segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Os super-heróis do nosso tempo: Marvel se rende à lacração.


A motivação não é ter direitos iguais, mas ter mais direitos que os demais, com a justificativa da reparação por sofrimentos passados; não é acabar com a opressão, mas trocar de lugar com o opressor. Luciano Trigo para a Gazeta do Povo:


Em alguma medida, mesmo que somente em uma fase da vida (e mesmo que, depois de adultos, a maioria de nós não os leve mais a sério), os super-heróis da Marvel povoam o imaginário de várias gerações. Criada em 1939, a Marvel Comics se tornou a maior editora de histórias em quadrinhos do planeta graças a personagens como o Homem-Aranha, o Capitão América, o Homem de Ferro, Hulk e Thor, entre dezenas de outros. E um filão explorado com sucesso pela empresa foi o dos heróis que atuam em equipe, como o Quarteto Fantástico, criado em 1961 pelo mítico Stan Lee, e, mais recentemente, os New Warriors, lançados originalmente em 1989.

Na origem, os New Warriors eram um time de super-heróis em versão adolescente que faziam o que se espera dos super-heróis: lutar contra o crime e enfrentar vilões sem piedade – empregando a violência, quando necessário. Como em muitas narrativas mitológicas, o desejo de vingança estava na origem da criação do grupo: seu líder Dwayne Taylor (aka Radical) entrou na vida de super-herói porque queria vingar a morte de seus pais.

Existem teorias que explicam a função simbólica do herói e da representação da violência e da vingança nessas narrativas, que vão além do entretenimento e estabelecem pontes para o mundo adulto. O tema é abordado em livros como “Brincando de matar monstros”, de Gerard Jones, que explica a pais e educadores a importância pedagógica das histórias de heróis no desenvolvimento do imaginário infantil, das fábulas de antanho às histórias em quadrinhos e aos videogames.

Voltando aos New Warriors: além de Dwayne, faziam parte da formação original do time Marvel Boy (que mais tarde se tornaria o Justiça), Flama (a futura "Firestar" Angelica Jones), e Namorita, prima do príncipe Namor, entre outros personagens. Esses personagens não foram exatamente as criações mais inspiradas da Marvel, mas cumpriam o seu papel com dignidade – e sem mimimi. Pois bem, em março passado a Marvel lançou sua nova versão dos New Warriors. Trata-se, basicamente, da rendição total da empresa à ditadura da lacração que acomete o planeta.

(Parênteses: um dos marcos iniciais desse processo de submissão dos super-heróis à agenda lacradora foi a reação às axilas depiladas da Mulher-Maravilha no longa-metragem lançado em 2017. Muitos ativistas de sofá ficaram indignados, uma vez que a heroína representa a força e a independência femininas. “Por que a Mulher-Maravilha não tem axilas peludas?”, perguntou um fã. Fecha parênteses)

Pois bem, os novos New Warriors são os seguintes:

“Safespace” e “Snowflake” são dois irmãos gêmeos psíquicos transgênero não-binários (os primeiros super-heróis não-binários da história da Marvel). Eles empregam uma linguagem neutra, com pronomes não-binários, para não ofender ninguém. Seus nomes merecem uma explicação: Snowflake vem da expressão “floquinho de neve”, usada pejorativamente para descrever jovens progressistas que se ofendem com qualquer coisa e que se acham únicos e especiais. Já Safespace vem de “espaço seguro” (aqueles lugares onde ninguém julga ninguém, onde todos são livres para ser o que são, exceto se forem heterossexuais e conservadores). O poder de Safespace é materializar campos de força cor-de-rosa.

A proposta dos criadores dos personagens, Luciano Vecchio e Daniel Kibblesmith, é fazer a geração-mimimi se sentir empoderada, ao “ressignificar esses termos como algo legal e poderoso, ao invés de remeterem a algo negativo”: “Safespace e Snowflake são hiper conscientes da cultura e da ótica modernas e veem seus super-heróis como uma meditação pós-irônica sobre o uso da violência para combater o bullying”, afirmou Kibblesmith. “Eles não vêem esses termos como depreciativos. Eles tomam essas palavras e as usam como distintivos de honra.”

“B-Negative” é um vampiro adolescente gay gótico, que foi submetido quando criança ao uma transfusão de sangue controversa (?) que salvou sua vida. Seu poder é chupar sangue através das mãos (??). Seu nome é um trocadilho que combina o tipo sanguíneo B-negativo com a expressão “Seja negativo” (“Be negative”), uma referência irônica à negatividade dos haters das redes sociais.

“Trailblazer” é uma adolescente obesa que carrega uma mochila mágica nas costas: seu poder é tirar coisas aleatórias da mochila. O sobrepeso de Trailblazer é claramente uma mensagem de empoderamento direcionada às adolescentes gordas: continuem se empanturrando de gulodices, não se preocupem com os problemas de saúde associados à obesidade que virão mais tarde, o que importa é lacrar. Trailblazer afirma obter seu poder de Deus, mas “não é o deus em que você está pensando”.

Por fim, “Screentime”, cujo nome faz referência ao tempo que os adolescentes passam diante da tela do computador ou do celular, foi exposto pelo avô a um gás experimental da Internet (?), que conectou permanentemente seu cérebro à lacrosfera.

Na época do lançamento, a Marvel divulgou o vídeo promocional, apresentando os personagens da nova versão dos New Warriors. Mas, para surpresa da própria Marvel, a versão lacradora dos New Warriors foi mal recebida até pelos grupos demográficos que a empresa julgou representar com esses personagens. As críticas foram dirigidas tanto ao tom complacente em relação às minorias quando ao fato de a dupla de criadores não ter lugar de fala para inventar personagens verdadeiramente representativos, caindo em estereótipos e concepções equivocadas sobre a diversidade.

Safespace e Snowflake foram considerados ofensivos por ativistas LGBTQ+ e leitores não-binários – e houve até quem se incomodasse com a possível sugestão de um incesto, pela maneira como eles se olham. Como se sabe, somente gêmeos psíquicos não-binários transgênero estão autorizados a escrever sobre gêmeos psíquicos não-binários transgênero. Da mesma forma, somente adolescentes com sobrepeso e uma mochila mágica podem criar histórias sobre adolescentes com sobrepeso e uma mochila mágica.

Além disso, no caso da gorducha Trailblazer, causou desconforto o fato de não ficar claro se ela é “nativa americana” (índia, no popular), latina ou afrodescendente – e em cada caso a personagem estará sujeita a críticas diferentes dos grupos identitários (porque, no fim das contas, o que importa é problematizar e reclamar).

É o problema da lacração identitária: supostamente movidos pelo desejo de inclusão e pela luta legítima por igualdade de direitos, ela vem promovendo, ao contrário, as formas mais autoritárias e sectárias de exclusão, com todos os grupos se sentindo no direito de apontar o dedo uns para os outros. Busca-se não a igualdade de direitos e o apagamento das diferenças, mas a afirmação da diferença como meio de obter um tratamento desigual e privilegiado.

A motivação não é ter direitos iguais, mas ter mais direitos que os demais, com a justificativa da reparação por sofrimentos passados; não é acabar com a opressão, mas trocar de lugar com o opressor; não é criar uma sociedade na qual todos vivam em harmonia, mas uma sociedade em guerra permanente, na qual o "ódio do bem" e o cancelamento dos diferentes (inclusive de qualquer forma diferente de pensamento) se tornou uma razão de viver. A conclusão aqui é: os lacradores nunca ficarão satisfeitos, porque sentiram o gostinho de ser ditadores e estão adorando; eles continuarão cancelando e apontando o dedo para tudo e para todos, inclusive para antigos aliados. Tudo indica que não sossegarão enquanto não calarem, na base da intimidação e do constrangimento, todos que ousarem discordar deles.

A má notícia é que eles estão sendo enganados: em breve (quando tiverem que pagar boletos, talvez) descobrirão que, no mundo real, não existe espaço seguro; que, fora dos cercadinhos em que foram ensinados a viver, as exigências da vida adulta impõem pressões e desafios indiferentes à sua sensibilidade de flocos de neve. Quando perceberem que não foram preparados para viver como adultos, mas somente para lacrar como adolescentes mimados, será tarde. Será que ninguém percebe que isso é uma armadilha e uma bomba-relógio? Qual será o resultado desse experimento social, ao qual a mídia e outros grupos de interesse vêm aderindo com tanto entusiasmo? Veremos em breve.

Um comentário:

Anônimo disse...

Minha sábia mãe dizia: não aprendeu por bem em casa, vai aprender por mal na rua.