sexta-feira, 18 de setembro de 2020

As "presidenciais" para fazer monárquicos


Em 2021, teremos os senhores e as senhoras que se seguem. Se não se trata de uma conspiração da ala monárquica para enxovalhar a República, parece. A crônica semanal de Alberto Gonçalves no Observador:


Até agora, no actual regime, não houvera eleição presidencial sem pelo menos um candidato “plausível”. Durante 40 anos, tivemos Eanes. E depois Soares. E depois Cavaco (incluindo quando perdeu para o implausível Sampaio). E, em 2016, Marcelo (para os ingénuos ou optimistas terminais, entre os quais me incluo, que precoce e irresponsavelmente o acharam uma hipótese tolerável). Em 2021, teremos os senhores e as senhoras que se seguem. Se não se trata de uma conspiração da ala monárquica para enxovalhar a República, parece.

O estatuto dúbio da função presidencial costuma favorecer alguns exageros e extrapolações. Certo é que, por turva que fosse a serventia do cargo, era claro que o cargo não servia para: tirar fotografias com transeuntes; mudar de cuecas; mergulhar no mar; fingir que se salva banhistas; dizer convulsivamente que Portugal é “o melhor do mundo” no que calha, da astronomia ao desentupimento de fossas; sorrir imenso; proferir inanidades; condecorar toda a gente, incluindo o 7º classificado num torneio de macaca em Valladolid; abraçar pedintes e desinfectar-se de seguida; louvar a boa acção de um pedinte e enganar-se no pedinte; dar palestras sobre virologia; abraçar o rato Mickey num aeroporto; prestar vassalagem a Fidel Castro; submeter a rainha de Inglaterra a monólogos confrangedores; assistir a partidas de futebol; entrar nas “entrevistas rápidas” após uma partida de futebol; subscrever a posição do Governo em qualquer assunto que possa suscitar polémica; não emitir opinião sobre coisa nenhuma que realmente importe; em casos de facto graves pedir esclarecimentos cabais e rezar para que nada se esclareça; viver exclusivamente aflito com a própria popularidade, numa obsessão com o voto das pessoas e com total indiferença às respectivas vidas – e tudo isto na condição de as televisões filmarem.

Fora das televisões, o prof. Marcelo não existe. O prof. Marcelo não é um presidente. É um “entertainer”, para cúmulo sem particular talento para cantar e dançar (sim, também já assistimos a tentativas): os portugueses adoram “entertainers” coxos. Num mundo ideal, e noutro meio social, estaria a fazer furor em “reality-shows” alheios. Assim, transformou o mandato no “reality-show” dele. É complicado garantir que não terá comprometido a presidência para sempre, e que algum dia o cargo volte a merecer um vestígio de respeito e não este simulacro de camaradagem infantil.

O prof. Marcelo ainda não é candidato. Será candidato. E ganhará as eleições, não importa se à primeira se à segunda. E desempenhará novo mandato, que só não será pior do que o vigente porque pior é impossível. E não há impossíveis para o melhor presidente do mundo.

O dr. Ventura é o candidato contra a corrupção e à revelia do sistema. Excepto quando a corrupção não o contraria e o sistema está dentro dele, como por exemplo sucedeu com o episódio do dr. Costa e a comissão de “honra” do sr. Vieira. Para disfarçar as incongruências, e seduzir o eleitorado potencial, o dr. Ventura adopta dois métodos, ambos partilhados com a extrema-esquerda e, passe a redundância, com aqueles cultos que terminam em suicídio colectivo. O primeiro consiste em atribuir-se uma aura mística, género Cunhal, o guru de Jonestown ou, na versão infantário, o frade Louçã. O segundo método é a gradual radicalização do discurso. Lá para o meio da campanha o dr. Ventura estará a organizar bandos para perseguir pedófilos, ciganos ou ateus. No final, é provável que tente enforcar um – a menos que este seja do Benfica.

A dra. Ana Gomes é outra candidata contra a corrupção, embora tenha construído a carreira política no PS do “eng.” Sócrates, cuja honestidade afiançou até já não ser possível fazê-lo sem rir. Depois abraçou a “causa” da “moralização” enquanto se mantinha (e continuava a ser destacadamente eleita para Bruxelas) no partido dos drs. Costa, César, Ferro & Cia. Naturalmente, é difícil levá-la a sério, embora haja eleitores que a levam a sério. Os portugueses não se detêm à primeira dificuldade. Nem à vigésima.

Acho que não sonhei quando, há dias, vi um filmezinho em que Marisa Matias conversava com a viúva de Saramago sobre a necessidade de se dizer “presidenta”, o óbvio feminino de “presidento”. Certo é que a luta em prol do analfabetismo será, apesar de tudo, a menos ridícula da campanha da dra. Marisa. O currículo não engana: uma rapariga feminista que venera o islamismo, uma mulher íntegra que adora o sr. Lula, uma senhora democrata que encarna os princípios do Podemos. Em suma, uma colectânea dos transtornos emocionais do BE, salpicada pelas alusões recorrentes ao “medo”. A dra. Marisa passa a vida a dizer que o medo não pode vencer, que o medo venceu, que o medo perdeu, que o medo isto, que o medo aquilo. À cautela (nunca por medo), a dra. Marisa concorre às “presidenciais” sem devolver o emprego na União Europeia, aliás uma instituição que abomina com típica coerência. Do dr. Boaventura à “escritora” Inês Pedrosa, a lista de apoiantes “notáveis” da candidatura resume o carácter anedótico da mesma. Não tenhamos medo de rir.

João Ferreira, li na Wikipédia, é membro do Comité Central do PCP, é vereador da câmara de Lisboa pelo PCP, é deputado no Parlamento Europeu pelo PCP e é candidato a presidente da República pelo PCP. Ainda assim, tive de confirmar o nome do sujeito, dado não o conhecer de parte alguma. Noutras circunstâncias, a enxurrada de cargos, efectivos ou eventuais, talvez sugerisse excesso de ambição e escassez de tempo. Como o dr. (ou eng., ou o que quiserem, que a minha investigação não foi tão longe) Ferreira é do PCP, o número de cargos é irrelevante: em todos repete os mesmos chavões anacrónicos, nenhum saído da cabecinha dele. Na verdade, o prof. Ferreira podia ainda acumular os empregos de adido cultural na Zâmbia, delegado no Mercosul e vogal no condomínio sem qualquer impedimento. O lado chato é que, dado o recurso exclusivo aos chavões, qualquer um também podia ocupar os empregos dele. Nas “presidenciais”, é o candidato do PCP. Há sempre um, não interessa quem. O arq. Ferreira não interessa.

Há mais cinco ou seis candidatos. Não os conheço, o que já de si é uma vantagem face aos demais.

2 comentários:

Anônimo disse...

Atão e o Tino de Rans, carago?

Anônimo disse...

O gajo é fera ferina! Conhecerá nossa expressão matou a pau? Dizer "presidenta" é lutar em prol do analfabetismo! "Recurso exclusivo aos chavões" também é uma pérola.