sexta-feira, 25 de maio de 2018

Democracia atropelada

Numa democracia, não se pode impedir o direito de ir e vir, como tem feito os caminhoneiros em greve. O que eles manifestam é sua vinculação à tradição autoritária, como bem observa editorial da Gazeta do Povo: "não cedem um milímetro em suas reivindicações e fazem ouvidos moucos ao chamamento à razoabilidade. Confirmam, assim, que seu movimento nunca teve nada de democrático. Pelo contrário, é mais do velho autoritarismo e do corporativismo à brasileira":


Há tempos se sabe que a democracia não é apenas um regime de eleições periódicas, nem só de autotutela direta sobre os próprios interesses. Há direitos a serem protegidos, procedimentos formais a serem seguidos, instituições a serem respeitadas. Em uma democracia sadia, ninguém pode arvorar-se dono da sociedade civil e tentar impor seu projeto pessoal de sociedade. Isso não significa que as pessoas devam abrir mãos de suas convicções ou de buscar soluções para seus problemas. Ao contrário, uma democracia é tanto mais vibrante quanto mais as pessoas levam a sério o valor umas das outras e se engajam no diálogo e no convencimento livre. Do contrário, a coisa pública é apropriada por interesses privados e momentâneos – mesmo que sejam da maioria – em detrimento do bem comum, e força prevalece sobre o direito.

Não se nega que os caminhoneiros autônomos, quem primeiro levantou a voz sobre os preços do diesel, possam ter razão em algumas de suas reivindicações. Talvez a política de reajuste quase diário dificulte o cálculo do frete em um mercado já fortemente onerado e depreciado pelo aumento da oferta, decorrente da política de subsídios do governo Dilma Rousseff (PT). Entende-se que as pessoas estejam bravas, que a retomada da economia patine, mas há um sem-número de alternativas legítimas para defender as próprias pautas em uma democracia.

Os caminhoneiros alegam que não foram ouvidos pelo governo antes de começarem a greve. Poderiam ter engajado a sociedade civil por meio de manifestos e carreatas. Poderiam ter envolvido com mais força seus representantes no Legislativo, para aumentar a pressão sobre o Executivo. Poderiam ter feito paralisações parciais ou de apenas um dia. Poderiam desde o início ter isentado itens de necessidade básica, como insumos hospitalares, e alimentos perecíveis de ficarem parados nas estradas. Não fizeram nada disso e escolheram paralisar as atividades de uma vez, colocando o país de joelho por meio da chantagem.

Já explicamos neste espaço, com pesar, que esse estado de coisas levou a classe política a pensar em soluções inadequadas, que tendem a sacrificar ainda mais as contas públicas e fomentar o populismo em detrimento da eficiência de longo prazo do mercado de refino – o que tenderia a beneficiar a todos no fim das contas. Seja como for, por mais que os caminhoneiros tivessem adotado um caminho autoritário desde o início, o país estava com o abacaxi nas mãos e as autoridades precisaram oferecer alguma solução. Ela envolve ou sangrar a Petrobras, ou onerar Tesouro ou bancar a política de preços e a meta fiscal e, se o movimento se mostrar intransigente, enfrentar com força policial a arruaça nas estradas, que está levando o país à beira do caos. Em uma democracia, o uso da força, sempre balizado pelo direito, é uma alternativa legítima – ainda mais agora que há bons indícios de que entidades patronais, pegando carona na bagunça, estejam estimulando a greve, o que é ilegal.

A combinação entre a ignorância de preceitos básicos da convivência democrática, um governo politicamente fraco e uma classe política que está respondendo a demandas de curtíssimo prazo levou a uma proposta mais do que generosa do governo na noite de ontem (24). Não há sinais de que a greve – ou locaute – vá acabar. Os caminhoneiros rejeitaram a redução apenas da Cide proposta pelo governo federal, rejeitaram o gesto de boa vontade da Petrobras, que diminuiu o valor do diesel em 10% por 15 dias, rejeitaram a aprovação do fim do Pis/Cofins pela Câmara e agora parecem ter rejeitado a proposta de ontem. Prometem suspender o movimento apenas se o Senado aprovar o pacote da Câmara e o presidente Temer o sancionar. Não cedem um milímetro em suas reivindicações e fazem ouvidos moucos ao chamamento à razoabilidade. Confirmam, assim, que seu movimento nunca teve nada de democrático. Pelo contrário, é mais do velho autoritarismo e do corporativismo à brasileira.

3 comentários:

César de Castro Silva disse...

Exército neles que abrandam rapidinho. Quem não tirar o caminhão da pista os tanques de guerra afastam para dentro do mato na marra, doa a quem doer.Não pode é o pais entrar em colapso pelo radicalismo de uma categoria.Chegou a hora do tacape e da borduna, uma vez que não atenderam à fala mansa.

Anônimo disse...

Cesar de Castro Silva, você tem certeza de que é brasileiro? Vive no Brasil? Ou é esquerdista e apoiador de governos criminosos e incompetentes como os petistas, emedebistas, pepistas, psolistas, pedetistas ...?
Os caminhoneiros estão recebendo maciço apoio popular, mesmo com todas as dificuldades que possam advir, pois todos perceberam a amplitude do movimento, muito além das reduções de preços dos combustíveis e o principal deles: libertar o Brasil das garras dos comunistas que estão desgraçando outros países como a Venezuela, aqui ao nosso lado.
Sou assinante das edições online da Gazeta do Povo, mas depois desse editorial, vou repensar a assinatura ...

P.S. e IMPORTANTE: OS CAMINHONEIROS NÃO ESTÃO OBSTRUINDO ESTRADAS! É MENTIRA DA GRANDE MÍDIA FAKE NEWS! A VIA DUTRA, A PRINCIPAL DO PAÍS, CORTA MINHA CIDADE E ESTÁ LIVRE, COMPLETAMENTE LIVRE PARA TRÁFEGO DE AUTOMÓVEIS E CAMINHÕES COM PRODUTOS VITAIS COMO REMÉDIOS, OXIGÊNIO HOSPITALAR E CARGA VIVA.

OBSTRUÇÃO DE ESTRADAS É MENTIRA PARA JUSTIFICAR AÇÕES TRUCULENTAS CONTRA OS CAMINHONEIROS. ACORDEM PARA A VERDADE ! DIVULGUEM VERDADES, NÃO MENTIRAS, AS JÁ CONHECIDAS "FAKE NEWS"!

Anônimo disse...

Anônimo, e você, tem certeza de que é brasileiro? Vive mesmo no Brasil? Ouviu algum caminhoneiro falar em comunismo ou Venezuela? Ou só ouve as obsessões da sua própria cabeça?