sábado, 24 de agosto de 2019

As "elites" a que chamamos (risos) elites.

"Veja-se os Costas, os Marcelos, os Césares, os Rios, as Catarinas, os Jerónimos, os Louçãs, os Ferros, os Salgados, os Mendes, os Pachecos. É possível conter o riso face a semelhante ramalhete?" Eis a preciosa coluna semanal de Alberto Gonçalves no Observador  (por diversão, modifiquem os nomes arrolados por alguns de brasileiros, inclusive presos, e teremos ainda mais motivos para deboche):


Não é fácil decidir se a culpa é do país, do regime ou dos bandos, no plural ou no singular, que tomaram conta disto na maior parte de quase meio século. A verdade é que Portugal não é respeitável. E não é respeitável na exacta medida em que, com a subserviência interessada dos empresários, a conivência pasmada dos “media” e o fascínio pelo Estado de uma curiosa “sociedade civil”, certas forças e personagens políticas beneficiam de uma impunidade que, por definição, abre as portas à prepotência, à inépcia e à corrupção.

Por cá, os governantes, principais e acessórios, não são avaliados em função do seu desempenho, mas em função da ideologia que o precede. Se calha de serem situados à “direita”, em geral por outrem e nunca pelos próprios, a avaliação é imediatamente negativa, excepto nos casos e nos momentos, não demasiado raros, em que a “direita” presta vassalagem ao adversário. Se, como é costume, são de esquerda, sucedem-se as vénias antecipadas a um “trabalho” (digamos) que invariavelmente se distinguirá pela brutal falta de juízo, rigor, decência e vergonha. E sobretudo escrutínio. À imagem das figuras dos “reality shows”, conhecidas apenas por serem conhecidas, inúmeras figuras da política caseira são, salvo seja, reverenciáveis apenas porque as consideram assim.

Para dar um mero exemplo e não sair, cruz credo, do Partido Socialista, a história do PS e dos líderes do PS é uma sucessão de prodígios cuja única fundamentação consiste no facto de se estabelecer na “opinião pública”, sem direito a grande refutação, o gabarito evidente e prévio de tais criaturas. Se esmiuçarmos as criaturas, porém, percebe-se que os motivos de tamanhos louvores são um mistério fascinante, ou uma revelação deprimente.

Não importa, nunca importou que Mário Soares passasse as últimas décadas de vida a aplaudir tiranias. Não importa, nunca importou que Vítor Constâncio fosse uma insignificância sem escrúpulos. Não importa, nunca importou que Jorge Sampaio fosse uma relíquia do marxismo ortodoxo. Não importa, nunca importou que António Guterres fosse um monumento ao vácuo. Não importa, nunca importou que Ferro Rodrigues fosse Ferro Rodrigues. Não importa, nunca importou que José Sócrates fosse um egomaníaco responsável pela institucionalização da trafulhice. Não importa, nunca importou que António Costa fosse um profissional da pequena intriga e um amador da língua. Para o discurso dominante, foram, respectivamente, o pai da democracia, um portento da economia, um homem bom, um génio diplomático, um Ferro Rodrigues, um salvador, um supremo estratega.

Alguns viram-se legitimados pelo voto, outros nem por isso. Em qualquer dos casos, a legitimidade de todos para mandar dependeu sempre menos de eleições do que de convenções: convencionou-se que os socialistas acima, junto com inúmeros socialistas diluídos ou concentrados, oficiais ou oficiosos, e de distintos graus de notoriedade e cumplicidade, merecem tomar conta de nós. Esta vasta teia constitui, garantem-nos, uma “elite”, uma “elite” que só o é na medida em que nos garantem sê-lo. No contexto, a mera palavra arrepia. E as críticas à “elite” que a admitem enquanto tal arrepiam duplamente.

Ainda que crítico, o reconhecimento da “elite” é uma forma de legitimação. Aquilo de que Portugal padece é da submissão a um escassamente recomendável conjunto de indivíduos, arregimentados em bandos e movidos por interesses comuns, não por acaso alheios aos interesses do cidadão comum. O pormenor de o cidadão comum ignorar a contradição e a submissão ser parcialmente voluntária não modifica a natureza do arranjo: o arranjo é nocivo, e para funcionar implica o lendário respeitinho, o “cimento social” que teimamos em não largar. Dito de maneira diferente, a esquerda, já de si propensa a consagrar-se através de dogmas, mitos e beatificações, ergue estátuas, metafóricas e ocasionalmente literais, por Portugal em peso – o que resta ao resto fazer?

Resta ao resto rir. Não há gesto tão repulsivo quanto o de rir com as “elites”, nem tão digno quanto rirmo-nos delas. Não que rir seja o melhor remédio, o pior remédio ou sequer um placebo sofrível. Acontece que o riso é um reflexo inevitável perante determinado tipo de situações grotescas de que esta bonita choldra é praticamente o padrão. Olhe-se em volta, sem olhos de quem integra ou sonha integrar a choldra. Veja-se os Costas, os Marcelos, os Césares, os Rios, as Catarinas, os Jerónimos, os Louçãs, os Ferros, os Salgados, os Mendes, os Pachecos, os Santos, os Silvas e toda a sorte de bonequinhos que, mais por apatia nossa do que por engenho deles, fazem da paróquia o seu quintal. É possível conter o riso face a semelhante ramalhete?

Às vezes, sim. Às vezes, o ramalhete e as descaradas rábulas do ramalhete inspiram uma coisa entre o embaraço e a depressão. Com frequência, deviam inspirar galhofa, galhofa pura, cristalina, imaculada. O que influencia as variações de inspiração? O pormenor de uma pessoa manter uma réstia de optimismo ou dar Portugal por perdido. Na presunção de que não há hipótese, uma pessoa liberta-se do peso da esperança e entrega-se à gargalhada. É que se isto não tem salvação, isto tem graça. E o som do escárnio é a perfeita banda-sonora do fim, que talvez fosse provável e que será, por obra das “elites” (risos), inevitável.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Amazônia: debate com muito fogo e pouca luz.

Editorial da Gazeta do Povo alinha alguns pontos a serem considerados na avaliação dos incêndios que atingem vários locais do país e dos países vizinhos - não só da Amazônia brasileira:


Enquanto a Amazônia sofre com as queimadas e o desmatamento que ganharam as manchetes, o debate nacional e internacional sobre o tema tem gerado muito mais fogo que luz, com a histeria superando de longe a análise serena e equilibrada. Celebridades e anônimos compartilham fotos alarmantes – muitas delas, no entanto, de anos anteriores ou de regiões diferentes do Brasil, quando não de outros países. Quando o céu da cidade de São Paulo escureceu no meio da tarde de segunda-feira, rapidamente a fumaça das queimadas foi apontada como a única ou maior responsável pelo fenômeno. Adversários do governo de Jair Bolsonaro imediatamente acusaram o presidente de ser o grande culpado pela calamidade, postura repetida por parte da imprensa internacional, como a revista britânica The Economist, que dedicou matéria de capa ao tema. O presidente francês, Emmanuel Macron, usou o Twitter para pedir ao G7 que discuta o tema – sem a participação do Brasil, presumivelmente –, também usando uma foto fora de contexto.

Incêndios florestais na estação seca não são um triste privilégio brasileiro. Ocorrem também na Europa, nos Estados Unidos, na Austrália, muitas vezes com consequências catastróficas. Mas, dito isto, é preciso olhar o que os números e os órgãos de pesquisa afirmam, e há dados suficientes para serem usados tanto por defensores quanto por detratores de Bolsonaro. É verdade, por exemplo, que o número de focos de queimada em 2019 aumentou na comparação com os últimos anos – foi a divulgação de um destes dados, relativos ao desmatamento na primeira quinzena de julho deste ano, 68% maior que no mesmo período do ano passado, que culminou com a demissão do ex-diretor do Inpe Ricardo Galvão.

No entanto, o mesmo Inpe que aponta um aumento das queimadas este ano também mostra que, considerando o total do ano até agosto, na série histórica iniciada em 1999, os dois piores anos em termos de queimadas foram 2005 e 2007, quando Lula era presidente e sua ministra do Meio Ambiente era Marina Silva. Em outro critério, o de área desmatada, outra série histórica do Inpe, iniciada em 1988, mostra que os piores números foram observados em 1995, primeiro ano do mandato de Fernando Henrique Cardoso. E foram os especialistas do instituto que rechaçaram a hipótese de a fumaça das queimadas amazônicas ser a responsável pelo céu escuro paulistano.

A agência espacial norte-americana, a Nasa, também publicou dados sobre o desmatamento e as queimadas no Brasil. As informações mais recentes do órgão apontam que os incêndios na Amazônia em 2019 estão ligeiramente acima da média dos últimos 15 anos nos estados de Amazonas e Rondônia, mas abaixo da mesma média no Mato Grosso e no Pará. O projeto Global Fire Emissions Database, que compila dados da Nasa, também corrobora os números do Inpe, apontando 2004, 2005 e 2007 como os piores anos para o desmatamento e as queimadas na região amazônica.

Erros passados, no entanto, não servem de consolo enquanto a floresta queima hoje. Assim como os índices de violência urbana caíram neste início de mandato de Bolsonaro, mesmo antes que medidas concretas nesse sentido fossem tomadas, pela mera sinalização de que o governo não toleraria a bandidagem, teria a sinalização inicial do governo, apontando para uma leniência em relação à questão ambiental, servido de estímulo aos desmatadores? É uma possibilidade ainda não comprovada, mas que não se pode descartar de todo. Mesmo assim, ainda que não haja essa relação, a resposta inicial do Planalto ficou muito longe do desejável.

Em vez de reconhecer que o problema é real e centrar esforços no combate ao fogo, Bolsonaro preferiu partir para o ataque, acusando – sem provas, como ele próprio admitiu – ONGs que atuam na região como as responsáveis pelos incêndios. Países que tradicionalmente contribuem com ações de preservação ambiental, como Noruega e Alemanha, também foram criticados. Por mais que nações desenvolvidas também tenham seus calcanhares de Aquiles na questão ambiental, figurando entre os grandes poluentes, adotando matrizes energéticas pouco limpas ou mantendo práticas criticadas por ambientalistas, os erros alheios também não servem de desculpa para a omissão brasileira, e a ajuda estrangeira em um momento como este deveria ser bem-vinda, não desprezada. Quanto a Macron – que, obviamente, está jogando para sua torcida, especialmente o setor agrícola francês, descontente com o acordo comercial assinado entre União Europeia e Mercosul –, acabou chamado de “idiota” em um vídeo do youtuber Bernardo Küster publicado no fim de 2018 e compartilhado na quinta-feira por Eduardo Bolsonaro, em um ato nada diplomático da parte de alguém que sonha em ser embaixador nos Estados Unidos.

A Economist afirmou em editorial que “o mundo deveria deixar claro a Bolsonaro que não tolerará seu vandalismo”, fazendo o jogo dos adversários do presidente. O exagero não se justifica, mas é evidente que o país e o mundo esperam uma resposta de Bolsonaro. O presidente já colocou as Forças Armadas no combate ao fogo, por meio de um decreto de Garantia da Lei e da Ordem. E, em seu breve pronunciamento em cadeia nacional, deixou de lado as acusações sem provas e afirmou que não tolerará os crimes ambientais cometidos na Amazônia, da mesma forma como não tolera os crimes cometidos pelos bandidos no campo e nas cidades. O desmatamento é uma mazela nacional e, depois que as queimadas de agora forem derrotadas, todos esperamos que o esforço prometido por Bolsonaro para a proteção da floresta seja mantido e reforçado.

O "tudo faz sentido" do jornalismo

O jornalismo deve, de acordo com a escola de pensamento dominante, mostrar que há um sentido indisputável que organiza a totalidade dos acontecimentos do mundo e lhes fornece uma inteligibilidade única e exclusiva. Em artigo publicado pelo Observador, o professor Paulo Tunhas analisa o "pensamento único" na mídia portuguesa, mas o mesmo vale para a imprensa brasileira:


Tenho um problema que partilho certamente com um vasto número de pessoas: embirro solenemente com a visão do mundo transmitida pelo grosso da comunicação social, da qual a SIC Notícias, que é o canal português que mais vejo, é o melhor exemplo, embora difira dos outros apenas pela sua maior consistência e regularidade. Chamemos-lhe a visão “tudo faz sentido” da realidade.

O que nos diz tal visão, quais os seus principais conteúdos? Que o mundo vive mergulhado em perigos todos eles ligados entre si por afinidades decifráveis, por semelhanças internas que o jornalismo tem por missão essencial, senão única, realçar. O jornalismo deve, de acordo com a escola de pensamento dominante, mostrar que há um sentido indisputável que organiza a totalidade dos acontecimentos do mundo e lhes fornece uma inteligibilidade única e exclusiva.

Assim, por exemplo, vivemos numa “emergência climática”que é o fruto da ganância intrínseca ao “neoliberalismo”. O neoliberalismo promove um pouco por todo o lado, para a satisfação dos seus perversos e nada equívocos desígnios, a extrema-direita e o populismo. Este, por sua vez, manifesta-se através do “discurso de ódio” em todas as suas mais conhecidas expressões: a xenofobia, o racismo, a “islamofobia”, o “fascismo”, e por aí adiante. Dirigentes mundiais vocalizam estes impuros desejos de morte individual e planetária com indisfarçável gozo e encontram submissos aliados nos mais recônditos lugares do planeta que juraram destruir. Exemplos? Trump, é claro, na sua ridícula ignorância, ou Bolsonaro, na sua veemente apetência pela destruição. A Europa é um lugar de eleição para este drama. Da Itália à Polónia, passando pela Hungria, as forças centrífugas do mal, em perfeita harmonia, conspiram para a execução do sinistro plano. E Boris Johnson, na sua obsessão com o Brexit, é o último rosto deste movimento geral que obedece a uma necessidade da qual os seus principais protagonistas se encontram impecavelmente conscientes, por maiores que sejam as suas incapacidades cognitivas. Tudo faz sentido.

Ora, isto é muito curioso. Não porque nenhum dos fenómenos atrás mencionados seja uma pura invenção. Nem um só de entre eles, de facto, é susceptível de escapar a uma análise crítica: há problemas reais que, em graus muito variáveis, eles designam. O que esta visão do mundo tem de falso e opressivo, de artificial e enganador, é apresentá-los como um magma entendido como uma totalidade indivisa. Por isso, o jornalismo salta de um para outro como se estivesse sempre a falar do mesmo. Entre o “discurso de ódio” e a “emergência climática”, praticamente não há diferença alguma. Ambos são a expressão do mesmo, categoria central desta maneira de pensar. Não há causas ou razões específicas a cada coisa, que uma análise cuidada deva procurar compreender e explicitar. Há a alucinação de uma totalidade que faz um sentido absoluto e que se deve tomar como um objecto único no qual investimos negativamente todos os mossos afectos.

Isto faz a vez de pensamento, quando na verdade é a maneira mais eficaz de não pensar. É uma maneira de acreditar, sem dúvida, é mesmo um exemplo maior da nossa necessidade de acreditar a todo o custo, para além de qualquer hesitação ou dúvida, seguindo o exemplo fundador da crença religiosa. Mas como pensamento nada vale. Pensar não é confessar uma fé salvífica que nos garanta a chave mágica para a compreensão da totalidade e para um entendimento definitivo do bem e do mal. É antes, desculpe-se a banalidade, procurar determinar, com a ajuda das nossas limitadas luzes, alguma pouca coisa neste mundo irredutivelmente complexo e contraditório. Pensar é ligar, sim. Mas ligar de um modo que preserve a autonomia e a contingência daquilo que observamos.

Pessoalmente, nunca fui particularmente dado a irritações excessivas, e a danada da idade, com todos os problemas que costuma trazer consigo, atenuou razoavelmente as poucas de que ainda era vítima. Por isso, confesso que ao ver os noticiários televisivos, com a sua infalível superioridade moral, que é, na verdade, reveladora de uma confrangedora inferioridade cultural, já não ligo muito ao que sai da boca dos adeptos da visão “tudo faz sentido” da realidade. Em contrapartida, ouço tudo aquilo como a expressão possível, nos dias que correm, de uma visão primitiva e mítica do nosso mundo. Uma visão em que tudo se encontra intimamente ligado, de forma a que um mundo que é essencialmente fragmentado e atravessado por uma pluralidade de sentidos contraditórios apareça como expressão de um sentido único capaz de ser percebido por uma criancinha de cinco anos. E, nos meus melhores momentos, rio-me. Embirro solenemente, mas rio-me. Há algo de melhor para fazer? Apesar de tudo, o riso é também ele uma maneira, uma maneira indirecta, de fazer sentido, embora nos antípodas do fanatismo ambiente.

Proteger as famílias do totalitarismo de gênero

Na sua sanha “educadora”, a lei determina que avance uma brigada de formação para as escolas para assegurar que ninguém se afasta da nova “ortodoxia”. Artigo publicado pelo advogado Filipe A. Correia no Observador:


O que caracteriza as sociedades democráticas é serem abertas à diversidade de ideias. Por seu lado, a imposição de ideias discutíveis, pela via da autoridade estatal, é característico de um género totalitário.

O País acordou com o despacho recente do Governo em matéria de educação para a promoção da identidade de género. É também de Agosto (do verão passado) a lei do chamado direito à autodeterminação da identidade de género, que aquele despacho pretende agora regulamentar.

A propósito da lei, a maioria julgou que se tratava apenas de uma questão de permitir aquilo que cada um quer para si. Para mais quando se estabeleceu um procedimento minimamente formal para a “legalização” da alteração de género, que pressupunha alguma maturidade — o pedido apenas é admissível a partir da idade adulta ou, com intervenção dos representantes legais, a partir dos 16 anos.

Mas no meio daquela lei, e muito para além do direito de um jovem ou adulto poder querer alterar no registo o seu nome e o seu género, já se previa que as escolas, desde o 1.º ciclo de estudo, tomassem medidas concretas para promover a comumente chamada ideologia de género.

Se dúvidas houvesse bastaria esperar pela regulamentação da lei – esta tal que foi publicada agora — para que tudo ficasse claro.

E que ideologia é essa? Aquela que serve a ideia de que o género é matéria meramente volitiva ou de construção social. Que independentemente da idade e sem que se explique exatamente como é que isso se processa, a criança pode escolher (“autoatribuir”) um género, uma identidade, um nome, a casa de banho e o vestiário que pretende utilizar.

O entendimento subjacente à ideologia de género tem uma visão – chamemos-lhe filosófica, antropológica ou ideológica — que, por mais estranha que possa parecer à maioria dos mortais, certamente ninguém quer proibir de ser defendida. No entanto, deve ter o lugar que numa sociedade aberta se consagra a toda a diversidade: espaço para ser afirmada ou contestada, mas nunca imposta.

Ora o que se passa, pelo contrário, é que, na sua senda “educadora”, a lei determina que avance uma brigada de formação para as escolas para assegurar que ninguém se afasta daquela nova “ortodoxia”. E que a escola tem de se conformar com a linha ditada.

Da apropriação do combate à violência de género – combate que todos partilhamos — passou-se uma linha também ela violenta. E que linha é essa? A de que em matéria de educação, a liberdade tem de ceder diante de ideias que são no mínimo discutíveis. A linha de que basta a autoridade para se impor um caminho que assenta numa determinada concepção do corpo, da pessoa, da vontade e da liberdade. A de que o Estado se pode intrometer nas questões mais vitais, como se estivesse melhor colocado e soubesse avaliar melhor o que é bom para cada criança.

É natural que este combate indigne tantas famílias, pois o que está em causa são direitos elementares das crianças, que à família, em primeiro lugar, cabe proteger. É a Declaração Universal que determina que a família tem direito a ser protegida diante do Estado, Estado que, ao contrário do que estabelece a Constituição da República Portuguesa, está mesmo a programar a educação segundo diretrizes filosóficas, políticas e ideológicas.

Filipe Anacoreta Correia é advogado

Aviso ao esquerdismo difamador: os picos históricos de incêndios na Amazônia foram de 2004 a 2007.

Os maiores incêndios aconteceram no primeiro governo Lula, sob o silêncio de autoridades e celebridades que hoje berram contra o governo brasileiro:


O fogo que queima parte da vegetação da Amazônia, e cuja fumaça se espalha pelo país – e nas imagens de satélites captadas até mesmo pela Nasa –, catapultou o debate ambiental no Brasil a outro patamar. E ele vai além da argumentação sobre a soberania brasileira na região e o trabalho de organizações não governamentais (ONGs): expõe contingenciamento de verbas e respinga nas relações comerciais com outros países. Apesar da alta temperatura do debate, os números do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que o Brasil registrou, até esta sexta-feira, 76.720 pontos de queimadas no ano. Uma parcial bem distante dos picos históricos registrados em 2004 (380 mil focos), 2005 (362 mil) e 2007 (393 mil), durante os governos Lula.

A gestão do meio ambiente do novo governo é alvo de críticas de movimentos ligados à área ambiental. Por um lado, há um quê de excentricidade em determinadas ações, como a de transformar Angra dos Reis na Cancún brasileira. Mas, por outro, também já houve situações mais sérias, como a demissão de Ricardo Galvão da presidência do Inpe, por discordâncias sobre os dados de desmatamento.

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, já contestaram a veracidade de dados produzidos pelo próprio governo sobre desmatamento, criticaram políticas públicas de fiscalização, questionaram a atuação de entidades do terceiro setor (ONGs) e contestaram as doações bilionárias feitas por Alemanha e Noruega ao Fundo Amazônia.

Como o governo contestou dados do próprio Inpe, esta semana o Ibama lançou edital para compra de um novo sistema de monitoramento que o governo pretende adotar, com o propósito de apurar novas informações sobre o desmatamento na região amazônica. O ministério quer fazer a "prospecção de empresas especializadas no fornecimento de serviços de monitoramento contínuo", com o uso de imagens de satélites "de alta resolução espacial para geração de alertas diários de indícios de desmatamento (revisita diária)".

A discussão chega agora a um ponto crítico, tanto pelo impacto material das queimadas, quanto pelas incertezas políticas do porvir, que já somam até mesmo pedido de impeachment contra o ministro e ação de inconstitucionalidade contra o governo. Além disso, fragiliza a relação do governo com o Congresso: o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse em seu perfil pessoal no Twitter que a Casa vai criar uma comissão externa para acompanhar o problema das queimadas que atingem a Amazônia. Além disso, o parlamentar também informou que vai realizar uma comissão geral nos próximos dias para avaliar a situação e propor soluções ao governo.

As queimadas

Os números de focos de queimadas estão crescendo desde o começo do ano no Brasil quando é analisado o saldo mensal. De 1º de janeiro até o dia 23 de agosto foram contabilizados 76.720 focos, de acordo com dados do Programa Queimadas. Porém, quando analisado em comparação com a série histórica o panorama muda. No ano passado, foram registrados 132 mil focos de incêndio. A tabela do Inpe que registra o histórico de queimadas no país tem dados desde junho de 1998. Os picos históricos de focos de incêndio aconteceram nos anos de 2004 (380 mil focos), 2005 (362 mil) e 2007 (393 mil).

Duas semanas atrás, as queimadas fizeram o Amazonas decretar emergência no sul do Estado e na Grande Manaus. Semana passada, o Acre declarou alerta ambiental. O problema se alastra ainda em Mato Grosso e no Pará. As chamas também se espalham pelo Cerrado no Tocantins. Mas a situação é mais emblemática na Amazônia.

Imagem da Nasa captada nesta quinta-feira mostra focos de incêndio e fumaça em estados do Brasil, incluindo Amazonas, Mato Grosso e Rondônia.| Nasa/AFP
Nos oito primeiros meses de 2019, foram registrados 39.033 focos apenas no bioma amazônico. Esse número é superior ao que havia sido registrado em 2016, quando o país também enfrentava uma estiagem severa como a deste ano. Mas pesquisadores alertam que a seca não é a única explicação para o que está acontecendo.

O Mato Grosso, por exemplo, é o estado com mais focos – eram 13.682 até a segunda-feira (19). Um dos pontos de incêndio estava no Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, onde desde o dia 9 de agosto brigadistas do ICMBio tentavam conter as chamas na vegetação. O ministro Ricardo Salles passou pelo estado nesta quarta-feira (21) para acompanhar o trabalho de combate ao fogo.

Uma análise do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) sobre a temporada atual de fogo na região apontou que já é 60% superior à média dos últimos três anos e está sendo impulsionada pelo avanço do desmatamento. O grupo de pesquisadores, liderado por Divino Silvério, comparou os focos de incêndio registrados pelo Inpe com indicadores de alertas de desmatamento feitos pelo sistema de monitoramento por satélites SAD, do Imazon. Para eles, há forte correlação entre as duas atividades.

"Os dez municípios amazônicos que mais registraram focos de incêndios foram também os que tiveram maiores taxas de desmatamento", escreveram os autores em nota técnica. "Esta concentração de incêndios florestais em áreas recém-desmatadas e com estiagem branda representa um forte indicativo do caráter intencional dos incêndios: limpeza de áreas recém-desmatadas", apontam.

Para a diretora de Ciência do Ipam, Ane Alencar, não existe fogo natural na Amazônia. “O que há são pessoas que praticam queimadas, que podem piorar e virar incêndios na temporada de seca”, disse em informe divulgado à imprensa.

O presidente Bolsonaro, por exemplo, chegou a afirmar que há "indício fortíssimo de que ONGs estão por trás das queimadas". De acordo com o presidente, as ONGs "perderam dinheiro" e "estão desempregadas", por isso, teriam interesse em fazer uma campanha contra o governo.

Contingenciamento de verbas e programas em suspenso

O Ministério do Meio Ambiente, para se adequar ao contingenciamento de gastos do governo, teve bloqueados R$ 187 milhões, equivalente a 22,8% do total orçado para o ano. Um exemplo é o corte de verba para a Política Nacional sobre Mudança do Clima, que teve retida 95% da verba prevista para o ano – dos R$ 11,8 milhões orçados, sobraram apenas R$ 500 mil.

O Ibama teve um corte de 24% no orçamento. E aí muita coisa foi afetada, inclusive o Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo). A verba para construção de uma sede nacional do projeto foi cortada ao meio. Ações de prevenção e controle de incêndios florestais também sofreram com o congelamento de recursos – na casa de 40%, o equivalente a R$ 17,5 milhões.

Em tempos de ajustes nas contas públicas, o ministro Ricardo Salles classificou como insignificante o montante doado por Alemanha e Noruega ao Fundo Amazônia, que soma R$ 3,4 bilhões. As declarações sobre falta de governança e mudanças que serão impostas ao fundo motivaram a paralisação dos repasses dos dois países ao Brasil. Mas os projetos que já estavam em andamento continuam a pleno vapor. Um dos projetos tem um contrato de R$ 14,717 milhões, é válido até agosto de 2020 e financia ações federais de apoio ao combate aos incêndios.

Até dezembro do ano passado, R$ 11,721 milhões já haviam sido gastos pelo Ibama em operações de combate a incêndios na região, o equivalente a 80% do total obtido. Há no caixa, portanto, R$ 3 milhões para bancar ações do órgão. O plano desenhado com dinheiro dos europeus prevê que os combates em 2019 utilizem 12 caminhonetes adaptadas e dois caminhões adaptados tipo F-4000, já licitados e em fase de fabricação.

Repercussão econômica

Parte do discurso bolsonarista sobre a Amazônia é calcado na soberania do Brasil na região. O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, declarou na quinta-feira (21) que a Europa utiliza o discurso ambiental do desmatamento no Brasil para proteger sua própria produção. Segundo ele, "o Brasil desmata, mas não no nível e no índice que é dito" e os europeus têm dois motivos principais para atacar o país: confrontar os princípios capitalistas e impor barreiras ao crescimento brasileiro.

"O Brasil é um país que cuida muito bem do seu meio ambiente, não precisamos de lição de ninguém", disse, completando: "Não podemos ser ingênuos. Europeus usam questão do meio ambiente por duas razões: a primeira para confrontar os princípios capitalistas. Desde que caiu o muro de Berlim, uma das vertentes para a qual a esquerda europeia migrou foi para a questão do meio ambiente. E, segundo, impor barreiras ao crescimento e ao comércio com o Brasil, porque eles têm que proteger os produtores deles", disse.

A questão é que a troca de farpas públicas com os europeus pode ter um rescaldo econômico muito palpável. O acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, que levou 20 anos para ser fechado, prevê a adoção de cláusulas ambientais pelos países signatários. E as queimadas na Amazônia acenderam um alerta do outro lado do Atlântico.

O presidente da França, Emmanuel Macron, chamou a situação de "crise internacional". Ele afirmou que o tema deve ser discutido em reunião desta semana no G7 (grupo de países ricos, formado por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido).

"Nossa casa está queimando. Literalmente. A Floresta Amazônica – o pulmão do nosso planeta, que produz 20% do oxigênio do nosso planeta – está em chamas. É uma crise internacional. Membros do G7, vamos discutir essa emergência de primeira ordem daqui a dois dias", escreveu Macron em duas publicações seguidas, em francês e inglês, nas redes sociais.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, também foi ao Twitter dizer que está "profundamente preocupado" com os incêndios na Floresta Amazônica. “No meio da crise climática global, nós não podemos esperar mais prejuízos à maior fonte de oxigênio e biodiversidade. A Amazônia deve ser protegida”, escreveu.(Gazeta do Povo).

Relativismo pós-moderno: quando a narratividade substitui a objetividade.

Acaba de ser lançado no Brasil um novo livro de Gertrude Himmelfarb, Ao Sondar o Abismo, em que critica a produção acadêmica e cultural contemporânea, negadora de conceitos como objetividade, fato e verdade - fundamentais também para o jornalismo (como também analisei em várias artigos publicados há alguns anos). O professor Luiz Bueno resenha a obra, que já vai para a minha lista de leituras:


Uma excelente notícia para o Brasil: a editora É Realizações está lançando mais um livro da eminente historiadora norte-americana Gertrude Himmelfarb. Desta vez, trata-se do livro On Looking Into the Abyss: untimely thoughts on culture and society que sai no Brasil com o título Ao Sondar o Abismo – Pensamentos intempestivos sobre cultura e sociedade. 

Himmelfarb faz uma análise crítica de vários aspectos da produção intelectual, acadêmica e cultural contemporânea e procura avaliar o quanto esta produção sofreu o impacto e os efeitos da mentalidade e atitude pós-moderna e os seus possíveis efeitos sobre a sociedade.

A cultura, a filosofia, a literatura e a história. Estes e outros temas são abordados pela autora tendo como fio condutor de sua análise um conceito que ela obtém do crítico literário e seu amigo, Lionel Trilling. Um conceito tão fundamental que ela o considera o alicerce destes seus textos: o realismo moral. Este conceito é uma forma aplicada de um outro ainda mais amplo e anterior, que remonta ao grande pensador e figura política britânica do final do século XVIII, Edmund Burke. 

Este conceito, Burke o funda quando faz a sua tão acurada crítica à revolução francesa, na obra que o consagrou definitivamente como grande intelectual, Reflexões Sobre a Revolução na França (Edipro). Em uma síntese muito breve, a imaginação moral, segundo Burke, é aquilo que nos capacita a ver o valor de um ser humano para além de sua materialidade como ser vivo; é a capacidade de produzir a imagem, o sentimento e até mesmo a ideia de que aquilo que realmente importa em nossa vida está para além do simples fenômeno, está no campo interno do sentimento e do intelecto, mas também está na história, na tradição, na cultura acumulada nos séculos. A vida de um indivíduo e de um povo possuem um valor que ultrapassa a sua presença empírica. As artes, a inteligência, a moral, a dignidade humana, a bondade, o heroísmo, a honestidade, a graça, a própria noção de civilização, são aspectos perceptíveis apenas na presença da imaginação moral.

Himmelfarb afirma que Trilling lhe proporcionou a noção derivada que é o realismo moral, significando o exercício da capacidade intelectual de explorar a riqueza e os perigos inerentes à nossa inclinação a achar que, ao agir a partir destas ideias, estamos fazendo o bem. Trilling pensa, por essa razão, que a literatura é uma das grandes ferramentas para este exercício. Daí a conexão que ele faz entre literatura e política.

Na sua obra, o realismo moral de Trilling é a ideia central que Himmelfarb utiliza para avaliar vários segmentos da produção intelectual contemporânea. Adotando a perspectiva de Trilling, ela explora este duplo aspecto que a reflexão realista moral revela, permitindo-lhe entender o quanto a sociedade é afetada pelos resultados das ideias e atitudes geradas pela intelectualidade, especialmente aquela que se assume pós-moderna. Nos vários capítulos do livro, a ênfase é colocada pela autora no aspecto dos riscos morais decorrentes deste pensamento pós-moderno.

A ideia de sondar ou olhar diretamente o abismo estando na sua borda, obtida de Trilling, é uma alegoria que remete à atitude pós-moderna de assumir uma postura extremamente relativista e niilista e a consequente “arrogância intelectual e empobrecimento espiritual de algumas das últimas tendências da crítica literária, da filosofia e da história”. Esta atitude não vem sem ser seguida de seus perigosos efeitos. Destes, vamos neste momento tomar a preocupação que Himmelfarb expressa quanto à história. Esta reflexão, esperamos, pode ajudar a entender a dificuldade presente em lidarmos com noções tão fundamentais não só para a produção acadêmica, mas também a jornalística, que são o fato, a objetividade e mesmo a verdade. E para tratar destas ideias em seu sentido preciso e originário, estes termos são usados por ela sem as famigeradas aspas, exatamente para não recair no relativismo pós-moderno que critica. 

Himmelfarb diz que o risco de que a desconstrução da História produza o revisionismo que nega a realidade do Holocausto surge em cena, de forma similar, na filosofia e na crítica literária, através da ideia de que “não há realidade, apenas a linguagem: não há filosofia, mas tão somente jogos mentais; não há moralidade, mas somente retórica e estética”.

Mas, este estágio se torna ainda mais radical pois, como a autora aponta, “O pós-modernismo (…), (n)a filosofia, é a negação da imutabilidade da linguagem, de qualquer correspondência entre linguagem e realidade – na verdade, de qualquer realidade ‘essencial’ e, portanto, de qualquer verdade imediata acerca da realidade”.

Uma tal ideia, quanto atinge a História, produz um efeito análogo. A história modernista, diz Himmelfarb, não desejava uma verdade imutável sobre o passado. Ela era capaz de ser relativista sem perder o vínculo com a realidade, ela era “cética com relação à verdade absoluta, mas não com relação a verdades parciais, contingentes, incrementais”. Já o historiador pós-moderno, por supor que não há verdade absoluta, também pensa que não podem existir verdades parciais, contingentes. Para o historiador pós-moderno, seria necessário abandonar de vez qualquer ilusão de verdade, dada a sua inutilidade.

A história crítica se fundava na busca dos indícios fundamentados, na pesquisa das fontes primárias, na verificação da autenticidade dos documentos, sua metodologia se baseava neste “cânone dos indícios”. O historiador sabia que não poderia supor uma verdade única e definitiva sobre os fatos históricos e por isso, humildemente, tentava uma aproximação contínua e cada vez maior ao dado histórico bruto, sabendo ser ele sempre instável e fugidio, mas não se rendendo a estas dificuldades. Estas, diz a autora, fizeram com que a profissão criasse mecanismos de freios e contrapesos projetadas para compensar as dificuldades e deficiências tanto do historiador quanto do relato histórico.

Porém, diz ela, “onde o modernismo tolera o relativismo, o pós-modernismo o celebra”. A rejeição de toda verdade é, para o pós-modernista, uma espécie de libertação da exigência e da obrigação de manter certa objetividade. É desta atitude pós-moderna que vem o relaxamento quanto à imparcialidade. A parcialidade do historiador começa a ser vista como virtude pelos pós-modernos. A história cada vez menos se prende ao fato e cada vez mais se aproxima da linguagem. A história vai sendo pensada cada vez menos como relato objetivo e cada vez mais como narrativa. Toda história é composta por nada mais do que “criações retóricas, literárias e estéticas do historiador”. Tomando Nietzsche como uma espécie de patrono da perspectiva individual, e os desconstrucionistas como os gurus dessa nova subjetividade, os historiadores puderam, enfim, libertar-se da tirania do fato e dar vazão a sua capacidade de elaborar experiências estéticas, narratividades, fruto da sua “imaginação histórica”, de sua “criação imaginativa”, podendo, assim, ir muito além de documentos e fatos. O “fetiche do fato” estaria, finalmente, superado.

Então, se as narrativas históricas são elaborações e artifícios históricos, “modos de enredamento”, se não há “fatos” aos quais ser fiel, não se pode esperar extrair deles nenhuma “verdade” (agora, as aspas dominam a cena), não há, sequer, um método que seja o preferido na escrita da narrativa histórica.

Bem, segundo a preocupação expressada por Himmelfarb, um dos efeitos dessa atitude é a eliminação da factualidade do Holocausto, por exemplo. Se é difícil para os novos historiadores fazerem a distinção entre fato e ficção, pois agora o que impera é a história ficcional (que não é a mesma coisa que ficção histórica), não é de se admirar que acontecimentos e pessoas sejam transformadas em textos, que o passado seja despojado de qualquer realidade objetiva e que se turve a distinção entre história e ficção. Se isto é assim, onde ficam as milhões de vítimas do Holocausto? A qualquer fato ou povo a que se aplique esta perspectiva, o efeito será a desumanização das pessoas. O relativismo cultural, associado a esta perspectiva, que particulariza os povos e suas histórias, elimina a possibilidade de se pensar uma história comum à humanidade. A trivialização da história apenas faz com que esta perca sua coerência e, como consequência, perca todo o seu significado.

Estas considerações sobre esta nova concepção de história que Himmelfarb faz neste livro, servem como elementos para que se possa compreender a situação corrente em que termos como pós-verdade ou fake news invadem o espaço público, os meios de comunicação, as redes sociais, as salas de aula. Este fenômeno, ou ao menos esta situação presente, não decorre apenas das novas tecnologias e a facilidade que elas oferecem para se inventar narrativas, de se deturpar fatos, de se criar notícias sem base real. Esta situação já vinha sendo produzida na medida mesma em que o compromisso com a verdade, com o dado objetivo, com o fato, com a imparcialidade, foi sendo trocado pela liberdade da criação, pela moda ideológica da experiência subjetiva, pela preferência da criatividade em detrimento da realidade.

No final, o efeito perverso é sempre a desumanização das pessoas. Quanto mais literário é o olhar sobre a história, menos pungente é o sofrimento das pessoas no passado, mais distantes ficam elas à medida em que se convertem em “texto”, em “narrativas”.

Na Introdução ao seu livro, Himmelfarb nos deixa esta sua impressão, que talvez apresente com precisão sua reflexão, como um chamado à consciência e à responsabilidade, especialmente daqueles que se dedicam à produção de conhecimento e de informação, em um tempo em que muitos acadêmicos e jornalistas estão mais focados em criar e dominar narrativas do que propriamente investigar e descrever a realidade:

“Talvez este livro devesse ser chamado de ‘Confissões de uma pedante incorrigível’, pois é dedicado à proposição de que existem coisas como verdade e realidade e de que há uma ligação entre elas, como há uma conexão entre sensibilidade estética e imaginação moral, entre cultura e sociedade. Todos repetimos, da boca para fora, o adágio ‘ideias têm consequências’, mas somente in extremis o levamos a sério, quando as ideias de Stálin ou de Hitler se transformam em realidades como gulags e campos de concentração. A premissa deste livro é a de que bem antes de tais situações terríveis existe um relacionamento íntimo e difuso entre o que acontece em nossas escolas e universidades, nas comunidades intelectuais e artísticas, e o que acontece na sociedade e na política”. (Estado da Arte).

Luiz Bueno é Doutor em Ciências da Religião pela PUC-SP. Professor de Filosofia na FAAP.
Coordenador do Núcleo de Filosofia Política do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia-LABÔ da FUNDASP/PUC-SP.

Seis leituras para compreender a relação entre ideologia e ecologia

Do caderno Ideias, da Gazeta do Povo, uma lista de livros para compreender o catastrofismo ambiental contemporâneo, que reflete mais ideologia do que ciência:


De um lado, ecocatastrofistas dizendo que a Amazônia será toda destruída pelo desmatamento promovido pelo governo do presidente Jair Bolsonaro em conluio com o agronegócio. De outro, negacionistas argumentando que tudo não passa de um plano globalista para conquistar a nossa Amazônia. No meio disso tudo, o cidadão comum que não sabe direito a quem ouvir e, perdido, se torna suscetível a notícias falsas, dados manipulados e análises ideologicamente tendenciosas.

A seguir, a Gazeta do Povo cita seis livros que podem ajudá-lo a compreender o movimento ecológico contemporâneo.

Agradeça aos agrotóxicos por estar vivo, de Nicholas Vital

Neste livro, o jornalista Nicholas Vital derruba mitos sobre a injustiçada química utilizada no campo. Um dos mitos por ele contestados é o de que o brasileiro consome 5,2 litros de agrotóxicos por ano e de que nossas frutas e verduras estão contaminadas por substâncias venenosas. O livro procura mostrar que, sem os agrotóxicos, a agricultura industrial seria inviável – sobretudo num país tropical cheio de pragas como o Brasil. E, sem uma agricultura industrial, a comida que nos chega à mesa todos os dias seria muito mais cara e possivelmente inacessível à maioria dos brasileiros.

Filosofia Verde, de Roger Scruton

Neste livro o filósofo Sir Roger Scruton analisa como o tema do meio-ambiente foi cooptado pela esquerda, que considera que as principais ameaças ao planeta partem do capitalismo, do consumismo e da exploração exagerada de recursos naturais. Ao apontar a falácia por trás dessa ideia, Scruton argumenta que o meio ambiente é o problema político mais urgente de nossa época.

Manual Politicamente Incorreto da Ciência, de Tom Bethell

O alvo deste “manual” é o cientificismo. O livro mostra como instituições, grupos e indivíduos, em nome da ciência, tentam estabelecer uma pauta não-científica, com matizes ideológicos, financeiros e religiosos. Para Tom Bethell, existe toda uma mitologia científica envolta numa aura de objetividade, mas que na verdade é fruto não de experiências e comprovação empírica, e sim de acordos políticos.

Breve História de Quase Tudo, Bill Bryson

Neste livro, Bill Bryson não aponta nenhum caminho, mas coloca dúvidas na cabeça de todo mundo ao mostrar que teorias científicas hoje aceitas como fatos (como, por exemplo, a teoria de que um meteoro provocou a extinção dos dinossauros e a de que o aquecimento global é causado pelo homem) não passam de teorias e são, portanto, tema de debates acalorados nos meios científicos.

O Império Ecológico, de Pascal Bernandin

Neste livro, Bernandin faz uma pesquisa aprofundada, usando principalmente documentos oficiais de órgãos internacionais, para mostrar o lado totalitário do movimento ecológico contemporâneo. Ele questiona teorias tidas como verdades pela maioria das pessoas, como o buraco na camada de ozônio. O autor ainda critica a perspectiva holística do ecologismo e suas consequências.

Psicose Ambientalista, Bertrand de Orleans e Bragança

Neste livro, o autor, que por acaso também pertence à família imperial brasileira, revela todo o viés ideológico do ambientalismo, que seria um movimento nascido do comunismo, hostil à propriedade privada e ao conforto propiciado pelo capitalismo. Desse modo, o movimento ecológico se transformou numa espécie de religião cujos profetas são os cientistas e suas teorias.

BNDES: a dimensão mundial da roubalheira petista.

O megalonanico chanceler Amorim e Lula em Gana.
A roubalheira petista tem alcance internacional, sempre saqueando O BNDES: PT ficou com quase meio bilhão de reais. Reportagem da revista Veja desta semana:


Homologada recentemente pela Justiça Federal e com detalhes antecipados pela coluna Radar, de VEJA, a delação de Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil nos governos Lula e Dilma, traz no capítulo 21 uma descrição completa do esquema de roubalheira internacional montado pelo PT para obras realizadas em países como Gana, Venezuela, Cuba e Angola. Lula fazia os acertos com as autoridades estrangeiras e mandava a conta para o BNDES. Em troca dos juros camaradas do banco e do acesso aos mercados de fora, as empreiteiras superfaturavam o trabalho para poder irrigar o caixa petista com o pagamento de propinas. Antes da assinatura dos contratos já se sabia que muitos dos governos amigos não pagariam a conta. E como essa fatura tem sido quitada até hoje? Com o seu, o meu, o nosso dinheiro. Alguns projetos nem foram finalizados. Ficaram no lucro as construtoras e, é claro, o PT.

Segundo pessoas que tiveram acesso à delação e foram entrevistadas por VEJA, embora careça de provas, o testemunho de Palocci contém as peças que faltavam no quebra-cabeça da pilhagem nas obras internacionais do BNDES, abrindo essa parte da caixa-­preta do banco. Ele mesmo uma peça importante no esquema, intermediando conversas com as construtoras envolvidas, o ex-ministro conta como as ordens de Lula chegavam, qual era a exata divisão do butim entre as empreiteiras e o porcentual de propina cobrado em cada projeto. Todas essas informações permaneciam inéditas, assim como a soma da roubalheira. Somente nesse pacote de contratos no exterior firmados entre 2010 e 2014, as empreiteiras nacionais faturaram mais de 10 bilhões de reais e pagaram propinas ao PT no valor total de 489 milhões de reais.

 
O esquema no BNDES era complexo e, diferentemente do que ocorria no mensalão e no petrolão, sua operação ficava restrita à alta cúpula do partido. Tudo começava com uma visita de Lula a um mandatário amigo, como o angolano José Eduardo dos Santos ou o ganês John Kufuor. O petista e os presidentes companheiros fechavam um compromisso de ajuda financeira e, ato contínuo, representantes do famoso clube das empreiteiras — Odebrecht, Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez, OAS — visitavam os gabinetes dessas autoridades no exterior por meio de missões organizadas pelo Itamaraty e fechavam projetos a ser financiados pelo BNDES. O presidente do banco — primeiro Guido Mantega, depois Luciano Coutinho — aprovava o repasse da verba. Na sequência as construtoras entravam com processo a fim de obter os seguros necessários para tocar os trabalhos por meio do Fundo de Garantia à Exportação (FGE), os quais eram aprovados prontamente pelos ministros da Camex. As empreiteiras, então, pagavam ao PT e às autoridades dos países onde haviam conseguido o projeto. Parte do esquema já tinha sido revelado pelas delações de Marcelo Odebrecht e Otávio Marques de Azevedo, da Andrade Gutierrez.

Do total de 489 milhões de reais em propinas pagas à alta cúpula petista entre 2009, no fim do segundo mandato de Lula, e 2014, ano em que culminou a reeleição de Dilma Rousseff, 364 milhões vieram da Odebrecht. Mais 100 milhões de reais saíram dos contratos da Andrade Gutierrez, que pagava um “pedágio” de 1% em cada um deles. A Queiroz Galvão tinha um acordo diferente: superfaturava em 10% suas obras, que renderam 25 milhões de reais ao esquema petista. Nunca na história deste país havia se montado uma estrutura tão grande e complexa para arrecadar propinas com obras no exterior com a ajuda do BNDES.

 


A pedra fundamental da roubalheira foi lançada em 15 de dezembro de 2009, quando quatro ministros, um secretário e dois assessores especiais sentaram-se à mesa da sala contígua ao gabinete de Miguel Jorge, então chefe da pasta do Desenvolvimento. Além de Jorge, que comandava a Camex, estavam presentes os ministros Paulo Bernardo (Planejamento), Antônio Patriota (Itamaraty) e Reinhold Stephanes (Agricultura); o secretário Nelson Machado (Fazenda); e os assessores Laudemir Müller (Desenvolvimento Agrário) e Sheila Ribeiro (Casa Civil). Na tarde daquela terça-feira, os oito aprovariam financiamentos estapafúrdios para Odebrecht, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão em quatro países: Cuba, Gana, Moçambique e Nicarágua. O custo dos projetos discutidos naquele dia somava 1,2 bilhão de dólares — em valores atualizados, aproximadamente 4, A pedra fundamental da roubalheira foi lançada em 15 de dezembro de 2009, quando quatro ministros, um secretário e dois assessores especiais sentaram-se à mesa da sala contígua ao gabinete de Miguel Jorge, então chefe da pasta do Desenvolvimento. Além de Jorge, que comandava a Camex, estavam presentes os ministros Paulo Bernardo (Planejamento), Antônio Patriota (Itamaraty) e Reinh 8 bilhões de reais. Todos renderam depois propinas ao PT e nenhum deles possuía justificativa técnica para ser aprovado.

Para Gana, país que quatro anos antes fora visitado por Lula e agraciado com uma linha de crédito no BNDES, foi aprovado o financiamento de 250 milhões de dólares para uma hidrelétrica que, um mês depois, soube-se que era impossível construir. A área de alagamento da barragem ultrapassaria a fronteira com o vizinho Togo, que não havia sido consultado. O contratempo não atrapalhou os planos de ninguém. Alguns meses depois, a obra foi simplesmente substituída por uma estrada de terra de 100 quilômetros, com o custo reduzido em exíguos 10 milhões de dólares. Ou seja, o negócio custou apenas 4% do valor de uma usina. A roubalheira era descarada e desafiava a lógica.

 
Como isso foi aprovado? A Andrade Gutierrez justificou o alto valor com dois tópicos: “benefícios e despesas indiretas”, o que correspondia a 33% do total, e “contingências e custos comerciais”, o equivalente a 7%. O corpo técnico do BNDES questionou a empresa sobre o que, exatamente, significavam as duas rubricas. A desculpa apresentada — e prontamente aceita pelos ministros da Camex — foi que os custos eram “compatíveis com as dificuldades com que as empresas estrangeiras podem se defrontar na operação em um novo mercado”. Na verdade, todas as reuniões e trocas de memorandos não passavam de jogo de cena. Já se sabia desde o começo que o negócio deveria ser autorizado, por mais absurdo que fosse. A prioridade, agora se confirma, era encher o caixa do PT.

A Odebrecht conseguiu aprovar um aditivo de 128 milhões de dólares para a construção da zona de desenvolvimento ao redor do célebre Porto de Mariel, em Cuba, e mais 300 milhões de dólares para duas obras em Moçambique: o Aeroporto de Nacala (entregue em 2014) e o Porto da Beira (que jamais saiu do papel). A hidrelétrica Tumarín, um projeto da Queiroz Galvão que contaria com a participação da Eletrobras para a construção na Nicarágua — uma promessa pessoal de Lula ao presidente Daniel Ortega —, não se materializou. O problema é que nem o regulamento do BNDES (por falta de garantias) nem a Eletrobras (por se tratar de um investimento no exterior) permitiam a empreitada, avaliada em 512 milhões de dólares. Mas um recado da Casa Civil, à época chefiada por Dilma Rousseff, destravou o negócio: “A Presidência da República tem todo o interesse nesse empreendimento”.

 

Digitais da negociata foram detectadas pela primeira vez por uma investigação iniciada nos Estados Unidos, onde a Eletrobras teve a transação de seus papéis na bolsa de Nova York interrompida justamente por suspeita de fraude. A empresa perdeu mais de 600 milhões de reais devido aos esquemas criminosos em que se envolveu. Para se livrar do imbróglio, a companhia precisou contratar, ao custo de mais de 400 milhões de reais, o escritório Hogan Lovells, que detectou mais de 200 milhões de reais em propinas — só na construção-fantasma de Tumarín foram 25 milhões de reais.

Mas por que esses financiamentos eram liberados na Camex, e não dentro do próprio BNDES? A explicação: quem aprova ou reprova a liberação de verbas do banco a projetos internacionais é o Comitê de Financiamento e Garantia das Exportações (Cofig), formado por representantes técnicos e políticos. No entanto, as regras do órgão dizem que a aprovação dos repasses precisa ser unânime, e seus integrantes, quando deparavam com projetos, digamos, suspeitos, jogavam os processos para a Camex. Nas trinta atas obtidas por VEJA com exclusividade, que cobrem as reuniões entre 2007 e 2011, nenhum financiamento foi recusado.

 

O caso mais famoso envolve um dos grandes filões internacionais da Odebrecht: Angola. O país, que era comandado por José Eduardo dos Santos desde 1979, absorvia 19% de todas as exportações de engenharia feitas pelo Brasil até 2009 — um valor que já superava 1 bilhão de dólares. A Odebrecht era dona de 85% dessa carteira — e queria mais. O Cofig teimava em dizer que Angola não dispunha mais de crédito perante o Brasil, pois o país estava inadimplente com o BNDES. Lula não queria saber. Ele receberia o ditador angolano em Brasília e pretendia, no final do encontro, anunciar a extensão da linha de crédito. Em agosto de 2010, há a aprovação de mais 200 milhões de dólares em crédito para o país africano, e Lula recebeu um forte abraço de seu amigo.

O apetite da Odebrecht era tão grande que já incomodava Palocci. Apesar de ser ele o arrecadador oficial da campanha de Dilma Rousseff, foi Paulo Bernardo, ministro do Planejamento de Lula, quem procurou Marcelo Odebrecht em 2011 para cobrar os 64 milhões de reais devidos pelo negócio realizado com Angola. Palocci se dizia cansado de ver a Odebrecht monopolizar os contratos naquele país e havia prometido a outras construtoras pedaços maiores do bolo de obras angolanas. Palocci, na verdade, não sabia que essa batalha estava perdida. Nos últimos dias de dezembro de 2010, quando Lula já se retirava do Palácio do Planalto, Emílio Odebrecht recebeu do filho, Marcelo, uma pauta com assuntos para tratar com o presidente. Emílio deveria abordar diversos contratos e discutir a continuidade do apoio à empreiteira. Emílio garantiu que seria mantida a “amizade”. Naquela mesma noite, fechou o acordo de 300 milhões de reais para as eleições de Dilma. A maior parte via caixa dois. As propinas internacionais, como se sabe agora, foram importantes para tornar essa amizade mais sólida — e lucrativa.

Publicado em VEJA de 28 de agosto de 2019, edição nº 2649

Liberdade econômica finalmente será a lei

A segurança jurídica e a facilidade no ambiente de negócios são aspectos fundamentais para que o investimento retorne de vez ao país. Editorial da Gazeta do Povo:


Na noite de quarta-feira, o Senado aprovou o texto da MP da Liberdade Econômica, que tinha sido assinada pelo presidente Jair Bolsonaro no fim de abril e havia sido votada pela Câmara há uma semana. Os senadores retiraram do texto o artigo que tratava do trabalho aos domingos, mantendo a regra atual sobre o tema, mas a MP não precisou ser devolvida aos deputados sob a alegação de que se tratava de “matéria estranha”, o conhecido “jabuti”. A alegação evita a necessidade de uma segunda votação na Câmara – agora, só falta a sanção de Bolsonaro –, mas abre um flanco para que outros dispositivos da MP que tratam de leis trabalhistas acabem derrubados no Judiciário, por mais que a legislação trabalhista não deixe de ter forte influência sobre a liberdade econômica.

Ainda que outros trechos relativos à CLT sejam excluídos pela Justiça, o coração da MP permanece, agora cristalizado em lei: a Declaração de Direitos da Liberdade Econômica e as regras que coíbem o chamado “abuso do poder regulatório”. São elas que estabelecem um novo marco, baseado na confiança e na atuação subsidiária do Estado, que permitirá ao empreendedor, especialmente ao pequeno empresário em atividades consideradas de baixo risco, levar adiante seu negócio sem a coleção infindável de exigências e burocracias que amarravam o funcionamento das empresas até então.

Mas a liberdade econômica no Brasil não se construirá da noite para o dia, com a sanção de uma lei. Do ponto de vista formal, porque ainda há pontos do texto que necessitarão de regulação, ainda por ser feita. E, do ponto de vista cultural, porque há toda uma mentalidade que precisa ser mudada, especialmente da parte do poder público, acostumado a hiper-regulações e à criação de todo tipo possível de dificuldades à atividade econômica. Não será de todo surpreendente se empresários tiverem de ir à Justiça para conseguir garantir os direitos previstos pela nova lei, diante da insistência de governos e órgãos públicos em exigir algum papel ou alvará.

Em entrevista à Gazeta do Povo, o diretor federal de Desburocratização do Ministério da Economia, Geanluca Lorenzon, afirmou que alguns pontos da MP que caíram pelo caminho deverão ser retomados em projeto de lei. Além disso, o ministério já tem em mente novas microrreformas e uma grande reforma administrativa que diminua e racionalize a estrutura do Estado brasileiro, outra necessidade inadiável e que vem na esteira do redução no primeiro escalão que começou a ser promovida ainda no governo de Michel Temer e ganhou impulso após a eleição de Bolsonaro.

O secretário de Desburocratização, Paulo Uebel, chegou a afirmar que apenas as novas regras de liberdade econômica poderão gerar 3,7 milhões de empregos e aumentar o PIB em 7%, tudo isso em um período de dez anos. Isso, argumenta, porque ficará mais fácil abrir e gerenciar novas empresas, criando emprego e renda. A segurança jurídica e a facilidade no ambiente de negócios são aspectos fundamentais para que o investimento retorne de vez ao país, mas também precisamos de um Estado muito mais enxuto, que gasta menos do que arrecada, e que não onera excessivamente o setor produtivo nacional – em outras palavras, um país cuja saúde fiscal deixe os investidores tranquilos quanto ao destino de seu dinheiro. Esses objetivos só serão conseguidos com a aprovação de novas reformas, algumas das quais já estão tramitando no Congresso, como a previdenciária e a tributária.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Bolsonaro e FHC: juntos pela Argentina.

Coluna de Alexandre Garcia, publicada pela Gazeta do Povo nesta sexta-feira:


Bolsonaro e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso estão unidos em relação às eleições na Argentina. Fernando Henrique participou de um debate no jornal Clarín, de Buenos Aires, e disse que Cristina Kirshner – que tem um poste a acompanhando – não é uma boa para Argentina porque é uma solução populista que dificilmente dará certo. Quem está no caminho certo é o Macri.

FHC repete mais ou menos o que disse Bolsonaro, com a diferença de que o presidente disse isso com mais entusiasmo e dramaticidade, comparando a Argentina com a Venezuela se acontecer uma vitória do peronismo-kirshnerismo-populismo que representa a chapa do candidato Alberto Fernández com a vice Cristina Fernández de Kirchner.

Base de Alcântara

Por 21 votos a seis, a Comissão de Relações Exteriores do Senado aprovou a tese do governo sobre a salvaguarda tecnológica para uso norte-americano da nossa Base de Lançamentos Espaciais de Alcântara. Para os americanos é uma grande vantagem porque estarão mais perto da Linha do Equador, e gastarão menos combustível para chegar à órbita. Assim, é possível sair com mais velocidade da Terra, devido à localização.

Nós também vamos ganhar com isso: com salvaguardas e transferências tecnológicas, e a locação da base, que sofreu uma trágica explosão há alguns anos, ficando relegada ao desuso. Agora a base vai ser usada de novo, e isso faz parte da nossa aproximação com os americanos.

Trabalho aos domingos

O domingo caiu fora da aprovação da MP da Liberdade Econômica porque a senadora Simone Tebet (MDB-MS) disse que não se tratavam de mudanças trabalhistas, e isso não poderia ser mexido. Ela foi acompanhada por Renan Calheiros (MDB-AL), pelo Antonio Anastasia (PSDB-MG), pelo José Serra (PSDB-SP) e por outros senadores. Então o domingo saiu da medida provisória.

O fato é que se ninguém trabalhar no domingo, ninguém compra nada. Ninguém vai ao shopping, ninguém vai ao mercado, ninguém vai ao cinema, ninguém abastece o carro. Tem gente que só dispõe do domingo para receber serviços ou fazer compras. Em algumas atividades, no domingo cresce o faturamento que paga os salários daqueles que trabalham nesse dia.

Eu também quero falar sobre a Amazônia

O assunto recrudesceu. O Papa disse que líderes mundiais têm que salvar a Amazônia. Agora o Emmanuel Macron, presidente da França, diz que o Grupo dos 7 (G7) tem que dar uma solução porque está “queimando a nossa casa” (ele já está morando na Amazônia?!).

A gente não reclamou quando queimou a Catedral de Notre-Dame e disse: “Olha, está queimando a nossa igreja”. Essa é uma igreja patrimônio da humanidade, mas é da França - e a gente tem que respeitar, claro, assim como a gente não se mete nos assuntos e escândalos do Vaticano. Mas, enfim... Isso nos dá uma sacudida.

É sim uma conspiração, uma cobiça de olho nas riquezas do subsolo e do suprassolo. Mas é também uma falta de cuidado de brasileiros – e se fazem isso de propósito, isso é criminoso; e se é criminoso tem que prender e mostrar os presos, e submetê-los à Justiça e às leis ambientais.

A Amazônia é grande, mas pode-se correr atrás. Temos as polícias estaduais, as guardas florestais, a guarda nacional, o Exército, a Marinha, a Aeronáutica. Temos que cuidar da Amazônia para nós, e para cuidar de nós mesmos.

Então para mostrar que a Amazônia é nossa e que eles não têm que meter o bedelho nem o nariz aqui, a gente tem que cuidar também da Amazônia. Agora, a gente tem que mostrar também para o senhor Macron que não é o pulmão do mundo como ele diz. Isso era coisa que se dizia antigamente. Agora todo mundo sabe que essa fotossíntese é produzida por algas que fazem a grande produção de oxigênio do planeta. Se não fosse assim, não haveria oxigênio no deserto do Saara.

Por último...

Gostaria de contar que muitos senadores estão arrependidos de deixarem ter saído do Senado essa lei maluca que constrange a justiça e os juízes, promotores e policiais e protege os vigaristas e corruptos. Passou pelo Senado, passou pela Câmara naquela votação simbólica – e agora está com o presidente. E um grande número dos senadores fizeram um manifesto dizendo que o Governo pode vetar que os vetos não serão derrubados.

Alguém tem fogo aí?


Índia acusa baderneiros de tocar fogo na Amazônia

Os misericordiosos de galinheiro choram a salvação de 37 reféns

A turma que torce pelo bandido não se conforma com a morte do sequestrador do ônibus no Rio. Augusto Nunes, no alvo:


Sabe aquele momento do filme em que um homem da lei elimina o sequestrador, os reféns escapam ilesos e os espectadores normais vibram com o triunfo do bem? Como se viu nesta semana, é nessa hora que caem na choradeira pela morte do bandido os devotos de Lula aninhados no PT, no PSOL, no PCdoB, nos “movimentos sociais” e, claro, na imprensa.

“PM mata homem que manteve passageiros de ônibus reféns na ponte Rio-Niterói”. Não havia na história, portanto, um criminoso com um isqueiro na mão, pronto para incendiar o cárcere improvisado cujo piso cobrira com gasolina. Havia apenas um homem, talvez brincando de carcereiro. “Atirador de elite salva a vida de 37 reféns ao atingir sequestrador no Rio”, corrigiu o Diário do Poder.

Aos olhos dos misericordiosos de galinheiro, o vilão da história não foi Willian Augusto da Silva, responsável por quatro horas de terrorismo explícito. Foi Wilson Witzel, que ousara festejar o desfecho do drama. Acusado por jornalistas e políticos de festejar a morte do bandido, o governador restabeleceu a verdade: “Comemorei a vida”, declarou, solidário com os 37 sobreviventes.

A polícia deveria negociar com o sequestrador até vencê-lo pelo cansaço, ordenaram jornalistas que também sublinharam os distúrbios mentais que aparentemente afetavam Willian. Todo candidato a assassino é ruim da cabeça, e negociar com gente assim jamais conduz a um final feliz. Quem duvida disso deveria tentar algum entendimento com os companheiros do Estado Islâmico.

A seita que torce por bandidos precisa programar mais uma missa negra no 7* dia da morte do homem executado por um policial. Como o principal pregador está engaiolado, e certamente lamenta a perda do colega, o sermão poderia ser substituído por gritos de “Lula Livre”.

Assalto anunciado (R$ 2 bi)

Quando os parasitas do Congresso Nacional surgem, de cara lavada, propondo garfar mais 2 bilhões de reais do contribuinte para financiar sua panfletagem, o Brasil boceja. Coluna de Guilherme Fiuza, via Forbes:


O Brasil tem se mobilizado por uma série de causas. Dos bares aos meios acadêmicos se debateu exaustivamente, por exemplo, se azul é para meninos e rosa para meninas, se pode ser o contrário ou se deve ser o contrário. O país discutiu apaixonadamente também se era para cantar o Hino Nacional nas escolas ou não. Mas, quando os parasitas do Congresso Nacional surgem, de cara lavada, propondo garfar mais 2 bilhões de reais do contribuinte para financiar sua panfletagem, o Brasil boceja.

Em plena crise fiscal, onde se viu gente dizendo que se tirassem mais um centavo da reforma da Previdência ela seria inútil, R$ 2 bilhões passam assobiando na cara de todo mundo, numa boa. É o assalto sobre o assalto. Depois de arrancar as calças do país regendo um cartel de empreiteiras para ordenhar os cofres públicos, os maestros do petrolão propuseram a proibição da doação eleitoral de empresas – olha como eles são éticos e progressistas (de pança cheia). Vieram com aquele papo choroso de que “o poder econômico corrompe a democracia” etc – como se várias democracias sólidas não permitissem que empresas financiassem partidos.

O problema, naturalmente, não é a empresa – é a corrupção. Quando a vocação é forte, até as almas mais honestas e puras vendem seu corpinho por aí, como ficou demonstrado. E por que o capital não pode, dentro da lei, fazer escolhas políticas? O poder de influência de um artista famoso não é, também, um capital eleitoral decisivo? Alguém pensou em proibir cantor de MPB de usar seu prestígio e popularidade para fermentar candidatos picaretas apanhados pela Lava Jato?

Por acaso, é a mesma quantia que a Lava Jato conseguiu que fosse restituída pelos meliantes aos cofres públicos este ano: entram 2 bilhões de reais recuperados pelos homens da lei, saem 2 bilhões de reais garfados pelos homens sem lei – ou pior, sem inibição para retocar a lei como quem retoca a maquiagem democrática.

O Rui Barbosa do Centrão já está em todas as manchetes amigas dizendo que o saque bilionário é essencial para a democracia. Vai engolir mais essa, Brasil?

Sequestro da inteligência na redação

Essa maldita ideologia queima neurônios. Constrói frases sobre a arma de brinquedo, sobre a doença mental do sequestrador e sobre suas intenções no momento do tiro. São ponderações tão sem pé nem cabeça que parecem galinha de supermercado. Percival Puggina:


O desfecho ainda não se dera, o dedo permanecia imóvel no gatilho, mas qualquer brasileiro medianamente informado podia antever as manipulações do noticiário quando certos jornalistas de incerta percepção fossem comentar o ocorrido. Jamais as responsabilidades seriam do sequestrador.

O tiro serviu apenas para encerrar uma história já contada no lusco-fusco da inteligência sequestrada pela ideologia. Vinte de agosto foi a Black Tuesday da razão e a venda de sofismas e desatinos se prolongou pela quarta-feira. Imediatamente apareceram as mais disparatadas avaliações dos fatos. Os fascistas do governador haviam executado um sujeito que tinha em mãos uma arma de brinquedo (que felizmente não era um guarda-chuva). Tudo dito e posto como se ele houvesse decidido brincar na ponte. Nessa perspectiva houve, até mesmo, uma mocinha do PSOL que tweetou sobre a inaceitável execução de um “popular”. Naquela cabeça oca, sequestrador morto vira popular.

Hoje pela manhã, numa emissora de rádio aqui de Porto Alegre, falava-se sobre a permanente ideologização de todas as pautas. E isso era fortemente recriminado como degradação do nível de percepção das realidades sociais. Tudo andaria muito bem, se o autor da crítica, não passasse, imediatamente, a fazer aquilo de que acusava os demais, dizendo que a ação havia sido bem executada, mas a atitude do governador, ao “comemorar a morte do bandido”, fora incorreta. Lembrei-me das singelas palavras de Jesus em Mt 7:3:
“Por que reparas no cisco que está no olho do teu irmão e não vês a trave que há no teu próprio olho”, meu rapaz?
O referido comentarista está tão dominado pela própria carga ideológica e precisa tanto criticar o governador odiado pela esquerda, que esconde de si mesmo a diferença entre festejar efusivamente a salvação de 37 sequestrados e “comemorar a morte do criminoso”.

Em resumo, a violência campeia no Rio de Janeiro. O número de PMs ali mortos caiu à metade no primeiro semestre de 2019. E ainda assim foram 13 policiais militares. No entanto, as críticas dos críticos, na persistente vaquejada de suas rezes para o brejo do descrédito, reservam linhas, frases e discursos contra o governador Wilson Witzel e sua comemoração, execrada em uníssono pela esquerda. Fora da nau dos insensatos, porém, a alegria do governador foi compartilhada por todos que têm juízo e, muito especialmente pelos sequestrados e suas famílias. Entre esses, os festejos vão se prolongar por muitos dias.

Essa maldita ideologia queima neurônios. Constrói frases sobre a arma de brinquedo, sobre a doença mental do sequestrador e sobre suas intenções no momento do tiro. São ponderações tão sem pé nem cabeça que parecem galinha de supermercado. Nessa hora escura, a sensatez vem de quem tem para dar, vem dos jornalistas não cozidos no caldo ideológico do atual ensino superior do país. O amigo Alexandre Garcia comentava hoje na Rádio Guaíba, lembrando a esquecida professora Heley de Abreu Silva Batista, heroína da creche de Janaúba, que salvou 25 crianças imolando-se junto com o incendiário. “A arma do sequestrador do ônibus era o isqueiro”, concluiu Alexandre.

Noruega, Dinamarca, Groenlândia: encrencas nórdicas com baleias.

Quiseram as Nornas, as deusas do destino da mitologia nórdica, que Bolsonaro e Trump se enrolassem ao mesmo tempo com alguns pequenos detalhes…Artigo de Vilma Gryzinski:


Se o Brasil comprou o Acre, os Estados Unidos compraram a Luisiana (o pior negócio de Napoleão), o Alaska, as Filipinas e as Ilhas Virgens, por que Donald Trump não pode testar a ideia de arrematar a Groenlândia?

Até Harry Truman sondou a possibilidade, mas em sigilo, nos bastidores.

Como todo mundo sabe, Trump é incapaz de fazer qualquer coisa discretamente. E a proposta atingiu o nível de desaforos mútuos.

O presidente não gostou do adjetivo “absurdo” usado pela primeira-ministra Mette Frederiksen e cancelou a visita de estado que faria à Dinamarca.

Como em todas as visitas desse tipo feitas a países monarquistas, o convite era em nome da rainha Margrethe, o cancelamento significou um desaforo direto à real senhora de 79 anos.

Ao contrário de outras famílias reais europeias, a da Dinamarca é relativamente livre de escândalos.

Margrethe demorou para deixar de fumar nas dependências dos palácios, continua usando casacos de pele (uma exportação importante da Dinamarca) e ficou viúva antes que o marido, um aristocrata francês, criasse mais problemas com a demência avançada.

Detalhe: nem se quisesse, a Dinamarca poderia vender a Groenlândia, que tem o status de país autônomo integrado ao reino.

E mesmo que pudesse, dificilmente abriria mão do último remanescente do império nórdico que já teve.

Tirando a Groenlândia e as ilhas Faroé (logo mais chegamos nelas), a Dinamarca hoje é uma península e um punhado de ilhas de 42 mil quilômetros quadrados, um pouco menos que o estado do Rio de Janeiro.

Seria como se o Uruguai tivesse a Argentina sob seu controle.

Uma das mais constantes atividades de muitos dinamarqueses é sacudir a cabeça ironicamente e pensar no que já tiveram: o naco da Inglaterra tomado na época das invasões vikings, territórios da Suécia, outros tantos da Estônia, Islândia e, principalmente, a Noruega, com a fabulosa riqueza em gás e petróleo que deixa os vizinhos escandinavos babando de inveja.

Sem contar pequenas colônias do período clássico na África, Ásia, e Caribe – daí a parte dinamarquesa das Ilhas Virgens vendidas em 1917 aos Estados Unidos por 25 milhões de dólares em ouro.

Com mais de dois milhões de quilômetros quadrados, a Groenlândia é um enorme, gelado e eventualmente incômodo resquício da era da Dinamarca como potência.

A ilha de gelo chegou via Noruega e não encontrou um lugar confortável. Seus poucos habitantes – menos de 60 mil – são da mesma etnia que os esquimós – que não podem mais ser chamados de esquimós, mas sim de povo Inuit.

São nativos recentes, menos de 800 anos. Como outros indígenas em contato com civilizações ocidentais, não se dão nada bem com bebidas alcoólicas.

Mesmo com as grandes vantagens sociais estendidas pela Dinamarca, têm um padrão de vida bem inferior e, inevitavelmente, alimentam sentimentos separatistas.

Separar-se do país menos corrupto do mundo, com PIB per capita de 56 mil dólares e benefícios inacreditáveis para os mortais comuns não parece uma boa ideia, mas assim é a vida.

E A ESPLANADA?

Ao contrário da Groenlândia, etnicamente, os habitantes das ilhas Faroé são do mesmo grupo que os dinamarqueses e demais escandinavos.

Todos, incluindo noruegueses e suecos, falam línguas parecidas, embora alguns finjam não entender os vizinhos para aborrecê-los.

As Faroé também têm uma pequena população, de 50 mil pessoas. Para complicar, existe a ilha Faro, no Mar Báltico, cuja única relação com a fama foi ter o diretor sueco Ingmar Bergman como habitante.

Suéteres de lã coloridos com bordados geométricos e a matança anual das baleias piloto e golfinhos fazem a fama, ou infâmia, das Faroé.

Mantida como tradição local e fonte importante de alimentação, da mesma maneira que os Inuit podem caçar focas e os indígenas brasileiros o que quiserem, a caça às baleias é feita da mesma forma que a dos golfinhos no Japão: na mão.

Os animais vão chegando perto da praia, um vigia avisa e homens e meninos descem com sangue nos olhos e instrumentos cortantes nas mãos. Quem vê, nunca se esquece. O mar fica literalmente vermelho.

A sim, as ilhas Faroé também foram da Noruega, o que talvez explique certas confusões.

Brincadeirinha.

Ajudar países necessitados faz parte da tradição religiosa e política dos escandinavos, principalmente Noruega e Suécia.

Todos, obviamente, têm a mesma preocupação que os europeus desenvolvidos pelo meio ambiente.

A Noruega se especializa também em agir como intermediária para conversações de paz. O Acordo de Oslo, entre israelenses e palestinos, abriu caminho para o retorno da OLP e a autonomia palestina.

Hoje, as relações com Israel vivem estremecidas porque a Noruega é considerada tendenciosamente favorável aos palestinos.

“Informação falsa é um crime, senhor presidente”, escreveu um norueguês, caprichando no tom insultuoso à la escandinava, numa das infames seções de comentários depois que Jair Bolsonaro achou que a matança de baleias nas Ilhas Faroé era na Noruega.

Detalhe: a Noruega realmente caça baleias, mas em alto mar e de maneira sustentável. Ufa.

Sobre o Acre: o preço foi dois milhões de libras e a construção da Madeira-Mamoré. Os cavalos da lenda foram um presente.

A borracha era o ouro da época.

A solução pacífica e monetária fez a fama do Barão de Rio Branco, o patrono do Itamaraty.

Já que os dois países têm tradição nesse tipo de negócio, será que Donald Trump não quer comprar a Esplanada dos Ministérios?