Prosseguindo na linha traçada pelo “comandante” João Pedro Stédile, o coordenador nacional da Via Campesina e do MST, Roberto Baggio, avisa que o inimigo são as “multinacionais”. O pretexto: “elas ameaçam a biodiversidade, querem dominar a agricultura, as sementes, o meio ambiente e a alimentação”. Tais empresas, na visão de Baggio, não têm outro objetivo senão “privatizar os recursos naturais brasileiros, nossa natureza”, afetando a vida de “milhões de camponeses no Brasil.” Não se trata, portanto, de atacar bancos ou outras empresas do capital financeiro, hoje o grande símbolo multinacional. Não, as verdadeiras inimigas da Via Campesina e do MST são a biotecnologia, a agroindústria, as ciências aplicadas à agricultura. Daí as invasões a centros de pesquisa agrícola, com depredação de laboratórios e campos experimentais (Aracruz Celulose, no RS, e Syngenta Seeds, no PR, são os exemplos mais recentes). Eis o fruto mais viçoso da Teologia da Libertação, pregada durante longos anos por bispos e párocos da Igreja católica no sul do Brasil. Sob essa batina pretensamente revolucionária escondeu-se sempre a velha reação à modernidade, a negação da revolução científico-tecnológica, esta sim revolucionária. É certo que, como toda revolução, a tecnológica tanto constrói quanto destrói. Ela está destruindo uma cultura antiga, agrícola, criada há dez mil anos, e compelindo a humanidade a renunciar a técnicas obsoletas e ao patrimônio cultural dos antepassados. Esse conflito praticamente se esgotou em todos os países industrializados, mas ainda gera resistência e protestos, rebeliões e angústia em países em desenvolvimento. É o preço que pagamos pela civilização.
Em busca do "camponês" perdido
Ora, retornar ao velho mundo agrícola - sem ciência nem tecnologia – implicaria igualmente regredir aos níveis de produção alimentar do passado, e, conseqüentemente, aos valores demográficos do passado. Menos alimento, menos gente. Não há como fugir disso. Por outro lado, a população brasileira urbanizou-se de maneira vertiginosa a partir dos anos 50 do século passado, atingindo hoje mais de 80 por cento. É na cidade que está o "camponês" do MST e da Via Campesina. Quem estaria disposto a voltar ao campo para viver e plantar nas paróquias idealizadas por essa teologia apimentada com marxismo de orelha?
Não é à toa que o MST busca arrebanhar forças na periferia dos centros urbanos. Sua utopia, porém, já não se restringe aos tais "milhões de sem terra.“ O que Stédile e seus comandados querem é o poder, retomando a via revolucionária que a história demonstrou fracassada. Como recordou o filósofo Ruy Fausto (um estudioso de Marx) em recente artigo na Folha de S. Paulo, as três grandes revoluções socialistas do século XX tiveram como desfecho, para além dos milhões de mortos, o capitalismo selvagem no caso da China, o capitalismo mafioso na Rússia e uma situação de miséria e colapso econômico no caso de Cuba (“A esquerda e o país”, 12/03/06).
Apesar das duras lições da história, parece ser este o retrógrado projeto do MST (em parte alimentado por verbas públicas), que vai ganhando fôlego diante da letargia dos poderes da República – particularmente do governo, incluindo os estaduais - e do discreto apoio de setores do PT, do qual é uma espécie de “braço armado”. Quanto às entidades representativas da sociedade, que outrora lutaram pela democracia e pelo Estado de Direito, apenas fazem vistas grossas. Caminho livre para o retrocesso. Não se trata de revolução, mas de reação.
(Ilustração: foice e martelo, um símbolo que já nasceu tecnologicamente antiquado).