sábado, 4 de novembro de 2017

Enem, para os não ingênuos.

O Enem é um projeto de poder arquitetado há décadas. Entra governo, sai governo, continua mais vivo - e trapalhão - do que nunca. Percival Puggina: "esse monstrengo chamado Enem não é apenas uma fonte de colossais trapalhadas. É um instrumento de poder. Impõe a homogeneização de currículos. Regula visão de mundo, de história e de sociedade. Controla posições sobre pautas políticas e violenta a liberdade de opinião dos estudantes":


A maioria dos brasileiros não sabe como funciona o Enem, o tal Exame Nacional do Ensino Médio. Nem imagina como um aluno possa prestar exame no Amazonas e ser qualificado para cursar Arte Dramática no Rio Grande do Sul. Menos ainda haverá de entender a lógica dessa perambulação acadêmica em meio à miscelânea das cotas, das linhas de corte e múltiplas escolhas (como se a opção por uma graduação universitária fosse questão de nota, da cor da pele e de onde se estudou antes, e não de vocação).

Pois eu também não consigo penetrar nesse emaranhado. Mas sei, a esse respeito, algo que todos deveriam saber. O Enem é um dos mais importantes instrumentos de concentração do poder político nas mãos de quem já o detém e nele se incrustou de modo quase irreversível. É parte de um projeto de hegemonia que já conta quase quatro décadas de planejamento e execução. Tudo se faz de modo solerte e gradual, para que a sociedade não perceba estar transferindo soberania e sendo politicamente manipulada. De fato, se não somos agentes desse projeto, se não compomos quaisquer dos grupos ideológicos e de interesse que se articulam para esse fim, tornamo-nos inocentes inúteis, cidadãos descartados de uma democracia a caminho da extinção por perda de poder popular e inanição do poder local.

É possível que o leitor destas linhas considere que estou delirando. Ou que não seja bem assim. Talvez diga que mudei de assunto e que o primeiro parágrafo acima nada tem a ver com o segundo, ou seja, que Enem nada tem a ver com poder. Pois saiba que tem, sim. Peço-lhe que observe a realidade do município onde vive. Qual o poder do seu prefeito, ou de sua Câmara Municipal? O que eles, efetivamente, podem realizar pela comunidade? Da ambulância ao asfaltamento da avenida, quais os sinais de progresso que acontecem aí sem que algo caia da mão dadivosa da União? Quais são as leis locais que você considera importante conhecer? E no Estado? Tanto o Legislativo quanto o Executivo constituem poderes cada vez mais vazios, que vivem de promessas e criação de expectativas, empurrando a letargia com a barriga e empanturrando a sociedade de palavras.

Observe que todas as políticas de Estado que podem fazer algum sentido na vida das pessoas são anunciadas no plano federal (que venham a acontecer é outra conversa). Por quê? Porque é lá que estão concentrados os recursos. O poder político que comanda o país conta muito com seu elenco de prerrogativas exclusivas. Mas o poder que tudo pode, como temos testemunhado à exaustão, pode até o que não deve poder. Esse monstrengo chamado Enem não é apenas uma fonte de colossais trapalhadas. É um instrumento de poder. Impõe a homogeneização de currículos. Regula visão de mundo, de história e de sociedade. Controla posições sobre pautas políticas e violenta a liberdade de opinião dos estudantes. Age contra as diversidades regionais ideologizando as múltiplas escolhas e transmitindo a sensação de que a Educação, o exame e o ingresso no ensino de terceiro grau são dádivas de um onisciente guru brasiliense que tem o gabarito de todas as provas. Estou descrevendo a ação abusiva de um gigante das sombras: o poder dos burocratas instalados no Ministério da Educação.

As cartilhas, os livros distribuídos às escolas, os muitos programas nacionais voltados ao famigerado "politicamente correto", a imposição da ideologia de gênero, tudo flui para o Enem e dele necessita. Ele serve aos oráculos de um projeto de poder, do único que de fato mobiliza energias políticas no país, de modo permanente, há quase quatro décadas.

2 comentários:

Anônimo disse...

Não entendo este artigo.

O autor poderia dar exemplos de perguntas que sustentem seus argumentos.

Por outro lado, assim como temos o estado, hoje também temos as igrejas.

https://oglobo.globo.com/brasil/desde-2010-uma-nova-organizacao-religiosa-surge-por-hora-21114799

Então as famílias poderiam estar atentas ao que acontece no Brasil.

Mas o que se ensina nas Igrejas?

Se o brasileiro continua a ser dominado pelo estado, sera que as igrejas são outro modo de sugar dinheiro e lavar a cabeça do pobre coitado que nada entende ?

O quarto paragrafo é muito interessante. E para os observadores, é obvio que a Republica Brasileira nada tem de "federal".

Alguém sabe como funciona o pacto federal o como são repartidos os recursos impositivos?

Temos um governo unitário que suga recursos dos municípios e dos estados, com todos os partidos vendendo promessas de futuros melhores, mas nenhum com caráter para mudar.

Por que? Porque são todos "falsos".

Nossa perdicao é a constituicao de 1988.

*

OS CIDADÃOS DE BEM ESTAMOS ÓRFÃOS. E PARA ENCONTRAR UMA LUZ QUE NOS ORIENTE ESTA BEM DIFÍCIL.

Maria Gontijo disse...

Não há espaço para o indivíduo (o indivisível indivíduo) no Grotão. Não há mais espaço sequer para as referências clássicas de homem e mulher: a multiplicidade de gêneros invadiu - e substituiu - os arquétipos de homem e de mulher por algo sutil, vaporoso e transitório: o conceito de trans-gênero. Esta base para sermos todos encaixados em algum grupo (ou, em outros termos, em algum padrão coletivo) é extremamente perigosa para a autonomia de pensamento, justamente porque nega essa autonomia desde sua raiz. As crianças estão sendo instadas a "escolher" a sua identidade sexual, ou seja, a que grande agrupamento humano desejam pertencer. Onde parece haver uma liberdade completa, o que há, de fato, é uma grande prisão do individual (com suas frustrações, suas aleluias e lamentações) no grande grupo "redentor" dessas frustrações, aleluias e lamentações individuais...
Perigo, perigo, perigo! Como dizia o robô do Perdidos no Espaço.
Oh, admirável mundo novo que produz coletividades assim, apud Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo.