sexta-feira, 30 de setembro de 2005

Amigo do Saci não crê em mensalão

Mal assumiu a presidência da Câmara, o deputado Aldo Rebelo, que tem entre seus feitos notáveis a instituição do "Dia Nacional do Saci Pererê" (31 de outubro), já absolve o governo e o bando dos "mensaleiros". "Nunca acreditei que o mensalão existisse", diz ele candidamente. Quanto a propinas em troca de votos, ah, nisto ele também não acredita. Certamente, o nobre deputado só crê no Saci Pererê,
na Mula sem Cabeça, no Padim Ciço e em assombrações albanesas brandindo foice e martelo.

O ceticismo do deputado do PCdoB (SP) não é filosófico, mas ideológico. O primeiro é uma atitude fundamental a qualquer processo de conhecimento e salutar em relação à política; o segundo é prisioneiro de dogmas, sacrificando os fatos em favor de conveniências partidárias. Repito o que disse em outra nota: Aldo Rebelo agirá como preposto do governo LuLLa (a foto da Folha de S.P. diz tudo), do qual já foi líder na Câmara, além de ministro da Coordenação Política. O uso do cachimbo faz a boca torta...

Caberá à oposição impor limites à sua atuação e lembrá-lo de que a Casa não é um anexo do Palácio. Mas, com o fisiologismo correndo solto, nunca se sabe.

POLÍTICA COMO FARSA

Reinaldo Azevedo, no site Primeira Leitura:
"O discurso de Aldo (...) expôs, como ninguém, a política como farsa. Disse aos parlamentares, em última instância, que só foi contra as CPIs e jogou pesado contra as investigações porque o governo mandou: como líder, era sua obrigação. Parece burocraticamente correto, mas não é. Quem é seu chefe agora? Teria sido candidato sem a indicação de Lula? Teria sido eleito sem a caneta de Lula? Aldo que me desculpe: agora, como antes, quem paga a conta tem a preferência.
Escreveu-se ontem, isto sim, um triste capítulo do Parlamento brasileiro, com a eleição de um presidente de Câmara de cabresto, para a qual contaram uma montanha de dinheiro e, ora vejam!, a influência de ninguém menos do que Severino Cavalcanti. Pior: tivessem sido defenestrados os que merecem ser cassados, Aldo poderia tomar o rumo de Tirana."

http://www.primeiraleitura.com.br/auto/entenda.php?id=6314

UM RETRATO DE ALDO

Maria Lúcia Victor Barbosa, socióloga:
"Calado, feições inexpressivas, Rebelo é o típico comunista que se anula em nome do todo. Isso ele demonstrou de sobra quando foi usado pelo então todo-poderoso José Dirceu, que manobrava à sombra e mandava para frente de batalha o aparente coordenador político do governo. Quando as manobras fracassavam, e isso aconteceu várias vezes, a culpa era do Aldo. E durante a fritura de meses, o disciplinado camarada se submeteu sem queixas às labaredas da fogueira da humilhação.

Agora o presidente da Câmara, Aldo Rebelo, testemunha de defesa de José Dirceu, apesar de ser tão sério se permitiu uma piada: disse ser independente do governo. Entretanto, ele está pronto para continuar a trajetória de serviços à causa. Na verdade, já trouxe esperanças a Dirceus e Janenes, a Luizinhos e João Paulos. Desse modo, não será surpresa se das longas CPIs restar como cassado somente Roberto Jefferson. Os demais seriam inocentados. Apenas no caso do deputado José Dirceu, que se diz o mais inocente de todos, permanece um mistério: se ele é tão puro quanto uma criancinha, por que será que saiu chispando quando Roberto Jefferson desferiu aquele “saí daí Zé, para não complicar o presidente?”
http://www.diegocasagrande.com.br/main.php?flavor=manchetes&id=8735

quinta-feira, 29 de setembro de 2005

Porteira aberta para as escolas privadas

Em entrevista ao Correio Braziliense, no início da semana, o ministro da Educação, Fernando Haddad, reconheceu que as instituições de ensino superior particulares crescem descontroladamente porque o governo não conseguiu "definir critérios para credenciamento de instituições e autorização de novos cursos". Tanto assim que o MEC autorizou, de janeiro a agosto, a criação de 290 novas instituições, batendo um recorde histórico. Resultado: o Brasil tem agora uma instituição pública para cada dez privadas.

Eis no que deu o novo sistema de avaliação, o tal Sinaes, que substituiu o Provão e as Comissões de Avaliação estabelecidas no governo anterior e que, reconheça-se, mudaram para melhor algumas áreas de ensino. O Sinaes simplesmente destruiu o sistema anterior e, pelo que se vê, ainda não desencalhou.

Em artigo publicado há exatamente dois anos no Observatório da Imprensa ("Mais ciência e menos ideologia"), este escrevinhador advertia: "a extinção do Exame Nacional de Cursos – o Provão –, conforme proposta da comissão nacional designada pelo ministério, conduzirá a um grave retrocesso no sistema de avaliação das instituições de ensino superior. A anunciada morte do Provão é motivo de festa particularmente nas baiúcas que vendem diplomas nos fins de semana. Às instituições sérias, públicas ou privadas, trará mais prejuízos do que benefícios".

No artigo, escrito a pedido do amigo Victor Gentilli, colunista do OI, desossei os pressupostos filosóficos e ideológicos do Sinaes. Acesse: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos/da160920031.htm

LADEIRA ABAIXO

O Iconoclasta comentou ontem (cf. O toma-lá-dá-cá em Brasília) o menosprezo do lullismo pela educação, cujo ministério poderá ser entregue ao PL, como parte da milionária barganha pela eleição de Aldo Rebelo à presidência da Câmara. Na mesma linha vai Lúcia Hippolito, cientista política e colunista do UOL:. "você se lembra que o presidente da República tirou seu ministro da Educação (Tarso Genro) para fazê-lo interventor no PT? E não deu certo, porque ele foi embora para casa. Acho que isso é um pouco uma demonstração do que o governo pensa a respeito do Ministério da Educação. Para mim, entregar agora o ministério para o Ciro Nogueira ou para o porteiro da esquina é tudo igual. Acho que a demonstração de desprezo pela estrutura do ministério ficou patente ali, quando Lula tirou o seu ministro para intervir numa situação dentro do PT. Dali para frente é ladeira abaixo."
http://noticias.uol.com.br/uolnews/brasil/entrevistas/2005/09/29/ult2614u272.jhtm

Pouca-vergonha mesmo!

Clovis Rossi toca, na sua coluna na Folha de S.Paulo de hoje (A pouca-vergonha) em questões que também abordei ontem, a propósito do festival ético que se desenrolou em Brasília nos últimos dias. Reproduzo o texto.

"Escrevo antes de saber o resultado do segundo turno da eleição na Câmara dos Deputados, mas, seja qual for, você diria que a honra da Casa foi restaurada? Ou diria que foi um festival de avacalhações, a começar da frenética busca de apoio do Partido Liberal por parte do comunista Aldo Rebelo? Só no Brasil pode acontecer esse tipo insólito de casamento: liberais e comunistas, ambos completamente à vontade na pouca-vergonha.Se fosse só esse o pecado, seria mais uma aberração que passa por normal no pobre país tupiniquim. Mas há ainda o fato de um dos envolvidos nesse casamento chamar-se Valdemar Costa Neto, o presidente do PL que renunciou para não ser cassado por falta de decoro, depois de confessar recebimento de "dinheiro não-contabilizado" (o neologismo dos sem-vergonha para caixa dois).Mas Rebelo está justificado porque Ricardo Berzoini, o mais votado candidato a presidente do PT, diz que caixa dois "não é corrupção".O rapaz só concorre à presidência do PT porque a direção anterior e mais uma penca de deputados foram pilhados no caixa dois. Se não é corrupção, por que não mantê-los no comando? Já têm uma imensa "expertise" acumulada.Só falta Berzoini dizer que sonegação fiscal (uma das utilidades do caixa dois) também não é corrupção.Como se fosse pouco, o leitor Rubens Gatto pescou um ato falho do ex-ministro José Dirceu em seu depoimento ao Conselho de Ética na terça-feira. Disse Dirceu: "Volto ao Conselho de Ética (...) cada vez mais convencido da minha inocência". Cada vez mais? Quer dizer que, no início do caso, não estava convencido e que vai se convencendo da inocência aos poucos, de tanto repetir para si mesmo que é inocente? Se ele próprio tinha dúvidas sobre sua inocência, como é que o distinto público pode acreditar nela? "
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2909200504.htm

quarta-feira, 28 de setembro de 2005

Frase para encerrar a noite

"Ninguém é mais ético do
que eu neste país"



(Do presidente LuLLa, em 22/06/2005)

A vitória dos "mensaleiros"

Aldo Rebelo, o candidato do governo e dos partidos do "mensalão", acaba de vencer a eleição para a presidência da Câmara por 251 votos, contra 236 de José Thomaz Nonô, da oposição. Rebelo será pouco mais que um preposto de LuLLa, que agora terá alguma chance (mas não uma garantia) de governabilidade.

Como diz Liliana Pinheiro, do site Primeira Leitura, "o comunista foi eleito por gente séria, é claro, mas o que fez a diferença foi o apoio dos mensaleiros ameaçados de cassação e do que há de mais fisiológico na base do governo. A qualidade da barganha que propiciou sua vitória comprometerá, mais dia menos dia, a qualidade de sua gestão". O fato é que, com a presidência da Câmara, o governo LuLLa "leva de brinde vários embriões de crises no Legislativo, por mais que Aldo não seja um Severino".

A propósito, o Blog do Noblat anota uma coincidência ("coincidência, nada mais do que coincidência
"): são
15 os deputados ameaçados de cassação por quebra de decoro parlamentar, acusados de ter recebido dinheiro de Marcos Valério; foi também por 15 votos que Aldo Rebelo venceu.
http://www.primeiraleitura.com.br/auto/entenda.php?id=6311
http://noblat.ultimosegundo.ig.com.br/noblat/

O toma-lá-dá-cá em Brasília

Aldo Rebelo e José Thomaz Nonô, que obtiveram 182 votos cada um na eleição da tarde, disputam a presidência da Câmara em segundo turno. O Governo LuLLa fez de tudo para empurrar Rebelo, justamente chamado de candidato chapa-branca. Liberação de verbas e até promessa de ministério entraram na negociação. O PL de Waldemar Costa - aquele do "mensalão", que renunciou para não ser cassado - pode ganhar, pasmem, o ministério da Educação, área pouco apreciada pelo lullismo. Se Rebelo vencer, será o fim da independência da Câmara. Destaco trecho da coluna de Fernando Rodrigues na Folha de hoje:

"Aldo Rebelo pode ganhar, Lula pode recuperar sua popularidade. Tudo pode. Mas a eleição de hoje para presidente da Câmara marcará a mais aberta operação recente de intromissão do Poder Executivo sobre o Congresso. Em setembro o governo liberou mais verbas do Orçamento para deputados e senadores do que nos oito meses anteriores. Os três ministros do PMDB tiveram uma reunião com Lula para montar uma operação a favor do candidato oficial à presidência da Câmara, Aldo Rebelo.Candidatos e seus representantes foram chamados ao Palácio do Planalto para "conversar" e conhecer argumentos palpáveis e concretos a favor do comunista Aldo. Em troca de apoio, o PL ouviu até a promessa de que receberia um ministério -possivelmente o da Educação. Faz sentido. Ao dar essa pasta para um partido citado no escândalo do "mensalão", Lula tentará disseminar pelo Brasil a cultura que já implantou dentro do Congresso."

terça-feira, 27 de setembro de 2005

Homenagem ao filósofo Norberto Bobbio


"A história é um labirinto. Acreditamos saber que existe uma saída, mas não sabemos onde está. Não havendo ninguém do lado de fora que nos possa indicá-la, devemos procurá-la nós mesmos. O que o labirinto ensina não é onde está a saída, mas quais são os caminhos que não levam a lugar algum."
Citando este parágrafo, que resume o pensamento e a vida do filósofo italiano Norberto Bobbio (1909-2004), faço uma chamada para o artigo Bobbio e o labirinto da história, que publiquei no Diário Catarinense, de Florianópolis, em 27/08/05. O texto está disponível em http://www.criticanarede.com/his_bobbio.html.

Este é o Brasil de LuLLa

O personagem da esquerda foi condecorado por LuLLa um dia antes das denúncias de "mensalinho" do empresário Buani. LuLLa, claro, é menos antenado que o segundo, que não tem problemas com pesquisas de opinião!

Do site: http://oquepensaaluizio.zip.net/



Greve nas universidades federais

A Folha de S. Paulo rompe o silêncio da mídia sobre a greve nas universidades federais, afirmando que já há greve em 22 delas. Chamo atenção apenas para o texto inicial:

Paralisação pode prejudicar calendário letivo; salário-base de professor titular com doutorado e dedicação exclusiva é de R$ 1.308.

É isto mesmo, este é o salário-base! O resto, que varia de docente para docente, é constituído de "penduricalhos", alguns com segurança judicial, outros ao alvitre do burocrata de plantão. O fato é que os professores e funcionários estão sofrendo um processo de pauperização que começou com o governo do sociólogo relapso e ex-presidente - também relapso - FHC e prossegue com o governo do iletrado LuLLa, seu fiel seguidor, que nenhum outro plano tinha. Ao longo de dez anos, a dupla devastou os campi universitários através de uma arma poderosa: o salário.

Matéria completa, descontando-se o viés sempre paulista da FSP: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2709200519.htm

Deputados deixam o PT. Já vão tarde.

A Folha de S. Paulo noticia a primeira debandada de petistas do partido. Aliás, já deveriam ter abandonado o barco faz tempo. Não esperaram a tal "refundação" preconizada pelo ex-ministro Tarso Genro. Ora, como refundar um partido cuja trajetória conduziu ao maior estelionato eleitoral da história brasileira? Melhor começar de novo em qualquer outra sigla, ou fundar outro partido...


Dois deputados federais -Ivan Valente (SP) e Orlando Fantazzini (SP)- e quatro estaduais, além de militantes históricos como Plínio de Arruda Sampaio e Hélio Bicudo, anunciaram ontem sua saída do PT. À exceção de Bicudo, eles se filiarão ao PSOL, legenda criada por petistas que foram expulsos do partido por votar, em 2003, contra projetos do governo.Com as desfiliações anunciadas, o PT deixa de ter a maior bancada na Câmara dos Deputados, perdendo a primazia para o PMDB. Até ontem, havia 88 deputados petistas e 87 peemedebistas.Outros deputados da chamada esquerda petista, como Chico Alencar (RJ) e Maninha (DF), devem anunciar a saída hoje -para concorrer nas eleições de outubro de 2006, os candidatos devem estar filiados a uma legenda pelo menos um ano antes.Ontem à noite, representantes da esquerda petista se reuniram para tentar convencer os deputados a permanecer no partido. A reunião terminou sem que os parlamentares mudassem de idéia.A dissidência ocorre depois da realização do primeiro turno das eleições internas do partido.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2709200512.htm

A cruzada contra Darwin e o evolucionismo

Charles Darwin manteve A Origem das Espécies na gaveta por 20 anos. Temia chocar a mentalidade religiosa de seus contemporâneos: a teoria da evolução demonstrava, afinal, que o homem é apenas um animal entre outros e, como todos os outros, evoluiu a partir de formas simples, através da seleção natural. Nenhum lugar especial está destinado a este parente próximo dos macacos (tão próximo que, sabe-se hoje, seus genes são 99% idênticos aos do chimpanzé). Conclusão: o homem não é, ao contrário do que dizem os textos bíblicos, um ser criado segundo algum "plano divino", mas resultado — como o próprio universo — de um processo cego, sem finalismo, submetido apenas a causas e leis naturais.

O artigo - uma versão resumida de meu livro A cruzada contra as ciências, a ser publicado - está na revista Crítica, de Lisboa (http://www.criticanarede.com/filos_darwin.html).

Sobre conhecimento

Um dos ramos mais antigos e fascinantes da filosofia é a teoria do conhecimento. Sempre aberta a problemas e apoiando-se em terreno movediço, não teme explorar novos horizontes e suscitar incômodos questionamentos em áreas supostamente sólidas. Por isso mesmo é difícil encontrar alguma obra que, sem desprezar o rigor, trate-a com clareza didática e objetividade. Teoria della conoscenza, de Nicla Vassallo, preenche essa lacuna em livro que não deveria ficar restrito aos leitores italianos, merecendo tradução em língua portuguesa, já que poucas obras enfocam esse tema no Brasil e em Portugal, onde a filosofia parece se reduzir à história da filosofia.

Texto completo em http://www.criticanarede.com/tconoscenza.html, um bom site de filosofia.

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

A Câmara como quintal do palácio?

Fernando Rodrigues comenta hoje, em seu blog, a escancarada interferência do Planalto para colocar na presidência da Câmara o chapa-branca Aldo Rabelo. É o petismo-lullismo inovando. Sempre para pior.

O Palácio do Planalto virou comitê de campanha da candidatura de Aldo Rebelo (PC do B-SP) a presidente da Câmara. Hoje, os ministros Jaques Wagner (Relações Institucionais) e Dilma Rousseff (Casa Civil) passaram a telefonar para deputados pedindo votos para a campanha chapa-branca.
Na semana passada, o próprio presidente Lula determinou pessoalmente aos 3 ministros do PMDB que cabalassem votos pró-Aldo. Ao mesmo tempo, o ministro petista Paulo Bernardo (Planejamento) anunciou a liberação de R$ 500 milhões para pagar emendas ao Orçamento de deputados –a boa e velha fisiologia.
É comum o Planalto atuar em eleições para presidente da Câmara. Mas há muito tempo não se via uma atuação tão aberta e escancarada. Se Aldo ganhar, OK. Se perder, será uma derrota pessoal de Lula –e de Renan Calheiros, que apesar de ser senador é um dos principais atores da eleição na Câmara.

http://uolpolitica.blog.uol.com.br/index.html