sexta-feira, 31 de março de 2006

Ética, argh!

A esquerda que apóia Lula vai compreender que o argumento "moralista" é só ataque político. Não há interesse ético em jogo.

(Do ex-ministro e intelectual petista Tarso Genro, hoje na Folha).

Comentário: convém lembrar que já Trotsky dizia, no livro "A nossa moral e a deles" (1938), que a moralidade tem conteúdo de classe. Logo, para servir à "Causa", um revolucionário deve se libertar completamente da "moral burguesa". Traduzindo: quem se escandaliza com o que o governo e seu partido fizeram e fazem no Brasil é prisioneiro dessa farsesca "moralidade", que deve ser erradicada em nome de uma ética superior, a do "novo homem" (socialista, claro: uma nova espécie?), como diziam os velhos inspiradores de Tarso.

Ah, outra recordação:Trotsky foi o guru do honradíssimo e ético dr. Palocci nos tempos de militância na Libelu.

quinta-feira, 30 de março de 2006

Brasil: que bicho é este?

O Bananão se assemelha cada vez mais, em todos o sentidos (político, econômico, jurídico, institucional, ético etc.), ao bicho aí de cima. Resultado da evolução, o ornitorrinco, que parece uma miscelânea de outros bichos, deu certo. Mas qual será o desfecho para o monstrengo Brasil, cuja mistura disso e daquilo nada têm a ver com a evolução, mas apenas com a história (e a história, como dizia Bobbio, é um labirinto)?

(A feliz metáfora é do sociólogo Chico de Oliveira. Vai aqui a minha homenagem ao amigo Hélio Schuch e à sua turma de calouros do Curso de Jornalismo da UFSC, às voltas com o exótico Ornitorrinco).

quarta-feira, 29 de março de 2006

Vão amolar o Reinaldo!


O título acima é dirigido à claque que, com pseudônimos exóticos, falsa cordialidade e fugindo ao tema, insiste aqui em criticar (cf. comentários à nota abaixo) a revista Primeira Leitura. Informo aos seus distintos integrantes que o site da revista - excelente, aliás, pois destoa do "pensamento único" (ou ausência de pensamento?) reinante no Bananão - figura na lista de links ao lado, mas, para que não percam mais de seu precioso tempo neste mísero blog, cliquem aqui mesmo.

Adelante, pois. Toquem suas cornetas nos ouvidos do Reinaldo, o diretor da revista.

"Somos um país corrupto"


Insistindo no medonho tema da nota anterior, vale relembrar o que disse no ano passado o escritor João Ubaldo Ribeiro. Sem meias palavras, ele afirma que ricos e pobres são igualmente desonestos aqui no Bananão. Além de desonesto, completa ele, "o brasileiro é tão subserviente que, quando alguém chama Lula de ignorante - o que é uma verdade -, diz-se que o presidente está sendo desrespeitado." Para João Ubaldo, esse devastador desapego moral talvez se deva, em parte, à nossa colonização. Transcrevo parte da entrevista:

"Nós vivemos num ambiente de lassitude moral que se estende a todas as camadas da sociedade. Esse negócio de dizer que as elites são corruptas mas o povo é honesto é conversa fiada. Nós somos um povo de comportamento desonesto de maneira geral, ou pelo menos um comportamento pouco recomendável. Se você me acompanhar à rua, a gente pode até fazer uma experiência. A população da Zona Sul do Rio de Janeiro é formada em grande parte de gente da terceira idade. Quando um idoso atravessa a rua, os motoristas de ônibus costumam acelerar em ponto morto, fazendo um barulhão. Eles querem dar um susto no velho, eles querem matar o velho. Já vi fazerem isso com crianças, que acabam saindo correndo. Eu mesmo, que tenho 64 anos, já tomei um susto assim. Os brasileiros estão convictos de que, se um pedestre atravessar fora da faixa, o motorista tem o direito de atropelá-lo e matá-lo. Outro exemplo. Eu ouço de várias empregadas domésticas que é comuníssimo aqui no Rio de Janeiro que responsáveis pela merenda escolar retirem substancial quantidade de víveres e alimentos das crianças para levar para casa, distribuir entre parentes e até montar quitandas. Isso é um evidente absurdo (...).

"Nós somos de um país cuja colonização se deu em moldes muito diferentes dos da colonização dos Estados Unidos, nação à qual somos freqüentemente comparados. Os colonizadores ingleses, ao vir para a América, estavam dando as costas para a Europa. Eles vieram para nunca mais voltar. Sua intenção, ao chegar ao Novo Mundo, era conceber uma nação ou várias pequenas nações nas treze colônias. No Brasil isso não ocorreu. Não porque os portugueses sejam ordinários pela própria natureza, como freqüentemente se diz. A questão é que Portugal nos pegou num momento em que sua prosperidade dependia do fato de o país ser um grande entreposto da Europa, um grande fornecedor de mercadorias. Fizeram, assim, uma colonização predatória. Portugal enriqueceu à custa do açúcar brasileiro, e Lisboa foi reconstruída pelo marquês de Pombal com dinheiro brasileiro. Convinha manter aqui um controle rígido, diferentemente dos americanos, que de costas para a Europa criaram suas próprias leis. Os portugueses, no entanto, não tinham estrutura para isso. Com essa presença forte do governo necessariamente despoliciado pela metrópole, o domínio dos portugueses ocorreu de uma maneira desordenada, desregulada, importando caoticamente a burocracia lusitana, com a corrupção que essa burocracia gera. Construiu-se toda uma visão de mundo centrada na ação estatal. A origem de muitos dos nossos problemas pode ser essa."

(A entrevista de João Ubaldo, na íntegra).


terça-feira, 28 de março de 2006

Brasileiro é corrupto

Pesquisa do Ibope divulgada agora à noite pelo jornal do SBT (Ana Paula Padão) comprova empiricamente o que todo mundo já intuía: o povo brasileiro é complacente com a corrupção. Eis o lamentável retrato do Bananão. A propósito, outro dia disse aqui (ver nota "Lavagem cerebral") que "um país que é complacente com a corrupção e o crime (inclusive o hediondo) não tem o direito de edulcorar letras infantis a pretexto de que incitam à violência."

A pergunta que fica martelando: qual é o futuro de um povo que aceita a corrupção?

P.S.: Eis aqui uma prova de que a ética foi atirada ao lixo no Brasil. Adivinhem quem dará a aula inaugural do Curso de Especialização em Marketing Político na Universidade Católica de Salvador, no próximo dia 7 de abril. Sim, é ele mesmo, Duda Mendonça - exatamente um sujeito representativo da corrupção na era lulista. Confiram aqui.

Teoria da evolução: princípios e impactos.

O V São Paulo Research Conference, a ser realizado de 18 a 20 de maio na capital paulista, tem como tema a teoria da evolução. Público alvo: estudantes e pesquisadors em filosofia, história, sociologia,antropologia, psicologia, biologia, epidemiologia, medicina, agronomia e veterinária e professores de ensino médio. Reproduzo parte da apresentação do programa:

O Darwinismo e, por extensão a teoria da evolução em seus aspectos mais gerais, constituiu uma ampla revolução intelectual, conseqüência das profundas modificações sociais, políticas e ideológicas que sofreu a sociedade britânica nos meados do século XIX (...).Nesta “São Paulo Research Conference” serão revistos os aspectos históricos, filosóficos e biológicos do Darwinismo e da Teoria da Evolução, suas extensões e variantes, assim como as contribuições que modernas abordagens e técnicas experimentais, tais como, por exemplo, a bio-informática e a biologia molecular, estão trazendo para a compreensão e a eventual re-interpretação dos mecanismos de evolução.

segunda-feira, 27 de março de 2006

A culpa dos governadores


Todo mundo se lembra do ruidoso bando de governadores indo a Brasília, nos primeiros meses do governo Lula, para defender uma garfada nos direitos dos funcionários públicos, eternos bandidos do discurso demagógico. A propósito da nota "Rumo ao Estado policial" (abaixo), o visitante NF tece algumas considerações que merecem reflexão, acusando os governadores de terem aberto o caminho para violências à Constituição. Transcrevo o comentário:

Quando esta infeliz safra de governadores, durante a tramitação da Reforma da Previdência, foi solicitar ao então Ministro da Casa Civil a redução dos vencimentos do funcionalismo dos estados, eles estavam, na verdade, ensejando a quebra do pacto federativo que em nosso país sempre foi mais consuetudinário do que legal.
Paulatinamente construído a partir da proclamação da República, tendo sobrevivido a ditaduras, os estados conseguiram manter sua autonomia mesmo diante de grandes contrastes regionais, até que surgiram estes algozes da democracia pedindo ao governo central a inclusão de normas que violentassem as constituições estaduais, cassando direitos adquiridos, estabelecendo restrições que sequer o saco de maldades do governo federal poderia imaginar, ao propor a absurda Proposta de Emenda à Constituição Federal da Reforma da Previdência.

Foi assim que surgiram - a pedido dos governadores - três subtetos estaduais, criando nos estados a obrigação de inserção, nas suas constituições, de limitações inexistentes na Constituição Federal, atingindo cláusulas pétreas como o direito adquirido e redução de vencimentos.
A Casa Civil, sabedora da gravidade do pedido, exigiu como condição para a execução desta violência constitucional, a concordância de todos os governadores, ameaçada pelas trapalhadas do governador Rigotto, provavelmente assustado com a perspectiva de passar à história como algoz da federação.
Obtida a unanimidade dos governadores, a Casa Civil da Presidência da República alterou a PEC, que já se encontrava no Congresso, para introduzir redação atendendo interesses de governadores, para promover alterações nas constituições estaduais que somente poderiam resultar de constituintes originárias.
E o mandato outorgado pelo povo não conferiu a estes governadores poderes constituintes, nem poderia.
A gravidade deste ato dos governadores, comparável a um AI 5, abriu caminho para outras violências constitucionais.

Chapeuzinho e os lobos

E o divertido bate-boca nos comentários ao texto sobre "Lavagem cerebral", lá embaixo, continua rendendo. O grande perdedor é o tal "politicamente correto". Entre a Chapeuzinho Vermelho, a Vovó e o Lobo, a coisa já está mais para ménage à trois do que para historinha infantil.
Dêem uma espiada.

Sobre a tirania

Em tempos de afronta às leis e desrespeito aos cidadãos, convém lembrar o que alguns disseram sobre tiranias e tiranos. Um deles, ninguém menos que o Marquês de Sade (1740-1814), dizia que

Nunca os tiranos nascem na anarquia;
só os vemos surgir

à sombra das leis ou autorizar-se por elas.

Outro, hoje tão invocado na América do Sul - mas não por estas razões -, é o grande Simón Bolívar (1783-1830), que escreveu a seguinte advertência:

Nada é tão perigoso como deixar um cidadão permanecer
no poder por muito tempo. O povo acostuma-se
a obedecer-lhe e ele se acostuma a mandar no povo,
donde se originam usurpação e tirania.

domingo, 26 de março de 2006

Rumo ao Estado policial


No blog do Noblat (link ao lado): "À merda qualquer escrúpulo".

"Nem por isso o caseiro foi deixado em paz.
Sem saber e à sua revelia, inaugurara o Programa de Intimidação de Testemunhas, versão cruel do que serve para proteger.
Há uma intenção explícita, escancarada, e outra oculta no torniquete que o governo aplica em Francenildo.
A explícita busca apenas desmoralizá-lo.
A oculta se vale dele para barrar o surgimento de testemunhas que possam em qualquer tempo embaraçar o governo.
Francenildo foi escolhido para servir de exemplo do tratamento reservado pelo governo a quem ameace sua estabilidade e seu futuro.
À merda todos os escrúpulos quando o que está em jogo é a permanência no poder a qualquer preço."

MEU COMENTÁRIO: Por enquanto, é só o esboço. Estado policial é o que veremos se Lula for reeleito. Com direito a paredón e tudo, como ameaçou há pouco tempo o embaixador brasileiro em Cuba, Tilden Santiago, a quem tentasse "desestabilizar o Lula."

Urna neles!

(Ilustração: Szukalski, mais uma vez)

20 mil acessos

Este blog completa hoje exatamente 6 meses. Graças aos visitantes e amigos - que o enriquecem quotidianamente com seus comentários, críticas e sugestões -, acaba de atingir a marca de 20 mil acessos. Nesse tempo, a página delineou seu perfil, aliando filosofia, política e jornalismo, na esperança de contribuir para a discussão de idéias, sem preconceitos. Espero que possamos continuar juntos ainda por muito tempo. A todos, meus agradecimentos e um grande abraço. Tim, tim.
(Ilustração: AllPosters.com)

Vale a pena visitar


A Universidade da Califórnia (Berkeley) mantém um site com todas as informações sobre a teoria evolucionista, dirigido principalmente a professores e alunos de ciências. Em linguagem didática, a página explica o que é ciência, como funcionam os mecanismos da evolução e quais seus impactos na vida quotidiana. Além disso, apresenta um amplo glossário e um elenco de links para outros sites que tratam do tema. A lamentar, apenas, que um site dessa importância não disponibilize os textos também em outras línguas.

sábado, 25 de março de 2006

A execrável

O horror da semana ficou por conta da Buldogue do Dirceu, deputada Ângela Guadagnin, comemorando a vitória dos mensaleiros. Deboche, escárnio, desrespeito. Que ninguém esqueça esta figura execrável.
(Charge: do blog Pérolas).

sexta-feira, 24 de março de 2006

Lavagem cerebral


A onda politicamente correta tem algo de fascistóide, principalmente quando invade o mundo da infância, policiando até o folclore. Aí a coisa fede a lavagem cerebral. É o que acontece com a alteração das letras das velhas cantigas de roda, em que o velho Boi da Cara Preta vira Boi do Piauí e a briga do Cravo com a Rosa termina em final feliz, com direito a remedinho e tudo. Além do mais, já não se pode "atirar o pau no gato", cuja letrinha ficou assim: “Não atire o pau no gato/porque isso/ não se faz/O gatinho é nosso amigo/não devemos maltratar/os animais.”

Ora, essas cantigas expressam tradições antigas, são o espelho de uma época. É um absurdo que as escolas brasileiras, com incentivo oficial, tentem “depurá-las”. Como resumiu o amigo Roberto Romano, na revista Veja desta semana, "o fato de uma meia dúzia de intelectuais estipular o que é certo ou errado no caso das cantigas de roda contém dois problemas: é autoritário e leva a uma visão caolha do ser humano".

Um país que é complacente com a corrupção e o crime (inclusive o hediondo) não tem o direito de edulcorar letras infantis a pretexto de que incitam à violência. Politicamente correto, de fato, seria botar a bandidagem na cadeia e descer o sarrafo no Delúbio, no Luizinho e tutti quanti.

Portanto, aqui em casa continuaremos atirando o pau no gato e o Cravo vai, sim, desmaiar, com a Rosa chorando sem remédio. E a Chapeuzinho Vermelho que se cuide, pois o Lobo continua sendo mau.

quinta-feira, 23 de março de 2006

Serra não é carta fora do baralho

Serra ainda não é carta fora do baralho na corrida presidencial. Se, aceitando as pressões do PSDB e do PFL, renunciar à prefeitura de São Paulo para concorrer ao governo do Estado, estará livre para uma possível substituição do candidato Alckmin, caso a campanha deste não decole.
Este é o raciocínio desenvolvido por Jânio de Freitas em sua coluna de hoje na Folha. "Se, nesse quadro de incertezas", escreve ele, "o desempenho de Alckmin se mostrar insuficiente, o PSDB só teria uma alternativa: José Serra. Desde que Serra esteja disponível, por renúncia à prefeitura a título de disputar o governo de São Paulo. Nenhum problema em passar de uma a outra candidatura."
Bene, os banqueiros farão de tudo para que o Picolé não derreta e se mantenha a dupla que lhes dá sossego: LulAlckmin.

Stop criacionismo


Séculos se passaram até que a Igreja católica reconhecesse que Galilei tinha razão: a Terra, de fato, gira em torno do Sol. Séculos também se passaram para que a mesma igreja reconhecesse, igualmente através de João Paulo II, que a teoria da evolução darwiniana é um fato (embora o Papa dissesse que a "alma" é de Deus). O catolicismo, portanto, não defende a doutrina criacionista tal como cultivada nos Estados Unidos, que interpreta a Bíblia em sentido literal.

Agora é o Arcebispo de Canterbury (Igreja anglicana), Robin Williams, que dá um passo adiante, criticando a pretensão do criacionismo de ensinar sua doutrina nas escolas como se fosse uma teoria entre outras (isto é, colocando no mesmo patamar o discurso religioso e as teorias científicas). Sua entrevista pode ser lida no The Guardian.

Mais um reconhecimento para o tão maltratado Darwin.

(Agradeço o alerta ao sempre atento Multifário).

quarta-feira, 22 de março de 2006

Ética e sabão

Elio Gaspari, na Folha de hoje: Uma coisa é lutar contra a corrupção, bem outra é manipular essa luta. Essa foi a principal bandalheira petista. O surto moralista dos tucanos é falso como os depoimentos dos comissários petistas nas CPIs. Suas denúncias devem ser estimuladas, pois é preferível um PSDB denunciando Palocci a seus senadores defendendo-o. O que não se deve é acreditar na animação desse baile de solteironas. Muito menos em "banho de ética". A um banho desses, é preferível lamber sabão.

Tenho um bom estoque de sabão aqui em casa.

Ideliiiiiiiiii

Esta é para guardar. A ex-professora-sindicalista Ideli Salvatti, a quem a maioria dos catarinenses deu um régio emprego no Senado por oito anos, disse na TV, a propósito da quebra de sigilo da conta do caseiro Francenildo na CEF, que "qualquer pessoa pode perder um extrato bancário e ele se tornar público". Só mesmo a líder do PT e Buldogue do Lulismo poderia dizer semelhante absurdo. Ela acha que todo mundo é idiota.

Esqueça o guarda-chuva


Será que a meteorologia brasileira é de fato uma ciência? Considere-se que, entre os objetivos de uma ciência,está a busca de regularidades na natureza (ou na sociedade), que permitam prever certos fenômenos. Pois bem, há muito tempo que as previsões de tempo - geralmente anunciadas por belas mulheres na televisão - não se confirmam no sul do Bananão. Em Florianópolis, pelo menos, quem acreditar no que diz o quadradinho ao lado (sobre a previsão do tempo), dá com os burros no deserto.
O que está acontecendo? Faltam equipamentos de medição? Os satélites não funcionam? Ou será que os metereologistas se afogam nas muitas variáveis?

Homo Sapiens


Nossa espécie se considera racional e dona do Planeta, além de criada "à imagem e semelhança de Deus". Arrogante, acha que conhece a "meta" da História, dominando-lhe os fios, e que seu conhecimento a "salvará" do "destino" das outras espécies.

Pretende-se eterna. É nisto que dá.

terça-feira, 21 de março de 2006

Misturas


Depois do Blogger, que quase botou a perder esta página (e devastou a da Santa), agora é o meu velho computador caseiro que entra em pane. Lamentando não poder fazer as visitas de todas as noites, deixo os caros amigos passearem hoje pela página de um estudante de ciências cuja ambição (exagerada, certamente) é "saber de tudo, de todas as maneiras". A sede é tanta que ele intitulou seu blog de Sono consciente.

No último post, ele fala do fascínio que lhe provocou o tema de uma aula:
Hoje fiquei extremamente comovido quando aprendi na faculdade algo sobre a natureza do nosso DNA (e se calhar não se percebe como fiquei tão emocionado, mas acreditem que naquele momento fiquei mesmo) que, apesar de tudo, depois de o assimilar, não me admirou nada. Na verdade também nós somos uma mistura incrível... Desde os primórdios da vida que virus infectam células. Ao fazerem-no misturam o seu DNA com DNA da célula hospedeira, incorporando-o nas suas cadeias. Estas sequências adicionais às vezes passam para a geração seguinte. Quando há pouco tempo se sequenciou o DNA humano descobriram-se vários fragmentos de DNA viral que passaram a acompanhar-nos. Em cada célula do nosso corpo há sequências de virus mais ou menos ancestrais que acabam por ser nós também! Esta inexistência de barreiras entre seres que partilham a mesma molécula da vida é mesmo uma coisa fascinante. No fundo, todos os seres deste planeta falam a mesma língua. A este exemplo poderia juntar a quase certeza de que possuimos células (ex)bacterianas, com as suas funções específicas de produção de energia, etc (mitocôndrias) com o seu próprio DNA (muito semelhante ao bacteriano), dentro das nossas próprias células. Acaba por ser esta mistura, esta aleatoridade, este caos, este "who cares?", que me faz escrever posts como alguns aqui em baixo. Não somos apenas máquinas de decisões frias e racionais; somos fruto de misturas, de turbulências que terminam em direcções imprevisíveis. Somos incategorizáveis. Somos pequenas misturas com pedacinhos do resto. E por isso tudo é tão complexo e belo.

Até amanhã.

segunda-feira, 20 de março de 2006

Cineastas & croniqueiros

Segunda-feira é um bom dia para exercícios iconoclásticos. Vamos, lá, então. Sempre que, andando por aí, tropeço em alguma coisa, penso logo que é um “croniqueiro” ou um “cineasta”, pragas que assolam jornais, revistas e TVs nacionais. Aliás, cultura, aqui no Bananão, ficou praticamente reduzida a fofocas sobre cinema, artistas & cineastas. Estes tomam verbas públicas e incentivos privados com uma voracidade que não corresponde à qualidade dos produtos apresentados.

Literatura, claro, tem cadeira cativa no palco cultural, mesmo que boa parte das obras não mereça o nome de literária. Por isso mesmo os croniqueiros se consideram também literatos, hoje infestando até os blogs. Quanto às ciências e à filosofia, coitadinhas, sequer são incluídas na rubrica “cultura”, já que pouco ou nenhum espaço abrem ao impressionismo, ao subjetivismo, ao solipsismo, aos relativismos em geral – ismos abundantes no cinema e nas “crônicas”, com suas eternas variações sobre o quotidiano.Para cineastas e croniqueiros, a realidade é apenas uma questão de ponto de vista.

Por isso, fique alerta ao caminhar. Você pode tropeçar na cabeça de algum cineasta ou croniqueiro pensando que é uma simples touça de capim.

P.S.: é claro que existem bons cineastas e bons cronistas.

domingo, 19 de março de 2006

Conhecer é perigoso?


É quase um lugar-comum a idéia de que o conhecimento científico é perigoso. Perigosa, porém, é essa idéia, que não distingue o ato de conhecer da aplicação do conhecimento. É a arma de que se valem os que, a pretexto de condenar certas tecnologias e seu uso, condenam as próprias ciências e a própria pesquisa. Abre-se assim a porta para a anticiência, que conta com adeptos inclusive dentro das universidades. Ora, conhecer é um bem em si mesmo, ao passo que a aplicação do conhecimento pode, sim, ser maléfica. Trato desses pontos no artigo "É o conhecimento perigoso?", publicado inicialmente na revista Crítica, de Lisboa, e disponível agora no blog 2, Artigos & Resenhas. Cito aqui um trecho:

Através da ciência, a modernidade rompeu a "aliança animística" entre homem e Natureza, calcada exatamente na identificação de fato e valor — fundamento da visão antropocêntrica do mundo. A cosmologia medieval (aristotélico-cristã) realizava a coincidência plena disso que, para nós, é dividido: conhecimento da realidade e compreensão do "sentido" da nossa vida — sua destinação ou valor — eram uma só coisa. Por mais de dois mil anos, a metafísica (o nome remete, como se sabe, ao conhecimento do transcendente ou do supra-sensível) sustentou a separação entre mundo terrestre e mundo celeste: embaixo, o reino do efêmero, do nascer e do perecer; no alto, com suas esferas perfeitas, o reino do divino, do incorruptível, do eterno, do verdadeiro Ser. Os níveis de realidade exprimem ao mesmo tempo uma hierarquia de valores. A Terra, no centro, é o palco em que se desenrola o drama humano, em vista do qual o próprio cosmo foi criado.

A modernidade rompe essa imagem. A revolução astronômica explode esse cosmo finito e fechado, revelando um universo de proporções ilimitadas. A Terra já não é mais o centro de nada. "É um ponto infinitesimal, uma minúscula ilha perdida num oceano sem praias, onde se contam bilhões de galáxias, cada uma delas com centenas de bilhões de sóis. Explicar essa realidade em função do homem, ou dela extrair um significado para a nossa existência, é simplesmente impossível" (Colletti: 1989, p. III-IV, e 1996, p.15).


(Ilustração: Francis Picabia, Olga´s Gallery).

sábado, 18 de março de 2006

Elogio da mentira

Nestes tempos sombrios em que a mentira virou patrimônio nacional, vale recordar a máxima do velho e bom Aristóteles (384-322 a.C):

Dizer do que é que não é, e do que não que é, é falso; dizer do que é que é, e do que não é que não é, é verdadeiro.

O lulismo-petismo fez da primeira parte da máxima o seu princípio fundamental. Sua prática mostra que o que é, não é, e o que não é, é.

sexta-feira, 17 de março de 2006

Cadê as propostas?


O blog esteve fora do ar desde a noite de ontem, devido a problemas técnicos da Blogger, retornando à normalidade a partir de agora (a ver...).
E retorna surrupiando a charge do Angeli, na Folha de hoje, já que está de acordo com o espírito das duas notas anteriores. Confiram.

quinta-feira, 16 de março de 2006

De quem será que eles riem?

Eles riem de você, eleitor.
O médico de Pindamonhangaba já disse que não fará
uma campanha anti-Lula.
Portanto, será uma campanha de compadres.
E tome-se "más de lo mismo".

Ecce homo

Na Folha de hoje: "o primeiro dia de Geraldo Alckmin como candidato do PSDB à Presidência começou com a defesa da família, da religião e da tradição."
Eis o homem.
Propostas de governo? O máximo que se pode esperar (tanto de Alckmin quanto de Lula), diz Clóvis Rossi no mesmo jornal, é um morno "más de lo mismo".
É o que já dissemos aqui.

O resto é esperança. E esperança é um sentimento religioso, lembrava o saudoso Bobbio.

A Via Campesina (...para a caverna).


Você sabe o que é a Via Campesina, a organização internacional que anda promovendo invasões e destruição no Brasil junto com o afiliado MST? Sabe de onde vem o dinheiro que financia suas ações ilegais e violentas?
Pois saiba tudo sobre essa "congregação multinacional de esquerda" no blog Jus Sperniandi. E surpreenda-se: dinheiro do seu bolso também está na jogada. As informações ali reveladas têm pouco espaço na imprensa nacional.
Obs.: à maneira das rapinagens promovidas por esses "revolucionários", surrupiei de lá a ilustração.

quarta-feira, 15 de março de 2006

O Brasil é um espanto

Esta é a expressão do nosso primo, em visita ao Bananão, toda vez que acaba de ler o noticiário dos jornais.

O que o deixa tão espantado?






(Foto: blog da Nat)

Malditos sejam os que se calam

Do professor Roberto Romano, em seu blog, comentando o exílio da família de Celso Daniel:

Quem tiver entranhas e prudência deve saber: depois da família de Celso Daniel, será iniciada a marcha dos opositores rumo ao aeroporto ou à morte antecedida de tortura. Afinal, Tilden Santiago, o embaixador brasileiro em Cuba, nos avisou: o paredón é o destino de todos os que ousarem “desestabilizar o Lula”. Quem avisa, inimigo é. Notem a coincidência: enquanto parlamentares que desobedeceram a lei são “inocentados” pelo plenário da Câmara dos Deputados, mostrando, assim, que o Brasil não tem lei, mas tem dono (os arrogantes que chegam aos cargos públicos), ninguém garante a segurança de inocentes. E de inocentes próximos a uma pessoa que, ao perceber a extensão da delinquência política, preparava um dossier com nomes e endereços. O exílio dos Daniel é mais uma vergonha que carregaremos na face até as eleições de outubro. Lembre-se, cidadão: se o Estado brasileiro (em especial o governo) não garante a vida e a segurança da família de Celso Daniel, ele não garante a sua. Com o voto, jogue para bem longe do poder os que não têm a grandeza de investigar e punir a morte de seus partidários e proteger sua familia. Malditos sejam todos os que se calam, por medo ou conivência, diante deste exílio que inaugura nova estação de desgraças num país sem paz.

E dá-lhe pizza!


O Picolé de Pamonha comemora a candidatura com o prato mais tristemente simbólico do Bananão.

(Foto de Diogo Pinheiro/Uol News)

terça-feira, 14 de março de 2006

Sim, é mais do mesmo.



Por isso repito (sorry), junto com a charge do nosso Frank, o símbolo utilizado na nota abaixo. Se alguém quiser relacioná-lo com o dito popular "é tudo farinha do mesmo saco", não sofrerá contestação de minha parte. Mais quatro anos de Lula? Ou quatro do Picolé de Pamonha? Dê o que der, o inferno ganha - até com a ajuda da Opus Dei.

E o Paquiderme ibérico-católico continuará a passos de cágado, como faz há décadas. Pífio no crescimento, na cultura e na ética. Entoando hinos à mediocridade geral.

Saída? O primeiro aeroporto.

Más de lo mismo?

Enfim o tucanato decide hoje sair do muro. Os caciques devem escolher Serra ou Alckmin. Serra disse que aceita ser candidato, mas sem prévias, enquanto Alckmin não arreda pé da candidatura. O primeiro é indicado pelas pesquisas como o único a ter força para derrotar a continuidade do desastroso lulismo. O segundo patina, mas é empurrado por grandes interesses extrapartidários.

Resumindo: se der o médico de Pindamonhangaba, vulgo Picolé de Chuchu (que para este escriba tem mais é cara de pamonha de Piracicaba), festejarão antecipadamente os grandes banqueiros e industriais. A dupla Alckmin/Lula é a mais segura garantia de que, dê o que der, tudo continuará como está. Nenhuma ousadia, nenhuma criatividade.

Serra é uma possível alternativa na medida em que o
statu quo beneficiário dos últimos 11 anos de crescimento pífio o considera demasiado "independente", e, pior ainda, ser portador de uma certa claudicância "desenvolvimentista". O fato é que nem de longe ele evoca - e as pesquisas, desde o início, demonstram isto - a péssima lembrança de FHC.

A decisão está com os caciques. Eles dirão hoje se a ilustração acima é um símbolo: a certeza de más de lo mismo.

domingo, 12 de março de 2006

Herdeiros de Marcuse?


Em tempos de devastação de laboratórios de pesquisa científica, como o encabeçado pela organização internacional Via Campesina, à qual pertence o MST (cf. nota abaixo, "Rumo ao obscurantismo"), convém lembrar um certo filósofo de linhagem frankfurtiana que, nos anos 60/70, inflamava os campi universitários franceses e norte-americanos exatamente contra a ciência e a técnica que denominava “burguesas”.

O nome dele é Herbert Marcuse (1898-1979). Fugiu para os EUA na ascensão do nazismo na Alemanha, assim como outros membros da chamada Escola de Frankfurt (entre eles Adorno e Horkheimer, que escreveram um texto contra a “Indústria Cultural” muito apreciado em certas áreas). Sua obra mais famosa, O homem unidimensional, foi aqui traduzida como A ideologia da sociedade industrial e arruinou algumas cabeças.

Pois bem, Mr. Marcuse, inimigo do capitalismo e hegeliano furioso na juventude, já na época condenava também o socialismo (URSS) precisamente por submeter-se ao “aparato tecnológico”, à “racionalidade científica e tecnológica.” Com isso, ensinava ele, havia “continuidade na revolução”. Cito um trecho:

No capitalismo avançado, a racionalidade técnica está personificada, a despeito de seu uso irracional, no aparato produtor. Isso não se aplica apenas às fábricas mecanizadas, ferramentas e exploração de recursos, mas também à maneira de trabalhar como adaptação ao processo mecânico e manuseio do mesmo, conforme programado pela ‘gerência científica’. Nem a nacionalização nem a socialização alteram por si essa personalização física da racionalidade tecnológica; pelo contrário, esta permanece uma condição prévia para o desenvolvimento socialista de todas as forças produtivas.”

Em poucas palavras, Marcuse queria uma ciência e uma técnica diferentes. Os soviéticos erraram justamente por não destruir o “aparato tecnológico” e não iniciar uma “nova ciência”, uma “nova técnica”, com a “Grande Recusa” do mundo existente, expressão do “domínio burguês”. Pistas? Ele nunca forneceu.

É de se supor que, ao destruírem centros de pesquisa científica, os neoluditas retardatários da Via Campesina e do MST estejam abrindo caminho, aqui no Bananão, para esse mundo novo sonhado pelo velho Marcuse. Afinal, ele considerava o Lumpemproletariado - isto é, “o substrato dos párias e estranhos, dos explorados e perseguidos de outras raças e de outras cores, os desempregados e os não-empregáveis” – o legítimo portador da Grande Recusa. A oposição nele encarnada “é revolucionária, ainda que sua consciência não o seja”, pois ela “atinge o sistema de fora para dentro, não sendo, portanto, desviada pelo sistema”.

Os explorados, profetizava o filósofo, violam as regras do jogo e, ao fazê-lo, “revelam as regras de um jogo trapaceado.” A força deles “está por trás de toda manifestação política para as vítimas da lei e da ordem. O fato de eles começarem a recusar a jogar o jogo pode ser o fato que marca o começo do fim de um período.”

Portanto, se ele estiver certo, salve-se quem puder. O mundo novo é a volta ao obscurantismo.


OBS.: analiso a Escola de Frankfurt e o chamado “marxismo ocidental” na terceira parte de meu livro O declínio do marxismo e a herança hegeliana, Florianópolis, Ed. UFSC, 1999.

(A foto de Marcuse, que obteve cidadania norte-americana em 1940, está disponível no site oficial Herbert Marcuse Official Homepage).

sábado, 11 de março de 2006

Darwin


A força heurística da obra deste homem é descomunal. Ela originou a única explicação científica para a diversidade da vida. Talvez por isso mesmo é que ele tenha tantos inimigos e seja tão combatido. Convido-os a conhecer um pouco dessa história no blog 2.

sexta-feira, 10 de março de 2006

O grito

A tela ao lado (O GRITO, 1893), do artista norueguês Edvard Munch (1893-1944), é certamente a sua obra mais conhecida por aqui. Talvez por expressar, simbolicamente, o sentimento do brasileiro nos últimos 25 anos de crescimento pífio, mediocridade cultural e horror moral.

Disse ele na juventude:
"queremos mais do que uma mera fotografia da natureza. Não queremos pintar quadros bonitos para serem pendurados nas paredes das salas de visitas. Queremos criar uma arte que dê algo à humanidade, ou ao menos assentar suas fundações. Uma arte que atraia a atençâo e absorva. Uma arte criada no âmago do coraçâo."

E, sobre a experiência que originou O Grito: "passeava pela estrada com dois amigos, olhando o por-do-sol, quando o céu de repente se tornou vermelho como sangue. Parei, recostei-me na cerca, extremamente cansado - sobre o fiorde preto azulado e a cidade estendiam-se sangue e línguas de fogo. Meus amigos foram andando e eu fiquei, tremendo de medo - podia sentir um grito infinito atravessando a paisagem."

Leia a biografia e veja outras obras do pintor apresentadas na XXIII Bienal Internacional de São Paulo.

(Com minha homenagem a Santa, que tão bem sabe tratar as artes e os artistas).

quinta-feira, 9 de março de 2006

VERGONHA E LUTO

O que se passou neste prédio, na tarde e na noite de ontem, deixa qualquer cidadão envergonhado de ser brasileiro. A mensagem é clara. Agora vale tudo. Seja corrupto, minta, aceite suborno, não siga nenhum princípio, cuide apenas de seu interesse pessoal e corporativo. Cuspa na ética. Mire-se no exemplo dos ocupantes dessa casa e... sinta-se em casa.

quarta-feira, 8 de março de 2006

Rumo ao obscurantismo


Enquanto o decorativo* presidente Lula brinca de reizinho na Inglaterra, movimentos ligados a seu partido tentam botar fogo no país. É o caso do MST, que, além de invadir fazendas produtivas em diversos Estados (ver "2006 vermelho"), agora ataca centros de pesquisa científica e universidades.

O Jornal Hoje, da Globo, apresentou entrevista à tarde com uma pesquisadora que, aos prantos, mostrou a destruição do laboratório onde há décadas desenvolvia suas pesquisas, no horto florestal da Aracruz Celulose, em Barra do Ribeiro (próximo à capital gaúcha). A horda de manifestantes, desta vez com auxílio da organização internacional Via Campesina, invadiu o horto de madrugada, destruindo, além do laboratório, a reserva florestal de pinus e a estufa. Acabou com o trabalho de uma vida inteira.

Logo depois, rumou para Porto Alegre, onde fez uma caminhada pelas ruas protestando contra as empresas de agronegócio e invadiu a Pontifícia Universidade Católica do RS (PUC-RS), local em que está sendo realizada a conferência das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FA) sobre reforma agrária (ver também nota abaixo, "Fogo na bandeira!").

O "comandante" do MST, João Pedro Stédile, cujo sonho obscurantista é fazer o Bananão regredir à Idade Média, disse que a ordem agora é infernizar as "multinacionais". Imagina-se o que vem por aí, com a leniência das autoridades. Em qualquer país civilizado, o "comandante" já estaria enfrentando os tribunais. Aqui, depois de incitação pública a invasões e destruições, retorna calmamente à sua residência "burguesa" no nobre bairro paulistano de Perdizes, que ninguém é de ferro. Os outros que fiquem nos barracos de lona preta.

Quanto à utopia regressiva de Stédile, não se podia esperar outra coisa. Seu cérebro foi macerado nos heréticos óleos da falecida Teoria da Libertação, com pitadas de marxismo de manual, guevarismo e maoísmo. Sem esquecer, é claro, dos temperos latinos do comandante Fidel. Com tal mistura, não há mente que não se perca.

(Nota: presidente decorativo por quê? Porque mais viaja do que governa. Excluída esta visita à Inglaterra, já viajou 62 vezes pelo mundo - mais de duas viagens por mês, portanto, semana sim, semana não -, sem contar 177 viagens pelo Brasil. Leia o comentário de Joelmir Betting).


(Foto de Stédile: U. Dettmar/Agência Brasil)

A agonia das classes médias

Comentei aqui várias vezes (ver 1 e 2 ) o processo de extermínio das classes médias brasileiras devido ao "crescimento pífio" da economia, eternamente em vôo de galinha. De 1980 a 2000, segundo estudo coordenado por Márcio Pochmann (Unicamp) - um petista que ainda enxerga -, cerca de 7 milhões de pessoas perderam o emprego nesse setor. Embora a matéria de O Globo não fale nisto, o longo reinado FHC/Lula só agravou o problema.
Etiópia, abra alas para o Bananão!

Classe média empobrece, muda padrão de gastos e se distancia do sonho de ascensão social


Aguinaldo Novo - O Globo

SÃO PAULO - Nascida principalmente do processo de industrialização do país até a década de 70, a classe média brasileira sofreu drástico empobrecimento e perda de seu antigo padrão de vida nos últimos anos, por conta do pífio crescimento da economia e do ajuste do mercado de trabalho. Entre 1980 e 2000, cerca de 7 milhões de pessoas perderam seus empregos e, sem alternativa para regressar ao mercado formal de trabalho ou abrir um negócio próprio, deixaram de compor a classe média no país.
A estimativa é do economista Marcio Pochmann, da Unicamp, que escreveu o livro "Classe Média - Desenvolvimento e Crise". O trabalho, que demorou 16 meses para ficar pronto, contou ainda com a participação de outros três economistas: Alexandre Guerra, Ricardo Amorim e Ronnie Silva. Pelos dados publicados no livro, em 1980 a classe média chamada não-proprietária ou assalariada respondia por 31,7% da população economicamente ativa ocupada nas grandes cidades. Vinte anos depois, essa participação caiu para 27,1%.
A diferença entre os dois pontos (1980 e 2000) corresponde, em números absolutos, à demissão de 10,1 milhões de trabalhadores. Destes, 7 milhões caíram no estrato social do país, enquanto o restante passou a trabalhar por conta própria ou abriu uma empresa _ e, neste caso, ou se mantiveram na classe média ou até tiveram ascensão social.
- O ajuste do mercado de trabalho se deu, principalmente, nos cargos historicamente ocupados pela classe média, como gerentes de empresas, professores, administradores e cargos da burocracia pública e privada - disse Pochmann.
Essa mudança provocou dois efeitos importantes. O primeiro deles é que aumentou a desigualdade dentro da própria classe média. A participação da chamada classe média-baixa (professores, lojistas, vendedores, entre outros) passou de 44,5% do total do estrato, em 1980, para 54,1% em 2000. A da classe média-média (ocupações técnico-científicas, postos-chaves da burocracia pública e privada) caiu de 32,2% para 23,1%, enquanto a da classe média-alta (executivos, gerentes, administradores) apresentou certa estabilidade (de 23,2% para 22,8%).
Além disso, as novas gerações enfrentam sérias dificuldades para alcançar ou manter os padrões semelhantes de emprego e renda dos pais, o que coloca em xeque seu antigo status social baseado no consumo diferenciado. Assim, as despesas com itens como habitação e transporte tiveram um salto entre 1987 e 2003, período em que os gastos com recreação e cultura e aumento do ativo (através de aplicações financeiras ou aquisições de bens como imóveis e veículos) perderam espaço no orçamento familiar. Em 1987, habitação respondia por 17,6% do consumo da classe média. Em 2003, subiu para 29,5%. Transportes foi de 8,7% para 16,9%.
- O consumo, pedra angular de diferenciação da classe média, passa a sofrer reveses que parecem levar a uma popularização do seu padrão de gastos - escrevem os economistas no livro.
Com base em dados do censo do IBGE, os pesquisadores afirmam que o Brasil tem pouco mais de 15,4 milhões de famílias de classe média, o equivalente a 57,8 milhões de pessoas. A valores de novembro de 2005, a renda familiar per capita desse segmento social oscila entre R$ 263 (1,7 salário mínimo per capita) a R$ 2.928 (19,4 salários-mínimos). Há uma concentração nos grandes centros urbanos, reflexo da concentração da industrialização do país. Das famílias de classe média, 57,2% estão na região Sudeste e 18,3%, na região Sul.
A cidade de São Paulo lidera o ranking, com 1.728.955 de famílias de classe média, o correspondente a 11,2% do total no país e a 33,2% do total no Estado. Em segundo lugar, o município do Rio tem 971.187 famílias de classe média. Isso equivale a 6,3% do total no país e a 53,1% no Estado. O brasileiro de classe média se destaca ainda pela maior escolaridade. Desse estrato, 2,7% nunca freqüentaram uma escola, contra 12,3% do total da população do país e 18,5% deles têm curso superior ou pós-graduação concluída, acima dos 9,5% da média geral do país.

terça-feira, 7 de março de 2006

Fogo na bandeira!

(Foto: Jefferson Bernardes/Folha Imagem)

Voltam a ocorrer manifestações antiamericanas no Brasil. Desta vez, em Porto Alegre, ex-território libre petista, onde cerca de 2 mil manifestantes protestaram ontem contra os EUA, durante a abertura da conferência internacional da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação) sobre reforma agrária. Como de hábito, foi queimada a bandeira norte-americana.

Os brasileiros têm razão, de fato, em acusar os EUA por seus problemas. Afinal, foram os norte-americanos que descobriram o Bananão e introduziram aqui sua cultura ibérico-católica, anti-reformista e anti-capitalista. Foram eles que implantaram a escravidão, se apropriaram das nossas reservas minerais, predaram a natureza. E é deles também que herdamos a complacência com a corrupção, com o crime e com a impunidade, além do famoso "jeitinho" que infesta as relações sociais.

Não bastasse esse tenebroso passado, são hoje os maiores importadores das nossas riquezas, fartando-se de produtos que deveriam ser distribuídos à população.

Oh, maldito imperialismo!


(Rever também "Antiamericanismo", artigo que publiquei no Diário Catarinense - rolar a página).

segunda-feira, 6 de março de 2006

Chavismo na UFSC


O comandante Chávez, da Venezuela, bancou a vitória no carnaval carioca e a imprensa fingiu alguma surpresa, ignorando que a influência de seu petrolífero “bolivarianismo” já está presente no país há bastante tempo. Não em festividades folclóricas, mas dentro de uma universidade pública.

Na Universidade Federal de Santa Catarina, por exemplo, foi criada em 2004 uma organização chamada Observatório Latino-Americano (OLA), cujo dirigente já concorreu à reitoria da UFSC por duas vezes e, numa terceira, pode até se tornar o primeiro reitor "bolivariano" do Brasil. Uma das jornalistas do site, funcionária da universidade, mantém o blog (não riam) Jornalismo amoroso e de libertação. Desiludidos com Lula, esses náufragos da ideologia transformaram Hugo Chávez no mais recente Grande Guia da "esquerda".

Os objetivos da "Onda" (Ola, em espanhol) são claros: "inspirado no sonho bolivariano de integração dos povos, o Observatório se propõem (sic) a re-significar as idéias de Simón Bolívar, articuladas com a busca do socialismo, da vida digna, das riquezas repartidas." Re-significar, obviamente, quer dizer "seguir Chávez".

No site você pode encontrar, entre otras cositas, a receita do tal sonho na " Ley de responsabilidad social en radio y televisión", com a qual Chávez acabou com a oposição no país. E, nos dois endereços, diatribes contra o capitalismo, a globalização, o imperialismo, etc., etc.

A segunda edição das "Jornadas Bolivarianas" foi realizada na UFSC no final do ano passado, com o objetivo de "pensar alternativas anti-capitalistas para a vida da América Latina". O temário ainda propôs a "reinvenção das ciências sociais ", trazendo luminares de Cuba e Venezuela (óbvio), além de Bolívia, Equador, Colômbia, Argentina e México. Reinvenção das ciências???

P.S.: Abriu a primeira jornada da OLA o embaixador venezuelano no Brasil, general Júlio García Montoea.

P.S.2: Este escrevinhador passa a aguardar agora o "Pelotão de Fuzilamento".

(Na ilustração, o boneco Chavecito).

domingo, 5 de março de 2006

Ataque ao mérito

O Diário Catarinense (para cadastrados) publica hoje, na página de opinião, um pequeno artigo deste escrevinhador sobre tema já tratado por aqui (os que ainda lembram, podem "pular" este tópico). O jornal também traz uma boa matéria sobre as ridículas teorias conspiratórias, cultivadas, em geral, por gente chegada às pseudociências.
Transcrevo o artiguete:

"A demagogia do “politicamente correto”, presente já na implantação de cotas para ingresso de alunos negros nas universidades, ameaça estender-se agora ao ingresso de professores. A Universidade Estadual de Mato Grosso acaba de aprovar a reserva de 5 por cento das vagas a candidatos que se declararem negros ou "pardos", medida que o MEC já cogita implantar também nas universidades federais. Será, definitivamente, o fim do mérito.

Desde sua origem, há mais de mil anos, a universidade tem sido uma instituição pautada pelo mérito, isto é, pela escolha dos melhores candidatos, mediante critérios objetivos, independentemente de origem, sexo, cor, religião etc. Os padrões seguidos são universalistas, e não particularistas ou individualistas - em suma, não relativistas. A instância do mérito é fundamental tanto ao ingresso de alunos quanto à contratação de professores. Caso vingue, a proposta instaurará a desigualdade, ferindo um princípio constitucional.

Falta pouco, aliás, para sepultar as universidades públicas. Algumas já nem fazem jus à designação. São escombros do que um dia foram. Transformaram professores em burocratas, não raro partidários, e reduziram regras e práticas universais ao jogo do relativismo em todas as suas variantes, assimilando as ciências a um mero discurso ideológico entre outros. Adotada a medida, o MEC jogará a última pá de cal.

Setores do governo parecem se esforçar para introduzir no país a divisão de “raças”. Mas vale lembrar que “raça” é um conceito biologicamente insustentável. Quem duvidar, pode ler os trabalhos do geneticista Luigi Cavalli-Sforza. O fato é que nosso código genético é literalmente idêntico ao de todos os outros animais, plantas e bactérias até hoje observados. Isto significa que todos os seres vivos provavelmente descendem de um único ancestral. Cor é simplesmente uma questão de pigmentação, ou seja, de adaptação ao ambiente ao longo do processo evolutivo."

Outros carnavais

No blog Pérolas, que faz "um apanhado do que sai na imprensa".

sábado, 4 de março de 2006

As origens do jornalismo (versão integral)

Já está no blog complementar Artigos & Resenhas (na lista de links) a versão integral do artigo "Tobias Peucer e as origens do jornalismo", publicado originalmente no volume 1, n. 2 (2004) da revista Estudos em jornalismo e mídia, editada pela pós-graduação do Curso de Jornalismo da UFSC. Uma versão resumida saiu na edição de 22/10/2005 do Diário Catarinense, de Florianópolis, e também aqui, em tópicos.

O que é pseudociência


E já que outro dia falei em pseudociência (a propósito da astrologia), aqui vai algum esclarecimento adicional. Não se pense que pseudociência é ciência errônea. Como escreveu o saudoso astronônomo Carl Sagan (foto), um dos maiores divulgadores que a ciência já teve, a pseudociência em tudo se opõe aos procedimentos científicos.

Enquanto a ciência formula hipóteses que podem ser refutadas (no confronto com os experimentos e a observação), a pseudociência as formula de modo a se tornarem invulneráveis a qualquer experimento, exatamente para que não possam ser invalidadas ou refutadas. Os profissionais da ciência submetem seu trabalho à crítica dos pares, pois seus métodos são públicos; já os profissionais da pseudociência são defensivos: "quando a hipótese pseudocientifica não consegue entusiasmar os cientistas", diz o astrônomo, "deduz-se que há conspirações para eliminá-las."

Deixemos Sagan falar. "A pseudociência fala às necessidades emocionais poderosas que a ciência freqüentemente deixa de satisfazer. Nutre as fantasias sobre poderes pessoais que não temos e desejamos ter (como aqueles atribuídos aos super-heróis das histórias de quadrinhos modernas e, no passado, aos deuses). Em alguma de suas manifestações, oferece satisfação para a fome espiritual, curas para as doenças, promessas de que a morte não é o fim. Renova nossa confiança na centralidade e importância cósmica do homem. Concede que estamos presos, ligados, ao Universo. Às vezes parece uma parada no meio do caminho entre a antiga religião e a nova ciência, inspirando desconfiança em ambas."

E depois ainda há quem diga que criticar as pseudociências é preconceito. Dado o relativismo imperante, vale tudo, já que tudo é reduzido a "discurso" e, portanto, está em pé de igualdade. Não é difícil ver que é daí que vem a onda "politicamente correta". Muito rapidamente se passou do conceito de igualdade entre indivíduos para a igualdade entre crenças e idéias. Resultado: é politicamente incorreto qualificar determinada crença ou idéia como tola ou ruim. Logo, dizer que as pseudociências são uma enganação é preconceito.

Obscurantismo, lá vamos nós.

P.S.: eis um pequeno elenco de produtos típicos da pseudociência e da superstição: tarologia, piramidologia, telepatia, numerologia, percepção extra-sensorial, comunicação com os mortos, regressão a "vidas passadas", quiromancia, estátuas que sangram, profecias de Nostradamus etc, etc.

(Recomendo vivamente o livro O mundo assombrado pelos demônios, de Carl Sagan, editado pela Companhia das Letras, de São Paulo. Para os mais jovens, é uma boa introdução ao pensamento científico. Nota: um visitante acaba de indicar uma exaustiva e impiedosa crítica das pseudociências: "Verdadeiro versus falso", de Alan Ditchfield).

sexta-feira, 3 de março de 2006

Sexta-feira


Sexta-feira, noite de festa para a estudantada de Floripa. Cerveja barata, vinho de garrafão, muito calor. Atenção para os sinais. Todo cuidado é pouco.

Artigos & Resenhas


Para facilitar a vida dos visitantes - e principalmente dos alunos -, este blog tem agora um "parceiro" (sob o nome acima) para abrigar textos mais longos, meus e de outros autores. Alguns já saíram aqui, aos pedaços. O primeiro artigo da lista é Bobbio e o labirinto da história, que publiquei no Diário Catarinense em agosto passado e está disponível também na revista Crítica, de Lisboa (link ao lado). Com os votos de boas-vindas por lá também, transcrevo a epígrafe do texto:

quinta-feira, 2 de março de 2006

Pseudociência na universidade



É justa a indignação de Cláudio W. Abramo (A coisa aqui tá preta, link ao lado), que pede a demissão com desonra de todos os professores e funcionários da Universidade de Brasília, além de seu fechamento. Vejam o absurdo: o Decanato de Extensão da UNB, que é uma entidade pública, está patrocinando um Curso de Astrologia para Pesquisadores!

O curso, que começou em 15 de dezembro e termina em 7 de março, é ministrado pelo professor Hiroshi Matsuda, engenheiro metalúrgico e professor de Astrologia; por Ricardo Lindemann, diretor-presidente do Sindicato dos Astrólogos de Brasília (Sinabra) e docente de “Cálculo Astrológico” da Escola Emma C. Mascheville; e por Marcelo Cintra, que é administrador, astrólogo e professor de Metodologia de Pesquisa (!).

Abramo, claro, está brincando, mas é de se fechar mesmo as portas de uma instituição que não mais distingue ciência de pseudociência. E muitas outras deve haver pelo país afora praticando a mesma coisa. Que alguém se interesse por astrologia ou tarologia e queira fazer cursos sobre estas pseudociências, problema dele. O que não pode é uma instituição federal, mantida com recursos públicos, promover esse tipo de atividade. As universidades são voltadas às ciências, à filosofia e às artes. Tratam de conhecimento público, não de esoterismo. Se virarem as costas à sua finalidade básica, dá-lhe prego e martelo.

O péssimo exemplo da Sorbonne

Mas, nisso, a UNB segue as pegadas da velha Sorbonne, que fez coisa pior. Lá, uma famosa astróloga de um programa de TV, com vários livros publicados sobre o assunto, defendeu há alguns anos uma tese (em sociologia) de 900 páginas sob o título “A situação epistemológica da astrologia em relação à fascinação/rejeição ambivalente das sociedades pós-modernas”. Perceberam o estilo "pós"? (outros exemplos há no site de Alan Sokal, ao lado, que inclui um texto do próprio Abramo).

Afinal, só na terra de Deleuze, Lyotard, Derrida, Baudrillard e Michel Maffesoli (o orientador do trabalho) - típicos filósofos-literatos da cultura humanística contemporânea, muito festejados também por aqui - é que Max Weber pode ser apresentado em texto acadêmico como “taurino pragmático”. E viva o relativismo.

Sobre a tese de Elizabeth Teissier (eis o nome da distinta senhora), disse o sociólogo B. Lahire que “não há traço de fato empírico ou método de pesquisa. A idéia insistida do começo ao fim do documento é que a astrologia é vítima da dominação. Que a ciência, que é tratada como ‘ciência oficial’ ou ‘pensamento monolítico’, oprime a astrologia.”

Desolado, Lahire define essa tese como mais um golpe na sociologia: “não é casual o fato de Teissier estar usando a sociologia para legitimar o discurso astrológico. Nossa disciplina freqüentemente serve de refúgio para pessoas que não são rigorosas e que às vezes são anti-racionalistas” (cf. artigo de Emily Eakin publicado no New York Times e reproduzido no site da Folha de São Paulo em 02/06/2001).

Pérolas do senador holista

A propósito, recordemos outro episódio burlesco aqui no Brasil, onde um ilustre senador meteu-se a defender a regulamentação da profissão de astrólogo, a pretexto de “coibir a charlatanice que medra no setor, ao lado da seriedade dos estudos e trabalhos de pessoas respeitáveis do mesmo”!

Argumentava o senador, tido por homem culto, que a astrologia “não é uma crença, porém um precioso elenco, parte ciência, parte arte, parte religiosidade”. E mais: que “a astrologia e bons astrólogos têm sua própria competência e idoneidade”, sendo inútil o “ataque à astrologia atado a pensamento e percepção, ignorando sentimento e intuição. O mesmo se diga dos métodos mânticos (quiromancia, runas, numerologia, baralho cigano, cristais, tarô, búzios etc.).” E palmas para as pseudociências.

Ainda bem que o autor desses disparates, Artur da Távola - então líder do governo FHC no Senado -, foi dispensado de um segundo mandato pelos eleitores cariocas. Mas não voltou para casa sem antes largar algumas pérolas de anticiência e demonstrar sua desconfiança para com a racionalidade. Em artigo na Folha de 26/08/2002 (“Do paradigma mecanicista ao holístico”), indagava-se o senador: “persiste a física como uma ciência, se não consegue mais definir nem o que seja a matéria? Onde está a validação empírica do que ocorre dentro do átomo e que se concilia com a sabedoria oriental de 500 ou mais anos antes de Cristo? Com a palavra os cientistas...”

Os cientistas, claro, nem deram bola. Mas os eleitores cariocas não dormiram no ponto. Palmas para eles.

(Para uma crítica da astrologia, ver O método nas ciências naturais e sociais, de A.J. Alves-Mazzotti e Fernando Gewandsznajder [São Paulo, Pioneira, 1999]. O livro relata algumas pesquisas realizadas sobre a astrologia - como testes estatísticos e uma experiência controlada -, que revelaram suas incoerências e sua incompatibilidade com a ciência).

quarta-feira, 1 de março de 2006

A economia no reinado FHC/Lula


Em algumas notas, escrevi aqui que o bicho aí ao lado, o "galinhão" da economia brasileira, finge que voa, mas não sai do chão. Só bate asas para iludir a bugrada. Aliás, nem tentar voar ele pode, pois está preso a cadeado no poleiro nestes 11 longos anos de reinado FHC/Lula (ver 1. e 2). O colunista Elio Gaspari resume magistralmente a situação em artigo publicado hoje em vários jornais e que transcrevo aqui. O título diz tudo: "Fernando Inácio Cardoso da Silva".

"O crescimento da economia brasileira em 2005 ficou em 2,3%. Número haitiano, abaixo dos 5% inventados por Lula, dos 4% prometidos pela ekipekonômica e dos 3,7% estimados pelo FMI. À primeira vista, o desempenho do "nosso guia" documenta o fracasso da nação petista. Isso não é verdade nem tem tanta importância.

A estagnação econômica do Brasil é suprapartidária, produto de uma ekipekonômica que muda de cara sem mudar de idéia e de governantes que mudam de idéia sem mudar de cara. Em maio de 2003 Lula prometeu o "espetáculo do crescimento" . Em março de 2000, FFHH prometera que "daqui por diante é desenvolvimento, bem-estar e prosperidade". Eram apenas animadores políticos. Têm hábitos diferentes, mas são a mesma coisa. Petistas que praguejaram contra FFHH e tucanos que praguejam contra Lula estão iludidos ou querem iludir os outros. Trabalham pelo predomínio da banca sobre a fábrica.

O crescimento médio da economia nos três anos de Lula foi de 2,6%. É semelhante aos 2,3% dos oito anos de FFHH. A estagnação brasileira perdeu dois bondes de prosperidade mundial, mas pagou o preço de duas crises. Durante 11 anos do mandarinato da ekipekonômica, os postos de trabalho, a renda e os direitos dos trabalhadores brasileiros foram sistematicamente corroídos. Até os patrões perderam. Na Grande São Paulo um empregador levava R$ 4.514 mensais para casa em 1995. Ao final do ano passado levava R$ 2.723. Indo ao outro extremo, o assalariado autônomo que presta serviços a uma empresa, entrou no jogo com uma renda média de R$ 1.644 e está com R$ 845, pouco mais que a metade.

Os números do desastre brasileiro de 1995 a 2005 assemelham-se aos da recessão européia dos anos 70. Lá, chamava-se a crise de crise. Cá, tudo é modernidade para quem mama nos juros e empulhação para os demais. Os 26 grandes bancos que já divulgaram balanços tiveram um crescimento de 50% nos seus lucros. As quatro maiores casas brasileiras estão entre as dez mais rentáveis da América. A repórter Márcia de Chiara fez a conta: em três anos de Lula, a banca lucrou mais que em oito de FFHH (R$ 44,1 bilhões x R$ 34,4 bilhões).
Devem ter sido poucos os períodos da história econômica nacional em que outro setor produtivo conseguiu resultados comparáveis à série da banca. Categoria de empregados, nem pensar.

Se as casas de depósitos e crédito ganham dinheiro, palmas para seus diretores, sobretudo para aqueles que vieram, foram, ou irão para a diretoria Banco Central. Bem outra coisa é o seqüestro do Estado pelos interesses da finança nativa e mundial.

Os sábios da ekipe gostam de dizer que o problema do Brasil deixou de ser macroeconômico, passou a depender da reforma da microeconomia. É empulhação, mas se tudo o que foi dito aí em cima era macroconversa, aqui vão duas microlembranças. Agora mesmo, a banca tem dois micropleitos junto à ekipe. Querem transformar os calotes que tomaram nas suas carteiras de crédito imobiliário em aplicações virtuais, enganando a lei que orienta recursos para o financiamento de casas.

Beleza: tu cobras juros, eu não pago a prestação, nós fazemos um acordo e eles ficam sem o investimento. Preferem também que o secretário do Tesouro, doutor Joaquim Levy, pare de falar em abrir uma licitação para a prestação dos serviços bancários à rede do INSS. Hoje a Viúva paga aos bancos para que atendam a turma da previdência. Levy achou que o negócio é tão bom que, se ele abrir uma licitação, haverá bancos querendo pagar para fazer negócios com aposentados. Cadê?"

Em tempo: ver também "Lula e os bancos" (I) e (II), abaixo. Outra boa análise está no ótimo blog jornalístico Luneta).