candidatos de centro que se unam para evitar que o segundo turno seja disputado pelo homem da bala e o laranja de Lula. Boa ideia ─ mas agora, quando não dá mais tempo? E imaginemos que houvesse tempo: somar Alckmin, Marina, Álvaro Dias, Meirelles, Amoêdo é como juntar moedinhas para enfrentar o volume de dinheiro e joias do vice-presidente da Guiné Equatorial. Uma candidatura se articula ao longo do tempo. O tempo passou e não há um nome sequer do centro que não seja nanico. Até Alckmin: quatro vezes governador de São Paulo, uma vez, em 2006, candidato à Presidência (tomou uma surra de Lula, após garantir que os tucanos eram contra as privatizações ─ justo eles, que privatizaram com sucesso a Vale e a telefonia), até agora não conseguiu tornar-se conhecido do Nordeste. Perde em São Paulo, sua base eleitoral, reduto dos tucanos, para Jair Bolsonaro.

Ciro, talvez

Ciro Gomes, que se mantém vivo na disputa, poderia ser a solução para o centro. Já foi da Arena Jovem, já foi ministro de Itamar Franco (concluiu a implantação do Plano Real). Mas qual dos outros candidatos o aceitaria?

Meio tarde

Fernando Henrique, conversando com Bernardo Mello Franco, de O Globo, concordou que seu apelo tem poucas chances de ser ouvido. “Mas temos de fazer algum esforço. Não sei se algo vai acontecer”. Não, não vai.

Fale o que eu quero

Paulo Guedes, que deve ser ministro da Economia se Bolsonaro for eleito, conhecido como Posto Ipiranga, já sabe de seus limites: foi só falar na volta da CPMF, o Imposto do Cheque, para tomar uma chamada do candidato. Bolsonaro deixou claro que quer eliminar impostos, não criar novos. Guedes explicou que o novo imposto iria substituir cinco ou seis impostos federais, mas Bolsonaro não gostou. “Não é a CPMF, seria um imposto único”, disse Guedes. Não adiantou: o Brasil já experimentou o Imposto Único, e descobriu que o Imposto Único era apenas mais um.

É demais

Bolsonaro acompanhou também as declarações de seu vice, general Hamílton Mourão, sobre uma Constituição redigida por pessoas não eleitas e o papel de mães e avós, que sem ter o pai e o avô em casa, não impediriam o recrutamento das crianças pelo tráfico. Mourão foi contido por Bolsonaro: nada de propor temas ainda não discutidos com ele.

Doce prêmio

A Chocolat du Jour, excelente chocolateria paulistana, acaba de ganhar dois prêmios internacionais (e pelo quarto ano consecutivo): o International Chocolate Awards, medalha de ouro, pelo bombom de paçoca recoberto de chocolate ao leite, e o ICA, medalha de prata, pela Choco Pops, pipoca com chocolate ao leite. Além de fabricar ótimos chocolates, que seriam ótimos na Bélgica ou na Suíça, a Chocolat du Jour foi criada por uma amiga deste colunista, Cláudia Landmann, que estudou chocolateria em Bruxelas.

Adoniran na cabeça

Adoniran Barbosa recebe amanhã, em memória, o título de Cidadão Paulistano. A festa será no Farol Santander, às 19 h, na rua João Brícola, 24. Lá estará a adorável Maria Helena Rubinato Rodrigues de Souza, filha de Adoniran e colunista do Chumbo Gordo.

sábado, 22 de setembro de 2018

Pacto pela governabilidade

Passadas as eleições, "os principais líderes políticos, do governo e da oposição, precisarão reconhecer, longe do alarido da campanha e das rusgas ideológicas, a imperiosa necessidade de um compromisso nacional em torno da racionalidade da administração pública, sem a qual não haverá paz social, desenvolvimento econômico e governança estável". Editorial do Estadão:


Todos os candidatos a presidente, pelo menos é o que se imagina, estão interessados não apenas em ganhar a eleição, mas em governar o País. Sendo assim, descontados os naturais arroubos de campanha, todos precisam se importar com as condições mínimas de governabilidade, e a principal delas é o equilíbrio das contas públicas.

Para isso, uma vez fechadas as urnas, será necessário promover um grande entendimento nacional, que só funcionará, antes de mais nada, se vencedores e vencidos reconhecerem o quadro de descalabro fiscal e a necessidade de superá-lo. Esse consenso básico nada tem a ver com este ou aquele programa de governo, pois nenhuma proposta apresentada hoje pelos candidatos, independentemente de sua qualidade, poderá ser implantada sem que se promovam reformas que ajustem o Estado à realidade e, assim, permitam o crescimento sustentável da economia.

Em meio à balbúrdia dos palanques, animada por uma batalha ideológica entre esquerda e direita como raras vezes se viu no Brasil, corre-se o risco de perder a perspectiva do desastre econômico que se avizinha. Os números, que não têm partido ou candidato, falam por si.

As contas públicas saíram de um superávit primário (sem contar os juros, em valores atuais) de R$ 130 bilhões em 2002, antes da era petista, para um déficit de R$ 159 bilhões, valor estabelecido como limite para este ano. Sem superávit fiscal, a dívida bruta do setor público atingiu cerca de 75% do PIB, subindo em velocidade acelerada – estava em 70% do PIB apenas dois anos atrás.

As despesas públicas crescem 6% ao ano em termos reais, muito acima da expansão da economia. Funcionalismo e Previdência Social, somados, correspondem hoje a 70% do Orçamento e, sem reformas que contenham seu ímpeto, continuarão a se dilatar. Em breve, não sobrarão recursos para realizar o mínimo necessário de investimentos – rubrica que apresentou queda de cerca de 30% – e tampouco haverá dinheiro para custear o funcionamento corriqueiro da máquina pública.

É por essas razões, entre outras tantas, que o atual governo implantou um teto para frear a gastança. Esse mecanismo obriga o poder público a racionalizar as despesas para que todas caibam no Orçamento – algo que deveria ser óbvio. No entanto, justamente por impor limites à imaginação populista, o teto dos gastos está sob risco – quase todos os candidatos a presidente já disseram que pretendem abandonar essa restrição.

Trata-se de uma possibilidade muito preocupante. O teto de gastos é hoje um dos pilares da responsabilidade fiscal, sem a qual não é possível falar em crescimento sustentável. Sua implantação, aprovada em 2016 no Congresso a despeito de sua natureza evidentemente impopular, foi mais uma etapa na difícil construção de uma estrutura mínima de estabilidade econômica para o País. Antes disso vieram a Lei de Responsabilidade Fiscal, que pune administradores que perdem o controle sobre os gastos, e a regra de ouro, norma constitucional que impede que o governo se endivide para pagar despesas correntes.

Todo esse arcabouço é uma conquista da sociedade brasileira, depois de décadas de descontrole das contas públicas, que gerou inflação desenfreada e atrasou o desenvolvimento do País. Tal patrimônio corre o risco de ser destruído, ameaça que ficou bem clara durante a desvairada Presidência de Dilma Rousseff. Felizmente, a razia petista foi interrompida pelo Congresso por meio do impeachment da presidente ante a clara violação da Lei de Responsabilidade Fiscal, mas nada garante que não haverá novas investidas demagógicas – promessas nesse sentido não têm faltado, como se nada tivesse acontecido.

Espera-se, contudo, que, passada a eleição, tais promessas – melhor seria qualificá-las de ameaças – sejam abandonadas, pelo bem do País. Os principais líderes políticos, do governo e da oposição, precisarão reconhecer, longe do alarido da campanha e das rusgas ideológicas, a imperiosa necessidade de um compromisso nacional em torno da racionalidade da administração pública, sem a qual não haverá paz social, desenvolvimento econômico e governança estável.

O melhor país do mundo

Prof. Marcelo, o presidente de Portugal.
"Por coincidência, ironia ou requinte de gozo, o prof. Marcelo aproveitou a data fúnebre para se despedir de não sei o quê na universidade. Os poucos que assistem à farsa com o horror que esta merece aproveitam para se despedir do melhor país do mundo a fingir que não é uma vergonha, nas mãos de criaturas que não têm nenhuma". Com fina ironia, a coluna semanal de Alberto Gonçalves no Observador:


Um destes dias, no meio das inúmeras coisas que diz, o prof. Marcelo disse que os professores portugueses “são dos melhores do mundo”. Aparentemente, tudo levava a crer não se tratar de uma afirmação gratuita, já que Sua Excelência, o Senhor Presidente da República, enumerou os critérios que a justificam: os professores portugueses são dos melhores do mundo “porque têm esperança, porque transmitem essa esperança, porque olham para o futuro e porque estão disponíveis”.

Por mera curiosidade, decidi consultar os “rankings” internacionais que quantificam esses factos. Comecei pelo “ranking” da Esperança. Não encontrei. E não encontrei qualquer dos “rankings” restantes, mesmo após buscas demoradas no Google e buscas breves em páginas que o pudor me impede de divulgar. Em lado algum consegui verificar a superioridade, ou a inferioridade, dos docentes daqui sobre os suíços ou os porto-riquenhos em matéria de Esperança, Transmissão de Esperança, Contemplação do Futuro ou Disponibilidade. As únicas classificações que encontrei, por exemplo as do teste PISA, colocam-nos em lugar mediano entre os países da OCDE, o que, a confirmar-se o elevado gabarito de quem ensina, confirmaria também a elevada estupidez de quem aprende.

Por sorte, ou azar, não se confirma nada. E se a ausência de fundamento não significa que o desabafo do prof. Marcelo seja mentira, indica fortemente que não é verdade. O prof. Marcelo disse o que disse como poderia ter dito que os taxistas portugueses são dos melhores do mundo (porque, eu sei lá, dão uma corrida às dificuldades). Ou que os picheleiros portugueses são dos melhores do mundo (talvez porque canalizam valências transversais). Ou que os pasteleiros portugueses são dos melhores do mundo (porque fermentam os sonhos). Exagero? Nem tanto. Na quarta-feira, em crónica que desgraçadamente só li depois de ter amanhado esta, o Miguel Pinheiro lembrou que o prof. Marcelo proclamara os militares portugueses “os melhores do mundo”, aquele dr. Vitorino “um dos melhores do mundo”, os trabalhadores do desporto, da ciência, da educação, da literatura e das empresas “os melhores do mundo”, e que a “pátria” em geral é “a melhor do mundo”.

Esta série de atoardas não destoa do paleio de café, não por acaso o melhor café do mundo. Na semana passada, falei da propensão indígena para a hipérbole patriótica. Foi, imagine-se, a propósito de um árbitro de ténis. Poderia ter sido a propósito dos vinhos, dos polícias, dos ralis, dos rojões, dos trombonistas, dos cardiologistas ou dos cantoneiros. Na insuspeita opinião dos portugueses, os portugueses são os melhores do mundo no que quer que se disponham a fazer ou a tocar. Enquanto conversa de simplórios, o exercício é apenas ridículo. Quando reproduzido até aos confins do insuportável pelo chefe de Estado, é mais do que ridículo, é a prova da baixíssima conta em que o chefe de Estado leva os seus eleitores. Se se elogia toda a gente, não se revela a mínima consideração por ninguém, e o prof. Marcelo não se limita a achar que o “povo” engole semelhantes patranhas: sobretudo convenceu-se, se calhar com razão, de que o povo o aprecia em função da dimensão das patranhas. Embora esteja por apurar para que serve um presidente da República, devia ser óbvio que não serve para isto.

E “isto” não é o pior. Apesar de embaraçosa e primária, a obsessão de um estadista com a predilecção das massas não seria uma calamidade caso se esgotasse nisso, ou na ocasional mudança pública de cuecas. O problema é que a sujeição das pessoas a “afectos” demagógicos não é um teste à popularidade do prof. Marcelo, é um teste à credulidade das pessoas. Ou uma forma de aferir os enxovalhos que são capazes de tolerar sem um pio.

Pelos vistos, apurou-se que toleram imenso. Inclusive toleram – vão ver que sim – a golpada que, na sequência de malabarismos reles, enxotou Joana Marques Vidal e concluiu a tomada do regime. Não vale a pena desperdiçar muitos adjectivos a descrever o processo. Basta perceber que se aboliu o último vestígio de resistência aos gangues que agora reinam em paz. O penúltimo, aliás, chamava-se Pedro Passos Coelho e agradeceu no Observador o desempenho da procuradora-geral. É um gesto digno, e uma implícita admissão de derrota do autor do texto e da respectiva destinatária. Não é uma surpresa, dada a desigualdade do combate. Porém, havia um combate. Hoje, há o silêncio das épocas tristes. E, se quisermos imitar os professores e olhar o futuro, o silêncio prolonga-se.

Por coincidência, ironia ou requinte de gozo, o prof. Marcelo aproveitou a data fúnebre para se despedir de não sei o quê na universidade. Os poucos que assistem à farsa com o horror que esta merece aproveitam para se despedir do melhor país do mundo a fingir que não é uma vergonha, nas mãos de criaturas que não têm nenhuma.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Dilma fez muito programa e a polícia sabe

Um monstro na Europa: a União Europeia.

Em artigo publicado por Libertad.org, Rafael Bardaji não poupa críticas ao perdulário monstrengo que atende por União Europeia:


Hay un monstruo en Europa que se llama la Unión Europea. Nacida de la idea de superar las catastróficas guerras mundiales y acercar a los enemigos en Europa mediante la recreación del Imperio Carolingio, acabó por desarrollarse de manera esperpéntica: para garantizar su ansiada paz en el viejo continente, hizo outsourcing en Estados Unidos de América y la OTAN; para ganarse el apoyo popular, puso en marcha un elefantiásico y socialistoide sistema de bienestar social finalmente del todo inviable; para avanzar sobre los Estados miembros, un laberinto de instituciones, antidemocráticas, imposibles de censurar y controlar; y si no hubiera sido por el sesgo pacifista de la izquierda europea, ahora también contaríamos con una suerte de ejército europeo para misiones humanitarias, habida cuenta de que para ser un súper Estado ya tiene la moneda y sólo le falta la espada. Hasta cuenta con su propia constitución, ésa donde se niegan las raíces judeocristianas de la civilización europea.

Poca gente lo sabe, pero el funcionamiento de la UE exige que los Estados miembros pongan en común 160,000 millones de euros, el presupuesto que la Unión Europea se va a gastar en 2018. La semana pasada tuve la oportunidad de asistir, junto con los líderes de Vox a varias reuniones en el Parlamento Europeo, y fui testigo, una vez más, del despilfarro con el que se utilizan los recursos de los contribuyentes: 751 europarlamentarios que, con sus sueldos base de 7,000 euros al mes, consumen el 22% del presupuesto anual, su generoso personal que se come el 34%, y sus fondos para actividades políticas, visitas, campañas, viajes, transporte, etc. En una visita que hice a Paul Wolfowitz cuando era director del Banco Mundial, impresionado por el tamaño de las oficinas, le pregunté que cuánta gente trabajaba allí, él me respondió con sorna: “El 10%”. No creo que hubiera sido tan generoso de ser el presidente de la Eurocámara, sinceramente.

El hecho de que después de décadas de funcionamiento, la UE haya sido incapaz de concentrar sus trabajos parlamentarios en una única sede y siga desplazado a su personal, equipos y miembros de Bruselas a Estrasburgo en un trasiego absurdo, costoso y sin fin, dice poco de la voluntad de racionalizar el gasto, incluso en momentos de crisis aguda y profunda como la que hemos estado viviendo desde 2008.

Con todo, lo peor y por mucho, es que la Eurocámara aspira a dar legitimidad institucional y política a un proyecto profundamente antidemocrático. Queriendo ser el control de la Comisión Europea, un órgano no electo y cuyo fin es defender las políticas de una “cada vez más estrecha cooperación”, en la senda del federalismo europeísta, su principal estorbo son, paradójicamente, los ladrillos que la componen, las naciones.

Justo en los días de nuestra visita dos acontecimientos tuvieron lugar en el Europarlamento. El primero, el ritual de ver comparecer al presidente de la Comisión en un remedo de sesión anual de control, en el que se le permite, además, lucirse como presidente de Europa, cosa que no es, en una copia mala del discurso del Estado de la Unión que los presidente americanos dan en el Congreso todos los eneros. Pero Juncker, gracias a Dios, no es Trump, ni siquiera Obama o Bill Clinton. Entre otra serie de cosas, porque no vive sobre una verdadera Unión y porque él solamente representa a la maquinaria tecnócratas y federalista de Bruselas, no a los Estados miembros.

El segundo evento ya tiene más enjundia: la votación, a propuesta de una eurodiputada de izquierdas, de iniciar un procedimiento de censura contra Hungría que acabaría con retirarle el derecho de voto. Tiene más significado por dos razones: la primera de procedimiento. Los parlamentarios claramente se atribuyen competencias que no le corresponden; la segunda, de concepto: los europarlamentarios se creen superiores a los parlamentarios húngaros que han sido elegidos por el pueblo húngaro, sobre el gobierno electo de Hungría y sobre sus instituciones nacionales, a los que censuran por no someterse a una política de inmigración que no les convence. Es más, conviene recordar aquí, que la actual política migratoria de la UE no es la obra del parlamento, sino la proyección de una decisión unilateral de Angela Merkel en el verano de 2015.

La historia del llamado Parlamento Europeo es la historia de una ambición: parecerse lo más a un parlamento nacional, con todas las competencias que eso conlleva. Su primer gran paso en esta dirección se dio cuando cambiaron las reglas para ser europarlamentario y, en lugar de ser designado por los parlamentos nacionales, ser eligió directamente por los ciudadanos de los estados miembros. Así y todo, la pregunta clave persiste:¿por qué un parlamento europeo debe tener más importancia que un parlamento nacional? En realidad ni puede, ni debe. A diferencia de los mecanismos políticos e institucionales nacionales, que se hunden en la Historia y responden a las tradiciones y culturas de los pueblos que conviven en el continente europeo, las instituciones de las UE son artificiales, producto de una visión imperialista y universalista, sólo reales en las cabezas de unos pocos.

De ahí, en buena medida, que el Parlamento Europeo se haya quedado es un gran instrumento de fabricar complicidades: para los políticos, es una ganga; para el personal, un premio; para los funcionarios, un sueño; para los partidos pequeños, una fuente de ingresos para invertir en sus actividades, para los partidos grandes, una fuente suplementaria de colocación… ¿quién puede dar más? Hasta ahora se decía que cuando los políticos españoles llegaban al Senado se volvían ateos inmediatamente, puesto que no podían creer en una vida mejor. Porque no han visto a sus colegas en Bruselas/Estrasburgo.

Si de verdad se quiere una reforma de la UE orientada a dar respuesta a los problemas reales de los ciudadanos de los Estados miembros, hay que cerrar el Parlamento Europeo. Hay que restar la autolegitimidad que se han otorgado gratuitamente los tecnócratas de la Unión y hay que reforzar el peso de las naciones que son los verdaderos depositarios de la voluntad popular de cada uno de ellos. Los tecnócratas y funcionarios deben estar al servicio de las naciones, no sobre o contra las mismas. Que es el absurdo surrealista al que hemos llegado con la Unión Europea.

Atentados contra a língua portuguesa, outra especialidade do presidiário Lula.

O manuscrito informa que o ex-presidente presidiário ainda não aprendeu a escrever corretamente nem o nome do poste que fabricou. Christian Costa, via Augusto Nunes:


Menos de dois meses depois de ter assassinado a língua portuguesa numa carta escrita ao parceiro Wagnão (Wagner Santana, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC), Lula retomou a sequência de atentados contra o idioma, agora com um bilhete de 11 linhas sem destinatário definido. As correções no original, reproduzidas abaixo, atestam que o autor cometeu pelo menos oito crimes (alguns dos quais hediondos).

O manuscrito informa, por exemplo, que o ex-presidente presidiário ainda não aprendeu a escrever corretamente nem o nome do poste que fabricou. Em vez de “Haddad”, rabiscou um “Hadad”. (Muitos eleitores nordestinos continuam preferindo “Andrade”).

Engaiolado há cinco meses, Lula jura que já leu mais de 20 livros. Como a coluna registrou em julho, o Curso Intensivo de Leitura e Escrita para Presidiários Nota Zero ajuda a desasnar alguns alunos, mas não faz milagres.

Um país na margem de erro

Pode ser doloroso, mas é preciso constatar: a possível presença do PT no segundo turno será a canalhice brasileira saindo do armário. Sem meios tons. O texto é de Guilherme Fiuza, em sua coluna semanal na Gazeta do Povo:


Brasileiro confia tanto em pesquisa que nem dá para entender por que ainda tem eleição. Votar pra quê? Chega de intermediários.

Há mais de ano o Brasil sabe que Lula está no segundo turno. Como ele sabe? As pesquisas disseram. E não disseram uma vez, nem duas. Gritaram, reiteraram, vaticinaram sempre que o noticiário policial dava uma trégua ao ex-presidente.

O segundo turno de Lula hoje é o do carcereiro que toma conta dele à noite, mas não tem problema. Ele envia um representante, com procuração e tudo, para tomar conta do que é dele. O triplex do Guarujá, o sítio de Atibaia, a cobertura de São Bernardo e a fortuna incomensurável para pagar advogados milionários por anos a fio não são de Lula. O que é dele, e ninguém tasca, é o lugar cativo no pódio dos institutos de pesquisa.

A estratégia de trazer o comandante do maior assalto da história para o centro da eleição que deveria ser o seu funeral político não é um incidente. Como já escrito – mas não custa repetir ao eleitorado distraído – é uma estratégia. E uma estratégia tosca.

O Brasil viu – mas para variar não enxergou – a construção dessa lenda surrealista: Lula, o PT e sua quadrilha representam, na sucessão de 2018, “a salvação progressista contra o autoritarismo”. Contando ninguém acredita.

Uma imensa maioria de formadores de opinião e personagens influentes da elite branca (aquela mesma do refrão petista) vive de lamber esse herói bandido, fingindo defender o povo – esse mesmo povo roubado até as calças pelo meliante idolatrado por eles. Ou melhor: idolatrado de mentira, porque a única idolatria dessa elite afetada e gulosa é por grana, poder e aquele verniz revolucionário que rende até umas almas carentes em mesa de bar.

Então, aí está: a estratégia funcionou e os cafetões da ética imaginária conseguiram – milagre – chegar às portas da eleição defendendo sem um pingo de inibição o PT, exatamente o maior estuprador da ética que a história já conheceu.

Pode ser doloroso, mas é preciso constatar: a possível presença do PT no segundo turno será a canalhice brasileira saindo do armário. Sem meios tons.

Se o Brasil estivesse levando uma vida saudável, estaria agora dando continuidade à exumação da Era PT – e tomando as devidas providências para jamais errar de novo tão gravemente. Mas a margem de erro por aqui é um latifúndio – o país mora no erro, e eventualmente passa férias fora dele, como um marginal.

Tradução: o insistente culto ao fantasma petista fermentou as assombrações antipetistas – e o Brasil deixou de se olhar no espelho para ficar perseguindo morto-vivo com crucifixo na mão.

Fora desse fetiche mórbido, dessa tara masturbatória pelo falso dilema esquerda x direita, a reconstrução do Brasil parou. A saída quase heroica da recessão, com redução dos juros e da inflação, reforma trabalhista e recuperação da Petrobras – nada disso existe no planeta eleitoral de 2018.

Quem vai tocar isso adiante? Quem vai segurar o leme da economia com a perícia de Ilan Goldfajn, o presidente do Banco Central que nos salvou do populismo monetário de Dilma e seus aloprados?

A resposta contém o disparate: um desses aloprados (que tinha o leme nas mãos na hora do naufrágio), o ex-ministro da Fazenda Nelson Barbosa foi expulso da campanha de Haddad, o gato (ligação clandestina no poste) – banido por outro náufrago ainda mais aloprado que ele, o economista Marcio Pochmann. Ou seja: a possível reencarnação petista no Planalto está nas mãos dessa militância pré-histórica que se fantasia de autoridade acadêmica para perpetrar panfletos que fariam Nicolás Maduro dizer “menos, companheiro”.

Adivinhe se esse tema aparece na campanha presidencial?

Adivinhou, seu danado. O Brasil está lá, boiando na margem de erro, lendo pesquisa e brincando de jogar pôquer com o 7 de outubro. Nem sabe quem é o economista do Haddad. Ou melhor: nem sabe quem é o Haddad – porque aquele ministro da Educação tricampeão de fraudes no Enem, que não sabia nem aplicar uma prova e mandava escrever “nós pega o peixe”, sumiu de cena. Não existe mais também o prefeito escorraçado ainda no primeiro turno por inépcia.

Esse Haddad aí é outro: é o super-homem das pesquisas, que voa por cima de todo mundo com a criptonita do Lula e faz a imprensa companheira lutar por uma foto dele com a camisa aberta e a grife do presidiário explodindo no peitoral.

Vai nessa, Brasil. As pesquisas colecionam erros clamorosos em todas as eleições, mas dessa vez talvez até acertem, porque num país exilado na margem de erro qualquer chute é gol – mesmo no campeonato dos detentos.

Ameaça ao Tucanistão

A paralisia de Alckmin nas pesquisas e as dificuldades do candidato tucano ao governo de SP mostram que o longo reinado do PSDB em São Paulo está por um fio:


Quando assumiu a candidatura tucana à Presidência da República, Geraldo Alckmin carregava a certeza de que só se ganha uma eleição com uma coligação partidária forte, dinheiro e tempo na TV. A menos de vinte dias do primeiro turno das eleições, o governador licenciado de São Paulo — que conseguiu aglutinar a maior quantidade de siglas em torno de si, pertence a um partido com direito ao terceiro maior valor do fundo eleitoral e é senhor de intermináveis cinco minutos em cada bloco de propaganda na TV — aparece nas pesquisas como um candidato nanico.

Na semana passada, Alckmin caiu 2 pontos no levantamento do Ibope, em que está com 7% das intenções de voto, e manteve no Datafolha os mesmos 9% que tinha antes — e que o relegam a um humilhante quarto lugar no ranking. Em São Paulo, sua cidadela política há quarenta anos, a desvantagem em relação a Jair Bolsonaro constrange: o candidato do PSL, segundo o Ibope, é o preferido de 30% do eleitorado paulista, enquanto Alckmin, que venceu a última eleição estadual no primeiro turno, é escolhido por apenas 13%, desempenho similar ao do petista Fernando Haddad.

Na eleição estadual, o tucano João Doria é outro sinal de perigo. Pelas pesquisas mais recentes, Doria, que deixou a prefeitura de São Paulo depois de 15 meses para concorrer ao Palácio dos Bandeirantes, lidera a corrida, com 4 pontos à frente de Paulo Skaf (MDB-SP), de acordo com o Datafolha. No segundo turno, no entanto, Doria fica 4 pontos atrás de Skaf. Se Alckmin e Doria perderem em São Paulo, será uma derrota histórica. O PSDB domina o estado há 23 anos e o faz com tal hegemonia que o território paulista é chamado de Tucanistão.

Em política, todo fracasso é órfão. Aliados dividem-se na escolha do culpado: o responsável principal pela situação seria o próprio Alckmin, por ter escolhido atacar Bolsonaro quando deveria ter se posicionado desde o começo como o “anti-PT”, estratégia só adotada depois do atentado ao presidenciável do PSL. Na caça aos culpados, sobrou até para o economista da campanha, Pérsio Arida. Acusam-no de não ter elaborado um discurso econômico simples e direto, capaz de chamar a atenção do eleitor, como fez Ciro Gomes (PDT), com a promessa de salvar os endividados do SPC.

À parte os erros estratégicos e as fulanizações, começa a ficar claro para os tucanos que outro inimigo, mais insidioso e menos visível, teve peso definitivo para abalar as estruturas do PSDB em São Paulo: a obsolescência de suas crenças basilares — o que inclui desde a certeza de “saber” o que interessa ao eleitor até a convicção de seus integrantes de que “tempo de TV e sola de sapato” são a chave da vitória. No futuro, as incríveis eleições de 2018 talvez sejam lembradas como um pleito que produziu fenômenos imprevisíveis, momentos trágicos, episódios surpreendentes e muita perplexidade. Poderão, também, ficar marcadas como o ano em que, no maior e mais rico estado do Brasil, o império tucano ruiu.

Publicado em VEJA de 26 de setembro de 2018, edição nº 2601

Pão, pão, queijo, queijo.

É com a realidade que está aí que teremos de construir nossos sonhos, ainda que modestos. Artigo de Fernando Gabeira, publicado pelo Estadão:


Ando muito pelo Brasil, mas não faço pesquisas. Nem pergunto em quem o interlocutor vai votar. Apenas converso. E com isso vou formando um quadro que, às vezes, é confirmado pelas pesquisas que dizem ter estreita margem de erro.

Faz algum tempo que tento me acostumar com a realidade que vem pela frente, um confronto polarizado entre dois líderes populares, Lula e Bolsonaro. Como um está na cadeia e o outro no hospital, a eleição ganha um tom de realismo fantástico. É preciso abstrair a dimensão romanesca e cair na realidade: um dos dois será vitorioso, com todas as consequências que isso implica.

Senti no Nordeste que Lula tem muita força. Na Bahia, sobretudo, um sentimento de gratidão a Lula e a popularidade do governo local indicam uma supremacia da esquerda. No Norte, Sudeste e Sul, ouço muito o nome de Bolsonaro. Se o que vi tem o valor de uma pesquisa espontânea, minha inclinação é supor que a aspiração de mudança está encarnando nele.

Às vezes tendo a imaginar se essa imensa resistência ao governo de esquerda não se parece com o susto que os franceses tiveram com o Maio de 1968, optando pela volta de De Gaulle.

Não vejo o momento que virá pela óptica dos anos 60 no Brasil, pelo menos não o descreveria como Roberto Campos ao analisar a queda de Goulart e a tomada do poder pelos militares. Para ele, a alternativa eram anos de chumbo ou rios de sangue. E também não é, como às vezes dizemos brincando, um dilema entre Venezuela e Filipinas. O presidente das Filipinas é um peso-pesado no gênero. E um destino venezuelano é altamente improvável. Maduro não se aguentaria tanto tempo se não tivesse cooptado as Forças Armadas com empregos que rendem muito aos generais. No Brasil isso seria diferente.

Ainda assim, descartando modelos mais assustadores, viveremos uma situação delicada. As duas forças em presença são dificilmente conciliáveis.

Nos Estados Unidos, apesar da rivalidade, em alguns e raríssimos momentos democratas e republicanos reconhecem o interesse nacional. Já a polarização brasileira, de uma certa forma, reduziu as chances de um esboço de projeto nacional para enfrentar a crise e reconstruir o País. Certamente cada uma das partes tem o seu. Mas ele dificilmente atravessa os limites dos seus entusiasmados seguidores.

O estímulo ao equilíbrio deve vir da sociedade, mas isso não é fácil quando a maioria dos eleitores pende para uma visão mais radical. O discurso do equilíbrio é sentido como uma das formas de manter o sistema político-eleitoral. As expectativas são muito maiores.

Num posto de gasolina da estrada, um homem com um longo chapéu de palha me disse: “Voto no Bolsonaro porque é preciso virar a mesa”. Nesses momentos sinto a fragilidade dos instrumentos com que deveríamos contar quando o presidente assumir: Congresso e Supremo Tribunal.

O Congresso, na verdade, é a força sobre a qual a sociedade ainda pode exercer uma influência maior. Ainda assim, com discretíssimas mudanças será sentido mais como parte do problema do que como solução.

O Supremo... Bem, o Supremo todos sabemos que está parcialmente empenhado em neutralizar a Lava Jato. Cada vez que concede um habeas corpus, liberta um condenado, desmembra um processo para tirá-lo de Curitiba, está alimentando o desejo de uma renovação pela direita.

Vejo um amplo jogo de grandes forças sociais e, diante dele, poucas as chances da intervenção individual. Reconheço que vivemos num país com alto nível de imprevisibilidade. Mas, com os dados que tenho, creio que a tarefa será cada vez mais pensar os próximos passos, estabelecer um roteiro de redução de danos. É uma tarefa para todos os que querem sair do atraso, incluídos os eleitores mais moderados dos dois líderes.

Ultimamente têm surgido alguns livros no Brasil sobre a decadência da democracia, que não sofre mais golpes de Estado, mas simplesmente transita para regimes autoritários. Os livros são ótimos, porém o cenário dos últimos anos no Brasil é um livro aberto. Várias vezes o Congresso votou projetos absurdos sabendo que estava cavando um abismo maior entre os políticos e a sociedade. Os escândalos de corrupção, que levaram um grupo para a cadeia e deixaram seu principal aliado agonizando diante da pressão policial, tudo isso contribui para um desencanto geral com o sistema político-partidário. 

Não se trata de um “bem que avisei” ou de caça aos culpados, apenas uma constatação importante de como será difícil a nova fase.

Se uma visão mais moderada perder a batalha eleitoral, e isso me parece provável no momento, não terá perdido com isso a sua importância. Ela pode ser um fio de esperança para que surja um projeto de reconstrução mais consensual. E ser uma espécie de algodão entre cristais, lembrando que a guerra fria acabou e é necessário superar os grandes dilemas ideológicos para recuperar o tempo perdido.

A polarização entre dois líderes populares de certa forma simplifica e torna o processo mais caloroso ainda. Mas revela como surgem os líderes nacionais no Brasil democrático. Eles simbolizam também a força da comunicação oral. São capazes de transmitir a mensagem que a forma literária dos intelectuais não consegue.

Claro que seu discurso também é lido, perpassa os jornais e revistas. No entanto, é a linguagem oral, com seus erros, hesitações e exageros, que consegue chegar ao coração dos eleitores em escala nacional. Outros podem usá-la sem êxito. Entra aí um outro fator importante: o papel do indivíduo, sua trajetória e personalidade.

Poderia divagar muito sobre o dilema brasileiro. Poderia até desejar que não fosse assim. Mas seria perda de tempo. Se não estou muito equivocado, essa é a realidade que está aí. E é com ela que teremos de construir incessantemente nossos sonhos, ainda que modestos.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Lula retardou demais a largada do poste que fabricou

Como disse o jornalista J.R. Guzzo, "Lula é o grande estrategista, o esperto que não falha. Tão esperto que está na cadeia". Coluna de Augusto Nunes, via Veja.com:


As pesquisas eleitorais da semana induzem a três constatações:

1. A menos que cometa algum erro monumental, o deputado Jair Bolsonaro já garantiu uma das vagas no segundo turno.

2. O bom desempenho de Ciro Gomes num possível segundo turno é uma notícia especialmente estimulante para o candidato do PDT. Como seu índice de intenção de voto não caiu, pode afirmar que tem mais chance de vitória do que Haddad num duelo final com Jair Bolsonaro.

3. O ritmo e o volume da transferência de votos de Lula para Haddad sugere que o ex-presidente presidiário pode ter cometido um erro gravíssimo ao retardar o lançamento da candidatura do poste que fabricou. Porque só pensa nele próprio, Lula demorou demais para largar o osso (ou dividi-lo). E seu filhote se arrisca a não cruzar a linha do segundo turno por falta de tempo e fôlego.

Cito de memória a lição do jornalista José Roberto Guzzo: “Lula é o grande estrategista, o intuitivo genial, o esperto que não falha. Mas está na cadeia. Não acho que alguém que está na cadeia por causa das bobagens que fez seja mais esperto do que eu, por exemplo”.