quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Professores e alunos

O filósofo Roberto Romano homenageia hoje em seu blog alguns ex-alunos, entre os quais este escrevinhador e Paulo Araújo (que, aliás, não conheço pessoalmente). Paulo desmontou a fraude criada pelos chavistas no dia do referendo venezuelano - na qual caíram, vergonhosamente, todos os jornalistas (ver posts abaixo).

Professores têm poucas satisfações na vida. Quase sempre enfrentam as ciumeiras dos colegas, a concorrência por nada (visto que ser conhecido ou "respeitado" na assim dita "comunidade" (rá-rá-rá) acadêmica é igual ao pregado no Eclesiastes, "poeira, nada" (uso a tradução de Haroldo de Campos). A única alegria encontra-se em alunos. Mas não em todos. Existem os estudantes que já nos primeiros anos da graduação escolhem a quadrilha acadêmica a que pertencerão. E também escolhem os seus "amigos" e "inimigos" (praticam Carl Schmitt sem saber, na espera de praticá-lo com plenos conhecimentos, mais tarde) entre os colegas e docentes. Depois vêm os alunos sem rumo e voz, os que "nem estão aí" para os saberes expostos em sala de aula. Depois vêm os desprovidos de capacidade intelectiva, mas esforçados, que merecem suas notas porque atravessam noites com os olhos grudados nos livros. Estes me comovem. Não raro, resultam em bons profissionais, honestos e competentes. Existem os inteligentes preguiçosos, que levam os cursos com os pés nas costas, mas que serão, sempre, apenas espertos. Existem os de inteligência aguda mas de coração pequeno. Existem os sectários, existem milhares de tipos entre os estudantes. Existem (são os que mais me irritam) os que tuteiam o professor, para intimidá-lo forçando uma intimidade impossível, na verdade para conseguir dominar a vontade do mestre. Existem os frios, que nada dizem, nada acenam, até que apresentam um trabalho excelente, mas sem alma. Existem, existem... os que se irritam com a mínimas correções na escrita ou na fala, como se fosse crime o professor exercitar a função para a qual é pago: notar os defeitos e realçar as qualidades dos alunos. Angariei muitos inimigos ferozes entre alunos furiosos porque diminui alguns pontos em suas notas, por causa de alguns defeitos graves de gramática, sintaxe, semântica. Dar uma nota, como viver, é muito perigoso.

Dentre todos os alunos, ou ex-alunos, alguns se distinguem pela imensa polidez, capacidade intelectual, finura no trato, firme convicção nas idéias. Estimo, sobretudo, os que sustentam idéias diferentes das minhas, porque odeio mimetismos.

Orlando Tambosi e Paulo Araújo constituem motivo de orgulho para mim. Inteligentes, bem educados, eruditos, autônomos, eles me ajudam a enxergar coisas no mundo jornalístico e político, coisas das quais não suspeito, apesar de queimar as pestanas para entender este mundo, vasto mundo sem solução.

Segue mensagem recebida por mim, enviada por Paulo Araújo. Apesar do tom pessoal, creio que ela pode ajudar muita gente a perder as escamas dos olhos, sobretudo em relação ao tirano da Venezuela.

Boa leitura das janelas abertas por Tambosi e Araújo. E coração prevenido, porque a Venezuela não está situada nos antípodas, mas abre suas goelas bem ao lado de nossa terra. Leia no Contra a Raison d'Etat).

Obrigado, mestre.

2 comentários:

Maria do Espírito Santo disse...

É prova de alta cultura dizer as coisas mais profundas, do modo mais simples. (Emerson)
Você, Tambosi, e o Paulo Araújo são simplesmente cultos. E os incultos que me desculpem mas cultura é fundamental. Não vomitam erudição. Dizem o que têm a dizer com clareza e limpidez. E quem tiver ouvidos que ouça.
Seu livro, Tambosi, foi um dos melhores livros que eu já li na vida e certamente o melhor sobre o século XX e a sua maior tragédia: a parasitária ideologia sugando os nutrientes da árvore da ciência. E a debilidade científica resultando numa ainda maior dificuldade de acesso ao caminho tortuoso da verdade.
Não perdi apenas as escamas(êca!!! Que expressão biblicamente nojenta, embora exata...) dos olhos como também ganhei novas lentes de raríssima precisão. Não há agradecimento suficiente para quem faz do conhecimento doação, sem qualquer laivo de caridade cristã. Um brinde à minha sorte: Auguri!

Orlando Tambosi disse...

Maria, generosa Maria,

múitíssimo obrigado.