quarta-feira, 30 de novembro de 2005

A longa noite do comissário


Ontem, ele apanhou com um instrumento desses aí ao lado. Hoje, deve apanhar de seus colegas, numa noite que promete ser longa. Esperneou, esperneou, mas sua hora chegou. E, claro, ele deve bater de novo às portas do STF...

Mudança

Este blog suprimiu da "testa" o título O ICONOCLASTA. Não porque o autor tenha deixado de sê-lo, mas porque percebeu, em pesquisa no Google blogs (link na lista), que há vários endereços com o mesmo nome. Mas o perfil da página, como se vê ao lado, continua sendo o mesmo. Ah, alguns alunos já chamam a página de Tamblog. Nada mal.

Quem paga o pato?

Lá vão os cidadãos brasileiros
pagar impostos ao Estado
e juros aos banqueiros.

terça-feira, 29 de novembro de 2005

Pela independência dos poderes

Este escrevinhador sempre criticou - e publicou críticas de outros, além de matérias de jornais e de associações de magistrados - a politização do Supremo Tribunal Federal (STF), cuja submissão ao governo foi denunciada até à ONU pelos juízes gaúchos (resumo aqui). Há uma solução à vista: a proposta de emenda constitucional protocolada hoje pelo senador Jefferson Péres (AM), que encaminhou cópia a este blog.

A PEC propõe a alteração do processo de escolha dos ministros (Arts. 84 e 101 da Constituição), que passariam a ser selecionados pelo próprio tribunal, "dentre seis nomes encaminhados, após serem selecionados mediante processo eleitoral pela magistratura, pelo Ministério Público e pelos advogados brasileiros." Ao presidente da República caberia então a nomeação do escolhido, como já ocorre com 2/3 dos ministros do Tribunal de Contas da União.
Tem razão o senador ao argumentar que esse processo permitirá a indicação, para a suprema corte, de pessoas independentes, que dedicaram toda a sua vida ao Direito, evitando-se a "politização exagerada" que acontece atualmente, "com o risco que isso traz para a estabilidade das instituições democráticas, para o equilíbrio dos poderes e para a própria legitimidade da corte."


Sem essas mudanças, o presidente da República continuará a escolher, de acordo com a conveniência política e com exclusividade, os integrantes do STF.

Ótima iniciativa, senador. Ela contribuirá para o fortalecimento das instituições democráticas e para a independência dos poderes.

Sai daí, Zé!


"É mais fácil encontrar uma mulher resignada a envelhecer do que um político resignado a se retirar da cena".
Amado Nervo (1870-1919)

Amor às ciências




Recupero aqui um texto que escrevi anos atrás sobre dois grandes divulgadores das ciências: Carl Sagan (à esq.) e Richard Dawkins. Cada vez mais, as ciências necessitam de gente como eles.

É curioso notar como os cientistas, quando se preocupam também com a divulgação do conhecimento científico, aproximam-se cada vez mais da filosofia. Obrigam-se, muitas vezes - e descontada uma ou outra ingenuidade -, a enfrentar velhas questões filosóficas e mesmo metafísicas. É como se filosofia e ciência recuperassem, num lampejo, um pouco da antiga e definitivamente perdida unidade. Quanto mais fundo mergulham nas suas teorias e mais claras procuram torná-las, mais filosóficos tornam-se os cientistas - sem por isso serem filósofos da ciência.
Tem sido assim - para mencionar poucos - com o físico (e Prêmio Nobel) Steven Weinberg e com o biólogo Richard Dawkins, e foi assim com o astrônomo Carl Sagan, falecido em 1996. Dos dois últimos acabam de ser lançados, respectivamente, A escalada do monte improvável e Bilhões e bilhões, edição póstuma, ambos pela Cia. das Letras (SP). Dawkins é o mais notável defensor de Darwin e da teoria da evolução, ainda hoje rejeitada, apesar das evidências, por movimentos fundamentalistas cristãos como o "criacionismo", particularmente atuante nos EUA. Para estes, que contrapõem à teoria darwiniana a suposta "ciência da criação" - baseada na interpretação literal do Gênesis bíblico -, o evolucionismo não é uma teoria científica, mas apenas uma hipótese. Apesar de o próprio Papa João Paulo II ter admitido, em mensagem à Academia Pontifícia de Ciências (22/10/96), que a teoria da evolução "é bem mais do que uma hipótese", sendo hoje aceita amplamente pelos pesquisadores em decorrência das "descobertas em vários campos do conhecimento".

Natureza sem finalismo

Considerado desde sempre um inimigo dos "criacionistas", Dawkins ocupa atualmente, em Oxford, a cátedra de "Compreensão Pública da Ciência", a ele destinada através de uma doação feita por Charles Simonyi - um dos grandes da Microsoft e responsável pela criação da interface gráfica e do processador de textos Word -, seu generoso leitor e admirador. Figura solicitadíssima na mídia britânica, Dawkins faz na Inglaterra o que Sagan fazia nos EUA: mais que cientista de laboratório ou manipulador de instrumentos, é um divulgador e defensor do conhecimento científico. Tarefa filosófica e política relevante, numa época em que recobram força as pseudociências e suas superstições, a anticiência e suas eternas confusões ideológicas (inclusive em certas "pós-modernidades" acadêmicas), e em que os cidadãos são instados a consultar magos e astros antes do quotidiano e singelo ato de botar o pé na rua.
Dawkins percorre, nesta "escalada do monte improvável", o itinerário traçado em livros anteriores, especialmente em O relojoeiro cego (1986): o fato de que as evidências da evolução revelam um universo sem design, isto é, sem uma Providência divina. Em termos filosóficos simples, não há finalismo na natureza. O finalismo é uma idéia que só tem sentido na teologia, uma questão de fé. Para a ciência, vale a nostálgica conclusão de Weinberg, o físico das partículas, no final de seu Os primeiros três minutos (1977): "Quanto mais o universo parece compreensível, mais parece sem finalidade". Anos mais tarde, ele acrescentaria: "Seria maravilhoso encontrarmos nas leis da natureza um plano preparado por um criador envolvido, no qual os seres humanos tivessem um papel especial. Acho triste pensar que não o encontraremos". E arremata: "Quanto mais refinamos nosso entendimento de Deus para tornar seu conceito plausível, menos sentido ele tem" (cf. Sonhos de uma teoria final. A busca das leis fundamentais da natureza, Rio de Janeiro, Rocco, 1966).
É um tom nostálgico que não se encontra em Dawkins, que realiza na biologia (o mundo micro, depois da descoberta do ADN) o que Weinberg realiza na física (o mundo macro, visto a partir das partículas elementares). Na escalada desse monte, ele pinta um quadro fascinante do processo evolutivo em diversas espécies animais, desossando, um a um, os argumentos do fundamentalismo religioso, para o qual - contra a abundância dos fatos - a evolução é demasiado improvável para que tenha acontecido. Para os dogmáticos filhos de Adão e Eva, Darwin continua sendo um anátema.

No vale das sombras

Quanto à obra póstuma de Sagan, autor bastante conhecido também no Brasil, trata-se de uma coletânea de artigos, ensaios e conferências recolhidos por sua mulher. Bilhões e bilhões desenvolve questões científicas, filosóficas e políticas que inquietavam o cientista desde Pálido ponto azul e O mundo assombrado pelos demônios (de 1996). Aqui, a mesma paixão na defesa da racionalidade, na compreensão da ciência como instituição laica, que não se guia por autoridade, crenças ou ideologias, nem a elas se subordina.
Sagan sabe que a racionalidade, justamente por ser frágil, não busca o absoluto, mas é o único antídoto aos fundamentalismos; que a ciência não tem a pretensão de resolver todos os problemas, mas é o melhor meio que temos para resolvê-los; e que, em vez de monstro ou demônio, a técnica é apenas a aplicação do nosso conhecimento, para o bem ou para o mal.
O último artigo do livro, "No vale da sombra", escrito num hospital de Seattle dias antes de Sagan morrer, resume bem suas "reflexões sobre vida e morte", como diz o subtítulo de Bilhões e bilhões. Com serenidade filosófica, sem o mínimo gesto de desespero, desta vez o autor fala não do possível fim do planeta ou do universo, mas da sua própria morte.
"Cinco mil pessoas oraram por mim" - escreve ele - "numa cerimônia pascal na Catedral de St. John the Divine, na cidade de Nova York, a maior igreja da cristandade". E prossegue: "Um sacerdote hindu relatou uma grande vigília de orações realizada para mim nas margens do Ganges. O imã da América do Norte me falou de suas orações para a minha recuperação. Muitos cristãos e judeus me escreveram para me falar de suas preces. Embora eu não ache que, se há um deus, o seu plano para mim será alterado por orações, sou mais grato do que posso dizer com palavras àqueles (...) que torceram por mim durante a minha enfermidade".
Vida após a morte? Para Sagan, isto sequer constitui um problema. Confessa que "gostaria de acreditar que, ao morrer, vou viver novamente, que a parte de mim que pensa, sente e recorda vai continuar. Mas, por mais que deseje acreditar nisso, e apesar das antigas tradições culturais difundidas em todo o mundo que afirmam haver vida após a morte, não sei de nada que me sugira que essa afirmação não passa de wishful thinkin".

Eis o testamento de quem, em vida, sempre se nutriu do criativo ceticismo da ciência, mas sem perder a capacidade de admirar a beleza do universo e espantar-se com suas muitas perguntas irrespondíveis.
Sua despedida coincide com a da nave Voyager, pela qual foi um dos principais responsáveis. Cruzadas as fronteiras do sistema solar, ela agora mergulha no espaço interestelar.

segunda-feira, 28 de novembro de 2005

LuLLa, visto pelos alemães.

A imprensa alemã bota as lentes no governo LuLLa. Veja no blog do amigo Aluízio (aqui). Começa assim: "o governo de Lula distribuiu um pouquinho de dinheiro para os pobres..." Nada longe da nota que O Iconoclasta postou anteriormente. É bom saber, senhores otimistas, como os de fora vêem quem não pode sair dessa jaula.

(Na foto: o presidente, em Blumenau, sorvendo a preferência germânica.)

Réquiem para as classes médias

Lucro dos bancos chega a 10 bilhões nos últimos anos (aqui, para assinantes). Renda média do trabalhador, nos últimos 10 anos, caiu 30,8% só em São Paulo (assinantes, aqui). "Ricos ficam mais pobres e concentração de renda cai", mancheteou a Folha de São Paulo de sábado, com dados do IBGE (aqui).
Ora, faltou dizer que os mais ricos continuam tão ou mais ricos do que antes. O que houve nos últimos 10 anos foi o lento esmagamento das classes médias, atiradas ao colo dos banqueiros e esfoladas pelo Estado, graças à política econômica dos governos FHC/LuLLa. Isto significa dizer que quem empobreceu, de fato, foram os profissionais liberais, os assalariados em geral, os professores, os funcionários públicos, os médicos das instituições públicas etc., com evidentes reflexos para o consumo interno.
Resumindo: as classes médias perderam, os milionários estão onde sempre estiveram - e ganham umas migalhas a mais os marmiteiros mantidos pelo assistencialismo estatal, eleitorado certamente fiel às cantilenas do luLLismo. Teremos, de um lado, a turma da Ferrari e da Mercedes-Benz e, de outro, as hordas dos "carrinhos" catadores. No meio, nada.
E alguns querem, hipocritamente, erigir uma dicotomia entre PSDB e PT...

domingo, 27 de novembro de 2005

A ciência só sobrevive com divulgação


Este artigo é de autoria do escritor e jornalista italiano Franco Prattico, que redige artigos científicos para o jornal La Repubblica. Prattico já recebeu os prêmios Galilei, Axel Munthe e Glaxo para a divulgação científica. Suas últimas obras incluem La cucina di Galileo (1994), La tribù di Caino (1995), Dal caos alla coscienza (1998) e Nel Corno d’Africa, 2001. O artigo aqui apresentado foi publicado originalmente na revista Telèma, 8, primavera de 1997. A versão em português está na revista Estudos em Jornalismo e Mídia, Florianópolis, vol. 2, nº 1, I semestre de 2005.[Na ilustr., "Prometeu Acorrentado", de Rubens (1577-1640)].

Por que se perdeu a maior parte do patrimônio científico helenístico? Até agora, as causas eram atribuídas às condições econômico-sociais do mundo antigo, mas estudos mais recentes dizem algo mais. Não bastam, para determinar o perfil de uma sociedade, as descobertas e inovações: é indispensável difundir as informações que as descrevem.

"Como seria o mundo, hoje, se a Roma imperial tivesse possuído os conhecimentos científicos e tecnológicos modernos? Se, por exemplo, tivesse podido dispor das fontes de energia, dos conhecimentos termodinâmicos, do domínio das leis do movimento e da mecânica, das competências técnicas que constituíram a base da revolução industrial dos séculos XVIII e XIV? Se tivesse podido, pelo menos em parte, opor às tribos bárbaras que pressionavam suas fronteiras - e que alguns séculos depois destruiriam seu sistema de poder – as tecnologias militares e civis que hoje estão em posse de qualquer Estado de média importância?
Sabe-se que a história não é feita na condicional, mas a pergunta é menos gratuita do que possa parecer à primeira vista. O livro do matemático romano Lúcio Russo, professor de cálculo de probabilidades na Universidade de Roma e apaixonado estudioso de história da ciência, publicado recentemente (1)
, abriu um debate que envolve historiadores, filósofos, cientistas e matemáticos, jogando sobre a mesa um argumento intrigante, para dizer o mínimo. Sustenta o autor que, na época que genericamente chamamos de “Antiguidade”, e em particular no mundo helenístico surgido depois da morte de Alexandre Magno, amadureceu uma verdadeira revolução científica, e até mesmo tecnológica, que nada tem a invejar da revolução de Galileu e Newton, na qual se enraíza a cultura científica moderna. Ao contrário, aquela revolução “esquecida” foi, em certo sentido, “copiada” por aqueles que são considerados os pais fundadores da ciência moderna.
O ponto de partida é o final do quarto século antes de Cristo. Com a morte de Alexandre, exatamente 312 a. C., seu imenso império se dissolveu, dividido entre seus generais, originando na Ásia Menor e no Egito uma série de estados e dinastias (como a dos Ptolomeus, no Egito) cultas e modernas, em torno dos quais se aglutinou o melhor da diáspora intelectual grega: soldados, literatos e governantes, mas também filósofos, matemáticos e geômetras. No centro desse mundo resplandecia Alexandria, capital do reino dos Ptolomeus, uma espécie de Nova York da época: transbordante de população, de indústrias, de comércio, além de sede da mais célebre biblioteca da antiguidade, que hospedava mais de um milhão de volumes em papiro e pergaminho. Numerosos reinos e cidades-estado helenísticas eram, já no terceiro século a. C., florescentes centros de cultura, bastando citar Siracusa, Rodes, Pérgamo, Samos, a própria Atenas, Marselha, Antioquia, Corinto, as antigas cidades mesopotâmicas e sicilianas.
Os estereótipos culturais que nos foram transmitidos desde as aulas colegiais favoreceram a difusão, pelo menos entre os não especialistas no tema, de uma imagem da civilização helenística como subproduto da grande cultura da Grécia clássica, uma cultura “menor” e decadente, fruto da mestiçagem com as culturas autóctones da Ásia Menor e da África, que seria reforçada apenas com a injeção do vigoroso, apesar de ainda inculto, sangue romano (um estereótipo que provavelmente tem suas raízes na grosseira exaltação da “romanidade” no período fascista). E negligencia-se por completo o extraordinário desenvolvimento que, justamente naquela época, por obra dos herdeiros e continuadores da filosofia natural grega, haviam alcançado as matemáticas, a experimentação física e médica, as tecnologias produtivas. Aristarco de Samos, naqueles séculos, descobria e teorizava o sistema heliocêntrico, antecipando Copérnico em quase dois milênios; Euclides, com seus Elementos, sistematizava de uma vez por todas a geometria clássica, única até a descoberta, no século XVIII, das geometrias definidas, precisamente, “não-euclidianas”; e Herófilo da Calcedônia lançava as bases da fisiologia e da anatomia modernas - para não falar da imensa contribuição de Arquimedes não só à matemática, mas também às ciências físicas e às tecnologias. Na mesma época, Eratóstenes media o meridiano terrestre, e inovações técnicas verdadeiramente extraordinárias eram realizadas no campo da engenharia, dos autômatos, da ótica e da medicina.
Em suma, houve um florescimento científico e tecnológico sem precedentes, que não teria seqüência até a época que se inicia com o século XVI, fruto do casamento da lógica e da racionalidade grega com o imenso patrimônio empírico crescido, durante séculos, no Egito e na Mesopotâmia, e talvez ainda com o aporte dos conhecimentos “exportados” pela Índia durante a empreitada de Alexandre. Desse casamento derivaria o fruto mais precioso da cultura helenística: a construção de um método axiomático dedutivo, fundamentalmente matemático, em condição de construir teorias abstratas e munido de uma série de normas de correlação entre os entes da teoria e os fenômenos do mundo real. Na prática, o método que é, hoje, um dos fundamentos das disciplinas atuais.

A culpa de Roma


O ocaso e a desaparição dessa cultura e de seus resultados foi determinado, como sustenta Russo, exatamente pela progressiva conquista romana dos reinos helenísticos, que culminou em 30 a. C. com a ocupação do Egito. Roma era àquela época uma grande potência militar, mas tinha uma pobre presença cultural; ao seu expansionismo não correspondia um nível intelectual e científico capaz de poder compreender e assimilar os produtos de uma cultura tão ampla e profunda.
O início do fim é assinalado pelo assassinato, por um soldado romano, de Arquimedes, o maior gênio científico da antiguidade, durante a conquista de Siracusa por parte do cônsul Marcelo. À medida que avançava, Roma varria, provavelmente de modo involuntário, as estruturas culturais onde medrava essa produção intelectual. Corinto, em 146 a. C., é conquistada e jogada ao solo: as obras de arte são levadas para Roma, mas as estruturas de estudo e de pesquisa, das bibliotecas às escolas, são reduzidas a ruínas. Conquistado com a ajuda dos romanos, dos quais era aliado o trono do Egito, Ptolomeu VIII Evergeta desencadeia feroz repressão contra os intelectuais de origem grega que gravitavam em torno da célebre biblioteca e que representavam um ponto de referência para todo o mundo helenístico, obrigando ao exílio grande parte dos sobreviventes. No arco de três séculos, desse Renascimento científico restariam alguns traços apenas em aplicações técnicas menores, como as relativas à realização de jogos e “máquinas maravilhosas”. A própria essência dessa revolução intelectual foi suprimida e seus conteúdos seriam esquecidos por mais de um milênio - o que foi salvo se deve ao precioso trabalho dos estudiosos árabes da Idade Média.
No entanto, ressaltou-se nos debates que se seguiram à publicação do livro de Russo, muito rapidamente Roma e suas classes dirigentes assimilaram depois a arte e a cultura gregas. Basta citar Horácio (“A Grécia, conquistada, conquistou os toscos vencedores e introduziu as artes no Lácio camponês...”), o esplêndido poema científico de Lucrécio, o escritos de Plínio, o Velho e de outros escritores latinos. Arte e literatura helenísticas, portanto, tiveram curso no império romano até às invasões bárbaras e, transcorridos os obscuros séculos medievais, foram recuperadas. Mas, com algumas ilustres exceções (em primeiro lugar, Euclides), bem pouco do patrimônio científico deixado pelos cientistas helenísticos despertou a atenção do mundo ocidental, e grande parte de sua obra foi irremediavelmente perdida. A “revolução científica” do século XVI, por isso mesmo, deveria ser atribuída em grande medida à redescoberta, por parte de Galilei, Newton, Descartes etc., do pensamento e das obras dos grandes matemáticos, físicos e fisiólogos dos três séculos que antecederam o Cristianismo.
Por que razão, todavia, esse gigantesco patrimônio intelectual, intensamente “moderno”, foi assim tão rapidamente esquecido, quando poderia ter transformado radicalmente o mundo antigo e, posteriormente, consolidado a hegemonia romana? A resposta “clássica” é que não existiam, àquela época, as bases sociais para um mundo fundado, como o nosso, no empreendimento científico e nas tecnologias de transferência dos conhecimentos fundamentais em tecnologia e indústria, como ocorreria, por outro lado, no início da era moderna. A sociedade antiga enraizava sua economia e a sua própria estrutura no escravismo, não no trabalho assalariado e na reprodução ampliada de mercadorias. Em Alexandria, em Pérgamo, em qualquer outro centro asiático existiam indústrias e um mercado, por assim dizer, “capitalista”, destinados, porém, a fenecer rapidamente em um mundo cujo esteio era constituído de outros tipos de relações de propriedade e de modalidades de acumulação - e muito menos poderia desenvolver-se na sociedade feudal subseqüente, fundada nas relações de dependência pessoal.
Talvez esta não seja uma resposta que exaure o problema. Os conhecimentos técnicos e científicos produzidos pela sociedade helenística poderiam, pelo menos em parte, ter sido recebidos e utilizados mesmo no contexto do mundo assim chamado greco-romano. Na realidade, porém, a pré-condição para que a inovação (científica e tecnológica) possa estender-se e determinar a organização da sociedade é a sua circulação. As idéias, as tecnologias, o método, os próprios resultados podem fecundar uma sociedade e traduzir-se em maneiras de organizar a vida social (e possivelmente a produção de mercadorias) desde que a informação circule livremente e possa confrontar-se com as diferentes realidades.
Obviamente, quer por motivos técnicos, quer por motivos culturais e sociais, isto não era possível no mundo antigo: as obras científicas e literárias eram exaustivamente transcritas nos “volumes” de papiro ou de pergaminho (fonte, este, de importante indústria em Pérgamo), e a reprodução em série só se tornaria possível com a invenção da imprensa e dos tipos móveis por Guttenberg, no final do século XIV. Eram, portanto, um bem precioso e raro, privilégio das classes dirigentes, quase exclusivamente alfabetizadas (junto com seus escravos gregos ou egípcios e asiáticos) e interessadas, como é provável, mais na literatura e na arte do que na cansativa leitura dos textos científicos ou técnicos. Os refinamentos matemáticos e científicos dos autores alexandrinos, portanto, atingiam somente um círculo restrito, em geral especializado, e isto explica por que razão, à diferença de obras literárias até mesmo medíocres, bem pouco nos chegou diretamente daquele patrimônio.
Para que os conhecimentos começassem a circular e entrar, por assim dizer, no sangue de uma sociedade, foi necessário esperar não só a invenção de Guttenberg, mas também, e talvez principalmente, o Iluminismo. Vale dizer: o nascimento da sociedade “informada”. Em 1747, Diderot e D’Alembert publicam a Encyclopédie: pela primeira vez uma série de conhecimentos filosóficos, científicos e técnicos “entra em circulação”, tornando-se patrimônio comum de estratos cada vez mais amplos da sociedade. Mais ainda que a imprensa e a máquina a vapor (patenteada por Watt em 1763), a Encyclopédie torna patrimônio comum e põe em circulação o patrimônio de conhecimentos elaborados por cientistas, artesãos, técnicos e pequeníssimos industriais.
É a conjugação de conhecimentos diferentes, provenientes de diversos campos de saber, que determina a explosão da sociedade industrial (2).
Não é tanto a descoberta, a inovação em si (eis, talvez, a principal lição da “esquecida revolução” helenística), que determina a face da sociedade, mas a possibilidade e a velocidade com que essas informações circulam. Não por acaso, o desenvolvimento da moderna sociedade industrial corresponde a uma progressiva aceleração da circulação de informações (não isentas, por sua vez, de perigos e contra-indicações).
E as informações tendem a autofecundar-se, a interagir, produzindo novas avalanches informativas. Hoje vivemos no limiar de uma época dominada de maneira quase obsessiva pela informação, em uma sociedade que se prepara para conexão total, para a transferência em tempo real de qualquer produto factual ou intelectual. Com o risco de que a própria informação, inflacionada, se transforme em ruído e perca significado, repetindo assim, em situação invertida, a crise que determinou a ocultação milenar da “revolução esquecida”. (
Tradução livre: Orlando Tambosi).

1. L. Russo, La rivoluzione dimenticata. Il pensiero scientifico greco e la scienza moderna. Milão, Feltrinelli, 1996.
2. Ver A. Caracciolo e R. Morelli, La cattura dell’energia: l’economia europea dalla protostoria al mondo moderno, Florença, La Nuova Itália, p. 103 e segs.

Lula, cefalópode.

Recomendo a leitura da deliciosa crônica de Ilton Dellandréa, no blog Jus Sperniandi, sobre o molusco invertebrado que é a lula, e suas relações com a vizinhança, como o corrupto, uma espécie de crustáceo. Divirtam-se (aqui).

sábado, 26 de novembro de 2005

Medo do Brasil


O diretor canadense David Cronenberg, mestre do terror e da violência cult, diz que a violência urbana do Brasil o assusta e, por isso, tem pouca vontade de visitar o país. Bem, quem vive no Bananão sente isso na carne e no bolso. Até mesmo aqui, na ex-pacata Florianópolis, que hoje figura entre as 100 cidades mais violentas do país. O Estado é praticamente ausente na área de segurança e, ao contrário dos países civilizados, no Bananão o crime compensa. Leia na BBC.

O amigão

"A conta-gotas se vai descobrindo que o advogado Roberto Teixeira, amigão do peito de Lula, está em todas. Na semana passada, foi revelado aqui que a Brasil Telecom lhe pagou por dezoito meses uma remuneração de 60 000 reais mensais não se sabe exatamente para quê. Agora, outra revelação: no início deste ano, a Varig precisou dos préstimos do compadre do presidente. E o contratou. Coincidentemente, as duas empresas tinham pendências de peso com o governo. Teixeira, que recentemente também trabalhou para a falecida TransBrasil, talvez tenha a oportunidade de explicar tudo isso na CPI dos Bingos, para a qual foi convocado na semana passada." (Na coluna Radar, de Veja).

Preferência pelos grotões

Na Veja desta semana, coluna Radar: "coerente com a política externa de Lula, Marco Aurélio Garcia e Samuel Pinheiro Guimarães, o Itamaraty se expande. Para a África. Está prevista a abertura de embaixadas em Conacri (República da Guiné), Malabo (Guiné Equatorial), Cartum (Sudão), Cotonou (Benim) e Lomé (Togo). Na Ásia serão criados uma embaixada em Colombo, a capital do Sri Lanka, e um consulado em Mumbai (Índia)."

Bom dia, presidente.

Aposentada, em manifestação contra LuLLa, em Fortaleza.
(Capa da Folha de hoje; foto de J. Coppola)

sexta-feira, 25 de novembro de 2005

Pela República

Pegue o dardo, mire bem e acerte o alvo: o homem de toga, à direita.
Você estará defendendo a República.

Sai, Jobim.

Artigo de Reinaldo Azevedo, no Primeira Leitura:

"O ministro Nelson Jobim, presidente do Supremo Tribunal Federal, tem de renunciar. E tem de fazê-lo agora, não depois. Um juiz que permanece no seu posto de olho, como se tem noticiado, no prazo de desincompatibilização para decidir se vai ou não se candidatar a um cargo eletivo faz deitar uma sombra de suspeição sobre os seus juízos com a qual o Estado de Direito não pode conviver. Jobim é um bom retórico, tem uma fala convincente, quando não empolada pelo fácil falar difícil a que me referi aqui na quinta, mas, desta feita, se enrolou a valer. É o responsável individual, num ambiente a tanto propício, pelo princípio de uma crise entre o Judiciário e o Legislativo. Ele é pago para evitar crises e para fazer justiça. Não o contrário."
(Aqui, na íntegra - e veja a nota anterior).

Lá vem ele!

Agora ele se oferece explicitamente (aqui, para assinantes). Já foi chamado de "homem dos três poderes", não por contribuições às instituições, mas por causar tumulto entre esses poderes (tudo o que não se espera de um alto magistrado). Seu comportamento - mais político que jurídico - no supremo tribunal do país já foi denunciado até na ONU (aqui), já gerou um "Manifesto pela ética" (clique aqui e aqui) e foi execrado até pela mídia (aqui). Não bastasse, foi denunciado por um professor e literato a propósito do desaparecimento do histórico sino de uma faculdade em Porto Alegre, onde estudou (aqui). Ser presidente do Bananão (copy do Ivan Lessa) é sua mais nova ambição. Caso o visitante ainda tenha dificuldade em identificar o nobre senhor, acesse aqui (ufa!)
O Iconoclasta terá uma opção a menos para votar.
(Leia também "Enigmas do Supremo")

Verdade (II)

"Quem não sabe a verdade, é apenas um imbecil.
Mas quem a sabe e a chama de mentira, é um criminoso."
Dita por um tucano, a frase geraria tumulto no Brasil.
Mas, calma: isto foi dito pelo poeta alemão Bertolt Brecht (1898-1956),
o dialético autor de peças teatrais.
Alguma atualidade aí?

quinta-feira, 24 de novembro de 2005

Verdade

Com a clareza didática e o rigor lógico de sempre, Desidério Murcho analisa o conceito de verdade, aplicando-o às situações do cotidiano. Um texto iluminador para todos nós, brasileiros, que hoje vivemos sob o jugo da mentira e da farsa, expostas diariamente nos jornais e na televisão (ainda bem que existe liberdade de imprensa). Cito um dos parágrafos:
"A motivação pós-modernista para abandonar a noção de verdade é a ideia de que esta seria opressora, colonialista e eurocêntrica: em nome da verdade, diz-se, exploraram-se os povos indígenas de África e das Américas, impôs-se a religião europeia e sustentou-se o racismo e o colonialismo.
Esta acusação resulta de uma confusão pré-moderna entre a verdade e o que se pensa que é verdade mas é de facto falso. O racismo e o colonialismo baseiam-se em falsidades: que os negros ou os índios são inferiores, que por terem sociedades diferentes das nossas não têm direito à autodeterminação, à integridade territorial e à autonomia económica, política e religiosa.
Quando se abandona a noção de verdade não se pode protestar perante as falsidades em que se apoia o racismo ou o colonialismo. Só o respeito pela verdade justifica que não se aceite como absolutas as nossas crenças, costumes e ideologias: porque podemos estar errados." (Íntegra do texto, aqui)

Mídia golpista, elites, conspirações etc.

"Acusando sem provas, intelectuais petistas espalham boatos irresponsáveis sobre um fantástico golpe de Estado midiático. Tal desonestidade segue receita infalível: grita, mas sem indicar os pretensos golpistas. "Elite" e "imprensa" são nomes abstratos e arrebanham a tudo e a todos. Calando o endereço de grupos ou indivíduos ("elite" supõe tanto a classe média empobrecida como os banqueiros que nadam nos lucros garantidos pelo governo dos "companheiros"), os falastrões petistas atacam a "imprensa burguesa". Esta servia bem quando os petistas não se refestelavam no poder. Todas as fraudes são usadas na tarefa nauseante de caluniar jornais e profissionais da imprensa. Vladimir Poleto, com a face luzidia, diz que foi "constrangido" por um jornalista a mentir para a revista "Veja". E alega a própria torpeza: estava com o bandulho cheio de cachaça. Na cópia eletrônica da entrevista surgiu a mentira real. Ocorre um asqueroso espetáculo barroco desempenhado pelo petismo: a mentira cobre a mentira, a fraude esconde e revela a fraude. Já outro tipo de intelectual petista, com base em reportagens da imprensa, espalha boatos indignos de qualquer acadêmico sério. É o caso de uma professora que proclama seguir Espinosa, mas cujo manual predileto se encontra nas prateleiras do conhecido "Agitprop", a outra face da repressão stalinista. "
O texto acima é parte do artigo publicado hoje pelo filósofo Roberto Romano na Folha de S. Paulo ("Imaginários golpes de Estado"), disponível integralmente na página pessoal do autor (aqui). Ele trata de temas sobre os quais este blog tem insistido. (Na ilustração Szukalski, de novo).

Perguntas incômodas

Quando poderemos ler, ver ou ouvir notícias ou comentários sobre o atual governo e seu partido que não se refiram a corrupção, hipocrisia, mentira, arrogância, cinismo?

Dona Marilena (ver abaixo) diria, com sua dialética de filósofa-cortesã, que tudo não passa de invenção da mídia, sempre a maldita mídia: os fatos não existem, são criação de ficcionistas que se fingem de jornalistas.

E que dirão vocês, defensores do construcionismo, teoria mambembe que atribui à mídia a criação da realidade? Não há fatos? Não há objetividade? Viva o relativismo?
Ah, valha-nos Nietzsche, o bigodudo filósofo (na foto, no manicômio) que bradava exatamente isto: não há fatos, apenas versões.


quarta-feira, 23 de novembro de 2005

Em defesa de Darwin


Leila Suwwan, correspondente da Folha de S. Paulo em Nova York, escreve hoje sobre o contra-ataque feito pelo Museu Americano de História Natural à onda criacionista que atinge o país. O museu, que tem como curador o paleontólogo Niles Eldredge, organizou uma grande exposição intitulada "Darwin". A mostra é importante, segundo o cientista, porque os Estados Unidos são um mosaico social e religioso em que "muitas pessoas ainda interpretam a Bíblia literalmente", isto é, acreditam que o mundo foi criado em 7 dias e que descendemos de Adão e Eva. Eldredge escreveu vários livros com Sephen Jay Gould (autor bastante traduzido no Brasil), falecido há dois anos, e publicou um especificamente sobre a luta cultural do criacionismo contra a teoria da evolução. Trata-se de The triumph of Evolution (Nova York, W. H. Freeman, 2000.). Transcrevo parte do texto de Suwwan.

"Ao abrir a mostra "Darwin" no último sábado, semana passada em Nova York, o Museu Americano de História Natural lançou uma espécie de contra-ataque às recentes tentativas de estabelecer o criacionismo ou o design inteligente no currículo científico das escolas públicas do país. Numa celebração da vida e obra do naturalista britânico Charles Darwin (1809-1882), a exibição tem uma mensagem clara: evolução é fato científico provado, o resto é apenas controvérsia religiosa.
Num momento de força política do conservadorismo cristão, ganhou impulso o chamado design inteligente, conceito não-validado cientificamente de que os organismos vivos são sistemas tão complexos que só podem ter sido criados por uma inteligência superior -sem menção a Deus.
A comunidade científica considera isso uma nova versão do criacionismo bíblico que, portanto, não pode por lei ter lugar nas escolas públicas. Porém, o Estado do Kansas aprovou o design inteligente no currículo de biologia no início do mês, postura mais avançada entre quatro Estados cujas diretrizes de ensino já fazem ressalvas a Darwin (Ohio, Pensilvânia, Minnesota e Novo México).
"O nosso papel é enaltecer o conhecimento científico neste momento de confusão. Somos um guia de confiança para a população", disse à Folha Ellen Futter, presidente do museu."
Leia o texto integral aqui (para assinantes).

O futuro, no "país do futuro".

Do pipoqueiro ao governante, todos no Brasil sempre falam em futuro. O próprio país sempre foi considerado o "país do futuro". É em nome desse futuro que políticos e economistas justificam os sacrifícios do presente. Mas o que é o futuro, afinal? Ora, apenas aquilo que Victor Hugo (1802-1855) muito bem definiu:
"O futuro, fantasma de mãos vazias,
Que tudo promete e nada tem."

terça-feira, 22 de novembro de 2005

Novas marilenadas contra a mídia


Dona Marilena Chauí, a filósofa da corte petista que vê em LuLLa o "Esclarecedor do Mundo", volta a atacar a mídia. Diz ela à revista Caros Amigos (aqui) que a crise das CPIs é coisa inventada pela imprensa e que "por trás da crise está a luta de classes". A dialética senhora alerta a nós todos, os idiotas, que os fatos não passam de ficção. Tudo saiu da perversa mente dos jornalistas, esse bando de ilusionistas a soldo das classes dominantes. Ela não tem dúvida: "a crise, sobretudo como ela é apresentada, não existe! Ela foi criada num momento que alguns julgaram interessante inventá-la. Um produto midiático." Definitivamente, a madame petista sacrificou o intelecto em favor da ideologia, isto é, matou o pensamento. A democracia e a liberdade de imprensa que se cuidem.

Amigão

Este endividado blogueiro, professor com salário praticamente congelado há mais de uma década, graças ao incentivo estatal à area de educação, está com uma inveja danada dos amigos do LuLLa. Gostaria também de ter como amigo o generosíssimo Paulo Okamoto, presidente do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), que sustenta ter pago, com dinheiro do próprio bolso, uma dívida de quase 30 mil reais que LuLLa tinha com o PT (e que, para variar, ele nega). Ao bondoso Okamoto, O Iconoclasta dedica esta frase de Montesquieu (1645-1696): "a amizade é um contrato pelo qual nos comprometemos a prestar pequenos serviços a alguém a fim de ele nos prestar grandes."

A falência do marxismo

O texto a seguir, publicado hoje no Correio Popular, de Campinas, é de Roberto Romano, professor de Ética e Filosofia Política na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ele analisa meu livro O declínio do marxismo e a herança hegeliana (Florianópolis, UFSC, 1999), traduzido na Itália em 2001, pela Mondadori, sob o título Perché il marxismo ha fallito. Lucio Colletti e la storia di una grande illusione. Romano é autor de vários livros (Moral e ciência. A monstruosidade no século XVIII, São Paulo, Senac, 2003, entre outros), conferencista e colaborador de jornais e revistas, além de participar com freqüência em programas de debates na Globo News. Transcrevo o artigo integralmente, com meus agradecimentos ao mestre. Para acessar o texto no Correio, clique aqui.

"Não gosto de analisar livros recentes. Prefiro esperar e ver como reagem no rarefeito ar acadêmico. Tenho comigo um belo texto de 1991. Eu o acompanhei desde bem antes. Seu autor estudou na pós-graduação da Unicamp. Aluno raro porque unia a gentileza ao cuidado acadêmico com a regras, as fontes de trabalho, etc. Estive como examinador na sua qualificação quando a pesquisa amadureceu e se transformou em doutoramento. Naqueles dias o trauma do enterro inglório da URSS era recente. Muitas pessoas que hoje se proclamam livres do marxismo e da esquerda recitavam o rosário da famosa Diamat (Dialética Materialista). Com muita coragem o jovem autor apresentou uma rigorosa análise do ideário marxista, tendo em conta o teórico Lucio Colletti. O nome do jovem, originário de Santa Catarina, é Orlando Tambosi.

O livro traça, antes de tudo, um panorama das doutrinas marxistas na Itália, em suas raizes mais fortes, como é o caso de Croce. Depois, discute os escritos fragmentários de Gramsci que permitia, ao usar noções vagas sobre a sociedade civil e o papel dos intelectuais orgânicos, atenuar a grosseria do marxismo oficial, cujos jogos entre “infra” e “super” estrutura permitiam parolar sobre tudo e de nada dar conta no mundo efetivo. Perto de Roger Garaudy (aquele mesmo que afirmava, piorando o materialismo do século 18, que o cérebro secreta o pensamento como o fígado a bilis) e de Jean Kanapa (aquele outro que delatou em Sartre tendências filo-imperialistas norte-americanas, porque o autor da Crítica da Razão Dialética ousara recusar o estupro da Tchecoeslováquia) Gramsci era um portento especulativo. Mas o colosso tinha pés de barro.

As suas fraquezas foram apontadas por Lucio Colletti. Como sempre, em se tratando de seitas, o crítico não foi ouvido. Ocorre na Itália e na Europa o debate sobre socialismo e democracia. Gramsci coqueteou com Hegel, via Croce, o que fazia do seu ideário uma receita de adesão ao “necessário encadeamento histórico”. O futuro estava garantido (como denunciou Regis Debray) o que fez do marxismo uma receita de aceitação do presente, desde que dirigido pelos gloriosos líderes do proletariado. Parêntesis: hegelianismo e aceitação do fato coincidem, o que leva aos realismos indigentes dos militantes, sempre dispostos a quebrar os ovos alheios quando se tratava de fritar o omelete da “boa história”. Não por acaso Nietzsche caçoa dessa crença : “olhem os joelhos dos hegelianos, gastos de tanto serem dobrados diante da necessidade histórica!”.

A crítica de Galvano Della Volpe, virulentamente anti-hegeliano, suscita o debate sobre os elos entre Hegel e Marx, com direito à uma visita ao museu do materialismo romântico tardio, cujo icone era Feuerbach. O exame da contradição dialética atingiu, era inevitável, a cabeça dos teóricos italianos e europeus. Sofísticos ao máximo, escapando simuladamente das denúncias kantianas sobre os paralogismos da razão, Hegel e discipulos “dialetizam” tudo, tudo engolem com sua lógica absoluta, tudo explicam. Mas tudo fica inexplicado porque a dialética foge da epistemologia. Ela opera sem limites ou regras. É delírio racional tão idiotizante quando os devaneios do metafísico.

É disso que se trata: o “herdeiro” da bela dialética não passa de metafísica selvagem, pão para toda boca pois explica a natureza e a cultura, com ajuda de meros truques como a passagem da quantidade para a qualidade e quejandos. Como a feitiçaria não escapa do mundo, em especial do político, a tal escolástica não explicou nem moveu o Estado italiano, um dos mais complexos da história moderna (quem leu Maquiavel, sabe).

Orlando Tambosi segue Lucio Colletti na desmistificação à raiva da ciência (“burguesa”…) presente no PC. As determinações kantianas ajudaram a denunciar a enfermidade pan-lógica e metafísica. E nas suas últimas páginas, ele extrai as lições de Kant, ainda na linha de Colletti. Mas o mesmo Colletti extrai de Max Weber um ensino até hoje ignorado pelos militantes e acadêmicos da chamada esquerda : “a tensão entre a esfera da ciência e a dos valores da salvação religiosa é incurável”. Os marxistas falavam em “ciência” quando faziam fervorinhos religiosos, dobravam a espinha para a raison d´État soviética. Diziam “natureza” e “realidade”, quando suas categorias eram metafísicas. No campo hegeliano original tais noções eram coerentes, visto o “idealismo objetivo” de Hegel fundamentar-se no Espirito que tem sua Epifania no Estado. Nos escritos marxistas, eram apenas e tão somente lambões especulativos, a folha de uva que escondia a nudez do infalível Partido. Dessa experiência emburrecedora, quem pensa não tem saudade. Nome do livro? O declínio do marxismo e a herança hegeliana (Editora da Universidade Federal de Santa Catarina,1999). Título muito respeitoso com um defunto que não merece velas de libra. Em italiano, o nome é claro e distinto: Perché il marxismo ha fallito (Milano, Mondadori, 2001). Leitura obrigatória para quem deseja pensar o passado de uma ilusão.

E = mc²


Não se assuste, a equação do título, para quem não se lembra, é mesmo a do genial físico Albert Einstein. A equação é resultado da revolucionária teoria da relatividade. Leia na BBC de Londres (aqui) e aproveite para ler - ou reler - também o belo artigo do professor Júlio César Burdzinski, demonstrando que Einstein não era tão relativista assim: "Teoria da relatividade ou teoria da velocidade absoluta da luz?". Sorry, relativistas.

segunda-feira, 21 de novembro de 2005

Eles querem utopia

Eles querem utopia. Pouco importa que a utopia de que se nutriram ao longo dos anos tenha dado no que deu: o governo LuLLa e sua pífia gestão do existente. Dispensando a análise dos fatos (coisa de "positivistas", não de sábios dialéticos), sempre procuraram o brilho fácil do discurso, vá lá, utópico. Muita ideologia, pouca ciência -este poderia ser o seu lema.

Quando esse discurso não bate com os fatos, o problema não é do discurso, mas dos fatos, ou seja, da realidade, do mundo, das coisas. A realidade é que está errada, não as palavras, não o pensamento pobre e inadequado de
que se valem. Se o discurso não corresponde à realidade, danem-se os fatos, ora bolas! Defrontar-se com os fatos é coisa das ciências "positivistas".

Poderiam ser chamados de idealistas hegelianos, mas isto seria subestimar o grandioso - apesar de seu idealismo - Hegel (1770-1831), de quem Marx (1818-1883), outro estudioso sério, foi seguidor, por mais que tenha tentado inverter a dialética, isto é, seu caráter utópico. Não, o idealismo deles é simplório. É melhor definido com o cáustico humor de H.L. Mencken (1880-1956): "idealista é quem, notando que uma rosa cheira melhor que um repolho, conclui que é também mais nutritivo."

Fiz esta digressão a propósito do encontro realizado no final de semana por intelectuais do PT (conforme Folha de São Paulo de hoje - para assinantes, aqui), que discutiu o pomposo tema "O PT e o Brasil". Para sintetizar o pensamento dos tais intelectuais orgânicos (o jargão é gramsciano), Marco Aurélio Garcia, assessor de LuLLa para assuntos internacionais, recorreu a uma frase escrita num muro do México: "chega de realizações, queremos utopia." Bem, é claro que ele não mencionou as realizações (?) do governo a que pertence.

Mas não parou por aí o assessor Garcia. "Temos um discurso conservador, e isso faz com que se estabeleça que nosso governo é a continuidade do anterior, e não é." O que propõe o utópico-dialético conselheiro palaciano? Ora, que os petistas "mudem o discurso". Isto mesmo: mudar de discurso - mais uma vez, danem-se os fatos. Afinal, dos utópico-dialéticos não se pode esperar análises e proposições.

A socióloga uspiana Maria Victória Benevides - uma buldogue do luLLismo, algo não incomum na USP - aproveitou a ocasião para pontificar que "o Lula tem um conhecimento aprofundado das classes proletárias, mas pouco conhecimento do que são as classes dominantes." Linha semelhante foi adotada no discurso do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, da Unicamp, que nem petista é, mas largou uma frase que qualquer luLLista abonaria: existe "um ódio de classes" contra o PT, "o estabilishment não suporta o Lula". Tal raciocínio, vindo de quem assinou o que este blog chamou de "Manifesto da indecência" (aqui) - em favor do comissário José Dirceu -, não chega a surpreender. No troca-troca que se insinua no Palácio do Planalto, talvez o bravo economista consiga encontrar uma cadeira.

E viva a utopia!

(Na ilustração, Struggle, de Szukalski).

Um passo à frente, dez para trás.

Vale a pena reler o artigo "O Estado jogou uma geração no ralo", de Élio Gaspari, no jornal O Globo de 14/9/2005. Ele mostra que o país tem caminhado para trás no último quarto de século. E quem empurra é o Estado.
"Quem quiser medir o tamanho da ruína imposta a Pindorama pelos sábios que administraram o país nos últimos 24 anos pode fazer a seguinte conta: se entre 1900 e 2004 a renda per capita dos nativos tivesse crescido à taxa do período que foi de 1980 a 2004 (0,43% ao ano), o Brasil seria hoje um dos 15 países mais pobres do mundo, com a renda per capita , medida em poder de compra, no mesmo patamar do Quênia, inferior à média d’África.
Nesses 24 anos houve de tudo — general do SNI, professor laureado e sindicalista monoglota. Cada um teve sua ekipekonômica maledicente do passado, prometendo um grande futuro a partir do ano que vem Para dois terços dos brasileiros a idéia de progresso é uma reminiscência histórica ou, na melhor da hipóteses, puro Casimiro de Abreu:
Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Entre 1900 e 1980 a taxa média de crescimento da economia nacional foi de 3,04%. Mantida, teria deixado o Brasil com 35% da renda dos Estados Unidos (tem 20%). Entre 1950 e 1980 o crescimento nacional médio foi de 4,39%. Nesse período a economia brasileira estava entre as dez mais dinâmicas do mundo. Hoje aproxima-se do grupo onde estão as vinte com pior desempenho.
Todas essas contas estão no estudo “Dissecando a Integral do Erro”, que o empresário Paulo Cunha, do grupo Ultra, apresentou há dias no II Fórum de Economia da Fundação Getúlio Vargas. Seu diagnóstico aponta para uma perda de dinamismo que incorporou, “de forma persistente ao cenário brasileiro, (...) políticas econômicas antagônicas ao crescimento”. Mais: “O tema da estagnação econômica brasileira dos últimos 25 anos não integra a Agenda permanente e prioritária da classe política nacional, nem da Mídia que influi fortemente nessa Agenda.”
Cunha identifica o Estado como o principal vilão da geração perdida.
Entre 1970 e 2001 o gasto público e a tributação cresceram na média a taxas equivalentes ao dobro da taxa do PIB. Ele diz: “De qualquer maneira que se olhe, a postura fiscal brasileira (?) nos últimos 25 anos é insustentável, pelos impactos negativos que ela traz para o crescimento econômico do país. Ela terá que ser corrigida e duas são as opções: um ato decisório voluntário e soberano, ou o ‘default’ (calote, para a patuléia). E não tenhamos medo de palavras, pois o que já é a enorme sonegação brasileira senão uma forma de ‘default’?”
A banca pode dormir em paz, não se trata de proposta de calote, mas de busca do “ato soberano” pelo redirecionamento da Agenda na busca do crescimento.
O Estado brasileiro gasta 26,76% do PIB em previdência, saúde e educação. O coreano gasta 10,4% e não há um bípede capaz de sustentar que os brasileiros têm melhor amparo, escolas e hospitais que os coreanos. Foi na terra das palmeiras que nos últimos 15 anos criaram-se 11 ministérios e 1.600 municípios. Não há país democrático que gaste o que os governos brasileiros torram em publicidade oficial.
Esse Estado arrecada muito, gasta demais, investe pouco e manda no que não deve. O investimento fixo do setor público entre 1990 e 2003 ficou em 7,7%. Entre 1970 e 1980 estava em 15%.
Cunha lembra dois milagres do século passado (Japão e Alemanha) e menciona cinco “velocistas” dos dias de hoje (China, Coréia, Taiwan, Irlanda e México). Todos têm em comum o câmbio desvalorizado e os juros baixos. Cultivando a “integral do erro”, o atual governo faz como todos os seus antecessores desde 1980 e promete que o progresso chega no ano que vem. Quer fazer isso pelo avesso, com câmbio valorizado e juros altos. "

domingo, 20 de novembro de 2005

A relação entre filosofia e ciência

Desidério Murcho, doutorando em Oxford (Inglaterra), traduziu e colocou à disposição em seu site um capítulo do livro Philosophy of Physics, de Lawrence Sklar, professor da Universidade de Michigan. O texto aborda as relações entre filosofia e ciência. Transcrevo um parágrafo:
"A demarcação das ciências naturais em relação à filosofia foi um processo longo e gradual no pensamento ocidental. Inicialmente, a investigação da natureza das coisas consistia numa mistura entre o que hoje seria visto como filosofia (considerações gerais das mais vastas sobre a natureza do ser e a natureza do nosso acesso cognitivo a ele) e o que hoje seria considerado como próprio das ciências particulares (a acumulação de factos da observação e a formulação de hipóteses teóricas gerais para os explicar)." Vale a pena ler /clique/. (Na ilustr., Aristóteles).

Ilusões

"O que eu pretendo é sugerir ao leitor: leve sua vida da maneira mais bela e inteligente possível, pois o destino da Terra não está sobre seus ombros. Na verdade, foi assim que viveu a maioria dos milhões e milhões de seres humanos que já passaram pelo planeta. A necessidade de acreditar que o futuro será melhor é uma ilusão. A felicidade não vem daí, mas de aceitar a nossa natureza animal, que, ao contrário das crenças, é imutável."
Quem diz isto é John Gray, professor da London School of Economics, que está lançando "Cachorros de Palha" (Rio de Janeiro, Record) e é o entrevistado das páginas amarelas da Veja desta semana. Mais um desgosto para os antropocêntricos, cultivadores de ilusões.

Agradecimentos

Na pessoa do professor Victor Gentilli, da Universidade Federal do Espírito Santo, editor do "Diretório Acadêmico" no Observatório da Imprensa e do blog Com licença, por favor, O Iconoclasta agradece a todos os amigos, conhecidos e desconhecidos, que fizeram link para esta página. Gentilli postou (eita, termo!) a seguinte nota em seu blog: Iconoclasta, diz o Houaiss, é "aquele que ataca crenças estabelecidas ou instituições veneradas ou que é contra qualquer tradição". É assim que Orlando Tambosi define seu blogue. Leitura pra gente inteligente. Clique obrigatório para quem gosta de pensar.Venho acompanhando O Iconoclasta todos os dias. Sempre surpreendente. Na maioria das vezes, surpresa positiva e boa. Vale a pena clicar. Com tantos e tão importantes compromissos em Florianópolis, preciso achar uma noite para um jantar com Orlando Tambosi.
Exageros à parte, respondo ao gentil blogueiro que será um prazer jantar com ele aqui em Florianópolis, no final da semana, durante a realização do III encontro nacional da Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), promovido pelo Curso de Jornalismo da UFSC.

Sai de uma vez, Zé!











A turma aí em cima, em ato de desagravo na Assembléia Legislativa de São Paulo, não conseguiu esconder o ar de enterro. O jornalista Fernando Morais, biógrafo de ditadores (de camisa branca), parece rezar, enquanto Berzoini, a seu lado, ouve tudo de cabeça baixa. É a mesa da vergonha. Essa gente quer salvar o comissário Dirceu, cujo mandato está por um fio. Segundo O Estadão, Dirceu afirmou na sexta-feira que o Brasil "começa a viver situação semelhante ao Terror da Revolução Francesa (1793/94), quando foram executadas sumariamente - guilhotinadas - 20 mil pessoas suspeitas de ação contra-revolucionária. “Começamos a viver no País a lei do suspeito. É suspeito, tá condenado, é a lei”, declarou Dirceu a cerca de 25 prefeitos e deputados estaduais paulistas reunidos em solidariedade a ele, reclamando da forma como surgem e são apuradas as denúncias contra o governo Lula e o PT. À noite, em ato na Câmara Municipal, o comissário denunciou as "forças reacionárias" que querem impedir o governo do PT. Ora, forças reacionárias são, certamente, os próprios petistas e seus aliados, já que foi deles - e não das oposições, aliás muito benévolas - que surgiram as denúncias que escancararam a corrupção. O fato é que, às vésperas da degola, Dirceu e seus sequazes continuam debochando das instituições e dos princípios éticos.
Leia a íntegra da matéria aqui.

sábado, 19 de novembro de 2005

Nova ameaça à pesquisa científica

"O procurador-geral da República, Antônio Fernando Souza, encaminhou ontem ao STF (Supremo Tribunal Federal) um parecer que impõe grave ameaça às pesquisas científicas no Brasil. Ele se posicionou favorável à ação que pede a decretação da inconstitucionalidade do artigo 5o da Lei de Biossegurança.
É esse artigo que autoriza as pesquisas com células-tronco de embriões humanos no país. Se a posição do Ministério Público prevalecer, os experimentos serão proibidos. O parecer de Fernando de Souza será analisado no Supremo pelo ministro Carlos Brito, relator da ação de inconstitucionalidade, de autoria da própria procuradoria."
Leia no Blog do Josias (link ao lado)

O chapa-branca

"Penei para encontrar um bloco de anotações em casa, peguei um trânsito danado de tarde de sexta-feira chuvosa em São Paulo, a caminho da minha primeira entrevista deste ano, mas valeu a pena. De bermudas, camiseta regata e chinelos, encontrei bem tranqüilo o velho amigo em seu apartamento da Vila Mariana, um bairro de classe média da zona sul de São Paulo."

O nome de quem supostamente penou para a primeira entrevista do ano é Ricardo Kotscho. Ex-assessor de imprensa de LuLLa, saiu do palácio de mansinho e andou sumido por uns tempos. Agora retorna, cheio de boas memórias, para uma grandiosa tarefa: entrevistar um velho amigo. Reparem bem: seu primeiro trabalho jornalístico do ano (que boa vida!) foi para dar voz a um companheiro. Nome do amigo: José Dirceu - ele mesmo, o comissário cujo mandato está por um fio, acusado de ser o chefão do processo de corrupção que estarrece o país.

Incensado em certos meios jornalísticos que se apegam mais às ideologias que aos estudos, Kotscho não lembrou agora dos personagens pobres que habitavam seus textos nos tempos em que acompanhava fielmente as bravateiras caravanas de LuLLa pelo interior do país. Não, seu primeiro pensamento foi para o amigo, certamente azarado pela avalanche de fatos que tem contra si - o mesmo homem que, num dos depoimentos às CPIs, teve a ousadia de dizer que se considerava "cada vez mais inocente".

Um ex-aluno (o jornalista Romeu Martins), que me chamou a atenção para a "reportagem" de Kotscho, qualificou-a como assustador exemplo de "jornalismo pró-governo". Não, amigo, não se trata de jornalismo. É mistura de relações públicas com apologia. Nisso, Kotscho sempre foi um bom especialista. (A entrevista, publicada por No Mínimo, está aqui).

Contradição

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, em entrevista a emissoras de rádio, que vai disputar a reeleição no ano que vem. “Vou, sim, disputar a reeleição”, declarou. Depois, quando pediram que confirmasse a informação, disse que havia cometido 'um lapso' - eis o texto da manchete da Folha de S. Paulo de hoje.
Contradição é afirmar e negar ao mesmo tempo. O princípio clássico-aristotélico de (não)contradição diz, numa de suas formulações, o seguinte: "é impossível supor que a mesma coisa seja e não seja". Por isso, o princípio de não-contradição é fundamental ao conhecimento. Ou é, ou não é. No Brasil, porém, contradições e mentiras têm sido a regra. E, pior, são tomadas como esperteza.

Sabedoria

"Há quatro espécies de homens:
O que não sabe e não sabe que não sabe: é tolo - evita-o;
O que não sabe e sabe que não sabe: é simples - ensina-o;
O que sabe e não sabe que sabe: ele dorme - acorda-o;
O que sabe e sabe que sabe: é sábio - segue-o."
*Sir Richard Burton (1821-1890)*
Clique aqui para ver um exemplo da primeira espécie.
E aqui, para os da quarta espécie.

sexta-feira, 18 de novembro de 2005

Companheiros










Ambos vieram de movimentos sindicais e se tornaram governantes. O primeiro, metalúrgico do ABC, fundou o PT e chegou à presidência da República brasileira; o segundo (Lech Walesa) fundou o sindicato Solidarnosc e conquistou a presidência da Polônia. Ambos sempre estiveram mais próximos da Igreja que das idéias socialistas. O primeiro, como se sabe, ainda continua por aí; o segundo já voltou para o anonimato.

Ministros

"Não há ministro a quem faltem entusiastas,
nem abusos do poder que não encontrem apologias."
Rui Barbosa (1849-1923)

Viagem ao exótico Brasil de FHC e LuLLa

Dante - ele mesmo, o Alighieri - convida-o a um périplo pelo Brasil da mui rica e gloriosa Era FHC/LuLLa, que começou em 1994 e terminará em 2006, quando todos cantaremos, gregoriana e alegremente: vade retro, vade retro! Ao entrar, você verá três esferas. Clique na primeira e sinta-se em casa, porque você estará em casa !

quinta-feira, 17 de novembro de 2005

Crítica aos pós-modernistas

"Nos relatos jornalísticos descreve-se habitualmente em termos políticos a distinção entre a universidade tradicional e o discurso do pós-modernismo: a universidade tradicional reclama o amor ao conhecimento pelo seu próprio valor e pelas suas aplicações práticas, e procura ser apolítica ou pelo menos politicamente neutra; a universidade do pós-modernismo pensa que todo o discurso é em qualquer caso político e procura usar a universidade para fins políticos benéficos e não repressivos.
Esta caracterização é em parte correcta, mas penso que as dimensões políticas desta disputa só podem compreender-se à luz de uma disputa mais profunda sobre questões filosóficas fundamentais. Os pós-modernistas tentam colocar em causa certos pressupostos tradicionais sobre a natureza da verdade, objetividade, racionalidade, realidade e qualidade intelectual."
O trecho citado é do artigo "Racionalidade e realismo: o que está em jogo?", do filósofo John Searle (foto), professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley. O texto é uma crítica às vertentes pós-modernistas, que, com seu relativismo radical, devastaram algumas áreas não só nas universidades norte-americanas (leia aqui). Uma boa introdução ao pensamento do autor, hoje entusiasta da filosofia da mente, é o livro Mente, linguagem e sociedade. Filosofia no mundo real, lançado pela Editora Rocco, do Rio de Janeiro, em 2000. Acesse também o site do filósofo (aqui).

Resumo da ópera

Angeli, na Folha de hoje.

Mentira e verdade

"A mentira não pode tornar-se verdade pelo fato de que o seu poder cresce."
Rabindranath Tagore (1861-1941)

A fé que se esconde (final)


A revista portuguesa Crítica, do amigo Desidério Murcho, já colocou à disposição a última parte do artigo "A fé que não tem coragem de se mostrar", do cientista Jerry Coyne, sobre a interminável luta dos criacionistas norte-americanos contra a teoria da evolução de Charles Darwin (ver). O artigo, recorde-se, foi publicado originalmente pela revista The New Republic (aqui) em 22 e 29 de agosto.

quarta-feira, 16 de novembro de 2005

Brasil: salve-se quem puder.

Cito, por compartilhar, o que escreveu há pouco Noblat em seu blog (link ao lado), na nota "Vale, vale tudo". Parece que no Brasil simplesmente não existem mais fatos, só declarações e versões - e cada qual declara apenas o que quiser, danem-se as evidências. Viva a mentira!
"Ora, se o presidente da República, ministros, senadores e deputados mentem impunemente ao vivo e a cores na TV dia sim e outro também, a mentira está liberada de vez - e dela pode se valer quem quiser. E do jeito que quiser.
Digo isso a propósito do que acabei de ouvir no Jornal Nacional: o advogado dos militares que torturaram colegas no Rio disse que tudo não passou de uma brincadeira. Brincadeira filmada para diversão de todos - torturados e torturadores."

Trabáia, trabáia, nego!

Assalariados da "moderna" era FHC/LULLA trabalham duramente para pagar impostos ao Estado e juros aos bancos. Cada vez mais pelados, esperam em vão por investimentos em educação, saúde e segurança.

O ano 2000, imaginado em 1928.

No distante ano de 1928, o professor L. Laboriau, "cathedratico de Metallurgia da Escola Polytechnica", num texto para o primeiro número da revista O Cruzeiro (10/11/28), ousava publicar suas previsões para o ano 2000. Confira seus acertos e equívocos.

A Éra das Forças Hydraulicas

Anno 2000.
A população do Brasil attingiu 200 milhões de pessoas a precisarem de energia para as suas multiplas actividades: compreende-se como essa necessidade levou ao aproveitamento das forças hydraulicas. Lentamente, medrosamente, a principio, essa utilização de energia se foi, depois, aos poucos accelerando. No anno 2000 já estão longe os tempos em que ainda se importavam carvão e petroleo! Esses recursos primitivos, condemnados pelo progresso da technica, foram desapparecendo, passando a constituir apenas uma recordação historica.
Os 50 milhões de cavallos-vapor de energia hydro-electrica, utilizados no Brasil, no anno 2000, equivalendo ao trabalho mecanico de 600 milhões de homens, a população brasileira, do ponto de vista energetico, é então computavel em 800 milhões. Nessas condições, não admira que sejam enfrentados e convenientemente resolvidos os problemas da producção. As questões nacionaes são, então, estudadas por gente competente, tendo acabado, ha muito, a influencia dos politicos profissionaes. A Natureza, dia a dia dominada, é cada vez mais perfeitamente aproveitada. A luta do homem para o progresso passou a ser travada especialmente nos laboratorios de pesquisa. Ahi é que perscrutam, pacientemente, os segredos da Natureza, e dahi é que saem os processos, cada vez mais aperfeiçoados, de dominio da energia cosmica. Como estamos longe dos tempos em que nem havia Universidade no Brasil, a nao ser umas instituições de fachada, formadas por escolas exclusivamente para ensino profissional, e onde a pesquisa scientifica não se podia fazer!
Todas as actividades industriaes foram avassaladas pela energia electrica. São as industrias electro-chimicas, num desdobramento maravilhoso; é a electro-metallurgia; é, ainda, a energia para tudo. As distancias desappareceram, por assim dizer, desde que se resolveu o problema de irradiação da energia.
Lembram-se todos como começou a ser resolvida essa questão. Foi, a principio, a radio-telephonia, logo seguida da radio-photographia. Pouco depois, irradiava-se energia pra fins industriaes, e os motores electricos com energia irradiada se installaram em todos os vehiculos: bondes, trens, automoveis, aeroplanos, navios; e em todas as fabricas; e em todos os logares onde a energia se faz precisa. O problema da distribuição da energia passou, desde então, a ser uma questão definitivamente resolvida.
Transformara-se, com isso, a vida, que Nietzsche affirmou ser, essencialmente, uma aspiração á maior somma de poder, numa vontade que permanece, intima e profunda, em todo ser vivo. A luta pela existencia, pelo poder, pela preponderancia, com a nova forma de distribuição de energia passara a ser uma luta pela posse da energia electrica. A importancia dos povos se alterara, sendo regida a sua classificação pelo valor das reservas em forças hydraulicas.
É assim que o 1° lugar passara a ser da Africa, com os seus 190 milhões de cavallos-vapor hydro-electricos. Em 2° logar vinha a Asia, com 71 milhões. A America do Norte, com 62 milhões, ficara em 3° logar, e a America do Sul em 4° logar, com 60 milhoes de cavallos-vapor hydro-electricos, dos quase 50 cabendo ao Brasil. A Europa, com 45 milhões de cavallos, ficara tendo atrás de si unicamente a Oceania, com 17 milhões.
Cabia agora o dominio aos povos que dispunham de maior somma de energia hydro-electrica. Passara o tempo do imperialismo do carvão e do petroleo, e chegara a era da energia electrica. Os 445 milhões de cavallos-vapor, em que se orçara a energia total das forças hydraulicas da Terra, passaram a regular decisivamente a importancia relativa das 5 partes do mundo.
Ainda ha, no anno 2000, philosophos a indagarem se o progresso existe, affirmando que o que interessa não é poder ser enviado o pensamento á volta da terra, em alguns segundos, mas sim saber se esse pensamento é melhor, mais profundamente humano, mais justo. A vida, em todo caso, mudou completamente. Melhor? Peor? - É difficil sabe-lo. Mas, seguramente, é differente.
É a era da electricidade.
A differença entre a vida de então e a dos anteriores é alguma coisa como a differença hoje existente entre a vida dss grandes cidades e a do campo. O ambiente é outro. Outra é a organização da vida. Cada vez o homem se afasta mais da Natureza. Primeiro, liberta-se do dia e da noite. A luz artifical permitte-lhe a vida nocturna absolutamente igual á do dia; a luz solar não é mais reguladora dos habitos quotidianos. A vida em grandes aglomerações vae, aos poucos, deixando em todos os habitos a sua marca. As facilidades augmentam para tudo e os multiplos actos da vida se vão, lentamente mas constantemente, adaptando á nova ordem das coisas. O tempo se distribue de outro modo, e os affazeres são outros. Outros são, tambem, os divertimentos. Insensivelmente, as differenças se vão accentuando.
As viagens e os proprios passeios diminuiram muito, desde que, sem sair de casa, pode-se ver o que ha em qualquer parte da Terra: a televisão, juntada á telephonia, modificou radicalmente os habitos. Não ha necessidade de sair para fazer compras: vê-se, escolhe-se, encommenda-se tupo pelo telephone-televisor automatico. Não ha mais necessidade de viajar, para ver terras longinquas: é só ligar o receptor, e visita-se, commodamente, qualquer museu, ou qualquer paiz. Sómente os objectos devem ser transportados.
Na era da electricidade o rei dos metaes é o aluminio, retirado das argilas pela energia electrica. O aluminio supplantou, com as suas ligas, o ferro, pesado demais e facilmente oxydavel, e ainda substitui o papel, tão facilmente deterioravel. De aluminio são os livros. É em folhas de aluminio que se escreve.
A era da electricidade se caracteriza, essencialmente, pelo emprego da electricidade em todas as formas de energia. Energia luminosa: tudo se iluminna electricamente. Energia chimica: tudo deriva da electricidade. Energia thermica: tudo se aquece ou se resfria pela electricidade. Energia mecanica: tudo se movimenta pela electricidade.
Servindo para tudo, a energia electrica passa a ser a nova moeda. O ouro e as suas representações são formas obsoletas de medir valores. A moeda, no anno 2000, é, tambem, a energia electrica. Pagam-se as compras em kilowatts. Paga-se o trabalho en kilowatts.
A revolução trazida é principalmente nos habitos. Continúa a haver desigualdades sociaes. Ha ricos, possuidores de milhões de killowatts-horas, remediados, que têm alguns milhares de unidades de energia; e pobres, que dispõem apenas de algumas unidades. É verdade que não ha mais fome, desde a adopção do trabalho obrigatorio minimo, nas usinas distribuidoras de energia. Mas as questões sociaes continuam.
Muitos pretendem estender o dominio da actividade industrial do Estado. Parece-lhes insufficiente o monopolio governamental das usinas geradoras e distribuidoras de energia. Começou a questão a proposito da regularização do clima. Uma vez reservada para o Estado a faculdade de provocar as chuvas pela energia irradiada ás nuvens, determinando-lhes a condensação, pareceu a muitos que se deveriam ampliar ainda mais as horas de trabalho obrigatorio minimo, servir-se-ia melhor a colectividade minima do trabalho. Só haveria vantagens nisso.
Objectam, porém, alguns ser o caso das usinas de energia, evidentemente, especial. Da mesma forma, o da distribuição das chuvas, vantajosamente affecto ás autoridades, para beneficio geral. A Repartição das Chuvas, dispondo de todo o serviço official de estatistica, e em connexão com os demais repartições do Ministerio da Agricultura, é uma organização que se resolveu dever ser do Estado. Ampliar, porém, ainda mais os serviços governamentaes, numa socialização progressiva de todas as actividades, não merece as sympathias de um grupo numeroso. Já todos os homens e todas as mulheres, maiores de 18 annos, são obrigados a um serviço diario de 2 horas. Breve serão 3 horas. Onde se irá para nesse caminho? Invocam-se contra as idéias de socialização os velhos principios da liberdade individual. A questão está, assim, longe de ser resolvida
. . . . .
Sonho? - Sim. Mas o sonho de hoje poderá ser, amanhã, realidade. Sabe-se lá até onde nos levará a evolução que hoje se processa tão acceleradamente? Como será a vida no anno 2000?


O acervo de O Cruzeiro, digitalizado pelo projeto Memória Viva, está disponível aqui, juntamente com outras publicações do início do século passado. Divirta-se.

Ética e relativismo cultural

Nestes tempos sombrios em que a ética parece depender apenas do ponto de vista de cada um - relativizada de maneira tal que um crime passa a ser simplesmente um "erro" -, quando não é simplesmente atirada ao lixo (os exemplos de cima são abundantes), é interessante refletir sobre os exageros a que uma posição relativista radical pode conduzir, em nome de um grupo, uma causa ou uma cultura. Recomendo a leitura do didático e esclarecedor artigo de Harry Gensler sobre "Ética e relativismo cultural", disponível aqui. Vale a pena conferir.

terça-feira, 15 de novembro de 2005

Para bibliotecas e pesquisadores

O professor Hélio Schuch está vendendo coleção completa e encadernada dos jornais O Pasquim e Movimento, de interesse para bibliotecas, colecionadores, pesquisadores etc. Ele dispõe também de coleções de jornais da imprensa alternativa e das revistas Veja, IstoéSenhor, Imprensa, Guia Rural e Globo Rural. Os interessados podem entrar em contato aqui.

Indecência sem limites

Cinismo, hipocrisia, desfaçatez, indecência, deboche da população, da Constituição e das instituições republicanas. Só isto pode justificar que o PT perpetre, na próxima sexta-feira, um ato de apoio ao comissário Dirceu, cujo processo de cassação é inevitável. Berzoini, o atual presidente do partido, já confirmou presença à manifestação, apoiada pelos subscritores do documento que este blog chamou de "Manifesto pela indecência" (aqui). Bem, como não se espera uma gigantesca participação da população, o ato será na Cãmara Municipal de São Paulo, ao anoitecer (ver).

Cadeia para o arrruaceiro global

O ativista francês José Bové, um dos símbolos do movimento contra os transgênicos, foi condenado ontem pela Corte de Apelações de Toulouse a 4 meses de prisão por destruir cultivos de milho transgênico no ano passado. O arruaceiro, que, nas horas vagas, é camponês e produz queijos sob o generoso subsídio do governo, anda muito pela América do Sul e já chegou a atacar plantações até no Brasil. Junto com o pessoal do MST e alguns petistas gaúchos, o bigodudo arrasou há 3 anos um plantio que pertencia ao setor de pesquisa da Monsanto, no interior do Rio Grande do Sul. Para o camponês destruidor de lavouras alheias, pouco importa se o plantio é para pesquisa científica. É transgênico, é "do mal" (veja aqui).

Chega, LuLLa!

O professor e filósofo Roberto Mangabeira Unger (Harvard) assina artigo na Folha de São Paulo de hoje em que sustenta que o governo LuLLa é o mais corrupto da história brasileira e afirma ser obrigação do Congresso Nacional "declarar prontamente o impedimento do presidente". O artigo, "Pôr fim ao governo Lula", é transcrito aqui:
"Afirmo que o governo Lula é o mais corrupto de nossa história nacional. Corrupção tanto mais nefasta por servir à compra de congressistas, à politização da Polícia Federal e das agências reguladoras, ao achincalhamento dos partidos políticos e à tentativa de dobrar qualquer instituição do Estado capaz de se contrapor a seus desmandos.
Afirmo ser obrigação do Congresso Nacional declarar prontamente o impedimento do presidente. As provas acumuladas de seu envolvimento em crimes de responsabilidade podem ainda não bastar para assegurar sua condenação em juízo. Já são, porém, mais do que suficientes para atender ao critério constitucional do impedimento. Desde o primeiro dia de seu mandato o presidente desrespeitou as instituições republicanas. Imiscuiu-se, e deixou que seus mais próximos se imiscuíssem, em disputas e negócios privados. E comandou, com um olho fechado e outro aberto, um aparato político que trocou dinheiro por poder e poder por dinheiro e que depois tentou comprar, com a liberação de recursos orçamentários, apoio para interromper a investigação de seus abusos.
Afirmo que a aproximação do fim de seu mandato não é motivo para deixar de declarar o impedimento do presidente, dados a gravidade dos crimes de responsabilidade que ele cometeu e o perigo de que a repetição desses crimes contamine a eleição vindoura. Quem diz que só aos eleitores cabe julgar não compreende as premissas do presidencialismo e não leva a Constituição a sério.
Afirmo que descumpririam seu juramento constitucional e demonstrariam deslealdade para com a República os mandatários que, em nome de lealdade ao presidente, deixassem de exigir seu impedimento. No regime republicano a lealdade às leis se sobrepõe à lealdade aos homens.
Afirmo que o governo Lula fraudou a vontade dos brasileiros ao radicalizar o projeto que foi eleito para substituir, ameaçando a democracia com o veneno do cinismo. Ao transformar o Brasil no país continental em desenvolvimento que menos cresce, esse projeto impôs mediocridade aos que querem pujança.
Afirmo que o presidente, avesso ao trabalho e ao estudo, desatento aos negócios do Estado, fugidio de tudo o que lhe traga dificuldade ou dissabor e orgulhoso de sua própria ignorância, mostrou-se inapto para o cargo sagrado que o povo brasileiro lhe confiou.
Afirmo que a oposição praticada pelo PSDB é impostura. Acumpliciados nos mesmos crimes e aderentes ao mesmo projeto, o PT e o PSDB são hoje as duas cabeças do mesmo monstro que sufoca o Brasil. As duas cabeças precisam ser esmagadas juntas.
Afirmo que as bases sociais do governo Lula são os rentistas, a quem se transferem os recursos pilhados do trabalho e da produção, e os desesperados, de quem se aproveitam, cruelmente, a subjugação econômica e a desinformação política. E que seu inimigo principal são as classes médias, de cuja capacidade para esclarecer a massa popular depende, mais do que nunca, o futuro da República.
Afirmo que a repetição perseverante dessas verdades em todo o país acabará por acender, nos corações dos brasileiros, uma chama que reduzirá a cinzas um sistema que hoje se julga intocável e perpétuo.
Afirmo que, nesse 15 de novembro, o dever de todos os cidadãos é negar o direito de presidir as comemorações da proclamação da República aos que corromperam e esvaziaram as instituições republicanas."

República

"Dizem que os que governam são espelho da república: não é assim, senão ao contrário. A república é o espelho dos que a governam".
Padre Antônio Vieira (1608-1697)