sábado, 30 de maio de 2020

Umberto Eco sobre a Intolerância

Texto surrupiado do Estado da Arte, sobre o livro do saudoso Umberto Eco:


Em parceria com a Editora Record, o Estado da Arte publica hoje trechos do ensaio Intolerância, de Umberto Eco, disponível no lançamento Migração e intolerância (2020). A obra é uma pequena coletânea de escritos e intervenções de Eco que nos convidam a pensar sobre temas cada vez mais atuais e urgentes, com a argumentação que já é característica do autor italiano.

Fundamentalismo, integrismo, racismo pseudocientífico são posições que pressupõem uma doutrina. A intolerância coloca-se antes de qualquer doutrina. Nesse sentido, a intolerância tem raízes biológicas, manifesta-se entre os animais como territorialidade, baseia-se em relações emocionais, muitas vezes superficiais — não suportamos os que são diferentes de nós porque têm a pele de cor diferente, porque falam uma língua que não compreendemos, porque comem rãs, cães, macacos, porcos, alho, porque são tatuados…

A intolerância em relação ao diferente ou ao desconhecido é natural na criança, tanto quanto o instinto de se apossar de tudo o que deseja. A criança é educada para a tolerância pouco a pouco, assim como é educada para o respeito à propriedade alheia — antes mesmo do controle do próprio esfíncter. Infelizmente, se todos chegam ao controle do próprio corpo, a tolerância permanece um problema de educação permanente dos adultos, pois na vida cotidiana estamos sempre expostos ao trauma da diferença. Os estudiosos ocupam-se com frequência das doutrinas da diferença, mas não o suficiente da intolerância selvagem, pois esta foge a qualquer definição e abordagem crítica. No entanto, não são as doutrinas da diferença que produzem a intolerância selvagem: ao contrário, estas desfrutam de um fundo de intolerância difusa preexistente. Pensemos na caça às bruxas. Ela não foi produto de épocas obscurantistas, mas da era moderna. O martelo das feiticeiras (Malleus Maleficarum) foi escrito pouco antes da descoberta da América, é contemporâneo do humanismo florentino; La Démonomanie des sorciers, de Jean Bodin, deve-se à pena de um homem do Renascimento, que escreveu depois de Copérnico. Não pretendo explicar aqui por que o mundo moderno produziu justificativas teóricas para a caça às bruxas. Quero apenas recordar que essa doutrina conseguiu se impor porque já existia uma desconfiança popular em relação às bruxas. É possível encontrá-la na Antiguidade clássica (Horácio), no Édito de Rotário, na Summa Theologica de São Tomás. Era considerada uma realidade cotidiana, assim como o código penal leva em consideração a existência dos ladrões. Mas sem essas crenças populares, uma doutrina da bruxaria e uma prática sistemática da perseguição não teriam condições de difundir-se.

O antissemitismo pseudocientífico surge no decorrer do século XIX e transforma-se em antropologia totalitária e prática industrial do genocídio apenas em nosso século. Porém, não poderia ter nascido se não existisse há séculos, desde os tempos dos Pais da Igreja, uma polêmica antijudaica e, no seio do povo comum, um antissemitismo prático que atravessou os séculos em qualquer lugar onde houvesse um gueto. As teorias antijacobinas do complô judaico, no início do século passado, não criaram o antissemitismo popular, mas exploraram um ódio pelo diferente que já existia.

Os fundamentos teóricos de Mein Kampf podem ser refutados com uma bateria de argumentos bastante elementares, mas se as ideias que propunha sobreviveram e sobreviverão a qualquer objeção é porque se apoiam em uma intolerância selvagem, impermeável a qualquer crítica.

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[Q]ualquer teoria torna-se inútil diante de uma intolerância crescente, que ganha terreno a cada dia. A intolerância selvagem baseia-se num curto-circuito categorial que posteriormente pode ser emprestado a qualquer doutrina racista: se alguns entre os albaneses que entraram na Itália no[s] ano[s] passado[s] tornaram-se ladrões ou prostitutas (e é verdade), todos os albaneses seriam, então, ladrões e prostitutas. É um curto-circuito terrível porque constitui uma tentação constante para cada um de nós: basta que nos roubem a mala no aeroporto de um país qualquer para que voltemos para casa dizendo que é bom desconfiar das pessoas do tal país.

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Os intelectuais não podem lutar contra a intolerância selvagem, porque diante da animalidade pura, sem pensamento, o pensamento fica desarmado. E é sempre tarde demais quando resolvem lutar contra a intolerância doutrinária, pois quando a intolerância se faz doutrina é muito tarde para vencê-la, e aqueles que deveriam fazê-lo tornam-se suas primeiras vítimas.

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A intolerância selvagem deve ser, portanto, combatida em suas raízes, através de uma educação constante que tenha início na mais tenra infância, antes que possa ser escrita em um livro, e antes que se torne uma casca comportamental espessa e dura demais.