segunda-feira, 18 de junho de 2018

Futebol, política, imigração e nacionalismo estão embolados.

"Europeus se estranham por causa dos clandestinos vindos da África e o risco político do momento envolve a ex-inexpugnável Angela Merkel". Texto de Vilma Gryzinski na coluna Mundialista (Veja.com):


A questão dos refugiados, migrantes ou clandestinos, seja qual for a palavra escolhida, está fazendo muita gente boa perder o juízo.

O nacionalismo em ascensão por causa das grandes ondas migratórias e até a alta temporada de futebol, que é uma prolongação da guerra por outras maneiras, contribuem para esquentar as cabeças.

Nos Estados Unidos, fotos da época do governo Obama continuam a ser usadas para “provar” que o abrigo de menores em centros separados dos pais que entram irregularmente no país, exigida por lei para submeter os adultos ao processo legal, é uma perversidade do governo de Donald Trump.

A nau cheia de africanos rejeitada pelo novo governo italiano continua causando estragos entre países aliados e posicionamentos alucinados.

Uma jornalista espanhola teve um ataque de bom-mocismo galopante e chamou os migrantes acolhidos pelo governo de esquerda, também recém-empossado, de “Ulisses do século 21”.

O que têm os argelinos, nigerianos, sudaneses e outros em comum com o herói homérico? Hexâmetros dactílicos? Desde quando navegar para ir de um país pobre para um rico é equivalente a retornar, com um longo intervalo, da guerra de Troia ?

Matteo Salvini, eleito com base no mau-mocismo, trolou a recepção grandiloquente da Espanha aos mais de 600 passageiros do Aquarius.

“Espero que acolha mais 66 mil, não vamos ficar ofendidos”, ironizou o líder da Liga, o partido que ganhou projeção nacional na última eleição.

Apesar das palavras nada amáveis do novo ministro do Interior, dois navios da Marinha italiana haviam estocado o Aquarius com água e comida, além de gentilmente dividir os navegantes para eliminar o risco de superlotação.

Até recentemente, a ordem para a Marinha italiana era resgatar todos os que fazem a travessia do Mediterrâneo, partindo da Líbia, e que não fossem transportados pelos navios de ONGs alemãs e francesas.

Com o novo governo italiano, a situação mudou completamente. Salvini mandou fechar os portos. O movimento migratório caiu 70%, exatamente como aconteceu na fronteira com o México quando Trump assumiu – tudo, aliás, já voltou ao que era antes.

Num momento em que saiu uma pesquisa mostrando que espantosos 42% dos brasileiros gostariam de mudar de país, não é adequado ignorar o impulso que move os clandestinos em direção à Europa.

Mas também é impossível deixar de levar em consideração os sentimentos de revolta nos países afogados em marés humanas.

Como a Itália, onde o desemprego entre jovens continua na faixa dos 40% em determinadas regiões, pode lidar com mais de 600 mil clandestinos que chegaram ao país nos últimos anos? E que só não ficaram todos lá porque o objetivo é sempre a Alemanha, com os mais gordos benefícios?

E como a Alemanha pode absorver mais de 1,3 milhão de estrangeiros?

Todo ano, o líder da União Social Cristã, o partido da Baviera que vive em coligação quase carnal com os democratas-cristãos, ameaça se estranhar com Angela Merkel por causa da questão dos migrantes e refugiados.

Este ano, talvez o resto do mundo tenha que aprender a pronunciar Horst Seehofer (Zírrofer). Como ministro do Interior, ele elaborou um germânico plano de 63 pontos para controlar a entrada de estrangeiros, atualmente na média de 11 mil por mês.

Também deixou vazar a frase: “Não dá para trabalhar com essa mulher.”

Merkel também não pode trabalhar com ele se insistir no plano, que inclui não aceitar a entrada de migrantes sem documentos, um truque comum, ou que tenham sido registrados em outro país europeu.

A base do programa de Merkel de pressões e chantagem contra países da União Europeia que não aceitam a política de cotas – Polônia, Hungria, República Checa e Eslováquia – é justamente impedir decisões individuais.

Se a União Social Cristã saísse do governo já pouco sólido, em razão da sempre precária participação dos social-democratas, a esquerda tradicional, seria o colapso.

Seehofer já declarou com todas as letras que “o Islã não se encaixa na Alemanha”.

A União Social Cristã mandou colocar crucifixos nos prédios públicos da Baviera, que é a parte católica da Alemanha, onde ainda não existiam, como forma de reafirmação da formação religiosa e cultural da região.

O congraçamento e a fraterna convivência, entre outros clichês, que se vê na seleção alemã é tudo fachada.

O faz de conta ruiu quando os dois jogadores de origem turca mais conhecidos do futebol alemão, Özil e Gündogan, que jogam em times ingleses, fizeram uma visita ao presidente Recep Tayyp Erdogan, em passagem por Londres.

Gündogan ainda lascou na dedicatória da camiseta: ”Para meu presidente”.

Os alemães de origem turca, que brigaram durante décadas até conseguir uma mudança de legislação que lhes desse cidadania alemã, têm também cidadania turca.

As ruas das cidades alemãs visitadas por Erdogan costumam ficar vermelhas com as bandeiras enfeitadas pelo crescente. Os teuto-turcos também ganharam o direito de voto e retribuíram: Erdogan levou 63% dos votos na eleição de 2017 que lhe valeu poderes suprapresidenciais (contra 51% na Turquia propriamente dita).

Os políticos alemães de origem turca, concentrados na esquerda do Partido Social-Democrata ou do Die Linke, ficaram passados.

Os três milhões de habitantes com origem turca são um caso separado nas atuais ondas migratórias: seus pais ou avós vieram muito antes, para trabalhar num mercado que precisava de mão de obra fabril.

A onda atual desencadeou em 2014 e é simbolizada pela selfie em que uma coquete Angela Merkel posa ao lado do sírio Anas Modamani, que dizia ter 17 anos (depois ele processou o Facebook por ser falsamente identificado em posts aleatórios como terrorista).

Entre 2014 e 2017, refugiados muçulmanos radicalizados praticaram 32 atentados em países europeus, deixando 182 mortos e 814 feridos.

O levantamento é da Heritage Foundation, um think tan americanos, de tendência conservadora.

O maior número entre as quase mil vítimas co terror fundamentalista foi na França, mas houve ataques em países como Suécia e Finlândia, empenhados até um nível de absurdo em acolher e amparar refugiados.

Mas é difícil competir com a Alemanha em termos de benefícios. Recém-chegados que pedem asilo e vivem em centros para refugiados recebem roupa, comida, artigos de higiene, assistência médica, chip de celular e uma ajuda em dinheiro que vai de 135 euros por mês, por indivíduo, fora uma média de 80 euros por filho.

Quando saem dos alojamentos, aluguel e mobiliário são subsidiados, além da assistência médica, aulas de alemão, além de 408 euros por pessoa (mais, se morar numa cidade cara como Berlim).

É de estranhar que 75% dos alemães apoiem o plano de Horst Seehofern? Assim como 57% dos italianos apoiam a mão dura de Matteo Salvini com os clandestinos africanos?

A questão da migração insufla os diferentes nacionalismos europeus, também alimentados pela camisa de força do euro e da superburocracia da União Europeia.

A tentativa de apresentar todo e qualquer sentimento nacionalista como perverso, em si mesmo, chega ao ponto em que as bandeiras com a cruz de São Jorge, o símbolo da Inglaterra, são consideradas um indicador de mau gosto e origem social humilde pelas elites (em estado de choque incurável desde o plebiscito do Brexit).

Isso sem falar em situações específicas, como o independentismo da Catalunha, onde política e futebol estão mais misturados do que nunca.

Os catalães torcem contra o time da Espanha, exceto quando “seus” jogadores fazem gols. Nos campeonatos internos, até a ondulante e sensual Shakira foi envolvida, por ser casada com o catalão Gerard Piqué. “Shakira é uma ****”, gritam torcedores canalhas.

Depois da crise do técnico afastado na véspera da estreia na Copa do Mundo, por ter assinado um contrato com o Real Madrid, a rixa se sofisticou e, agora, são os jogadores “madridistas” o alvo de ódio coletivo, inclusive de não-catalães.

Na Rússia, torcedores iranianos estão colocando as manguinhas de fora e fazendo o que não podem em seu país: pedindo publicamente que mulheres possam assistir jogos de futebol em estádios.

Para suprema humilhação dos iranianos, orgulhosos da herança cultural persa, os rivais árabes, considerados uns cameleiros toscos, passaram na frente deles. O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed Bin Salman, liberou uma ala para mulheres em estádios.

Os dois países travam guerras em território alheio, na Síria e no Iêmen – o que, obviamente, não significa que suas torcidas se identifiquem com isso.

Além de guerra, política e futebol, tem a briga religiosa: árabes são sunitas, na ampla maioria, e iranianos são xiitas.

Já que a Itália ficou, tristemente, de fora, será que podiam chamar o Matteo Salvini como juiz numa eventual partida entre Irã e Arábia Saudita?

Esquerda sofre a quinta derrota na América do Sul. O que essa goleada diz sobre o Brasil?

A direita ganhou a quinta eleição presidencial seguida na América do Sul desde 2015. Reportagem de André Gonçalves para a Gazeta do Povo:


Políticos de direita acabam de ganhar a quinta eleição presidencial seguida na América do Sul. Desde 2015, somam-se vitórias na Argentina (Mauricio Macri), Peru (Pedro Pablo Kuczynski, que caiu por corrupção e foi substituído por outro direitista, Martín Vizcarra), Chile (Sebastián Piñera), Paraguai (Mario Abdo Benítez) e, neste domingo (17), Colômbia (Ivan Duque). Ah, no meio dessas disputas, Nicolás Maduro foi “eleito” para mais seis anos de mandato na Venezuela, mas como sabemos não foi exatamente uma “eleição”.

Uma análise óbvia indica a fadiga do modelo de esquerda bolivariana que imperou no continente ao longo da década passada. Ele ainda suspira na Bolívia, onde Evo Morales foi recentemente autorizado pelo Congresso a disputar mais uma reeleição em 2019. E capitulou fora das urnas no Equador, onde Lenín Moreno (nome simbólico, não?) rompeu com o “mentor” Rafael Corrêa, e no Brasil, com a queda do PT e ascensão de Michel Temer.

Falando em Brasil, o que a surra recente levada pelas esquerdas sul-americanas terá de efeito na eleição presidencial de outubro? Não é uma resposta simples. Tradicionalmente, política externa não passa nem perto dos principais fatores de decisão do eleitorado brasileiro.

Pode anotar aí: economia, desigualdade e segurança pública serão assuntos infinitamente mais decisivos nos debates que diplomacia internacional (no geral, bolso pesa mais que pose). Mas há um aspecto lateral que, se não fere de morte, ajuda a queimar o filme da esquerda: a ideia de que existe um “Eixo do Mal” que quer tomar o continente e quiçá o mundo.

A materialização disso é o Foro de São Paulo, uma conferência de partidos e organizações de esquerda em funcionamento desde 1990. Jair Bolsonaro captou a mensagem que paira no ar. Ele comemorou a eleição de Iván Duque na Colômbia dizendo que a “máfia bolivariana” precisa ser combatida.

A ideia em torno do foro, porém, é só um biombo para o verdadeiro risco que é a cultura de populismo das lideranças políticas sul-americanas. Classifique-se esse fenômeno como toda corrente que leva “ismo” no final: kirchnerismo, lulismo, chavismo. Mas populismo não é monopólio da esquerda – basta checar a face oculta do uribismo que colaborou decisivamente para o resultado colombiano.

Nomes como Bolsonaro captaram a carga tóxica da esquerda bolivariana e vão usá-la exaustivamente porque a onda vermelha virou – o que não quer dizer que o eleitorado tenha dispensado o discurso populista. Se continuar jogando suas fichas pelas regras do jogo da década passada, os esquerdistas latinos vão continuar apanhando a cada nova eleição. O próximo embate é no Brasil e, por aqui, a insistência em um candidato que nem poderá concorrer só prenuncia a lavada que vem pela frente.

Amoêdo diz que Estado ineficiente leva à corrupção

Pré-candidato afirmou em evento com empresários que setor precisa de segurança jurídica, defesa de propriedade e custo de capital menor:


O pré-candidato do Partido Novo à Presidência da República, João Amoêdo, afirmou que o Brasil é um "País disfuncional". O empresário participou nesta segunda-feira, 18, do Fórum Unica (União da Indústria da Cana-de-Açúcar), realizado em São Paulo. "Trabalhamos cinco meses para pagar impostos. Temos um modelo de Estado intervencionista e ineficiente - que é o que leva à corrupção", disse.

Amoêdo defendeu um Brasil "seguro, simples e livre". Para o pré-candidato, esse tripé significa "mais segurança pública, a valorização das polícias, o fim da impunidade, e a criação de um ambiente seguro para os negócios e garantias de liberdades individuais". Ele defendeu o fim das empresas estatais - inclusive a privatização da Petrobrás.

Sobre a crise envolvendo o preço do combustíveis, Amoêdo acredita que "os valores teriam que ser definidos pelo mercado e não pela influência estatal". 

Apesar de defender o fim do monopólio da Petrobrás, Amoêdo admite um controle no preço do combustível. Segundo ele, os reajustes poderiam acontecer de forma mensal ou quinzenal para facilitar o planejamento de quem trabalha "na ponta da operação".

Amoêdo defendeu a renovação na política e disse que "o sistema foi feito para privilegiar grupos políticos e até empresariais". E garantiu que, se eleito, vai implementar uma dinâmica diferente com o Congresso e "não cair no fisiologismo".

Para ele, "o futuro governo será forçado a fazer mudanças até por uma questão de sobrevivência". Ele criticou o fundo eleitoral,e disse defender o fim da estabilidade para o funcionalismo público "O funcionário público e quem trabalha na iniciativa privada precisam ter o mesmo tratamento", falou. (Estadão).

Os selfies na política

"Lênin, Stalin e Putin na Praça Vermelha são objeto não só de curiosidade política, mas de alguns milhares de selfies que talvez até as torcidas de futebol levem para casa". Fernando Gabeira, de Moscou para o jornal O Globo:


Os sósias de Lênin e Stalin fazem sucesso na Praça Vermelha. E ganham um trocado com isso. Nos últimos tempos ganharam um novo ator: o sósia de Putin. Encontrei-os no metrô e achei-os meio abandonados na Copa.

Talvez tenha sido a impressão do momento. Mas essa massa de jovens torcedores do mundo inteiro não parecem ser a plateia adequada para os líderes da revolução bolchevique. A presença de Putin expressa uma certa continuidade com o período soviético. Mas apenas discretamente.

Muitos jornalistas brasileiros aqui reclamam da burocracia russa. Sobretudo das dificuldades para obter entrevistas. É preciso escrever cartas com antecedência, papel timbrado e, quem sabe, até com firma reconhecida. Parece-me que isso é ainda um reflexo do passado, quando as entrevistas com correspondentes estrangeiros podiam ser vistas como uma traição ao país.

Mas a burocracia atinge também os servidores mais simples. No fundo, a ideia geral é estabelecer um controle completo sobre tudo o que se passa no país. Nos metrôs, por exemplo, era proibido tirar fotos. Com a chegada dos celulares, como impedir que as nove milhões de pessoas que circulam pelos trilhos subterrâneos não tirem fotos?

Em algumas estacões, criaram um espaço com um desenho vermelho indicando que ali se pode fazer selfie. É uma concessão. No entanto, é ilusão supor que os russos não avançaram nos mecanismos de controle, a ponto de dispensar seus aspectos mais visíveis e até cômicos.

Embora os dirigentes tenham confessado que passaram o primeiro e-mail em 2008, a verdade é que criaram um grupo especial para monitorar a internet. Na rede, estão os principais opositores. Inclusive o que mais incomoda o Kremlin: Alexei Navalny, solto no dia da abertura da Copa do Mundo.

Todas as grandes manifestações russas foram articuladas na internet. E parece ser uma área que, apesar de monitorada, não sofre restrições aparentes. O encontro do eficiente serviço de inteligência russo com a revolução digital certamente provocaria um fato novo.

Hoje, os russos são acusados de muitas intervenções fora do país, inclusive nas eleições americanas. Antes da revolução digital, não só o setor espacial como o de defesa eram os pontos fortes da Rússia. Era natural que eles despertassem para o campo cibernético, hoje considerado mais perigoso que o próprio arsenal militar.

Lênin, Stalin e Putin na Praça Vermelha são objeto não só de curiosidade política, mas de alguns milhares de selfies que talvez até as torcidas de futebol levem para casa.

O passado virou tema de selfie. Mas o sósia de Putin está lá para lembrar a presença da Rússia moderna. No universo dos pixels, ela também é uma grande potência.

A Copa do Mundo já não é tão popular. E a "culpa" é do livre mercado.

A Copa da FIFA perdeu relevância ante a concorrência de certames como UEFA Champions League, Taça Libertadores da América ou mesmo competições locais, como os campeonatos espanhol e inglês, escreve Ricardo Bordin em artigo publicado pelo Instituto Liberal:


É opinião quase unânime que o maior torneio de futebol do planeta já não atrai tanta atenção quanto outrora. Mas não adianta apontar culpados por essa situação, pois ela é uma decorrência natural da busca por lucro por parte de empreendedores do setor de entretenimento.

Até meados da década de 1990, assistir a jogos de seleções nacionais consistia em uma das poucas oportunidades de ver em ação os maiores craques estrangeiros do esporte bretão.

Em busca de satisfazer esta demanda dos fãs ávidos por espetáculos futebolísticos, investidores resolveram levar aos quatro cantos da Terra, a custos cada vez menores, as partidas dos melhores campeonatos europeus e sulamericanos.

A partir de então, a Copa da FIFA perdeu relevância ante a concorrência de certames como UEFA Champions League, Taça Libertadores da América ou mesmo competições locais, como os campeonatos espanhol e inglês.

Se antes era preciso ficar ligado nos confrontos entre nações para conferir as jogadas de Maradona, hoje é possível ver Messi dando show na Copa do Rei até pelo smartphone.

Além disso, países se enfrentando dentro das quatro linhas costumava ser um tipo de evento que trazia consigo um componente emocional para além do desporto: a ocasião despertava sentimentos patrióticos, uma espécie de comunhão entre os cidadãos de uma mesma origem, que se identificavam entre si e enfrentavam adversários que a eles se contrapunham, em uma espécie de simulacro de um embate bélico.

Mas a globalização — no caso, tanto o comércio globalizado quanto a circulação de pessoas além das fronteiras — acabou por atenuar este elemento que alavancava o engajamento das pessoas na Copa do Mundo.

A evolução dos meio de transporte, logística e comunicação encurtou distâncias, aproximou povos e tornou suas culturas tão semelhantes que torcer pelos representantes de um determinado país perdeu parte do significado original — especialmente porque, como ensinava Frédéric Bastiat, estradas por onde passam comerciantes não passam soldados: a interdependência comercial entre as nações praticamente eliminou as chances de guerras entre elas, o que também ajuda a arrefecer o entusiasmo nacionalista.

É claro que há outros fatores que contribuíram para reduzir a paixão do brasileiro pela amarelinha (corrupção disseminada nas instituições esportivas, convocações de atletas para lá de suspeitas, etc), mas em tempos de petistas culpando “paneleiros” pela crise que eles próprios criaram e acusando um suposto arrependimento generalizado com o impeachment da presidenta competenta como motivo para a perda de interesse pela Copa, convém elucidar: o “capitalismo selvagem” tornou tão comum ver os melhores jogadores do mundo atuando que a FIFA world cup perdeu importância no processo.

É do jogo. Siga la pelota!

A corrupção como medida de tudo

"Sempre que os brasileiros foram às urnas para eleger não um presidente da República, e sim um campeão contra a corrupção – Jânio Quadros e Fernando Collor, por exemplo –, os resultados foram nada menos que desastrosos. Mais do que nunca, é preciso impedir que a histeria anticorrupção governe o País". Editorial do Estadão desta segunda-feira, meio esquisito:


Não há dúvida de que a corrupção é um dos grandes males do País, há muitos anos. Também não há dúvida de que a Operação Lava Jato e suas congêneres, que vêm expondo de maneira crua a pilhagem do Estado por quadrilhas políticas e empresariais, contribuíram decisivamente para que os brasileiros se dessem conta do tamanho do problema e nutrissem verdadeira ojeriza pelos corruptos. No entanto, a luta contra a corrupção e as denúncias produzidas quase diariamente pela vanguarda dessa campanha acabaram por sequestrar a agenda nacional, de tal modo que os eleitores parecem hoje incapazes de refletir sobre os problemas do País sem vinculá-los de alguma maneira à corrupção – que, como consequência, se tornou a medida de todas as coisas.

Esse fenômeno ficou espantosamente claro em uma pesquisa nacional do Instituto Ipsos Public Affairs a respeito da reforma da Previdência. De acordo com o levantamento, 75% dos entrevistados consideram que “o maior problema da Previdência é a corrupção no sistema, que desvia seus recursos”. Apenas 15% entendem que o maior entrave do sistema previdenciário “é o modo como ele foi pensado e também o envelhecimento da população”.

Ou seja, a maioria dos brasileiros, a julgar por essa enquete, acredita que o galopante déficit da Previdência não existiria se não fosse a corrupção.

A resposta revela um grau tão absurdo de desconhecimento da realidade que só se pode concluir que os brasileiros em geral estão mesmo convencidos de que a corrupção é a fonte deste e de qualquer outro mal que assole o País.

Como mostram os dados publicados regularmente pelo governo e pela imprensa há muito tempo, a Previdência é deficitária porque o brasileiro se aposenta cedo demais e porque não há contribuintes em número suficiente para sustentar a aposentadoria de uma massa crescente de beneficiados – tudo isso sem mencionar privilégios desmedidos concedidos a determinados grupos.

Nada disso obviamente é fruto de corrupção, e sim de um sistema disfuncional construído a partir de deliberações conscientes dos representantes do povo, tudo com amplo respaldo democrático. Ao atribuir a “corruptos” um problema que é, em grande medida, dos próprios eleitores – a escolha de candidatos de triste fama –, os entrevistados parecem ter encontrado uma maneira de transferir sua responsabilidade cidadã a terceiros, devidamente caracterizados como ladrões de dinheiro público. Ou seja: se não fosse a corrupção, tudo funcionaria bem. 

Basta notar que, para 51% dos entrevistados, o modelo de Previdência atual “é sustentável, ou seja, pode continuar da mesma forma por muitos anos”. E, mais espantoso ainda, 52% dos entrevistados com curso superior entendem que o sistema vai bem e não precisa mudar. Ou seja, não se pode alegar ignorância, pois se supõe que os entrevistados nessa faixa socioeconômica tenham amplo acesso às informações necessárias para embasar sua opinião.

Assim, fica muito claro que uma parte considerável dos brasileiros, inclusive os supostamente mais esclarecidos, está convencida de que é a corrupção que inviabiliza o País, e não as escolhas malfeitas, tanto nas urnas como na administração do Estado. Não é uma situação de todo surpreendente, ante a desmoralização completa da política em razão do denuncismo que tão bem caracteriza o trabalho de uma parte da força-tarefa da Lava Jato e que ganha manchetes escandalosas dia e noite. 

A transformação da corrupção em régua que mede todos os recantos da vida nacional, conveniente tanto para os jacobinos que pretendem destruir a política tradicional como para os eleitores que preferem respostas fáceis para problemas difíceis, está na raiz da indisposição generalizada no Brasil com tudo o que diz respeito ao governo, aos políticos e às próximas eleições – decisivas para o futuro do País. Sempre que os brasileiros foram às urnas para eleger não um presidente da República, e sim um campeão contra a corrupção – Jânio Quadros e Fernando Collor, por exemplo –, os resultados foram nada menos que desastrosos. Mais do que nunca, é preciso impedir que a histeria anticorrupção governe o País.

domingo, 17 de junho de 2018

Direita derrota nas urnas o terrorismo esquerdista na Colômbia

Com 99,67% dos votos apurados, o afiliado político do ex-presidente Álvaro Uribe conseguiu pouco mais de 10,3 milhões de votos. Alô, bolivarianistas:


O candidato do partido Centro Democrático, Iván Duque, venceu a corrida eleitoral à Presidência da Colômbia neste domingo, 17, e tomará posse no dia 7 de agosto. Com 99,67% dos votos apurados, Duque, um afiliado político do ex-presidente Álvaro Uribe, tem pouco mais de 10,3 milhões de votos, o equivalente a 53,96% do total, de acordo com o Registro Nacional do Estado Civil, o órgão eleitoral do país. O ex-guerrilheiro Gustavo Petro, do movimento Colômbia Humana, tem pouco mais de 8 milhões de votos, 41,83% do total apurado.

A vantagem parcial de 12,16% para Duque não permite que Petro alcance seu patamar, já que falta a análise de apenas 0,33% das mesas para o encerramento da apuração. Conforme os resultados atuais, foram contabilizados 4,20% votos brancos. A jornada eleitoral começou às 8h locais (10h de Brasília), e as seções eleitorais permaneceram abertas por oito horas.

Com o resultado, Iván Duque superou em os 7,5 milhões de votos que recebeu no primeiro turno da disputa, em 27 de maio. Aos 41 anos, ele é o presidente mais jovem eleito na Colômbia desde 1872. A vice de Duque será Marta Lucía Ramírez, primeira mulher a ocupar esse posto no país.

Por meio do Twitter, Gustavo Petro reconheceu a vitória do adversário, mas ressaltou não se sentir derrotado. “Qual derrota? Oito milhões de colombianas e colombianas livres de pé. Aqui não existe derrota. Por enquanto não seremos governo”, escreveu Petro, em resposta a uma publicação da rádio Caracol com imagens de seus eleitores decepcionados com a vitória de Iván Duque.

A eleição é determinante para os acordos de paz que buscam acabar com meio século de confronto armado no país. O prolongado conflito com as guerrilhas adiou por décadas o tradicional duelo entre direita e esquerda na quarta economia da América Latina.

“São eleições transcendentais”, afirmou Juan Manuel Santos, o presidente que deixará o poder em agosto, ao votar durante a manhã na Praça de Bolívar de Bogotá. Vencedor do Nobel da Paz de 2016, Santos destacou as “garantias” de segurança que os eleitores terão, em um país onde a violência afetou as eleições por décadas.

Duque e Petro ofereceram propostas opostas para o acordo de paz e outros temas. O direitista promete modificar o pacto. O ex-guerrilheiro, de 58 anos, militou no M-19, já dissolvido, defendia o acordo.

Com a antiga guerrilha comunista transformada em partido e diálogos contínuos com os rebeldes do Exército de Libertação Nacional (ELN), a luta contra a corrupção e o narcotráfico, assim como as relações e a migração sem precedentes da Venezuela, ganharam espaço na campanha.

Vencedor do primeiro turno com 39% dos votos, Duque tem experiência política de quatro anos. Embora tenha se destacado no Senado, chegou ao Parlamento por uma lista fechada liderada por Uribe.

O presidente eleito pretende recuperar o cargo máximo do país para uma direita contrária ao acordo com as Farc, diminuir os impostos para as empresas e aumentar a pressão internacional contra o governo de Nicolás Maduro na Venezuela. A Colômbia tem 49 milhões de habitantes, com 27% de pobreza e é o maior produtor mundial de cocaína.

Telefonema do presidente

O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, telefonou para Iván Duque, depois de confirmada sua vitória nas urnas.

“Liguei para Iván Duque para parabenizá-lo e deseja muita sorte. Ofereci toda a colaboração do governo para fazer uma transição ordenada e tranquila”, escreveu Santos no Twitter.

Ao longo da campanha, ele não manifestou apoio para candidato algum, no entanto tinha se comprometido a dar os parabéns para o ganhador como parte dos pedidos feitos para que a campanha transcorresse em um ambiente pacífico. (Veja.com).

O êxodo brasileiro: quem está deixando o Brasil para trás.

Reportagem da Gazeta do Povo revela que mais de um milhão de brasileiros vive fora do país. Eles buscam segurança e melhores oportunidades de emprego:


A crise econômica, a violência, a falta de perspectivas: questionados sobre as razões que os levaram a sair do país, os brasileiros que emigraram nos últimos anos costumam elencar uma série de incômodos que fazem outros tantos pensarem em tomar o mesmo caminho. Embora não existam números consolidados do êxodo brasileiro, um bom indício são as declarações de saída definitiva do país computadas pela Receita Federal: desde 2013, quando o número bateu em 9,8 mil pessoas, o número mais que dobrou, chegando a mais de 21,2 mil saídas no ano passado. Segundo estimativa da ONU, hoje o Brasil só fica atrás da Colômbia em termos de migrantes extrarregionais – cerca de 1,3 milhão de brasileiros hoje reside fora da América do Sul.

A saída de brasileiros, muitas vezes planejando uma imigração irregular, fez com que o país passasse a ocupar o segundo lugar entre os mais barrados em aeroportos da Europa – hoje, ficamos atrás apenas dos albaneses. Só em Portugal, país onde o Brasil compõe a maior comunidade estrangeira, o número de barrados quase triplicou entre 2014 e 2016. Determinar quem são esses emigrantes nem sempre é simples. Um levantamento da JBJ Partners, consultoria especializada em expatriação, tentou montar um perfil levando em conta apenas as saídas para os Estados Unidos: nos últimos anos, o êxodo de profissionais qualificados se intensificou – cerca de 94% possuíam, no mínimo, um curso superior completo. Os brasileiros ouvidos no estudo apontavam a insegurança, a instabilidade política e econômica e a baixa qualidade de vida entre as principais razões que os levaram a tomar essa decisão. 

Jovens buscando maior qualificação profissional e oportunidades, famílias que se desfizeram de suas posses para possibilitar um futuro melhor aos filhos, e até mesmo quem saiu sem um plano definido, tentando a sorte no exterior: a Gazeta do Povo ouviu relatos de brasileiros que, em meio à crise, deixaram o país com diferentes projetos nos últimos anos – em comum, o fato de que levavam vidas de classe média e classe média alta aqui no Brasil, e que nenhum pretende voltar tão cedo. 

Manteve a carreira em Portugal 

Para a designer Juliana Vidigal e o marido, que trocaram o Brasil por Portugal junto com o filho de 10 anos, cada passo da decisão foi tomado pensando a qualidade de vida da família. “Meu marido tem cidadania italiana e algum tempo atrás já tínhamos cogitado sair, pois sempre foi um desejo ter essa experiência. O que nos fez tomar a decisão agora foi o momento que o Brasil atravessa e a falta de perspectiva de melhora a curto e médio prazo”, explica. 

Juliana e a família optaram por Portugal pensando na facilidade de adaptação à cultura, no clima menos frio que nos países do norte europeu, e no custo de vida relativamente menor que o encontrado em outros países da União Europeia. “Viemos com a intenção de ficar mesmo, sem retorno. Vendemos tudo o que tínhamos e optamos por uma vida mais frugal aqui”. Além disso, ressalta, “existe agora um clima de otimismo e crescimento após o país ter saído da grande crise econômica, apesar dos níveis ainda altos de desemprego”. 

Abandonar a carreira, caminho que muitos brasileiros acabam seguindo ao decidir recomeçar do zero em outro lugar, não foi uma necessidade: “nós somos freelancers e trabalhamos com design gráfico, o que nos possibilita trabalhar remotamente e continuar os projetos no Brasil”. Os dois já haviam feito uma mudança semelhante dentro do país mesmo, ao sair de São Paulo para Porto Alegre, última parada antes da saída do Brasil: “para os nossos clientes, nada mudou”. 

Largou a faculdade para ir aos EUA 

Morar nos Estados Unidos era um sonho antigo para Brenda Nadal, que no Brasil estudava Comércio Internacional e trabalhava em uma empresa do ramo. Um ano e meio atrás, aos 23 anos, decidiu largar a faculdade e realizar seu novo projeto de vida: inscreveu-se no programa de intercâmbio au pair, em que jovens podem trabalhar como babás em troca de moradia, comida e uma remuneração modesta, e se estabeleceu em Mountain View, na Califórnia. 

O caso de Brenda é um de quem saiu do país sem um projeto de permanecer no exterior, com data para voltar. Originalmente, a ideia era fugir da rotina monótona que levava no Brasil, aprimorar o inglês e ter experiências diferentes, que permitissem enriquecer o currículo na volta para casa – mas o contraste na qualidade de vida entre os dois países fez com que passasse a tentar se estabelecer definitivamente no novo país. 

“Aqui, tudo é mais organizado. As pessoas respeitam as leis, a educação salta aos olhos, o ‘jeitinho brasileiro’ não existe”, relata. Por não ter despesas fixas graças à moradia garantida pelo programa, o dinheiro recebido acabou se convertendo em um “bom salário” para iniciar a nova vida. As possibilidades abertas surpreenderam: “mesmo o salário de profissões humildes permite sobreviver bem”, argumenta. 

A saudade de casa é o maior obstáculo para quem inicialmente pensava em regressar, mas hoje a jovem está convencida a não retornar para o Brasil: “quero continuar aqui e trabalhar conforme novas oportunidades forem aparecendo”, planeja. 

Foi em busca de qualificação na Europa 

Doutoranda em Ciências da Computação e Matemática Computacional pela USP, Giovana Gelatti é um exemplo dos brasileiros altamente qualificados que estão deixando o país em um período de agudo corte de verbas para a pesquisa científica. Quando saiu do Brasil, em setembro de 2016, seu objetivo inicial era passar um ano na Universidade do Porto aprofundando sua especialização na área. Na hora de voltar, porém, seu orientador em Portugal propôs a permanência na Europa – uma decisão apoiada, inclusive, pelo professor que a orientava aqui no Brasil. 

“No momento de fazer a escolha se continuava ou não, tive que fazer a comparação da minha vida aqui e como ela era no Brasil”, admite Giovana. “No Brasil tenho muitos amigos, a hospitalidade e a alegria brasileira são coisas que só existem aí. Mas, em Portugal, as condições e a qualidade de vida são melhores. Acredito que o que me levou a ficar mais tempo e pensar na possibilidade de seguir aqui definitivamente é a segurança: poder andar na rua sem medo, sozinha, a qualquer hora do dia”. 

Um ambiente mais propício para a profissão que deseja seguir também contribuiu para a escolha. Hoje, Giovana planeja seguir na Europa após concluir o doutorado e ser contratada como investigadora no centro em que realiza suas pesquisas – sua tese trata da detecção de anomalias em conjuntos de dados médicos. “Existem muitos problemas aqui: um sistema de saúde estilo SUS, burocracias intermináveis, o preconceito contra brasileiros. Mas lidar com tudo isso faz parte de sair de casa e da zona de conforto”, define. 

A família que recomeçou no Canadá 

Thiago Marimon passou a levar adiante o projeto de deixar o Brasil após a esposa Jeruza ficar grávida, em 2015. “Decidimos que era hora de sair do país, principalmente pela segurança, e também por querer dar oportunidades e vivências para o nosso filho que não tivemos quando crianças”, conta. A família, gaúcha, cogitou desde o vizinho Uruguai até a distante Austrália, pensando também em destinos populares entre brasileiros na Europa, como Irlanda e Portugal. Após ouvir relatos de amigos que moravam em Vancouver, porém, o casal acabou optando pelo Canadá. 

“Intensificamos as pesquisas, li muito material e acho que assisti a todos os vídeos existentes no youtube sobre o assunto. Percebemos que uma maneira que vem sendo adotada por muita gente que chega ao Canadá é estudar”, diz Thiago. “Estudando você tem visto de estudos durante a duração do curso e depois um ‘work permit’ pela mesma duração do curso, até um máximo de três anos, explica”. Para garantir as oportunidades, foi preciso um recomeço: ele decidiu fazer um curso equivalente ao de tecnólogo em engenharia civil, área que já atuava no Brasil. A esposa, arquiteta especializada em segurança do trabalho, encontrou emprego em uma indústria local – a lei canadense permite que o cônjuge do estudante tenha emprego em tempo integral. 

A adaptação do filho, Pedro, foi difícil no início, sobretudo pela barreira do idioma. Pouco a pouco, porém, a situação foi mudando. “Ele tem substituído no seu vocabulário diário algumas palavras. Não fala mais, por exemplo, ‘pare’ e ‘desculpe’. Agora é só ‘stop’ e ‘sorry’. Ele fala muito ‘sorry’, vai ser um bom canadense”, brinca Thiago, fazendo menção à fama dos canadenses de serem bem-educados. “Aqui, um trabalhador ganhando o mínimo, em um emprego de início de carreira, paga as contas de uma família de três pessoas. Sem luxos, mas sem passar trabalho. É o que ocorre conosco”, afirma Thiago, que hoje vive em London, cidade da província de Ontário localizada a cerca de uma hora e meia de carro de Toronto. A opção por uma cidade menor também visava a baratear o custo de vida. 

Logo no primeiro mês, a família foi recebida por um frio de 22 graus negativos. “Mas o clima, ao contrário do senso comum, é o que menos me incomoda”, esclarece Thiago. “Pesa bastante a falta da família e amigos, da comida e de outras relações afetivas”. Apesar disso, porém, a única dúvida que hoje persiste não é sobre o retorno, mas o próximo destino – uma vez obtido o diploma com validade internacional, outras opções de países podem voltar à mesa. “A segurança e a tranquilidade que a vida aqui nos proporciona, o Brasil, infelizmente, nunca vai nos dar”.

Saúde, o direito de dever.

Coluna dominical de Carlos Brickmann, publicada em vários jornais e surrupiada daqui:


A Agência Nacional de Saúde Suplementar, ANS, quer que convênios e seguros-saúde aumentem no máximo em 10% seus preços. A Justiça achou muito: fixou 5,72% (contra uma inflação de 2,9%). A ANS, mas podem chamá-la de Governo, vai recorrer! Quer 10%. O cidadão é só um detalhe.

Para que serve a ANS, “a agência reguladora” dos planos de saúde? Dá para responder com números: nos últimos 14 anos, o aumento sempre foi superior à inflação. De 2000 a 2017, o plano de saúde subiu 374,1%. Deu de 7×1 na inflação, que chegou a 220%. Antes de 2000, as operadoras eram quem decidia o valor do aumento. E o cliente apanhava tanto quanto hoje: não teve vantagem nenhuma com a intervenção da agência oficial.

Resultados? Dois milhões de clientes suspenderam seus convênios ou seguros — agora, sobrecarregam o SUS. A operação dos planos de saúde é tão lucrativa que gigantes multinacionais compraram empresas nacionais do ramo. E a benevolência da ANS chegou a despertar de seu profundo sono até o Senado, que planeja uma CPI sobre as relações ANS-operadoras. Um terço dos senadores, 27, já concordou com a CPI. Será interessante descobrir por que, todos os anos, o custo tem de subir mais que a inflação.

Será a hora de descobrir para que servem as agências reguladoras. A do transporte aéreo, Anac, foi a inventora da cobrança da bagagem, “para baratear as passagens”. Alguém já usou as passagens mais baratas?

Jornalista Lula

Lula deve comentar a Copa para a TVT, do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Escreverá o comentário na prisão e o enviará ao jornalista José Trajano. “Não estou brincando, não”, diz Trajano. “Lula será comentarista da TVT. Vai escrever suas impressões, e as pomos na tela entre aspas”.

O Basta! De Neguinho

O sambista Neguinho da Beija-Flor, 68 anos, 41 de escola de samba, vai embora do Brasil: cansado da violência no Rio, cansado dos altos impostos (dos quais não vê retorno), vai no fim do ano para Braga, Portugal, cidade de origem da família da esposa. Quer que a filha mais nova, de nove anos, viva em lugar mais seguro. Neguinho é atração da escola cujo patrono é o poderoso Aniz Abrahão, homem-forte de Nilópolis. Se Neguinho sente a insegurança a ponto de ir embora, prometendo só voltar nos carnavais, imaginemos a situação a que a violência levou a Cidade Maravilhosa.

Cadê o centro?

Comecemos pela parte positiva: apesar de tudo, Geraldo Alckmin tem boas chances de chegar ao segundo turno, apesar da penúria de seus índices nas pesquisas. Com a multiplicação do número de candidatos, basta que Alckmin cresça em São Paulo, sua base eleitoral, onde foi governador por quatro vezes, para que chegue lá. No segundo turno, seu adversário deve ser um radical de esquerda ou direita, e ele deve receber o voto da maioria que é contra radicalismos. Agora, a parte ruim: Alckmin está indo mal até em São Paulo, o que o deixa em risco. Álvaro Dias come seus votos do Paraná para o Sul. Candidatos como Flávio Rocha e Josué Alencar atingem sua base. Com as intenções de voto se arrastando pelo chão, como atrair outros partidos de centro para formar a maioria? Alckmin tenta duas saídas.

A primeira: um problema

Alckmin nomeou Marconi Perillo, ex-governador de Goiás, articulador de sua candidatura. Problema: o candidato de Perillo ao Governo goiano, o vice José Elinton, tem no máximo 1/3 das intenções de voto de Ronaldo Caiado, DEM, o favorito. Perillo deixa de ser o chefe político de Goiás e se contenta em eleger-se senador. Tem processo na primeira instância da Justiça Federal, movido pela Procuradoria Geral da República, referente a delações de ex-executivos da Odebrecht, segundo as quais teria solicitado à empresa R$ 50 milhões para a campanha de 2014 (e obtido R$ 8 milhões). Alckmin não tem até agora qualquer vínculo conhecido com a Odebrecht.

A segunda: uma aposta

Alckmin quer também que o apresentador José Luiz Datena (DEM) seja candidato ao Senado, na chapa de João Dória. Datena é conhecido e tem facilidade de comunicação. Mas talvez prefira outra opção, como disse a O Estado de S. Paulo: “Se pintar a possibilidade de ser candidato à Presidência, talvez eu tente ajudar o meu País. Quero ser candidato para ajudar o povo. É mais uma decisão do partido do que minha. Depende das articulações, do resultado das pesquisas”. Alckmin quer, atraindo Datena, conseguir o apoio do DEM para ser presidente. Corre o risco de repetir o episódio de Doria: ganhar mais um adversário em disputa de seu espaço.

Sabe ou não?

Todos os países americanos decidiram votar em bloco em EUA, Canadá e México para a Copa de 2026. A CBF votou no Marrocos. O coronel Nunes, da CBF, votou errado ou esqueceu em quem votar? Você decide.

Nicarágua, hora zero.

Não há saída para a Nicarágua a não ser a renúncia de Daniel Ortega e a realização de eleições, que ele quis retardar. Artigo de Mário Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura:


O comandante Daniel Ortega, amo e senhor da Nicarágua desde 2007, propôs retardar as eleições para 2019 a fim de ficar mais um ano no poder, período em que imagina, sem dúvida, encontrar novas artimanhas que lhe permitam se eternizar na presidência, à qual chegou por meio de um conluio eleitoral em que se juntaram remanescentes do sandinismo, empresários ambiciosos e membros da Igreja Católica, como seu antigo adversário, o cardeal Miguel Obando (que morreu recentemente), que conquistou para sua causa com uma oportuna conversão, que chegou até a celebrar seu casamento com sua antiga companheira e cúmplice, a atual vice-presidente Rosario Murilo.

Como todos os tiranos, o desejo de poder deixa cego o comandante Ortega e não lhe permite ver, apesar dos massacres que sua polícia política e os paramilitares sandinistas continuam cometendo (no momento em que escrevo, já são 160 mortos e mais de mil feridos), que sua impopularidade é gigantesca em todos os setores da sociedade, a começar pelos empresários, que decretaram uma greve nacional exigindo sua renúncia, além dos estudantes, operários, camponeses, a Igreja Católica, ou seja, o grosso de uma sociedade que decidiu se mobilizar com uma grande coragem contra a corrupção, os roubos, a demagogia, a censura, os crimes e os desmandos do casal presidencial, com o objetivo de pôr fim a um dos regimes mais abjetos da história da América Central.

A história do comandante Ortega é digna de um romance. Lutou contra a ditadura de Somoza, foi preso por isso e, quando a revolução triunfou, liderou o governo sandinista. Em 1990, derrotado nas eleições por Violeta Chamorro, ele e um grande número de dirigentes do governo se envolveram num enorme escândalo, a famosa “Piñata”, se apoderando de casas, terras e bens do Estado, o que levou muitos sandinistas autênticos e decentes, como o escritor Sergio Ramírez, a romper com eles e os denunciarem.

Para voltar ao poder, Ortega aparentou uma dupla conversão democrática e religiosa, com pactos delirantes (como o que fez com Arnoldo Alemán, que ajudou a sair da prisão, condenado por corrupção) e se aliando a empresários sem escrúpulos, oferecendo-lhes tudo o que desejassem desde que não interferissem na política de governo, e com apoio do cardeal Obando. Desta maneira, assumiu o governo em eleições fraudulentas. 

Desde então, tem se mantido no poder, afundando o país em operações duvidosas, como a que forjou com um empresário chinês para construir um novo canal que ligaria o Caribe ao Pacífico, projeto que deu em nada, e outros caprichos delirantes, como o bosque de árvores metálicas construído por Rosario Murilo, que os estudantes rebelados destruíram em uma operação catártica.

O levante popular que começou em abril teria ocorrido muito antes se a Nicarágua endividada e arruinada não tivesse contado com o petróleo venezuelano que o comandante Chávez, primeiro, e depois Nicolás Maduro ofereciam generosamente para seu aliado sandinista.

As manifestações encabeçadas pelos estudantes e apoiadas pela maioria da opinião pública tinham como objetivo imediato protestar contra uma reforma do regime de aposentadoria que aumentava a quota devida pelos pensionistas, mas, na verdade, esta foi a gota d’água, pois a indignação popular contra os abusos e canalhices do casal na presidência, que já fermentava em silêncio graças à repressão, encontrou uma via de escape e deixou o governo e o restante do mundo surpreendidos pela magnitude dos protestos e pela coragem dos manifestantes face à brutalidade com que o regime procurou sufocá-los. 

Não há outra saída para o país de Rubén Darío e de Sandino senão a renúncia imediata de Ortega e de sua mulher e a convocação imediata de eleições, como exige o povo da Nicarágua. O relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos sobre a selvagem violência do governo contra os pacíficos manifestantes mostra, claramente, que o sistema político que eles presidem violou todas as normas e princípios democráticos e age com a ferocidade repressiva das piores ditaduras. O sangue derramado nos últimos dois meses pelo valente povo nicaraguense, enfrentando balas, assassinatos, prisões e torturas, colocará um fim a uma das últimas tiranias que, lembrança de uma época funesta, sobrevivem na América Latina.

Para isso, é indispensável que os países democráticos e organizações internacionais, como as Nações Unidas, OEA e União Europeia se solidarizem com os patriotas nicaraguenses, exigindo a renúncia de Ortega e Rosario Murillo e a realização, no menor prazo possível, de eleições livres, com observadores internacionais, para o país recuperar sua liberdade e começar a reconstrução das suas instituições democráticas depois de tantos anos de sofrimento.

A Nicarágua, provavelmente, é um dos países latino-americanos que mais sofreu ao longo da história: foram ocupações, ditaduras, saques, guerras civis. A derrota da ditadura de Somoza, uma das piores já vistas no continente, foi uma façanha que despertou grandes esperanças. Mas os sandinistas que ocuparam seu lugar optaram pela utopia coletivista excludente e, em vez de lançar as bases de uma sociedade democrática, criaram uma guerra civil e uma divisão social que até agora impediram o país de edificar as instituições que garantem o progresso econômico e a liberdade política. Mas nunca é tarde para iniciar esse processo e, depois das terríveis experiências que marcaram sua história recente, a saída de Ortega e da sua sinistra companheira deve dar início a uma nova era para essa terra de heróis e de grandes poetas.

A realidade do nosso tempo não tem lugar para sistemas tirânicos nem utopias sociais, que só trouxeram miséria e dor para os países que sucumbiram a elas. A América Latina vem compreendendo isso e a prova é que quase já não restam regimes dessa natureza, com exceção de Cuba e Venezuela, e países que respaldam o “socialismo do século 21” (por oportunismo e cobiça, pois só o praticam em teoria e não na prática) estão dele se afastando, caso do Equador e agora a Nicarágua, de modo que finalmente a democracia substituirá essa deprimente realidade política que reinou na América Latina na minha juventude, quando de um ponto ao outro do continente havia ditaduras militares, com exceção da Costa Rica e do Uruguai. Não é por acaso que a liberdade nesses dois países esteja mais enraizada com que em outros, assim como a coesão social e a paz. (Estadão).

Política: hora da esperança.

As eleições de outubro são decisivas para o País e o cenário político é de muita incerteza. Faltam propostas e abundam demagogias e radicalismos. Editorial do Estadão:


As eleições de outubro são decisivas para o País e o cenário político é de muita incerteza. Faltam propostas e abundam demagogias e radicalismos. Diante disso, não é de estranhar que muita gente esteja apreensiva com o que poderá vir das urnas. A incógnita envolve até mesmo questões básicas, sobre as quais não deveria haver nenhuma dúvida, como, por exemplo, o compromisso com a responsabilidade fiscal. Junto ao clima de incerteza, nota-se também outro tipo de atitude, que pode ser muito prejudicial ao País: a desesperança. Já não se trata da clássica e natural dúvida em relação ao resultado das eleições. Tem-se um estado de espírito coletivo do qual sobressai a certeza de que, sejam quais forem as escolhas do eleitorado, tudo continuará exatamente como está. Ou ainda pior. 

Uma atitude assim é extremamente perigosa para o País, pois na prática tende a eliminar a responsabilidade pessoal do cidadão pelo seu próprio futuro. Se tanto faz ganhar fulano ou beltrano, não faz sentido esforçar-se para conhecer os candidatos e suas propostas. Se, a despeito de quem for eleito, tudo continuará rigorosamente igual ou pior, não há motivo para uma participação política mais ativa. A desesperança conduz à passividade e à indiferença, atitudes que são fatais para a democracia, que é um regime de participação e compromisso.

O pessimismo, especificamente com a política, cresceu nos últimos anos. Além da profunda crise moral, social e econômica – o que sempre põe à prova a confiança do cidadão nas instituições e nos homens públicos –, houve uma incessante campanha de desmoralização da política e dos políticos, alimentada por abundantes casos de corrupção. Depois de certo momento, deixou de ser necessário avaliar a veracidade e as provas de cada um dos escândalos, pois havia sido decretada, em caráter irrevogável, a absoluta podridão do sistema político.

Se a política está completamente podre, para muitos o voto se torna irrelevante para a solução dos problemas nacionais, a ponto de um palhaço profissional eleger-se deputado federal, com recorde de votos, utilizando o mote: “Pior do que está não fica”.

Esse estado de espírito é pernicioso e precisa ser combatido. É falsa a ideia de que o voto será irrelevante para o futuro do País. Na verdade, se esse instrumento de afirmação da vontade popular, de soberania, não for usado com responsabilidade, as coisas pioram inexoravelmente. E, se o voto mal pensado e mal dado pode piorar a situação do País, eis a prova definitiva de que ele não é irrelevante. Está, pois, nas mãos do eleitor definir se o seu voto irá contribuir para a resolução dos problemas nacionais ou se afundará o País nas suas mazelas.

As eleições de outubro são uma grande oportunidade para o País. Não há dúvida da importância de eleger um presidente da República minimamente responsável e atento ao interesse público, que não seja refém do populismo e da demagogia. É igualmente decisivo para o País obter uma composição do Legislativo – Senado, Câmara e Assembleias estaduais – comprometida com a continuidade das reformas e com a estabilidade fiscal. Será no Congresso que as principais batalhas cívicas serão travadas.

Alguns, repetimos, veem com desalento a realidade política nacional. Se o jogo será definido no Congresso, estamos perdidos, pensam. Consolida-se a crença de que uma legislatura é sempre de pior qualidade que a anterior. Eis mais uma razão para, nas eleições de outubro, interromper esse ciclo. Melhorar a composição do Legislativo não é uma tarefa impossível – nem mesmo complicada. Basta verificar a escolha do candidato a ser sufragado. Na verdade, florescem, em todo o Brasil, diversos movimentos de renovação política comprometidos com a defesa das liberdades públicas. Vários deles têm franca conotação liberal-conservadora, que abrem ao eleitorado novas e promissoras perspectivas, muito diferentes das oferecidas pelo populismo demagógico.

Os brasileiros precisam restaurar a esperança em seu futuro. Vencer o pessimismo e a passividade, eis o desafio.

sábado, 16 de junho de 2018

Monopólio do petróleo: uma combinação de fanatismo ideológico com ignorância econômica.

A quem serve o monopólio?, questiona editorial da Gazeta do Povo. Eis a resposta:


A recente greve dos caminhoneiros, cujo impacto ainda será sentido por algum tempo, demonstrou potencial para criar colapso no sistema econômico e certo grau de pânico na população, em alguns casos com efeitos dramáticos – como a falta de oxigênio em hospitais, desabastecimento de alimentos, medicamentos e muitos outros produtos básicos. Essa crise serviu para expor uma velha ferida da cultura política nacional, ainda não compreendida por boa parte dos políticos e dos dirigentes: o perigo para a economia popular derivado da existência de monopólios de produtos essenciais e que não têm sucedâneos. Os monopólios dessa natureza têm a capacidade de encurralar a população.

Muitos acreditam que os monopólios estatais, por estarem sob o comando do governo, estão a salvo do poder ameaçador da “ganância capitalista”, tese que os brasileiros vivem provando ser equivocada. As muitas greves no sistema estatal – caso dos auditores da Receita Federal, funcionários dos Correios, médicos do INSS, controladores de voo e dos petroleiros no início do governo Fernando Henrique Cardoso – demonstraram que os serviços públicos e as empresas estatais estão submetidos ou podem ser protagonistas dos mesmos riscos e ameaças em comparação com qualquer empresa privada que forneça bens e serviços essenciais. Se o Brasil tivesse uma dezena de empresas produzindo o mesmo que a Petrobras e concorrendo entre si, dificilmente a crise dos caminhoneiros teria chegado ao ponto a que chegou. Mais ainda: a própria Petrobras não seria a única a receber toda a carga de problemas ligados ao mundo do petróleo e seus derivados.

A Petrobras é sozinha em seu segmento; embora tenha conquistado reconhecimento internacional em algumas áreas, como a prospecção em águas profundas, nunca teve de se preocupar com concorrentes eventualmente mais capazes nem se esforçar ao máximo para ser eficiente, austera e competitiva. Pelo contrário: a empresa tem um histórico de ser usada por partidos políticos – cujo mais grave exemplo é a pilhagem bilionária protagonizada pelo petismo e revelada pela Lava Jato –, de ser usada e prejudicada pelo governo para tentar combater a inflação (como foi o congelamento dos preços dos combustíveis no governo Dilma) e também de ser extremamente generosa com o fundo de pensão de seus empregados, cobrindo os déficits atuariais das aposentadorias – e, agora, até o fundo está em situação precária, resultado também do uso político dos recursos do Petros na época de Lula e Dilma.

O primeiro presidente militar após o golpe de 1964, Castello Branco, dizia que “se a Petrobras é eficiente, ela não precisa do monopólio; se é ineficiente, não o merece”, pois, embora fosse favorável à existência de uma empresa estatal de petróleo, ele não via motivos para lhe dar o monopólio e impedir que empresas privadas, nacionais ou estrangeiras, operassem no setor. O próprio presidente Getúlio Vargas, ao propor a criação da Petrobras, em 1951, não queria uma empresa monopolista, mas uma estatal sem monopólio. Foi o Congresso que emendou o projeto original e introduziu a cláusula monopolista. Foi um equívoco que muito prejudicou o Brasil, pois a liberdade de ingresso de outras empresas no setor teria submetido a Petrobras à competição – o que seria bom para a própria estatal –, forçaria a entrada de tecnologia estrangeira, promoveria o ingresso de capitais internacionais (de que o Brasil, sendo uma nação pobre e carente de investidores, precisava desesperadamente) e reduziria a dependência nacional do petróleo importado.

O monopólio do petróleo nasceu da combinação de fanatismo ideológico com ignorância econômica, sobretudo porque a implantação da indústria nacional, a partir dos anos 1940, revelou o quanto o Brasil era dependente de suprimentos externos, especialmente nos setores de aço, celulose, papel, químicos, máquinas e equipamentos. Sem a importação de insumos e produtos, principalmente dos Estados Unidos, a economia brasileira seria paralisada, razão por que era recomendável e necessário atrair os produtores estrangeiros para reduzir a dependência de importações. A dependência brasileira em relação a suprimentos externos e a enorme vulnerabilidade energética do Brasil eram situações que preocupavam o próprio governo dos Estados Unidos. A fórmula racional teria sido absorver investimentos e dividir riscos, que são imensos no setor, deixando os escassos capitais nacionais para atividades de menor risco e remuneração certa.

O monopólio manteve o Brasil atrasado na prospecção e retardou a conquista da autossuficiência. No primeiro choque do petróleo, em 1973, a Petrobras já tinha 22 anos e, mesmo assim, o país ainda importava 75% do petróleo consumido internamente. Tanta dependência fez que a disparada dos preços do barril no mercado internacional lançasse a economia brasileira numa grave crise de endividamento externo, recessão e desemprego. A autossuficiência veio somente 45 anos depois da criação da Petrobras, e a brutal dívida externa do Brasil formada a partir dos anos 70 foi, na verdade, uma petrodívida. Resta perguntar: a quem serve o monopólio?