quarta-feira, 23 de maio de 2018

"Arrancar o útero fora": a 'ética' do feminismo antinatalista.

Antinatalismo, aparentemente, surgido entre europeias entediadas (como quase todo europeu), é o seguinte: mulheres jovens tiram o útero logo cedo a fim de marcar sua recusa à maternidade como ato ético sublime. Sim: arrancar o útero como ética. Coluna de Luiz Felipe Pondé, publicada na FSP:


“O que o título acima quer dizer?”, pergunta-me a leitora assustada, nesta segunda-feira. Imagino-a levando a mão ao ventre e sentido a dor que essa ideia traz consigo: “Arrancar o útero fora”.

Passamos todos por processos na vida, como indivíduos e como grupos. No caso específico das mulheres mais jovens, hoje em dia, intriga-me o fato que, ao lado de expressões em que “útero” ocupa o lugar do “saco” como exemplo de coragem (o que reconheço como verdade para as mulheres, uma vez que dar à luz sempre foi um indício da força do sexo feminino que me encanta), a tendência a recusar a função em si do útero (gerar filhos) seja crescente.

Mas, para além do fato evidente de que as pessoas podem fazer o que quiserem com seus corpos (vamos deixar isso claro antes que algum inteligentinho venha encher o nosso saco), um novo fenômeno me chamou atenção nos últimos tempos: o antinatalismo.

Você não sabe o que é? Não, nada tem a ver com algo contra o Natal cristão, apesar de, sim, ter a ver com a ideia de ser contra o nascimento de crianças.

Antinatalismo, aparentemente, surgido entre europeias entediadas (como quase todo europeu), é o seguinte: mulheres jovens tiram o útero logo cedo a fim de marcar sua recusa à maternidade como ato ético sublime. Sim: arrancar o útero como ética.

Há algum tempo tenho evitado a palavra ética, como também as palavras energia e cabala, porque, de tanto serem usadas, já não significam nada. Mas confesso que o uso da palavra “ética” ao lado de “arrancar o útero” me parece incomum. Por que uma menina chegaria à conclusão que deve tirar o útero para ser ética?

Claro que não ter filhos pode ser visto como algo bom de várias formas, algumas confessáveis, outras inconfessáveis. 

As confessáveis, que me soam falsas, são do tipo: não vou ter filhos porque já tem criança demais no mundo, melhor adotar uma pobre, a espécie humana é excessivamente predadora, logo, melhor sumir da face da Terra, deixemos o planeta para golfinhos e baratas, são tão fofos!

As inconfessáveis (que acredito serem mais verdadeiras) são do tipo: não vou ter filhos porque criança custa caro, dura muito tempo, enche o saco, atrapalha a Netflix, me impede de viajar quando quero e, pior, faz eu me sentir responsável por ela, e isso é uma forma da opressão patriarcal, além de que, é claro, filhos dão rugas, derrubam o seio e atrapalham o mercado de trabalho.

Devo ir com calma, porque a sensibilidade excessiva de uma humanidade que optou pelo retardo mental como “ética” pode entrar em agonia diante dos meus argumentos inconfessáveis para não ter filhos.

O fato é que os argumentos confessáveis aparecem no discurso de algumas antinatalistas. Há um interessante cruzamento delas com uma forma de veganismo radical. 

A ideia é que as mulheres que procriam colocariam (antieticamente) mais humanos na Terra, que seguiriam com seus modos de torturar os pobres dos animais. Muito comumente, antinatalistas são veganas, mas não necessariamente o contrário é fato.

Para ouvidos atentos, os argumentos inconfessáveis soam machadianos: o niilista Brás Cubas, criação de Machado de Assis (1839-1908), afirma no final do romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas” que pelo menos não teve filhos e, por isso, não passou adiante a herança da miséria humana.

Entretanto há no niilista uma certa dignidade que não há nas antinatalistas. O niilista acha a humanidade um lixo e se vê como um ser cruel e cínico. A antinatalista se leva muito a sério e se vê como um ser sublime que quer salvar o mundo através do que é, na verdade, pura preguiça, narcisismo, falta de amadurecimento, recusa de responsabilidade e por aí vai. A antinatalista é uma mimada que mente sobre o seu próprio ato. Mas há algo a mais por detrás do seu ato.

Orígenes (184-253), grande padre da patrística grega, um dos primeiros grandes filósofos do cristianismo, ficou conhecido não só pela sua obra mas também pela autocastração como forma de combate a concupiscência da carne. Isso meio que queimou o filme dele na tradição e com os parceiros. Vejo alguma semelhança entre a autocastração de Orígenes e a automutilação das antinatalistas. Em ambos os casos há um horror ao sexo e ao que é humano. Contra o que os inteligentinhos pensam, engravidar uma mulher é um ato muito erótico.

E isso tudo acontece nas barbas dos psicanalistas que ficam brincando de cientistas políticos enquanto o horror ao sexo cresce.

5 comentários:

Anônimo disse...

TIREM O ÚTERO, EUROPEIAS, E DEIXEM QUE OS MUÇULMANOS COM ATÉ 4 MULHERES RESOLVAM O PROBLEMA DA DESPOPULAÇÃO!
De quebra, vs ainda ajudam eles a viverem às suas custas!
De cara, vs não sabem que em breve serão, ou muçulmanas na marra ou então serão deportadas ou escravizadas se recusarem a comporem o harém dos novos futuros donos do país!
A Bélgica, por ex., calcula-se que em 2030 seja muçulmana e eles são como os 3 irmãos gemeos comuononazifascistas, iguais no básico: fortemente opressores, estatizantes, escravagistas, discriminadores e super intolerantes com quem discordem deles, além de genocidas, também, pois o proprio Alcorão incentiva a violencia e como!
O Alcorão tem servido a uma sucessão interminável de ditadores árabes a fim de manter o povo árabe em silêncio diante das mais inomináveis atrocidades perpetradas por homens injustos e amantes do mal - e ai de quem discordar ou quiser o contestar mesmo entre eles!
Porém não apenas no O Médio, mas onde o regime islâmico se implante, seguem à sua criação as ditaduras despóticas, as opressões, a tirania e as perseguições políticas e religiosas, especialmente a cristãos católicos, sucedendo de pai para filhos!
Por isso, os países árabes estão atrasados como no tempo de Cleópatra!
CONFIRAM, DENTRE MAIS PIORES AINDA, TRECHINHOS DO ALCORÃO:
“O castigo, para aqueles que lutam contra Alah e contra o Seu Mensageiro(Maomé) e semeiam a corrupção na terra, é que sejam mortos, ou crucificados, ou lhes seja decepada a mão e o pé opostos, ou banidos. Tal será, para eles, um aviltamento nesse mundo e, no outro, sofrerão um severo castigo” – Alcorão, Suratra 5,33
"Foi Ele Quem enviou o Seu Mensageiro, com a orientação e com a verdadeira religião, para fazê-la prevalecer sobre toda a religião, ainda que isso desgoste ou mate os idólatras." Alcorão, Surata 61-9
"Os judeus dizem: Ezra é filho de Deus; os cristãos dizem: O Messias é filho de Deus. Tais são as palavras de suas bocas; repetem, com isso, as de seus antepassados incrédulos. Que Deus os combata! Como se desviam! Alcorão, Surata 9-30
"Ó fiéis, combatei com furor os vossos vizinhos incrédulos para que sintam severidade em vós; e sabei que Deus está com os tementes." Alcorão, Surata 9-123
"Matai-os onde quer se os encontreis e expulsai-os de onde vos expulsaram, porque a perseguição é mais grave do que o homicídio. Não os combatais nas cercanias da Mesquita Sagrada, a menos que vos ataquem. Mas, se ali vos combaterem, matai-os. Tal será o castigo dos incrédulos." Alcorão, Surata 2-191

Anônimo disse...

"Filhos? Melhor não tê-los! Mas se não os temos, como sabê-los?" (Vinícius de Moraes)

Anônimo disse...

Julio Cabrera descreve a procriação como um ato manipulador e prejudicial, que envia de forma unilateral e não-consensual um ser humano para uma situação dolorosa, perigosa e moralmente inabilitante. Ou seja, para atender a interesses próprios e egoístas, os seres humanos colocam no mundo seres que não tiveram a chance de decidir se desejavam ou não nascer. Os motivos egoístas que levariam as pessoas ao ato de colocarem no mundo uma pessoa que inevitavelmente irá sofrer (psicologicamente ou/e fisicamente) seriam: 1 - o desejo de satisfazer suas próprias necessidades de gozo sexual. 2 - o desejo e o gozo de manipular um outro ser humano e exercer poder sobre o mesmo [29] .

Para o filósofo, o sofrimento seria inevitável na vida humana e, por essa razão, aquele que coloca uma criança no mundo seria responsável direto por todos os sofrimentos que tal ser vivo vier a passar durante sua vida. Cabrera nos diz que as pessoas geralmente têm uma percepção equivocada a respeito da relação dor e prazer na vida humana. Para ele, pensaríamos equivocadamente que a vida seria uma coleção de boas sensações com alguns momentos desagradáveis. Todavia, o oposto seria a verdade. A maior parte de nossas sensações em relação aos mundos externo e interno (nossas mentes) seriam desagradáveis ou simplesmente neutras. As sensações prazerosas seriam apenas curtos momentos em meio a estas sensações desagradáveis ou neutras, como se fossem pontos em uma linha reta. [30]

Cabrera considera a procriação uma manipulação ontológica e total: o próprio ser de alguém é fabricado e usado, e portanto, em contraste com casos intra-mundanos em que se é colocado em uma situação danosa, no caso da procriação não há qualquer possibilidade de defesa contra esse ato. Segundo Cabrera, a manipulação na procriação é visível principalmente no caráter não-consensual e unilateral do ato, de maneira que procriar é per se e inevitavelmente assimétrico, seja produto de premeditação, seja produto de descuido; está sempre atrelado a interesses (ou desinteresses) de outros humanos, não do humano criado. Além disso, Cabrera aponta que, em sua opinião, a manipulação da procriação geralmente não se limita ao ato de criação em si, mas continua no processo de formação da criança, durante o qual os pais obtém grande poder sobre a vida da criança, que é moldada de acordo com as preferências dos pais e para sua satisfação. Ele enfatiza que, embora não seja possível evitar a manipulação durante a procriação, é perfeitamente possível evitar a procriação em si, e que, então, nenhuma regra moral é violada.

Anônimo disse...

Cabrera acredita que a situação na qual alguém é colocado através da procriação, a vida humana, é "estruturalmente negativa", na medida em que seus componentes constitutivos são inerentemente adversos. Os mais proeminentes desses componentes são, segundo ele, os seguintes:

A) No nascimento, o ser humano ganha um ser decrescente (ou "minguante") no sentido de um ser que começa a acabar desde seu mero surgimento, seguindo uma direção única e irreversível de desgaste e declínio e cujo total acabamento pode consumar-se a qualquer momento.
B) O ser humano é afetado, desde o início do seu surgimento, por três tipos de atrito: dor física (em forma de doenças, acidentes e catástrofes naturais às quais está desde sempre exposto); desânimo (na forma do "faltar a vontade" (a "gana") de continuar agindo, desde o simples taedium vitae até formas graves de depressão); e, finalmente, a exposição à ação agressiva de outros humanos (de fofoca e calúnia a várias formas de discriminação, perseguição e injustiça), também eles submetidos aos três tipos de atrito.
C) O ser humano está equipado com mecanismos de criação de valores positivos (éticos, estéticos, religiosos, lúdicos, bem como valores contidos em realizações humanas de todo tipo) que funcionam como defesa contra A e B, mecanismos que o humano deve manter constantemente ativos. Todos os valores positivos que aparecem dentro da vida humana são reativos e paliativos; eles são introduzidos pela luta permanente, ansiosa, esforçada e com resultados incertos que livramos contra o ser decrescente e atritado ganho no nascimento. 
Cabrera denomina o conjunto dessas características A–C de "terminalidade do ser". Ele acredita que um grande número de humanos em todo o mundo não consegue suportar essa luta íngreme contra a a estrutura terminal do seu ser, o que leva a consequências destrutivas para eles e outros: suicídios, doenças mentais de maior ou menor gravidade ou comportamento agressivo. Ele aceita que a vida pode – pelo próprio mérito e esforço dos humanos – ser tolerável e mesmo muito agradável, mas considera problemático trazer alguém à existência para que tentar tornar sua vida agradável ao lutar contra a situação difícil e opressiva que lhe damos ao gerá-lo. Parece mais razoável, segundo Cabrera, simplesmente não colocá-lo nessa situação, já que os resultados de sua luta são sempre incertos.

De acordo com Cabrera, na ética, e também nas éticas afirmativas, há um conceito abrangente que ele chama de "Articulação Ética Fundamental", em suma "AEF": a consideração dos interesses dos outros, não manipular e não prejudicar. A procriação é para ele uma violação óbvia da AEF – alguém é manipulado e colocado numa situação prejudicial como resultado dessa ação. Em sua opinião, os valores incluídos na AEF já são amplamente aceitos pelas éticas afirmativas e, se abordados radicalmente, devem levar à recusa da procriação.

Anônimo disse...

Para Cabrera, a pior coisa na vida humana, e consequentemente na procriação, é o que ele chama de "inabilitação moral": ao procriar, gera-se outro humano que não poderá viver moralmente. Essa inabilitação não ocorre por causa de uma "maldade" intrínseca da natureza humana, mas por conta da situação estrutural em que os seres humanos se encontram desde sempre. Nessa situação, os humanos são acuados por vários tipos de dor, há espaços limitados para ação, e interesses diferentes muitas vezes conflitam entre si. Concordando com Freud, o autor nos mostra que um dos grandes problemas enfrentados pelas pessoas que desejam agir moralmente é que as diferentes consciências que coexistem num mesmo espaço geralmente entram em conflitos por conta de diferentes interesses. Além disso, não precisaríamos ter más intenções para tratar os outros com desconsideração, pois somos compelidos a fazê-lo para sobreviver, perseguir nossos projetos e fugir do sofrimento. Cabrera também chama a atenção para o fato de que a vida está associada ao risco constante de se sentir fortes dores físicas, o que é comum na vida humana, por exemplo, como resultado de uma doença grave ou simplesmente por conta de agentes agressores e objetos externos ao corpo, e sustenta que a mera existência de tal possibilidade nos impede de um agir moral constante. Por conta disso, podemos a qualquer momento perder, como resultado da ocorrência da dor, a possibilidade do agir moral e ético.

"A ideia central é que os humanos estão colocados já desde o nascimento numa condição de sofrimento triplo na forma de atritos específicos: (a) as dores físicas das doenças e feridas diversas do próprio corpo; (b) o desânimo permanente das empreitadas, sob a forma do tédio, a depressão, a desistência, estresse, cansaço, falta de vontade, contra as quais constantemente os humanos têm que lutar; e, por fim, (c) os sofrimentos decorrentes das relações conflituosas com outros humanos sob a forma de injustiças, ofensas, falta de reconhecimento, injúrias, perseguições, calúnias, invejas e agressões diversas. Desde o começo da vida, os humanos estão acuados por estes atritos contra os quais deve imperiosamente desenvolver reações defensivas, especialmente na forma da criação de valores positivos de todo tipo (estéticos, éticos, religiosos, práticos, etc). Acontece que, na geração imperiosa de valores (não se trata de um ato livre e espontâneo: ou criamos valores positivos ou perecemos), os humanos, fugindo de seus próprios atritos (dor física, desânimo, agressão social), atropelam inevitavelmente as invenções de valores positivos dos outros humanos, mesmo com criações dos valores mais sublimes valores, produzindo aos outros novos atritos (podemos machucá-los, desanimá-los ou desabilitá-los moralmente. Por exemplo, nada impede que eu ofenda os valores dos outros quando assumo, para minha própria proteção, valores religiosos sublimes; de fato, estes valores já foram usados para machucar corpos e arrasar culturas)." [31]

Ou seja, o ser humano seria um animal consciente que, por conta de suas necessidades biológicas mais básicas - necessidade de alimentação, de busca de abrigo e parceiros para acasalamento (necessidade do gozo sexual), necessidade constante de fugir da dor e de excretar resíduos - assim como de suas necessidades sociais - como busca por status social, afeto, reconhecimento e consideração pelos demais, medo da solidão e da marginalização social - seria incapaz de agir moralmente todo tempo.