terça-feira, 31 de março de 2020

O horror na China comunista e seus pavorosos campos de morte

Até crianças viraram alimento nos campos de horror do comunismo maoista. Texto de Lew Rockwell para o Instituto Mises:


Neste mês de outubro de 2019 completaram-se 70 anos da Revolução Comunista chinesa, que deu início ao mais cruel e sanguinolento regime governamental da história humana (sem exageros). 

Espantosamente, não só é raro encontrar pessoas realmente bem informadas sobre as atrocidades cometidas por aquele regime — o que nos diz muita coisa sobre nosso sistema educacional —, como ainda há partidos políticos e intelectuais que simpatizam com o maoísmo.

No artigo abaixo, uma tentativa de mitigar um pouco esse obscurantismo, em um breve resumo daquele período.
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Embora atualmente muito se fale sobre a economia da China e muito se critique o país, o que é realmente notável em todos esses comentários e críticas é quão distantes e limitados eles parecem ser quando se pensa na história recente da China.

E esse é um assunto profundamente doloroso, horrível em seus detalhes, mas altamente elucidativo e útil para nos ajudar a entender a política — e que também põe em perspectiva as notícias sobre esses recentes problemas na China.

É um escândalo, de fato, que poucos ocidentais sequer estejam informados — ou, se estão, não estão conscientes — sobre a sanguinolenta realidade que predominou na China entre os anos de 1949 e 1976, os anos da ditadura comunista de Mao Tsé-Tung. (Ou Mao Zédong).

Quantos morreram como resultado das perseguições e das políticas de Mao? Será que você se importaria em adivinhar? Muitas pessoas ao longo dos anos tentaram. Mas elas sempre acabavam subestimando os números. Porém, à medida que mais dados foram aparecendo durante as décadas de 1980 e 90, e os especialistas foram se dedicando mais intensamente às investigações e estimativas, os números foram se tornando cada vez mais confiáveis. Mas, ainda assim, eles permanecem imprecisos. Qual a margem de erro com a qual estamos lidando? Ela pode ser, por baixo, de 40 milhões; mas também pode ser de 100 milhões ou mais.

Para o Grande Salto para Frente, de 1959 a 1961, o número de mortos varia entre 20 milhões e 75 milhões. No período anterior foi de 20 milhões. No período posterior, dezenas de milhões a mais.

Estudiosos da área de homicídio em massa dizem que a maioria de nós não é capaz de imaginar 100 mortos ou 1.000. E, acima disso, tudo vira apenas estatística: os números passam a não ter qualquer sentido conceitual para nós, e a coisa se torna um simples jogo numérico que nos desvia do horror em si. Há um limite de informações horríveis que nosso cérebro pode absorver, um limite de quanto sangue podemos imaginar.

No entanto, há um motivo maior pelo qual o experimento comunista chinês permanece um fato oculto: ele apresenta um argumento forte e decisivo contra o poder do estado, de maneira ainda mais conspícua que os casos da Rússia e da Alemanha do século XX.

Esse horror já podia ser pressagiado quando uma guerra civil se seguiu à Segunda Guerra Mundial. Depois de nove milhões de mortos, os comunistas emergiram vitoriosos em 1949, tendo Mao como o soberano. Assim, a terra de Lao-Tzu (rima, ritmo, paz), do Taoísmo (compaixão, moderação, humildade) e do Confucionismo (piedade, harmonia social, progresso individual) foi confiscada pela importação da mais esquisita matéria-prima jamais conhecida pelos chineses: o marxismo alemão importado via Rússia.

Era uma ideologia que negava toda a lógica, toda a experiência, todas as leis econômicas, todos os direitos de propriedade, e todos os limites sobre o poder do estado, que alegava que todas essas noções eram meros preconceitos burgueses, e que afirmava que tudo o que era necessário para transformar a sociedade era criar um núcleo composto por poucas pessoas iluminadas e dotadas de ilimitados poderes para modificar todas as coisas.

É realmente bizarro pensar nisso: a China, dentre todos os lugares, com pôsteres de Marx e Lênin, e sendo governada por uma ideologia ditatorial, extorsiva e homicida, que só chegou ao fim em 1976. A transformação ocorrida nos últimos 40 anos foi tão espetacular que alguém dificilmente saberia que tudo isso já aconteceu, exceto pelo fato de o Partido Comunista ainda estar no poder, embora já tenha dispensado os princípios básicos da parte comunista.

O experimento começou da maneira mais sanguinolenta possível, após a Segunda Guerra, quando todos os olhos do Ocidente estavam voltados para assuntos internos (e, quando havia alguma preocupação externa, ela estava na Rússia). Os "mocinhos" (comunistas) haviam vencido a guerra contra os vilões (nacionalistas) da China — ou assim fomos levados a crer, na época em que o comunismo era a moda mundial.

A comunização da China se deu seguindo os três estágios usuais: expurgos, planejamentos e, por fim, a procura por bodes expiatórios.

Primeiro ocorreram os expurgos — também conhecidos como "purificação" — para que o comunismo pudesse ser implantado. Havia rebeldes a serem mortos e terras a serem nacionalizadas. As igrejas tinham de ser destruídas. Os contra-revolucionários tinham de ser suprimidos. A violência começou no campo e depois se espalhou para as cidades.

Todos os camponeses foram inicialmente divididos em quatro classes que eram consideradas politicamente aceitáveis: pobres, semi-pobres, médios, e ricos. Todos os outros eram considerados latifundiários e, assim, marcados para ser eliminados. Se nenhum latifundiário fosse encontrado, os "ricos" eram então incluídos nesse grupo.

A classe demonizada era desentocada em uma série de "encontros da amargura" — que ocorriam em nível nacional —, nos quais as pessoas delatavam seus vizinhos que possuíssem propriedades e que fossem politicamente desleais. Aqueles assim considerados eram imediatamente executados junto com quem quer que tivesse simpatias por eles.

A regra era que deveria haver ao menos uma pessoa morta por vilarejo. O número de mortos está estimado entre um milhão e cinco milhões. Adicionalmente, entre quatro e seis milhões de proprietários de terra foram trucidados pelo simples crime de serem donos de capital. Se alguém fosse suspeito de estar escondendo alguma riqueza, ele ou ela seria torturado com ferro quente até confessar. As famílias dos mortos eram também torturadas e os túmulos de seus predecessores eram saqueados e pilhados. O que acontecia com a terra? Era dividida em minúsculos lotes e distribuída entre os camponeses remanescentes.

A campanha então se dirigiu para as cidades. As motivações políticas eram o principal incentivo, mas havia também o desejo de se fazer controles comportamentais. Qualquer suspeito de envolvimento com prostituição, jogatina, sonegação, mentiras, tráfico de ópio, ou suspeito de contar segredos de estado, era executado sob a acusação de "bandido".

Estimativas oficiais colocam o número de mortos em dois milhões, sendo que outros dois milhões foram morrer nas prisões. Comitês residenciais formados por pessoas leais ao estado vigiavam cada movimento. Qualquer visita noturna era imediatamente denunciada, e todos os envolvidos eram presos ou assassinados. As celas das prisões iam ficando cada vez menores, chegando a um ponto em que uma pessoa vivia em um espaço de aproximadamente 35 centímetros. Alguns prisioneiros faziam trabalho forçado até morrer, e qualquer um que se envolvesse em alguma revolta era agrupado com seus colaboradores e todos eram queimados.

Havia indústrias nas cidades, mas aqueles que eram seus proprietários e gerentes eram submetidos a restrições cada vez mais apertadas: transparência forçada, escrutínio constante, impostos escorchantes, além de sofrerem todos os tipos de pressão para oferecer seus negócios à coletivização. Houve muitos suicídios entre os pequenos e médios empresários que perceberam para onde tudo estava indo. Filiar-se ao partido adiava apenas temporariamente a morte, já que em 1955 começou a campanha contra os contra-revolucionários escondidos dentro do próprio partido. Havia um princípio de que um em cada dez membros do partido era um traidor secreto.

Quando os rios de sangue haviam atingido seu ápice, Mao criou a campanha do Desabrochar das Cem Flores, durante dois meses de 1957, sendo o legado desta a frase que frequentemente se ouve: "Deixemos que cem flores desabrochem!" As pessoas foram encorajadas a falar abertamente e mostrar seu ponto de vista, uma oportunidade muito tentadora para os intelectuais. Mas essa liberalização durou pouco. Na verdade, foi tudo uma armadilha. Todos aqueles que falaram contra o que estava acontecendo na China foram arregimentados e aprisionados, talvez entre 400.000 e 700.000 pessoas, incluindo dez por cento das classes mais educadas. Outras eram rotuladas de direitistas e sujeitadas a interrogatório e reeducação; outras eram expulsas de suas casas e isoladas.

Mas isso não foi nada comparado à fase dois, que se tornou uma das maiores catástrofes da história do planejamento central. Após a coletivização das terras, Mao decidiu ir mais a fundo e passou a ditar aos camponeses o que eles deveriam plantar, como eles deveriam plantar, para onde eles deveriam mandar a colheita, e até mesmo se — em vez de ter de plantar qualquer coisa — eles deveriam ser arrastados para as indústrias. Essa etapa se tornaria o Grande Salto para Frente, que acabou por gerar a escassez mais mortal da história.

Os camponeses foram ajuntados em grupos de milhares e forçados a dividir todas as coisas. Todos os grupos deveriam ser auto-suficientes. As metas de produção foram aumentadas para níveis nunca antes imaginados.

Centenas de milhares de pessoas foram deslocadas de onde a produção era alta para onde ela era baixa, como um meio de impulsionar a produção. Elas também foram deslocadas da agricultura para a indústria. Houve uma campanha maciça para se coletar ferramentas e transformá-las em habilidade industrial. Como maneira de demonstrar esperança para o futuro, os coletivizados eram encorajados a fazer enormes banquetes e a comer de tudo, principalmente carne. Esse era um modo de mostrar a crença de que a colheita do ano seguinte seria ainda mais farta.

Mao tinha essa idéia de que ele sabia como cultivar os grãos. Ele proclamou que "as sementes são mais felizes quando cultivadas juntas" — e então as sementes foram semeadas em densidades de cinco a dez vezes maiores do que a normal. As plantas morreram, o solo secou, e o sal subiu à superfície. Para impedir que os pássaros comessem os grãos, os pardais foram exterminados, o que aumentou imensamente o número de parasitas. Erosões e enchentes se tornaram endêmicas. Plantações de chá foram transformadas em plantações de arroz, sob o argumento de que o chá estava em decadência e era coisa de capitalista.

Equipamentos hidráulicos construídos para servir às novas fazendas coletivas não funcionavam e não tinham peças para reposição. Isso levou Mao a colocar nova ênfase na indústria, que surgiu forçadamente nas mesmas áreas da agricultura, levando a um caos ainda maior. Os trabalhadores eram arrastados de um setor para outro, e cortes obrigatórios em alguns setores eram compensados com um aumento obrigatório das cotas em outros setores.

Em 1957, o desastre estava por todos os lados. Os trabalhadores estavam tão enfraquecidos que eram incapazes até mesmo de colher suas escassas safras; e assim eles morriam, vendo o arroz apodrecer. As indústrias se avolumavam, mas não produziam nada de útil. A resposta do governo foi dizer às pessoas que gorduras e proteínas eram desnecessárias. Mas a fome não podia ser negada. O preço do arroz subiu de 20 a 30 vezes no mercado negro.

Como as transações foram proibidas entre os grupos coletivistas (você sabe, a tal da auto-suficiência), milhões ficaram à míngua. Já em 1960, a taxa de mortalidade pulou de 15% para 68%, e a taxa de natalidade despencou. Quem quer que fosse pego estocando grãos era fuzilado. Camponeses flagrados com a menor quantia imaginável eram aprisionados. Fogueiras foram banidas. Funerais foram proibidos, pois eram considerados esbanjadores.

Aldeões que tentavam fugir dos campos para as cidades eram fuzilados nos portões. Os mortos por inanição chegaram a 50% em alguns vilarejos. Os sobreviventes ferviam grama e cascas de árvore para fazer sopa, enquanto outros vagueavam pelas estradas à procura de comida. Algumas vezes eles se bandeavam e atacavam casas, procurando por restos do milho que era servido ao gado. As mulheres eram incapazes de engravidar devido à desnutrição. Pessoas nos campos de trabalho forçado foram usadas em experimentos com comidas, provocando doenças e mortes.

Mas isso ainda era pouco. Em 1968, um membro da Guarda Vermelha, de 18 anos, chamado Wei Jingsheng, encontrou refúgio em uma família de um vilarejo em Anhui, e ali ele viveu para escrever o que ele viu:
Caminhávamos juntos ao longo do vilarejo. . . Diante de meus olhos, entre as ervas daninhas, surgiu uma das cenas que já haviam me contado: um dos banquetes no qual as famílias trocam suas crianças para poder comê-las. Eu podia vislumbrar claramente a angústia nos rostos das famílias enquanto elas mastigavam a carne dos filhos dos amigos. As crianças que estavam caçando borboletas em um campo próximo pareciam ser a reencarnação das crianças devoradas por seus pais. O que fez com que aquelas pessoas tivessem de engolir aquela carne humana, entre lágrimas e aflições — carne essa que elas jamais se imaginaram provando, mesmo em seus piores pesadelos?
O autor dessa passagem foi preso como traidor, mas seu status o protegeu da morte, e ele foi finalmente solto em 1997.

Quantas pessoas morreram durante a fome de 1959-1961? A menor estimativa é de 20 milhões. A maior, de 43 milhões. Finalmente, em 1961 o governo cedeu e permitiu alguma importação de comida, mas foi pouco e já era tarde. Foi permitido a alguns camponeses voltar a plantar em sua própria terra. Surgiram alguns ateliês particulares. Alguns mercados foram permitidos. Finalmente, a fome começou a diminuir e a produção começou a crescer.

Mas então veio a terceira etapa: encontrar os bodes expiatórios. O que havia causado toda a calamidade? A resposta oficial era qualquer coisa, menos o comunismo; qualquer coisa, menos Mao. E então a captura de pessoas por motivos puramente políticos começou novamente — e aqui chegamos ao cerne da Revolução Cultural.

Milhares de campos e centros de detenção foram abertos. As pessoas que eram mandadas para lá, morriam lá. Na prisão, utilizava-se das desculpas mais fajutas possíveis para se eliminar alguém — tudo para haver sobras alimentícias, uma vez que os prisioneiros eram um fardo para o sistema, de acordo com o pensamento de quem estava no comando. Esse sistema penal, o maior já construído, era organizado em um estilo militar, com alguns campos mantendo por volta de 50.000 pessoas.

Havia um critério para se aprisionar alguém: os indivíduos eram abordados aleatoriamente e recebiam ordens de prisão de maneira indiscriminada. Isso acontecia com ampla frequência. Todos tinham de carregar consigo uma cópia do Pequeno Livro Vermelho, de Mao. Questionar a razão da prisão era em si uma evidência de deslealdade, já que o estado era infalível.

Uma vez preso, o caminho mais seguro era a confissão instantânea. Os guardas eram proibidos de usar de violência aberta, de modo que assim os interrogatórios durassem centenas de horas, o que frequentemente fazia com que os prisioneiros morressem durante o processo. Aqueles que tivessem seus nomes citados durante uma confissão eram então caçados e recolhidos.

Após ter passado por esse processo, você era mandado para um campo de trabalhos forçados, onde seria avaliado de acordo com o número de horas que seria capaz de trabalhar com pouca comida. Você não poderia comer carne nem qualquer tipo de açúcar ou azeite. Os prisioneiros passariam então a ser controlados pela racionalização do pouco da comida que tinham.

A fase final dessa incrível litania de criminalidade durou o período de 1966 até 1976, durante o qual o número de mortos caiu dramaticamente, variando "apenas" entre um milhão e três milhões. O governo, agora cansado e nos primeiros estágios da desmoralização, começou a perder o controle, primeiro dentro dos campos de trabalhos forçados, e então na zona rural. E foi esse enfraquecimento que levou ao período final, e de certa forma o mais cruel, da história comunista da China.

Os primeiros estágios da rebelião ocorreram da única maneira permissível: a linha dura começou a criticar o governo por ser muito frouxo e muito descompromissado com o ideal comunista. Ironicamente, isso começou a surgir exatamente no momento em que a moderação se tornou manifesta na Rússia. Os neo-revolucionários da Guarda Vermelha começaram a criticar os comunistas chineses como sendo "reformistas a la Khrushchev". Como um escritor apontou, a guarda "se levantou contra seu próprio governo com o intuito de defendê-lo".

Durante esse período, o culto à personalidade de Mao chegou ao seu ápice, com o Pequeno Livro Vermelho atingindo um prestígio mítico. Os Guardas Vermelhos perambulavam pelo país tentando expurgar as "Quatro Coisas Antiquadas": idéias, cultura, costumes e hábitos. Os templos remanescentes foram obstruídos. Óperas tradicionais foram banidas, tendo a Ópera de Beijing todos os seus vestuários e cenários queimados. Monges foram expulsos. O calendário foi modificado. Todo o cristianismo foi banido. Animais de estimação como pássaros e gatos foram proibidos. Humilhação era a palavra de ordem.

Assim foi o Terror Vermelho: em sua capital, ocorreram 1.700 mortes e 84.000 pessoas fugiram. Em outras cidades, como Xangai, os números eram ainda piores. Foi implantado um processo de expurgo e purificação dentro do partido, com centenas de milhares presos e muitos assassinados. Artistas, escritores, professores, técnicos: todos eram alvos. Massacres organizados ocorriam em comunidades seguidas, com Mao aprovando cada passo como meio de eliminar cada possível rival político.

Mas, interiormente, o governo estava se fragmentando e rachando, mesmo que externamente ele estivesse se tornado ainda mais brutal e totalitário.

Finalmente, em 1976, Mao morreu. Em poucos meses, seus conselheiros mais próximos foram todos encarcerados. A reforma começou lenta a princípio, mas depois atingiu uma velocidade assustadora. As liberdades civis foram restauradas (comparativamente) e as reabilitações começaram. Os torturadores foram processados. Os controles econômicos foram gradualmente relaxados. A economia, por virtude da iniciativa humana e da iniciativa econômica privada, se transformou.

Tendo lido tudo isso, você agora faz parte da minúscula elite de pessoas que sabem alguma coisa sobre o maior campo de morte da história do mundo, que foi no que a China se transformou entre 1949 e 1976 — um experimento de controle total, algo que jamais se viu na história. Muitas pessoas hoje sabem mais sobre os produtos de baixa qualidade da China do que sobre as centenas de milhões de mortos e a inenarrável quantidade de sofrimento ocorrida sob o comunismo.

Quando você ouvir sobre produtos de baixa qualidade vindos da China, ou sobre trigo insuficientemente processado, imagine milhões sofrendo de uma fome dantesca, com pais trocando seus filhos para comê-los e, assim, permanecerem vivos. Não me diga que aprendemos alguma coisa com a história. Sequer conhecemos a história o suficiente para aprender algo com ela.
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Nota sobre as fontes, todas as quais você pode comprar e ler em detalhes: "China: uma longa marcha na noite", por Jean-Louis Margolin em O Livro Negro do Comunismo, por Stéphane Courtois et al. (Harvard, 1999), pp. 234-277; Death by Government, por R.J. Rummel (Transaction, 1996); e Hungry Ghosts: Mao's Secret Famine, por Jaspar Becker (Owl Books, 1998).

Apenas um pesadelo

Pesadelos sempre acabam. E, quando acabam, ficamos com aquela ridícula sensação de termos sofrido demais por algo que sabíamos ser passageiro. A crônica de Paulo Polzonoff Jr. na Gazeta do Povo:


Minha mulher diz que eu deveria investir em escrever textos animadores nessa época de pandemia. Textos que façam as pessoas rirem e terem alguma esperança em estoque para quando tudo isso passar. Eu acho a ideia ótima e já me animo. Pego meu caderninho e começo a anotar algumas ideias. Mas daí lembro que ninguém lê nada e que um dos efeitos colaterais do coronavírus é a copandemia de desesperança.

Desisto, mas não muito. Escrever é sina. Vou para o quarto, ligo o computador. E, enquanto espero a máquina já velha e cansada pegar no tranco, fico pensando no pesadelo que é estar vivendo uma pandemia que virou peste. Ontem mesmo fui dormir e o sono, como sempre, chegou rápido. Lá pelas quatro da manhã, contudo, tomado por uma vontade insuportável de ir ao banheiro, me levantei e, admirando a noite silenciosa enquanto bebia água no gargalo, para o desespero da minha mulher que roncava seu ronco miúdo, cogitei sair para saquear alguma farmácia e pegar todos os comprimidos para dormir necessários para uma noite que durasse pelo menos dois meses.

Não há nada de engraçado ou esperançoso nisso, dirá o leitor. Mas ele está enganado.

Porque pesadelos sempre acabam. E, quando acordamos de uma perseguição, da queda do trilhonésimo andar de um edifício em chamas ou (eu costumava sonhar muito com isso) de um carrasco que empunha um machado para decepar nossa cabeça, sempre nos achamos um tanto quanto ridículos diante daquele sofrimento que só existia na imaginação anárquica do sono profundo.

Eu mesmo outro dia acordei de um pesadelo motivado pelo filme de terror a que assistira na véspera. Algo a ver com pessoas que andavam no teto, falando de diabo e coisas do gênero. Daí entrava uma mãe-de-santo – e os ativistas politicamente corretos que me perdoem, mas mães-de-santo sempre me meteram medo. E a mãe-de-santo ficava lá, dançando e falando coisas ininteligíveis.

De dentro do pesadelo, comecei a gemer sabendo que o gemido ecoaria na realidade. Isso acontece com alguma frequência e talvez um psicanalista daqueles bem picaretas saiba explicar melhor. Mas o fato é que uma parte de mim sempre permanece atenta ao ridículo do pesadelo e, antes que eu me desespere, essa porção mais sábia começa a gemer, numa tentativa patética de me acordar ou, no mínimo, de fazer com que minha mulher me acorde, me libertando do sofrimento imaginário.

O mais comum é eu acordar sozinho mesmo. Com um grito. Um berro daqueles de acordar o vizinho (a mulher nem acorda mais, acostumada que está). Depois de uma olhada rápida nos arredores do quarto escuro, como que para ter certeza de que estou vivo e de que tudo aquilo não passou de um pesadelo, invariavelmente começo a rir. Pateta que sou.

A esperança que tenho a oferecer hoje, pois, é esta: um dia perceberemos como fomos ridículos ao dar ao coronavírus, à pandemia, à recessão e às intermináveis discussões nas redes sociais toda essa importância que demos. Riremos dos gráficos e da onipresente borrifada de álcool em gel como hoje rimos dos médicos que usavam aquelas máscaras com bicos cheios de ervas cheirosas durante a Peste Negra porque acreditavam que o problema todo se resumia ao fedor.

Diante do espelho, numa manhã qualquer de dezembro (não sei de que ano), riremos das muitas manifestações do nosso desespero. Da fome imaginada ali mesmo, no mercado, diante de uma prateleira cheia de queijos vindos do mundo inteiro. Do caos temido entre o farol vermelho e o verde. Da anarquia condominial que há de ser liderada por uma síndica riponga que, entre uma meditação e outra, perde tempo escrevendo éditos fascistas que alguém imaturo vandaliza com desenhos semiobscenos (eu).

E, nas animadas rodas de conversa à mesa de um bar, com bastante saliva e vírus cruzando inofensivamente os ares, riremos da desesperança própria e alheia e veremos o tenebroso futuro que projetávamos como aquilo que ele realmente foi: apenas um pesadelo. Passageiro. Daqueles que se espanta com um grito e que se comenta às gargalhadas na mesa farta do café da manhã.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista, tradutor e escritor. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.

Os liberais e a pandemia do coronavírus

Em artigo publicado pelo Instituto Cato, Andy Craig considera que enfrentamos hoje a maior ameaça às sociedades livres e abertas que já vimos:


En los últimos días, han habido muchos comentarios sarcásticos en algunos círculos acerca cómo la actual crisis de alguna forma tomó a los liberales por sorpresa. El argumento dice que la necesidad de una respuesta de un estado interventor desmiente una ideología política que es muchas veces, aunque bajo cierta percepción demasiado simplificada, resumida como aquella que favorece un “gobierno limitado”. Una mejor descripción sería la de un gobierno limitado en su envergadura, pero lo suficientemente capaz de satisfacer dicha envergadura. 

El liberalismo, propiamente entendido, comprende ciertas funciones esenciales como el papel adecuado del estado. No es una visión liberal aquella que sostiene que el estado debería ser ineficaz en la protección de los derechos individuales o que debería estar paralizado frente a una amenaza masiva a las vidas de las personas. El estado tiene un papel que desempeñar en la respuesta a una pandemia de la misma manera que es tarea del estado perseguir a los asesinos o defender al país de una invasión.

Al mismo tiempo, los principios y opiniones liberales pueden proveer alguna guía acerca de cómo responder a esta emergencia global sin precedente. 

Una cosa que debemos tener en mente es que algunos límites al poder del estado son incluso más importantes ahora. Los poderes de emergencia deberían ser limitados en su duración y limitados a abordar directamente la situación actual. Además, deberían estar basados en los hechos, con el mayor conocimiento que nos sea posible de los mismos. Las respuestas de políticas públicas de este tipo no deberían ser engrasadas con una lista pre-existente de preocupaciones no relacionadas. Es esencial preservar la democracia liberal constitucional y resistir la concentración excesiva a largo plazo de poder en el ejecutivo.

Las medidas de distanciamiento social deberían depender en el cumplimiento voluntario en la mayor medida posible, y muchas personas han estado cumpliendo con ellas de manera voluntaria. Incluso cuando el trabajo de los agentes de la ley sea necesario, simplemente clausurar las reuniones sin una citación o proceso legal es posible y preferible en muchos casos. Una dependencia severa del cumplimiento vía coerción podría no solo ser innecesaria en algunos casos, sino que también podría resultar contraproducente al provocar un movimiento de protesta en contra del cumplimiento, y podría también ser redundante encima de todas las medidas ya implementadas. Con tantos cierres, el único lugar donde muchas personas tienen que ir es uno de los negocios esenciales que permanecen abiertos: los supermercados. Usted no necesita ordenarle a la gente que se quede en casa —excepto para una lista de excepciones— si ya casi no tienen adonde ir, salvo aquellos lugares incluidos en esa lista de excepciones. Por esta razón, algunos estados han rechazado hasta ahora las órdenes de “quedarse en casa” o “refugiarse en su hogar”. No hay necesidad de fomentar todavía más pánico o distraer a la policía de sus tareas más importantes para preocuparse acerca de actividades seguras y benignas como sacar a la familia y al perro a dar una vuelta caminando.

Al mismo tiempo, muchas jurisdicciones han decidido suspender los arrestos por delitos menores en general, en gran medida para delitos sin víctimas, en un esfuerzo de reducir la población en las cárceles. También bajo consideración están las propuestas de liberar a muchos de aquellos individuos que actualmente están en la cárcel esperando un juicio por delitos menores. Este es un cambio bienvenido que debería llevarnos a reconsiderar la necesidad de algunas de estas leyes, muchas de las cuales han sido desde hace mucho han provocado la ira de los liberales.

Otra guía proviene del Premio Nobel, ícono del liberalismo, y un Distinguido Académico Titular del Instituto Cato, el difunto F.A. Hayek. En obras como La Constitución de la Libertad, escribió que las buenas leyes deberían ser generales, iguales y constantes. Ese es un principio que es relevante incluso cuando algo tan ajeno al ideal liberal como las respuestas de emergencia económica están siendo consideradas. En lugar de rescatar a determinadas industrias y de realizar intervenciones manejadas a nivel micro, las respuestas de políticas públicas deberían ser claras, sencillas, y aplicables a todo el sistema, y con una fecha de expiración definida tan pronto como sea posible. 

Los pagos sencillos y universales a los individuos son también preferibles a los rescates corporativos. No es posible que el gobierno de manera abrupta ordene cierres masivos de tanta actividad económica sin siquiera algún tipo de compensación, de la misma manera que requerimos una compensación justa por una expropiación. Es adecuado que el estado se haga cargo de las consecuencias de sus ordenes y suavice el shock de su abrupta perturbación. Pero al hacerlo, es mejor seguir este principio: mantenga la política sencilla. 

Las críticas liberales a las regulaciones malas han demostrado ser particularmente proféticas. Un fallo importante del estado ha sido la burocracia inflexible y entrometida de la FDA, la cual ha demorado las pruebas y prevenido que miles de laboratorios privados y académicos aumentan rápidamente la capacidad de realizarlas. Durante gran parte de febrero, la FDA requirió que todos dependan exclusivamente de las pruebas producidas por los Centros para el Control y Prevención de Enfermedades (CDC, por sus siglas en inglés) y se negó a darle permiso a otros laboratorios de desarrollar sus propias pruebas. Esto demostró ser algo catastróficamente equivocado cuando la primera ronda de pruebas producidas por los CDC no funcionaron y tuvieron que ser reemplazadas. Este fracaso explica en gran medida por qué la respuesta en cuanto a las pruebas en EE.UU., hasta la fecha, palidece frente a la de Corea del Sur.

Otro ejemplo de una respuesta liberal a la pandemia ha sido la necesidad de suspender rápidamente muchas de las restricciones sobre las licencias ocupacionales, permitiendo que los doctores practiquen en otros estados y aumentando los permisos que tienen los enfermeros facultativos y los asistentes de los doctores. Incluso las regulaciones mundanas y triviales acerca de las cuales solamente los liberales se hubiesen preocupado han sido eliminadas. Hace dos meses, ¿quién hubiera pensado que era una preocupación urgente suspender las regulaciones de alcohol de tal manera que los restaurantes puedan servir bebidas para que estas sean entregadas a domicilio por los conductores de las plataformas de vehículos compartidos? 

Mientras que podemos celebrar estas ganancias, no hay duda de que hemos visto imposiciones extremas sobre las libertad personal. Los liberales pueden sentir esta pérdida como algo especialmente doloroso. Incluso cuando estas nuevas reglas sean tristemente necesarias y justificadas por los hechos, es un costo que deberíamos cuidadosamente sopesar conforme nos acercamos al relajamiento de las restricciones y volvamos a algún tipo de normalidad. 

En el nombre de salvar vidas de una amenaza inmediata, los gobiernos alrededor del mundo han suspendido la mayoría de los viajes internacionales y han coartado severamente las libertades de los consumidores y aquellas de asociación. La pérdida importante de libertades que desde hace mucho hemos dado por sentadas pone de relieve lo valiosas que verdaderamente son. Y algunas libertades, como la libertad de expresión y el derecho a la privacidad, deberían seguir siendo sagradas y defendidas con tenacidad incluso en el contexto de una emergencia.

Mientras que gran parte de la respuesta de políticas públicas hasta ahora ha sido de buena fe (aunque muchas veces inepta), la tendencia hacia concentrar más poderes por parte de populistas autoritarios no debería ser descartada. Mantener el Estado de Derecho, los pesos y contrapesos, y una democracia liberal y constitucional es esencial. Las elecciones deberían proceder a tiempo, con cualesquiera que sean las condiciones que se demuestre que sean necesarias para realizarlas. Las legislaturas y cortes deberían seguir abiertas para los asuntos esenciales, incluyendo la participación remota de ser necesaria, y las estructuras constitucionales fundacionales deberían seguir en pie. No necesitamos un dictador en EE.UU. ni en ningún otro país alrededor del mundo. 

Tal vez todavía más importante: las reglas y poderes de emergencia deberían durar solo cuanto dure la emergencia, y deberían ser derogados en la oportunidad más temprana posible. Deberíamos estar alertas ante aquella tendencia de los estados de retener poderes y mantener abiertos programas muchos después de que su justificación original ha desaparecido. 

La libertad es valiosa y en la historia de la humanidad muchas veces ha sido fugaz y tenue. Ahora mismo nos enfrentamos a la mayor amenaza a una sociedad libre y abierta que muchos de nosotros hemos visto alguna vez, al menos en EE.UU., y quizás en muchas otras naciones que han pasado por los peores flagelos del totalitarismo y las guerras importantes. De manera que los liberales continuarán como siempre, listos para defender los principios de la libertad humana en cada situación.

Este artículo fue publicado originalmente en Cato At Liberty (EE.UU.) el 25 de marzo de 2020.

A pior crise ainda está por vir

Mesmo quando voltarmos a uma aparência de normalidade, a comoção econômica não cessará, e o mundo por um bom tempo não será mais o mesmo. Artigo de Alex Pipkin para o Instituto Liberal:


Ontem chamei um Uber. Um homem, aproximadamente 40 anos. Adivinha o papo – reto. Apavorado! Trabalhando, quando chamado, e em prontidão 14 horas por dia.

Trocou de carro na hora errada, falou-me.
Não me resta outra coisa que tentar ganhar próximo daquilo que faturava antes do demônio viral – disse-me ele.

Como consolo, entonei que tinha certo patrimônio, porém como autônomo, afirmei que encontro-me completamente sem liquidez.

O isolamento social, fundamental agora, precisa ser calibrado científica e sensatamente. Até quando “a vida” suporta?!

Acho que a crise econômica beirará uma depressão e reverberará seus devastadores efeitos por muito tempo, gerando inclusive mais danos e doenças que o vírus.

Indústrias de turismo, alimentação, serviços privados e públicos, e várias outras estão paradas.

Inevitavelmente, e aqui de maneira salutar, a disciplina fiscal do governo foi de vez para as cucuias. Óbvio que será fundamental retomá-la, quando possível.

Governos federal, estaduais e locais serão ainda mais sobrecarregados pela pressão em seus sistemas de saúde pública, como também pelos “pacotes de estímulo” às pessoas e às empresas; mas a economia não vai se recuperar antes que o distanciamento social acabe, e até mesmo por muito mais tempo depois que o boom virótico arrefecer.

As pessoas estão sem trabalhar ou têm seus horários de trabalho diminuídos drasticamente – distintamente do meu amigo do Uber – e precisam de dinheiro agora para pelo menos comprarem comida e permanecerem confinadas.

Não são só os indivíduos que necessitam. Micro, pequenas e médias empresas precisam de recursos para se manterem de pé, a si e aos seus empregados, na tentativa de ao menos adiarem demissões ao máximo possível.

Independente daqueles que afirmam ser “100% vidas”, racional e tecnicamente, o distanciamento social prolongado “matará” todos nós, não só de tédio, como também de outros desastres sociais, como a fome para muitos.

O pacote de estímulo fiscal ajuda a debelar a crise imediata, mas no médio e longo prazos não imagino que evite a quebradeira geral.

Mesmo assim, embora os socorros governamentais possam soar impopulares para alguns, na vida real, além de preservar as pessoas, será importante para não matar aqueles empresários – eficientes – que correm riscos e que criam empregos e riqueza para essas mesmas pessoas.

Grande parte das cadeias produtivas e das empresas estão interrompidas e a economia parada.

Mesmo quando voltarmos a uma aparência de normalidade, a comoção econômica não cessará, e o mundo por um bom tempo não será mais o mesmo (apesar de que algumas questões “humanas” serão aperfeiçoadas!). Virão ajustamentos, desemprego, mais adaptações e mais desemprego.

Especialmente os mais jovens – dentre esses uma legião de idealistas – perceberão que na realidade (evidente que dura!) não valerão tanto quanto alguns pensam que contam.

Meu amigo do Uber me contou – e a corrida nem foi tão longa assim – que um vizinho dele, desempregado e desesperado, entrou em pânico e foi parar num hospital. Deus o abençoe.

Triste! Alguns, mesmo hoje ainda empregados, aterrorizados, provavelmente quando o globo voltar a girar, reduzirão seus gastos trazendo impactos à economia e a redução da geração de empregos por bastante tempo.

E outros muitos talvez tenham que utilizar – sei lá – os tais R$ 600,00 para tratamentos psicológicos e/ou psicanalíticos… Já começou…

Essa é a realidade da vida, da saúde física e econômica, inseparáveis, apesar das constantes compreensões equivocadas e outros besteirois que nos assolam. Que desfecho próximo teremos?!

Doutor em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS. Mestre em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS Pós-graduado em Comércio Internacional pela FGV/RJ; em Marketing pela ESPM/SP; e em Gestão Empresarial pela PUC/RS. Bacharel em Comércio Exterior e Adm. de Empresas pela Unisinos/RS. Professor em nível de Graduação e Pós-Graduação em diversas universidades. Foi Gerente de Supply Chain da Dana para América do Sul. Foi Diretor de Supply Chain do Grupo Vipal. Conselheiro do Concex, Conselho de Comércio Exterior da FIERGS. Foi Vice-Presidente da FEDERASUL/RS. É sócio da AP Consultores Associados e atua como consultor de empresas. Autor de livros e artigos na área de gestão e negócios.

O calor deterá o vírus no Brasil?

O que há de verdadeiro na esperança de que fatores climáticos contenham a epidemia por aqui. Blog do jornalista Hélio Gurovitz:


Uma das principais esperanças do Brasil no combate à Covid-19 é um clichê: somos um país tropical, e o novo coronavírus não terá aqui as mesmas condições de propagação que nos climas temperados da China, Europa e Estados Unidos. Faz sentido? Que diz a ciência?

Tal esperança se baseia em fatos consolidados a respeito da gripe e de outros tipos vírus que causam problemas respiratórios. As quatro espécies conhecidas de coronavírus responsáveis por resfriados comuns – identificadas pelas siglas OC43, HKU1, 229E e NL63 – são influenciadas pelo clima. Na epidemia provocada pelo primeiro vírus da Sars, em 2003, outro coronavírus não prosperou quando a temperatura subiu (embora sua erradicação tenha mais a ver com as medidas para evitar contágio).

Quando, portanto, o novo vírus Sars-CoV2, causador da Covid-19, foi identificado, uma das primeiras ações dos cientistas foi tentar extrair conclusões a respeito de seu comportamento em diferentes condições de temperatura e umidade. Diversos estudos sobre o assunto já foram divulgados. A maioria deles ainda não passou pelo ritual acadêmico de revisão pelos pares, anterior à publicação oficial. Apesar disso, suas conclusões são relevantes.

Alguns permitem manter a esperança de que o novo coronavírus seja mesmo menos virulento no clima mais ameno. Mesmo assim, isso não significa necessariamente que o Brasil poderá relaxar as medidas de isolamento social no combate à Covid-19. A seguir, as principais conclusões a respeito da relação da doença com o clima.

O primeiro estudo a relacionar o novo vírus a fatores climáticos saiu em 17 de fevereiro. Com base em dados das províncias chinesas atingidas pela epidemia, os autores, todos ligados à Universidade Harvard, investigaram o papel da umidade no contágio. As conclusões não foram muito animadoras.

“A transmissão sustentada e o crescimento rápido (exponencial) dos casos é possível ao longo de uma gama de condições de umidade, variando das provícias frias e secas da China, como Jilin e Heilongjiang, a locais tropicais, como Guangxi e Cingapura”, escreveram. “Nossos resultados sugerem que mudanças apenas no clima não necessariamente levarão ao declínio na contagem de casos sem a implementação de intervenções extensivas de saúde pública.”

Poucos dias depois, em 25 de fevereiro, pesquisadores ligados à Universidade Sun Yat-Sen divulgaram um estudo sobre a relação não da umidade, mas da temperatura com a disseminação do novo coronavírus em todas as cidades atingidas pela epidemia na China. Desta vez, os resultados pareceram mais encorajadores.

“Até certo ponto, a temperatura poderia transformar significativamente a disseminação da Covid-19, e poderia haver uma temperatura mais favorável à transmissão do vírus”, escreveram. Essa temperatura estaria pouco abaixo de 9ºC. O efeito que constataram, embora significativo, foi pequeno e não demonstra uma relação de causa e efeito entre clima mais ameno e menor contágio.

Em 16 de março saíram dois outros estudos sugerindo que fatores climáticos podem contribuir para arrefecer a epidemia. O primeiro, publicado no Swiss Medical Weekly, usa as variações sazonais dos quatro tipos conhecidos de coronavírus para construir um modelo capaz de prever os níveis de contágio do Sars-CoV2. “Depois de muitos anos, o Sars-CoV3 poderá se tornar um coronavírus sazonal com surtos no inverno”, afirmam os autores. “É preciso notar, porém, que ele parece ser transmitido em climas tropicais, como Cingapura, portanto o inverno não é uma condição necessária para a disseminação.”

O segundo estudo, de cientistas europeus ligados às universidades de Évora, Helsinki e ao Museu Nacional de Ciências Naturais da Espanha, é mais otimista nas conclusões. “Pessoas nos climas temperados quente e frio são mais vulneráveis. Aquelas nos climas áridos vêm em seguida na vulnerabilidade, enquanto a doença deverá provavelmente afetar os trópicos marginalmente”, afirmam.

As projeções deles sugerem que as temperaturas médias ideais para a transmissão do novo coronavírus estão entre 4ºC e 16ºC. O mecanismo que explica tal padrão está, dizem os cientistas, provavelmente vinculado à capacidade de sobrevivência do vírus fora do corpo humano, favorecida também pela umidade baixa. Mesmo assim, eles também são cautelosos: “Enquanto o padrão de contágio é, com base na nossa análise, constrangido por fatores climáticos, o número real de casos positivos é afetado por fatores não-climáticos.”

Por fim, um último estudo publicado no último dia 19 corrobora as conclusões otimistas. Analisando a propagação da Covid-19, os autores, vinculados ao Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), afirmam que “o número máximo de transmissões ocorreu numa determinada faixa de temperatura – 3ºC a 13ºC”. Apesar disso, reconhecem que a relação não é uniforme e não foi verificada em países como Cingapura, Malásia, Tailândia, Índia e no estado americano da Flórida.

“Embora tenhamos verificado efeitos relacionados ao clima, enfatizamos a necessidade de usar as medidas de quarentena adequadas, mesmo nas regiões mais quentes”, escrevem. “Além do clima, vários outros fatores desempenham um papel na quantidade de casos em cada região.” Entre tais fatores, enumeram a qualidade dos serviços de saúde, medidas de distanciamento social mobilidade da população, grandes aeroportos e a maior proporção de idosos na pirâmide etária.

O fato mais crítico para entender a velocidade de disseminação do Sars-CoV2 pelo planeta é o mais óbvio: trata-se de um vírus novo, quase toda a população do planeta é suscetível ao contágio. “Vírus novos têm uma vantagem temporária, mas importante: poucos ou nenhum indivíduo na população é imune a eles”, escreve o epidemiologista Marc Lipsitch, de Harvard, numa análise sobre os efeitos do clima na pandemia. “A consequência é que podem se espalhar fora da estação normal.”

Conclusão de Lipsitch: mesmo infecções sazonais podem ocorrer “fora da estação" quando são novas. Quando já estiver estabelecido, é provável que o Sars-CoV2 só ataque com mais força no inverno, como os demais coronavírus. Quando o primeiro ataque chega numa estação mais amena, tem pouco valor ser um país tropical, abençoado por Deus ou bonito por natureza.

A próxima pandemia também virá da China. E não deve demorar muito.

Apesar do coronavírus, os mercados de animais silvestres da China não desapareceram. E eles serão a fonte provável de muitas pandemias futuras. A ditadura comunista faz vista grossa para esses costumes nocivos:


Reúna centenas de animais silvestres num só lugar. Coloque outras centenas de pessoas ao redor. Faça com que essas pessoas comprem os animais ainda vivos, ou mortos na hora da comercialização. Prepare a carne ainda fresca, sem congelá-la, e sirva mal passada. Pronto: você tem a receita completa para disseminar vírus.

A pandemia de coronavírus teve origem na China, assim como foi lá que surgiu a Síndrome Respiratória Aguda Severa (Sars), no início do milênio. No futuro, outras epidemias também surgirão no país asiático. E a explicação é simples: os mercados chineses onde animais silvestres são comercializados funcionam como um verdadeiro caldeirão. “Como os animais ficam concentrados e são vendidos vivos, os vírus conseguem se espalhar com mais facilidade”, explica o biomédico especializado em virologia Jaime Henrique Amorim, professor da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB) que neste momento trabalha na instalação de um laboratório de diagnóstico molecular.

Acontece que os vírus sofrem mutações o tempo todo. No momento em que uma leva deles se altera a ponto de conseguir habitar o organismo humano, ele tem a sua volta uma série de oportunidades para migrar. “Essas mutações acontecem no ambiente natural dos animais, mas ali o vírus não tem contato direto com pessoas, que permitiriam que ele mudasse de habitat”, diz o pesquisador.

É por isso, diz ele, que os coronavírus que habitam morcegos e tatus brasileiros não encontram a mesma facilidade para disseminar uma epidemia, como acontece na China. “Não os criamos em grandes quantidades, nem temos um contato tão próximo com eles”. E principalmente não temos o hábito de nos alimentar deles em grandes quantidades.

“Os tratadores dos animais e os vendedores já podem pegar o vírus. Na casa dos consumidores, eles podem passar para as pessoas durante o preparo ou na ingestão. Ao entrar em contato com a boca, saltam para o sistema respiratório”, explica o professor da UFOB.

Diante da alta densidade populacional das cidades chinesas no entorno desses mercados, esses vírus que se adaptaram aos humanos encontram as condições ideais para se propagar rapidamente. Como a China é hoje um país altamente aberto ao mundo, é questão de semanas até que portadores de novos vírus viagem para todos os cantos do planeta. “Poderíamos tranquilamente rebatizar a pandemia de coronavírus chinês”, afirma o pesquisador.

Hábito antigo

Os mercados onde os animais silvestres são comercializados sustentam tradições de décadas – mais especificamente, desde a grande crise de abastecimento provocada pelo regime de Mao Tsé Tung, que matou de fome 45 milhões de pessoas entre 1958 e 1962 e levou milhares de pessoas a recorrer à carne de qualquer tipo de ser vivo para se alimentar.

Ainda hoje, aproximadamente metade da população do país ingere, mesmo que ocasionalmente, animais silvestres ou tem contato com eles porque compartilham de antigas crenças a respeito do poder medicinal de alguns desses animais. As escamas do pangolim, por exemplo, seriam eficazes para curar febre. Esse mamífero, em especial, é tão disputado nos mercados chineses que corre o risco de entrar em extinção. Ele é o maior suspeito, neste momento, de ter transmitido o Covid-19 para os humanos. O pangolim possivelmente atuou como intermediário, infectado por algum dos mais de 200 tipos de vírus que os morcegos carregam consigo.

Há décadas o governo chinês afirma tentar impedir a prática. Em alguns locais, como Pequim, a ação foi bem sucedida. Em outros, como Guangzhou e Wuhan, os mercados continuam funcionando. “Esses mercados fazem parte da cultura chinesa, mesmo que o governo proíba essas atividades continuam acontecendo”, explica Jaime Henrique Amorim. “São hábitos ligados a períodos de crise, guerras, fome. Eles também comem insetos, por exemplo. E não vão parar”.

O que fazer, então? “Agir com mais transparência”, diz o professor. “Se o governo chinês tivesse informado os outros países assim que identificou a epidemia, eles teriam mais tempo para se preparar. E o tempo, nessas situações, faz toda a diferença”.

Além disso, diz o professor, os países ocidentais precisam se preparar melhor para essas situações – afinal, essa pandemia vai acabar, mas outras virão, certamente. “Outros países asiáticos, como a Coreia do Sul, já lidaram com a Sars e desenvolveram procedimentos padronizados para situações como essa. Nós no Brasil temos agora a oportunidade de aprender com a experiência, e nos preparamos melhor para a próxima pandemia”. (Gazeta do Povo).

Hora 'daquela" grave decisão: ir ou não ir para a ventilação artificial?

Não são apenas os médicos que decidem; doentes idosos também podem escolher não ser internados em UTIs e receber tratamento longos ou inúteis. Vilma Gryzinski:


Morrer sozinho em casa ou morrer sozinho no hospital?

O novo coronavírus está criando condições mais difíceis ainda para os que esperavam, mesmo se não manifestassem explicitamente, um fim o menos traumatizante possível.

Para pessoas em idade avançada e com várias complicações de saúde, ser internadas e entubadas por causa da pneumonia causada pelo vírus pode significar não apenas cerca de três semanas de tratamento agressivo e inútil.

Implica também em ocupar leito, equipamento e recursos médicos que poderiam ir para outros pacientes com mais chances.

Segundo pesquisa feita num hospital inglês, cerca de 50% dos pacientes com Covid-19 conseguem sair da intubação e se recuperar. Outros centros dão um índice mais baixo ainda, de 40%.

Atenção: ser idoso e positivo não significa uma sentença de morte, como tantos estão temendo. Estamos tratando aqui de casos extremos, com pessoas já muito comprometidas.

No geral, a mortalidade verificada na Grã-Bretanha é parecida com a de outros países: 9% para os acima de 80 anos, 5% na faixa dos 70 aos 79.

A médica britânica Rachel Clarke, especialista em medicina paliativa, foi bem direta: “Se você é muito idoso e tem muitas doenças, provavelmente nunca será apropriado ser colocado na ventilação artificial”.

“Se conversar antecipadamente sobre isso, poderá concluir que é melhor ficar em casa”.

A nova epidemia está despertando debates urgentes sobre como tratar do fim da vida, um assunto no qual os Estados Unidos foram pioneiros, com enormes quantidades de pessoas subscrevendo há muito tempo os documentos que proíbem ser submetidas a medidas extremas conhecidas como DNRs (Do not Resuscitate).

No Brasil, o equivalente é o testamento vital.

Todo mundo provavelmente já testemunhou como a medicina tem recursos extraordinários para salvar vidas que, há não muito tempo, seriam perdidas.

Ao mesmo tempo, estes recursos podem acabar sendo empregados para prolongar, inutilmente, o sofrimento de manter por semanas, meses e até anos, vidas que na prática já se apagaram, mas são sustentadas por aparelhos.

As decisões individuais no caso do Covid-19 muitas vezes já estão sendo atropeladas pela realidade dos hospitais lotados e sem equipamentos para todos os que estão com a pneumonia já avançada.

Além da triagem dos pacientes, existe um outro fator sendo levado em consideração: o risco para médicos e equipes quando precisam fazer aquelas intervenções extremas, conhecidas por leigos através de filmes.

Uma equipe grande começa a aplicar ao paciente com parada cardíaca ou respiratória uma série de procedimentos de emergência máxima para a ressuscitação.

É aí, justamente, que são maiores os riscos de contaminação.

A grande quantidade de fluídos corporais envolvidos nesse processo tem probabilidade maior de “atravessar” as camadas de proteção.

Médicos e profissionais de saúde já vivem num ambiente onde circulam altas cargas virais – e os primeiros estudos parecem indicar que a intensidade da doença pode depender da maneira como é adquirida.

Contato direto com infectados, por tosse, espirro e outras formas de transmissão pessoa a pessoa, é a pior.

Na Itália, no centro da tragédia, já morreram mais de 60 médicos.

O mundo se aproxima de um milhão de infectados confirmados. Nos países onde o pico parece estar próximo, há pequenos indícios de esperança na leve diminuição de casos positivos.

“Podemos esperar que Espanha e Itália estejam perto desse ponto?”, perguntou Michael Ryan, diretor de emergências da Organização Mundial de Saúde.

“Sim. Mas todo mundo fala da curva ascendente e de estabilização. A pergunta é como baixar a curva. E para isso não basta o confinamento. Para reduzir os números, é preciso duplicar os esforços do sistema de saúde”.

Na solidão do confinamento especial, muitos idosos sequer conseguem olhar o complicado quadro geral da pandemia. 

O grande fantasma do Alzheimer foi substituído pelo vírus. O individual ganhou um aspecto coletivo e uma urgência sem precedentes.

Como é comum, muitos idosos não querem dar trabalho para a família ou sofrer mais do que o necessário. 

Falar sobre isso pode até funcionar como uma forma de alívio

A polarização do vírus chinês

A situação criou um vírus de esquerda e um vírus de direita. É o mesmo vírus, mas, segundo quem faz o sequenciamento genético do bicho, ele fica de um jeito ou de outro, ironiza J. R. Guzzo, em artigo publicado pela Oeste:


Está demonstrado, mais uma vez, que coisas que nunca aconteceram antes podem acontecer a qualquer momento – como a gente acaba de ver agora, com a criação de um vírus de esquerda e de um vírus de direita. Melhor ainda: é o mesmo vírus, mas, segundo quem faz o sequenciamento genético do bicho, ele fica de um jeito ou de outro. Um chimpanzé mais esperto, desses que aprendem a mexer com computador, conseguiria achar em 30 segundos a diferença entre os dois. O coronavírus de esquerda é bravo. Tem de ser tratado com “isolamento horizontal” (ninguém sai de casa, fecha tudo, parem as máquinas) e é um militante anti-Bolsonaro; se receber os incentivos corretos, pode ajudar a derrubar o presidente, na eleição de 2022 ou mesmo antes. O coronavírus de direita é manso. Pode ser tratado com “isolamento vertical” e deixa as pessoas saírem de casa para trabalhar e cuidar de suas próprias vidas da maneira que cada um julgar mais adequada para si próprio.

O coronavírus de esquerda, que também é cultivado na classe liberal-intelectual-civilizada, infecta muito mais gente que o da direita – pelo menos é o que garantem as listas de casos, atualizadas a cada segundo com a ajuda de marcadores digitais em “tempo real”. Mata bem mais, também, segundo os mesmos relógios. Mata cidadãos que morrem de outras doenças, como enfisema, enfarte ou leucemia. E promete ser pior que dez bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki somadas, só no Brasil – onde há “cenários”, “modelos matemáticos” e “projeções de computador” indicando a “possibilidade” de “até 2 milhões de mortos”. Essa cifra será conseguida se o plano de “genocídio” do governo Bolsonaro, que está batalhando por um relaxamento da quarentena, for aplicado em toda a sua extensão.

O coronavírus de direita, para não encompridar muito a conversa, sempre apresenta números menos ambiciosos em termos de contágio, de mortes e de estimativas de desgraças que ainda não aconteceram. Além disso, pode ser sujeito à cura por medicamentos e agentes químicos – hipótese dada como cientificamente impossível pelos militantes do coronavírus de esquerda. O coronavírus de direita, enfim, só existe nas pesquisas científicas que procuram a sua cura; não tem existência fora das teorias e dos laboratórios. No noticiário – e, portanto, naquilo que passa por realidade oficial “aceita pela Organização Mundial de Saúde” – só existe um coronavírus: o de esquerda.

Levando-se em conta que a OMS está sob a direção de um político que não é sequer formado em medicina, integra uma das piores ditaduras da África e foi posto no cargo pelo lobby que a China exerce para ganhar votos nos países africanos da ONU, não há muito o que dizer, aí, em matéria de credibilidade. O coronavírus de esquerda, naturalmente, é 100% OMS – seus defensores no Brasil, por sinal, citam o organismo, o tempo todo, como o árbitro mundial supremo da epidemia. Nos meios de comunicação, o habitat preferido do coronavírus de esquerda por aqui, a coisa não é melhor. Jornalistas não sabem o que é um Melhoral – o que vão saber sobre uma epidemia dessas? Na falta de conhecimento, o que aparece é a militância.

Ainda bem que o vírus, no fim das contas, não é de partido nenhum. Ele é apenas o que está sendo, e será o que vai ser – no mundo dos fatos, e não no mundo dos desejos.

Guzzo: "Situação de emergência é desculpa para agredir o Estado de Direito".

A China, cuja ditadura comunista é culpada direta pela eclosão do coronavírus, virou um exemplo para o Brasil que se opõe “à direita”. J. R. Guzzo, no portal Metrópoles:


A arte das medidas tomadas por governos estaduais e prefeituras, e executadas por fiscais sem autoridade para fazer o que fazem, por policiais que obedecem ordens ilegais (ou tomam, eles mesmos, a iniciativa de agir fora da lei) e por funcionários sem nenhuma atribuição judicial, estão agredindo diretamente o Estado de Direito no Brasil – com a desculpa de que há uma “situação de emergência” e isso justifica “medidas excepcionais” por parte do poder público. A OAB, a ABI, a CNBB e todos os agrupamentos que se definem como “representantes da sociedade civil” e guardiães da democracia têm agido em cumplicidade com as manifestações de totalitarismo quando elas endossam a visão de que é indispensável confinar a população em casa e proibir a atividade econômica no Brasil.

Cidadãos são presos sem mandato judicial ou qualquer formalidade legal por se manifestarem contra o isolamento. Carreatas, que fazem parte do direito de ir e vir, são proibidas por prefeitos. Banheiros em postos de gasolina são fechados, por ordem de fiscais de prefeitura, para clientes que vão abastecer seus veículos. Detentos “à espera de julgamento”, muitas vezes assassinos e criminosos violentos presos em flagrante e ainda não sentenciados (ninguém é julgado meia hora depois de ser preso, em lugar nenhum do mundo), estão sendo soltos. Milhares de servidores dos poderes executivos estaduais e municipais estão tomando decisões sem qualquer tipo de autorização judicial – e o próprio aparelho judiciário, com frequência, age como um poder fora da lei nas questões que envolvem a epidemia.

O modelo de todos eles, e da mídia que lhes dá apoio integral, é a China. O país onde o governo é o culpado direto pela eclosão do vírus e sua propagação pelo mundo, por ter proibido durante semanas que médicos e cientistas se dedicassem a cuidar da tragédia, virou um exemplo para o Brasil que se opõe “à direita”.

Ao ler o livro de Woody Allen, não apostaria minhas fichas em Mia Farrow.

Se você ler os motivos que aproximaram Woody de Soon-Yi e não sentir uma leve empatia, lamento, o seu coração está morto. João Pereira Coutinho, via FSP:


Conheci Woody Allen aos 15 anos. Um primo, precoce e pedante, emprestou-me Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e disse, com ares de profeta, “vai e assiste”. Eu fui e assisti. O que aconteceu a seguir foi bastante semelhante ao que aconteceu no Mar Vermelho quando Moisés trouxe de volta os judeus do Egito. A cabeça se abriu, e a minha vida mudou. Não por razões artísticas, entenda. O caso é pessoal. Até aos 15, eu era Gregor Samsa depois de acordar de um sonho intranquilo.

Depois de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, eu continuei Gregor Samsa. Mas com bastante orgulho nos meus hábitos de rastejante. Ali estava um exemplar neurótico, misantropo, solitário, pessimista e paranoico que parecia funcionar no mundo real. Qual era a minha desculpa? Não tinha desculpa. Se comecei a escrever, foi porque li primeiro um dos melhores escritores americanos da nossa era. O fato de ele só escrever filmes e contos era secundário.

Dizer que assisti a todos os filmes de Woody Allen a partir desse momento seria um eufemismo. Eu decorei os roteiros e, sem um pingo de vergonha, passei a usar certas frases em contexto romântico. Lembro uma vez, teria uns 17 ou 18 anos, quando segredei ao ouvido de uma moça adorável “você é a resposta de Deus a Jó”. A frase é de Manhattan, é claro, quando Woody elogia Mariel Hemingway. Deus pode fazer coisas terríveis, mas também fez aquele rosto. Não teve o efeito desejado. Ela me olhou, como se olhasse um acidente na rodovia, e perguntou “quem é essa Jó, alguma amiguinha sua?”

É com esse historial que me aproximei de Apropos of Nothing (que título!), as memórias de Woody Allen finalmente publicadas. Escrevo “finalmente” porque o filme (de terror) é conhecido: o livro seria lançado pela Hachette, mas, após pressão da intelligentsia liberal, que sempre gostou de censurar os hereges por seus alegados crimes, a editora cancelou o lançamento. O livro acabou por sair pela Arcade, uma editora com certa tradição “conservadora” (Cioran, Dershowitz, Beckett) e que publicou a autobiografia “por uma questão de princípio”. Fez bem. Se não fosse a coragem da Arcade, eu teria ido pessoalmente a Nova York para assaltar os escritórios da Hachette. E atear fogo neles.

O livro, em rigor, não é um livro. São dois. Ou, melhor dizendo, existe uma vida antes das acusações de Mia Farrow de que Woody molestara Dylan, a filha de ambos; e existe outra vida depois desse acontecimento sísmico. De tal forma que o tom, o estilo, a musicalidade das memórias se altera. É como se alguém tivesse começado com Sidney Bechet e, a meio do percurso, mudasse a trilha sonora para a Sinfonia nº 3 de Penderecki.

Ao som de Bechet, as memórias de Woody Allen são um prazer literário comparável a Mark Twain ou S. J. Perelman. As observações sobre os pais; o tédio de morte com a escola; a descoberta do cinema na infância e da própria cidade de Nova York; o sonho em ser mágico; as primeiras piadas profissionais – tudo isso possui uma força onírica e nostálgica que diverte e comove pela sua candura.

Como divertem e comovem as relações com as mulheres, em particular com Louise Lasser, o primeiro grande amor. Pelo menos, antes de a doença bipolar dela ter afundado o barco. O momento em que Woody nos descreve a casa dos pais de Louise, impecavelmente decorada, em contraste com o quarto da própria Louise (“abrimos a porta e vemos Hiroshima”), é tão hilariante que eu desconfio que desloquei uma costela, abafando o riso para não acordar ninguém.

Mas é então que os risos se apagam e Penderecki se instala. O ano é 1992. Woody Allen se apaixona por Soon-Yi, a filha adotiva de Mia Farrow e do maestro André Previn, então com 21 anos. Estranho? Seria, se o amor fosse um animal previsível. Não é. Se você ler os motivos que aproximaram Woody de Soon-Yi e não sentir uma leve empatia, lamento, o seu coração está morto.

O que acontece em seguida, poucos meses depois da descoberta da relação, é uma mistura de Kafka com Stephen King. Sim, há mulheres enganadas que reagem de forma insana. Na versão de Woody Allen, Mia Farrow é a própria definição de insanidade. Quem, exceto um monstro, manipularia uma criança de 7 anos para destruir a reputação do pai? E quem, mesmo depois de ver o caso enterrado pela Justiça, exige entrar em mais um filme do ex-companheiro como se nada se tivesse passado?

Fato: jamais saberemos, com certeza absoluta, onde mora a verdade. Se a nossa própria vida, às vezes, é um mistério para nós, o que dizer da vida dos outros? Seja como for, se eu tivesse de apostar as minhas fichas depois de ler Apropos of Nothing, eu não apostaria em Mia Farrow. Mas apostaria sempre no talento de um homem que, à sua maneira, também foi uma resposta de Deus à minha amiguinha Jó.

Filosofando no tiroteio


Como podem os patos questionar a visão e o voo da águia? E como pode a águia descer das montanhas para molhar os pés nos charcos e açudes?
Fazia-me essa pergunta inúmeras vezes enquanto lia, em 2016, os originais do livro Bandidolatria e Democídio para escrever seu prefácio a convite dos doutores Leonardo Giardini de Souza e Diego Pessi. Ambos, ao longo da obra, percorrem com talento e rara habilidade os dois planos tão distantes.

Durante o primeiro governo petista no Rio Grande do Sul, tivemos um secretário de Segurança Pública cujas práticas se alinhavam com teses sociológicas e filosóficas sobre as quais discorria com enorme domínio e fluidez. O problema estava em que quanto mais se elevava, no jurista, a paixão pela ideia, mais os pés do secretário de Segurança afundavam no piso dos fatos, ali onde a criminalidade faz suas vítimas e onde atuam os que a devem enfrentar. Foi um desastre.

Todo militar, mesmo que jamais tenha sido combatente, sabe que crescem as possibilidades de vitória de quem consegue atrair o inimigo para um terreno onde ele esteja menos preparado. Graças a essa estratégia, aliás, muitas guerrilhas resistem, por anos a fio, a exércitos poderosos. O mesmo vale para combates verbais, especialmente para este de que aqui trato. Os filósofos do garantismo penal não resistem ao primeiro choque de realidade.

Somente uma imensa afeição ao papel revolucionário da violência criminosa desconhece o fato de que quando o Estado não faz justiça com as mãos que a sociedade lhe deu, esta passa a fazer justiça com as próprias mãos. E se estabelece a barbárie. No lirismo garantista, contudo, o réu é a primeira vítima, é alguém de quem não se pode exigir outra conduta. Vêm daí as propostas de desencarceramento (vitoriosas na decisão contra a prisão após condenação em segunda instância), de abertura das prisões em virtude do coronavírus, de tratar como presumivelmente inocentes réus confessos e presos em flagrante, e as insistentes afirmações de que “No Brasil se prende demais”, apesar de o crime contra a vida e o patrimônio correrem soltos nas ruas, aos olhos de todos.

Vale a pena prestar atenção, nesses casos, ao uso e ao abuso da abordagem filosófica e sociológica como tática para encobrir a nudez da realidade com a folhinha de parreira da ideia. E quando alguém busca trazer o debate para o pó e o barro dos fatos, esses juristas (sempre da mesma banda ideológica) com estudado sarcasmo, cuidam de transformar tal conduta num ato de desrespeito ao elevado plano intelectual em que elaboram suas reflexões. Como podem os patos questionar a visão e o vôo da águia? E como pode a águia descer das montanhas para molhar os pés nos charcos e açudes?

No entanto, assim como os patos conhecem o açude melhor do que a águia e a águia conhece a montanha melhor do que os patos, não pode o pato policiar a montanha nem a águia ser xerife do açude.

Descartes jamais diria “sou assaltado, logo existo”. Se filosofar fosse indispensável à segurança pública, todos, do coronel ao soldado e do delegado ao escrivão, deveriam se dedicar a tão elevados exercícios do espírito e da mente. E, nesse caso, quem iria atender o 190?

Lições da quarentena para todos

Isolamento radical é o outro nome do assassinato da economia, adverte Augusto Nunes:


Se a quarentena para todos foi concebida para deter o avanço do coronavírus, por que ficou mais acelerado o crescimento do número de mortos e casos confirmados? É uma boa pergunta, hão de concordar os brasileiros que não sucumbiram ao pânico nem embarcaram no noticiário da imprensa infectada pelas bactérias do alarmismo. Antes de colocar o ponto já ouço a resposta berrada pelos devotos do isolamento radical: porque se as ruas do país não fossem despovoadas, a ofensiva do inimigo seria mais veloz.

Tenho a tréplica na ponta da língua: por que isso não aconteceu na Suécia? Quando a pandemia chegou àquele país, o governo optou pela sensatez e adotou imediatamente um conjunto de medidas preventivas. Os restaurantes, por exemplo, passaram a atender apenas clientes sentados, concentrações humanas foram limitadas a 50 pessoas e a população entendeu prontamente o que fazer para resistir ao coronavírus. Enquanto isso, a vizinha Dinamarca percorreu o caminho demarcado pelo pânico. O governo fechou escolas, fábricas, lojas, restaurantes — e mandou todo mundo para casa. Passados 30 dias, os dois países apresentam o mesmo índice de mortes e casos confirmados em relação ao total de habitantes — a população sueca é o dobro da dinamarquesa.

Ao longo da semana passada, o governo sueco foi pressionado para aderir à quarentena para todos. Nesta segunda-feira, o governo dinamarquês informou que vai adotar o modelo da Suécia.

Quarentenas e coberturas burras e inteligentes

Jornalismo rançoso, de superexposição da controvérsia, encomenda mais e mais dissenso. Coluna de Fernão Lara Mesquita para o Estadão:


“Quem não se comunica se estrumbica.” Jair Bolsonaro é um sujeito que tem de ser ouvido “por partes”, como diria Jack, o Estripador. Para entender o que ele diz é preciso separar forma de conteúdo. É uma atitude que requer tomar calmante, porque na forma ele agride com tanta força que o resto ninguém ouve, mas é obrigatória, pois, sendo ele quem é, não é ele, é o Brasil que “se estrumbica”.

A crônica da ultima “birra” é enfática. Para além da citação textual da “gripezinha” de Dráuzio Varella, com que quis ironizar “aquela televisãozinha”, ele tinha recuado suspendendo dívidas e dando outras condições para viabilizar a quarentena nos Estados. Nada era mais fácil e previsível, porém, que uma admoestação pública como a de João Doria provocasse a resposta que provocou...

Ora, tirar Bolsonaro do sério é covardia. Tarefa pra herói que tem mesmo pena do Brasil é ouvir inteligentemente o lado burro dos discursos que profere. É aí que entra a imprensa. Esse jornalismo rançoso, de superexposição de todo e qualquer pelo de controvérsia, encomenda o aprofundamento do dissenso. Anunciar que o passaporte para a exposição de quem vive de voto na telinha é provocar e sustentar controvérsias bem no meio de um desastre é um ato mais criminoso que o do político que topa esse jogo deletério. Mas tem sido a regra. Nada nesta pandemia pode ser compreendido analisando apenas os dados concretos do problema. Ninguém perde muito tempo com eles. O vírus foi politizado como tudo o mais. Ou você é “quarentenista” fechado ou dá briga. É proibido raciocinar em voz alta a respeito. 

E, no entanto, está mais claro a cada minuto que a verdade está no lugar de sempre - o meio - e não há jeito de evitar o pior sem incluir o que há de verdade tanto na necessidade da quarentena burra para não morrer na chegada da doença, quanto na evolução para a inteligente o mais rápido possível para não morrer das consequências da outra.

Na China o governo é a polícia e todas as empresas são monopólios pertencentes ao mesmo patrão, que, além do de empregar, emitir a moeda com que opera suas empresas e aguentar tanto prejuízo quanto quiser nem que o “trabalhador” fique reduzido a comer morcegos, também tem o poder de prender e arrebentar quem ele quiser. Mas nem ela pode brincar com esse fogo. É o país mais avançado do mundo em tecnologia da opressão, o que veio a calhar numa crise como esta. Primeiro fechou Wuhan na marra. Mas o quanto antes passou a testar e tomar temperaturas em massa. Agora, com todo o país fichado no reconhecimento facial e cada chinês vigiado 24 horas por dia, o celular diz ao governo onde ele anda, com quem se encontra e até de quem se aproxima, e o algoritmo da polícia o classifica numa de três categorias: vermelho, amarelo ou verde. É verde quem não saiu do país nem se encontrou com ninguém vermelho ou amarelo nos últimos 14 dias. É amarelo quem veio de fora ou se encontrou com alguém vermelho nos últimos 14 dias. É vermelho quem foi testado positivo ou teve a sua temperatura medida com febre. Isso classifica também as cidades e regiões do país. O trânsito é livre para as verdes, cidades ou pessoas; tudo é restringido para os amarelos; há supressão total da circulação dos vermelhos.

Assim 80% dos chineses voltaram a estar, como sempre estiveram, semissoltos e trabalhando muito, enquanto o resto do mundo continua preso, menos nos países que estão fazendo coisa semelhante com os custos e limitações da liberdade democrática (ou quase), como Coreia do Sul, Cingapura, Taiwan, Alemanha e outros que, livres da contaminação em nível crítico pela pandemia da conflagração ideológica, estão enfrentando o coronavírus com miolos, em vez de bílis, aplicando testes e medindo temperaturas em massa e colhendo números tão bons quanto os da China.

Dinheiro e coordenação são as condições que nos faltam para transitarmos da quarentena burra para a inteligente a tempo de evitar o mergulho que estamos na iminência de dar da miséria para a miséria irreversível. Descobrir onde tem testes, quanto custam, como produzi-los na velocidade necessária, mobilizar “gargalos da quarentena” (supermercados, transportes, etc.) a medir temperaturas são formas de repercutir inteligentemente o modo burro de Bolsonaro afirmar sua parte da verdade desta epidemia e dispensá-lo de fazer a próxima “birra”.

Mas passar adiante dele empurrando-o para a reforma das reformas, que nem ele, muito menos quem hoje o critica, quis ou deixou fazer na profundidade necessária para acabar de uma vez por todas com o sistema de privilégios medieval que destruiu este país, seria a única forma de a imprensa brasileira pagar a sua dívida histórica. Não só porque não escaparemos do abismo sem isso e porque tempo é tudo, mas porque foi por o jornalismo pátrio nunca se ter dignado a fazer uma campanha de denuncia remotamente proporcional ao escândalo que são os privilégios da privilegiatura que a economia brasileira chegou a esta pandemia como o “velhinho” mais depauperado e de mais alto risco no planeta de morrer no primeiro minuto que lhe faltar o ar.