quarta-feira, 25 de julho de 2018

Radicais chiques: ontem e sempre.

Texto de Flávio Gordon, via Gazeta do Povo:


Cadê os Black Blocs? Onde foram parar os Black Blocs?”
– Sérgio Mamberti, ator, radical e muito chique


Já se vão quase cinquenta anos desde que Tom Wolfe nos apresentou – “Mmmmmmmmmmmmmmmm. Que delícia.” – aquelas interessantíssimas bolotas de queijo Roquefort envoltas em farofa de nozes moídas. Servidas como hors d’ouvre na sala de estar de um duplex de treze quartos na Park Avenue, em Manhattan, os sutis tira-gostos se destacam no saboroso banquete de ironias que Wolfe, fundador do “novo jornalismo” americano, nos oferece na clássica reportagem da revista New York publicada em meados dos anos 1970, onde se encontra a imortal definição do tipo social por ele chamado de “Radical Chique”: o membro das classes abastadas que, para aliviar sua culpa de classe, passa a adular romanticamente radicais e revolucionários políticos de toda sorte.

A reportagem, cujo título original é “Radical Chique: aquela festa na casa do Lenny”, baseava-se no testemunho pessoal de Wolfe sobre o convescote oferecido pelo maestro Leonard Bernstein (o Lenny do título) e sua esposa Felícia a grã-finos de Nova Iorque, a fim de angariar fundos para a causa dos Panteras Negras, a conhecida ala radical do movimento negro americano nos anos 1960, doutrinariamente maoísta e – em franca oposição à linha adotada por Martin Luther King Jr. e outros expoentes do movimento pelos direitos civis – expressamente pró-violência. Na condição de convidados de honra, líderes dos Panteras Negras estiveram presentes, provocando frêmitos nos decotes dos Radicais Chiques, que, saltitantes e risonhos, os rodeavam como mariposas em torno da lâmpada. “Eu nunca estive frente a frente com um Pantera. É o meu primeiro” – disse, com palminhas de expectativa, uma das socialites convidadas.

Estavam ali, diante dos deslumbrados ricaços e bem-pensantes novaiorquinos, membros de uma organização que, hoje se sabe, aliava sem constrangimento o crime à política, o discurso contra o “sistema” a uma prática que incluía gangsterismo, cafetinagem, tráfico de drogas, roubo e assassinato. “O meu melhor golpe foi o marxismo”, confessou certa vez George Jackson, misto de delinquente e ativista, ex-membro dos Panteras Negras e fundador da Família Guerrilha Negra, conhecida gangue prisional americana. Entre um canapé e outro, portanto, os Panteras sabiam bem com quem estavam lidando e investiam no romantismo basbaque da elite progressista branca, abusando das gírias e maneirismos típicos (“Right on”, “You know”, “See?” etc.) e da retórica belicista que tanto encantavam o público.

O happening no duplex dos Bernstein, exibida em toda a sua pornográfica nudez na matéria da revista New York, é um microcosmo no qual se vislumbra, de maneira paradigmática, toda a condescendência, a alienação e a arrogância da esquerda festiva (ou, se preferirem, caviar). Quem serviria os canapés e as bebidas? – eis o primeiro problema, de ordem logística, ironizado por Wolfe. Os serviçais não poderiam ser negros, por óbvio. Não seria de bom tom. A solução improvisada pelos anfitriões foi simples e genial: já que não podiam dispensar os serviçais (afinal, ter quem os sirva é, nas palavras de Wolfe, uma necessidade psicológica dos Radicais Chiques), deram folgas aos negros e contrataram brancos de origem sul-americana, muito bem recomendados por amigos e conhecidos.

Um outro dilema que tinha de ser resolvido pelos Radicais Chiques era a questão da violência. Adeptos e cultores da ideologia do amor livre, compreendiam perfeitamente, no entanto, a exasperação dos negros americanos, oprimidos e sem alternativas diante de um sistema injusto. Concordavam com necessidade de ações violentas, mas precisavam saber exatamente a sua extensão e alcance. Naquela noite agradável e excitante na casa dos Bernstein, muitas das conversas giraram em torno da questão: todos os brancos seriam alvos, inclusive eles próprios, ainda que simpatizantes e patrocinadores da causa? Será que não haveria mesmo algum jeito de viverem em harmonia com seus amigos Panteras? E, diante dos discursos intransigentes do militante negro, que apontavam para a absoluta necessidade de uma guerra total contra o sistema branco opressor, os grã-finos buscavam mimetizar-lhe a revolta, talvez na esperança vã de, mediante adesão àquele ódio político purificador, conseguir esquivar-se de seus efeitos. Se havia de ter uma guerra total e definitiva entre os justos e os injustos, queriam se bandear para o lado dos vencedores.

Naquele espírito, perguntou o maestro Bernstein a um dos Panteras: “Quando você entra nesse prédio, neste apartamento, e vê tudo isso – e por isso ele queria abarcar a decoração luxuosa, os quadros, os móveis, os serviçais, as bebidas elegantes e, não sem uma pontinha de envergonhado orgulho, as bolotas de Roquefort envoltas em nozes moídas –, você não fica enfurecido?” E, diante da negativa do interlocutor, que dizia já se haver acostumado a toda aquela desigualdade, o maestro não se fez de rogado: “Pois eu fico”. Ato contínuo, como que para se justificar, emendo: “É uma situação paradoxal: ter este apartamento tornou esta reunião possível, mas, se o primeiro não existisse, a segunda não seria necessária. E ainda assim… Bem, é uma situação paradoxal”. Erguendo a voz acima do diálogo, e já ungido por efusões alcoólicas, berrou um grã-fino do balcão de bebidas: “Todo poder ao povo!”. Uma dama exuberante, com riso nervoso e semblante confuso, comentou com a amiga ao lado sobre o Pantera que acabara de discursar: “Que homem magnífico. Mas ele deveria parar com isso de incendiar prédios. Vai que algum caipira ignorante pensa que ele está falando sério”. Ah, os Radicais Chiques… Nada para eles é sério. Nada tem consequências. Tudo é um grande divertissement cujos efeitos se encerram nas fronteiras de suas mansões festivas, varridos e recolhidos pelos serviçais, juntamente com as guimbas de cigarro e os restos de comida.

Lembrei do relato de Wolfe ao topar com a notícia recente da condenação em primeira instância dos 23 Black Blocs, responsáveis por uma série de atos de vandalismo nas manifestações de 2013. Hoje muita gente não lembra, porque a morte do cinegrafista Santiago Andrade acabou intoxicando a imagem dos vândalos, mas, logo que surgiram em cena, os Black Blocs foram recebidos com entusiasmo por muita gente dentro do nosso meio artístico, intelectual e jornalístico. Em ambientes que em tudo fazem lembrar a festa no duplex dos Bernstein, eles foram paparicados e publicamente apoiados por artistas como Caetano Veloso, Chico Buarque, Tico Santa Cruz e Marcelo D2. Diante da foto de um Caetano trajado de Black Bloc, Paula Lavigne, sua ex-mulher e ainda empresária, exultou: “Meu Deus. Ninguém segura painho!”. O deputado Marcelo Freixo, do PSOL, também aplaudiu: “Sensacional! Quanto orgulho!”. Atores globais gravaram vídeos convocando manifestações de apoio aos mascarados, às quais, todavia, não compareceram (porque, na hierarquia dos sentimentos dos Radicais Chiques, o medo de apanhar da polícia costuma ser sempre um tantinho maior que o ímpeto revolucionário). O vetusto sociólogo marxista Chico de Oliveira animou-se: “Vamos ver se, com eles, a gente chacoalha essa sociedade conformista”. Na tribuna do Senado, o senador petista Eduardo Suplicy leu um manifesto black bloc. E o padre Júlio Lancelloti abençoou o movimento: “Eles destroem os símbolos do poder. É preciso agitar. Jesus era mais para Black Bloc”.

Hoje, é claro, os Black Blocs estão sozinhos. Foram abandonados por quase todos os Radicais Chiques que antes os adulavam. Eis, aliás, uma característica primordial do radicalismo chique: a arte de escolher como revolucionários, terroristas e bandidos de estimação figuras cuja distância social (à qual, ademais, se atribui um sabor de exotismo) seja suficiente para uma retirada estratégica, assim como num safári. Oferecer um pouquinho de alpiste às aves, algumas iscas de carne crua aos leões, ou bolotas de Roquefort aos Panteras, é uma experiência excitante e agradável, mas ninguém quer que os bichos avancem com tudo sobre a comida. É preciso manter um intervalo adequado entre a revolução e o perigo. Para o Radical Chique, a arena da revolução não é a praça pública, mas o duplex de luxo. Como já dizia o nosso Nélson Rodrigues sobre a festiva: “As nossas esquerdas não têm nenhuma vocação do risco. E possuem a vocação inversa da segurança. Ainda ontem, falava eu da sábia distância que vai do Antonio’s ao Vietnã. Aí está dito tudo. E, assim, sem arredar pé do Antonio’s, e bebendo cerveja em lata, as esquerdas não morrerão jamais”.

3 comentários:

Anônimo disse...

O mundo todo comemora o centenário de "Lenny" Bernstein, um regente e compositor tão batuta (!) e genial que até se lhe perdoa a idiotice política, muito própria daquela época. Indesculpáveis são esses artistas bem menores, como chico buraco, caretano meloso e martinho da vala, que continuam presos ao passado, incapazes de evoluir, iludidos por vagabundos.

Anônimo disse...

O Queitano é um burguesinho, junto com o Xico e o Jiu, os esquerdinhas-caviar!
Confiram se moram na favela ou que bairrecos, senão num palacetes ou resorts, só frequentam hoteis 5 estrelas, ai, ai!
Nunca foi, é ou será comunista, nem os acima, mas certamente por um bom cachê se vende aos quadrúpedes comunistas, miserabilizantes onde metem suas patas!

Anônimo disse...

Artur Nogueira diz:
nossos queridos e chiques radicais adoram tudo isso: extremistas das causas perdidas, progressistas , revolucionários, purificadores do sistema opressor....mas desde que o Estado ( o povo, off course) dê aquele auxilio luxuoso para a causa.