domingo, 20 de setembro de 2020

Garota, eu não vou para a Califórnia.


Políticas progressistas tolerantes ao crime, elevados gastos sociais sem planejamento, aumento da população de rua e regulação cara e complexa para negócios provocam o êxodo californiano. Ana Paula Henkel para a Oeste:


Muitos aqui que me acompanham sabem que sou filha de professores. Meu pai, professor de matemática, também foi diretor da escola com fundações norte-americanas onde estudei, o Instituto Gammon, em Lavras, Minas Gerais. Constantemente, meu pai trazia livros em inglês para casa e minha mãe, professora de português e inglês, tinha uma infinidade de dicionários e livros norte-americanos que eu usava durante horas e horas para traduzir o que não entendia.

E foi nessa rica coleção de livros de minha mãe que vi pela primeira vez a foto da ponte Golden Gate em São Francisco, na Califórnia. A foto estampava a capa de um grosso livro em inglês que tinha a Estátua da Liberdade na contracapa. Impressionada com a exuberância da ponte californiana, me debrucei sobre outros livros para achar mais fotos daquele Estado norte-americano que parecia ter monumentos majestosos e imponentes, assim como belezas naturais de tirar o fôlego, como a Baía de São Francisco.

Não foi necessário muito tempo mergulhada naqueles livros para entender a razão dos versos da canção de Lulu Santos que tanto cantarolávamos: “Garota eu vou pra Califórnia, viver a vida sobre as ondas, vou ser artista de cinema, o meu destino é ser star… O vento beija meus cabelos, as ondas lambem minhas pernas…”. Tudo fazia sentido. Lulu conhecia a Califórnia, com certeza! E ela era linda. Aquelas fotos se encaixavam na música e no pensamento do que seria a Costa Oeste dos Estados Unidos, um lugar tão tão distante de minha querida Lavras, mas tão rico, ali na minha frente por meio dos livros de minha mãe.

Os anos se passaram, a menina do interior cresceu, disse que ia jogar vôlei e disputar uma Olimpíada pelo Brasil, e partiu mundo afora. Partiu, fez uma penca de bons amigos espalhados pelo globo, conheceu um ianque californiano, casou e se mudou para o Estado da ponte Golden Gate.

Para quem é fã de Ronald Reagan, como eu, a Califórnia é um marco importante na história de um dos presidentes e líderes mais marcantes que o mundo já viu. Antes de ser eleito presidente, em 1980, Reagan foi governador do Estado, de 1967 a 1975, quando o “Golden State” ainda votava majoritariamente nos republicanos. Na década de 1990, as populações latinas e asiáticas aumentaram vertiginosamente, e o crescente número de eleitores do partido caiu após a rígida postura dos republicanos com imigrantes ilegais quando o partido se vinculou à Proposição 187 — uma medida, na época controversa, que negava serviços públicos a pessoas que estavam no país ilegalmente.

A proposta tornaria os imigrantes ilegais no Estado inelegíveis para benefícios públicos, economizaria cerca de US$ 200 milhões por ano, e, mesmo tendo sido aprovada num referendo por 58% da população estadual, não foi levada adiante. No entanto, a adesão dos republicanos a essa medida minou a força do partido, colocando o Estado de vez nas mãos dos democratas.

Desde 1992, a linda Califórnia de Lulu Santos não apenas votou em todos os candidatos democratas a presidente, mas também é administrada por democratas. E eles controlam não apenas o Estado, mas a grande maioria de cidades e condados californianos. O problema é que não estamos falando de democratas moderados, do antigo partido de John F. Kennedy, mas dos democratas de agora, da nova safra de desajustados e radicais progressistas. Com suas políticas públicas utópicas, eles estão destruindo o lindo Estado que habita mentes, canções, poemas e uma infinidade de filmes e séries de TV.

A Califórnia, conhecida pelo brilho e glamour de Hollywood, pelas cifras estratosféricas de seu mercado imobiliário e por impostos altíssimos, agora se destaca por recordes desabonadores: tem a maior população de rua de todos os Estados Unidos e também as mais complexas normas para empreendimentos comerciais. Em muitas partes do território californiano, o crime está fora de controle e milhares de pessoas dormem nas ruas. Tudo isso, combinado com um custo de vida extremamente alto, força moradores e empresas a deixar o Estado, num êxodo nunca antes visto. O maior número de pessoas que se mudam para o Texas tem origem exatamente na rica Califórnia.

Califórnia e Texas hoje têm vasto território com recursos naturais, populações de várias etnias e são o lar de grandes companhias. Essas semelhanças com suas diferentes políticas sociais trazem o cenário perfeito para uma comparação. Recente pesquisa revelou que mais da metade dos californianos já pensa em deixar o Estado, e a principal razão é o alto custo de vida, entre 40% e 50% maior que o do Texas. Com regulamentação pesada para a construção civil, controle de aluguel, que desestimula a criação de unidades habitacionais, e políticas desastrosas que contribuem para a rápida elevação do custo de vida — energia, gasolina, transporte; tudo é mais caro na Califórnia —, a população de hoje, quase 40 milhões de habitantes, diminui a passos largos.

A esquerda gasta muito tempo e energia discursando sobre desigualdade social e como corrigir esse problema. Ironicamente, a Califórnia, o grande orgulho e experimento progressista, ocupa o quarto lugar na lista de Estados com o mais alto nível de desigualdade social e o segundo posto no país onde a desigualdade mais cresce. De acordo com o índice de pobreza do Census Bureau, o Estado tem a maior taxa de pobreza nos EUA, com um em cada cinco californianos vivendo abaixo da linha da pobreza. Um terço da população que precisa de programas de assistência social no país está na Califórnia.

E como o Estado está lidando com a crescente taxa de pobreza? Como esquerdistas lidam com o problema, sem planejamento e sem saber fazer contas. A Califórnia gasta anualmente em assistência social mais que Texas, Arizona, Dakota do Sul, Dakota do Norte, Colorado, Utah, Nevada, Oregon, Idaho, Havaí, Louisiana, Arkansas, Oklahoma, Kansas, Nebraska, Novo México e Montana juntos. Governo estadual e prefeituras despendem uma fortuna em programas inúteis que não têm colaborado para solucionar um dos problemas mais graves no Estado: a falta de moradia. Embora os níveis da população de rua estejam caindo em todo o país, a Califórnia, com 12% da população nacional, abriga 49% dos sem-teto.

Mas falta dinheiro? Se a Califórnia fosse um país, seria o quinto PIB do mundo. Seu motor econômico é impulsionado pelo grande xadrez de gigantes da tecnologia e de pequenas e médias empresas. Por causa do trabalho duro e da engenhosidade, além das melhores universidades do país, o modelo californiano conseguiu criar esse colosso econômico que, aos poucos, começa a morrer sufocado por inúmeras regulamentações residenciais, fiscais e comerciais. Nos últimos dez anos, mais de 15 mil empresas deixaram o Estado, e esse número cresce vertiginosamente.

Enquanto Apple, Google, Facebook estão sempre na vitrine, são os pequenos e médios negócios que compõem a alma da economia do Estado. Empresas com menos de cem funcionários representam 98% da totalidade e empregam quase 40% da força de trabalho. E são exatamente essas empresas que fazem da Califórnia a potência econômica que é. O problema é que, hoje, o custo médio das regulamentações para pequenas empresas é de US$ 135 mil por ano. Isso resulta no fechamento de muitas torneiras dessa mina de ouro e provoca uma perda de mais de 3,8 milhões de empregos, o equivalente a 10% da população do Estado.

Em São Francisco, cidade da capa do livro de minha mãe, há mais bilionários per capita do que em qualquer outro lugar do mundo. Mas também há o problema dos sem-teto, tão grave que rivaliza com algumas nações do Terceiro Mundo. Não é difícil andar pela cidade e ver glamour a poucos metros de distância de pilhas de fezes humanas, poças de urina e vômito nas calçadas. A miséria da falta de moradia, o surto de doenças mentais e a dependência de drogas atingem profundamente São Francisco e transformaram partes de uma bela cidade em banheiro público de um manicômio a céu aberto.

Os californianos sabem que ter dezenas de milhares de desabrigados em suas grandes cidades é insustentável. Essa triste realidade não é apenas de São Francisco. Em vários lugares, as calçadas municipais se tornaram esgoto a céu aberto, com pilhas de lixo, agulhas usadas, ratos, muitos ratos. No entanto, ninguém ousa questionar a ortodoxia progressista ao fazer cumprir as leis contra usuários de drogas, ou mover os sem-teto das ruas para instalações suburbanas ou rurais, ou aumentar o número de hospitais psiquiátricos. Ninguém se atreve a questionar os agentes políticos do “Beautiful People” a conectar a infraestrutura decadente do Estado, as escolas pobres e os cuidados da saúde pública deficientes com o não cumprimento das leis de imigração, o que levou a um fluxo maciço de imigrantes ilegais, vindos das regiões mais pobres do mundo, e que muitas vezes chegam sem fluência em inglês ou o ensino médio completo.

Há uma série de outras leis e medidas absurdas na Califórnia que estão fazendo com que o residente, até aquele que nasceu e cresceu aqui, pense em ir embora. Um dos erros crassos é a Proposta 47, medida do Partido Democrata e defendida pela União Americana das Liberdades Civis (American Civil Liberties Union) — o referendo foi aprovado por ampla margem em 2014. A ideia era reduzir certos crimes não violentos a contravenções, a fim de liberar recursos para policiais e promotores irem atrás de criminosos violentos. Na proposta, são rebaixados a “pequenos delitos” crimes como fraude, falsificação e furto, desde que o valor total do roubo seja inferior a US$ 950.

Estabelecimentos comerciais são ocasionalmente atingidos por saqueadores em massa, e esses criminosos sabem como manter seus roubos abaixo de US$ 950, garantindo que tais “contravenções” não justifiquem a atenção da polícia. A conta chegou, e o resultado é que São Francisco agora tem a maior taxa de crimes contra propriedades per capita do país.

Os três políticos mais poderosos da Califórnia — a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, a senadora Dianne Feinstein e o governador Gavin Newsom — são todos multimilionários. Suas vidas, casas e privilégios não têm nenhuma semelhança com os de outros californianos que vivem as consequências de suas políticas e agendas equivocadas. O trio passa os dias entoando os efeitos apocalípticos das mudanças climáticas e a razão para iniciar mais um impeachment contra Donald Trump.

A elite do Estado que sempre presumiu que a Califórnia era tão naturalmente rica e bonita e que sempre atrairia milhares de pessoas hoje percebe que o Estado está se aproximando dos limites lógicos do aventureirismo progressista nas políticas públicas.

A Califórnia é agora um Estado de partido único. Os democratas têm supermaioria em ambas as Casas da legislatura e apenas sete das 53 cadeiras no Congresso são ocupadas por republicanos. A Califórnia de Reagan não existe mais. Os ancestrais dessa nação levaram um século para transformar um deserto na Califórnia. Parece que bastará uma geração de desmiolados apenas para transformar, em uma ou duas décadas, a Califórnia em um deserto.

5 comentários:

César de Castro Silva disse...

Por onde a esquerda passa deixa a terra arrasada

Anônimo disse...

Quem tem medo da Falha de Santo André quando se tem os retardados do beautiful people? Se Hollywood virar mesmo um cenário de filme de Zé do Caixão, independentemente de terremoto, tomara que as beldades de Beverly Hills não queiram implantar suas distopias na outra BH, a do Galo.

Anônimo disse...

Califórnia e Argentina: a força da esquerda é centrífuga.

Land disse...

Me fez lembrar de Minas Gerais e Rio Grande do Sul sob governo petista.

Antonio Medici disse...

Pobreza e riqueza se atraem, independente de serem progressistas ou conservadores os governadores.

No Brasil, as capitais são lideres em pobreza: Brasília, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, etc

Campinas, a cidade mais rica do Brasil ( excetuando-se as capitais, embora Campinas seja mais rica do que muitas delas) também é a cidade com maior numero de pobres.