quinta-feira, 4 de junho de 2020

EUA: a praga do entusiasmo niilistra.

O que mais vejo na presente situação dos EUA é a necessidade de encontrar sempre alguém que moralmente esteja abaixo de nós - e que represente, por contraste, todo o esplendor da nossa superioridade. Texto do professor Paulo Tunhas para o Observador:


Escapa-me por inteiro a razão de ser do entusiasmo gerado pelos actuais protestos contra a violência policial que conduziu à morte de George Floyd. De facto, não me escapa, até julgo percebê-la muito bem. O que acontece é que esse entusiasmo me provoca uma instintiva repugnância, não só pela violência que os entusiastas admiram, e que conduz a mais mortos do que a outra, como, e sobretudo, pela imagem que os entusiastas têm de si mesmos.

Vamos por partes. Que há racismo nos Estados Unidos, como há racismo por esse vasto mundo fora, é a última coisa que se pode negar. Que o racismo — enquanto coisa distinta de se não gostar, com legitimidade inteira, de determinadas culturas – é o pecado por excelência, é algo que me parece quase uma evidência: dificilmente se encontra uma visão das coisas que contenha no seu seio tantos sinais de uma irracional inclinação ao mal, por meio da qual alguém, seja pela cor da pele, seja por qualquer, às vezes imperceptível, traço fisionómico, nos aparece como exemplo concreto e absoluto de uma mancha moral, física e metafísica que a humanidade não pode tolerar. Que as forças policiais americanas têm, como todas as outras, uma história de comportamento racista, é algo que, quanto mais não seja, todos sabemos por inúmeros filmes (americanos), que vão do óptimo (Mississippi Burning, por exemplo) ao péssimo (não vale a pena dar exemplos). Que a história dos Estados Unidos se encontra marcada desde sempre – desde a chegada dos escravos vindos de África, como aqueles cujos corpos aparecem, afogando-se no mar, num dos últimos quadros de Turner, Slave Ship, que se encontra em Boston – pelo conflito em torno do racismo, ao ponto de tal conflito ter originado a única guerra civil americana, lê-se em qualquer livro.

Tudo isto é óbvio. Como é óbvio que uma parte muito significativa de crimes cometidos nos Estados Unidos — ínfimos, pequenos, médios e grandes — são cometidos por negros, um facto que cabe parcialmente à sociologia explicar, sem que a explicação ambicione ser uma absolvição pré-concebida, como em sociologia acontece muitas vezes: ocultar isto é ocultar um dado essencial do problema, com a função instrumental de acrescentar uma dose suplementar de arbitrário à violência policial. Não é sério. Outra coisa óbvia é que uma parte das manifestações que os entusiastas adoram foram puros actos de vandalismo e destruição em grande escala, e, naturalmente, não foram propriamente os ricos os mais prejudicados: foram aqueles que têm parcos haveres e que os viram destruídos de um momento para o outro. Para os entusiastas, estas preocupações com a propriedade privada, mesmo a dos mais desfavorecidos, são uma pieguice hipócrita que magnificamente contrasta com a suprema elevação da sua concepção do mundo. Até ao momento, é claro, em que os azares da vida – uma crise económica, por exemplo – ponham em causa os seus modestos privilégios: aí o caso muda de figura e urge protestar. Dizer que não são sérios é um eufemismo.

Tanto a violência policial como o vandalismo atravessaram várias presidências, incluindo a de Obama. Excepto o PCP, que, em virtude da lógica de ferro da sua ideologia, vê em Obama, como em Trump, apenas o símbolo do imperialismo norte-americano, muita gente, de uma boa parte da esquerda a uma certa direita, detecta na presente situação de violência uma consequência directa da intrínseca perversidade de Donald Trump. Dada a má-fé colossal que diariamente se manifesta nestes últimos anos, e mais ainda, se possível, por estes dias, não tenho vontade nenhuma de criticar Trump e vivo essa situação com inteira boa consciência. A culpa não é minha: é do entusiasmo colectivo que se lhe opõe, que me parece muito mais perigoso. Em concreto, não vejo qualquer racismo no que Trump tem dito por estes dias, nem, de resto, no que tem dito, no seu estilo muitas vezes truculento, e às vezes com real graça, desde que foi eleito presidente. A forma, o conteúdo e a intenção do que diz obedece a uma lógica inteiramente diferente.

Mas vamos ao que verdadeiramente me interessa: a imagem que os entusiastas têm de si mesmos. Em primeiro lugar, é inútil mencionar que não estamos na presença de uma reencarnação colectiva de William Wilberforce, o grande inglês cuja batalha contra o esclavagismo conduziu, em 1833, ao Slavery Abolition Act: falta a ocasião, o risco, a grandeza moral e a inteligência humana. Em contrapartida, aquilo a que temos direito são generalizações maciças e fanáticas, ódio à democracia (mesmo quando travestido de apelo a uma democracia mais funda e verdadeira) e, sobretudo, uma formidável infantilidade que promove o egotismo de cada um ao estatuto de consciência moral do mundo, quando na verdade tal egotismo não é mais do que uma forma disfarçada de entusiasmo negativo, isto é de niilismo.

Generalizações maciças e fanáticas: os Estados Unidos não são senão o lugar de uma violência sem limites, que tem no racismo generalizado a sua manifestação mais veemente. Ódio à democracia: o poder é intrinsecamente ilegítimo sempre que não corresponde à imagem que desejamos que ele tenha (o que vale para os Estados Unidos vale ainda mais, talvez, para Israel, que suscita tal ódio em proporções épicas). Egotismo infantil: um dos avatares daquela infantilização generalizada que, em meados do século XIX, Tocqueville previu como resultado dos progressos de um Estado tutelar encarregado de regulamentar os nossos mínimos comportamentos – um caso praticamente único de uma previsão sociológica inteiramente conseguida – é exactamente a transformação de qualquer pequena consciência individual em consciência legisladora do universo, dotada de imprescritíveis direitos a impor a sua vontade ao grosso da humanidade, ao mesmo tempo que, na sua local esfera legítima de acção, padece do mais aterrador conformismo e da radical ausência de imaginação política capaz de nos permitir pensar fora dos mais primitivos esquemas que o ser humano jamais concebeu (a tendencial transferência de toda a propriedade para o Estado, por exemplo).

Em Mississippi Burning, o personagem representado pelo genial Gene Hackman, conta àquele que William Dafoe encarna, que o seu pai, um fazendeiro pobre, havia um dia morto a vaca que pertencia a um negro, sua única propriedade. Razão dolorosa para o acto: precisamos sempre de acreditar que alguém está abaixo de nós. Tenho lido muitos artigos sobre a presente situação dos Estados Unidos e, sem grande surpresa, devo dizer, é algo de análogo o que mais vejo: a necessidade de encontrar sempre alguém que moralmente esteja abaixo de nós, que represente, por contraste, todo o esplendor da nossa superioridade. Estamos bem lixados com estes maluquinhos e com a praga do entusiasmo niilista.

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