sexta-feira, 30 de novembro de 2007

E não é um Grotão?

Não é surpresa para quem dá aula em universidade. O que vem do segundo grau é o politicamente correto apetralhado, muita ideologia e rala ciência. A única diferença que notei, nos últimos anos, em relação às novas turmas, é que a revista Época já passou a figurar, também, na lista de "manipuladores ideológicos" (ahá!, um ponto a favor), junto com a horrenda Veja, que bancava tudo sozinha.

Sim, sim, a Veja reflete os interesses dos Civita e a Época, os dos Marinho.

Mas o tio Mino, da Carta, e a Caros Amigos, obviamente, não têm interesses outros que não a difusão da solidariedade, da paz, da justiça, da igualdade etc., etc. (e, argh!, do socialismo).

Desculpem, vou tirar uma soneca...

4 comentários:

Maria do Espírito Santo disse...

A Flor e a Náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
(Drummond - In: A Rosa do Povo, 1943/1945)
Quem, no Grotão, lê poesia? Quem está disposto a tentar entender esse vínculo profundo que Ela gera - que talvez não seja vínculo, pode ser que seja balela...- entre Homem e Mundo?
E enquanto isso, despenca o Brasil no ranking da educação.
Quer dizer então que se todos lessem poesia no Brasil os problemas da educação estariam resolvidos? Não. eu não quis dizer isso. O que eu quis dizer é que se todos lessem, mas lessem mesmo, poesia de qualidade, os problemas do mundo estariam resolvidos! Principalmente porque para se gostar de ler poesia de verdade é fundamental uma família que tenha a poesia em alta conta. E quem tem a poesia em alta conta jamais será um boçal, um vendido à política, um pulha, um pária social.
Quem lê A Rosa do Povo não sai incólume. Sai melhor.
E o que isso tudo tem a ver com a piora veemente da educação no Brasil, Maria?! É completamente louca essa Maria e não tem um pingo de objetividade, coitada!

Marcos Alberto de Oliveira disse...

Isso só vem se somar ao desempenho pífio do Brasil no PISA (último lugar em 2000, entre 47 países; penúltimo em 2003, entre 40 países, e quinquagésimo segundo lugar entre 57 países em 2006), cuja pontuação sempre ficou abaixo dos 400, isto é, da linha da alfabetização.

O teste do PISA avalia, entre jovens na faixa dos 15 anos, conhecimentos básicos de ciências exatas e naturais, leitura e interpretação de textos vários, de relatório a poema.

Eis uma conquista das esquerdas que ninguém pode negar: somos todos iguais na burrice. Daqui a alguns anos vamos ter execução sumária de nerds e afins.

Maria do Espírito Santo disse...

Com todo o meu sincero e profundo respeito às ciências, Marcos Alberto, às ciências naturais e às matemáticas e entre elas a especial e específica estatística que traduz em números o quase intradutível, o que mais me chamou a atenção foi "leitura e interpretação de textos vários, de relatório a poema". Sim, porque saber ler, nas linhas e nas entrelinhas, é essencial, fundamental, em qualquer área do conhecimento. Quem não sabe "ler" não faz nada: nem ciência, nem filosofia e menos ainda literatura em prosa ou poesia. Saber ler e escrever é o chão. O básico. O indispensável. Quanto ao saber contar, isso é pra quem tem "dom". Como o meu.

Marcos Alberto de Oliveira disse...

Aliás, Maria, eu vi o resultado das 3 edições do Pisa de que o Brasil participou, por área de enfoque, e o trato do estudante brasileiro com as letras corre pari passu com a completa falta de domínio do cálculo elementar. Bom, uma coisa reflete na outra. O aluno que não consegue entender um enunciado básico tá irremediavelmente impossibilitado de avançar nas matemáticas. Eu concordo contigo, ensine o sujeito a ler e escrever bem, ao menos do ponto de vista estilístico e com correção gramatical mínima, que ele aprende a contar, nem que seja o número de letras do alfabeto. O ponto de contado das humanidades com as ciências naturais e exatas ainda é a lógica e a língua.