segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Sem ciência

Matéria estampada hoje na Folha ("Seis cursos reúnem 52 por cento dos universitários") revela uma realidade escabrosa: o Brasil não forma os cientistas e engenheiros que necessita para seu desenvolvimento científico-tecnológico. A Coréia (do Sul, bem entendido, não a do ditador de cabelo empinado), sempre citada como exemplo de investimento no ensino, gera mais cientistas que o Bananão, que permanecerá na rabeira da história se o quadro não mudar. E não vai mudar, claro. Em compensação, a idiotia latino-americana se expande aceleradamente (ver post anterior). O futuro é o brejo.

O ensino superior brasileiro, além de ter uma abrangência considerada baixa, está mal distribuído: seis dos atuais 84 cursos do país concentram 52% de todas as matrículas. O campeão em número de universitários é administração, com 621 mil. Sozinho, ele possui mais estudantes que toda a área de saúde, que inclui medicina, enfermagem e psicologia, entre outros. Este grupo conta com 549 mil alunos. Os números fazem parte de um levantamento inédito que será lançado até o final deste ano pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, do Ministério da Educação), que desenvolveu um censo do nível superior para cada uma das 27 unidades da federação. Os dados gerais do levantamento foram apresentados na 29ª reunião anual da Anped (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação), na semana passada, em Caxambu (MG).

Ciências
Em situação oposta à da administração, que ultrapassou o meio milhão de alunos, cursos ligados às ciências não chegam a 35 mil, casos de física e de química. No mesmo patamar estão agronomia e veterinária. "Isso mostra que o país deixou para trás um projeto de desenvolvimento", afirmou à Folha o coordenador do estudo, Jaime Giolo, responsável pelas estatísticas da educação superior do Inep. Para Giolo, o problema não é ter mais de 600 mil matrículas em administração, mas, sim, contar com apenas 32 mil em agronomia ou 124 em recursos pesqueiros. "Como seremos líderes em agricultura?", questiona. "E na pesca nossas técnicas não devem ser muito mais avançadas do que as dos índios da época do descobrimento." Avaliação parecida tem a ex-pró-reitora de graduação da USP Sonia Penin, atual diretora da Faculdade de Educação da universidade. "Para o desenvolvimento do país, precisamos de grandes cientistas. E isso só ocorrerá se tivermos uma grande massa de profissionais formados nessas áreas." Hoje, apenas 10,5% dos jovens brasileiros entre 18 e 24 anos estão matriculados no ensino superior. O Plano Nacional de Educação prevê como meta que o percentual seja de 30% até 2011. A análise do Inep aponta que dificilmente o objetivo será alcançado.

Custos
O estudo liga o desequilíbrio da distribuição de matrículas à expansão do ensino superior no Brasil, que ocorreu principalmente pelas universidades privadas -o setor detém hoje 71,7% das matrículas. O levantamento do Inep afirma que a oferta desigual de cursos gerou um "forte desequilíbrio no panorama das vocações profissionais dos jovens brasileiros". "As instituições particulares preferem os cursos mais baratos, porque visam o lucro", disse a presidente da Anped, Márcia Angela da Silva Aguiar, pesquisadora da Universidade Federal de Pernambuco. O consultor em educação superior privada Carlos Monteiro está de acordo com a avaliação. Segundo ele, a estrutura física do curso de química chega a custar o dobro do de administração, devido à necessidade de laboratórios especiais. Já Paulo Renato Souza, ministro da Educação na gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), tem uma posição contrária - foi sob seu comando que o setor particular teve uma forte expansão. "Se dobrássemos as vagas de física ou agronomia, teríamos procura para isso?", questionou. "O setor privado vai onde tem demanda por cursos. Atualmente, os jovens têm mais segurança em cursos como administração e direito."

5 comentários:

ph disse...

Professor, lamentável a opinião do Paulo Renato, que eu considerava um cara inteligente. Sim, se formos levar em conta só a demanda por cursos, vamos acabar criando cursos como de astrologia, feg shui e de cabeleireiro - como vi na TV na semana passada. Quer dizer, o Paulo Renato não consegue enxergar a necessidade de um programa de desenvolvimento científico para o Brasil! Se, de alguma forma, governo e iniciativa privada se unissem para aplicar recursos em pesquisa, isso poderia estimular mais jovens a entrar para carreiras científicas. Ou seja, o estímulo tem que ser material: emprego e bons salários. Se a grana da CPMF fosse para essa área já seria um bom começo.
abs

Tambosi disse...

Concordo, ph. Não assino embaixo do que diz o ex-ministro.

Anônimo disse...

Engraçado, não era o idiota latino americano e Petralhas que eram a favor de uma atuação mais forte do estado? Os inteligentes latino americanos não eram os que defendiam o mercado? Não era o mercado que era sempre o melhor? Fiquei sem entender.

Aldo disse...

Se não entendeu é porque é um deles

Luciano disse...

Não se deve esquecer que o ideal "neo-liberal" era que o Brasil tivesse apenas o conhecimento necessário para o consumo e não para gerar novos conhecimentos. Daí a grande ênfase em cursos como administração. Para que investir na formação de cientistas que criariam novidades aqui? Os "neo-liberais" acham que é mais barato trazer de este desenvolvimento de fora.