quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Liberais contra a TV? Quem diria...


A televisão gera idiotas?

Nos primeiros dias deste blog, fiz uma chamada para artigo/resenha que escrevi para uma revista acadêmica da UFSC sobre o livro Homo videns, do sociólogo italiano Giovanni Sartori (foto), publicada também no site Crítica, de Lisboa (ver link). Como o site, por boas razões, não permite mais acesso livre a todo o acervo, republico o texto aqui.

Partindo de um pequeno escrito em que o filósofo Karl Popper tece críticas à TV e propõe uma legislação que controle "esse poder demasiado vasto", analiso os argumentos extremistas de Sartori, para quem essa mídia está produzindo "idiotas" e conduzindo a humanidade ao "pós-pensamento". Curiosamente, o liberal italiano parece retomar - mas sem fazer referência - as velhas diatribes dos marxistas frankfurtianos contra a "indústria cultural" em geral. Leia abaixo.

Nos anos 1970/80, era da esquerda — em especial a marxista — que procediam as críticas mais ferozes aos media, particularmente à televisão. Na esteira da Escola de Frankfurt (Adorno, Horkheimer e Marcuse), alguns estudiosos e ideólogos denunciavam a "indústria cultural" como serviçal do capitalismo, não menos que a ciência e a técnica. Outros, seguindo Althusser, viam a televisão como mero "aparato ideológico do Estado", que, tal como a escola, tinha por objetivo "inculcar" a ideologia dominante. E havia também os que, apegados ao conceito de "indústria da consciência", elaborado por Hans Magnus Enzensberger, vislumbravam um caminho de mão dupla: os "meios de comunicação de massa" podiam, sim, ser utilizados em sentido "emancipatório", isto é, numa perspectiva socialista — a bem da verdade, algo que os seguidores de Gramsci, por sua vez aferrados ao conceito de "hegemonia", já tinham percebido bem antes do ensaísta e poeta alemão.

A partir dos anos 90, porém, ocorre um deslocamento ideológico da crítica. Curiosamente, agora são os liberais a tomar a televisão como alvo de tiro. Tudo começou com o filósofo Karl Popper, um dos maiores epistemólogos do século XX, abominado pelos marxistas por seu suposto "positivismo" e malvisto pelos conservadores por sua impaciência com as ideologias, as religiões e a metafísica. Defendendo a criação de "uma lei para a televisão" (cf. Televisão: Um Perigo para a Democracia, Gradiva, 1995), o teórico da "sociedade aberta" chegou a reivindicar uma maior presença dos organismos de Estado em relação à TV (logo ele, politicamente um liberal!).

Apesar de lhe terem atribuído a exigência de censura, o que Popper realmente queria era chamar a atenção para um ponto essencial: na democracia não há poder político sem algum controle. E a TV, dizia o filósofo, exerce um tremendo poder político, "potencialmente o mais importante de todos, como se tivesse substituído a voz de Deus". Para Popper, esse meio "adquiriu um poder demasiado vasto" — e nenhuma democracia pode sobreviver a tal "onipotência".

Não é insensato afirmar que todos os poderes políticos, numa democracia, devem ter alguma forma de controle público. O que se discute é quem exercerá esse controle para que se evitem excessos. No caso da TV, o Estado, embora sendo o poder concessor, certamente não é a melhor indicação, mesmo sob governos democráticos (nas ditaduras, pior ainda). A solução talvez seja a auto-regulamentação, isto é, atribuir essa responsabilidade às próprias empresas de comunicação e aos profissionais que nela trabalham, ou adotar a co-regulamentação, envolvendo, além dos empresários do setor, representantes de organizações não governamentais e outras entidades sociais etc. De qualquer modo, o importante é ter em conta que os excessos podem ser punidos a posteriori — medida, convenhamos, mais civilizada que censurar.

Morte do pensamento?

A crítica mais contundente à televisão veio da Itália, no final dos anos 90, quando um respeitado politólogo e sociólogo — também ele um liberal — lançou Homo Videns: Televisão e Pós-pensamento (livro traduzido no Brasil pela Edusc, de Bauru, em 2001). Giovanni Sartori, o autor, lecionou ciência política e sociologia em diversas universidades, inclusive norte-americanas (Stanford, Yale, Harvard e Columbia), e atualmente é um dos dirigentes da Società Libera (http://www.societalibera.org/), organização dedicada ao estudo e à difusão dos ideais liberais, além de colaborador do jornal Corriere della Sera, o principal jornal do país.

O ataque de Sartori à TV lembra algumas diatribes frankfurtianas contra a "indústria cultural", embora não haja qualquer referência a Adorno ou Horkheimer na sua bibliografia (os autores elencados, aliás, são quase todos ingleses e norte-americanos). No geral, portanto, as idéias de Sartori não são novas. O que espanta é o extremismo de algumas afirmações. A televisão estaria simplesmente mudando a natureza do ser humano, que deixa de ser sapiens para se tornar — eis o título — homo videns, inaugurando a era do "pós-pensamento". Incapaz de cultivar o pensamento abstrato, o homem se torna um "idiota".

A tese essencial do livro — diz o próprio autor — é que, perdendo essa capacidade de abstração, o ser humano perde também a racionalidade, tornando-se "um animal simbólico que não está mais em condição de sustentar, e muito menos de alimentar, o mundo construído pelo homo sapiens". Sufocada a cultura escrita, ocupa seu lugar a "cultura audiovisual", que Sartori denomina "incultura", pois toma de assalto as "mentes débeis", o público que ainda não aprendeu a pensar. Além disso, a primazia da imagem teria ainda outros efeitos deletérios, tais como conduzir à opinião teledirigida, à videopolítica, ao embrutecimento das massas, ao enfraquecimento da democracia e de suas instituições.

Sartori estabelece uma rígida separação entre o "mundo inteligível", isto é, o mundo dos conceitos e das concepções mentais, e o "mundo sensível", ou seja, o mundo percebido pelos sentidos. A questão, escreve ele, num raciocínio que chega a ser maniqueísta, é que "a televisão inverte o progredir do sensível para o inteligível, virando-o em um piscar de olhos para um retorno ao puro e simples ver. Na realidade, a televisão produz imagens e apaga os conceitos; mas desse modo atrofia a nossa capacidade de abstração e com ela toda a nossa capacidade de compreender". Ela criou e está criando "um homem que não lê, que revela um alarmante entorpecimento mental, um 'molóide criado pelo vídeo', um viciado na vida dos videogames".

Falsa oposição

Ora, a oposição entre sensível e inteligível é insustentável, como já havia notado o velho e bom Kant. Surpreende que, embora evocando o filósofo, Sartori omita o argumento fundamental deste, na Crítica da Razão Pura, de que o conhecimento é resultante precisamente da junção de intelecto e sentidos, e não da sua separação. A conclusão kantiana não poderia ser mais cristalina: sem sensibilidade, nenhum objeto nos seria dado; sem intelecto, nenhum seria pensado. Nenhuma dessas faculdades ou capacidades, adverte Kant, deve ser preferida em detrimento da outra. Em poucas palavras, existe uma complementaridade entre intelecto e sensibilidade — faculdades distintas por natureza, mas não opostas —, já que ambos concorrem para a formação do conhecimento. Ao que parece, portanto, Sartori retorna a um idealismo pré-kantiano. Vislumbrará ele uma "idéia pura", não "contaminada" pelos sentidos? A idéia, a que ele atribui tanto peso, é vazia, sem conteúdo, se deixada a si própria, quer dizer, sem contato com o mundo empírico, que percebemos através dos sentidos, particularmente da visão.

Mas não se negue que algumas inquietações do politólogo italiano dão o que pensar. Por certo, uma criança ou adolescente que, na maior parte de seu tempo, apenas consome imagens da TV, não se destacará pelo brilho do intelecto, considerando-se o que as redes oferecem a essa faixa etária (a começar pelo imbecilizante estilo MTV) e aos telespectadores em geral: programas de fofocas e baixarias, violência, misticismo etc. A experiência demonstra, de fato, que o jovem que lê e estuda mais — sem por isso abolir a televisão, o cinema ou o computador — tem maior chance de sucesso em seus objetivos na concorrência com os demais. É reconhecido que a leitura favorece, mais que outros meios, a capacidade de abstração e o domínio de conceitos. Persiste, porém, a dúvida em relação ao exemplo citado: a "culpa" será da TV, ou a família e a escola é que fracassaram?

O caminho mais razoável parece ser — contrariamente à embaçada visão de Sartori — o do equilíbrio: nem só imagem, nem só escrita; nem só sensibilidade, nem só intelecto. A busca desse difícil equilíbrio, contudo, é tarefa que diz respeito mais à família e à escola do que à televisão (cujo aparelho receptor dispõe, afinal, de um botão para desligar). O sociólogo reconhece que é preciso reagir "mediante a escola e na escola", mas recrimina a tendência de "encher as classes de televisores e word processors" (e aqui ele parece confundir monitor de computador com televisor). Sua sugestão? Simplesmente proibi-los — "deixando-os somente para o treinamento técnico, como se poderia fazer com um curso de datilografia"!

De resto, nada há de propositivo no opúsculo de Sartori, que enfatiza apenas os aspectos negativos da televisão, atitude semelhante, aliás, à adotada pelos teóricos críticos frankfurtianos em relação à "indústria cultural". Trata-se, enfim, de um texto que não está à altura das demais obras do autor, que já produziu um estudo clássico como Teoria da democracia (a Editora Ática lançou, em 1994, dois volumes de Teoria da democracia revisitada). Lamentavelmente, Homo videns está mais para o conservadorismo rançoso que para o liberalismo civilizado.

Orlando Tambosi. Publicado originalmente em Estudos de Jornalismo e Mídia, Florianópolis, Editora Insular, vol. I, Semestre I/2004.

15 comentários:

Santa disse...

Tambosi, excelente artigo!.


Acrescento: o modelo convencional de televisão está com os dias contados perdendo para os meios interativos; camera, TV digital, webTV, a internet de massa. (exemplo disso disso é o estrondoso sucesso do site YouTube)- significa que o monopólio da informação muda de lugar, não mais a televisão e sim, o internauta.

Anônimo disse...

Tambosi, meu caro, eu nunca li nada do Sartori (prazer em conhecer - ou não, vamos ver), mas me diga uma coisa: antes de qualquer comentário que eu possa fazer, ele também endossa o controle estatal proposto por Popper?

O Direitista disse...

Tambosi, não me leve a mal, mas a sua crítica me despertou o interesse pelo Homo videns... Acho que vou comprá-lo.

Sabe como é, eu sou um "conservador rançoso" e, definitivamente, pré-kantiano.

Abs

Anônimo disse...

Embora não tenha lido Sartori, pela abordagem que vc faz não entrou na discussão um aspecto extremamente importante: a televisão é feita por jornalistas, pessoal da dramaturgia, cinema, etc...sem falar nos marketeiros que têm voz ativa e suplantam todo o resto. A imbecilidade da televisão retrata extamente a idiotice e estupidez que habita a mente de quem produz os programas e dirige as emissoras. Quanto mais aumenta a população do Planeta, mais estúpidos haverão de aparecer.

Anônimo disse...

A televisão é um dos veículos mais mal utilizados de comunicação. Não acho que seja feita por jornalistas e dramaturgos, mas pela publicidade unicamente, que dirige todo o resto. Criticamos pouco a publicidade, mas ela está há muito tempo criando parâmetros cada vez mais inalcançáveis de ser feliz, vide a anorexia e a bulimia, que se transformaram em verdadeiro terror dos pais hoje em dia. A publicidade está dando ordens ao pensamento (ou não-pensamento), não exatamente o jornalismo ou a teledramaturgia, que têm espaços imensos a ocupar/explorar nesse veículo de comunicação.

Orlando Tambosi disse...

Raul, ele é bem mais radical que Popper - que, de certo modo, tinha razão, algum controle deve haver, não necessariamente pelo Estado . O velho Sartori gostaria mesmo é de mandar a TV para as cucuias.

Aluízio,
isso é recaída frankfurtiana, he he he.

Puxando a brasa para o Brasil: acho que, sem TV, o Bananão seria ainda mais atrasado, de norte a sul. A TV é a única fonte de informação para a maioria da população.

Anônimo disse...

Isso é que é triste, Tambosi. TV é a única coisa que temos (um plural beeeem majestático) e, apesar de não discordar totalmente do que a Santa disse, acho que passaremos muito tempo ainda sob esse parâmetro. Acho também que o computador não inova nada nesse campo, pelo menos por enquanto, já que o grosso da população com acesso digital vai na Internet à procura de mais informações sobre aquilo que ele viu na TV.
Nisso tudo, gostaria de fazer uma ressalvinha: os donos de TV no Brasil não diferem muito do mercadinho lá da esquina: têm de oferecer produtos com venda certa. Às vezes (todos nós sabemos de alguma iniciativa) tentam fazer algo melhor, mas o troço não vai pra frente.
E, Shirlei, não critico de todo os anunciantes, não. Eles entram nesse círculo por questão de sobrevivência também. Pelo menos eles têm o Conar, que apesar das aparências dá uma freada no bundalelê (a TV deveria ter isso). Não vou ao exemplo extremo da bulimia/anorexia, mas ressalto que as pessoas normais é que inventaram o tal do sonho inalcançável. Ai a gente já entra em outro papo, da necessidade de o dinheiro circular, empregos, etc.

Não vou nem falar da TV a cabo. Não é ela que o povão vê. Mas tem um caso interessante, quando a TV Cultura "abriu" para os anunciantes, o que gerou uma saraivada de críticas. Ela não mudou um milímetro de sua programação, mas o pessoal ainda se incomoda com "as Casas Bahia patrocinam a digitalização do acervo da TV Cultura". Acabam patrocinando também as coisinhas da BBC que passam lá. Mas a gente (mais um plural majestático, nada pessoal) não vê, não dá uma forcinha. Preferimos o cabo ou o computador. Pra não perder nada do BBB.

Anônimo disse...

A TV não gera idiotas, eles são gerados pelas famílias e pela própria escola, todas mergulhadas na mediocridade. No máximo a TV dá pra eles o que eles querem, e estamos conversados.

Orlando Tambosi disse...

Boas observações, Letícia e Nara. Só falta a gente querer que a TV se dedique à "educação" das "massas" (aliás, é o que quer a petralhada). Tome-se educação por ideologia barata.

Anônimo disse...

A TV não seria problema se o Brasil tivesse educação de qualidade.

E ao mesmo tempo, a deficiência da educação implica numa TV de péssima qualidade, porque nenhuma emissora vai produzir programas instigantes e inteligentes, sabendo que o público alvo vai migrar para o primeiro canal que mostrar bunda ou baixaria.

Não acho que isso tenha viés ideológico. Foi-se o tempo em que a TV podia influir ideologicamente, acho que ele acabou com o advento da TV a cabo e com a internet.

O problema da TV no Brasil é que nos ultimos 20 anos, ela têm reforçado a idéia de individualismo, que é patológica em nosso país.

A mensagem é sempre a mesma: CONSUMA MAIS, TENHA O CORPO PERFEIRO, FAÇA MAIS SEXO, CONQUISTE MAIS HOMENS E MULHERES, FAÇA SUCESSO A QUALQUER CUSTO, SEJA POPULAR e o clássico, sempre presente sub-liminarmente: LEVE VANTAGEM EM TUDO!

Ora, certa época, era interessante falar muito em privatização, porque a promessa era de menores impostos e mais progresso. Daí o brasileiro abraçou a idéia, era uma vantagem, precisava fazê-lo!

Hoje, a idéia predominante é de que o Estado só serve se der alguma coisa imediatamente, é preciso levar vantagem sobre ele, é preciso receber bolsa-familia...

E quando isso já não for suficiente, uma hora esgotará, vai haver outra guinada, sempre com o objetivo precípuo de levar a cada indivíduo o máximo da vantagem, porque é à isso que o brasileiro está condicionado: olhar apenas o seu próprio umbigo!

A TV é deletéria no sentido de fortalecer os valores ruins e adequá-los à realidade do momento.

Não que individualismo não seja importante, o problema é que no Brasil confunde-se individualismo apenas com vantagem pessoal direta ou indireta.

E não há viés ideológico nas TV(s), basta ver a promoção incessante do consumismo exacerbado que elas promovem ao mesmo tempo da consagração da miséria e da desgraça como atrações que dão audiência por meio de suposta solidariedade.

O problema todo, acho, é a falta de preparo intelectual do telespectador, incapaz de analisar uma questão de modo equilibrado.

Mas, claro, respeito quem pensa deiferente...

Ricardo Rayol disse...

Por isso leio e muito. Nada mais estimulante do que ler e exercitar o cerebro com viagens fantásticas.. espero conseguir incutit isso na minha filha.

Anônimo disse...

Acredito ser pouco provável que algum empirista negue o intelecto.
O que eles negam é a crença idealista ou racionalista de que o intelecto possa adquirir conhecimentos de modo não empírico,como que através de revelações ,intuições ou iluminações intelectuais.Se assim fosse,significaria que o intelecto possuiria algum dom sobrenatural.Ou seja,o intelecto seria uma função da alma.
O exemplo maior dessa crença é a filosofia de Descartes,com suas idéias claras baseadas em Deus.
Parece-me que também é o caso de Kant,já que os “juízos sintéticos à priori” pressupõem uma razão independente da realidade empírica,ou seja,um sujeito transcendental,ou alma.
É claro que a ciência atual nega tal transcendência do intelecto.Este seria tão sómente resultado do funcionamento do cérebro,que,por sua vez,é resultado da evolução , processo natural dessa nossa realidade empírica.

Orlando Tambosi disse...

Paulo Roberto,

leia o livro e certifique-se. Sartori acha impossível que um dos sentidos, a visão, nos dê conhecimento - daí o homo videns, o idiota que só vê...

Tambosi

Anônimo disse...

Tambosi,leia meu comentário melhor e certifique-se.
Não estou dizendo que os empiristas negam o intelecto,mas sim que negam a natureza transcendental do mesmo.
Bacon,um dos pioneiros do empirismo,por exemplo,não negava a mente,mas sim dizia que a mente deve ser livre dos ídolos,para se chegar ao conhecimento.E me parece que o conceito de "juizos sintéticos à priori" é um desses ídolos.É uma mistura de idealismo platônico com empirismo.

Orlando Tambosi disse...

Paulo Roberto,

não estou discutindo o empirismo ou o idealismo, mas analisando as idéias apresentadas por um sociólogo que, pelo que vi, vai muito mal no terreno filosófico.
Leia o livro - meu post se refere ao livro do Sartori, não se trata de uma discussão sobre as vertentes filosóficas.

Abraço