sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Cobra na rua: a nova lenda da imprensa internacional é que Lula é preso político.

J. R. Guzzo, na edição impressa de Veja que estará nas bancas a partir de amanhã: "ninguém está ligando para o Brasil como ele é. O Brasil do Zé Carioca é muito mais interessante":


O tempo passa, o mundo gira, a tecnologia tornou o homem de hoje mais bem informado do que jamais foi desde que escrevia nas paredes da caverna, mas continua não existindo no universo força alguma capaz de fazer a humanidade saber com um mínimo de exatidão o que acontece no Brasil. Entenda-se, aí, os países bem-sucedidos — aqueles com renda per capita acima de 40 000 dólares por ano, acostumados a viver sob o império da lei e capazes de ganhar prêmios Nobel em assuntos sérios como física, química ou economia. Dos demais, é inútil falar. Nem sabem onde fica o Brasil e, quando por acaso ficam sabendo de alguma coisa, nunca se interessam em saber mais. Nossa real carência, desde sempre, é o vasto pouco-caso que o mundo civilizado demonstra em informar-se um pouco melhor sobre o Brasil. É desagradável. Naturalmente, isso não torna o Brasil pior do que é, nem melhor — e, além disso, a imensa maioria da população não se incomoda nem um pouco com a desinformação do mundo externo a nosso respeito. Se milhões de brasileiros não conhecem os fatos mais rudimentares sobre o próprio país, por que raios iriam lamentar a ignorância dos suecos ou dos esquimós a respeito do que acontece aqui? Mas, para o Brasil mais instruído, que foi à escola, viaja e conversa sobre política, esse desinteresse universal é uma coisa que incomoda. Justo hoje, no prodigioso mundo da comunicação absoluta em que vivemos? É humilhante.

O mundo desenvolvido, hoje, não é ignorante das mesmas coisas que ignorava no passado, como resultado direto do que sua grande imprensa escrevia sobre o Brasil. Mas, por causa do que essas mesmas fontes lhe dizem atualmente, continua imaginando que existem por aqui os fenômenos mais extraordinários. Já não se fala mais, hoje em dia, que há cobras gigantes no meio da rua em Copacabana, que o brasileiro passa a vida dormindo nas calçadas com um sombreiro mexicano na cabeça, nem que a capital do Brasil é a cidade de Bolívia. O que mudou foram as áreas sobre as quais a mídia internacional joga os seus fachos de escuridão. Fiel ao espírito dos tempos, a ignorância de hoje tornou-se politicamente correta. Não há mais interesse em dizer que você pode ser comido por uma onça ao atravessar o Viaduto do Chá. O que excita o comunicador de Primeiro Mundo, agora, é a divulgação do disparate com conteúdo político e social; isso faz parte dos seus deveres de soldado da resistência mundial em favor dos mais pobres, da igualdade, da preservação da natureza etc. etc.

A cobra de Copacabana na versão de 2018 é a lenda, promovida à categoria de verdade científica pela melhor imprensa internacional, segundo a qual o ex-presidente Lula é um “preso político”. Anda de mãos dadas, nas mesmas páginas, com a fábula de que houve um “golpe de ­Estado” no Brasil, que derrubou a presidente popular Dilma Rousseff e age, no momento, para impedir que Lula concorra à eleição presidencial de outubro próximo. Praticamente não se diz, em nenhuma notícia, que Lula está preso porque foi condenado pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, em processo legal iniciado com a sua denúncia, em setembro de 2016, e concluído com a sua condenação definitiva, em janeiro de 2018. É quase impossível, da mesma forma, encontrar qualquer menção ao fato de que o ex-presidente usou durante esse período todos os meios de defesa possíveis na legislação universal; contestou todas as decisões do juízo, apresentou dezenas de recursos e não foi capaz de demonstrar, em nenhum momento, a mínima irregularidade legal no seu julgamento. Também não se diz, em lugar nenhum, que Dilma foi deposta pelo voto de quase três quartos do Congresso Nacional, após um processo de impeachment monitorado em todos os detalhes pelo Supremo Tribunal Federal — e durante o qual não se encontrou até agora uma única ilegalidade de fundo ou de forma.

O que a imprensa mundial diz ao público é que Lula está preso porque lidera “todas as pesquisas”; se estivesse solto, seria candidato a presidente e ganharia a eleição, e “não querem” que isso aconteça, porque ele voltaria a ajudar os pobres. Quem “não querem”? E o que alguém ganharia ficando contra “os pobres”? Não há essas informações. Também não há nenhuma palavra sobre o fato de que a presidência de Lula foi o período de maior corrupção já registrado na história mundial — realidade comprovada por delações, confissões e devolução de bilhões em dinheiro roubado.

Mas e daí? Ninguém está ligando para o Brasil como ele é. O Brasil do Zé Carioca é muito mais interessante.

Publicado em VEJA de 22 de agosto de 2018, edição nº 2596

Os 30 anos da Constituição de 1988: comemoração ou reflexão?

Agora que se passaram 30 anos da promulgação de nossa Carta Magna, como devemos compreender seu legado e seu funcionamento na atual configuração da sociedade brasileira? Artigo do professor José Eduardo Faria, publicado pelo caderno de Cultura do Estadão:


Com a chegada da Constituição ao seu 30° aniversário, a indagação é saber se ela deve ser vista como texto sagrado, cuja força simbólica está nos valores e ideais que contempla e das mudanças que promete realizar, ou se ela é apenas um documento que vai sendo reconstruído por seus aplicadores no dia a dia judicial. Um das alternativas de resposta pressupõe a distinção entre Constituição rígida e Constituição aberta. A primeira tem caráter esquemático e uma estrutura fixa, prima pela racionalidade lógico-formal, contempla basicamente regras com sentido determinado e prioriza a segurança jurídica. A segunda tem uma estrutura flexível, combina racionalidade formal com racionalidade material, entrelaça regras e princípios e dá prioridade à efetivação dos direitos e valores consagrados pelo texto constitucional. 

Como o sentido das normas jurídicas nunca está fixado objetivamente, por mais claro que seja, dependendo assim dos resultados de sua interpretação pelos tribunais, a resposta à pergunta feita acima parece evidente. Texto legal, realidade socioeconômica e política estão em permanente inter-relação, de modo que toda interpretação acaba sendo uma construção da realidade jurídica. Não discuto aqui a oposição entre interpretação subjetiva e interpretação objetiva do direito. Apenas afirmo que toda interpretação está de algum modo presa não só à uma avaliação subjetiva das normas, mas, igualmente, aos processos históricos que deram feição pela qual a Constituição é vista hoje, três décadas após sua promulgação. 

Por isso, idealizar acriticamente um texto jurídico é o mesmo que canonizar um conjunto de palavras elaborado em outra época, quando eram diversas as condições sociais, econômicas, políticas e culturais do país. Como explicar hoje a efetividade ou ineficácia de direitos sociais e direitos políticos formalmente consagrados há trinta anos? Essa é, a meu ver, a questão que tem de ser discutida. Entre outros motivos porque muitos políticos e advogados, acreditando que bastaria uma interpretação mecânica e neutra das normas para concretizá-las, como se o direito pudesse ser derivado de um conjunto de axiomas de conduta, a exemplo da matemática, não têm medido esforços para tipificar, em nome do “garantismo”, o que chamam de crime de abuso de autoridade. 

Desde o advento do mundo moderno, marcado por uma crescente diferenciação funcional que se cristalizou em torno de núcleos organizacionais como partidos políticos, sindicatos, empresas e burocracias públicas, não há como se formular um sistema de regras sem mesclá-las com normas principiológicas ou programáticas – aquelas que estabelecem princípios éticos, políticos e sociais, por meio de conceitos vagos e indeterminados. Diante de pressões sociais contraditórias, as Assembleias Constituintes costumam recorrer a essa combinação como estratégia de acomodação de interesses, estabilização de expectativas e obtenção de legitimidade. Nas sociedades complexas, a lógica formal comum à concepção de Constituição rígida, encarada apenas como um conjunto de regras básicas que regula a criação das demais regras, fornecendo respostas-padrão para um repertório de problemas-padrão, não consegue dar conta das tensões e dos problemas que exigem intervenções compensatórias para as desigualdades sociais. 

A Constituição rígida propicia a discussão de temas relacionados à validez formal, não se preocupando com o problema da eficácia material de seus dispositivos. Contudo, a partir do momento em que o direito deixa de ter como função apenas a imposição e conservação das regras do jogo, passando também a exercer o papel de promover mudanças econômicas e transformações sociais, a efetividade de um sistema jurídico fechado e com pretensão de completude ou de uma obra acabada, que é viável em contextos sociais estabilizados e integrados, fica comprometida em contextos heterogêneos, conflitivas e cambiantes. Nestas sociedades, o sistema jurídico fechado entra em sobrecarga sistêmica, havendo a necessidade de uma concepção mais aberta de Constituição, vista como uma ordem jurídica capaz de compatibilizar sua estrutura constitutiva e o meio ambiente que a circunscreve. Por gerar problemas novos, que não encontram soluções previamente determinadas pelas regras, as sociedades complexas exigem soluções baseadas não apenas em regras, mas, também e principalmente, em princípios orientadores e por propósitos legitimadores. 

As concepções abertas de Constituição surgiram na Europa e nos Estados Unidos, mas em períodos e cenários historicamente distintos. Na Europa, elas tiveram um sentido mais culturalista e foram forjadas em sociedades fortemente divididas, com graves problemas de unidade étnica e territorial. Por isso, a integração era vista como um processo espiritual e dinâmico, o que faz com que a aplicação de um texto constitucional tivesse como pressuposto uma certa flexibilidade por parte de seus intérpretes. Nesse sentido, entendia-se que a unidade própria criada por uma ordem constitucional não advém de um texto, mas de um ethos cultural comum. Na mesma linha, aceitava-se que as formas espirituais coletivas não são estáticas, configurando, isto sim, unidades de sentido que de uma realidade espiritual num contínuo processo de reconfiguração social. Já nos Estados Unidos, a concepção mais aberta de Constituição se expandiu a partir do caso Madison vs. Marbury. Ele foi decidido em 1803, quando a Suprema Corte avocou para si o poder de controlar a constitucionalidade das leis, afastando as leis federais que, apesar de aprovadas pelo Congresso, contrariavam a Constituição de 1787. 

Se o problema europeu foi a construção de uma ordem jurídica integradora, na perspectiva da formação de um Estado nacional, o problema americano era de tornar essa ordem efetiva num contexto de maior unidade social e ideológica, porém com grande extensão territorial. Era impedir a ruptura da coerência interna do sistema jurídico baseado numa Constituição formada por poucos artigos. O problema europeu, ao contrário, consistiu em impor em territórios relativamente pequenos ou de médio porte, mas estigmatizados por divisões de interesses étnicos, econômicos, culturais e religiosos, uma ordem constitucional legítima. Em vários países do heterogêneo continente europeu o modelo de Constituição fechada cedeu lugar ao modelo de Constituição aberta, após o término da 2ª Guerra. Mas não se pode esquecer que, no debate doutrinário desse continente, a defesa de uma concepção rígida de Constituição – em nome da necessidade de impedir interpretações discrepantes que pusessem em risco a integração de sociedades potencialmente explosivas e fragmentárias – teve, em momentos históricos anteriores, mais consistência e presença política do que no debate doutrinário americano. 

Esses dois cenários deixam claro que a conversão dos valores espirituais em direito positivo não permite que a Constituição seja vista como um texto pronto, estabelecido de uma vez por todas no momento constituinte – portanto, passível de ser canonizado como um documento sagrado. Cada uma a seu modo, as experiências europeia e americana mostram que a Constituição deve ser vista como uma construção hermenêutica sobre as inspirações históricas subjacentes à sua elaboração e às circunstâncias políticas do momento em que foi promulgada e em que é aplicada. As inspirações históricas e as circunstâncias políticas dizem muito mais sobre a estrutura de uma ordem constitucional e do sistema normativo de organização e legitimação do poder político por ela consagrado do que a ideia de que um simples conjunto de palavras elaborado no passado é, por si só, responsável pelo sucesso da democracia contemporânea. Assim, se a interpretação e a aplicação da Constituição estão abertas aos processos sociais, econômicos, políticos e culturais, isso relativiza o momento constituinte, não lhe conferindo um caráter extraordinário. “Os julgados de uma determinada jurisdição ao longo de uma geração levam em conta o conjunto do direito disponível, interpretando esse conjunto a partir dos pontos de vista da época na qual o direito é aplicado”, dizia há um século Oliver Wendell Holmes Jr., a grande referência do pensamento jurídico americano. Os argumentos, contudo, são atuais e válidos para as democracias contemporâneas. Em outras palavras, a interpretação e a aplicação da Constituição consistem num processo de comutação autocrítica dos fundamentos do próprio sistema jurídico, não o vendo apenas como um ajuntamento lógico-formal de regras e procedimentos.

Por isso, considerando (a) que não há valores totalmente consensuais e em condições de serem racionalizados pelo legislador, (b) que há uma permanente tensão entre a linguagem do texto constitucional e a intenção do legislador constituinte e (c) que uma Constituição vive de sua interpretação, já que os métodos hermenêuticos implícitos na aplicação de suas regras e princípios podem ser vistos como uma forma de consolidação democrática, o 30º aniversário da Carta de 1988 deve ser objeto, mais do que comemorações com direito a banda de música e discurso, de avaliações críticas e de reflexões profundas sobre seus resultados e sobre o que pode continuar oferecendo em matéria de garantias individuais, valores fundamentais, crescimento econômico e inclusão social. 

José Eduardo Faria é professor titular da Faculdade de Direito da USP e professor da Fundação Getúlio Vargas

"Terra à vista"? Não, para a esquerda é brejo à vista.


O professor Ricardo Vélez-Rodríguez faz justa crítica ao artigo de Luiz Werneck Vianna, outro intelectual esquerdista da academia, publicado recentemente no Estadão - de fato, é canalhice de socialista dizer que Lula e sua corja roubaram porque "são de direita". É impressionante a estultice e o cinismo da ralé ideológica que domina as universidades:


Estou incomodado com os comunas oportunistas que acham que os seus fajutos princípios de morte ao indivíduo e à liberdade vão ser aceitos mais uma vez. Não é que alguns intelectuais soi disants "socialistas civilizados" estão tentando vender sua maluca versão de que Lula & Comparsas roubaram porque são de direita, enquanto eles, os socialistas intelectuais puros, vão salvar o Brasil?

Pois bem: essa é uma das hipóteses levantadas pelo professor Luiz Werneck Vianna no seu artigo publicado no Estadão ("Terra à vista" 4 de agosto). O que acontece de verdade é o seguinte: Lula & Comparsas são de esquerda, da esquerda vulgar e comuna, e roubaram tanto que desqualificaram a esquerda dita moderada deFernando Henrique Cardoso & Companhia e de outros segmentos messiânico-intelectuais.

A verdade nua e crua é que a esquerda brasileira está mortinha da silva. Como alternativa só nos resta a opção liberal-conservadora de defesa do indivíduo, de luta pela liberdade e a livre iniciativa, de preservação corajosa das nossas tradições cristãs. O conservadorismo liberal é a solução. Na atual campanha, com certeza, essa alternativa não é defendida nem por Alckmin, nem por Boulos, nem pela Marina, nem pelo Ciro, nem muitíssimo menos pelo Haddad (que já vestiu a fantasia de poste da vez do Lularápio). Sejam honestos, senhores intelectuais ditos "progressistas". Não tergiversem a história. A esquerda mergulhou fundo junto com a roubalheira petista.

Todos aqueles que acreditaram no Lularápio estão desacreditados. Não venham dizer que o Lula roubou porque era conservador! Haja paciência! Não nos insultem acreditando que vamos engolir essa pérola "progressista". FHC e os tucanos pelo menos já desceram do muro e disseram, pela boca do seu chefe, que num segundo turno não terão problema em fazer aliança com os petistas, para derrotar os liberais e conservadores e dar sobrevida à esquerda larápia que saqueou o Brasil.

A esquerda está desprestigiada e o eleitorado busca opções ligadas ao liberal-conservadorismo, aquele de John Locke, de Immanuel Kant, de Edmund Burke, dos Patriarcas da Independência Americana, de Tocqueville, de Madame de Staël, de Constant de Rebecque, de Silvestre Pinheiro Ferreira, de José Bonifácio, dos nossos imperadores Dom Pedro I e II, dos estadistas do Império como o Visconde de Uruguai, de Assis Brasil, de Gaspar da Silveira Martins, de Rui Barbosa, de Miguel Reale, de Gilberto Paim, de Paulo Mercadante, do mestre Eugênio Gudin, de Og Leme, de Donald Stewart, de Hayek e Von Mises, de Roberto Campos, de Meira Penna, de Olavo de Carvalho, de Carlos Lacerda, de Antônio Paim e os seus discípulos como Ubiratan Macedo e de tantos outros que defenderam e ainda defendemos a liberdade com coragem e sem medo de confronto com os fantasmagóricos esquerdistas.

Os contornos da luta eleitoral que já está em curso vão se definindo aos poucos. Ficaremos do lado dos que, inspirados nas soluções liberal-conservadoras, apostam na defesa da liberdade e da tradição cristã no Brasil do século 21.

Temos, sim, "Terra à vista", não aquela embalada num pacote falsamente progressista e anunciada pelo professor Werneck Vianna, que oculta os vícios de sempre, de privatização do poder e das suas vantagens para poucos, mas aquela "Terra de promissão" que defende a liberdade para todos contra o estatismo, e que luta sem medo pela preservação dos valores mais caros da nossa tradição brasileira, republicana e cristã.

Debate na Rede TV: 5 confrontos que todos querem assistir hoje à noite.

Reportagem de André Gonçalves, de Brasília para a Gazeta do Povo:


O debate desta sexta-feira (17) na RedeTV será o segundo round dos duelos presidenciais que ocorreram no primeiro encontro do gênero, dia 9, na Band. E, em alguns casos, vai funcionar como uma espécie de “jogo de volta” dos confrontos de estreia. Nessa linha, segue uma lista de pelo menos cinco embates que são esperados pelos eleitores, a partir das 22 horas.

Cabo Daciolo x Ciro: a Ursal é uma piada, mas pode virar uma casca de banana

Cabo Daciolo (Patriota) roubou a cena (e os memes) do primeiro debate presidencial. O auge foi o questionamento sobre a participação de Ciro Gomes (PDT) na fundação do Foro de São Paulo e sobre o plano Ursal (União das Repúblicas Socialistas da América Latina). Desde então, muito se falou e se brincou sobre a Ursal e Daciolo acabou por se refugiar em um monte de localização desconhecida.

Ciro primeiro falou que não sabia de nada e, diante da insistência, deu uma esnobada no oponente ao usar sua réplica: “A democracia é uma delícia, é uma beleza, mas ela tem certos custos”, em uma ironia à participação de Daciolo no debate (como o partido dele tem mais de cinco deputados federais, a presença é obrigatória).

Pode parecer tudo muito bacana na era da “lacração” na internet, mas na prática não funciona bem assim. O eleitor médio detesta atributos pessoais como soberba e arrogância piores do que estupidez. Como Ciro tem um longo histórico de problemas com a própria língua, Daciolo pode virar uma casca de banana.

Alckmin x Bolsonaro: a guerra fria mais quente da campanha

Este deveria ser o duelo icônico do primeiro debate. Não foi. Geraldo Alckmin (PSDB) abraçou a postura low-profile que marcou toda sua pré-campanha e fugiu do embate. Nesta altura da campanha, quem precisa partir para a ofensiva é o tucano, já que Jair Bolsonaro (PSL) começa a disputa com larga vantagem – em especial, na capacidade de mobilização em redes sociais.

Segundo dados do Google sobre a busca pelos nomes dos presidenciáveis ao longo do debate na Band (22h de quinta à 1h de sexta), Bolsonaro liderou e ficou com 23% das buscas. Alckmin ficou em sexto, com 7%. Um retrato de que o tucano até pode não ter ido tão mal, mas passou longe de empolgar.

Outro ponto que sugere que Alckmin terá de tomar a iniciativa: é certo que Bolsonaro vai manter a postura paz e amor e, principalmente, do eu (o candidato antissistema) contra eles (os candidatos que são mais da velha política). O risco de Alckmin – e não apenas durante o debate – é não se desvencilhar dessa armadilha.

Guilherme Boulos x Bolsonaro: alguém vai lembrar da Wal

A pergunta inaugural do debate da Band foi uma provocação de Guilherme Boulos (PSOL) contra Bolsonaro: “Quem é a Wal?” Wal, ou a “senhora Walderice”, como explicou Bolsonaro, é uma funcionária que foi paga com recursos da Câmara dos Deputados, acusada de trabalhar como caseira do parlamentar em uma de suas casas no litoral do Rio de Janeiro.

Bolsonaro devolveu com outra pedrada. “Eu sou uma pessoa humilde como outra qualquer […], e me orgulho, sim, da minha honestidade. E não do atos de invadir propriedade privada dos outros que trabalharam e suaram muito”, disse, em referência à atuação de Boulos como militante do MTST.

Boulos continuará sendo o franco-atirador do debate e continuará tendo Bolsonaro como alvo preferencial. Além disso, o caso Wal teve desdobramentos após o primeiro encontro. Ela deixou o “emprego” e, segundo Bolsonaro, foi vítima do ato de dar água para os cachorros.

Boris Casoy x cadeira vazia: Lula será um fantasma

Ricardo Boechat foi um dos destaques do debate da Band. Nesta sexta, outro figurão do jornalismo nacional, com histórico de polêmicas e opiniões controversas, será um dos âncoras da transmissão: Boris Casoy, 77 anos. Provavelmente caberá a ele explicar a ausência de Lula.

Pode parecer uma história fácil de ser contada, mas não é. Preso em Curitiba há mais de quatro meses, Lula foi convidado oficialmente. A RedeTV seguiu o protocolo, sob pretexto de que o PT pode conseguir uma improvável liminar para tirá-lo da cadeia. Mas não abriu exceção para que o vice, Fernando Haddad, o substitua.

Uma expectativa é saber se será deixada uma cadeira vazia para o ex-presidente. Tradicionalmente, a cadeira vazia é uma mensagem ruim de que o candidato confirmou presença. No caso de Lula, porém, vai funcionar como um fantasma pairando no ar – um incômodo tanto para candidatos tanto de esquerda como de direita.

Internet x todos os candidatos: o tribunal das redes sociais não falha

Band ou RedeTV, não importa em qual emissora, a verdadeira batalha do debate será travada na internet. A edição da Band ultrapassou a marca de 390 mil espectadores simultâneos no Youtube e bateu o recorde de visualizações ao vivo do canal de streaming no Brasil.

Daí vem uma evolução conceitual dos debates para as campanhas. Quando ficavam restritos à tevê, os encontros realizados em emissoras pequenas tinham pouco alcance e baixo engajamento. O jogo mudou: o tribunal da internet é veloz e mortal.

Mais do que vencer o debate de fato (o que é complexo de ser mensurado), os candidatos precisam engajar as suas comunidades para cantar vitória. Quem fizer o seu eleitor já conquistado se sentir instigado a brigar por mais votos com certeza saiu ganhando.

O lulopetismo e a degeneração da democracia

Lula tem que ser afastado dos meios pelos quais comete seus crimes. Sua comunicação contínua com seus comparsas é um crime continuado, que a Polícia Federal deveria ter como impedir. Chega de Lula, chega de demagogia. O Brasil não aguenta mais. Artigo de Carlos Ramalhete, via Gazeta do Povo:


Os filósofos gregos de mais de dois mil anos atrás já nos ensinavam que a democracia corre sempre o risco de degenerar em demagogia. A demagogia é a democracia doente.

No Brasil nós já fomos submetidos a doze anos de demagogia petista, durante os quais a abertura de crédito para a compra de besteiras (celulares, roupas de grife) e a distribuição de esmolas estatais fizeram as vezes de ascensão social das classes mais baixas. De que adianta ter uma calça da moda (“uma calça jeans para uma jovem de dezesseis anos custa mais de trezentos reais”, disse famosamente uma orgulhosa beneficiária dos planos petistas) e não ter esgoto, não ter um sistema de saúde minimamente eficiente, não ter a mínima segurança de que não se há de ter a casa invadida e roubada por um viciado?

Os problemas reais do país, que são muitos e graves, foram completamente deixados de lado pelo PT, ou, melhor dizendo, por Lula – Dilma esteve lá apenas como incompetente representante do “sapo barbudo que as elites [teriam] que engolir”, como Brizola, o homem que destruiu o Rio de Janeiro, apodou Lula. Enquanto isso, riquezas incontáveis da nação foram desviadas. A Petrobras já recebeu de volta um bilhão dos muitos desviados, graças à Operação Lava Jato. Mas isso é troco de pinga perto do prejuízo causado pelo PT, por Lula, ao povo brasileiro. As refinarias doadas ao comparsa boliviano Evo Morales, o porto construído em Cuba, tudo isso é desvio de dinheiros públicos que deveriam estar a serviço da população do país, não de um partido demagógico em sua ânsia desesperada por manter-se no poder.

E a demagogia continua, agora na palhaçada armada em torno da entrega do demagógico registro de candidatura do inelegível criminoso condenado Lula. Milhares de militantes engordados por anos com verbas públicas – os assentamentos do MST, afinal, subsistem à base de cestas básicas pagas pela população honesta – juntaram-se para tornar ainda mais demagógico um teatro político desprovido de sentido real, por ser abertamente ilegal. Não há candidatura Lula. A lei da ficha limpa o garante. O pedido de registro é um ato inútil e viciado encenado pelos demagogos do partido e seus paus-mandados, capitaneados pelo demagogo-em-chefe desde sua cela privilegiada na Polícia Federal (quando seu lugar deveria ser uma penitenciária de segurança máxima), onde todo e qualquer militante da cúpula petista que tenha um diploma de direito inscreveu-se como seu advogado apenas para poder levar e trazer as instruções do chefe.

As fartas provas já recolhidas, os depoimentos de inúmeros comparsas, tudo isso já prova mais que definitivamente a culpa de Lula e de todo o partido que ironicamente se diz dos trabalhadores – pois foi uma operação partidária, não uma mera busca de enriquecimento pessoal, que levou a desviar bilhões de dólares da pobre Petrobras, de que já havia sido roubado até o acento.

Fingir que se está registrando uma candidatura quando se sabe que se trata de uma candidatura ilegal, de um pseudocandidato cuja ineligibilidade é “chapada”, é mais uma maneira de tentar arrancar ainda mais dinheiro público. Afinal, vergonhosamente, as candidaturas no Brasil recebem verbas públicas, beneficiando os partidos mais poderosos para impedir a renovação de nosso quadro político. A isso se soma a propaganda – que é a alma do negócio do demagogo – em torno do “pobre Lula, sozinho em sua cela”. É o mesmo truque de Edir Macedo, o dono da Igreja Universal e de diversos políticos; foi preso por estelionato e passou a usar como foto “oficial” uma em que aparece atrás das grades, fingindo ler uma bíblia.

Lula deseja ser o grande eleitor, do fundo de sua cela, onde está justamente para impedir que continue a fazer mal à sociedade por meios políticos. Isso não pode ser tolerado. A demagogia, repito, é a degeneração da democracia. Permitir que se faça uma candidatura de fancaria de um preso condenado por crime comum, inelegível e nem um pouco arrependido do mal que fez, é um ataque direto ao que ainda resta de democracia neste país.

Lula tem que ser afastado dos meios pelos quais comete seus crimes. Sua comunicação contínua com seus comparsas é um crime continuado, que a Polícia Federal deveria ter como impedir. Chega de Lula, chega de demagogia. O Brasil não aguenta mais.

A Terra é um Donut

"Para a turma que mora nos arredores da Baía de São Francisco e minions contratados à sua imagem e semelhança ao redor do planeta, qualquer visão de mundo levemente diferente do que pensam é rotulada como “extremista”, “discurso de ódio”, e seu portador diagnosticado com algum tipo de “fobia” que, assim como os loucos de tempos antigos, merece lobotomia ou internação compulsória em manicômios virtuais, longe de tudo e de todos". Ana Paula do Vôlei, via Estadão:


Para você, a Terra é redonda ou plana? Para minha surpresa, descobri esta semana uma terceira opção: para alguns, nosso planeta teria a forma de uma rosquinha ou um Donut. Se os polos forem cobertos com chocolate e o centro da Terra recheado com doce-de-leite, estou disposta a considerar a possibilidade. O planeta-rosquinha é apenas um sonho, mas o que ele simboliza é real. Já explico.

A chamada “Geração Z”, composta pelos nascidos em meados dos anos 90 até meados de 2000 é considerada a primeira dos “nativos digitais”, termo criado por Marc Prensky para definir quem cresceu com a tecnologia digital (internet, videogames, celulares, tablets e redes sociais). Essa geração tem uma relação totalmente distinta de todas as gerações anteriores, dos “imigrantes digitais”, com a informação e a liberdade de expressão. Os jovens que começam a disputar espaço com a “Geração Y” (ou Millennials), composta pelos filhos da década de 80, me enche de esperança em tempos de censura e patrulha ideológica nas principais plataformas de comunicação, digitais ou não.

Aos fatos: muitas páginas e perfis estão sendo sistematicamente derrubadas ou passam pelo “banimento silencioso”, uma maneira ainda mais insidiosa e abjeta de censura, por burocratas obscuros das gigantes do Vale do Silício. Os gigantes da tecnologia se aproveitaram da boa fé da população mundial, especialmente do Ocidente, para oferecer serviços supostamente gratuitos que conectariam todos de forma livre para a promoção de uma “aldeia global”. E nós acreditamos.

O Google chegou a adotar por vários anos como slogan “não seja mau”, sinalizando virtude em troca do direito de saber praticamente tudo sobre como você vive, o que você faz, onde está e o que pensa. Como não existe almoço grátis, o preço está começando a aparecer e não é nada barato. Depois de mais de dez anos moldando o mundo, das relações pessoais às profissionais e o espaço do debate público, as “big techs” (hoje em dia mais para Big Brothers) começam a colocar as mangas de fora e revelar que, na verdade, não são “neutras” e se você não pensa ou fala conforme seus executivos ditam, você pode ter uma morte social e ser “desmonetizado” ou até virar um “sem plataforma”, um pária do século XXI.

A figura do excluído social não é nova e tem manifestações muito evidentes em diversas culturas, como no hinduísmo em que o “dalit” é visto como alguém que pertence ao extrato mais baixo da sociedade. Assim como os líderes da indústria da tecnologia seriam os novos “brâmanes”, os que ousam ter opiniões e idéias diferentes da fechada casta dos bilionários de Palo Alto e arredores seriam colocados na casta mais baixa e excluídos do convívio social. E não adianta reclamar, a condenação e sentença são dadas aos “dalits” num julgamento entre apenas os iluminados detentores do conhecimento do reino da indústria digital.

Para a turma que mora nos arredores da Baía de São Francisco e minions contratados à sua imagem e semelhança ao redor do planeta, qualquer visão de mundo levemente diferente do que pensam é rotulada como “extremista”, “discurso de ódio”, e seu portador diagnosticado com algum tipo de “fobia” que, assim como os loucos de tempos antigos, merece lobotomia ou internação compulsória em manicômios virtuais, longe de tudo e de todos. A arbitrariedade com que esta casta digital patrulha, persegue e isola os não-conformistas mostra que o caráter dos censores não varia ao longo dos tempos, mesmo que mudem os pretextos e a forma da execução das penalidades.

Recentemente, o Instagram, que aparentava ser uma inofensiva versão eletrônica da revista CARAS, baniu jovens canadenses e americanos que criaram um perfil muito popular chamado “rightwingism” (ou “direitismo”), um espaço aberto para discussão livre de temas a partir de todas as perspectivas. Quando outros jovens criaram o concorrente “leftwingism” (ou “esquerdismo”, e que continua a existir, evidentemente), os meninos da direita promoveram os concorrentes e aplaudiram a criação de mais um espaço de discussão. Chegamos então ao Donut.

Os jovens idealistas do “rightwingism” diziam ironicamente que seu perfil era tão aberto que “não importa se você acha que a Terra é redonda, plana ou uma rosquinha”, que todos eram bem vindos ali. Depois da página teen da direita, várias outras, percorrendo todo o espectro político-ideológico, foram criadas no estilo “wingism“. As páginas, à medida que eram criadas, não eram apenas celebradas por todos pela ampla e madura discussão, mas eram anunciadas por toda a comunidade teen.

Os jovens engajados no debate intelectualmente honesto só não contavam com os inquisidores sem rosto que comandam a plataforma, para espanto de todos, como do meu filho de 17 anos, que liam e acompanhavam com interesse os temas e as discussões. Gabriel ficou chocado com o banimento: “mãe, não havia nada extremo, como não há em nenhuma página desta vasta comunidade de “wingisms“, nada que justificasse o banimento a não ser uma censura pura e simples ao pensamento fora da esquerda”.

Numa atitude admirável, os meninos da esquerda se juntaram aos órfãos dos perfis de direita banidos e pediram a volta dos “dalits”, dando indícios de que a Geração Z não é tão conformista, radical e desmiolada como muitos dos Millennials que hoje povoam a média gerência das “big techs” (ou Big Brothers, como queiram) e executam as penas de morte social sem direito de defesa ordenadas pelos chefes.

O melhor de tudo: depois de inúmeros pedidos, mensagens e postagens de todas essas páginas teens de “wingism”, da direita e da esquerda, em defesa da liberdade de expressão, ontem o Instagram finalmente devolveu os perfis censurados aos donos. A luta contra a patrulha ideológica do aparelho burocrático destas corporações continua, mas ao menos esta batalha foi vencida e por representantes de todos os lados, jovens unidos pela civilidade e pela fé na democracia. Há esperanças.

Se a Geração Y, formada por filhos tardios e netos dos radicais da geração de 1968, for mesmo a última a pregar a perseguição autoritária ao pensamento que ousa defender as idéias que construíram o Ocidente e as sociedades mais livres, justas e prósperas da história, temos motivos para sorrir. Os problemas gerados pela liberdade são evidentemente resolvidos com mais liberdade e a perseguição aos liberais e conservadores, não tenho dúvidas, será um tiro no pé dos “brâmanes” da indústria da informação. Os “nativos digitais” não vão aceitar o cabresto ideológico e já estão reagindo.

Ainda há muito o que fazer para garantir a liberdade de expressão nas plataformas digitais, mas a união dos jovens de todos os espectros ideológicos pela volta dos banidos pelo Instagram deixou minha semana mais doce. Agora vocês vão me dar licença que vou procurar no Google uma camiseta com a Terra em forma de rosquinha e mostrar aos maduros jovens da Geração Z que temos muito o que aprender com eles. Na terra seca e hostil das redes sociais, ainda há pequenas, mas fortes e significativas, flores desabrochando e desafiando a aridez dos tempos atuais.

STF e MST, tudo a ver.

Em sua coluna semanal na Gazeta do Povo, Guilherme Fiuza não poupa críticas à atuação dos figurões do STF, a começar por sua presidente, que recebeu o bandoleiro Stédile, contumaz violador da lei:


Enquanto as miragens eleitorais começam finalmente a se desmanchar, o pesadelo do Brasil real vai reaparecendo no cantinho da foto, suplicando aos eleitores: por favor, senhoras e senhores, não se esqueçam de olhar para mim no dia 7 de outubro!

As miragens confirmam: os candidatos que mais se destacam nas redes sociais são, definitivamente, os que mais se destacam nas redes sociais.

O pesadelo também confirma: o Estado brasileiro foi mesmo sequestrado por uma doutrina parasitária e a eleição presidencial é para decidir se a limpeza de 13 anos de aparelhamento vai continuar ou vai recuar. É só isso.

Veja esta cena: Carminha, a suprema presidenta, recebendo João Pedro Stédile, o sabotador de aluguel do PT, em defesa da candidatura do maior ladrão nacional. É ou não é mais emocionante que o cabo apocalíptico?

Pare agora de ler esses programas de governo de ficção científica e preste atenção ao seguinte: a sua vida depende das instituições do seu país, por menos que você queira acreditar nisso. E a cena acima mostra que elas estão doentes – contaminadas por 13 anos de inoculação populista.

Para o bom entendedor (que anda meio distraído), o encontro idílico entre Carminha e Stédile nem precisava ter ocorrido. O Supremo Tribunal Federal está jogando esse jogo há vários anos – e foi, sem a sutileza que não consegue ter, a última trincheira contra o impeachment de Dilma. Até invadir a soberania do Congresso o STF tentou.

Ou melhor: conseguiu – e a delinquência de Dilma só não foi salva pela corte máxima porque as ruas empurraram o Congresso para a decisão correta.

Se não fossem as ruas, aliás, os supremos companheiros teriam conseguido evitar a prisão de Lula. O teatro do habeas corpus – quem se lembra? – chegou a incluir a concessão de um “efeito suspensivo” que a defesa do ex-presidente sequer havia requerido. Contando ninguém acredita.

E o último e inevitável lembrete, para voltarmos à miragem eleitoral: José Dirceu, comandante comprovado (e condenado) dos maiores escândalos de corrupção da história, ativo líder do PT e de toda a teia populista da qual estamos falando, está soltinho da Silva, em plena corrida presidencial, com todo seu poder de articulação subterrânea garantido pelo STF.

Sabe a recessão horrenda que derrubou o seu poder aquisitivo? Pois é. Foi obra desse projeto formidável de ocupação da máquina pública com militantes disfarçados de samaritanos. O impeachment arrancou a cabeça do esquema, e várias instituições cruciais como Banco Central e Tesouro Nacional foram devolvidas à gestão independente (ninguém ali é do MDB), sem falar da Petrobras, resgatada do centro do escândalo fisiológico.

Foi assim que o Brasil saiu da recessão – apesar de toda a sabotagem eleitoreira que prossegue – e é sobre isso que o distinto público precisa pensar quando estiver a caminho da cabine eleitoral.

Veja que curioso: às vésperas do prazo fatal para registro das candidaturas, surge nova rodada de pesquisas de opinião indicando a liderança de Lula, o ex-presidente condenado e preso por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Foi, aliás, exatamente esse o argumento (?) do famoso habeas corpus de Favreto, o plantonista do PT na Justiça Federal, que tentou soltar o grande guia praticamente com uma hashtag “eleição sem Lula é golpe”.

Você deve estar explodindo de orgulho cívico ao constatar essa narrativa esperta prosperando entre formadores de opinião e sendo pauta de audiência tarja preta na presidência do Supremo.

O problema não é o PT, nem mesmo Lula. O problema é o truque – que sobrevive tranquilamente a eles. O truque de afetar supostas preocupações progressistas para montar na fabulosa máquina pública e viver disso. Acredite, é simples assim.

E há vários candidatos com o dedo nesse gatilho, não só os que se fantasiam de esquerda (termo, aliás, que não quer dizer nada, assim como direita também é um pastel de vento ideológico – e se você repudia essa falsa dicotomia, você não é isentão, apenas não é burro).

Repare os candidatos que surgem de banho tomado e cabelo molhado, chegados anteontem no planeta, dizendo que nada do que está aí serve, com exceção dos seus penteados bem cuidados. O penteado de Dilma também era impecável.

Esses paraquedistas são desonestos. Não precisam ter roubado. São moral e intelectualmente desonestos – o que dá no mesmo, ou pode ser pior. Como alguém pode defender reformas e saneamento fiscal ao mesmo tempo em que ataca quem está tomando essas mesmas medidas agora, no duro esforço do corpo técnico que está lá, nas instituições supracitadas, tentando corrigir o desastre petista?

Sim, isso está acontecendo. Não é um juízo de valor. Pergunte ao Google, consulte os indicadores. Mas os paraquedistas sabem que governo é estigma e não querem se despentear.

Fica a dica: quem prega a virtude e finge não vê-la nos outros, não quer ser virtuoso, quer ter poder.

Você tem 50 dias para identificar o candidato mais propenso a levar adiante a descupinização das instituições após 13 anos de parasitismo. Dá tempo.

O tribunal como palanque

Ataque ao STF: vandalismo oficial.
A farsa da candidatura Lula, ressalta editorial do Estadão, tem como único objetivo transformar o Judiciário em palanque petista. É a escória ideológica demonstrando uma vez mais seu desapreço às instituições e ao Estado de Direito:


A incrível farsa protagonizada na quarta-feira pelo PT em nome de seu chefão Lula da Silva, registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) como candidato do partido à Presidência a despeito do fato incontestável de que ele é inelegível, teve um único objetivo: transformar o Judiciário em palanque petista.

Seguindo a estratégia desenhada pelo ex-presidente em sua cela em Curitiba, onde cumpre pena por corrupção e lavagem de dinheiro, os petistas parecem acreditar que qualquer desfecho jurídico a respeito da candidatura de Lula lhes será benéfico. Na remotíssima hipótese de que a Justiça Eleitoral dê sinal verde à candidatura, Lula chegará como favorito à disputa; no entanto, se sua candidatura for impugnada, o que é bem mais provável, Lula e sua claque denunciarão a decisão como prova cabal de que o ex-presidente é um “perseguido político” – e é isso, e apenas isso, o que alimentará a campanha petista.

Transformar seu encalacrado líder em vítima de uma trama jurídico-midiática foi o que restou a um partido que, de bastião da ética na política, se tornou símbolo da corrupção nacional e que, de promessa de inovação e de modernidade administrativa, passou à História como a agremiação que deu ao País seu pior governo de todos os tempos, o de Dilma Rousseff, felizmente afastada antes que completasse sua “obra”.

O problema é que a estratégia petista está indo de vento em popa. Na campanha eleitoral, pouca gente parece se lembrar que a crise política, econômica e moral que o País atravessa foi produzida pelos governos de Lula e de Dilma. Formou-se um consenso tácito entre quase todos os principais concorrentes que o nome a ser evitado na campanha é o do atual presidente, Michel Temer, que hoje sintetiza, para a esmagadora maioria da opinião pública, o que há de pior na política – malgrado o fato de que herdou de Dilma um país em frangalhos e entregará ao sucessor uma administração razoavelmente saneada. Enquanto isso, a ex-presidente Dilma, a despeito de seu imenso passivo, aparece com bom desempenho na corrida ao Senado por Minas Gerais e o ex-presidente Lula, mesmo tendo sido o inventor desse desastre chamado Dilma, mesmo tendo sido o presidente sob cujo governo estouraram os maiores escândalos de corrupção da História nacional e mesmo sendo ele próprio um condenado por corrupção, surge como líder em todas as pesquisas de intenção de voto.

Os dois casos tripudiam da democracia e das instituições: Dilma só está concorrendo porque, a despeito de ter sofrido impeachment, manteve seus direitos políticos graças a uma incrível cabala de um ministro do Supremo Tribunal Federal com o presidente do Senado; e Lula, um presidiário com longa pena ainda a cumprir, faz troça do Judiciário e desafia os tribunais a mantê-lo preso e impedir que o povo seja “feliz de novo”.

O escárnio lulopetista atingiu seu estado da arte quando, ao registrar Lula como seu candidato, o PT anexou à documentação uma certidão de antecedentes na qual não consta sua pública e notória condenação. Ele seria, então, um “ficha limpa”. Os petistas não apenas sabem que essa manobra será desconsiderada pela Justiça Eleitoral, como é isso justamente o que eles querem, pois qualquer decisão judicial que lhes seja contrária servirá para reforçar sua denúncia de “perseguição política” contra Lula – o grande mote da campanha eleitoral do partido. “Estão querendo impedir que um dos maiores estadistas vivos do mundo concorra à Presidência”, tuitou Fernando Haddad, sempre no papel de poste, como prefeito e, agora, como provável candidato do PT à Presidência, dando o tom da fraude.

Com esse espírito, Lula transformou sua cela em comitê eleitoral, incluiu vários dirigentes petistas entre seus advogados e elegeu os juízes como seus adversários políticos. Para o ex-presidente, quanto mais tempo demorar a decisão judicial sobre sua candidatura, melhor, pois é nos tribunais que ele escolheu fazer sua campanha.

Diante desse desaforado repto lulopetista, o Judiciário deve simplesmente fazer prevalecer a lei e resguardar o interesse da coletividade, garantindo que a eleição presidencial ocorra sem o tumulto que só interessa aos que não têm o mínimo respeito pela democracia.

Insistir na candidatura de Lula é repetir os vexames do impeachment e do plantão do TRF-4

Nenhuma surpresa, Eliane: os petistas não têm escrúpulos. Tudo, neles, é fake:


Tal como se uniu contra a tentativa de usar um plantão de fim de semana do TRF-4 para soltar o ex-presidente Lula em uma hora, o Judiciário brasileiro se une agora contra uma outra investida do PT: o registro da candidatura de Lula, gritantemente ilegal, de uma “inelegibilidade chapada”, como definiu o ministro Luiz Fux, do STF.

O registro da candidatura de Lula no final do último dia, sabendo que ela seria certamente impugnada, não é uma estratégia jurídica, mas sim uma articulação política. E o Judiciário, tomado em brios, não aceita ser usado em articulações políticas desse tipo.

O ministro Gilmar Mendes (STF) classificou de “Operação Tabajara” a tentativa de derrubar o impeachment de Dilma Rousseff, depois de aprovado pelo plenário da Câmara, com um papelzinho assinado pelo vice-presidente da Casa, Waldir Maranhão. As lideranças políticas e a opinião pública rechaçaram. Ficou patético.

Depois, veio a “Operação Tabajara 2”, quando o PT esperou o fim do expediente do TRF-4, numa sexta-feira, para jogar um pedido de habeas corpus no colo do plantonista, Rogério Favreto, ligadíssimo ao PT. O juiz Sérgio Moro, a PF, desembargadores, presidentes do STJ e do STF e a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, negaram, zangados. Outro vexame.

Agora, a “Operação Tabajara 3”, definida dentro de uma cela da PF em Curitiba, onde Lula está preso: aguardar o último dia para registrar a chapa fake do PT, esticar ao máximo a “candidatura” Lula, constranger a Justiça, manter a militância petista gritando contra “os golpistas” e a favor do preso. Raquel Dodge, na condição de procuradora-geral eleitoral, não perdeu tempo. No mesmo dia, entrou com impugnação da chapa no TSE. E não foi a única.

Claro! A lei diz que quem tem menos de 35 anos, não é brasileiro nato e não é ficha-limpa não pode ser candidato à Presidência da República Federativa do Brasil. Lula tem mais de 35 anos e é brasileiro nato, mas foi condenado por um tribunal (o TRF-4), logo é ficha-suja, logo está impedido de concorrer.

É questão de tempo. Houve até quem defendesse uma impugnação “de ofício”, ou seja, determinada por um dos ministros do TSE com base na inelegibilidade evidente (ou “chapada”), mas outros ponderaram que, em se tratando de Lula, em se tratando de PT, em se tratando de uma eleição muito particular, seria melhor seguir o rito tradicional: registrar, notificar, ouvir a defesa, eventualmente pedir diligências, até dizer o óbvio, que não, Lula não será candidato porque está impedido pela lei.

Registre-se que, no script do PT e de Lula, algo deu muito errado: as manifestações que atravancaram o trânsito de Brasília em parte da semana. Foram milhares de militantes do MST, do PT, do PCdoB e dos mesmos aliados de sempre, com suas bandeiras vermelhas. Mas, se os petistas esperavam adesão do “povo”, continuam esperando.

E tem mais: o TSE e a Advocacia-Geral da União (AGU) querem desestimular as candidaturas falsas, daqueles que concorrem sub judice mesmo sabendo que são inelegíveis. Por isso, acertaram que os candidatos que fizerem campanha sub judice deverão ressarcir os cofres públicos caso cassados. Significa pagar os gastos da Justiça Eleitoral e também devolver os recursos do fundo eleitoral desperdiçados com candidaturas inúteis.

Enquanto o PT e Lula insistem na “Operação Tabajara 3”, quem fica sobrando na comédia são o “candidato a vice” Fernando Haddad e a “vice do vice” Manuela d’Ávila. A campanha eleitoral começou ontem, mas Lula está preso em Curitiba, Haddad está preso no PT e Manuela está simplesmente sobrando no “triplex”. O risco é esse pastelão ir parar na TV a partir do dia 31 de agosto, início da propaganda eleitoral. (Estadão).

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Lugar de condenado é na cadeia


Malvadeza frustrada: falha mais uma aposta para queimar Trump.

Todo mundo sabe que Omarosa fala e faz qualquer loucura para não perder a fama que ganhou como vilã de reality show. Por que essa mentirosa tem tanto espaço? Artigo de Vilma Gryzinski, via coluna Mundialista:


Manipuladora, interesseira, mentirosa, espaçosa, explosiva, espertalhona, narcisista. Capaz de usar qualquer truque e passar por cima de qualquer um para se dar bem. Louca por dinheiro, fama e poder.

Omarosa Manigauld é praticamente um Donald Trump de saias – bem justas, ressaltando as curvas.

Por isso, os dois criaram um estranho vínculo quando ela participou do reality show que o transformou de empreiteiro bilionário em personalidade do show business e vendedor de seu bem mais precioso, a marca Trump.

A marca Omarosa deixou o público americano boquiaberto: uma mulher de ambição tão desmedida quanto a de qualquer, bem, homem ambicioso.

Vilã sob medida para um reality show como O Aprendiz, no qual tinha que esmagar o grupo contrário, Omarosa perdeu o programa, mas ganhou um mentor que a levou muito mais longe.

Na verdade, até a Casa Branca, onde tinha um cargo sem nenhuma relação com qualquer capacidade mais evidente do que a tenacidade em agarrar uma oportunidade e só largar dela quando foi escoltada para fora da sede da presidência.

A demissão de Omarosa foi resultado de uma intervenção direta de John Kelly, o general dos marines encarregado da quase impossível missão de colocar ordem no estilo deliberadamente caótico de Trump.

Famoso durão entre os mais durões – “Bagdá não é **** nenhuma”, resumiu sobre a invasão do Iraque -, Kelly não contava com a astúcia de Omarosa.

A protegida de Trump gravou o general enquanto a demitia no Situation Room, o santo dos santos da Casa Branca, o lugar onde as crises agudas são administradas pelo presidente dos Estados Unidos.

Um trecho da conversa foi mostrado por Omarosa para divulgar seu livro, Unhinged, ou Fora de Controle. Ela também gravou o telefonema que recebeu de Trump depois da demissão, dando uma de desinformado (“Me disseram que você vai sair”).

Fora a cara de pau de Trump, nenhuma das gravações mostra absolutamente nada de errado – fora o fato de que tenham sido feitas e preservadas. Quando Omarosa foi demitida, nem os celulares pôde retirar.

Aliás, nada no livro de Omarosa tem qualquer consistência. As fofocas, insinuações, maldades e intrigas são todas na base “eu acho que”.

Por exemplo, ela acha que Trump está sofrendo um processo de deterioração mental – uma das acusações mais repetidas por seus inimigos mais extremos.

Ela também acha que em algumas ocasiões, durante os ensaios do Aprendiz, Trump usou o termo “nigger”, extremamente ofensivo aos negros – em inglês, a palavra ganhou um sentido derrogatório que é oposto do que acontece em português.

Na ronda de entrevistas de divulgação, Omarosa disse que chegou a ouvir as supostas gravações depois que já havia fechado o livro.

Imaginem o que aconteceria se houvesse realmente estas gravações. Diante da realização de um dos maiores sonhos dos inimigos de Trump, nenhuma força conhecida do universo conseguiria impedir que fossem divulgadas.

Forte, bonita e convincente nas declarações públicas, Omarosa evidentemente está vendendo uma mercadoria que não tem. E todos os seus entrevistadores sabem disso.

Tal como o ex-chefe, ela tem uma cara de pau sem limites. Diz, por exemplo, que só depois de ser demitida com desonra “descobriu” que ele era preconceituoso. “Devido à nossa relação, eu não podia acreditar que Trump era racista.”

Chamar o presidente de racista e de lesado é praticamente o arroz com feijão dos adversários de Trump, incluindo mais de 90% da imprensa americana.

Por exemplo: uivando de raiva pelo Twitter, Trump disse que Omarosa é “ralé” e “não vale nada” – uma tradução aproximada da palavra “dog”, usada por ele em relação a muitos inimigos.

Durante os longos anos em que foi uma vilã de manual ligada a Trump, Omarosa foi descrita exatamente assim nos mesmos órgãos de imprensa que agora a glorificam.

Não existem ingênuos nessa história. Omarosa escreveu um livro maluco, mas deliberadamente dirigido a dizer o que os inimigos de Trump querem ouvir.

Ah, sim, um resumo das fofocas. Ela acha que Trump cobiça a própria filha, Ivanka – não é, evidentemente, a primeira vez que rola essa versão incestuosa, inclusive por declarações atrozes do próprio Trump.

E Ivanka manipula os sentimentos do pai. E Melania Trump, cujo estilo Omarosa copia sem constrangimentos, não queria ir visitar a polícia fronteiriça quando usou a parka com a frase “Eu não ligo a mínima. E vocês?”. Fez isso para infernizar o marido. E Trump teve um caso com sua conselheira espiritual, a pastora Paula White. E…

Pode ser tudo verdade, mas Omarosa é um capítulo rapidamente superado numa guerra que se aproxima de desfechos momentosos.

Um, é o da investigação do promotor especial Robert Mueller. Resultados sonhados pela oposição: conspiração com os russos, obstrução de justiça e qualquer outra coisa que abra caminho para um processo de impeachment.

O qual só pode acontecer se o Partido Democrata conseguir retomar a maioria na Câmara dos Deputados na eleição de novembro.

Se suas armas são as que mostrou até agora, Omarosa não deve ter sua obra mais consagrada superada, um livro que escreveu em 2008 promovendo sua qualidade mais conhecida. Título: O Botão da Bruxa, Aprendendo a Ligar e Desligar.

A destruição da democracia no Chile: um exercício de memória histórica sem lapsos.

Publico abaixo artigo do ensaísta Mauricio Rojas, que foi guerrilheiro no Chile dos anos 70 e exilou-se a partir da ditadura de Pinochet. Foi também deputado no parlamento sueco, desvencilhando-se da velha ideologia marxista em favor da cultura liberal, que passou a divulgar na América Latina através de vários livros e palestras:


Hacia una memoria histórica que no sea trunca

En septiembre de este año se cumplen cuarenta años del golpe de estado que llevó al general Augusto Pinochet al poder. Su recuerdo estará para siempre teñido por los imperdonables crímenes y violaciones de derechos humanos cometidos bajo la dictadura militar. Pero allí no termina, como algunos querrían, lo que debemos recordar. La democracia chilena y la convivencia cívica que era su condición indispensable no se hundieron repentinamente el 11 de septiembre de 1973. La verdad es que entonces ya se habían derrumbado como consecuencia de aquel proceso de división irreconciliable que se inicia durante la segunda mitad de los años 60 y se va profundizando hasta crear un clima de guerra civil mental entre los chilenos. Sobre ello es fundamental reflexionar, pero no para hacer más leves las culpas de la dictadura, sino para entender cómo se abrieron las puertas a quienes luego no trepidarían en usar sistemáticamente la violencia y el crimen para alcanzar sus propósitos.

Hace ya tiempo llegué al convencimiento de que si algo debemos a Chile quienes participamos en los hechos que desembocaron en el golpe es justamente esa reflexión sincera y autocrítica. Especialmente si, como es mi caso, uno proviene de esa izquierda radical que apostó por la destrucción de la vieja institucionalidad chilena y la lucha fratricida como medio para crear una sociedad acorde con sus ideales revolucionarios. Nuestra responsabilidad no fue pequeña por lo que ocurrió en Chile, y de ella no nos exime el que después hayamos sido víctimas de las tropelías de la dictadura.

La dialéctica del enfrentamiento

Hay momentos en la historia de los pueblos en que las cosas se tuercen y se abre una secuencia de sucesos que se van entrelazando hasta culminar en un enfrentamiento violento. Establecer esta genealogía del enfrentamiento en el caso chileno es vital para acercarnos a un entendimiento de lo ocurrido que no solo trate del pasado sino que también sirva de advertencia para el futuro.

En el proceso de ruptura paulatina de la convivencia social que lleva al enfrentamiento existe un momento clave: aquel en que se instala una dinámica de la acción colectiva en la que la prescindencia de la legalidad y el uso de la fuerza se transforman en un modus operandi legítimo y eficaz. Ambas condiciones, legitimidad y eficacia, son fundamentales para que el recurso a la fuerza se consolide como método de intervención social y política. Cuando ello ocurre se genera un efecto demostración que impulsa a un número creciente de actores a canalizar sus reivindicaciones de esa manera, descartando las vías institucionales previamente existentes. Así, las tensiones estructurales de una determinada sociedad van pasando de un cauce de expresión a otro: de la legalidad al uso directo de la fuerza y de la búsqueda de acuerdos a la imposición de la propia voluntad. Eso es lo que, a mi juicio, ocurrió en Chile a partir del año 1967, cuando coincidieron una serie de hechos que propiciarion una deriva de desbordamiento de la legalidad y uso de la fuerza que culminaría con el golpe militar de 1973. Sobre ese año decisivo en el que se tuerce la historia de Chile trata este ensayo.

Antes de entrar a estudiar más detenidamente el inicio, en 1967, de la dialéctica del enfrentamiento chileno debemos dilucidar un par de puntos importantes. El primero se refiere a la justificación del recurso a la fuerza y el segundo a la relación entre los problemas estructurales de una sociedad y sus conflictos político-sociales.

La justificación del recurso a la fuerza

Un elemento esencial de la dialéctica del enfrentamiento es la justificación de los medios usados en virtud de la bondad, real o supuesta, de los fines que se pretende alcanzar. Este es un aspecto decisivo en la aceptación, legitimación y difusión del uso de la fuerza. Los fines legitimadores pueden ser de carácter muy variado y, habitualmente, muy encomiable –crear una sociedad mejor, restaurar el orden, luchar contra la pobreza o las desigualdades, etc.–, pero lo decisivo es su uso para justificar, moral o ideológicamente, la prescindencia o ruptura de la legalidad.

Lo que debe entenderse, como claramente muestra el caso de Chile, es que la legitimación del recurso a la fuerza para ciertas metas tiende rápidamente a generalizarse y hacerse válida para cualquier objetivo que un segmento de la población estime importante. Finalmente, toda la sociedad se orienta hacia una resolución de los conflictos donde –como dijese en agosto de 1973 un famoso titular de la revista chilena de extrema izquierda Punto Final– "tiene la palabra el Camarada Máuser"[1]

Una de las justificaciones más comunes del uso de la violencia consiste en aludir a ciertas tensiones o problemas estructurales de una sociedad determinada para decir que en ello está la causa del recurso a la ilegalidad y a la fuerza. Pero esto no es así, ya que entre los problemas subyacentes o estructurales y su canalización concreta no existe una relación mecánica de causalidad. Es por ello una falacia reduccionista decir, por ejemplo, que determinados problemas –falta de desarrollo, pobreza, desigualdades, etc.– explican un tipo específico de conflictos y su desenlace. Entre lo uno y lo otro existe una serie de eslabones intermedios, actores e ideologías específicas, que son esenciales para entender la evolución real de la sociedad.

Problemas estructurales y respuestas ideológicas

Los fundamentos estructurales de la discordia chilena fueron múltiples. En términos generales se puede hablar de un déficit subyacente de progreso, ya sentido por los sectores dirigentes del país a comienzos del siglo XX[2] y que se expresa como una serie de carencias materiales apremiantes entre los sectores populares. Este síndrome del atraso chileno se entrecruza desde sus inicios con la cuestión social, agudizada desde mediados de siglo por el gran incremento demográfico y la urbanización acelerada, que dan pie a una alarmante concentración de pobreza en la capital, Santiago, y otras ciudades importantes.

Las respuestas a estas dos cuestiones marcarán la década de 1960, abriendo una fase de radicalización ideológica que es determinante para explicar la marcha de Chile hacia el desenlace de 1973. Surge entonces, bajo la influencia de tendencias ideológicas globales, la idea de una gran solución drástica tanto al subdesarrollo como a la cuestión social. Es la era de lo que el historiador chileno Mario Góngora[3] llamó las "planificaciones globales", representadas a su juicio por los proyectos de la Democracia Cristiana de Eduardo Frei Montalva, de las fuerzas marxistas encabezadas por Salvador Allende y, finalmente, de la dictadura militar neoliberal de Augusto Pinochet[4]. Estas planificaciones no solo daban un conjunto coherente de respuestas a los problemas planteados, sino que las insertaban en un proyecto de sociedad futura radicalmente distinta de la actual. Eran, por definición, proyectos revolucionarios, excluyentes y, por ello, sectarios. Querían cambiarlo todo de raíz y se bastaban a sí mismos para diseñar el Chile futuro.

Esta ideologización radical de las tensiones estructurales de la sociedad es el eje central sobre el que gira la dialéctica del enfrentamiento chileno. Era el todo por el todo, la lucha por un programa totalizador e inflexible, donde, para usar una célebre expresión de Frei Montalva, ni una sola coma era negociable[5].

1967: el año decisivo

Adentrémonos ahora en el relato histórico acerca de los sucesos que marcarían el inicio de la deriva de Chile hacia el enfrentamiento violento. Recordemos ante todo que a mediados de la década de 1960 la democracia chilena era considerada ejemplar. Así, por ejemplo, mediciones hechas para 1965 y 1967 por los destacados politólogos estadounidenses W. Flanigan y E. Fogleman otorgaban a la democracia chilena el quinto lugar en el ranking mundial[6]. Sin embargo, seis años después nada quedaba en pie de esa democracia ni de la cultura de convivencia cívica que la alentaba y sostenía.

Elegir un año determinado para señalar el inicio de una secuencia histórica es siempre arriesgado, ya que la historia es un fluir constante de acontecimientos con profundas raíces en el pasado. A pesar de ello, creo que elegir 1967 como año de inflexión de la política chilena puede ser plenamente justificado si se analiza una serie de hechos que marcarían la apertura de una dialéctica del enfrentamiento que luego no haría sino cobrar intensidad.

Son muchos los hechos acontecidos en 1967 que, sumados, nos llevan hacia el comienzo del fin de la democracia en Chile. Elijo en este contexto solo algunos de ellos en orden cronológico.

Me retrotraigo a la madrugada del 16 de marzo de 1967. Según el relato del diario de Partido Comunista de Chile, El Siglo, desde las 2:15 un numeroso grupo de familias sin casa había comenzado, en Santiago, en la calle San Pablo, a la altura del 6.600, la toma de terrenos que daría origen a la población Herminda de la Victoria[7]. A las familias iniciales pronto se les sumaron muchas otras, hasta llegar a las 1.500 registradas unos días después. En menos de dos horas ya habían llegado varios diputados del Partido Comunista, lo que, junto a la presencia de los reporteros de El Siglo desde el inicio de la toma, demostraba la implicación directa de ese partido en los hechos. También habían llegado importantes efectivos policiales al lugar. A las 6:25 de la mañana empezaban los incidentes. Pronto llegarían más personeros comunistas y también socialistas, entre ellos el presidente del Senado, Salvador Allende. A las 11:50 comienza una acción policial que logra reubicar a los ocupantes en otros terrenos baldíos. De allí en adelante se inicia un complejo proceso de negociaciones, presiones y movilizaciones de solidaridad que concluyó el 30 de mayo con la victoria de los pobladores, que consiguieron del Gobierno acceso a un terreno de 27 hectáreas, en el cual se construirían sus futuras viviendas.

Esta toma no fue la primera ni la última en el Chile de esos tiempos[8]. Fue, sin embargo, decisiva por la cantidad de familias implicadas, la gran proyección política que adquirió y su resultado: sin ambigüedades, mostraba que el uso de la fuerza sin el respaldo de la ley era una forma exitosa de lograr lo que se quería. Tal como dice Vicente Espinoza en su libro Para una historia de los pobres de la ciudad:
(…) un hecho ilegal, en la práctica se convirtió en un mecanismo tolerado dentro de los causes institucionales. Este es quizás el más importante significado de la toma de Herminda de la Victoria, por cuanto éste sería el patrón de las tomas que ocurrirían en los años subsiguientes[9].
Y dentro de pocos años esas tomas se contarían por cientos (solo en Santiago sumaron 103 en 1970, y se calcula que en 1971 se producía una toma de terrenos al día[10]); a lo que deben sumarse todas las tomas de miles de predios agrícolas, fábricas, universidades, colegios y hasta de la catedral de Santiago (agosto de 1968), que serían noticia cotidiana durante los años venideros.

La explotación de la frustración del progreso

El contexto de este episodio es importante para entender su significado en una perspectiva más amplia. En el Santiago de entonces vivían unas 300.000 personas en conventillos, callampas[11] o viviendas precarias, y otras muchas como allegadas en casas de familiares o conocidos. La misma situación se vivía en muchas otras ciudades de un país que se estaba urbanizando a una velocidad vertiginosa. Se trataba, sin duda, de un problema nacional apremiante, y por ello el Gobierno democristiano de Eduardo Frei Montalva (1964-1970) había lanzado ambiciosos planes de construcción y autoconstrucción de viviendas, como la famosa Operación Sitio, y creado un Ministerio de la Vivienda. Ello era parte de un enfoque político centrado en la integración de los sectores más pobres y vulnerables, los así llamados "sectores marginales", a la vida social. La reforma agraria, la ley de sindicalización campesina, la de juntas de vecinos y la Promoción Popular fueron iniciativas trascendentales en un Chile que mayoritariamente buscaba el cambio.

Lo que ocurrió con el impulso reformista de Frei Montalva fue, sin embargo, algo notable: los significativos progresos que se hicieron no fueron capaces de estar a la altura de las grandes expectativas que se habían generado. Esta dialéctica entre expectativas que crecen exponencialmente y un progreso que las alimenta pero no puede colmarlas está en la esencia del drama del Chile de entonces. Este sentimiento de frustración es el que explotarían comunistas y socialistas en su encarnizada lucha contra la Democracia Cristiana (DC) por la hegemonía popular. Así, estos partidos no tardarían en transformarse en los grandes instigadores y legitimadores del descontento y del uso de la fuerza contra una legalidad y una democracia en las que no creían[12].

Hay que hacer notar que las expectativas crecen en ese período no solo por las promesas hechas o los planes de acción social lanzados por el Gobierno de Frei Montalva, también por el extraordinario crecimiento económico alcanzado en 1965 y 1966 (17,3% en total), así como por los notables aumentos de los salarios reales (un 27% en 1965-66); por lo que hace al gasto público, había crecido a gran velocidad (más de un 40% en 1965-66)[13]. En esos años el gasto social en educación, vivienda y sanidad aumentó a tasas sin precedentes en la historia chilena. Esta verdadera hybris de crecimiento, aumentos salariales, redistribución y gasto social se pagaría pronto con fuertes desequilibrios macroeconómicos y una caída del crecimiento que vendrían a agudizar el descontento, pero a comienzos de 1967 Chile no era en absoluto un país cuesta abajo, sino todo lo contrario.

En este contexto, cabe destacar que una de las características del Gobierno de Frei Montalva fue la explosión casi inmediata de una ola de reivindicaciones que desestabilizó toda la planificación del programa de reformas. Las movilizaciones sociales y sindicales, que se incrementaron fuertemente ya en 1965-66[14], no fueron una respuesta a una economía en crisis o estancamiento, sino un intento, inescrupulosamente liderado por la Central Única de Trabajadores (CUT), bajo control comunista-socialista[15], de aumentar rápidamente el nivel de vida de los sectores movilizados aprovechando la bonanza económica de esos años. Los aumentos salariales ya mencionados dan cuenta de ello, llegando a un nivel absolutamente desmesurado en 1967, cuando el salario real se incrementó en un 15,5%, lo que eleva el aumento acumulado para 1965-67 a nada menos que un 46,8%, con consecuencias graves en términos de déficit público e inflación.

Esto ilustra claramente los efectos de la dialéctica ya mencionada, entre expectativas que crecen exponencialmente y un progreso que las alimenta pero no puede colmarlas, cuando las mismas se ven hábilmente explotadas por fuerzas políticas que buscan desestabilizar todo el sistema y apropiarse del poder. Tal descontento o frustración del progreso, que posibilita la acción irresponsable de partidos radicales y conduce a demandas desestabilizadoras e imposibles de satisfacer, es en realidad la causa y no el resultado de los problemas económicos experimentados en Chile ya hacia fines de 1967[16].

"La violencia para el amor"

Fue en ese Chile que empezaba a experimentar esa sorprendente frustración del progreso donde se asentó aquella "cultura de tomas" de que habla Alejandro San Francisco en su libro sobre la otra gran toma que marcaría el año 1967: la de la Casa Central de la Universidad Católica de Chile, el 11 de agosto[17].

El escenario es aquí muy distinto al de la toma de terrenos de marzo. Se trata del espíritu revolucionario de jóvenes de clase media de la Democracia Cristiana influidos por las ideas de la naciente Teología de la Liberación y la mística de un movimiento que hacía no mucho había conmovido a Chile con su vibrante Marcha de la Patria Joven.[18] La misma DC se veía sacudida por fuertes tensiones internas, entre los sectores más pragmáticos y aquellos más revolucionarios que buscaban un cambio integral de sistema y el paso a lo que se llamó "la vía no capitalista al desarrollo". Es en este contexto donde entre muchos jóvenes democratacristianos se afinca la idea, tan propia del marxismo, de que existe una violencia aceptable (constructiva y revolucionaria) y otra deleznable (destructiva y reaccionaria). Las palabras del democratacristiano Miguel Ángel Solar, presidente de la Federación de Estudiantes de la Universidad Católica (FEUC) y principal dirigente de la toma, en un debate televisado con el director del diario El Mercurio son esclarecedoras al respecto. Allí, hablando de los fascistas, Solar puntualiza que éstos, a diferencia de otros, no buscan "la violencia constructiva, no la violencia para el amor, sino la violencia despótica".[19]

La noche del 10 al 11 de agosto de 1967, estos jóvenes democratacristianos decidieron ejercer su "violencia para el amor" tomándose la sede central de la Universidad Católica de Chile[20]. Tal como en el caso de los pobladores de Herminda de la Victoria, no es difícil sentir simpatías por la causa de estos estudiantes que querían democratizar su universidad y ponerla, como dijeron, "al servicio de su pueblo" deponiendo, mediante un contundente acto de fuerza, a quien había sido su rector desde 1953: monseñor Alfredo Silva Santiago.

La toma concitó de inmediato muchos apoyos, como los del Partido Comunista, la CUT y muchas organizaciones estudiantiles, pero lo decisivo fue el apoyo que le brindó el partido de gobierno, la Democracia Cristiana, que se transformó en la gran legitimadora del uso de la fuerza de parte de los suyos. El editorial del oficialista La Nación del 13 de agosto de 1967 es notable a este respecto:
El problema de fondo no es saber si los estudiantes han actuado con exceso de pasión juvenil o si se han excedido en los términos de su estrategia para alcanzar los objetivos que se han propuesto. Eso no tiene trascendental importancia. Lo que sí es importante es llegar a conclusiones sobre si la crítica de los estudiantes a la Universidad es cierta o no.
O para decirlo de otra manera: según el vocero del Gobierno, el fin justifica los medios.

El hecho clave en esta coyuntura fue, sin duda, la llamada de Frei Montalva al jefe de la Iglesia chilena, Raúl Silva Henríquez. En sus Memorias, el cardenal resume así esa llamada histórica:
El jueves 17 de agosto el presidente Frei me llamó por teléfono. Dijo que lo que estaba pasando en la UC comprometía gravemente la estabilidad del país (…) Si la Iglesia no podía detener la crisis, el gobierno tendría que hacerse cargo de la universidad. Para esto había un plazo fatal: el lunes 21 de agosto[21].
A partir de este ultimátum, el cardenal asume directamente las negociaciones con la FEUC y recibe plenos poderes del Vaticano para resolver la crisis. En una reunión con la dirección de los estudiantes rebeldes celebrada la noche del 20 al 21 de agosto se capitula ante la toma[22]. Se acuerda deponer al rector y nombrar a un destacado democratacristiano, Fernando Castillo Velasco, como prorrector con amplios poderes para iniciar una reforma universitaria, y además se promete la impunidad de quienes han participado en la toma.

Seguramente Frei Montalva no tenía ni la más remota idea de que de esta manera estaba abriendo una verdadera caja de Pandora, que pronto lo hundiría como gobernante. Pero ante la señal inequívoca de que la fuerza se premiaba como método reivindicativo se desencadenó de inmediato, como dice Alejandro San Francisco, una "espiral de tomas, paros, huelgas y movimientos estudiantiles de distinta naturaleza"[23].

Esa espiral, que ya no se detendría hasta que la institucionalidad democrática chilena estuvo reducida a escombros, fue marcando, cada vez con mayor fuerza, el año 1967, desde las violentas luchas callejeras a comienzos de septiembre en el centro de la ciudad sureña de Concepción bajo la dirección del MIR hasta la huelga general convocada por la CUT para el 23 de noviembre, que se cerró con un saldo trágico de 8 muertos y más de 50 heridos. Ahora sí que Chile era un país cuesta abajo, pero no por una fatalidad inevitable del destino, sino por el accionar consciente de quienes buscaban de esta manera crear las condiciones para un cambio total de sistema.

La violencia para la revolución

Es en este contexto de creciente frustración, polarización y violencia que se inscriben los dos últimos hechos que quisiera destacar de este año decisivo. En su XXII Congreso, celebrado en Chillán del 24 al 26 de noviembre, el Partido Socialista, en el que militaba Salvador Allende, se declara marxista-leninista[24] y adopta, por unanimidad, una resolución que, entre otras cosas, establece lo siguiente:
La violencia revolucionaria es inevitable y legítima (…) Constituye la única vía que conduce a la toma del poder político y económico, y a su ulterior defensa y fortalecimiento.
Allí se determina, además, el carácter puramente instrumental de las "formas pacíficas o legales de lucha":
Ell Partido Socialista las considera como instrumentos limitados de acción, incorporados al proceso político que nos lleva a la lucha armada[25].
Chile estaba advertido.

Esta conversión al marxismo-leninismo y a la lucha armada como único medio para alcanzar el poder es la culminación de un notable proceso de radicalización del socialismo chileno, que terminará de esta manera ubicándose a la izquierda del Partido Comunista[26]. El proceso culminará en el Congreso de La Serena de enero de 1971, donde Carlos Altamirano es elegido secretario general y los sectores más radicales, provenientes del Ejército de Liberación Nacional (ELN, lo que les da el nombre de elenos)[27], se hacen con el control de los órganos directivos del partido. Este es un dato clave para entender la dinámica de los años siguientes y la impotencia de Salvador Allende para contener la deriva extremista de sus propias fuerzas. Así, éste terminaría probando la misma amarga medicina de movilizaciones, tomas y extremismo que él no había tenido reparo en que se le aplicara a Eduardo Frei Montalva.

A su vez, el Movimiento de Izquierda Revolucionario (MIR) vive un proceso de radicalización que le lleva, en su III Congreso, celebrado los días 7 y 8 de diciembre de 1967, a un cambio de dirección y de línea política. La dirección pasa al grupo de jóvenes liderado por Miguel Enríquez[28], y la línea política –que ya desde su congreso fundacional de agosto de 1965 proclamaba que el "único camino" para "derrocar" el "régimen capitalista" era la "insurrección popular armada"– pasa a decantarse por una estrategia de "guerra revolucionaria prolongada e irregular”, que mezclaba los ejemplos chino y cubano de lucha revolucionaria[29]. Según la Tesis político-militar, redactada por Enríquez, esto se llevaría a cabo mediante
la apertura de algunos focos armados que poco a poco crearán las condiciones revolucionarias llamadas objetivas, es decir que ellas permitirán progresivamente ganar a la población para integrarla a la lucha armada. Así se constituirá el ejército revolucionario, en pleno régimen burgués, y así podremos nosotros conquistar el poder político[30].
Chile volvía a estar advertido.

Lo que debemos a Chile

Así se desbarrancó Chile hace ya más de cuatro décadas. Por la conjunción de una gran variedad de factores y voluntades. En el trasfondo estaban su atraso secular, la pobreza de muchos durante mucho tiempo y un progreso que no lograba colmar las expectativas creadas. Pero lo decisivo fue la explotación de todo esto en función de proyectos ideológicos radicales. Finalmente, las fuerzas marxistas sembraron viento y cosecharon tempestades. Las más extremas entre ellas, representadas por el Partido Socialista y el MIR, se propusieron explícitamente la destrucción del orden institucional democrático y la instauración de una dictadura. Lo primero lo lograron plenamente… y lo segundo también, si bien la dictadura instaurada no fue la del proletariado, es decir la suya, sino la de Pinochet. El Camarada Máuser tuvo la palabra y la barbarie se impuso.

Sobre todo esto es imprescindible una reflexión sincera, que desmistifique los simplismos existentes y la visión maniquea de las cosas impuesta por una izquierda que ejerce con maestría el uso tramposo de la memoria histórica. Lo ocurrido en Chile se merece un recuerdo sin lapsos ni silencios, que no se adecue a las conveniencias de unos u otros ni se quede a medio camino. Una memoria trunca distorsiona la verdad y no nos ayuda a avanzar hacia aquello que le debemos a Chile: un relato verídico de cómo llegamos a separarnos y odiarnos a tal punto que un día nos arrogamos el terrible derecho a destruirnos los unos a los otros.

[1] La frase es del poeta soviético Vladímir Mayakovski (1893-1930) y está tomada del poema "¡Izquierda, marchen!". Cito sus estrofas iniciales, ya que dicen mucho sobre la visión marxista-revolucionaria:

¡Adelante! ¡Marchemos! ¡Marchemos!
¡Basta ya de frases y de parches!
¡Hay que poner fin a la cháchara frívola!
¡Tiene la palabra el Camarada Máuser!

[2] En un discurso de agosto de 1900, el connotado estadista chileno Enrique Mac Iver se expresó de esta manera: "Me parece que no somos felices; se nota un malestar que no es de cierta clase de personas ni de ciertas regiones del país, sino de todo el país y de la generalidad de los que lo habitan. La holgura antigua se ha trocado en estrechez, la energía para la lucha de la vida en laxitud, la confianza en temor, las expectativas en decepciones. El presente no es satisfactorio y el porvenir aparece entre sombras que producen la intranquilidad".

[3] M. Góngora, Ensayo histórico sobre la noción de Estado en Chile en los siglos XIX y XX. Santiago: Editorial La Ciudad, 1981.

[4] Que no debe confundirse con liberal, ya que el liberalismo rechaza las planificaciones globales. Tal como subrayó uno de los grandes pensadores liberales, Friedrich Hayek: "No somos neoliberales. Quienes así se definen no son liberales, son socialistas. Somos liberales que tratamos de renovar, pero nos adherimos a la vieja tradición, que se puede mejorar, pero que no puede cambiarse en lo fundamental. Lo contrario es caer en el constructivismo racionalista, en la idea de que se puede construir una estructura social concebida intelectualmente por los hombres, e impuesta de acuerdo a un plan, sin tener en consideración los procesos culturales evolutivos". Citado en Góngora, ibid., p. 137.

[5] La frase exacta, pronunciada por Frei Montalva durante la campaña presidencial de 1964, es la siguiente: "Ni por un millón de votos cambiaría una coma de mi programa".

[6] W. Flanigan y E. Fogleman, Patterns of development and democratization: a quantitative analysis, American Political Science Association, 1967.

[7] El nombre de la población alude a una menor muerta durante los enfrentamientos subsiguientes a la toma. Victor Jara inmortalizó esta toma con su canción "Herminda de la Victoria".

[8] El antecedente más importante es la toma que daría origen a la población la Victoria, ocurrida en la comuna de San Miguel de Santiago el 30 de octubre de 1957 y que involucró a unas 1.200 familias. También esta ocupación fue liderada por el Partido Comunista. Al respecto, véase A. Cortés, Los comunistas y la toma de terrenos de La Victoria, INAP 2007.

[9] V. Espinoza, Para una historia de los pobres de la ciudad, Ediciones SUR, 1988, p. 301.

[10] Armando de Ramón, "La población informal. Poblamiento de la periferia de Santiago de Chile, 1920-1970", Revista EURE, número 50, 1990.

[11] Nombre chileno de las villas miseria o barrios de chabolas que se multiplicaron en Santiago y otras ciudades a partir de los años 50 del siglo pasado.

[12] En carta a Mariano Rumor de noviembre de 1973, Eduardo Frei Montalva resume con amargura la oposición radical que le hizo la izquierda marxista: "Anunciaron textualmente que le negarían al Gobierno de la DC ‘la sal y el agua’. El Partido Comunista estuvo en una oposición constante y total. Para hacerlo recurrieron a la injuria, a la violencia, y el Partido Socialista una y otra vez manifestó que no respetaba el orden legal y democrático, que no era sino un orden burgués. Cada vez que había una huelga o un conflicto, el señor Allende y los partidos Socialista y Comunista lo promovían o acentuaban para llevar al extremo la situación". Véase C. Gazmuri y otros, Eduardo Frei Montalva (1911-1982). México: FCE, 1996.

[13] Los datos provienen de A. Velasco, "The State and Economic Policy: Chile 1952-92", en B. P. Bosworth y otros, The Chilean Economy, The Brookings Institution, 1994, pp. 391 y 394.

[14] El número de huelgas pasó de 566 en 1964 a 723 en 1965 y a 1.071 en 1966. El número de jornadas laborales perdidas por trabajador casi se cuadruplicó entre 1963 y 1966, pasando de 585.514 a 2.015.253. Véase R. M. Marini, Antecedentes para el estudio del movimiento de masas, 1972, p. 3, y J. R. Whelan, Out of the Ashes, Regnery Gateway 1989, p. 189.

[15] En su congreso de 1965, el Consejo Directivo Nacional de la CUT quedó bajo el control absoluto y exclusivo de comunistas y socialistas. De sus 20 miembros, 11 eran comunistas y 9 socialistas. Los delegados democratacristianos y otros no marxistas se negaron a participar en la elección del Consejo, en protesta por el accionar de los partidos marxistas.

[16] La visión más común al respecto es la contraria, es decir, aquella que ve la crisis económica de 1967 como el desencadenante de la frustración social. Para un ejemplo, v. R. Rebolledo Leyton, "La crisis económica de 1967 en el contexto de la ruptura del sistema democrático", Revista Universum, 1/2005.

[17] A. San Francisco, La toma de la Universidad Católica de Chile, Globo Editores 2007.

[18] Momento culminante de la campaña presidencial de Eduardo Frei Montalva, donde decenas de miles de jóvenes provenientes de todo Chile confluyeron en Santiago (junio de 1964).

[19] El debate está reproducido en A. San Francisco, obra citada, pp. 143-165.

[20] Esta toma fue precedida por hechos similares, si bien no tan significativos, en la Universidad Católica de Valparaíso.

[21] R. Silva Henríquez, Memorias, tomo II, Ediciones Copyright, 1991, p. 100.

[22] Seguramente las simpatías del cardenal por la DC le hicieron más fácil emprender este camino.

[23] A. San Francisco, obra citada, p. 126.

[24] Esta adhesión al marxismo-leninismo había sido ya mencionada en las resoluciones del Congreso de Linares de 1965, pero ahora sería incorporada a los nuevos estatutos del partido, tal como fueron propuestos por la Conferencia Nacional de Organización de agosto de 1966.

[25] Los tres primeros puntos de la resolución del congreso dicen textualmente lo siguiente: "1. El Partido Socialista, como organización marxista-leninista, plantea la toma del poder como objetivo estratégico a cumplir por esta generación, para instaurar un Estado Revolucionario que libere a Chile de la dependencia y del retraso económico y cultural e inicie la construcción del Socialismo. 2. La violencia revolucionaria es inevitable y legítima. Resulta necesariamente del carácter represivo y armado del estado de clase. Constituye la única vía que conduce a la toma del poder político y económico, y a su ulterior defensa y fortalecimiento. Sólo destruyendo el aparato burocrático y militar del estado burgués puede consolidarse la revolución socialista. 3. Las formas pacíficas o legales de lucha (reivindicativas, ideológicas, electorales, etc.) no conducen por sí mismas al poder. El Partido Socialista las considera como instrumentos limitados de acción, incorporados al proceso político que nos lleva a la lucha armada. Consecuencialmente, las alianzas que el partido establezca sólo se justifican en la medida en que contribuyen a la realización de los objetivos estratégicos ya precisados". J. C. Jobet, El Congreso de Chillán. Página web del Partido Socialista de Chile. www.socialismo-chileno.org/PS/index.php?option=com_content&task=view&id=461&Itemid=47

[26] El radicalismo del PS y el hecho de ubicarse a la izquierda del PC provienen ya de los años 50, cuando los socialistas adoptan la así llamada línea del Frente de Trabajadores, que excluía toda alianza con fuerzas representantes de la "burguesía nacional", mientras que el PC, siguiendo como siempre las instrucciones de Moscú, adopta una línea de amplias alianzas “antiimperialistas, antioligárquicas y antifeudales”. Esta línea socialista se radicaliza notablemente a partir de la Revolución Cubana (1959) y encuentra sus expresiones programáticas, cada vez más extremas, en los congresos de Linares (1965), Chillán (1967) y La Serena (1971). Para un excelente recuento de la evolución del PS, véase I. Walker, Socialismo y democracia, Cieplan-Hachette 1990.

[27] Rama chilena del ELN fundado por Ernesto Che Guevara en Bolivia.

[28] Se ponía así término a lo que el mismo Enríquez llamó "una bolsa de gatos" y se marginaría paulatinamente a una serie de grupos de tradición sindicalista y trotskista que hasta entonces habían liderado al MIR. De allí en adelante ya no habría más congresos y se pasaría a un leninismo-guevarismo puro y duro.

[29] Véanse P. Naranjo (ed.), Miguel Enríquez y el Proyecto Revolucionario en Chile. Santiago: Editorial LOM, 2004; y J. L. Calderón, La política del MIR durante los dos primeros años de la dictadura militar. Santiago: Universidad de Santiago, 2009.

[30] El paso fáctico del MIR a la lucha armada se produce a mediados de 1969, como respuesta a las medidas tomadas por el Gobierno de Frei Montalva con posterioridad al secuestro y vejación, por parte de los miristas de Concepción, del periodista Hernán Osses. Ese mismo año tres grupos izquierdistas más inician las acciones armadas: el Ejército de Liberación Nacional (ELN), la Vanguardia Organizada del Pueblo (VOP) y el Movimiento Revolucionario Manuel Rodríguez (MR2). El resultado de las acciones armadas emprendidas será, hasta mediados de 1970, una decena de asaltos a bancos, cuatro secuestros de aviones, tres asaltos a armerías y decenas de atentados con bombas. Desde mediados de 1970 el MIR y otros grupos militantes suspenden las acciones armadas por la elección presidencial programada para septiembre de 1970. La excepción sería la VOP, que en junio de 1971 asesinará a Edmundo Pérez Zujovic, exministro del Interior del Gobierno de Frei Montalva.