Reproduzo aqui um interessante artigo da polêmica antropóloga italiana Ida Magli, publicado originalmente, sob o mesmo título, na revista L'Espresso. E deixo a provocação: existe fanatismo fora das religiões e das ideologias?
O conceito de fanatismo é paralelo ao de tolerância. Qualifica os comportamentos que consideramos irracionais porque absolutos, privados de qualquer abertura à dúvida, à compreensão de idéias e de direitos diferentes dos nossos. É, por isso, um conceito nascido no mundo europeu - e somente nele poderia surgir -, como consequência da dúvida em relação a qualquer certeza absoluta, atitude desenvolvida com o Renascimento, com o pensamento científico, com os primeiros passos do homem fora da tutela de Deus. Em outras palavras, fanatismo e tolerância são categorias conceituais originárias do fim da certeza na existência de Deus e, portanto, do próprio conceito de certeza: Deus e certeza são a mesma coisa.
Por mais paradoxal que pareça, os homens começaram a confiar no próprio saber, no próprio conhecimento das leis da natureza - em suma, em si mesmos - apenas no momento em que passaram a se dar conta de sua fragilidade, de sua insegurança, da relatividade e contingência das suas próprias convicções. Este é um dos motivos pelos quais, geralmente, a opinião pública tende a atribuir hoje à ciência as certezas que antes atribuía à religião, pois lhe é praticamente impossível compreender que o cientista é aquele que sabe mais só enquanto está em condições de formular continuamente novas hipóteses, diferentes das que já possui.
Os fanatismos, portanto, não existem. O que existe é a fé. Quem crê não é nem fanático nem não-fanático: é crente. Deus e o Absoluto são a mesma coisa. É de se acrescentar, aliás, que os fanatismos se desenvolveram e se desenvolvem mais no âmbito das religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo, islamismo): onde Deus é um só, não podem susbsistir dúvida sobre sua vontade, ao passo que, se existem mais deuses, é evidente que existem também diferenças entre eles. Sob esse aspecto, continua exemplar, na história, o benévolo costume dos romanos em relção a todas as religiões - mas o motivo de tal benevolência deve ser buscado exatamente na lógica inerente ao politeísmo a que os romanos se mantinham estreitamente ligados.
Assim, cunhamos o conceito de fanatismo somente porque não somos mais crentes, e definimos fanáticos os comportamentos que até há pouco tempo nos levavam, também nós, a guerras, abusos e violências terríveis em nome de uma única verdade. É suficiente recordar a destruição do paganismo, as Cruzadas, a imposição do batismo a todos os povos, a perseguição dos hereges, dos hebreus, dos ciganos. Necessário dizer, também, que o princípio da tolerância é dificílimo de trabalhar, tanto assim que é, por sua vez, formulado em termos absolutos (ouve-se repetir continuamente o dito voltaireano: "lutarei até à morte para que possas expressar tudas idéias", sem que ninguém perceba o caráter absoluto e, portanto, fanático, de tal asserção); e a tolerância é, com frequência, imposta com muita rigidez. Por isso é que o Ocidente preferiria não "julgar" as religiões, por medo de parecer intolerante. Acaba, contudo, por fechar os olhos diante do fato evidente de que quase todas as guerras e conflitos contemporâneos nascem no âmbito das filiações religiosas.
Palestina, Irlanda do Norte, a ex-Iugoslávia e muitos países africanos, quaisquer que sejam as motivações territoriais, econômicas, sociais e políticas, são na realidade dilacerados pelas diversidades religiosas que, contudo, substanciam sua identidade como povos. Ainda mais com o terrorismo, quando agem fora dos poderes institucionais. Mas, uma vez mais, o terrorismo não poderia nascer senão no âmbito das religiões monoteístas, religiões do sacrifício. É aqui que todos somos conclamados a ser iguais: na necessidade do sacrifício, na "comunhão" das vítimas.
7 comentários:
Os crentes, felizes detentores do monopólio da certeza e da verdade sobre o mundo supra-sensível, acusam os céticos de serem reducionistas, de se limitarem aos estreitos territórios da ciência, ciência essa que, segundo eles, também advém de Deus, ou seja, a única saída é entrar no labirinto da tautologia e acreditar que a saída será guiada por Deus, jamais pelos mesquinhos passos humanos, sempre guiados pela vil experiência da tentativa e erro.
É um círculo vicioso e viciado, cachorro perseguindo o próprio rabo.
A equação é simples:
Eles, os crentes, possuem a Verdade do Deus Único. O círculo ou sistema está fechado, não pra balanço, posto não haver o que balançar no sistema de crenças dogmáticas, mas para todo "talvez, quem sabe".
Eles sabem porque confiam. E confiam porque sabem. E sabem porque confiam. E confiam porque sabem. Ad infinitum.
Quanto aos céticos, esses fazem da dúvida a sua bengalinha de cego: guiam-se por ela.
A única certeza absoluta que têm os céticos é da sua própria cegueira em relação ao mundo supra-sensível, mas a bengala da dúvida vai mostrando a eles os perigos reais não do outro mas deste mesmo e intrincado mundo: os degraus, as valas, os obstáculos. E curiosamente vai mostrando também os terrenos seguros.
Dizer "eu tenho dúvidas" no lugar de "eu tenho a verdade" deveria ser considerado um serviço de utilidade pública.
Infelizmente quase todos preferem negar a própria cegueira e abandonar a bengala em favor do cajado do bom pastor, o qual, segundo a lenda, dá a vida por suas ovelhas.
E em vez de assumirem a condição real de cegos humanos, preferem crer no seu bom pastor e balirem rogos desatinados sempre que se sentirem ameaçados.
Excelente, Maria! Respondendo à provocação do Tambosi: talvez só no futebol. Não há fanatismo nas ciências, na filosofia, nas artes. A autora tem razão, fanático só pode ser quem é movido pela fé.
Felipe
Eu consigo compreender os fanaticos religiosos, sério mesmo
O que não me entra na cabeça é o povo "esse é o Deus que criou o universo e que vai decidir sobre o meu futuro ETERNO entre a dor ou a glorificação... mas não é pra levar tão a sério assim..."
Ou a coisa é séria ou não é
O meio termo que é o mistério
No futebol as jogadas, os dribles, os gols são reais, Felipe.
Se o time do torcedor ganha depois de jogar bem ganha aplausos. Se joga mal e perde ganha vaias.
Os torcedores que se dizem fanáticos são é danados de realistas.
Correta a autora.Só religiosos, que se julgam possuidores da verdade única e independente da experiência, é que podem se tornar fanáticos. Todas as religiões contaram e contam com fanáticos em suas fileiras.
Paulo Fratelli
Voces estão esquecendo os ecoterroristas, o vegetarianos, os fumantes, os contra os fumantes...
Existe terrorismo também fora da religião.
Os ecochatos são o que são: chatos. Acreditam no "verde", na "mamãe natureza", no aquecimento global e no incenso Ananda. Defendem posições. Chatas, desagradáveis, como brincou outro dia o Tambosi, só falta apedrejarem os tabagistas.
Quanto aos que defendem princípios totais do gênero "Absoluto", esses são muito mais perniciosos.
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