sábado, 21 de março de 2009

O fantasma de Huberman ronda a escola

É inacreditável, mas um dos melhores colégios de São Paulo ainda impinge Leo Huberman aos alunos. Mais especificamente, o capítulo 18 de A história da riqueza do homem, aquele mesmo em que o jornalista e professor norte-americano (falecido em 1998) sustenta que "Marx e Engels anteciparam o colapso do capitalismo" e que "o socialismo é inevitável". Trata-se de uma obra velhíssima, escrita nos anos 30 e muito utilizada nos anos 60 e 70 inclusive nas universidades, principalmente na área de "ciências sociais".

Quem lembra o fato é Carlos Alberto Sardenberg. Em seu recente livro Neoliberal, não. Liberal (SP, Edit. Globo, 2008), escreve o jornalista:

Hoje, nem seria preciso dizer, a história está clara para quem quiser ver. Na prova sobre o capítulo 18 de A história da riqueza do homem, deveria tirar nota dez o aluno que escrevesse: a história, tão cara a Huberman, o traiu completamente: o colapso foi o do socialismo, e o inevitável é o capitalismo.

Sardenberg observa - com razão - que por aqui ainda domina o pensamento anti-capitalista. Nossas elites estudaram Huberman, mas não leram nem estudaram Adam Smith:

E parece que estão transmitindo o mesmo viés às novas gerações. Os colégios que fazem provas com A história da riqueza do homem não mandam os alunos ler A riqueza das nações. O equívoco escolar leva a uma dificuldade na vida prática, pois, formado, o aluno cai no mundo de Adam Smith, não no de Huberman, que jaz na lata de lixo da História.

12 comentários:

Gian disse...

O problema é que a prosa do velho Huberman é muito boa.
Quando fiz o colegial, fui obrigado a ler alguns capítulos deste livro.
Muitos anos depois, encontrei-o encaixotado e resolvi lê-lo inteiro. Os primeiros capítulos são muito bons, mas quanto mais próximo ele ficava do tempo histórico em que Huberman viveu, pior ficava. A partir do advento do socialismo, meu estômago não aguentou mais.
Como o comunismo, esse a História da Riqueza do Homem é muito sedutor à primeira vista, mas horrível quando nos aprofundamos.

Maria do Espírito Santo disse...

"Ou feia ou bonita, ninguém acredita na vida real".

Claro que li A História da Riqueza do Homem, no básico da fafich, mais exatamente em 1980.

Quem teve um curriculum vitae conturbado acredita pouco no muito que lhe é tentado vender no pregão dos livros didáticos indicados.

A princípio, sempre deixei os textos indicados pelos professores em suspenso. Havia grandes hiatos entre as obras recomendadas e a vida real, concreta, ameaçadora ou sei lá quais epítetos mais lhe consagrar, que era a minha vida, e que como vida minha que era, exigente de escolhas minhas imponderáveis e inexoráveis.

As escolhas que fiz na vida foram baseadas na minha experiência e nas experiências alheias que eu julguei válidas.

Livros? Didáticos, científicos, literários, davam apenas pistas: às vezes precisas, outras vezes confusas.

Então... Como compor uma decisão?

Só, no sótão
Pó, no porão...

LesPaul disse...

Professor, num acredito. O cabra ainda viceja que nem praga nas paragens acadêmioc. achei o meu volume "prescrito"na Ufsc em 81. Editora ZAHAR, 16 ed. de 80. Cjustei um pouco para achá-lo envergonhado junto a outras pérolas aviadas à época. Não achei as notas marginais que esperava, apenas uns parágrafos subklinhados aqui e acolá. Coisas do tipo: "Nessas crises, uma grande parte...das forças produtivas anteriormente criadas (sic) é periodicamente destruída. A sociedade verifica de súbito que regrediu a um estado de barbárie monetária"... transcreve com assombroso vaticínio... Nao,isso não foi escrito ontem. Está no manifesto Comunista, que Marx... TRAZ O SAQUINHO...arghhh (p. 271 - O Elo Mais Fraco)

Anônimo disse...

Dei uma fuçada no google (programa disciplina huberman bibliografia)e encontrei o Huberman até em programa de curso de economia.
Aparece em programas de universidades de todo o país.


Felipe

Orlando Tambosi disse...

Boa, Felipe. Tem até disciplina da USP.

Eita, Grotão!

Leticia disse...

Maria, adorei seu comentário!

Portanto, posso dizer, quanto a Huberman e minha vida real, que o meu exemplar do dito-cujo é um sério candidato ao sebo mês que vem.

LesPaul disse...

Não faça isso Letícia... algum incauto acaba sendo aliciado pela cartilha...

Maria do Espírito Santo disse...

Manda pra tia Marilena, Lets.

Diz que é uma doação para a futura biblioteca itinerante que ela bem que poderia fundar.

E sugira o nome da biblioteca: Luz de Lula. Lindo não?

A luz de Lula entrará no lares populares!

Ercy Soar disse...

Também fui catequisado nessa cartilha, em finais dos 70. À época, parecia tudo tão claro e o futuro tão lindo...
Quando vi o nome do sujeito no título do post, pensei comigo: já ouvi falar dele; quem é mesmo???
O mundo dos vivos está povoado pelos fantasmas dos mortos, alguns dos quais bem que merecem cair de vez no limbo. Sem qualquer conotação "espiritualista", porque nesse campo continuo mesmo materialista!

Tibiriçá Ramaglio disse...

Sobre Huberman, só posso reiterar o que todos disseram, é claro. É impressionante que apareça em programas universitários, um livro escrito para o público do high school da primeira metade do século passado. Outro dia, vi uma edição novinha em folha dele numa livraria, o que já tinha me chamado a atenção.

Anônimo disse...

O problema não está em impingir este ou outro autor, mas em não incentivar a leitura que está cada vez mais escassa nos currículos escolares. Eu li Huberman no colegial, hoje nem os clássicos portugueses e brasileiros são indicados como leitura obrigatória.

Leticia disse...

LesPaul, nem pagam muito. Mas serve como troco para as horas perdidas de leitura.

Fazer alguma coisa "digrátis" para Marilena, Maria? Nem morta!