sábado, 19 de setembro de 2020

Como a campanha supostamente antirracista de uma empresa fomenta a injustiça que ela diz combater


Com estardalhaço, a empresa anunciou que seu próximo programa de trainees só aceitará candidatos negros. Paulo Polzonoff Jr., no alvo:


Uma empresa de eletrodomésticos da qual todos provavelmente já fomos clientes, até porque se trata de um setor extremamente concentrado, resolveu entrar na luta antirracista com uma estratégia que algum publicitário, em sua sala climatizada e decorada com brinquedinhos dos anos 1980 na Faria Lima, achou “top”. Com estardalhaço, a empresa anunciou que seu próximo programa de trainees só aceitará candidatos negros.

A reação nas redes sociais foi imediata e o nome da empresa figurou no cobiçado trending topics do Twitter – a incrível bolha azul na qual todo mundo tem razão e todos são tão cheios de boa intenção que nem sei como tanta virtude cabe em 280 caracteres.

Não importa que parte da reação tenha sido negativa e que especialistas de todas as áreas tenham acusado a empresa de "racismo reverso" ou mesmo de ir flagrantemente contra a lei que proíbe processos seletivos que excluam candidatos com base na cor da pele. Citando equivocadamente o Oscar Wilde que ele nunca leu, é bem provável que o publicitário ge-ni-al que criou a estratégia de marketing esteja agora mesmo tatuando em letras góticas o lema “Falem mal, mas falem de mim”.

Verbo to be

Do outro lado da cidade, na Zona Leste, ou ainda do outro lado do país, no Acre, um menino que, apesar da origem abençoadamente miscigenada, teve o azar de nascer com a pele um pouco mais clara do que o aceitável pelo tribunal racial contemporâneo, leu a notícia com preocupação. Logo ele, coitado, que estuda com afinco o verbo to be a fim de ser aceito no programa de trainee de uma grande empresa de eletrodomésticos. O sonho dele, veja só, é entrar para o departamento de marketing da empresa. E, quem sabe, ser ciceroneado na balada paulistana justamente pelo publicitário da Faria Lima.

Para este menino cheio de sonhos, a vida nunca foi uma festa. Aos olhos de um tribunal racial inventado por um publicitário fã de Harry Potter, ele nasceu branco, mas isso não quer dizer que tenha sido privilegiado. O ensino que a escola pública lhe deu, por exemplo, sempre foi precário. Se ele escapou da armadilha do analfabetismo funcional foi graças ao esforço próprio e algumas palmadas da mãe – mas não conta para ninguém senão o Conselho Tutelar é capaz de ir atrás da velha.

Noite dessas, aliás, ele foi a uma “aglomeração clandestina” com seus amigos. Todo um caleidoscópio de peles. De repente, chegou um carro da polícia. Mão na parede, revista, aquela coisa. Negros, pardos e até o Milton, cujos olhos puxados não negam a origem, foram revistados. Ele, branco, também foi apalpado em lugares insólitos. E até um pouco humilhado. Mas deu de ombros e voltou para casa. No dia seguinte, tinha que estudar. Aprender de uma vez por todas esse tal de present perfect. Para entrar num desses programas de trainee bacanas tem que saber inglês.

Ao ver agora as portas se fecharem, contudo, o menino olha para o próprio braço e se amaldiçoa. Péssima época para nascer branco e pobre. Não bastasse o ônibus lotado, a escola caindo aos pedaços, a casa apertada, o dinheiro contado e os sonhos sempre limitados, agora mais essa. Ele, que é uma boa pessoa, temente a Deus e tudo, e que nunca se viu como branco, simplesmente porque esse é um detalhe que nunca fez diferença em sua vida, talvez encare os amigos de "aglomeração clandestina" com um olhar diferente a partir de agora.

Talvez olhe para o Geraldo, com uma pele meio tom mais escura do que a dele, e pense “Ah, se eu tivesse nascido com um pouquinho mais de melanina...” Talvez ele ceda ao pecado da inveja, quando não do ressentimento. Talvez ele se encare no espelho e deseje ter todos os fenótipos que atestem, para o publicitário da Faria Lima e para os executivos da empresa de eletrodomésticos, que ele também merece uma oportunidade.

Não por ser branco ou negro ou amarelo ou vermelho. Nem por ser pobre, rico ou remediado. Simplesmente por ser inteligente, esforçado e, por que não?, talentoso.

Paulo Coelho e a magia do boicote


Se todo mundo se comportar, Paulo Coelho pode desistir do boicote e fazer chover na Amazônia pra acabar com as queimadas. Guilherme Fiuza, via Oeste:


Paulo Coelho pediu ao mundo que não compre produtos brasileiros. A atitude do mago contrariou muita gente. Mas essa gente não sabe com quem está falando. Em se tratando de um mago, Paulo Coelho foi até modesto. Imagine se, em vez de usar o Twitter, ele tivesse usado a magia para sacanear o Brasil. Vocês estão reclamando de barriga cheia.

Se quisesse, num passe de mágica, Paulo Coelho jogava o seu país de origem na miséria, completando gloriosamente a obra de Lula, seu líder predileto. E vocês aí se irritando por causa de um post contra produtos brasileiros…

Vocês não sabem do que um mago é capaz. Não têm ideia do que seja o poder da magia. Paulo Coelho poderia estar matando, poderia estar roubando e poderia estar transformando o Brasil em abóbora (bichada). Mas está só pedindo um boicote mundial aos produtos brasileiros. Parem de reclamar e agradeçam ao mago por sua humildade e comedimento. Se vocês continuarem perturbando, da próxima vez ele usa seus poderes plenos e aí vocês vão ver o que é bom pra tosse.

Falar em tosse, no meio da polêmica pouca gente percebeu o feitiço lançado pelo mago contra o coronavírus. É o mal da modernidade: fala-se muito e presta-se pouca atenção às coisas boas. Aos que passaram batido, aqui vai a explicação: se tudo der certo e o boicote proposto pelo Paulo Coelho for um sucesso mundial, ninguém mais compra nada daqui, os brasileiros morrem de fome e não precisarão mais se preocupar com a covid.

E aí? Quem vai agradecer ao mago por ter tirado o Brasil do mapa da pandemia? Ninguém. Povo ingrato, só pensa em reclamar.

Paulo Coelho declarou que é preciso salvar os brasileiros do talibanismo cristão. Você nem notou essa sombra engolindo a sua alma porque é um distraído. Mas da mansão do mago na Suíça dá pra ver tudo, absolutamente tudo — no plano físico e no astral. E não adianta miliciano talibã querer sair por aí barbarizando que ele comanda de lá: fique em casa! Estátua! Mandrake! Perdeu, playboy!

Fim de papo. É muita ingenuidade achar que esses fascistas que não têm onde cair mortos seriam páreo pra um alquimista trabalhado nos Alpes suíços. Só na residência oficial do alquimista caberia um punhado de famílias desses pés-rapados brasileiros que não obedecem lockdown. Eles tinham que passar uma temporada na mansão do mago pra entender, de uma vez por todas, como é bom ficar em casa. Mas essa gente não entende nada. Só boicotando, mesmo.

Tem gente que não entende também por que o Paulo Coelho não pediu ao mundo que boicotasse o Brasil quando o PT estava depenando a nação — na época de ouro do talibanismo bandoleiro. Nunca é demais repetir: essa gente não entende nada. E não compreende que naquela época era diferente. Não tinha problema nenhum roubar, se o ladrão tivesse habeas corpus moral concedido por subcelebridades associadas à lenda do Robin Hood de auditório. Todos eram felizes e altruístas da porta para dentro do clube. O resto é inveja.

Está mais do que na hora de parar com essa balbúrdia do lado de fora. Nem dá pra ouvir direito as laives chiquérrimas com essa gente mal-educada andando por aí sabe-se lá por quê, se basta um touch pra estar tudo na sua mão. É muita falta de magia.

Mas, se todo mundo se comportar direitinho, começar a falar mais baixo e parar de andar por aí sem necessidade, o Paulo Coelho pode até desistir do boicote e fazer chover na Amazônia pra acabar com as queimadas. A esperança dos brasileiros é o mago.

O genocídio que os empáticos não viram


Essa intelectualidade burguesa metida a progressista, que sanciona candidatura presidencial de suplente de presidiário, nunca gritou contra a devastação chavista. Coluna de Guilherme Fiuza para a Gazeta:


A ONU reconheceu os crimes contra a humanidade da ditadura venezuelana. É um reconhecimento marcado pela agilidade, tendo levado apenas uns dez anos para captar as atrocidades do chavismo fantasiado de democracia progressista. Uma década não é nada para quem não estava sendo escalpelado por Hugo Chávez e Nicolás Maduro na fila do papel higiênico.

O regime sanguinário que começou a ser implantado na Venezuela na virada do século talvez seja o que mais teve o apoio de gente boazinha na história da humanidade. Hollywood achava Hugo Chávez uma graça e personalidades como Oliver Stone e Sean Pen foram lá beijar a mão dele. Isso foi uma maravilha para que esses bandidos gente boa pudessem arrebentar com o povo venezuelano em paz, sem nenhum enxerido para atrapalhar.

O Papa Francisco assumiu seu cargo praticamente junto com Nicolás Maduro – com a renúncia de Bento XVI e a morte de Hugo Chávez, em 2013. O máximo que Francisco fez nesse percurso, além de abençoar Maduro, foi pedir à oposição venezuelana que se esforçasse pelo entendimento nacional. Um pedido providencial de esforço diplomático aos trucidados.

Recentemente, com a devastação ditatorial consumada – a ponto de o povo venezuelano começar a fugir em massa do seu país – o Papa disse que Maduro não cumpriu o combinado. Esses assassinos são muito desobedientes mesmo, não dá para combinar nada direito com eles.

Depois de enterrar dinheiro roubado do contribuinte brasileiro na ditadura chavista (com apoio de parte da elite esclarecida daqui) e de ser tirado da prisão por seus parças do STF, Lula foi recebido pelo Papa Francisco no Vaticano para uma “reunião contra a fome”. Francisco e Lula estavam sorridentes na foto. O povo massacrado da Venezuela certamente não sorriu com eles. E a ONU estava ocupada escalando Michelle Bachelet para espalhar que o Brasil estava caindo na ditadura. Cada um na sua.

Essa sofisticada orquestra do silêncio protetor à ditadura sanguinária de Maduro contou, é claro, com todos os tenores da resistência de auditório brasileira. Essa intelectualidade burguesa metida a progressista, que sanciona candidatura presidencial de suplente de presidiário, nunca gritou contra a devastação chavista. Todos os hipócritas com suas tinturas petistas, psolistas e outros meios-tons de disfarce humanitário contribuíram com sua distração calculada para que o pupilo boçal de Hugo Chávez pudesse manter sua fachada de revolucionário contra a opressão yankee.

Agora a Organização das Nações Unidas vem reconhecer que esse regime e seus líderes perpetraram crimes contra a humanidade. Olhe em volta e procure a indignação dos humanistas brasileiros que passam 24 horas alertando para o perigo da ditadura. Você não vai encontrar nada. Eles estão ocupados no zoom, patrulhando quem vai à praia.

O labirinto boliviano tem uma saída


A saída do labirinto boliviano pode ser uma união da oposição iniciada por Jeanine. Resta apenas um mês para uma reengenharia das forças. Luciano Coutinho para a Gazeta do Povo


A presidente interina da Bolívia desistiu de disputar a eleição presidencial de 18 de outubro. Jeanine Añez divulgou um video no qual justifica sua decisão. Deixava de lado a candidatura para cuidar da democracia. Foi exatamente o que ela disse. A então senadora, que assumiu a presidência depois que Evo Morales fugiu do país e da crise institucional que ele e seu partido criaram depois da descoberta de fraudes na eleição de 2019, havia recebido exatamente o papel de guardiã da combalida democracia boliviana. O mundo democrático esperava apenas uma coisa de Jeanine: uma transição democrática. Como condutora do processo, Jeanine descartou que se candidataria ao cargo que ocupava interinamente. Uma decisão certeira em um país convulsionado por Morales e sua base cocaleira.

Mas ela mudou de ideia. Lançou-se candidata e passou a ter como seus principais críticos aqueles que deveriam ser seus aliados. Repetindo o manual da oposição venezuelana, que vive aos tapas, os bolivianos partiram para a briga. Luiz Fernando Camacho, o herói dos protestos que agitaram o país, foi carbonizado pelos opositores concorrentes que apenas deixaram o novato falar livremente para revelar suas debilidades.

Carlos Mesa, que sem a fraude da eleição do ano passado teria ido ao segundo turno contra Evo, não abriu mão do que ele considera ser um direito: ser o candidato da oposição. Tudo levava a crer que contra os cocaleiros de Evo Morales a oposição precisaria costurar uma aliança entre a dupla Mesa-Camacho – embora fosse improvável uma chapa que os unisse.

Com Jeanine Añez querendo ficar mais cinco anos no poder, a oposição entrou em guerra. Outro ex-presidente, Jorge Tutu Quiroga, entrou na batalha pela Casa Grande do Povo, a sede do governo boliviano.

Com tanto opositor querendo o poder, coube a Evo Morales ativar a máquina de propaganda dentro e fora da Bolívia para reforçar sua mensagem de vitimismo e apontar um laranja para representá-lo na eleição. Ficou fácil.

Com tanto opositor brigando entre si, Luis Alberto Arce Catacora, que serviu a Morales como ministro, lidera as pesquisas. Jeanine, sem chances de chegar ao segundo turno, amargava a terceira posição, com sete pontos a menos que o segundo colocado, Carlos Mesa. Ficou fácil para ela desistir da campanha.

Em seu vídeo, ela envia a mensagem equivocada de que seu movimento serve para impedir que o MAS, partido de Evo Morales, vença. Uma bobagem que só dá tamanho àquele que enterrou o país na crise institucional, tornou a economia ainda mais dependente da cocaína e fraudou as eleições.

O gesto correto de Jeanine tem outro efeito que, infelizmente, os demais candidatos opositores colocaram em segundo plano. O sistema eleitoral boliviano, assim como o português e o espanhol, organiza-se pelo método desenvolvido no século XIX pelo belga Victor D'Hondt: o partido que recebe mais votos no primeiro turno leva o maior número de cadeiras no Parlamento.

Ainda que o MAS provavelmente não vença as eleições no segundo turno, o fato de toda a oposição ao movimento socialista-cocaleiro estar dividida indica que o partido de Evo Morales provavelmente terá a maioria dos deputados e senadores. Antes da renúncia de Jeanine, algumas projeções apontavam para até metade das cadeiras nas mãos do grupo comandado por Morales, o que faria da vida do futuro presidente algo verdadeiramente infernal.

Por mais que tenha sido justificada de maneira equivocada e tenha ocorrido tão tardiamente, a inflexão da presidente interina terá um efeito positivo na composição do Parlamento, o que ajudará o novo presidente a sofrer menos pressão dos parlamentares fiéis a Morales.

A saída do labirinto boliviano pode ser uma união da oposição iniciada por Jeanine. Resta apenas um mês para uma reengenharia das forças. Com base nas pesquisas, Mesa sabe que ele é o único com chances. Tuto e Camacho terão que se enquadrar. Mas depois de tanto escracho em praça pública, vai ser curioso ver como eles vão curar as suas feridas e como vão montar (ou não) uma colisão para chegar ao governo com a melhor configuração possível.

Derrotado, Evo Morales seguirá tentando tocar fogo na Bolívia. Sabe que quanto pior por lá, melhor para ele. A crise econômica boliviana tem contornos assombrosos, e a Covid-19 não dá sinais de arrefecimento. De sua toca na Argentina, onde se escondeu para não responder por crimes que vão de estupro a terrorismo, Morales sabe que o próximo presidente terá muitas chances de fracassar. E ele fará tudo para seja assim.

Com a Bolívia em frangalhos, Evo Morales e seu bando vão reaparecer como solução. Uma receita clássica latino-americana.

Cartas da Malásia: a viagem a Balbec.


Crônica do diplomata Ary Quintella, publicada pelo Estado da Arte:


E assim, em setembro, nadei no Mar do Sul da China. Vi, senti, bebi sem querer um pouco da água do mar mais celebrado na atualidade, um dos cenários da rivalidade entre China e Estados Unidos, objeto de desavenças entre a China e alguns de seus vizinhos no Sudeste asiático.

Ir à costa leste da Malásia era algo que eu planejara fazer com minha mulher e minha filha. O prolongado fechamento das fronteiras, tornando impossível que eu veja as duas, e a próxima chegada, em outubro, das monções na parte oriental do país, com o consequente fechamento de vários hotéis, fez com que eu me inclinasse a viajar. Ao ler declaração do governo de que a fronteira com Singapura, onde trabalha minha mulher, provavelmente não reabrirá antes de janeiro, decidi-me. Não sem antes mencionar a uma amiga portuguesa em Kuala Lumpur, Patrícia, estar reticente em passar dias sem minha família em uma praia, por temor ao tédio. Respondeu-me ela: “Nesses resorts asiáticos, não se sente o tempo passar. O Ary verá. Quando perceber, já está na hora de voltar”. Convencido, tirei uns dias de férias e fui ao estado de Terengganu.

Já no dia da minha chegada ao hotel na costa leste, depois de quatro horas no carro, vi programada uma excursão em bicicleta, com guia. Almocei, admirei o famoso mar — em tom azul-prateado, no mormaço daquele dia — nadei, li na areia e às cinco horas estava pronto na recepção. Além de mim, havia no passeio apenas uma família de quatro pessoas, malásios de origem chinesa.


Depois de pedalar por uns poucos minutos pela estrada, tomamos um caminho secundário, estreito, costeando o oceano. Entre nós e a água havia uma cortina natural, formada por casuarinas. Tive a sensação de uma liberdade plena. Preocupações pessoais e de trabalho desapareceram.

Depois de uma meia-hora de bicicleta, paramos para ver o plácido rio Dungun se espraiando oceano adentro, quase que sem movimento algum. Uns quinze minutos mais, por campos e bosques, levaram-nos à aldeia, bastante esparramada, de Seberang Pintasan. Paramos em um café popular onde, na varanda, sentamo-nos os seis em volta de uma mesa para comer um roti chenai, o pão achatado e folhado acompanhado de curry de frango ou de peixe e, às vezes, como era o caso em Seberang Pintasan, de dal.

Nosso guia, Hafiez, dissera ser esse o melhor roti chenai da região, mas dois dias depois, no café da manhã no hotel, comi um ainda melhor. No café de Seberang Pintasan, o curry era de peixe, uma novidade para mim. A originalidade maior era estarmos os seis conversando no entardecer, em uma aldeia de pescadores em Terengganu, testemunhando a preparação de nossos pratos de roti chenai ali mesmo, na varanda, em um fogão meio improvisado, e vendo passar vacas pela ruazinha.


Hafiez comentou que, uma época, morou na ilha de Tenggol, visível, ao longe, da praia do hotel. Um dia, mergulhando, sentiu sobre si uma sombra. Pensando ser um barco, levantou os olhos e percebeu que se tratava na verdade de um tubarão-baleia, de uns sete ou oito metros. Essa é uma das atrações maiores de Tenggol, pois o tubarão-baleia, que se alimenta de plâncton e é na maioria das vezes inofensivo ao ser humano, parece gostar da companhia dos mergulhadores.

Fiquei me perguntando se eu gostaria de um dia confraternizar com um tubarão, mesmo vegetariano, e concluí que não. Mais tarde, no hotel, eu leria Lady in Waiting, autobiografia de Anne Glenconner, cujo subtítulo, comercialmente hábil, é: My Extraordinary Life in the Shadow of the Crown. O marido da autora, Colin Tennant, Lord Glenconner, celebrado em vida como excêntrico, mas revelado no livro de sua mulher como desequilibrado e perverso, um dia comprou a ilha caribenha de Mustique, desenvolvendo-a como lugar de diversão para milionários e, notoriamente, para a princesa Margaret. O casal é, por essa razão, personagem da terceira temporada de The Crown. Poucas horas depois de ter ouvido Hafiez falar com nostalgia de seu encontro com o tubarão-baleia em Tenggol, li sobre a visita da rainha Elizabeth II e do príncipe Philip a Mustique, em 1977: “the Duke of Edinburgh really enjoyed snorkelling among the sharks”.

No café popular em Seberang Pintasan, a família malásia de origem chinesa explicou-me que a classe média do país prefere passar férias no exterior, e que o já longo fechamento das fronteiras a obriga agora a fazer turismo interno. Dos cem quartos do hotel, disse Hafiez, setenta estavam tomados. No entanto, mesmo nos momentos mais ensolarados, nunca, além de mim, houve mais do que no máximo cinco ou seis pessoas na praia inteira. Já no primeiro dia, logo antes da excursão em bicicleta, eu mandara à minha filha uma foto da praia deserta, com a legenda: “O mundo acabou. Sobrei eu”.

Não havia tédio em ficar olhando aquele mar mítico, hoje simbólico das tensões da nossa era. Passava os dias vendo mudar a sua cor em função da luz — prata, azul ou verde, cada uma em diferentes tons. Em um final de tarde, além de mim houve por alguns minutos apenas um grupo de quatro ou cinco moças de origem chinesa, todas vestidas de branco, rindo e tirando fotos na areia. Pensei no narrador de Proust, no fim da adolescência, vendo pela primeira vez, na praia de Balbec, o grupo de cinco ou seis moças, entre as quais está Albertine. Talvez o poder maior de um grande artista seja a capacidade de fazer dos lugares mais improváveis evocações de sua obra.


As três noites em Terengganu acabaram virando quatro, porque eu estava tão feliz que prolonguei minha estada. Mesmo depois, pensei em adicionar ainda uma quinta, mas um comentário sutil de minha filha fez eu me sentir culpado em relação a Kiki, a gata persa dourada, que esperava em Kuala Lumpur o meu retorno.

No dia da partida, visitei, em uma ponta da praia, as três cabanas onde se desenvolve projeto de preservação de ninhos de tartarugas, de duas espécies diferentes. Em uma delas, dedicada à tartaruga-verde, os voluntários descobriram, escavando um dos ninhos dentro da areia, que muitos dos 140 ovos, do tamanho de uma bola de ping-pong, depositados por uma única mãe — “ela terá levado apenas uns quinze, vinte minutos para depositar esses 140 ovos”, disse-me o coordenador local do projeto — já haviam produzido filhotes. Eram encantadores. Foram recolocados dentro da areia, pois sua partida para o mar se daria apenas um ou dois dias depois. Subscrevi-me para financiar, por dois meses, um dos ninhos, a que atribuí o nome de minha filha.


Ver as tartaruguinhas recém-nascidas balançar as patas no ar, acotovelar-se no ninho, descobrir o mundo, inocentes, parecia a forma melhor, mais bonita, de me despedir de Terengganu. Sabia já então que eu guardaria em mim a imagem do passeio de bicicleta, ao longo do oceano e das casuarinas, longe de qualquer ponto de referência até então conhecido.


Antes de almoçar, arrumar a mala e partir, não resisti a mergulhar, uma vez mais, no Mar do Sul da China.

Ary Quintella, diplomata de carreira, é atualmente Embaixador na Malásia. Publica seus ensaios e crônicas na página aryquintella.com.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

As "presidenciais" para fazer monárquicos


Em 2021, teremos os senhores e as senhoras que se seguem. Se não se trata de uma conspiração da ala monárquica para enxovalhar a República, parece. A crônica semanal de Alberto Gonçalves no Observador:


Até agora, no actual regime, não houvera eleição presidencial sem pelo menos um candidato “plausível”. Durante 40 anos, tivemos Eanes. E depois Soares. E depois Cavaco (incluindo quando perdeu para o implausível Sampaio). E, em 2016, Marcelo (para os ingénuos ou optimistas terminais, entre os quais me incluo, que precoce e irresponsavelmente o acharam uma hipótese tolerável). Em 2021, teremos os senhores e as senhoras que se seguem. Se não se trata de uma conspiração da ala monárquica para enxovalhar a República, parece.

O estatuto dúbio da função presidencial costuma favorecer alguns exageros e extrapolações. Certo é que, por turva que fosse a serventia do cargo, era claro que o cargo não servia para: tirar fotografias com transeuntes; mudar de cuecas; mergulhar no mar; fingir que se salva banhistas; dizer convulsivamente que Portugal é “o melhor do mundo” no que calha, da astronomia ao desentupimento de fossas; sorrir imenso; proferir inanidades; condecorar toda a gente, incluindo o 7º classificado num torneio de macaca em Valladolid; abraçar pedintes e desinfectar-se de seguida; louvar a boa acção de um pedinte e enganar-se no pedinte; dar palestras sobre virologia; abraçar o rato Mickey num aeroporto; prestar vassalagem a Fidel Castro; submeter a rainha de Inglaterra a monólogos confrangedores; assistir a partidas de futebol; entrar nas “entrevistas rápidas” após uma partida de futebol; subscrever a posição do Governo em qualquer assunto que possa suscitar polémica; não emitir opinião sobre coisa nenhuma que realmente importe; em casos de facto graves pedir esclarecimentos cabais e rezar para que nada se esclareça; viver exclusivamente aflito com a própria popularidade, numa obsessão com o voto das pessoas e com total indiferença às respectivas vidas – e tudo isto na condição de as televisões filmarem.

Fora das televisões, o prof. Marcelo não existe. O prof. Marcelo não é um presidente. É um “entertainer”, para cúmulo sem particular talento para cantar e dançar (sim, também já assistimos a tentativas): os portugueses adoram “entertainers” coxos. Num mundo ideal, e noutro meio social, estaria a fazer furor em “reality-shows” alheios. Assim, transformou o mandato no “reality-show” dele. É complicado garantir que não terá comprometido a presidência para sempre, e que algum dia o cargo volte a merecer um vestígio de respeito e não este simulacro de camaradagem infantil.

O prof. Marcelo ainda não é candidato. Será candidato. E ganhará as eleições, não importa se à primeira se à segunda. E desempenhará novo mandato, que só não será pior do que o vigente porque pior é impossível. E não há impossíveis para o melhor presidente do mundo.

O dr. Ventura é o candidato contra a corrupção e à revelia do sistema. Excepto quando a corrupção não o contraria e o sistema está dentro dele, como por exemplo sucedeu com o episódio do dr. Costa e a comissão de “honra” do sr. Vieira. Para disfarçar as incongruências, e seduzir o eleitorado potencial, o dr. Ventura adopta dois métodos, ambos partilhados com a extrema-esquerda e, passe a redundância, com aqueles cultos que terminam em suicídio colectivo. O primeiro consiste em atribuir-se uma aura mística, género Cunhal, o guru de Jonestown ou, na versão infantário, o frade Louçã. O segundo método é a gradual radicalização do discurso. Lá para o meio da campanha o dr. Ventura estará a organizar bandos para perseguir pedófilos, ciganos ou ateus. No final, é provável que tente enforcar um – a menos que este seja do Benfica.

A dra. Ana Gomes é outra candidata contra a corrupção, embora tenha construído a carreira política no PS do “eng.” Sócrates, cuja honestidade afiançou até já não ser possível fazê-lo sem rir. Depois abraçou a “causa” da “moralização” enquanto se mantinha (e continuava a ser destacadamente eleita para Bruxelas) no partido dos drs. Costa, César, Ferro & Cia. Naturalmente, é difícil levá-la a sério, embora haja eleitores que a levam a sério. Os portugueses não se detêm à primeira dificuldade. Nem à vigésima.

Acho que não sonhei quando, há dias, vi um filmezinho em que Marisa Matias conversava com a viúva de Saramago sobre a necessidade de se dizer “presidenta”, o óbvio feminino de “presidento”. Certo é que a luta em prol do analfabetismo será, apesar de tudo, a menos ridícula da campanha da dra. Marisa. O currículo não engana: uma rapariga feminista que venera o islamismo, uma mulher íntegra que adora o sr. Lula, uma senhora democrata que encarna os princípios do Podemos. Em suma, uma colectânea dos transtornos emocionais do BE, salpicada pelas alusões recorrentes ao “medo”. A dra. Marisa passa a vida a dizer que o medo não pode vencer, que o medo venceu, que o medo perdeu, que o medo isto, que o medo aquilo. À cautela (nunca por medo), a dra. Marisa concorre às “presidenciais” sem devolver o emprego na União Europeia, aliás uma instituição que abomina com típica coerência. Do dr. Boaventura à “escritora” Inês Pedrosa, a lista de apoiantes “notáveis” da candidatura resume o carácter anedótico da mesma. Não tenhamos medo de rir.

João Ferreira, li na Wikipédia, é membro do Comité Central do PCP, é vereador da câmara de Lisboa pelo PCP, é deputado no Parlamento Europeu pelo PCP e é candidato a presidente da República pelo PCP. Ainda assim, tive de confirmar o nome do sujeito, dado não o conhecer de parte alguma. Noutras circunstâncias, a enxurrada de cargos, efectivos ou eventuais, talvez sugerisse excesso de ambição e escassez de tempo. Como o dr. (ou eng., ou o que quiserem, que a minha investigação não foi tão longe) Ferreira é do PCP, o número de cargos é irrelevante: em todos repete os mesmos chavões anacrónicos, nenhum saído da cabecinha dele. Na verdade, o prof. Ferreira podia ainda acumular os empregos de adido cultural na Zâmbia, delegado no Mercosul e vogal no condomínio sem qualquer impedimento. O lado chato é que, dado o recurso exclusivo aos chavões, qualquer um também podia ocupar os empregos dele. Nas “presidenciais”, é o candidato do PCP. Há sempre um, não interessa quem. O arq. Ferreira não interessa.

Há mais cinco ou seis candidatos. Não os conheço, o que já de si é uma vantagem face aos demais.

A ONU não é amiga das mulheres


Promover uma linguagem politicamente correta não ajudará as mulheres que vivem na pobreza. Ella Whelan, da Spiked, para a revista Oeste:


A Organização das Nações Unidas adora super-heróis. Em 2016, apontou a Mulher-Maravilha como “embaixadora honorária para o empoderamento de meninas e mulheres”. Na semana passada, o secretário-geral da ONU, António Guterres, desempenhou o papel de cavaleiro de armadura depois de vociferar contra os “milênios de patriarcado”.

Isso mesmo: a ONU está celebrando seu principal líder por destacar que vivemos em um “mundo dominado por homens com uma cultura dominada por homens”. Guterres é o nono homem a ocupar a função de secretário-geral da ONU; nunca houve uma mulher no cargo. Isso torna a condenação dele sobre a dominação masculina um pouco ridícula.

Faz um tempo que Guterres fala sobre igualdade de gênero. No começo de 2020, ele se gabou de ter conquistado a paridade de gêneros entre os cargos seniores na ONU e se comprometeu a estabelecer equilíbrio de gênero na instituição toda até 2028. Uau.

Essas tentativas feitas por “homens desconstruídos” de cair nas graças das feministas de rede social não são apenas constrangedoras; elas também podem ser perigosas. Ao aplaudir a ONU por ter um líder que sabe dizer todas as coisas certas sobre gênero em uma coletiva de imprensa, ou que consegue colocar o Dia Internacional da Mulher nos trending topics todo 8 de março, nós ignoramos o fato fundamental de que instituições como a ONU não têm interesse real em efetuar o tipo de mudança de que as mulheres precisam se forem realmente lutar contra a desigualdade.

Os comentários de Guterres condenando o patriarcado foram feitos durante uma reunião virtual com “representantes de mulheres da sociedade civil”. O foco principal era a ideia de que questões como o racismo, a discriminação contra pessoas com deficiência e um aumento de casos de gravidez na adolescência são provas de que os direitos das mulheres estão sendo “revertidos”.

Ainda existem países que são dominados por homens e que acreditam na subjugação de mulheres, então Guterres está certo em alguns sentidos. Mas seus comentários claramente não têm como objetivo específico os sexistas na Arábia Saudita nem os políticos contra o direito de escolha de abortar na Polônia. Não, a condenação preguiçosa e genérica do “patriarcado” na verdade é uma forma de tentar a sorte com várias sociedades, e com os homens em geral, enquanto as pessoas são pressionadas a tomar cuidado com sua linguagem e mudar seu comportamento.

Assim, no começo deste ano a ONU publicou uma série de orientações sobre como lutar contra a cultura dominada pelos homens que instrui os cidadãos globais sobre a maneira certa de falar uns com os outros sem ser machistas. “Obrigado às mulheres por tornar o ambiente mais belo” não é algo que você deveria dizer a mulheres, de acordo com as Nações Unidas. Pelo jeito, isso é sexista. Na versão em inglês do texto, em vez de “feito pelo homem”, deveríamos dizer “causado pela humanidade”. As orientações também fornecem uma “caixa de ferramentas” para os usuários e conselhos sobre dedicar “três horas de estudo” para aprender a não ofender a delicada sensibilidade feminina.

Guterres não é nenhum herói por exigir o fim da “dominação masculina”. Condenar o patriarcado é tão perigoso quanto leite morno hoje em dia. É praticamente obrigatório para figuras públicas. O feminismo se tornou tão mainstream que se espera que os líderes de instituições globais não democráticas sejam aplaudidos por mulheres que vivem na pobreza por tuitar sobre o machismo global.

A verdade é que a ONU provou, repetidas vezes, não fazer ideia do que as mulheres de fato querem e precisam para melhorar sua qualidade de vida. Durante a pandemia da covid-19, a instituição postou uma série de tuítes sobre amamentação, lembrando às mães que não desistissem de dar o peito mesmo que estivessem suando de febre por causa da doença.

Mas talvez a ideia mais irritante impulsionada por Guterres e seus fãs seja a de que as mulheres se sentiriam muito melhor se houvesse um pouco de batom nos cargos de liderança. A ideia de que dirigentes mulheres — como Jacinda Ardern, Tsai Ing-Wen e Angela Merkel — fizeram um trabalho melhor durante a pandemia está muito difundida agora. Aparentemente, sua empatia, compaixão e processo de decisão baseado em evidências as tornam líderes melhores que os homens. Ninguém apontou outros fatores muito mais importantes nos países governados por essas mulheres, como os altos níveis de riqueza e o acesso a recursos de que essas nações gozam. Em vez disso, essas líderes são celebradas porque, pelo jeito, são mais legais. São menos “populistas”, preferem o consenso ao conflito etc.

As mulheres não precisam de líderes mais femininas e gentis — nós precisamos de uma mudança real, concreta. A pandemia da covid-19 exacerbou as desigualdades em países onde as mulheres ainda são tratadas como cidadãos de segunda classe. Ela também revelou problemas subjacentes, mesmo em países como o Reino Unido, onde as mulheres são basicamente tratadas de modo igualitário. As mães sofreram um golpe e tanto durante o lockdown e, com muita frequência, enfrentaram um aumento nas pressões relacionadas à educação dos filhos, ao trabalho doméstico e, claro, à vida profissional.

O acesso a certos tipos de serviço de saúde — incluindo o cuidado com o aborto e tratamentos de fertilidade — foi reduzido como resultado das medidas de lockdown. O isolamento dificultou muito a busca de ajuda por mulheres em relações abusivas. Trabalhadores da área de saúde e limpeza — na maioria, mulheres — estiveram na linha de frente desta pandemia com sua contribuição realmente heroica e, no entanto, ainda recebem péssima remuneração.

As mulheres precisam de uma mudança, não de palavras vazias vindas de homens que tuítam sobre o patriarcado no conforto de suas instituições oligárquicas. Se vamos exigir a liberdade das mulheres no “novo normal” que agora habitamos, então vamos parar de falar sobre ideias fictícias como heróis e o patriarcado vilanizado, e começar a empoderar as mulheres para exigir mais qualidade de vida.

Ella Whelan é colunista da Spiked e autora de What Women Want: Fun, Freedom and an End to Feminism.

D. Quixote de toga


Percival Puggina, sobre os derradeiros passos do decano do STF, Celso de Mello:


Não há como observar os derradeiros movimentos do ministro Celso de Mello desde sua cadeira no Supremo Tribunal Federal sem evocar o Cavaleiro da Triste Figura, apelido com que Sancho Pança definiu seu líder e senhor, D. Quixote de La Mancha, em combate sem trégua aos exércitos de Alifanfarrão.

O ministro assistiu ao vídeo de certa reunião do ministério e julgou ver campos de concentração, experiências genéticas, sangrentas ditaduras e conspirações articuladas na misteriosa língua de bruxaria da Escola de Hogwarts, que ele provavelmente aprendeu de Harry Potter. Começou ali e não parou mais. Pacíficas manifestações de rua eram ações da Schutzstaffel (tropa paramilitar de proteção a Hitler); a Polícia Federal, a própria Gestapo... O ministro, coração cívico em chamas, vestiu a couraça de D. Quixote, brandiu a caneta como se fosse uma lança das antigas liças medievais e avançou. A cada dia, sua estocada.

Simetricamente, começava ali, também, sua retirada de cena no Poder Judiciário brasileiro, onde entrou ainda jovem pelas mãos de seu amigo José Ribamar, da nobre estirpe maranhense dos Sarney, que recebera a presidência da República por herança na morte do titular Tancredo Neves, de cuja chapa figurava como vice-presidente.

Tudo indica que o ápice de deslumbramento para os derradeiros embates veio, mesmo, da reunião ministerial do dia 22 de abril. Ali, à semelhança do fidalgo espanhol, quis o ministro que todos vissem o que ele vira, do modo como vira e iniciassem uma guerra sem tréguas. Desde então, enquanto o apoio popular ao presidente andava no sentido oposto e crescia na bolsa política, subia de tom a indignação do ministro. Diante dele, envoltos em togas e disponíveis ao loquaz fidalgo, dito decano, dez versões togadas de Sancho Pança eram instadas a salvar a humanidade e a vida no planeta das ameaças representadas pelas perigosas hostes de Alifanfarrão.

O capítulo se encerrará numa noite de novembro, ante algum ignoto seguidor que, entre bocejos, implorará por silêncio ao arrojado amo, pois sua eloquência se perde na praça entre pirilampos que prenunciam o verão.

A guerra do TikTok e a menina que já faturou US$ 4 milhões com ele


Donald Trump vai mesmo fechar o aplicativo de vídeos onde Charli Damelio, de 16 anos, estourou como a mais vista - e agora foi para a concorrência. Vilma Gryzinski:


“Se vocês votarem em mim, poderão manter seu tickety-tock”, diz o Joe Biden fictício, uma paródia – não poderia ser outra coisa – do TikTok.

Mas, por enquanto, está difícil a vida dos adeptos do aplicativo de vídeo que fez um estrondoso sucesso mundial.

Donald Trump prometeu e está cumprindo: a partir de domingo, a coisa vai começar a “degradar” até ficar inacessível, em novembro.

Isso se a ByteDance, a empresa chinesa que é dona do aplicativo, não chegar a um acordo com a Oracle, passando o armazenamento de dados e a vigilância sobre seu sigilo para operadores americanos.

O motivo é conhecido. O aplicativo de danças, dublagens e outras besteirinhas de adolescentes pode funcionar como um “aspirador” de informações.

Pais que compartilham o Wi-Fi com os filhos, inclusive os que ocupam posições estratégicas em órgãos de Estado, estariam ao alcance desse aspirador que transforma o inocente aplicativo num poderoso instrumento de espionagem.

A proibição de Trump alcança também o WeChat, o aplicativo de mensagens e jogos da Tencent, a gigante chinesa de tecnologia.

A proibição anunciada por Trump não foi o único golpe sofrido pelo aplicativo chinês, um sucesso impressionante que incomoda não apenas agentes de Estado, pelo potencial de espionagem, como os quase monopólios americanos.

Semanalmente, 53,5 milhões de americanos usam o TikTok, que cresceu 75% este ano e tem 33 vezes mais usuários do que o competidor mais próximo.

E foi da competição que partiu o outro golpe. Charli Damelio, a menina de 16 anos que alcançou 87 milhões de seguidores no TikTok, assinou um contrato com a Triller, aplicativo que usa Inteligência Artificial para editar os vídeos.

Charli não deixará de criar conteúdo para o TikTok, mas a “traição” pesa, principalmente nesse momento de alto risco.

O acordo com a Triller abrange a família toda: a irmã mais velha Dixie, que tem 34 milhões de seguidores; o pai, Marc, agora dedicado a administrar os negócios da marca Damelio (e seus 7 milhões de seguidores), e a mãe, Heidi, que tem “apenas” 5,6 milhões de pessoas interessadas no que faz e posta.

Charli começou com vídeos de dança – ela participa de competições em grupo desde criança. Trouxe Dixie e o resto da família.

Além das coreografias profissionais, ela faz confidências, testes de produtos e outras atividades de adolescente. Parece que nasceu para a coisa.

Cada vídeo dela rende em média 25 mil dólares. Sua fortuna atual é avaliada em 4 milhões de dólares.

As duas irmãs de cabelos negros e lustrosos evocam, obrigatoriamente, comparações com as Kardashian.

O reality show que fez a fama das Kardashian está encerrando atividades e o da família Damelio talvez esteja começando.

É como se fosse o fim de uma era. Sem os artifícios exagerados de maquiagem, figurino e poses sensuais, pelo menos por enquanto, as meninas Damelio são o futuro.

E seja quem for o dono do aplicativo ou qual o meio que escolham, com ou sem “cavalo de Tróia” insuflando a espionagem chinesa, o dinheiro vai continuar a jorrar.

E-stônia: um país na nuvem.


O que podemos aprender com a Estônia, o país que se livrou do comunismo para tornar-se uma república digital. Dagomir Marquezi para a Oeste:


Segundo dados de 2019 divulgados pelo Banco Mundial, a Nova Zelândia é o país com a maior facilidade para fazer negócios. Os Estados Unidos estão em sexto lugar nesse ranking. A Rússia em 28º, a China em 31º. E o Brasil? Em 124º.

Nossa voraz máquina estatal oferece a quem quer investir aqui mais dificuldades do que países como Ruanda, Mongólia, Botswana, Paquistão e Egito. Até os palestinos da Faixa de Gaza enfrentam menos burocracia que nós. Segundo a organização Endeavor, uma empresa demora em média 117 dias para ser aberta no Brasil. A média mundial é 79,5 dias. Na Estônia, você abre sua firma em três. Horas.

Sim, você. E eu. Qualquer pessoa no mundo pode abrir uma empresa na Estônia. Para facilitar isso, foi criado o conceito de e-residence. Algo como “residência eletrônica”. (Que não deve ser confundida com cidadania.)

É difícil ser um e-residente na Estônia? Siga os seguintes passos: 1) tire cópias de seu RG, uma foto tipo passaporte, e preencha um questionário on-line. 2) Pague uma taxa de 100 euros com o cartão de crédito. 3) Espere entre seis e oito semanas até receber um e-mail do governo estoniano dizendo se foi aprovado ou não; 4) Se foi aprovado, você é convidado a comparecer a uma representação diplomática do país para deixar impressões digitais e apanhar sua carteirinha de e-Resident. Parabéns. Agora você pode abrir sua empresa em plena União Europeia e expandir seu negócio, participando de uma rede de e-residentes que soma 70 mil pessoas de 170 países. E pode administrar essa empresa de onde você quiser.

(A grande dificuldade para eventuais candidatos brasileiros é que não existe nenhum posto de entrega do kit de e-Resident em toda a América Latina. O posto mais próximo por enquanto é o de Nova York.)

Os estonianos viveram a maior parte de sua história dominados por estrangeiros — alemães, poloneses, suecos, dinamarqueses e russos. Em 1940, a Estônia foi anexada juntamente com seus vizinhos bálticos (Letônia e Lituânia) pela antiga União Soviética, numa negociata entre Josef Stalin e Adolf Hitler (que tomou a Polônia). Passou 51 anos sob o domínio de Moscou. Em 1991, a União Soviética deixou de existir e a Estônia voltou a ser independente. Adotou uma política clara e decidida de livre mercado e privatizações. Em 2004, passou a fazer parte da aliança militar Otan e da União Europeia.

Essa adesão às alianças ocidentais e ao mundo capitalista exigiu muita coragem — e coragem nunca faltou aos estonianos. O país tem 294 quilômetros de fronteira com a Rússia. Um quarto de sua população é composta de russos. Em 2007, essa nova Estônia viveu sua maior crise por causa de um devastador ataque de hackers que paralisou o país e o isolou do resto do mundo. O governo da Estônia acusou diretamente o Kremlin pelo ataque. O presidente russo Vladimir Putin negou qualquer envolvimento.

Felizmente o processo de digitalização do país ainda estava bem no começo. Em vez de se sentirem atemorizados pelo ataque de hackers, os estonianos decidiram jogar na ofensiva das novas tecnologias. E se transformaram rapidamente na primeira república digital do mundo. Daí o apelido: “E-stônia”.

O ataque só incentivou o fortalecimento de suas defesas. A Otan instalou no país um centro de excelência contra ataques cibernéticos. Todos os dados coletados passaram a ganhar um backup num servidor localizado em Luxemburgo. Se ocorrer outra invasão russa (que seria a sexta desde o século 11), essa rede reserva se transformará numa espécie de governo virtual no exílio.

A Estônia é um país pequeno, pouco menor que o Estado do Espírito Santo, com 1,3 milhão de habitantes. As Forças Armadas em tempo de paz somam apenas 6 mil soldados. Sua maior defesa está sendo envolver nos negócios locais gente do resto do mundo, mesmo que remotamente, por meio da e-residência. Criaram um país digitalizado como nenhum outro: 99,6% das transações bancárias são realizadas eletronicamente. As escolas estabelecem a tecnologia como prioridade desde o ensino básico.

No país, 98% da população possui uma identidade digital única. Ela é usada em praticamente toda a vida de um cidadão estoniano, do nascimento à morte. Serve para segurança, transporte, educação, emprego, residência, vida bancária, conta de celular, eleições e imposto de renda. Todos os dados de cada habitante são centralizados numa plataforma virtual chamada X-Road.

A Estônia tem um forte caso de amor com a tecnologia digital — lá foi inventado, por exemplo, o Skype. Mas não é uma nação high-tech. Sua capital preserva a arquitetura medieval. Um empresário local, do ramo de casas pré-fabricadas, definiu bem o modo de vida dos estonianos: “Somos um povo introvertido. Não queremos ninguém por perto”. Como metade do território é ocupada por florestas, essa nova geração de empresários se instala em pontos isolados perto das árvores, onde podem trabalhar ultraconectados, mas a distância.

Pela lei, os estonianos só precisam estar fisicamente presentes em três ocasiões: no casamento, no divórcio e na compra de propriedade. O resto é tudo feito por meio de computador e aplicativos de celular. Calcula-se que dessa forma o sistema economize nada menos que 844 anos de trabalho “analógico” e 2% do PIB a cada ano que passa. Com a digitalização, tudo se tornou extremamente ágil, racional e barato.

A identidade digital oferece mais de 4 mil serviços a cada usuário. Um bom exemplo de como funciona está no sistema de saúde do país. Cada cidadão da Estônia tem todos os dados referentes a sua condição física e mental registrados num aplicativo chamado e-Ambulance: consultas, médicos, remédios que toma, medições de pressão e peso, radiografias, exames, vacinas, doenças crônicas, alergias etc. Consultas presenciais são evitadas desde 2011. O fluxo contínuo de dados sobre a condição de uma pessoa permite o monitoramento remoto de sua saúde.

Esse sistema foi posto em teste na crise da covid-19. A princípio, o país sofreu com a pandemia como todo o mundo. A diferença foi a eficiência e a agilidade na resposta à crise. Segundo depoimento do professor Erkii Karo, da Universidade de Tecnologia de Tallinn, à revista Wired, “uma vez que a crise começou, em poucas semanas criou-se uma plataforma específica em que todos os profissionais de saúde e locais de teste adicionavam dados”. Essa plataforma gerava cinco atualizações da situação por dia, permitindo a tomada de decisões detalhadas sobre a pandemia — e não apenas a exigência do generalizado “fique em casa”.

À primeira vista, o X-Road pode parecer um exemplo de controle social no estilo Big Brother. Não é o caso. “Os estonianos levam a privacidade muito a sério”, escreveu a consultora para transformação digital Anett Numa. “Para construir confiança, a Estônia usa transparência, assinaturas digitais e mensagens pessoais criptografadas. Mas quem é o dono real dos dados recolhidos pelas instituições governamentais? São os próprios cidadãos.” Tornou-se exemplar o caso de um policial que se serviu do sistema para vasculhar o prontuário de sua futura esposa. Ele foi apanhado rapidamente e punido com multa. Provavelmente perdeu a noiva também.

Um dos comandantes desse vasto complexo digital é um rapaz de 29 anos chamado Ott Velsberg. “Nós queremos que o governo seja o mais esbelto possível”, declarou Velsberg. Para isso, estão usando os recursos da inteligência artificial. Subsídios para fazendeiros manterem suas áreas de preservação são definidos pela análise de imagens de satélite, e não por burocratas sujeitos a corrupção. Aplicativos encaminham os desempregados para possíveis novos postos de trabalho. Cada criança que nasce é automaticamente registrada numa escola local para não precisar disputar vaga mais tarde.

O projeto mais ambicioso do governo na área de inteligência artificial é capaz de provocar pesadelos no cabidão de empregos de luxo do sistema judiciário brasileiro. Segundo a revista Wired, o Ministério da Justiça da Estônia pediu a Ott Velsberg que criasse um “juiz-robô”, capaz de resolver pequenas causas que envolvam valores abaixo de € 7 mil.

A equipe de Velsberg começou com um projeto-piloto focado em disputas contratuais. As duas partes mandam ao “juiz-robô” suas informações e documentos, acusações e defesas. O programa analisa os dados e dá o veredicto. Se uma das partes não o aceitar, pode haver apelação — e o caso vai então para um juiz de carne e osso.

A solução para quase tudo está no celular, no tablet ou no computador. Todo cidadão da Estônia tem acesso a um portal chamado “eesti.ee”, que oferece resposta às questões mais básicas da vida de qualquer um — “Fiquei doente.” “Comecei uma família.” “Nasceu meu filho.” “Estou mudando de residência.” “Quero criar uma empresa.”

Kaspar Korjus, um dos diretores do programa de digitalização do país, revelou ao site TED os planos conceituais da república digital: “O objetivo é ter 10 milhões de e-residentes até 2025, quase oito vezes a população da Estônia”. O país quer criar uma “economia da confiança” para empresários de todo o mundo — “uma bem iluminada antítese à dark web, o inferno digital infestado de traficantes de armas e drogas, pedófilos e criminosos. Queremos ser a Suíça do mundo digital. A Estônia não só está sendo governada na nuvem. Está tentando ser um país na nuvem, uma comunidade do século 21 com pessoas distribuídas mais pela rede de serviços do que pela geografia”.

O Brasil poderá um dia se tornar uma república digital? Bem, o Brasil não é a Estônia. Nossa população é 161 vezes maior; nossa realidade, muito mais complexa. Mas temos uma população que se adapta bem a novas tecnologias, mesmo em seus estratos mais pobres. E a necessidade empurra o país para a frente. Manchete do Estadão no domingo dia 13 de setembro: “Com pandemia, digitalização nas empresas [brasileiras] avança cinco anos em cinco meses”. Claro que o aparelho estatal, refém de setores privilegiados, é muito mais lento que o setor privado. Mas também vai ter de mudar. E já está mudando.

A questão levantada pela Estônia não é somente tecnológica. Existe uma filosofia de vida nesse salto dos estonianos para o futuro. Livres do comunismo, recriaram o país para que fosse capaz de resolver os problemas da população da maneira mais prática possível. Simples assim.

Nas palavras do arquiteto-chefe do Departamento do Sistema de Informação do país, Andres Kütt: “A Estônia quer esmagar os focos de burocracia e distribuir o poder aos cidadãos de maneira que o governo chegue a eles ao invés de eles terem de ir ao governo”. O bem-humorado presidente Lennart Meri transmitiu o cargo para o sucessor em 2001 com a seguinte frase: “A Estônia agora é um país normal e tedioso”.

Nos países mais bem-sucedidos, a população mal sabe o nome dos governantes. Neles, os cidadãos são os astros, não o governo. A sociedade é dinâmica. O governo é um tédio.

A propósito, a atual presidente da Estônia é uma mulher de 50 anos chamada Kersti Kaljulaid. Kersti é “de esquerda” ou “de direita”? Ela é digital.

"Mignonnes" e o necessário debate sobre a sexualização infantil


Em pauta, a discussão sobre as responsabilidades dos pais, os limites para o que uma criança pode ou não fazer e o grau de exposição nas redes sociais. Artigo de Bruno Garschagen para a revista Oeste desta semana:


Há produtos culturais capazes de despertar tamanhas paixões que o objeto em si é convertido em questão acessória. A discussão passa a girar em torno daquilo que parece, das intenções do autor, não daquilo que é. O fenômeno internacional mais recente é o filme Mignonnes, disponível na Netflix.

Uso a palavra fenômeno para enfatizar aquilo que no verbete do Dicionário Houaiss é definido como a “apreensão ilusória de um objeto, captado pela sensibilidade ou também reconhecido de maneira irrefletida pela consciência imediata, ambas incapazes de alcançar intelectualmente a sua essência”. Essa apreensão ilusória é ainda mais grave quando se verifica que muitas reações contrárias ao filme foram expostas em redes sociais por pessoas que não o viram.

Parte da controvérsia, ou da idiotia consciente, foi provocada pela própria Netflix, que divulgou pôster e descrição que não condiziam com o conteúdo do filme. O material sugeria que o filme fazia apologia, e não uma crítica, da sexualização de meninas por meio da música e da dança. Quando a empresa decidiu se desculpar, Inês era morta e a querela já estava estabelecida. Mesmo a correção da descrição é incorreta. O filme não é a história de uma criança que “começa a se rebelar contra as tradições conservadoras da família e encontra o seu lugar em um grupo de dança da escola”.

Quem assistiu ao filme e ali encontrou o resumo da Netflix ou um endosso à sexualização infantil, incentivo à pedofilia et caterva tem sérios problemas psiquiátricos, está completamente dominado por ideologia política ou é desonesto. Padece do mesmo diagnóstico quem viu na história a defesa da liberdade infantil, do direito a ser criança e outras sandices. Não se trata de produto que abre margem a interpretações: conteúdo e mensagem são claramente críticos à vinculação entre criança e sexualização.

Mignonnes está longe de ser um grande filme, mas vale a pena ser visto. Como obra artística, tem o mérito de abordar com cuidado um assunto delicado. Mesmo nas cenas mais perturbadoras, evita o exibicionismo patético ou o panfletarismo tosco. Os personagens não são óbvios nem esquemáticos. E a atriz Fathia Youssouf está ótima no papel da protagonista Amy.

Filha de imigrantes muçulmanos do Senegal, Amy, de 11 anos, sofre o choque cultural ao conviver dentro de casa com os costumes e a religião da mãe e da tia-avó e, na escola, com crianças e adolescentes da periferia de Paris que são influenciados por uma cultura pop degradada. É por meio das redes sociais que crianças como ela têm acesso à música e à dança que celebram a sexualização. É a forma que ela encontra para fazer o que gosta (dançar) e se integrar ao grupo de dança das garotas populares da escola.

Ela, uma vez incorporada ao grupo, e suas colegas têm um entendimento precário a respeito do próprio corpo, de seu comportamento e do que suas atitudes provocam nos outros. Há nas personagens um misto de ingenuidade própria da idade, mas também de artimanha característica de criança quando quer algo ou quando é privada de algo. Numa das cenas, sem titubear e para se livrar da punição, uma delas ameaça denunciar como pedófilo o segurança de um local que invadiram. Nem toda inocência é inocente.

Amy, por exemplo, poderia ter sido retratada como “imigrante negra vítima da sociedade francesa” que se comporta de determinada maneira em razão de sua condição. Suas ações e reações estariam, portanto, justificadas. Não é dessa forma, porém, que a personagem é apresentada. Seu comportamento arredio, oscilante, agressivo, perturbado varia de acordo com as circunstâncias e ambientes, segue num crescente que assusta suas colegas até ela perceber, novamente, que é uma criança.

A própria ideia do que é ser criança provoca confusão na menina. Em casa, ela é ensinada que virou mulher porque teve a primeira menstruação. Isso também significa, de acordo com os costumes da família, estar pronta para se casar e constituir família. Na rua, na escola, na França, onde a cultura define a infância em razão da idade, ela “aprende” que, para ser mulher, deve imitar o comportamento de mulher que dança como quem transa. O enredo está longe de ser a história da menina que reage contra a família conservadora porque quer dançar com as colegas.

O caráter em formação de Amy encontra na negligência parcial da mãe, que vive seus dramas individuais e conjugais, o ambiente fertilizado para o desequilíbrio, para o furto, para a ilusão de que pode usar o próprio corpo e assim se tornar uma menina popular. Bem como para convencer o primo a deixar com ela o celular que dele havia furtado.

De todas as integrantes do grupo de dança, Amy se apresenta como a mais impetuosa e ambiciosa, a que está mais disposta a fazer o que for necessário para atingir seus objetivos. Nem que para isso seja preciso furtar o dinheiro da mãe. As agressões contra outras crianças, uma certa amoralidade e apatia no seio familiar, todos esses elementos integrados se expressam na personalidade labiríntica de Amy. Em determinado momento do filme, as parceiras de grupo percebem que ela fora longe demais e decidem se afastar.

Outro aspecto importante: todas as vezes em que as crianças cruzam os limites, são reprovadas por adultos e adolescentes. Caso o filme fosse sexualmente permissivo ou um panfleto político lacrador, os personagens se aproveitariam das meninas como meio de “denunciar a sociedade corrupta”. Em nenhum momento isso acontece.

Pelas entrevistas e artigo que li da diretora Maïmouna Doucouré, seu propósito era estabelecer um debate sobre a sexualização infantil. Mignonnes, de fato, poderia suscitar esse debate necessário. Mas esse debate necessário deveria ser sobre as responsabilidades dos pais, sobre os limites para o que uma criança pode ou não fazer, e o grau de exposição em apresentações públicas e nas redes sociais de alguém que não tem maturidade para tomar decisões. A discussão poderia extrapolar para a sexualização de mulheres crianças, adolescentes e adultas, principalmente, e não exclusivamente, em certo tipo de funk e de rap.

Outro debate necessário deveria ser a respeito da impossibilidade de acusar disso ou daquilo um filme que nem sequer foi visto e do erro de querer usar instituições estatais para institucionalizar a estupidez e a censura. Isso, obviamente, não é conservadorismo. É o casamento entre burrice e moralismo, a doença infantil de certo direitismo.

Teoria política da quarentena


Apesar dos danos que infligiu à sociedade, a quarentena reforçou estes regimes: ampliou os poderes do Estado e agravou a dependência das populações, agora ainda mais controladas e mais destituídas. Rui Ramos, via Observador:


Ontem, Portugal teve o pior dia de infecções desde 10 de Abril. Em Abril, estávamos fechados em casa. Agora, pedem-nos para irmos à escola, embora de máscara. Que vão fazer se o número de infecções continuar a subir? Não sabemos, mas podemos desconfiar de uma coisa: não vão fazer como em Março, quando fecharam tudo. Que mudou desde então? Dizem-nos que, apesar da escalada da epidemia, há menos mortos, que os infectados são agora gente resiliente, que o mundo, afinal, não vai acabar. Mas há outra razão.

Entre Março e Maio, perante o novo coronavírus, os governos reagiram com uma quarentena medieval. Em sociedades como as de hoje, os danos decorrentes só poderiam ser tremendos: falências, desemprego, endividamento, privação de cuidados de saúde e falta de condições adequadas de aprendizagem escolar. As consequências só serão conhecidas daqui a uns anos. Entretanto, sabemos que o PIB português desceu, por um trimestre, ao nível de 1999, o que confere mais ou menos com o retrocesso civilizacional de 25 anos estimado por Bill Gates. É esta a razão por que, desta vez, não será como em Março, mesmo sem vacina: nenhuma sociedade aguentará outra passagem pelo inferno.

Ah, mas aplanou-se a curva das infecções na Primavera. Sim. Mas não teria havido outros meios? Imaginem, em Janeiro, governos que tivessem levado imediatamente a sério as notícias da epidemia na China. Imaginem, em Fevereiro, governos que tivessem imposto o uso generalizado de máscara de tipo cirúrgico, a desinfecção de mãos à entrada e saída de espaços públicos, e aconselhado ou imposto o distanciamento social. Imaginem, em Março, governos que tivessem percebido que a emergência estava nos lares de idosos, e tomado medidas enérgicas para garantir a sua segurança. Talvez tivesse sido possível dominar a curva e evitar mortes, sem privar tanta gente de rendimentos, de saúde, de educação e até de convívio humano, como muitos idosos e internados. Dir-me-ão: mas em Janeiro, ninguém imaginava; mas em Fevereiro, não havia máscaras nem gel; mas em Março, ninguém percebeu o que era prioritário. Então já não estamos a falar só da epidemia, mas de outras coisas: de imprevisão, de impreparação, e de erro.

Muito provavelmente não teria podido ser diferente. Porque a quarentena não foi um acaso, um mero expediente de último recurso, depois de outras políticas terem falhado. A quarentena foi mais do que isso. Na China, todos perceberam que correspondia ao carácter ditatorial do regime. Mas no Ocidente, com as suas democracias, não teria sido uma contradição? Não, no Ocidente, a quarentena também correspondeu ao carácter actual dos seus regimes. Vale a pena perceber isto, para perceber o que somos.

Nas democracias ocidentais, onde a autoridade política tem sido degradada pelas deslocações da globalização, nenhum governo partilha hoje qualquer visão ou projecto com os governados: ninguém, à esquerda, é hoje Clement Attlee em 1945, ou, à direita, Margaret Thatcher em 1979. Ninguém confia na organização da classe trabalhadora para nacionalizar a indústria, nem nas aspirações da classe média para liberalizar os mercados. O poder assenta em aglomerações de grupos de interesse, sem qualquer coesão ideológica ou solidariedade de classe, juntos apenas por uma comum dependência do Estado. O trabalho dos governantes é manter e disciplinar essa aglomeração. Por duas vias: fomentando o medo de qualquer mudança, de modo a manter toda a gente no mesmo lugar, e reforçando a dependência dos indivíduos e das famílias em relação ao poder, para limitar qualquer autonomia. Foi neste contexto que a opção da quarentena fez tanto sentido como na China ditatorial.

Em primeiro lugar, a quarentena, pelo seu aspecto drástico, adequou-se à mania apocalíptica com que os governantes agora discutem todas as questões, sempre como se o mundo estivesse para acabar. A quarentena vinha, por exemplo, ao encontro do que os sectários das “alterações climáticas” andam a pedir: uma demonstração de força do poder, que nos habituasse à ideia de que, para nos salvarmos, precisamos pôr-nos completamente à mercê do Estado, e comportar-nos como nos mandam. Não há hoje, aliás, outro fundamento para o poder político no Ocidente, a não ser a sua apropriação das expectativas de salvação associadas às religiões. O encerramento das igrejas e dos templos dos antigos cultos foi outra maneira de sugerir que há um só deus, e se chama Estado, o qual tudo pode.

Em segundo lugar, a quarentena foi a maneira de preservar um dos elementos fundamentais do sistema de dependência que sustenta o regime político: os serviços públicos de saúde. Na Primavera deste ano, a principal preocupação dos governantes, aqui e neste país, foi defender esses serviços contra uma eventual procura que não estariam em condições de satisfazer. Mais do que o caos nas urgências e unidades de cuidados intensivos, temeram que esse caos, devidamente filmado, servisse para desacreditar o regime. O SNS é propagandeado como a nossa defesa. De facto, fomos nós que, além de o pagar, o tivemos de defender, perdendo o emprego, abrindo falência, não indo à consulta, voltando à telescola, e ficando isolados.

No fim, a quarentena reforçou estes regimes: ampliou os poderes do Estado, e agravou a dependência das populações, agora ainda mais controladas e mais destituídas. Mas não foi tudo isto aconselhado pela “ciência”? A “ciência” é o refúgio final da actual oligarquia. Justificar “cientificamente” uma opção só lhe interessa na medida em que lhe permita tratar qualquer alternativa como monstruosa. Onde a ciência fala, todos se deviam calar. Acontece que a ciência fala muito, mas nem sempre para dizer as mesmas coisas. Como neste caso, em que ainda está para se decidir se o coronavírus é a peste negra ou a gripe sazonal, ou nenhum dos dois. Há cientistas para todas as opiniões. Não é uma falha da ciência: é uma falha dos políticos que usam a ciência como um substituto dos dogmas das religiões. A ciência é conjectura, refutação e, por isso mesmo, discordância. Mas na política actual, a ciência serve apenas para cancelar discussões. No caso da quarentena, serviu para não descobrirmos se havia outras opções razoáveis.

Em Março, quando a epidemia começou, a oligarquia empurrou-nos para casa dizendo que era o fim do mundo, que os serviços públicos tinham de ser protegidos, e que era isso que a ciência mandava. Quase toda a gente acreditou e obedeceu. Apesar dos danos que infligiu à sociedade, a epidemia não correu mal aos nossos oligarcas: subiram nas sondagens, aumentaram os seus poderes, diminuíram a nossa autonomia. Agora, que a epidemia retomou, mas não convém irmos outra vez para casa, que nos vão dizer?

A lenda e a realidade: Einstein, Mileva e Helene Savic.


Ensaio do professor Carlos Alberto dos Santos, publicado pelo Estado da Arte:


É provável que ao ler o título, muitos pensarão que Helene Savic é uma das inúmeras conquistas amorosas atribuídas a Albert Einstein. Não, não é! Helene Savic é uma personagem-chave para desconstruir a extensa rede de desinformações a respeito da suposta colaboração de Mileva Maric com Einstein, durante a elaboração de seus icônicos artigos publicados em 1905. Para o grande público, a fonte primordial da falsa hipótese é o livro da professora de ciências Desanka Trbuhovic-Gjuric, originalmente publicado na Sérvia, em 1969 [1]. Intitulado “À sombra de Albert Einstein: a vida trágica de Mileva Einstein-Maric”, o livro apresenta uma única fonte confiável, e uma série de informações claramente originadas em boatos. A fonte confiável é Abraham Fedorovich Joffe, mas Trbuhovic-Gjuric usa uma informação falsa atribuída a ele. Entre 1902 e 1906, Joffe foi assistente e estudante de doutorado de Wilhelm Conrad Röntgen, o descobridor dos raios-X e ganhador do Prêmio Nobel de Física de 1901. Trbuhovic-Gjuric afirmou que Joffe havia visto o manuscrito do artigo da relatividade especial assinado por Einstein-Maric.

Joffe não disse isso. O que Joffe disse, em um obituário publicado na Rússia logo depois da morte de Einstein (“Pamyati Alberta Eynshtyna”. Uspekhi fizicheskikh nauk, vol. 57, n. 2, p. 188-192) [2], foi:
Em 1905, três artigos apareceram no Annalen der Physik, os quais iniciaram três ramos muito importantes da física do século 20. Esses são a teoria do movimento browniano, a teoria do fóton de luz, e a teoria da relatividade. O autor desses artigos – uma pessoa desconhecida naquela época, era um burocrata no Escritório de Patentes de Berna, Einstein-Maric (Maric o nome de solteira de sua esposa, o qual pelo costume suíço é adicionado ao sobrenome do marido).
Veja que Joffe escreve que o “autor desses artigos – uma pessoa desconhecida . . .”. Ele não diz que o artigo era assinado por Einstein-Maric. A versão usada por Trbuhovic-Gjuric, foi criada em 1962, por Daniil Semenovich Danin, um crítico literário e divulgador da ciência, que publicou um livro em Moscou no qual afirmou que Joffe havia visto o manuscrito da teoria da relatividade na mesa de Röentgen, e que o artigo era assinado por Einstein-Maric. Foi assim que nasceu a lenda de que Mileva havia colaborado com Einstein em seus trabalhos científicos.

O livro de Desanka Trbuhovic-Gjuric teve grande repercussão depois que foi traduzido para o alemão, em 1983, e passou a ser usado por inúmeros autores como se fosse uma fonte confiável. Com o advento da Internet, o processo de desinformação se alastrou, sem que seus promotores dessem atenção aos estudos acadêmicos sistematicamente contrários à hipótese levantada por Trbuhovic-Gjuric, a partir da informação falsa de Danin.

Em 2019, Allen Esterson e David Cassidy, com a colaboração de Ruth Lewin Sime, publicaram o livro Einstein’s wife: the real story of Mileva Einstein-Maric, no qual abordam com profundidade praticamente toda essa literatura baseada em boatos sem o devido cuidado historiográfico [2]. Portanto, dada a existência desse importante trabalho, não considero relevante destacar aqui essa literatura popular sem fundamentação historiográfica. Abordarei aqui uma das principais fontes usadas por Esterson e seus colaboradores para desconstruir a hipótese mundialmente difundida a partir de Trbuhovic-Gjuric. Refiro-me às cartas enviadas por Mileva Maric para uma das suas melhores amigas, Helene Kaufler Savic, e publicadas no livro editado pelo neto de Helene, Milan Popovic [3].


Embora não haja necessidade de apresentar, neste ensaio, todos os equívocos da literatura, como fizeram Esterson e colaboradores, é importante, pelo menos, destacar o ponto central do surgimento da lenda, que se espalhou feito rastilho de pólvora depois de 1983. O ponto central refere-se à importância de Mileva Maric na produção científica de Einstein, até 1910.

A lenda e a realidade

O que foi dito acima, é o que consta na literatura mais popular, mas, da literatura historiográfica, sabe-se que o nascimento da lenda teve outro componente, além da distorção das palavras de Joffe. No mesmo ano da publicação do livro de Danin, 1962, o jornalista australiano, Peter Michelmore, publicou, nos EUA, uma curta biografia intitulada Einstein: profile of the man, de onde Desanka Trbuhovic-Gjuric extraiu muitas informações, algumas delas inverossímeis [2]. O livro de Michelmore foi largamente baseado em uma entrevista que ele fez com Hans Albert, filho de Mileva e Einstein, ao longo de dois dias, no ano da publicação do livro. Não se sabe se Michelmore gravou as conversas, ou fez anotações. O fato é que ele não publicou as anotações das entrevistas. Ele apresentou informações atribuídas a Hans Albert a respeito de eventos ocorridos quando ele tinha menos de dois anos de idade. Ou seja, eventos ocorridos há cinquenta e sete anos. É possível que Hans Albert tenha ouvido de Mileva o que declarou a Michelmore. É possível também que Michelmore tenha romantizado a história. Por exemplo, Michelmore diz que “Mileva ajudou Einstein a fazer os cálculos da relatividade especial, mas ninguém poderia ajudá-lo com o trabalho criativo, o fluxo de novas ideias.” Supõe-se que isso tenha sido uma declaração de Hans Albert, mas Michelmore não atribui explicitamente a informação a Hans Albert. Quando Desanka Trbuhovic-Gjuric escreveu seu livro, ela usou essa informação, sugerindo que Michelmore a obtivera diretamente de Einstein, e não de Hans Albert. Desanka Trbuhovic-Gjuric também usou outros fantasiosos e inverossímeis comentários de Michelmore, sende este o que acabou sendo o mais difundido na literatura popular:
Foi um feliz acidente que os amigos mais próximos de Einstein no instituto estivessem estudando matemática. Um era Marcel Grossmann, que estava genuinamente impressionado com a amplitude da mente de Einstein. Generosamente, Grossmann fazia anotações detalhadas de todas as palestras e as transmitia a Einstein nos fins de semana. Seu outro amigo próximo era Mileva Maric. Ela era tão boa em matemática quanto Marcel e também ajudava nas sessões de treinamento de fim de semana.
No livro de Desanka Trbuhovic-Gjuric, a informação acima transformou-se em:
Maric era uma matemática brilhante que ultrapassou Einstein em matemática, senão em física. Além disso, devido à sua importante colaboração, Maric foi uma coautora não reconhecida do famoso artigo de seu marido, sobre a relatividade, publicado em 1905.
De modo similar à famosa brincadeira do telefone sem fio, essa narrativa foi passando adiante com deturpações cada vez mais graves, como bem relatam Esterson e colaboradores [2].

Além de documentos sobre os quais comentarei a seguir, existem outras fontes que ajudam a desmistificar o enredo iniciado por Michelmore e difundido por inúmeros autores a partir de Desanka Trbuhovic-Gjuric. Refiro-me às cartas de amor, entre Einstein e Mileva [4], e à já mencionada correspondência entre Mileva e Helene Savic. Antes de abordar essa correspondência, considero importante destacar a documentação existente que contradiz a supra-citada afirmação de Desanka.

Existem, no mínimo, três maneiras de se atestar a competência de alguém em relação a alguma matéria. A primeira é por meio da observação direta, a partir da convivência diária. Quando me refiro a observação direta, isso significa observação de alguém que conhece o assunto. Por exemplo, avaliação de uma estudante de medicina sobre a competência em matemática de uma estudante de engenharia, tem pouca chance de ser confiável. A segunda maneira é por meio dos seus escritos, e a terceira é por meio de seus resultados escolares. Essa última é a maneira mais frágil, mas na ausência das duas primeiras, é o único recurso que resta. Não há registro de comentários de contemporâneos de Mileva que atestem seu nível de competência em matemática, como também não há trabalhos publicados de sua autoria. Portanto, só nos resta especular sobre sua proficiência em matemática a partir de seus resultados escolares.

No livro de Esterson e colaboradores são apresentadas as notas de Mileva e Einstein no último ano de seus estudos secundários. Apenas as notas de física e matemática foram colocadas na Tabela 1. Como se vê, Einstein obteve a nota máxima em matemática nos três trimestres em que estudou em Aargau, e onde obteve seu diploma de ensino secundário. Não há surpresa nesses resultados; antes de ir para Aargau, Einstein tinha aprendido, sozinho, elementos de matemática superior, incluindo o cálculo diferencial e integral. Ele também tinha escrito, aos 15 anos de idade, uma pequena monografia sobre o estado do éter num campo magnético.


Mileva era considerada excelente aluna nas escolas que frequentou no secundário. Por isso seu pai obteve permissão para matriculá-la no Royal Classical Gymnasium, em Zagreb, uma escola exclusivamente masculina. Todavia, ela não obteve ali a excelência que obtivera em anos anteriores na Royal Lower Grammar School, em Sremska Mitrovica, uma cidadezinha às margens do rio Sava, uma afluente do Danúbio.

Se transformarmos a escala 1-6 de Aargau, na escala 1-10, veremos que Einstein obteve nota 10 em matemática e entre 9 e 10 em física.


Antes de apresentar a correspondência Mileva-Helene, devo fazer um breve comentário ao texto de Michelmore, transcrito acima. Não é verdade que Grossmann transmitia suas anotações a Einstein nos fins de semana. Na Escola Politécnica de Zurique, a famosa ETH, os alunos só tinham que fazer dois exames, o intermediário, na metade do curso, e o exame final. Fora isso, os alunos eram obrigados a frequentar apenas um curso por semestre. O resto do tempo eles podiam fazer o que quisessem, frequentar cursos, ir trabalhar no laboratório ou estudar na biblioteca. Einstein fazia essas duas coisas, principalmente estudar na biblioteca, onde acompanhava a literatura contemporânea, que não era tratada em sala de aula pelos famosos professores da ETH. Algumas semanas antes do exame, Grossmann emprestava seu caderno de anotações para Einstein se preparar. Einstein tinha um talento extraordinário para a matemática, mas não a considerava importante. Sobre a amizade entre Einstein e Grossmann, veja o ensaio Marcel Grossmann, o amigo e protetor de Einstein [6]. Durante os dois primeiros anos, Einstein ainda estava entusiasmado com os professores da ETH e foi um aluno aplicado. Obteve a maior média da turma no exame intermediário, 5,7, enquanto Mileva obteve a menor, 5,05. Depois do exame intermediário, Einstein começou a se decepcionar com as aulas e passou gazeteá-las. Einstein teve a pior média no exame final, 4,91, enquanto Mileva foi reprovada. Portanto, a afirmação de Michelmore, de que Mileva era tão boa em matemática quanto Marcel Grossmann, parece pura fantasia.

Vejamos agora outra ponta da lenda, aquela segundo a qual Mileva teve participação importante nos trabalhos de Einstein. Pelo que foi dito acima, isso não parece verossímil, mas vejamos se podemos inferir algo a partir do que Mileva escrevia para Helene Savic.

O arquivo Helene Kaufler Savic

A primeira carta de Mileva para Helene foi escrita em 1899, na casa de verão da família, em Kac, e a última foi escrita em 1932. Uma coleção de 71 cartas foi preservada pela família, mas, segundo Highfield e Carter [1] a mãe de Milan Popovic destruiu algumas das cartas de Helene Savic, incluindo aquelas referentes a Lieserl, a filha que Einstein e Mileva tiveram antes do casamento, e cujo destino continua sendo um mistério [5]. Os autores não fornecem as fontes de onde tiraram essa informação. Walter Isaacson [7] também fornece essa informação, que deve ter extraído de Highfield e Carter. O que me interessa nesta coleção são possíveis indicativos de que Mileva ajudara Einstein a desenvolver seus trabalhos científicos. Será que o papel de Mileva no trabalho criativo de Einstein foi amplo e significativo? Será que ela fez os cálculos da teoria da relatividade, como afirmou Desanka?


Existem vários artigos e livros de estudiosos da biografia de Einstein que descontroem as hipóteses de Desanka Trbuhovic-Gjuric, alguns dos quais citados neste ensaio. O que pretendo é fazer o mesmo a partir das cartas de Mileva para Helene Savic.

Em uma carta escrita no verão de 1899, Mileva está em Kac e informa que está muito ocupada, preparando-se para o exame, que será realizado no início de outubro. Ela não entra em detalhes, mas sabe-se que este é o exame intermediário, que seus colegas de turma fizeram em outubro do ano anterior. Mileva teve o exame adiado porque tinha se afastado para passar um semestre estudando em Heidelberg. Foi nesse exame que Mileva teve a menor nota da turma, fato este que ela não relata a Helene em nenhuma carta.

Das cartas de amor entre Einstein e Mileva [4], sabe-se que entre meados de março e 10 de outubro de 1899, Einstein enviou seis cartas para Mileva, e dela recebeu uma. Não há como saber quais cartas de Einstein chegaram às mãos de Mileva antes da carta de Mileva para Helene. É provável que a carta de março e duas do início de agosto tenham chegado antes. Portanto, é interessante examinar o que disseram Einstein e Mileva nessas cartas para contextualizar a carta de Mileva para Helene. Dessas três cartas de Einstein, a que ele escreveu no início de agosto é extremamente relevante para essa contextualização. Ele diz:
Estou cada vez mais convencido de que a eletrodinâmica dos corpos em movimento, como é apresentada hoje, não corresponde à realidade, e que será possível apresentá-la de modo mais simples. A introdução do termo “éter” em teorias de eletricidade levou à concepção de um meio cujo movimento pode ser descrito sem ser possível, creio eu, atribuir um sentido físico a ele. Acho que as forças elétricas podem ser diretamente definidas apenas para espaços vazios – algo que Hertz também enfatiza.
É a primeira vez que Einstein se expressa em termos do que ele vai escrever no seu artigo sobre a relatividade especial, cinco anos depois. Na sua resposta, Mileva não concorda, nem discorda dessas ideias de Einstein. Ela não faz qualquer comentário. Além de seus sentimentos amorosos, candentemente expostos, ela demonstra preocupação com o exame intermediário:
Os “estudos extenuantes” prosseguem lentamente. Fiedler é minha maior dor-de-cabeça, e o material, o mais difícil de dominar. Talvez pudesse me escrever um pouco sobre o que esperar do exame, mas não pense que isso significa que está dispensado de incluir outros assuntos que não sejam um relatório (se foi o que pensou). Fiedler e Herzog pedem coisas específicas, exemplos, ou perguntam apenas questões gerais? Posso também pedir-lhe para deixar seu caderno sobre teoria térmica com a senhora Markwalder quando voltar a Zurique? Quero consultar alguns pontos.
Fiedler e Herzog eram os professores responsáveis pelas provas de geometria descritiva e projetiva, e mecânica, respectivamente. O caderno que ela solicita são as anotações de Einstein do curso do prof. Weber, cuja primeira parte ela perdeu porque estava em Heidelberg. A senhora Markwalder era a proprietária da pensão onde Einstein morava em Zurique.

Essas cartas de Einstein sugerem que a carta para Helene, no verão de 1899, não é de quem estaria em pé de igualdade científica com ele. Imagino que se Mileva estivesse participando efetivamente de uma discussão sobre temas desafiadores, com o nível de elaboração como este exposto por Einstein, seu primeiro impulso seria informar a amiga sobre seu avanço científico, e não apenas reclamar que está muito ocupada com a preparação para o exame.

No início de 1900, provavelmente em janeiro ou fevereiro, Mileva escreve de Zurique para Helene. Trata-se de uma carta muito importante no contexto da história imediata de Mileva e de sua participação no trabalho de Einstein. Em julho ela deverá se submeter ao exame final. Como se sabe, será reprovada, e também como se sabe, jamais ela tratou desse fato nas cartas para Helene, que constam na coleção publicada por Milan Popovic. Além das provas, como no exame intermediário, no exame final os alunos devem apresentar uma dissertação sobre algum tema, que poderá ou não ser transformada em tese de doutorado. Para chegar de uma ponta à outra desse processo, é uma longa caminhada. Mileva expõe sua angústia em relação a isso:
Tive que escrever sobre o tema principal que selecionei para meu diploma e, possivelmente, também para minha tese de doutorado, para que o professor Weber pudesse fazer algumas críticas.
Por que essa carta é importante no contexto da eventual participação de Mileva nas atividades científicas de Einstein? Dois ou três meses antes dessa carta, Mileva recebeu duas cartas de Einstein apresentando novas ideias científicas que seriam incorporadas na teoria da relatividade. Se Mileva estivesse acompanhando Einstein nessa viagem epistemológica ou se estivesse percebendo que se tratava de algo revolucionário, teria respondido a Einstein com comentários pertinentes. Da mesma forma teria feito comentários animados na carta de Helene. Não há registro de que ela tenha feito isso. Vejamos o que disse Einstein na carta escrita no final de setembro de 1899:
Escrevi ao professor Wien em Aachen a respeito de meu trabalho sobre o movimento relativo do éter luminífero em relação à matéria ponderável, o mesmo que o “chefe” tratou de modo tão precipitado. Li um trabalho muito interessante de Wien sobre o assunto, escrito em 1898.
Esse texto tem vários desdobramentos históricos importantes no cenário do presente ensaio. Em primeiro lugar, Einstein acompanhava a literatura contemporânea, coisa que seus professores da ETH não tratavam em sala de aula. Em segundo lugar, Einstein refere-se ao “seu” trabalho sobre o movimento relativo … Se Mileva estivesse participando daquele empreendimento científico, como quer-nos fazer crer Desanka, ele provavelmente diria “nosso” trabalho. Finalmente sabe-se hoje que o “chefe” era Heinrich Friedrich Weber, com quem Einstein teve uma relação de amor e ódio. Foi seu orientador na monografia de fim de curso, assim como de Mileva, mas não aceitou uma proposta de Einstein para construir um aparato para medir com precisão o movimento da Terra em relação ao éter. Tudo indica que Einstein teve essa ideia sem conhecer experimentos anteriores, na mesma linha. Weber deve ter-lhe sugerido a leitura do artigo de Wien, no qual são apresentadas algumas das mais importantes tentativas para esse tipo de medida, incluindo o famoso experimento de Michelson-Morley, que muita gente acha que inspirou Einstein na sua teoria da relatividade especial, o que ele nega.

Sob a orientação de Weber, Einstein e Mileva fizeram suas monografias em temas relacionados à condução do calor. Sabe-se hoje que a proposta de Einstein era mais avançado do que a que Weber o obrigou a realizar. De qualquer modo, Einstein e Mileva ficaram com as notas mais baixas nesse requisito. Ganharam, respectivamente, 4,5 e 4. Só para efeito de comparação, Grossmann ficou 5,5, para um máximo de 6,0. Não há registro na coleção de cartas para Helene, que Mileva tenha transmitido essas vicissitudes. Ao contrário, ela transmitia um clima de satisfação e felicidade em relação aos estudos.

Em 9 de março de 1900, Mileva informa que o Professor Weber aceitou a sua proposta de monografia, e que ele demonstrava estar muito satisfeito com o trabalho. Como foi dito acima, meses depois ela receberia a pior nota da turma na monografia. Tudo isso provocava em Helene uma imagem diferente do que estava ocorrendo na ETH. Por exemplo, em carta de 14 de julho, Helene escreve para sua mãe:
A Srta. Maric e o Sr. Einstein terminaram o exame escrito. Eles planejaram seus tópicos juntos, mas o Sr. Einstein cedeu o mais agradável para a Srta. Maric. Ele provavelmente será assistente de seu professor e permanecerá aqui. Miss Maric também recebeu uma oferta de assistente na Politécnica, mas por causa dos alunos ela não quis aceitar.
O final desse texto é absolutamente ilusório. Mileva não recebeu qualquer oferta para ser assistente, até porque não havia sido aprovada no exame final, o que aparentemente Helene não sabia. Sobre as mal sucedidas tentativas de Einstein obter um cargo de assistente, veja o ensaio sobre Grossmann e Einstein [6].

A partir de 1900, Einstein inicia uma corrida frenética, atacando vários assuntos da física, até concluir seus icônicos trabalhos de 1905. Na hipótese defendida por Desanka Trbuhovic-Gjuric, esse deve ter sido o período de intensa colaboração intelectual entre ele e Mileva. Onde estaria essa colaboração registrada? Deveria estar nas cartas de amor [4] ou nas cartas de Mileva para Helene. Vários autores mostraram que as cartas de amor não apresentam indicativo sobre esta colaboração. Mostrarei que o mesmo acontece com as cartas para Helene.

Depois do exame final, em julho de 1900, até 1905, Mileva escreveu quatorze cartas para Helene. Abordarei aqui apenas as cinco nas quais ela se refere a Einstein ou a seus estudos na ETH.

Em 20 de dezembro de 1900, Mileva escreve de Zurique:
Albert escreveu um artigo que provavelmente será publicado no Annalen der Physik. Você pode imaginar o quanto estou orgulhosa do meu querido. Este não é um tipo de artigo comum, ele é muito importante; trata da teoria dos líquidos. Também enviamos uma cópia para Boltzmann e gostaríamos de saber o que ele pensa a respeito; espero que ele escreva para nós.
Mileva diz claramente que se trata de um trabalho de Einstein, embora mistifique a história, ao dizer que “enviamos uma cópia para Boltzmann” e finalizar dizendo “espero que ele escreva para nós”. É provável que Einstein tenha mencionado a intenção de enviar a carta para Boltzmann, mas não o fez. Não há registro nos arquivos de Einstein de que isso tenha ocorrido [8]. É provável que esse tipo de informação tenha levado Helene e outros que tiveram acesso a essa correspondência, à suposição de que Mileva estava trabalhando com Einstein nesse problema. Mas, se estava, por que Einstein não incluiu seu nome no artigo? Vejamos essa história de outro ângulo.

Em 3 de outubro, Einstein escreveu para Mileva, da casa de seus pais em Milão. Além dos assuntos pessoais de sempre, ele escreveu:
Estou bastante versado em química física agora. As realizações nesse campo nos últimos trinta anos me empolgam muito. Também vai gostar quando estudarmos o assunto juntos. Os métodos de investigação física usados também são muito interessantes.
Os resultados sobre capilaridade que obtive recentemente em Zurique parecem ser inteiramente novos, apesar de sua simplicidade. Quando estivermos de volta a Zurique, tentaremos conseguir de Kleiner alguns dados empíricos sobre o assunto. Se isso revelar uma lei da natureza, mandaremos os resultados para os Annalen de Wiedermann.
Precisamos analisar esse trecho da correspondência com atenção. Estamos em outubro de 1900. Einstein está em Milão e Mileva está em Kac, na casa de verão da família. Entre novembro e dezembro eles chegam a Zurique. Entre 13 e 16 de dezembro, Einstein envia seu primeiro artigo publicado no Annalen der Physik, sobre o fenômeno da capilaridade. Trata-se do artigo mencionado por Mileva. Então, a fala de Einstein “Quando estivermos de volta a Zurique […] mandaremos os resultados para os Annalen de Wiedermann”, não tem muito sentido, uma vez que ele submeteu o artigo em seu nome, e assim foi publicado. Esse tipo de conversa, que ele mantém em outras cartas, entre agosto de 1900 e julho de 1901, tem sido usado como “prova” de que Mileva estava trabalhando com ele. Abraham Pais [9] e outros historiadores defendem a hipótese de que essas frases são afagos que Einstein fazia para levantar o ânimo de Mileva, que havia sido reprovada no exame final em julho de 1900 e estava se preparando para uma segunda oportunidade em 1901, e seria novamente reprovada.

No outono de 1901, Mileva escreve para Helene:
Terminei meus estudos, embora, graças às críticas de Weber, ainda não tenha conseguido fazer o doutorado. Eu aguentei muito com ele e em hipótese alguma vou voltar para ele novamente.
Novamente, Mileva mistifica e falseia a história. Ela simplesmente diz que terminou os estudos, provavelmente induzindo Helene a pensar que foi aprovada. Ela reforça esse cenário, ao dizer que fará a tese de doutorado com outro orientador. Ela não podia fazer a tese de doutorado, uma vez que não tinha obtido o título da graduação.

Na última carta de 1901, ela segue a mesma linha de excessivo otimismo em relação ao futuro, e de grande admiração pelo trabalho de Einstein:
Albert escreveu um estudo magnífico, que apresentou como dissertação. Ele provavelmente obterá seu doutorado em alguns meses. Li esta obra com grande alegria e verdadeira admiração por meu queridinho, que tem uma cabeça tão inteligente. Enviarei uma cópia quando for impresso. Trata da pesquisa das forças moleculares nos gases, usando vários fenômenos conhecidos. Ele é realmente um companheiro esplêndido.
A otimista avaliação do “doutorado em alguns meses” não se confirmaria. Dias antes dessa carta, Einstein havia submetido sua tese ao Professor Alfred Kleiner, da Universidade de Zurique (Naquela época, a ETH não podia conferir o título de doutor. Então, quase todos os alunos da ETH submetiam suas teses à Universidade de Zurique), mas ele rejeitou a tese. Einstein só conseguiria seu doutorado em 1905. O aspecto mais importante dessa correspondência é que ela indica, mais uma vez, que Mileva não participava do trabalho científico de Einstein, senão a frase “Albert escreveu um estudo magnífico”, teria sido algo assim: “Concluímos um estudo magnífico”.

Finalmente, selecionei duas cartas que contrariam completamente a hipótese da colaboração de Mileva no trabalho de Einstein. Em dezembro de 1906, Mileva escreve: Os artigos que ele tem escrito estão crescendo. No inverno de 1909 ela escreve:
Meu marido está muito feliz […] ele está trabalhando muito, ele publicou muito e agora está tentando aprender o lado prático da física, para a qual ele não teve muitas oportunidades. Em setembro passado, ele deu uma palestra para uma reunião de físicos e médicos alemães em Salzburgo. Você vê, com esse tipo de fama, ele não tem muito tempo para sua esposa. Li nas entrelinhas um certo tom malicioso quando você escreveu que devo ter ciúme da ciência. Mas o que podemos fazer? Um, pega a pérola, o outro, a caixa.
Em 1909, Einstein já tinha deixado sua teoria da relatividade especial e estava investindo na sua generalização, para incluir referenciais não inerciais. Não importa aqui saber o que isso significa. O que importa é que essa árdua tarefa levou-o a escrever, em 19015, o artigo sobre a teoria da relatividade geral, ou a teoria da gravitação, como alguns preferem chamar a TRG. As cartas de Mileva, de 1906 e 1909 não sugerem, de modo algum, que ela estava colaborando com ele nessa empreitada. Ao contrário, sugere um sentimento de inveja, como bem percebeu Helene Savic. Mileva parece concordar, ao dizer que “um, pega a pérola, ou outro, a caixa”.

Comentários finais

Toda essa história pode ser resumida assim. Há uma hipótese, defendida por autores aparentemente sem formação historiográfica, segundo a qual Mileva colaborou com Einstein em seus trabalhos científicos, até pelo menos 1910. Vários historiadores contestam essa hipótese. A única fonte confiável para avaliar a hipótese são cartas de Mileva, para Einstein e para Helene Savic. Tentei mostrar neste ensaio que essa fonte contradiz claramente a hipótese.

Notas:

[1] R. Highfield and P. Carter, The Private Lives of Albert Einstein (Faber and Faber, Londres, 1993).
[2] A. Esterson and D. C. Cassidy, Einstein’s Wife: The Story of Mileva Einstein-Maric (MIT Press, Cambridge, 2019).
[3] M. Popovic(Ed.), In Albert’s Shadow: The Life and Letters of Mileva Maric, Einstein’s First Wife (Johns Hopkins University Press, Baltimore, 2003).
[4] J. Renn and R. Schulmann, Albert Einstein-Mileva Maric: Cartas de Amor (Papirus, Campinas, 1992).
[5] M. Zackheim, Einstein’s Daughter: The Search for Lieserl (Riverhead Books, New York, 1999).
[6] C. A. dos Santos, Estado Da Arte / Estadão (2020).
[7] W. Isaacson, Einstein: Sua Vida, Seu Universo (Companhia das Letras, São Paulo, 2007).
[8] J. Stachel, D. C. Cassidy, and R. Schulmann, The Collected Papers of Albert Einsteim, Vol. 1 (Princeton University Press, Princeton, 1987).
[9] A. Pais, “Sutil é o Senhor . . .”. A Ciência e a Vida de Albert Einstein (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1995).

Agradeço ao professor Luiz Fernando Ziebell, do Instituto de Física da UFRGS, pela leitura do manuscrito.

Carlos Alberto dos Santos é professor aposentado pelo Instituto de Física da UFRGS. Foi Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UNILA e pesquisador visitante sênior do Instituto Mercosul de Estudos Avançados. Premiado com o Jabuti em 2016 (3º. Lugar na categoria Ciências da Natureza, Matemática e Meio Ambiente), atualmente é professor visitante no Instituto de Física da UFAL.