sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

A crônica de Alberto Gonçalves: o partido "Chega" e outras peculiaridades de Portugal.

Sempre que vejo ou ouço André Ventura penso num sujeito decente e confiável, alternativa aos desavergonhados bandos que mandam nisto tudo. Mas não se chama André Ventura: chama-se Pedro Passos Coelho. Alberto Gonçalves, em crônica semanal publicada pelo Observador (não seria muito diferente se falasse sobre o Brasil, ex-colônia de Portugal):


Cristina Ferreira, popular apresentadora de variedades e plausível sucessora do popular prof. Marcelo, afirmou que nunca convidará André Ventura para o seu programa. O programa em questão é um daqueles produtos melancólicos que enchem as manhãs televisivas e o coração das domésticas. No caso, também é o destino obrigatório de políticos particularmente demagogos, que passam por lá a demonstrar, como se fosse necessário, as pessoas desagradáveis que são. Da única vez que vi, o dr. Costa levou a família chegada e cozinhou uma mixórdia qualquer. Foi repugnante, o prato e o resto.

André Ventura devia sentir-se satisfeito, quase orgulhoso, por nem sequer ser considerado para desempenhar tais figuras. Não se sentiu nem uma coisa nem outra: no Twitter, desabafou que “A Cristina e a SIC têm toda a legitimidade para convidarem quem quiserem para os programas. Só acho que, numa dita democracia, convidar os líderes de todos os partidos no Parlamento (menos um), dá aquela imagem de sistema medroso e enviesado que todos já sabíamos que existia”. André Ventura aborreceu-se por não ser chamado a conviver com o lixo, atitude curiosa que traduz na perfeição a ambiguidade dele, dos seguidores dele e dos inimigos dele.

Pelo que diz e faz e pelo que dizem que ele diz e faz, quase tudo no chefe do Chega é paradoxal. André Ventura queixa-se do desprezo do “sistema” que afirma combater. Para não ficar atrás, o “sistema” responde-lhe com acusações ridículas e, aqui e ali, literalmente de pernas para o ar. Há dois ou três meses, um pequeno grupo de “personalidades” publicou uma carta aberta a pedir que o Benfica se demarcasse de André Ventura, na medida em que este “usa o Benfica para criar uma persona política”. Ninguém, no lado oposto da trincheira, publicou uma carta equivalente a pedir que André Ventura se demarcasse do Benfica, na medida em que é ridículo um adulto discutir bola, na medida em que o mundo da bola é o poço de rectidão que se sabe e na medida em que os dirigentes desse e de diversos clubes da bola chafurdam em zonas sombrias da sociedade e da legalidade.

O problema, até porque é um problema inventado e provavelmente uma mentira, não é o Chega ser, cito a tal carta, “um partido de extrema-direita abertamente anti-sistema e xenófobo”. O problema é o Chega colocar a corrupção no topo das maleitas a combater e o respectivo líder andar a louvar suspeitos, e suspeitos eternamente impunes, de beneficiarem de fraudes e subornarem juízes. Para cúmulo, André Ventura, o Irreverente, presta-se ao papel num canal tipicamente dócil para com o poder e cujo director reclama a intervenção do Estado nos “media”, que pelos vistos ainda não rastejam o bastante. Os defeitos do Chega não são os que lhe apontam. As virtudes do Chega nem sempre parecem convictas.

A maior e mais indiscutível virtude do Chega é a capacidade de horrorizar criaturas horrorosas. Se, em pleno parlamento, André Ventura inspira o tratamento discriminatório do dr. Ferro Rodrigues, é garantido que André Ventura está a fazer alguma coisa bem feita. E quem diz o dr. Ferro Rodrigues diz incontáveis indivíduos que alertam aos gritinhos para o advento dos “fascistas”, quando durante décadas estafaram o insulto, aplicado a todos os que não concordam com eles e, de algum modo, os ameaçam. No embaraçoso caldo cultural que temos, repleto de leninistas com direito à respeitabilidade pública, “fascista” deixou de ser uma ofensa para se tornar um símbolo de distinção. Se uma personagem do calibre do dr. Louçã chega a conselheiro de Estado, o melhor conselho que qualquer cidadão digno deve seguir é o de salvaguardar as distâncias a um Estado assim. Infelizmente, suspeito que a dignidade de André Ventura resulta menos do seu afastamento voluntário face à choldra do que do afastamento que a choldra lhe impõe.

Eu juro que gostava de gostar do Chega, que exibe meia dúzia de ideias razoáveis e, no nosso pobre contexto, raras. Com esforço, talvez conseguisse ignorar o apreço do partido pela bazófia nacionalista. E a subtil aversão ao capitalismo e à globalização, disfarçada sob as teses maluquinhas do “globalismo”. E o fervor punitivo, próprio dos juízes de taberna. E a veneração da autoridade fardada, própria, lá está, de comentadores da CMTV. E a exaltação vazia da “família”, que é matéria privada e francamente não diz respeito a terceiros.

Mas não sou capaz. Apesar de me divertir com o pavor que André Ventura suscita na ortodoxia vigente, a verdade é que diversas incoerências sugerem a possibilidade de o homem afrontar a ortodoxia apenas por exclusão de partes. E o homem ter escolhido a parte que lhe permite sonhar com uma carreira. Dada a inata estupidez da ortodoxia, que teima em poupar André Ventura ao convívio com um regime em decomposição, é provável que a carreira seja longa. Dado o actual consenso da ortodoxia, que deixa a André Ventura o monopólio do ocasional bom senso, é provável que a carreira seja próspera.

Não sei se, um dia, André Ventura será o líder da resistência ao totalitarismo de esquerda que nos assombra. Sei que, sempre que vejo ou ouço André Ventura, penso num sujeito decente e confiável, a aparentemente única alternativa aos desavergonhados bandos que mandam nisto tudo. Só que o sujeito não se chama André Ventura: chama-se Pedro Passos Coelho.

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