domingo, 27 de maio de 2018

Ódio ao governo uniu esquerda e direita no apoio cego a um movimento chantagista

"Ensaio sobre a cegueira", artigo de Vera Magalhães, publicado pelo Estadão, vai ao ponto:


As cenas vividas no Brasil de 2018, com desabastecimento de combustíveis e toda sorte de produtos, filas em postos de gasolina, estradas paradas por caminhoneiros e pessoas indo aos supermercados para estocar víveres cada vez mais caros e a concessão do governo na forma de lautos subsídios lembra em tudo crises anteriores do Brasil, da superinflação de José Sarney à greve dos caminhoneiros do governo FHC.

A escalada de um movimento que começa como uma reivindicação setorial e se alastra por outras categorias, pegando de surpresa governos, imprensa e analistas também leva a um paralelo com junho de 2013.

Mas a soma de tudo isso, a reação entre incompetente e covarde de governantes e candidatos e um apoio histérico da esquerda e da direita radicais a um movimento que parou o País me remetem ao magistral romance Ensaio sobre a Cegueira, do Nobel de Literatura português José Saramago.

O livro narra o avanço da chamada “epidemia branca”, que começa no dia em que um único homem é acometido de uma cegueira que o faz deixar de enxergar. O mal aos poucos se alastra para praticamente toda a população, gerando a perda paulatina da humanidade e da civilidade.

No Brasil de 2018, a cegueira branca que levou esquerda e direita radicais a apoiarem um movimento baseado na chantagem com o conjunto da sociedade é o ódio ao governo zumbi de Temer.

Como na escalada da irracionalidade construída por Saramago à medida que avançava o desespero dos cegos com sua nova condição, pessoas que estão sendo coagidas por grevistas movidos por interesses sectários defendem a greve como se fosse uma reação à corrupção, aos privilégios dos políticos, aos altos salários do Judiciário e aos impostos abusivos.

Como se dá, na cabeça das pessoas, a relação entre o combate a esses problemas (reais) e concessões a uma só categoria que custarão pelo menos R$ 13 bilhões aos cofres públicos é algo que nem o engenho narrativo de um Saramago seria capaz de explicar.

Jair Bolsonaro se pôs a fazer matemática: se o petróleo é quase todo produzido aqui, por que o Brasil segue o preço internacional? O PT se pôs a saudar a mandioca passadista: nos tempos de Dilma é que era bom, pois a Petrobrás controlava preços. São dois lados da mesma moeda que num passado recentíssimo levou o País à bancarrota: o populismo.

Os cegos de ódio por Temer saem repetindo que os impostos sobre os combustíveis são escorchantes. E são. Mas o governo não vai reduzir a carga tributária por decreto. Diante da situação fiscal do País, o que for retirado do diesel será compensado: se não for por aumento de impostos em outra área, pelo corte de gastos em investimentos ou programas sociais ou rolagem da dívida (que leva a alta de juros). 

Mudar essa situação não passa pelo apoio instrumentalizado a uma greve ilegal e injusta. Mas sim pelo voto em uma proposta consistente em outubro. Que inclua reformas estruturais nos impostos, nos gastos públicos (e, portanto, na Previdência), nos altos salários do funcionalismo e na relação com empresas públicas e de economia mista, como a Petrobrás. Nada disso é pauta dos que pararam o País. O mais assustador é que quem bateu palmas para eles e para os imensos prejuízos que causaram parece longe de se recuperar da cegueira.

No livro de Saramago ela passa, mas dá lugar ao desalento. Reproduzo o diálogo final entre a mulher do médico e o marido (tomo a liberdade de mexer na pontuação característica de Saramago para facilitar o entendimento, algo difícil ultimamente): “Por que foi que cegamos? Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão. Queres que te diga o que penso? Diz. Penso que não cegamos, penso que estamos cegos. Cegos que veem. Cegos que, vendo, não veem”

5 comentários:

Anônimo disse...

Mentira! Isso é um movimento legítimo do povo de que não suporta mais tantos desmandos, sua comprada do governo. O povo ta saturado dessa midia comprada pra falar mentira para o povo.

Anônimo disse...

O artigo é brilhante porém muito tendencioso.

Manoel Francisco Gomes disse...

Greve dos caminhoneiros: chantagem e populismo. Falsos liberais e falsos conservadores em nada se diferenciam dos populistas da esquerda. No fundo propõem as mesmas soluções que mantêm o Brasil no atraso. (mfgomes: 27/05/2018)

Anônimo disse...

O povo em sua maioria foi tomado por uma mesquinhez burra (e facilmente manipulada) que acredita que destruindo tudo que o presidente Temer (inimigo público n.o 1) tem feito lhes trará vantagens.
É deprimente ter que conviver no mesmo país de gente tão obtusa.
Todos pagarão um preço altíssimo pela falta de bom senso e responsabilidade. Por um bom tempo faltará todo tipo de alimento e os animais que hoje estão morrendo de fome seriam alimento da população que terá que pagar caro pela escassez. Dias sombrios a frente.

Anônimo disse...

... "Ódio ao governo uniu esquerda e direita no apoio cego a um movimento chantagista"
"Ensaio sobre a cegueira", artigo de Vera Magalhães, publicado pelo Estadão, vai ao ponto"...
Porém, pode estar esse movimento estar sendo montado pelas esquerdas para desestabilizar, gerando caos social, o que mais interessam a elas, anarquistas que são, conseguindo, se é verdade, como por ex., com o FORA TEMER!
Se o tirassem Temer, quem botar lá em cia, todos os politicos atuais, salvos uns poucos, são bandidos, precisa dizer mais?
Temer, até 31/12/18 e perdeu a validade, só isso, e depois Bolsonaro!