sábado, 19 de setembro de 2020

Como a campanha supostamente antirracista de uma empresa fomenta a injustiça que ela diz combater


Com estardalhaço, a empresa anunciou que seu próximo programa de trainees só aceitará candidatos negros. Paulo Polzonoff Jr., no alvo:


Uma empresa de eletrodomésticos da qual todos provavelmente já fomos clientes, até porque se trata de um setor extremamente concentrado, resolveu entrar na luta antirracista com uma estratégia que algum publicitário, em sua sala climatizada e decorada com brinquedinhos dos anos 1980 na Faria Lima, achou “top”. Com estardalhaço, a empresa anunciou que seu próximo programa de trainees só aceitará candidatos negros.

A reação nas redes sociais foi imediata e o nome da empresa figurou no cobiçado trending topics do Twitter – a incrível bolha azul na qual todo mundo tem razão e todos são tão cheios de boa intenção que nem sei como tanta virtude cabe em 280 caracteres.

Não importa que parte da reação tenha sido negativa e que especialistas de todas as áreas tenham acusado a empresa de "racismo reverso" ou mesmo de ir flagrantemente contra a lei que proíbe processos seletivos que excluam candidatos com base na cor da pele. Citando equivocadamente o Oscar Wilde que ele nunca leu, é bem provável que o publicitário ge-ni-al que criou a estratégia de marketing esteja agora mesmo tatuando em letras góticas o lema “Falem mal, mas falem de mim”.

Verbo to be

Do outro lado da cidade, na Zona Leste, ou ainda do outro lado do país, no Acre, um menino que, apesar da origem abençoadamente miscigenada, teve o azar de nascer com a pele um pouco mais clara do que o aceitável pelo tribunal racial contemporâneo, leu a notícia com preocupação. Logo ele, coitado, que estuda com afinco o verbo to be a fim de ser aceito no programa de trainee de uma grande empresa de eletrodomésticos. O sonho dele, veja só, é entrar para o departamento de marketing da empresa. E, quem sabe, ser ciceroneado na balada paulistana justamente pelo publicitário da Faria Lima.

Para este menino cheio de sonhos, a vida nunca foi uma festa. Aos olhos de um tribunal racial inventado por um publicitário fã de Harry Potter, ele nasceu branco, mas isso não quer dizer que tenha sido privilegiado. O ensino que a escola pública lhe deu, por exemplo, sempre foi precário. Se ele escapou da armadilha do analfabetismo funcional foi graças ao esforço próprio e algumas palmadas da mãe – mas não conta para ninguém senão o Conselho Tutelar é capaz de ir atrás da velha.

Noite dessas, aliás, ele foi a uma “aglomeração clandestina” com seus amigos. Todo um caleidoscópio de peles. De repente, chegou um carro da polícia. Mão na parede, revista, aquela coisa. Negros, pardos e até o Milton, cujos olhos puxados não negam a origem, foram revistados. Ele, branco, também foi apalpado em lugares insólitos. E até um pouco humilhado. Mas deu de ombros e voltou para casa. No dia seguinte, tinha que estudar. Aprender de uma vez por todas esse tal de present perfect. Para entrar num desses programas de trainee bacanas tem que saber inglês.

Ao ver agora as portas se fecharem, contudo, o menino olha para o próprio braço e se amaldiçoa. Péssima época para nascer branco e pobre. Não bastasse o ônibus lotado, a escola caindo aos pedaços, a casa apertada, o dinheiro contado e os sonhos sempre limitados, agora mais essa. Ele, que é uma boa pessoa, temente a Deus e tudo, e que nunca se viu como branco, simplesmente porque esse é um detalhe que nunca fez diferença em sua vida, talvez encare os amigos de "aglomeração clandestina" com um olhar diferente a partir de agora.

Talvez olhe para o Geraldo, com uma pele meio tom mais escura do que a dele, e pense “Ah, se eu tivesse nascido com um pouquinho mais de melanina...” Talvez ele ceda ao pecado da inveja, quando não do ressentimento. Talvez ele se encare no espelho e deseje ter todos os fenótipos que atestem, para o publicitário da Faria Lima e para os executivos da empresa de eletrodomésticos, que ele também merece uma oportunidade.

Não por ser branco ou negro ou amarelo ou vermelho. Nem por ser pobre, rico ou remediado. Simplesmente por ser inteligente, esforçado e, por que não?, talentoso.

5 comentários:

Anônimo disse...

In-cons-ti-tu-cio-nal. Ou, pelo menos, era, antes de o stf borrar (nos dois sentidos) tudo.

Unknown disse...

É pra vender a linha branca.

Unknown disse...

De minha parte digo que nunca mais entrarei nesta loja.

Praça disse...

...quanta ignorancia a favor da lacração.....como assim,pois brasileiro é bonzinho e como diria Mario tupiisnottupi e viva a Maria, bem vindos ao samba do afrodescendente lesado.Haja saco!

Toloco

Fredoliveira disse...

Crime contra a cor da pele.preconceito reverso, sim. Crime contra o Brasil miscigenado. Magazine Luiza da um péssimo exemplo.