quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Dúvidas e certezas nas eleições

Se por um lado há dúvida sobre qual seria o melhor desfecho da eleição, por outro há certeza de qual seria o pior: o triunfo da truculência, da boçalidade, do desafio às instituições e do populismo irresponsável. Editorial do Estadão:


Com a definição de nada menos que 15 candidaturas à Presidência, o maior número desde a eleição de 1989, é duvidoso que, no primeiro turno, haja algo próximo de um debate de ideias um pouco mais racional para tirar o País da imensa crise legada pelo lulopetismo. 

A cacofonia dos palanques não deverá facilitar a vida do eleitor, prolongando a hoje acentuada indefinição de voto provavelmente até a véspera do pleito, em 7 de outubro. Mesmo entre as candidaturas consideradas viáveis, não se sabe ainda com clareza quais são as propostas para os temas mais relevantes. Ou seja, o eleitorado, inclusive a parte dele que se informa bem e se interessa pelo debate político, dificilmente terá condições, neste momento, de fazer sua escolha de maneira firme.

Contudo, se por um lado há dúvida sobre qual seria o melhor desfecho desta eleição, por outro há certeza absoluta de qual seria o pior: o triunfo da truculência, da boçalidade, do desafio às instituições democráticas e do populismo irresponsável.

Infelizmente, os dois candidatos mais bem colocados nas pesquisas de intenção de voto até este momento, Lula da Silva e Jair Bolsonaro, são justamente aqueles que representam esse pensamento deletério, desagregador e mendaz.

O relativo sucesso de ambas as candidaturas tem a mesma explicação. O lulopetismo e o bolsonarismo prosperam porque são muito competentes em reduzir a complexidade das grandes questões nacionais a slogans eleitoreiros vazios de significado, mas repletos de lógica ordinária – que oferece um conforto quase religioso a seus entusiasmados seguidores.

Os dois, cada um à sua maneira, dizem lutar contra “eles” – que, no caso do petista, são as elites, as grandes corporações, a imprensa e o Judiciário, todos combinados em uma grande conspiração para impedi-lo de fazer o povo “feliz de novo”; e, no caso do ex-capitão do Exército, são todos os “esquerdistas” que defendem o multiculturalismo e os direitos de minorias, tudo reunido no que os bolsonaristas chamam genericamente de “ditadura do politicamente correto”. Nem um nem outro demonstram qualquer apreço pela democracia, que pressupõe o respeito à divergência e ao Estado de Direito.

Na balbúrdia de uma campanha eleitoral tão fragmentada, iniciada na esteira de uma gravíssima crise econômica, política e moral, é justamente esse discurso simplista que ganha destaque, monopolizando as atenções até aqui e dando espaço nobre para personagens tão desqualificados. A boa colocação de Bolsonaro nas pesquisas obriga o País, por exemplo, a tomar conhecimento do “pensamento” de seu candidato a vice-presidente, o general da reserva Hamilton Mourão, para quem há no País “uma certa herança da indolência, que vem da cultura indígena” e “a malandragem é oriunda do africano”. Esse é o nível do debate que a ascensão de Bolsonaro proporciona.

Lula da Silva não fica atrás. Ao atacar sistematicamente o Judiciário, num comportamento que de saída devia desqualificá-lo como pretendente à Presidência da República, o presidiário petista usa a campanha eleitoral apenas e tão somente como meio de tentar se livrar da cadeia. Assim, sempre que se fala no nome de Lula nesta eleição, nada parecido com propostas para os problemas do País se destaca; em vez disso, o que ganha notoriedade são as chicanas de alguns de seus advogados, o falatório sobre “perseguição política” e as ofensas a juízes, promotores e meios de comunicação, tudo para mobilizar uma militância que confunde partido político com seita apocalíptica.

Nada disso, é óbvio, faz qualquer bem ao País. Ao contrário, justamente no momento em que a racionalidade se faz mais necessária, não se pode considerar aceitável que mistificadores profissionais dominem os holofotes. É preciso condená-los ao rodapé das páginas dos jornais, como simples registro de sua incapacidade de viver numa democracia madura. O eleitor, a quem cabe decidir quem presidirá o País em meio a essa brutal tormenta, não pode mais continuar hipnotizado por esse debate ocioso, que tem servido somente para dar verniz de legitimidade ao que não passa de embuste.

4 comentários:

Anônimo disse...

Caro colunista você poderia explicar onde está o pensamento do Bolsonaro que é desagregador? Nunca ouvi ou li algo dele sobre "nós contra eles", "a elite é o problema", ou qualquer tentativa de jogar o povo contra povo. Já vi isto com a Marina, Ciro, Boulos, Manoela, etc.... Este sim tem pensamento desagregador.

Anônimo disse...

Foi por essa posição boçal (o jornal sim, é boçal e não, Jair Bolsonaro) e preconceituosa em relação ao único candidato de e da Direita que cancelei a assinatura antiga do Estadão.

Não queremos ninguém de "centro" (ou Centrão) e muito menos de esquerda no comando do Brasil!

Chega de esquerdopatas e esquerdalhas nos escravizando com o "politicamente correto" e suas ideologias mais atrasadas e autoritárias: comunismo e socialismo que nada mais são do que duas faces da mesma moeda e que arrasaram todos os países e povos onde foram implantados - igualaram todos na miséria e na fome submetidos ao jugo autoritário e violento dos dirigentes tornados bilionários de tanto roubar o povo.

Reitero a pergunta do comentarista anterior e endosso inteiramente seu brilhante comentário.

Anônimo disse...

A grande imprensa está desesperada pois perdeu a capacidade de manipular e decidir o que as pessoas devem pensar, falar e em quem devem votar. Não é um fenômeno só no Brasil a imprensa americana até hoje tenta emplacar a hoax dos ora hackers russos ou ora do governo russo "interferindo" na eleição americana. Na verdade eles não aceitam até agora que sua candidata perdeu mesmo com toda a campanha favorável. O mesmo ocorre no Brasil, o medo de Bolsonaro é este ele não faz parte do esquema e não anda em uma coleira puxada pelos donos do Brasil.

Anônimo disse...

A eleição está, sim, polarizada - mas em 1989 foi "a mesma coisa", os jovens (quarentões) foram para o segundo turno e... o Brasil não se acabou. Os ânimos podem estar mais acirrados agora, mas a vida seguirá e tudo tende a se normalizar. Restará muito a ser feito, então que se o faça num ambiente democrático.