terça-feira, 31 de janeiro de 2006

Boa notícia


O Portal Brasileiro de Informação Científica, da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Nível Superior), abriu parte de seu acervo - consitituído de periódicos com textos completos, bases de dados referenciais com resumos, patentes, teses e dissertações, estatísticas e outras publicações de instituições brasileiras e estrangeiras - a todos os cidadãos. Até a semana passada, somente alunos, professores e pesquisadores de universidades tinham acesso aos textos - e dentro das instituições. Qualquer internauta pode, agora, ler em casa revistas científicas estrangeiras e nacionais. O link passa a integrar o listão do blog, ao lado.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

Entrevista ao jornal A Tribuna

Transcrevo aqui entrevista que este escrevinhador deu ao jornal A Tribuna, de Criciúma (SC) - publicada na edição de hoje -, sobre a suposta virada à "esquerda" que estaria ocorrendo na América Latina.

Filósofo fala sobre direita e esquerda

Gladinston Silvestrini
da Redação

No período entre dezembro de 2005 e dezembro de 2006, mais de nove países latino-americanos escolhem seus presidentes pelo voto direto. Os primeiros deles foram Bolívia - onde venceu o líder indígena e cocaleiro Evo Morales - e o Chile, que elegeu a socialista moderada Michele Bachelet. Com Lula no Brasil e Hugo Chávez na Venezuela, analistas internacionais vêm dizendo que o continente vive uma fase "esquerdista". Para o filósofo e jornalista Orlando Tambosi, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), isso pouco corresponde à realidade. Ele dedicou parte dos últimos dez anos estudando o que, afinal de contas, deu errado no velho marxismo de sua geração, e sobre que sentido faz, no mundo contemporâneo, falar da distinção entre esquerda e direita. Sobre o assunto, ele publicou no Brasil o livro O declínio do marxismo e a herança hegeliana. (O livro foi traduzido na Itália pela maior editora do país, a Mondadori, e ganhou título bem mais direto: Perché il marxismo ha falitto, ou Porque o marxismo faliu). Na seguinte entrevista ele fala sobre esquerda e direita na América Latina, política no Brasil e sobre a lei de imprensa - seu blog, inaugurado há poucos meses, foi o primeiro do gênero a publicar um direito de resposta a pedido baseado na Lei de Imprensa, que Tambosi qualifica como "entulho autoritário".

A Tribuna - Entre dezembro de 2005 e dezembro de 2006, nada menos que nove países da América Latina terão eleições presidenciais. Já foram eleitos o indígena Evo Morales na Bolívia e a socialista Michele Bachelet no Chile. Com Hugo Chavez na Venezuela e Lula no Brasil, há analistas que dizem que o continente vive uma fase de esquerda. Faz sentido por todos esses presidentes no mesmo barco? Há algo em comum entre eles?

Orlando Tambosi - “A tendência do cocaleiro Evo Morales é encostar-se a Hugo Chávez, que é um personalista, autoritário, demagogo e virtual dono da Venezuela. Já faz algumas bravatas, como a nacionalização de algumas empresas (entre elas as da Petrobras), mas não creio que vá muito longe. A Bolívia vive em crise há décadas e é possível que Evo seja tragado na milésima crise. Michele Bachelet, por sua formação, nada tem em comum com os dois, nem em termos biográficos, nem em termos políticos. Tocará a economia chilena pragmaticamente, como fizeram seus antecessores, também socialistas, que não estatizaram nada e nem se meteram em estripulia, como Chávez.”

A Tribuna - Nesta semana, lideranças populares disseram no Fórum Social Mundial que Lula prejudicou a esquerda mundial com o seu governo sendo classificado como uma guinada para a direita. Há algum sentido nessa afirmação?

OT - “Que esquerda mundial é esta? Isto não passa de uma utopia. As esquerdas sempre foram divididas em termos nacionais, que dirá em termos globais! O Fórum representa movimentos de variada origem, de ecologistas a anti-globalistas, e jamais terá alguma unidade, a não ser no vago discurso anticapitalista. Em termos práticos, os encontros promovidos anualmente mostraram-se inócuos até agora. Basta lembrar o exemplo de Porto Alegre, onde se realizou o primeiro encontro (quando o PT ainda governava o Estado e a capital). O que restou? Discursos, manifestos etc. Quanto a Lula, não fez guinada nenhuma. Age como o sindicalista pragmático que sempre foi. Apenas prosseguiu - mais ortodoxamente, é verdade - a política econômica de FHC. No resto, o governo do PT apenas inovou numa coisa: a corrupção, que tornou sistêmica. O valerioduto que o diga.”

A Tribuna - Nas últimas eleições, ainda havia parcela do eleitorado que votou em Lula por ele ser de "esquerda". Nas reeleições do ano que vem, este será um argumento válido? Houve algo diferente nesse governo que possa qualificá-lo, de alguma forma, de ser mais à esquerda que FHC?

OT - “Se FHC era neoliberal, então Lula também é. Lula foi eleito para mudar, mas limitou-se a prosseguir a herança de FHC, apesar de chamá-la de maldita. Na verdade, ele e seu partido não tinham projeto algum. Como se diz - corretamente - tinham um projeto de poder, mas não de governo. Aparelharam o Estado e pretendiam ficar muito tempo no poder, inclusive comprando deputados no Congresso, praticando um fisiologismo pior que aquele que sempre condenaram no discurso.”

A Tribuna - Ao longo da história, o termo "esquerda", sempre foi uma noção fluida. Nestas eleições, como essa questão se coloca diante do eleitor brasileiro?

OT - “Você tocou num ponto importante: será que a distinção entre esquerda e direita sobrevive? Os italianos foram os primeiros a discutir isto, no início dos anos 90, depois do desmantelamento da União Soviética e da derrubada do Muro de Berlim. O filósofo Norberto Bobbio escreveu um livro sustentando que a díade (como ele chamava) não morreu. Esquerda e direita teriam uma posição diferente em relação à igualdade, sendo a primeira igualitária e a segunda, inigualitária. Este seria, segundo Bobbio, o critério de distinção entre uma posição e outra. A esquerda teria uma sensibilidade maior para a redução das desigualdades. Do lado oposto ao de Bobbio colocou-se outro filósofo, Lucio Colletti, para quem não tinha mais sentido falar-se em esquerda e direita depois do fim da União Soviética e da falência do chamado "socialismo real". Até então o que era "direita"? O liberalismo, a defesa da economia de mercado, a livre concorrência, a não invasão do Estado na economia. E o que era "esquerda"? A propriedade coletiva ou pública dos meios de produção, a nacionalização (estatização) das grandes empresas e dos bancos, a economia dominada, dirigida pelo Estado (lembre-se os famosos "planos qüinqüenais" da URSS). Hoje tendo a concordar mais com Colletti. Se a noção antes era vaga e fluida, como você mesmo diz, atualmente ela se tornou nebulosa. Alguém ainda chamará de "esquerda" a ditadura cubana, só porque mantém tudo sob rígido controle estatal? E alguém dirá que os Estados Unidos, com sua liberdade de mercado e seu capitalismo, simbolizam a "direita"? Considerando-se esses argumentos, como dizer que Lula estaria mais à esquerda do que FHC?”

A Tribuna - Você acha que, no atual momento da política brasileira, corremos o risco de dar de cara com um aventureiro, como foi Collor?

OT - “No Brasil, a luta deverá se dar entre Serra e Lula, conforme apontam as pesquisas. Serra estaria mais à direita que Lula? Claro que não, até pela biografia de ambos. Diria até que Serra - mantida a tal díade - está mais à esquerda que o sindicalista. Acho que não corremos o risco de ter um novo Collor. Os personagens do cenário estão aí, são conhecidos, e não parece haver nenhum terceiro correndo escondido. O que é preciso fazer, mais do que analisar as coisas nos velhos termos de esquerda e direita, é analisar os projetos dos candidatos, trocar promessas por propostas. E propostas calcadas em estudos científicos, não em catecismos ideológicos.”

A Tribuna - A crise do PT pode ter alguma origem na raiz marxista do partido? Criou-se o mito de que José Dirceu fez o que fez por ser "stalinista". Faz sentido?

OT - “Olha, o PT não tem nem nunca teve raiz marxista. Para dizer a verdade, acho que poucos petistas estudaram Marx a fundo, e o Dirceu, que você cita, não é um deles. O pobre Marx não pode ser responsabilizado pelo autoritarismo petista, pelo menos disto ele está livre. Dirceu tem uma personalidade autoritária e é um centralizador, o que faz lembrar as práticas stalinistas. Se pudesse, certamente seria um ditador como seu amigo Fidel Castro. Mas ainda bem que já estamos livres desse personagem, espero que por muito tempo.”

A Tribuna - Como foi inaugurar a aplicação da lei de imprensa para blogs?

OT - “Publiquei em meu blog (http://otambosi.blogspot.com) uma resenha do professor e amigo Roberto Romano, da Unicamp, sobre o livro "Formação do império americano", de Moniz Bandeira, que foi publicada também na revista Primeira Leitura, de São Paulo. O autor do livro não gostou da resenha, achando-a injuriosa, e surpreendeu-me com uma representação, por meio de um escritório de advocacia com várias filiais internacionais, pedindo "direito de resposta" com base na Lei de Imprensa (o famoso entulho autoritário, de l967). Ouvi amigos ligados ao Direito e achei melhor publicar a resposta, coisa que, aliás, teria feito por um simples pedido do professor Moniz, contra quem nada tenho. A Primeira Leitura não publicou nem publicará (segundo artigo do diretor, Reinaldo Azevedo, no site da revista) a resposta, preferindo que Moniz vá até o fim, já que tomou esta "atitude truculenta" (palavras do Reinaldo). Veja bem, se é inédito o uso da vetusta Lei de Imprensa contra um blog, mais ainda é usá-la a pretexto de uma resenha. Resenha de livro é análise e crítica de idéias e argumentos, não ataque a pessoas. Trata-se de um conflito de idéias e interpretações, que nada tem a ver com a Lei de Imprensa. Acho o episódio lamentável, ainda mais por ter partido também de um professor. Moniz aposentou-se na UNB e hoje mora na Alemanha - foi certamente através do blog que tomou conhecimento do texto do Romano, já que a PL não disponibiliza o material da revista na internet, embora mantenha um site, com o mesmo nome, de atualização diária.”

Publicado: 30/1/2006

domingo, 29 de janeiro de 2006

Bem-vindos a esta casa


Já que não podemos ir a Nova York para ver a Exposição Darwin, organizada pelo Museu Americano de História Natural, convido-os neste domingo a uma visita virtual.

O próprio museu abre, em seu site, uma página que detalha o roteiro da exposição, com textos, entrevistas, fotos e multimídia. Pena que este excelente acervo só esteja disponível em inglês (mereceria pelo menos uma versão espanhola).

Com o programa Real Player, pode-se fazer também uma "visita" à Down House (foto), a residência onde o naturalista viveu com a família e manteve engavetada A origem das espécies por duas décadas. Recomendando ainda, sobre o tema, a matéria de Carl Zimmer (The Loom, link ao lado) para a revista Discover, deixo com vocês o texto de abertura do vídeo com o depoimento de vários cientistas sobre o inestimável legado de Darwin:
A teoria da evolução por seleção natural, de Charles Darwin, é a única explicação científica para a diversidade da vida. Ela é fundamental a todas as pesquisas biológicas.

Bom domingo.


P.S.: evidentemente, nem o governo nem os bancos e empresas privadas brasileiros se disporão a patrocinar a vinda da exposição para cá. Prefere-se aqui, em detrimento das ciências, que as mentes sejam pasto para o misticismo e os mais exóticos tipos de seitas. Pobre Bananão.

sábado, 28 de janeiro de 2006

Tributo a Miles Davis


"Um artista nunca está à frente de seu tempo. A maioria das pessoas é que está muito atrasada."

A frase é de Edgard Varèse e se aplica perfeitamente a Miles Davis, gênio do trompete que revolucionou o jazz mais de uma vez, escandalizando muita gente com suas fusões. Foi também o primeiro a utilizar instrumentos elétricos no jazz.

Grande compositor e arranjador, Miles transitou, sem preconceitos, do erudito ao pop, do jazz ao rock, sempre deixando a marca de seu sopro inconfundível.

Os amigos Ilton e Damião que me desculpem, nesta Semana Mozart, mas vou recomendar aqui uma visita ao site oficial do trompetista, que abre com uma interpretação inesquecível de "Summertime", um clássico dos Gershwin. (O site ainda está incompleto, mas disponibiliza algumas músicas das diversas fases de Miles).

sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

Da série Carta Magna (I)


Art. 196 da Constituição Federal:

A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.

Eis o magnífico princípio constitucional.

SUS: eis a realidade.


De um lado o ideal, de outro o real. E, no Bananão, o real é sempre "mais embaixo."

quinta-feira, 26 de janeiro de 2006

Fim da verticalização


Enquanto governo e políticos se preocupam com verticalização,
a população brasileira se horizontaliza.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

O extermínio do funcionalismo público

Villas-Bôas Corrêa, em comentário no site no mínimo, toca num assunto sobre o qual a mídia em geral silencia: o massacre do funcionalismo público (do barnabé aos mais graduados) pelos governos FHC e Lula. O jornalista demonstra conhecer o problema de perto (fala de um compadre seu).

"Para um acerto sério de contas em cima da inflação no período de 11 anos", diz Villas-Bôas, "o reajuste de 132% seria o lance para o começo de conversa." Mas, acrescenta ele, "não adianta cultivar ilusão", porque o relator do Orçamento, o deputado catarinense Carlito Merss, do PT de Joinville, anuncia a previsão de um reajuste que alcança apenas 29% - ainda assim, até o fim do governo Lula. O retrato é irretocável (cito aqui um trecho):

"Nos dois mandatos do presidente FHC, de l 995 a 2 003, os barnabés embolsaram os níqueis do reajuste de 5% , em 2002, por obra e graça de decisão do Supremo Tribunal Federal. E o repique de 4%, previsto no Orçamento do ano seguinte, executado a era Lula.
Portanto, dois reajustes ínfimos em nove anos de gastança e desperdício, da farra das privatizações e do ensaio da compra de votos para a reeleição, depois consagrada na orgia da roubalheira do PT na caçoada lulista.
O pior estava a caminho e chegou na onda de esperanças dos 53 milhões de votos da eleição do candidato que prometeu tudo na campanha. Daí para diante, com as mais descaradas desculpas, mentiras e dribles, Lula empurrou o barnabé para os porões dos cortiços."

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

O mínimo é o máximo?

A Constituição Federal de 1988 estabelece como direito do trabalhador:

Art. 7, IV - Salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim.


Em fins de dezembro, só a cesta básica do trabalhador gaúcho, por exemplo, consumia R$ 183,43 dos R$ 300,00 do salário mínimo vigente. (Recorde-se que a cesta básica inclui apenas alimentos, material de limpeza doméstica e de higiene pessoal).


O Dieese afirma que o mínimo necessário para satisfazer as necessidades básicas do trabalhador e de sua família deveria ser de R$1.607,11.


Alardeia-se agora como grande conquista um salário de R$ 350,00.


Em respeito à Carta Magna, por que não poderia ser maior? Quebraria a Previdência? Quebraria as prefeituras? Quebraria o país?


(Com agradecimentos ao amigo Efigênio Marcosi).

segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

Gaudí



Pintura? Escultura? Arquitetura?
Gaudí dissolve a percepção habitual: os sentidos se alteram.

Acima, os Jardines Artigas, de Antoni Gaudí i Cornet (1852-1926). Visite aqui o museu do gênio catalão. Contemple as obras com paciência.

A culpa é sempre da mídia

Poucos presidentes têm tido uma relação tão ruim com a imprensa como o atual presidente. Levou mais de ano para conceder uma entrevista coletiva, fala de vez em quando a radialistas escolhidos a dedo e não perde oportunidade de fazer acusações à mídia.

Seus acólitos mais embevecidos - como a filósofa Marilena Chauí - chegam a dizer, ignorando a avalanche de provas, documentos e depoimentos, que a crise é uma invenção da mídia. Aduladores palacianos e jornalistas chapa-brancas procuram repercutir essa falsa visão.

Tanto fizeram que o presidente se vê como vítima da imprensa. Pudera. Bernardo Kucinski, o homem que levanta às 5 da manhã para ler os jornais e fazer uma "carta crítica" a Lula, corrobora essa idéia. Os jornalistas, diz ele, "não têm respeito com a pessoa do Lula. Há sempre há um pressuposto de que ele vai falar besteira, vai errar, de que ele não conhece as coisas, usando como parâmetro um conceito de saber que é acadêmico. O Lula sempre foi tratado com discriminação e desrespeito. E em momentos cruciais, ele foi bombardeado com difamação. Eu me lembro que alguns momentos específicos, como aquela história do carro que ele vendeu ou dele morar numa casa de favor, coisa que milhões de brasileiros fazem. Tudo era distorcido para mostrá-lo como propenso à corrupção." (Leia a entrevista completa à Agência Repórter Social aqui).

Ora, na história da imprensa brasileira, ninguém foi tão incensado quanto o presidente. Guilherme Fiuza, em artigo no site no mínimo (em que faz justas críticas também a Kucinski), afirma que, perto de Lula, "Lech Walesa, o herói do Sindicato Solidariedade, é um lateral-esquerdo do Criciúma. O ex-líder do ABC é quase dono da história do movimento sindical, e freqüentemente é apresentado como um dos símbolos da derrubada da ditadura militar – o que vem a ser um doce engano. Jamais um mesmo homem público brasileiro foi investido, por correntes tão díspares, de tantos atributos elevados, como honra, justiça social, sentimento de pátria, sabedoria política, pureza ideológica, bondade e espiritualidade. Um verdadeiro arrastão virtuoso, captado e exaustivamente disseminado pela imprensa nacional."

Perfeito o título do artigo: "República da paranóia". Mas o pior é que os habitantes do hospício somos nós.

domingo, 22 de janeiro de 2006

10 mil acessos

Este blog acaba de completar 10 mil visitas (para uma página meio sisuda e reflexiva, está mais do que bom).Iniciado aos trancos no final de setembro, instalou um contador de acessos em 2 de outubro. Portanto, alcança este número em pouco mais de três meses, graças às centenas de amigos que o signatário teve a ventura de fazer nesse período. A todos eles, meus sinceros agradecimentos.

Esta é uma página voltada ao debate de qualquer tema que mereça a exposição de argumentos. Críticas, muitas vezes ácidas, sim, mas críticas de idéias, não de pessoas.O enfoque, como foi dito já no início, é filosófico, político e jornalístico.
Este escrevinhador espera continuar merecendo a visita, a amizade e os comentários de todos os que aqui chegam. Sejam sempre bem-vindos, e desculpem algum excesso eventualmente cometido.

sábado, 21 de janeiro de 2006

Dos males, o menor.


Como partido, o PSDB não merece vencer as eleições deste ano. E parece fazer de tudo para não vencer. Divide-se em escaramuças internas, estranhamente tentando afastar o candidato de maior apoio popular, José Serra. Todas as pesquisas até agora realizadas o alçam à condição de ser o único candidato oposicionista a ter condições de se bater com o atual ocupante do Palácio do Planalto. No entanto, os tucanos insistem em empurrar a mala da candidatura do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin – um ilustre desconhecido fora de São Paulo.

Já disse aqui que a eventual disputa Lula/Alckmin só favorece a manutenção do status quo, abençoada pelo capital financeiro, seu único beneficiário. Ganhe um ou outro, é a certeza de que tudo continuará como está: tome-se más de lo mismo. Não foi por acaso que até o ex-comissário Dirceu fez campanha antecipada para Alckmin ao dizer que Serra é "muito independente" (no que foi seguido por empresários e banqueiros). Para o PT, claro, o governador paulista é a alternativa mais conveniente – e os petistas sequer escondem isto.

Com próceres como FHC, é sempre difícil descer do muro. Aliás, até hoje desconfio que o presidente-sociólogo pouco fez – se é que fez - para a vitória de Serra em 2002. E pouco faz agora, embora também não manifeste apoio explícito ao outro candidato, o médico de Pindamonhangaba que tem relações com a ultra-conservadora Opus Dei (cf. revista Época desta semana).

Como oposição, o comportamento do PSDB tem sido medíocre. Complacente com o governo, parece ter uma cauda imensa, e é exatamente esta imagem que transmite para a opinião pública. Deixou passar o trem do impeachment e parece preservar mais o governo que a própria base aliada de Lula. O fato é que o presidente conta com a boa sorte de não enfrentar uma oposição à altura da que ele e seu partido exerceram. Com mais crueza, talvez os blogueiros sintetizem melhor a situação: oposição pamonha.

Por que Serra? Simplesmente porque é o único candidato oposicionista em condições de evitar a tragédia de um segundo mandato para o PT, cuja atuação freqüenta mais a página policial do que o noticiário político dos jornais. Simplesmente porque, dos males, é o menor. À certeza do erro, é preferível o risco. Cheque em branco? Não, desde que o candidato se comprometa a quebrar o ciclo do “crescimento pífio” da economia registrado no reinado FHC/Lula, que sacrifica particularmente as novas gerações.


O desafio é enorme: Serra não pode ser nem FHC nem Lula. Do contrário, choverá voto nulo.

(Sobre a lenga-lenga do PSDB e José Serra, recomendo o artigo do amigo e filósofo Roberto Romano no site Primeira Leitura).

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

Ciência, ética, progresso...


"Os projetos políticos do século XX falharam ou ficaram muito aquém do que haviam prometido. Ao mesmo tempo, o progresso da ciência é uma experiência diária, confirmada a cada vez que compramos um novo aparelho eletrônico ou usamos um novo medicamento. A ciência nos dá um senso de progresso que a vida ética e a vida política não podem dar."

John Gray, Cachorros de palha. Reflexões sobre humanos e outros animais (Record, 2005). Citação a propósito do debate iniciado com a nota sobre ideologia e conhecimento, abaixo. Recomendo a leitura dos comentários.
(Gray é professor de Pensamento Europeu na London School of Economics, além de colunista do The Guardian).


quinta-feira, 19 de janeiro de 2006

Conhecimento vs. ideologia


Política às favas, aqui vai uma pitada de epistemologia (ou teoria do conhecimento). Parto de uma afirmação peremptória: ideologia não é conhecimento. Este último é necessariamente verdadeiro, ou não é conhecimento. Tanto assim que não existe conhecimento falso: existem falsas versões, que muitas vezes tomamos equivocadamente por conhecimento, mas que não passam de versões ou declarações falsas, incorretas.

Conhecimento e verdade estão inextricavelmente ligados. Como nem sempre podemos saber se aquilo que julgamos conhecer é de fato verdadeiro, muito dos nossos "conhecimentos" não são efetivamente conhecimento. Podemos viver num mundo de opiniões, versões fantasiosas, ideologias etc. Resumindo: conhecer é ter representação verdadeira da realidade.

Diferentemente do conhecimento, a ideologia não implica a verdade. A ideologia pode ser definida como um conjunto de idéias (políticas, sociais, religiosas etc.) mais ou menos coerentes, não necessariamente verdadeiras, sobre a sociedade e o mundo. O século XX foi considerado o século das ideologias. Basta lembrar o fascismo, o nazismo, o comunismo - que, felizmente, parecem ter morrido com o século. (A propósito, há um livro muito interessante do historiador alemão Karl Dieter Bracher, exatamente com o título O século das ideologias [1982]. Não sei se há tradução espanhola; em português, não há: disponho da versão italiana).

Mas nem todas as ideologias sumiram do mapa. De fato, é difícil conceber como uma ação em defesa do bem público possa ser levada adiante sem alguns elementos ideológicos.

A ideologia liberal, que muitos confundem com ciência (mas ciência não é), está aí, lépida e fagueira. Conseguirá o liberalismo resolver os problemas que as outras ideologias não resolveram? Ou acrescentará novas desgraças à história humana?
(Na ilustração, Kandinsky).

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Comissário Jason



O ex-comissário Dirceu planeja sair da tumba. Segundo a Folha, ele já está contratando assessores e montando escritório (quem paga?) para a ressureição. A pretensão é reunir 1 milhão de assinaturas para apresentar projeto de lei de "iniciativa popular" propondo sua anistia.
Conseguirá 1 milhão de panacas?

Boa notícia!

"No próximo ano já não estarei mais aqui", disse LuLLa aos reitores das universidades federais. Ato falho ou não, que isto se cumpra.
E, em comemoração, aí vai um picles do Millôr: "alguém tem que enfiar alguma idéia na cabeça do Lula, só pra provar que a natureza realmente abomina o vácuo."

Brizola e as manobras de Jobim


Ele preside um dos poderes (o STF), mas está de olho no outro (a Presidência da República). Já foi acusado de politizar excessivamente o tribunal, fato denunciado até na ONU. Pertenceu, quando estudante, a uma esquisita "Ordem do Sino", que furtou o sino da faculdade (sobre esses pontos, ver aqui).

Façanha maior, no entanto, ele fez como membro do Congresso, ao afirmar, em 2003, que dois artigos incluídos no texto da Constituição não foram votados pela Assembléia Nacional Constituinte de 1988. Estão lá por obra e graça dele próprio, ministro Nélson Jobim.

Leonel Brizola, o "velho caudilho", foi o primeiro a criticar a "fraude", em artigo publicado em 9 de outubro (um dia depois da declaração de Jobim) e reproduzido em vários jornais. Vale recordá-lo aqui, no momento em que Jobim manobra para candidatar-se à presidência da República.


A Constituição foi respeitada?

“A insólita revelação do sr. Nelson Jobim de que, na promulgação da constituição de 1988, ele próprio participou de uma fraude para introduzir no texto constitucional artigos que não foram votados pelos constituintes, deixa o hoje ministro do Supremo em posição ética e jurídica delicada, para não dizer insustentável, como integrante da mais alta corte constitucional deste país. Como pode alguém que deliberada e conscientemente violou, no nascedouro, a Carta Magna, ser agora aquele que vai julgar, no Supremo Tribunal Federal, as questões constitucionais?

O absurdo é maior ainda que Sua Excelência diz que não apenas um, mas dois artigos foram introduzidos na Constituição sem o voto daqueles que, legitimamente, tinham o poder de fazê-lo. E mais: numa atitude chocante, julga-se no direito de nem mesmo revelar qual foi o segundo enxerto que praticou, dizendo que só o fará em livro que irá lançar! O que pretende o sr. Ministro? Vender mais livros? O país e outros ministros do STF devem esperar o que mais de falso na Constituição?

Francamente, em qualquer país sério, um ministro do Supremo envolvido em tal episódio estaria, a esta altura, apresentando sua renúncia e pedindo desculpas ao país e à consciência jurídica. Alguém tem dúvidas de que seria assim nos EUA, na Inglaterra ou na França? Mas aqui o ministro Jobim ainda se julga no direito de pavonear-se, quase que afirmando que é graças à burla da qual participou que a Constituição aperfeiçoou-se!

Depois desta revelação chocante, o que pensar dos escrúpulos do ministro Jobim em relação à verdade, ao rigor jurídico? Como pode a consciência nacional aceitar tais procedimentos? Pior, como alguém pode se sentir seguro quando Sua Excelência foi, de forma ativa e exorbitante, o patrocinador da recente abolição dos sistemas de impressão que poderiam impedir as possibilidades de fraude na urna eletrônica? O PDT, depois desta revelação, mais que nunca sente-se no dever de impugnar a intervenção escandalosa do ministro, num processo que culminou com a revogação da única garantia de que nossas eleições não possam vir a ser eletronicamente fraudadas.

Por muito menos, pela violação do sigilo do voto dos senadores, que é um nada perto da violação do próprio texto constitucional, vimos o processo de condenação pública que se abateu sobre seus responsáveis, que os levou até a renúncia. A violação cometida pelo sr. Jobim é de natureza muito mais grave, porque alterou o próprio texto da Constituição em vigor, a cujo cumprimento todos se obrigam. Ou a pretensão de Sua Excelência é tanta que se julga acima da ética e da lei, e que ter fraudado a Constituição deve ser algo impune apenas porque o fraudador é ele próprio? Se as instituições políticas e jurídicas deste país aceitarem que isto fique sem conseqüências, então estarão estimuladas as práticas de todo tipo de fraudes, porque nenhuma poderá ser maior que a que se fez contra a Lei das Leis.
Leonel Brizola”.

(Reproduzido do site Peleando contra o Poder, do juíz Newton Fabrício, link ao lado).

terça-feira, 17 de janeiro de 2006

Ele veio para incomodar


Olhar de doido ele tem. E o que tem dito estarrece a odiada "civilização ocidental". Exemplo: "Israel tem que ser varrido do mapa". Ahmadinejad (o nome é difícil, mas guarde-o: ele vai incomodar bastante), o presidente do Irã, duvida que tenha ocorrido o Holocausto. "Eles criaram um mito atual, que chamam de massacre dos judeus e que eles consideram um princípio acima de Deus, das religiões e dos profetas." (Conheça aqui algumas de suas idéias).

Note-se bem: assim como alguns grupúsculos neonazistas espalhados pelo mundo, ele não acredita que 6 milhões de judeus tenham sido massacrados pelo nazismo na Segunda Guerra Mundial. Vai, inclusive, promover uma conferência internacional no Irã para debater o assunto. Quer "provas científicas" do massacre (aqui, para assinantes).

Não contente, Ahmadinejad retoma agora o projeto nuclear iraniano, provocando reações dos Estados Unidos e da Europa, que poderão adotar sanções econômicas contra o país.

No fundo, ele tenta retomar os princípios da "Revolução Islâmica" de Khomeini, para o qual os EUA eram o "Grande Satã".

Durma-se com um barulho desses!
(Recomendo a leitura da extensa reportagem elaborada pelos jornalistas alemães na Der Spiegel).

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

Mais universidades?



O governo federal quer implantar mais universidades federais no interior, criando 125 mil vagas até 2010. Ninguém discorda de que o país necessita de mais vagas públicas. Mas isto dificilmente sairá do papel, por uma razão muito simples: o governo sequer mantém adequadamente as instituições existentes, tratadas a pão e água.
Não há reposição de professores, falta dinheiro para manutenção e para laboratórios, e os salários caíram brutalmente nos últimos 10 anos. É grande o número de professores substitutos, contratados temporariamente, sem vínculo com as instituições, e ainda mais mal pagos. Além disso, já virou tradição os reitores fecharem o ano "pendurados" em contas de água, luz e telefone - isto é, em estado de mendicância.
Muita ambição, pouco investimento. O fato é que a educação não é considerada área estratégica no país. Por isso mesmo somos o Bananão, como bem definiu o nosso Ivan, aí embaixo.
Leia matéria do ESTADÃO aqui.

P.S.:
Aproveito para lembrar aqui o que disse um dos comentaristas: no quadro acima, o professor vai do nada para lugar nenhum.

Leitura para bilionários


Ivan Lessa, aquele que foi embora do Bananão e nunca mais voltou, escreve sobre uma nova revista que está sendo lançada em Londres. Detalhe: é só para bilionários. Assinaturas, aliás, só mediante convite - não mais de 25 mil "multibis" no planeta. Deleite-se com a fina ironia de Ivan na crônica Ricas leituras.

domingo, 15 de janeiro de 2006

Alckmin e a Opus Dei

Sobrou para o Picolé de Chuchu (copy: José Simão). A revista Época desta semana, que traz reportagem sobre a Opus Dei e sua atuação no país, diz que o governador paulista Geraldo Alckmin é um dos políticos mais próximos dessa entidade católica.

Segundo a revista, Alckmin tem recebido lições de "formação cristã" no Palácio dos Bandeirantes através de um "numerário" (membro) da Opus, o jornalista Carlos Alberto Di Franco. Os encontros são realizados à noite, semanalmente, e contam com a presença de alguns empresários, advogados e juristas.

A Opus, que é uma prelazia do Papado, foi criada em 1928 pelo padre espanhol Josemaría Escrivá, canonizado por João Paulo II em 2002. A organização teve profundas ligações com a ditadura franquista.

"Caminho", de Escrivá, é o livro de cabeceira do governador, que não terá um domingo muito tranquilo.

Serra deve estar sorrindo de orelha a orelha.

* * *
P.S.: "Trata o teu corpo com caridade, mas não com mais caridade que a que se tem com um inimigo traidor", ensina o mentor espiritual do governador.
Será que o governador também faz penitência com o cilício amarrado na coxa duas horas por dia?
E o tucanato, hein? Quer empurrar como candidato um homem que dá ouvidos a uma instituição que tem o passado da Opus Dei? Por que não pode ser Serra?

sábado, 14 de janeiro de 2006

O bando de Mussolini


Eles são deselegantes, agressivos, grosseiros e arrogantes. Usam mais adjetivos que substantivos. Cometem, parágrafo por parágrafo, a falácia ad hominem: atacam as pessoas, não os argumentos e as idéias. Julgam-se senhores da História. Confundem ideologia com conhecimento - e com ela encheram bolsos e malas, quando não cuecas. Estão no poder e tudo farão para não retornar à "planície". Acham-se "de esquerda", mas namoram o fascismo. São liberticidas. O símbolo deles está à direita (Mussolini, de Giuseppe Bertelli).

(O blog lamenta dizer que, pelas razões acima, provisoriamente controlará os comentários, pedindo desculpas a seus inteligentes e educados visitantes habituais).

Ou hegeliano, ou cientista.




Já que fui solicitado por alunos – e já que Hegel gerou discórdia neste blog - , tentarei esclarecer por que razão há contraposição entre hegelianismo e ciência, algo que insinuei outro dia em uma nota.

Em poucas palavras, se me considero “hegeliano”, não posso me julgar “cientista”; poderei, no máximo, considerar-me filósofo, e não há nenhum problema nisso. O problema é que não há compatibilidade entre Hegel e as ciências. Hegel é dialético, as ciências, não.

Mas que diabo é essa dialética?

No sentido moderno, formulado justamente pelo grande filósofo alemão, a dialética viola o princípio clássico-aristotélico de não-contradição, segundo o qual algo não pode ser e não ser ao mesmo tempo. A dialética pressupõe que todas as coisas sejam autocontraditórias, tanto o pensamento quanto a realidade. Trocando em miúdos: tudo ao mesmo tempo é e não é.

Ora, contraditórios podem ser nossos pensamentos, nossas idéias, nossas declarações - jamais a realidade. E as ciências tratam da realidade tal como ela é, gostemos ou não. O problema ser/não-ser é filosófico – questão fascinante, espinhosa, mas filosófica, não científica.

Por isso mesmo, nenhuma ciência é dialética.


Não há físico dialético, assim como não há biólogo, historiador ou sociólogo dialéticos. Bem que Marx e Engels tentaram “inverter” a dialética em termos materialistas (o “materialismo dialético” dos velhos comunistas soviéticos que o diga), mas o fato é que a coisa só funciona dentro do sistema hegeliano, exatamente porque Hegel considera que o real é o racional. Isto é, real é a idéia, o pensamento, não a realidade tal como estudada pelas ciências.

É como se não existisse realidade independente das idéias. Bota idealismo nisso.

Assim, se me considero cientista, não posso ser dialético (repito: pelo menos no sentido moderno, ou seja, hegeliano): tenho de pesquisar e examinar as coisas como elas são. Estas podem, sim, ser opostas, gerar conflitos e embates, jamais contradições.

Repetindo: contraditórios podem ser só o pensamento, as idéias. Uma mesa não contradiz uma cadeira, assim como a mulher não é a contradição do homem (eles podem entrar em conflito e até se matar, mas nenhum deles é o não-ser do outro). Tudo o que existe é real e positivo, e, portanto, não contraditório.

Por outro lado, se me considero dialético, posso ser um bom filósofo (idealista, claro), mas não um cientista, já que às ciências não interessa o não-ser das coisas, do mundo, da realidade. Elas não tratam da negação, mas de fatos, daquilo que é. A dialética hegeliana, por sua vez, trata de idéias, ou da Idéia. Sirva um exemplo: a própria natureza, nessa concepção, é apenas o outro da Idéia, a Idéia na sua exterioridade. Afinal, não é Hegel um filósofo idealista?

O velho alemão traz de volta o antropocentrismo, desmantelado pelas ciências desde Galilei. De quebra, reintroduz o finalismo na História, que passa a ter uma meta, um desígnio, algo já traçado.


Essa concepção, que não sustentou o marxismo (trato disso longamente em meu livro O declínio do marxismo, link ao lado), pode contudo servir de muleta às teorias conspiratórias contemporâneas, não excluído o fundamentalismo criacionista - e serve até a historiadores, ou, melhor dizendo, a historicistas, que atribuem um desígnio à História, para o bem ou para o mal.

(À esquerda, o grande Darwin, homem da experiência; à direita, o grande Hegel, homem das idéias)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

Primeira Leitura responde a Moniz Bandeira


Reinaldo Azevedo, diretor da revista Primeira Leitura, notificado pelos advogados de Moniz Bandeira a propósito de "direito de resposta" a artigo-resenha de Roberto Romano publicado na edição de dezembro, afirma que não a publicará, a menos que seja forçado por decisão judicial.
Para Reinaldo, o professor Bandeira escolheu um "ritual truculento", e "não há o que fazer a não ser estimulá-lo a seguir o que lhe parece ser o caminho normal."
O jornalista também se refere indiretamente a este blog: "um site que reproduziu a resenha também virou alvo do escritor ofendido."

Leia aqui a resposta de Reinaldo Azevedo e acesse também a resenha de Romano, "Uma fábula hegeliana", e a resposta de Moniz Bandeira, só disponível neste blog. (À esquerda, mais uma vez, o filósofo idealista G. W. F. Hegel).

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

E não é pelego?

Pelego, diz o Houaiss, é o "agente disfarçado do governo que procura agir politicamente nos sindicatos de trabalhadores." Por acaso não é peleguismo o líder de uma central sindical dizer:

1 - que é a favor de mais 4 anos para LuLLa;
2 - que a vida do trabalhador melhorou no atual governo;
3 - que o poder de compra do salário aumentou;
4 - que o ProUni é uma grande conquista ?

Pois foi justamente isto que afirmou o presidente da CUT, João Felício.
Nem ministro faria melhor.
E ele ainda jura de pés juntos que não é governista...
Confira aqui.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Homenagem a Paulo Francis


Primeira Leitura, edição de janeiro, presta justa homenagem ao jornalista Paulo Francis, cuja língua ferina deixa o Bananão saudoso desde 1997. O ano 2006 marca os 40 anos de lançamento do primeiro livro de Francis, Opinião Pessoal.

Vivo fosse, ele se divertiria - e nos divertiria - com as estrepolias do petismo farsesco. Afinal, foi ele o primeiro a gozar da recorrência do então candidato LuLLa ao erudito termo "menas" em seus discursos de metalúrgico enfezado. "Menas" repressão! "Menas" exploração! "Menas" corrupção!

Este era o LuLLa sindicaleiro, hoje presidente de um país de "menas" cultura, "menas" obras, "menas" educação etc. A propósito, o artigo da PL é "Mais coragem, menas burrice", assinado por Bruno Garschagen (pena, só disponível na edição impressa: vale comprar).

Ave, Rato.

Meirelles e Pallocci (à direita), fiéis seguidores da cartilha ortodoxa, demonstram sua subserviência a Rato, o chefão do FMI. Não fosse a mesa, rastejariam. (No blog do Josias, link ao lado).
* * *
P.S.: mesmo assim, levaram um puxão de orelhas: o Brasil
não aproveita
todo o seu potencial para crescer, disse Rato (Folha de hoje).

Shakespeare e a corrupção


"Ah, se as propriedades, títulos e cargos
Não fossem fruto da corrupção! e se as altas honrarias
Se adquirissem só pelo mérito de quem as detém!
Quantos, então, não estariam hoje melhor do que estão?
Quantos, que comandam, não estariam entre os comandados?"

Shakespeare (1564-1616)

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

Corrupção sistêmica

"Nossos netos lerão nos livros de história - que não serão mais escritos por professores-militantes petistas ou acadêmicos intoxicados de marxismo - que de 2003 a 2006 o Brasil foi palco de uma experiência traumática de inépcia administrativa e de corrupção sistêmica, usada como método para que a cúpula de um partido que se dizia dos trabalhadores pudesse fraudar os mecanismos da democracia representativa, comprando votos e apoios parlamentares para tentar, inutilmente, se perpetuar no poder."
Artigo de Antônio Fernandes no e-agora. Leia na íntegra aqui.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

Que saia pela culatra !

DO BLOG LAUDAS CRÍTICAS, de Maurício Tuffani:

"Idéias se combatem com idéias. Mas há aqueles que preferem apresentar seus argumentos por meio da coerção. Roberto Romano, professor de ética e filosofia política da Unicamp (e também colega blogueiro por meio do Filosofia Política), escreveu na revista Primeira Leitura a resenha "Uma fábula hegeliana" sobre livro de autoria de um respeitável acadêmico (sem nenhuma ironia) cujo nome permanecerá excluído deste post. O motivo desta omissão é justamente não dar ao indigitado o destaque que buscou por meio do apelo à Lei de Imprensa."

LEIA AQUI, na íntegra.

LuLLa e o general

Cada vez mais a trôpega presidência da República lembra a ditadura militar dos tempos de Garrastazu Médici, o ditador dos anos negros (a primeira metade dos 70). Monta uma gigantesca estrutura de espionagem (aos cidadãos, claro: onde os "inimigos"?).
É bem verdade que o cosmético sociólogo FHC já dera início ao processo, em seu duplo, enfadonho e empobrecedor mandato. Mas o lullismo-petismo sem lanterna agrava ainda mais o que foi mal iniciado. A famosa Abin (Agência Brasileira de Inteligência) está cada vez mais militarizada (nenhuma diferença em relação ao velho SNI).
Sobre isto, indico a leitura do artigo do professor Jorge Zaverucha, da Universidade Federal de Pernambuco, na Folha de hoje:

"Entenda-se por militarização o processo de adoção e uso de modelos militares, conceitos e doutrinas, procedimentos e pessoal, em atividades de natureza civil. A militarização é crescente quando os valores do Exército se aproximam dos valores da sociedade. Quanto maior o grau de militarização, mais tais valores se superpõem."
Aqui, para assinantes.

domingo, 8 de janeiro de 2006

Ainda sobre o direito de resposta

Da coluna de Raul Sartori, no jornal A Notícia (de Joinville), sobre o a invocação da Lei de Imprensa contra este blog pelo professor Moniz Bandeira:

A conhecida banca Noronha Advogados, com filiais em diversos países, representando o eminente professor Luiz Alberto Moniz Bandeira, requereu direito de resposta, com base na Lei de Imprensa, a artigo publicado no blog do filósofo e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Orlando Tambosi, sob o título "Uma fábula hegeliana", do professor Roberto Romano. Tambosi ficou surpreso por Bandeira ter se valido da Lei de Imprensa para exigir réplica, já que seu inteligente blog, dentro do espírito acadêmico e de livre debate intelectual que o rege, o publicaria com prazer, com um simples pedido.
(A coluna de Sartori também pode ser lida em seu site).

sábado, 7 de janeiro de 2006

No, no pasarán !

Transcrevo aqui nota do jornalista florianopolitano Carlos Damião, publicada hoje em seu blog (link ao lado), a propósito da invocação da Lei de Imprensa contra esta página pelo professor Moniz Bandeira, intelectual tido, segundo a revista Primeira Leitura de dezembro, como guru do secretário-geral do Itamarati, Samuel Pinheiro Guimarães - o homem da linha "terceiro-mundista" nas relações exteriores.

"O blog do Orlando Tambosi foi objeto de intimidação por parte de um escritório de advocacia que representa um intelectual brasileiro. Intimidação às claras, com ameaça de enquadramento na Lei de Imprensa, objeto legal (sic) remanescente do regime militar. O motivo para a ameaça foi um debate de idéias. Quem usa a Lei de Imprensa para rebater idéias é porque não tem argumentos suficientemente elucidativos e democráticos. Quem usa a Lei de Imprensa não é intelectual, é candidato a ditador.
Ao abordar este assunto, quero esclarecer que a submissão do sistema de comentários deste blog à leitura prévia do autor se deve unicamente ao ataque sistemático de que fomos vítimas, durante semanas, com ofensas e ameaças por parte de cretinos petistas (nem todos os petistas são cretinos, diga-se a bem da verdade), que não sabem conviver com idéias contrárias ou relativamente arejadas. (*)
É por isso que eu digo e repito: abaixo o stalinismo!
Ou, como diria La Pasionaria (Dolores Gomez Ibárruri), heroína da Guerra Civil Espanhola, quando se referiu aos fascistas: “No pasarán!”.

(*) Ainda assim, de mais de 600 comentários na fase 10 do blog, apenas 11 foram cortados, por conterem termos de baixo calão ou porque seus autores não se identificaram corretamente.

Dor de cabeça

Ano de muita dor de cabeça no Palácio do Planalto: a presidência acaba de abrir licitação para comprar 1.000 aspirinas, além de remédios à base de paracetamol e dipirona.
Ainda não se tem notícia sobre a compra de bebidas.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

Que venha a tréplica !

Agradeço a manifestação de apoio dos amigos deste blog, certamente o primeiro no Brasil a ser atropelado pela "velha, surrada e rabugenta" Lei de Imprensa (como diz o amigo Aluízio). Mais lamentável é que a origem dessa desnecessária pendenga tenha sido um artigo acadêmico, uma crítica de idéias. Repito o que já disse: o livre debate, com o respeito às posições divergentes, é uma marca desta página e será mantida, ainda que desagrade certos poderes. Os dois artigos da discórdia estão aí. O leitor pode pesar os argumentos.
Quando julgar oportuno, o professor Roberto Romano terá direito à tréplica. Como, certamente, o professor Moniz Bandeira invocou a Lei de Imprensa também contra a Primeira Leitura, onde saiu "Uma fábula hegeliana", a réplica e a tréplica devem ser publicadas no próximo número da revista. E aqui também, claro.

Ah, ia esquecendo: recomendo a leitura dos comentários.

DIREITO DE RESPOSTA (Lei de Imprensa)


Noronha Advogados, com filiais em diversos países, representando o professor Luiz Alberto Moniz Bandeira, requer direito de resposta, com base no Art. 30 e segs. da Lei de Imprensa (Lei 5.250, de 09/02/1967), a artigo publicado neste blog, sob o título "Uma fábula hegeliana", de autoria do professor Roberto Romano - e por cortesia do próprio autor, a quem novamente agradeço. O mesmo artigo foi publicado também na edição de dezembro da revista Primeira Leitura.
Este escrevinhador só lamenta que o professor Moniz Bandeira tenha se valido da Lei de Imprensa para exigir réplica. Dentro do espírito acadêmico e de livre debate intelectual que rege este blog (que não é anônimo, não esconde e-mail e jamais precisou cortar ou "deletar" um comentário sequer), nada precisaria exigir: publicá-lo-ia, com prazer, por um simples pedido, como convém a um colega dessa ingrata profissão.

(Na ilustração, de novo, o carrancudo filósofo alemão G.W.F. Hegel, que, para este blogueiro, sempre foi atrator de discórdias).



Resposta a Roberto Romano

Resposta ao artigo “A formiga que marchava contra o império: uma fábula hegeliana”, publicado na Edição 46, de dezembro de 2005, da Revista Primeira Leitura e no “Blog do Tambosi” em 10 de dezembro de 2005.

Roberto Romano, em seu artigo “A formiga que marchava contra o império: uma fábula hegeliana”, publicado em Primeira Leitura, Edição 46, dezembro de 2005, estabeleceu uma vinculação abusiva e capciosa, narrando fatos inverídicos e errôneos, de caráter ultrajante contra a minha pessoa e o meu trabalho, o que traz claras conseqüências jurídicas.
Ao escrever que em Formação do Império Americano faço “denúncias” que, ‘sem exagero, atribuem ao governo norte-americano plena cumplicidade com o ataque de 11/setembro’” e que “essas histórias fantásticas recordam invenções como o Protocolo dos Sábios de Sião”, ele faz uma vinculação capciosa. O que Romano chama de “denúncias” sobre a cumplicidade (o adjetivo “plena” é da sua lavra) são acusações levantadas não por mim, mas por diversos autores norte-americanos, nos EUA, onde têm sido publicadas inúmeras obras sobre o assunto, sobre as quais me baseei e que Romano, na sua ignorância, desconhece. Quem quiser que consulte algumas dessas obras: Eric D. Williams. The Puzzle of 9-11 – An investigation into the events of September 11, 2001, and why the pieces don’t fit together; A Pretext for War : 9/11, Iraq, and the Abuse of America's Intelligence Agencies, de James Bamford; The 9/11 Commission Report: Omissions And Distortions, David Ray Griffin; 9/11 Revealed. The Unanswered Questions, de Rowland Morgan e Ian Henshall; Conspiracies, Conspiracy Theories and the Secrets of September 11, de Mathias Broecker, que vendeu mais de 100.000 exemplares nos Estados Unidos; Worse than Watergate. The Secret Presidency of George W. Bush, de John W. Dean, ex-assessor do presidente Richard Nixon¸ The New Pearl Harbor: Disturbing Questions About the Bush Administration and 9/11, do respeitado teólogo David Ray Griffin; Inside Job: Unmasking the Conspiracies of 9/11, de Jim Marrs; e Cover Up : What the Government Is Still Hiding About the War on Terror, de Peter Lance.

Essas são algumas de mais de uma dezena de obras sobre o assunto, publicadas nos Estados Unidos e na Inglaterra e nas quais os autores sustentam que os atentados de 11 de setembro de 2001 foram facilitados pela administração de George W. Bush para justificar a deflagração da guerra contra o terrorismo, a guerra permanente, e executar The Project for the New American Century. Isso nada tem a ver com o Protocolo dos Sábios do Sião, uma falsificação de caráter anti-semita, feita pela Okhrana, polícia secreta da Rússia tsarista, que culpa os Judeus pelos males do país, acusando uma cabala secreta judaica de conspirar para conquistar o mundo. No caso dos atentados de 11 de setembro, há apenas um informe de que o Mossad e o serviço de inteligência da França teriam advertido à CIA e ao FBI sobre a ameaça, e uma hipótese não confirmada sobre a possibilidade de que o Mossad teria ajudado para provocar uma onda de indignação contra os muçulmanos. Porém, o que há de concreto, comprovado pela National Commission on Terrorists Attacks Upon de United States, foi que, além de várias e outros fatos, inclusive o Projeto Bojinka descoberto em 1994, George W. Bush soube, através do top-secret Presidential Daily Brief memorandum, intitulado “Bin Laden Determined to Strike in U.S”, com a informação do agente Phoenix (Kenneth Williams
[1]), dizendo que

“We have not been able to corroborate some of the more sensational threat reporting, such as that from a ... (redacted portion) ... service in 1998 saying that Bin Ladin wanted to hijack a US aircraft to gain the release of "Blind Shaykh" 'Umar 'Abd al-Rahman and other US-held extremists. Nevertheless, FBI information since that time indicates patterns of suspicious activity in this country consistent with preparations for hijackings or other types of attacks, including recent surveillance of federal buildings in New York .”

A conclusão de que os atentados de 11 de setembro poderiam ser evitados não é somente minha, mas de diversos autores americanos e ingleses. Roberto Romano, portanto, falseia, deliberadamente, o conteúdo da obra. Em outra passagem do seu artigo ele diz que cito Hitler “com indulgência”, num discurso contra “a ilimitada ditadura mundial norte-americana”. Segundo Romano, “encontra-se aí uma perigosa coincidência entre a tese central do livro em pauta e o discurso totalitário: os EUA querem impor uma ditadura sem limites ao mundo”. Romano omite deliberadamente que várias vezes demonstrei como Hitler manipulou o espectro do terrorismo, após o incêndio do Reichstag por um demente acusado de comunista e encorajado pelos próprios os nazistas, e que, ao final da obra eu advirto:

“A ameaça que se descortinava nos Estados Unidos consistia exatamente na implantação de uma ditadura, sustentada pelo complexo industrial-militar, mediante a contínua disseminação do medo, making fears, e a manipulação de permanente estado de guerra, a guerra sem fim contra o espectro do terrorismo, como rationale para crescente restrição das liberdades e dos direitos civis, dentro dos próprios marcos da Constituição, como começou a acontecer com o estabelecimento do USA Patriot Act. Foi assim que Hitler, a manipular, igualmente, o espectro do terrorismo, o incêndio do Reichstag, instituiu o III Reich, a mais cruel tirania, só comparável à de Stalin na Rússia, sem revogar sequer uma linha da Constituição de Weimar” (Formação do Império Americano, p. 795)

Não há nenhuma indulgência ao qualificar o III Reich como “a mais cruel tirania, só comparável à de Stalin na União Soviética”. O que não posso é falsificar a história, dizendo que Hitler queria a guerra com os Estados Unidos. A entrada dos Estados Unidos no conflito da Europa era exatamente o que ele temia, e por isso evitou tanto quanto pôde as provocações, porque sabia que a Alemanha seria derrotada. Mas se precipitou ao perceber a inevitabilidade do conflito. É um fato histórico.

Romano, entretanto, é indulgente com George W. Bush, procurando inocentá-lo, sem mencionar que, em 3 de junho de 1997, um grupo composto por Jeb Bush, governador da Flórida e irmão do presidente, então governador do Texas, Dick Cheney, Francis Fukuyama, o teórico do fim da história, I. Lewis Libby, Paul Wolfowitz, Donald Rumsfeld e mais alguns neocons, vinculados ao American Enterprise Institute, Hudson Institute e outros think tanks, lançou o Project for the New American Century (PNAC). Seu programa consistia em aumentar os gastos com defesa, fortalecer os vínculos democráticos e desafiar os “regimes hostis aos interesses e valores” americanos, promover a “liberdade política” em todo o mundo, e aceitar para os Estados Unidos o papel exclusivo em “preservar e estender uma ordem internacional amigável (friendly) à nossa segurança, nossa prosperidade e nossos princípios”.

Com essa doutrina George W. Bush buscou derrubar um dos fundamentos do moderno Direito Internacional, segundo o qual o emprego da força só seria permitido em defesa própria, para enfrentar ameaças reais, não potenciais, mas não como ação preventiva e antecipada. E, ao “the war on terror will not be won on the defensive”, revelou sua intenção de mover uma guerra permanente, a fim de manter, ampliar e consolidar a hegemonia dos Estados Unidos, sobre todas as regiões, e impor a pax americana, encorajando “free and open societies on every continent”. E, sem qualquer ambigüidade, aduziu: “The requirements of freedom apply fully to Africa and Latin America and the entire Islamic world”. Os Estados Unidos decidiram assim derrogar unilateralmente os princípios da soberania nacional e da não-intervenção nos assuntos internos de outros países, acordados no Tratado de Westphalia, de 1648. E George W. Bush, com o objetivo de racionalizar as guerras, que pretendia desencadear, oficializou a doutrina dos “pre-emptive attacks”, em documento de 33 páginas – The National Security Strategy of the United States of América – divulgado em 17 de setembro de 2002. Não se trata, pois, de impor uma ditadura mundial?

Romano diz que assumo “o mais vulgar anti-americanismo” e omite que me refiro aos Estados Unidos como “uma sociedade extraordinariamente complexa, dinâmica e rica em contradições internas”, com “elevadíssimo desenvolvimento científico e tecnológico, do alto nível de suas universidades” e que “não se pode desconhecer o contributo da revolução na América – a guerra da independência das treze colônias (1776-1783) – à cultura democrática, que terminou por influir sobre a Revolução Francesa de 1789-1793 e que há nos Estados Unidos uma plêiade de brilhantes acadêmicos, intelectuais e jornalistas, que não se cansam de denunciar e criticar as mazelas da sociedade e da política interna e externa dos Estados Unidos. Eles têm escrito e publicado obras das mais lúcidas, criticando a política doméstica e a política exterior dos Estados Unidos, particularmente com respeito ao golpe de Estado no Irã (1953), à invasão da Guatemala (1954), e da Baía dos Porcos (Cuba, 1961), aos golpes militares no Brasil (1964) e no Chile (1973), à guerra no Vietnã etc.” (Formação do Império Americano, p. 25). Quem prefacia o livro é, inclusive, uma politóloga dos Estados Unidos, Jan K. Black, do Monterey Institute of International Studies, da Califórnia.

Basta citar esses aspectos do artigo de Romano, de quem jamais eu havia ouvido falar, para mostrar que, por ignorância e má-fé, conjugadas, ele deturpa e distorce o conteúdo da obra – Formação do Império Americano – apenas para atacá-la, em meio de insólitas insinuações e falsas afirmativas.

St. Leon, 02/01/2006

Prof. Dr. Luiz Alberto Moniz Bandeira

[1] Miller Bill & Eggen, Dan FBI – “Memo Author Did Not Envision Sept. 11”, The Washington Post, 23.05.2002.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2006

O brigatista Negri abençoa o governo LuLLa

O filósofo italiano Antonio Negri, mentor das Brigadas Vermelhas, as Brigate Rosse (que, nos anos 80, assassinaram o premier Aldo Moro, entre outros atos terroristas), escreve hoje na Folha (para assinantes) atacando a imprensa brasileira, louvando a colega filósofa Marilena Chauí - aquela que considera LuLLa o "Esclarecedor do Mundo" - e trombeteando que o Bolsa-Família, o marmitão da presidência para manter no cabresto o eleitorado dos grotões, é "embrião da renda universal".

Refrescando a memória: por sua paticipação no terrorismo, Negri foi condenado em seu país, mas jamais manifestou qualquer arrependimento por seus atos. Escreveu muitos livros, alguns deles exaltando a violência. No opúsculo Il dominio e il sabotaggio (sul metodo marxista della trasformazione sociale), publicado pela Feltrinelli, de Milão (5a. ed., 1980), ele prega a "rejeição do trabalho", rejeição que "não nega apenas um nexo da sociedade do capital, um aspecto da produção ou do processo de reprodução do capital, mas - na sua radicalidade - nega a sociedade do capital inteira."

E o discurso culmina em uma concepção apologética da violência (a "violência auroral"): "Autovalorização da classe operária é sabotagem. Nada revela a tal ponto a enorme positividade histórica da autovalorização operária, nada senão a sabotagem", esta "atividade contínua de franco-atirador, de sabotador, de absenteísta".
Quanto ao método de transformação social - subtítulo do delirante opúsculo -, este consiste simplesmente na "ditadura proletária", entendida como "luta pela extinção do Estado, pela substituição total do modo capitalista de produção, através da autovalorização proletária e seu processo coletivo" !

Pois bem, hoje muito próximo da arenga petista, Toni Negri ataca especialmente a imprensa (esta mesma que tanto espaço lhe dá - aqui no Bananão, não na Itália!). "Com doses renovadas de hipocrisia e cinismo", diz ele no artigo da Folha (assinado também pelo pupilo Giuseppe Cocco), "o governo Lula está sendo linchado por quase toda a grande imprensa."

Em outras palavras, a culpa por tudo o que está acontecendo ao governo LuLLa é da mídia. Tia Marilena já dixit: a mídia criou a crise, que é uma "manifestação da luta de classes". À moda petista, também para o amigo Toni pouco interessam os fatos, as provas das CPIs, o PTduto, a gigantesca rede de corrupção montada. Dane-se a verdade. Afinal, hipócrita e cínica não é a "grande imprensa"?

No mais, marmitão para todos. Com a bênção do filósofo e ex-terrorista, lá vamos nós, Uganda!

O símbolo da etnia petista


A escultura ao lado (Mussolini, de Bertelli) é hoje o símbolo de boa parte da etnia petista, que, cada vez mais ostentando um comportamento fascista, ataca quem ousa criticar o descalabro em que meteram o Bananão. Tanto quanto o "Grande Esclarecedor" (copy da Marilena Chauí), que jamais leu um livro, a etnia tem ojeriza aos intelectuais.

Cito um exemplo (mas há outros). O professor Roberto Romano (link ao lado) fechou os comentários ao seu blog porque tem recebido ataques e ameaças de petistas. Eles não podem tolerar, claro, um dos raros intelectuais críticos e independentes, que, com firme atuação pública, tanto nos jornais quanto na televisão (GloboNews, principalmente), defende intransigentemente a liberdade e a democracia - ao contrário de muitos de seus colegas uspianos, que, quando não se calam por conivência, discursam por bajulação.
Romano não está só.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

Evolução não é progresso

As pessoas tendem a identificar evolução e progresso. Do ponto de vista darwiniano, nada mais absurdo. Essa confusão talvez se deva ao que ficou conhecido como social-darwinismo, uma ideologia que se alastrou no início do século XX e chegou a justificar a eugenia, muito apreciada, aliás, pelos tristemente célebres "pesquisadores" nazistas (mas não só por eles).

Há quem pense que a evolução já cessou, em face da cultura e da tecnologia humanas. São otimistas: gostariam de tornar visível um processo cego, sem meta, sem desígnio. Mas o fato é que a evolução (que não é progresso, frise-se) marca as espécies apesar do progresso da cultura humana. Pior: o progresso humano pode conduzir a evolução de certas espécies a um beco sem saída (e não se descarte a própria espécie humana).

Um exemplo interessante é relatado por Reinaldo José Lopes na Folha de hoje (disponível no Jornal da Ciência): duas espécies diferentes de roedores, no Rio Grande do Sul, podem se transformar numa só. Em termos evolucionários, isto talvez seja catastrófico, com a nova espécie chegando ao tal beco sem saída.
Ao que tudo indica, exatamente por causa da ação humana.

Danos existenciais

Ivan Lessa, aquele que fez a coisa certa (foi embora do Bananão e nunca mais voltou), em deliciosa crônica na BBC, fala de um professor italiano que, prejudicado por sucessivos atrasos do trem que tomava para chegar à escola, processou a autoridade ferroviária do país por "danos existenciais" - argumento de uso cada vez mais freqüente na Itália, e que nada tem a ver com as nauseantes angústias do existencialismo francês.
Se a moda pega por aqui...o país inteiro entra com ação por "danos existenciais". Basta citar os setores de saúde, transporte, educação, segurança etc.
A existência, no Bananão, é uma difícil tarefa diária - e nada abstrata. Não é coisa para Sartre e seguidores.
(LEIA aqui).

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

Jobim? De jeito nenhum.


O senhor à direita já foi chamado de "o homem dos três poderes". Deixa um deles (o STF) em março, provavelmente para se candidatar à presidência. Pode ser pelo PMDB, do qual saiu para ser um dos juízes mais políticos que o STF já teve. Pode até topar uma dobradinha (intragável) com LuLLa. E não se descarte o PSDB, onde muitos gostariam de vê-lo como vice ou encabeçando a própria lista.
Neste último caso, como anota Jânio de Freitas, o cabo eleitoral FHC "sentiria ter um parceiro como candidato e não correria o risco de ver José Serra vitorioso."
Bene, qualquer que seja o partido escolhido pelo ministro Jobim, este escrevinhador tem uma certeza: já sabe em que NÃO votar em hipótese alguma.

P.S.: ah, Jobim é também o homem da "Ordem do Sino" (relembre aqui).

Partidos

"A palavra 'partido' tinha no Brasil a significação que precisei no meu livro Eleição e representação, associação de indivíduos para a conquista e a fruição do poder, só e só. Jamais partido nenhum no Brasil quis dizer agrupamento de homens, sob bandeira ideológica ou programa prático, para servir o interesse geral."
(Gilberto Amado - 1887-1969)
* * *
Pergunta-se: mudou alguma coisa?

segunda-feira, 2 de janeiro de 2006

Bibliotecas preciosas


Esqueci de anunciar antes: há dois links na lista ao lado que remetem a acervos preciosos, com textos integrais, além de arquivos de fotos e multimídia. Um deles, "História do pensamento", conta com escritos sobre o Iluminismo, a Revolução Científica, a Revolução Americana, a Revolução Russa, o nazismo e a II Guerra, além de obras de Darwin, Freud, Einstein etc. O outro, "Dicionário de política", é na verdade um detalhado dicionário de história das idéias. Tudo em inglês, claro, já que os sites são norte-americanos. Para consultas freqüentes. (Agradeço a indicação ao professor Roberto Romano, da Unicamp).

Jornalismo e conhecimento


Já está nas livrarias o volume 2 (II Semestre de 2005) da revista Estudos em jornalismo e mídia (Editora Insular), mantida pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo e Mídia da Universidade Federal de Santa Catarina. O dossier deste número é sobre "Jornalismo e conhecimento". Dois ensaios abordam mais diretamente o tema: "Notícias e conhecimento", do pesquisador holandês Teun van Dijk, e "Informação e conhecimento no jornalismo", deste escrevinhador.

Como picles, segue aqui um trecho da introdução de meu artigo:
"Informação e conhecimento são conceitos distintos, embora geralmente confundidos. O fato é que o conhecimento depende de informação, mas nem toda informação é conhecimento. Por exemplo, se alguém faz um relato em que acredito mas não tenho condições de saber se se trata de informação correta, estou na posse de informação, não de conhecimento. Da mesma forma, se vejo que o relógio marca 10:30 min mas não sei se está funcionando corretamente, posso ter adquirido informação, mas não conhecimento. Uma máquina, igualmente, recebe e transmite informações, mas não tem conhecimento, característica peculiar do ser humano, que não apenas recebe e transmite, mas organiza e dá sentido às informações, construindo argumentos, hipóteses, teorias etc.
(...) Um requisito fundamental para que a informação se transforme em conhecimento é a verdade. É necessário saber se as informações que alguém possui são corretas, isto é, verdadeiras. Animais, bebês e máquinas absorvem e estocam informações, que podem comunicar ou transmitir a outros, mas nenhum deles sabe se a informação que possuem é correta, pois não distinguem verdade e falsidade. Portanto, não têm conhecimento (Lehrer, 1995)."

Más de lo mismo?


Não à mesmice,
o velho "más de lo mismo":
LuLLAlckmin.
Não ao crescimento pífio.
Não ao "programa" da ausência de programa.
Não à pseudociência oficialista,
cantada em prosa e verso
por "analistas", economistas e colunistas:
pensamento de cartilha.
Não à falsa modernidade.
Não à ugandização do Bananão.
Que 2006 nos traga alguma alternativa.
Haverá?