sexta-feira, 30 de outubro de 2020

A loucura da sociedade contemporânea


O número de diagnósticos psiquiátricos aumentou muito, e os médicos conseguem convencer uma boa parcela da população de que a psiquiatria é a resposta para seus problemas. Theodore Dalrymple, via Oeste:


Sou eu, ou o mundo enlouqueceu? Claro, o mundo nunca foi lá muito são: já em 1608 o dramaturgo inglês Thomas Middleton escreveu uma comédia intitulada A Mad World, My Masters. E em 1881 Machado de Assis publicou uma novela, O Alienista, em que um médico positivista, Dr. Bacamarte, abre um asilo na então pequena cidade brasileira de Itaguaí na esperança de descobrir a verdadeira causa da loucura. Logo ele confina praticamente a população inteira da cidadezinha no asilo em razão de uma forma ou outra de loucura, até se dar conta de que os sãos, na verdade, compõem uma diminuta minoria e, portanto, deveriam ser de fato os internados no asilo. Finalmente, ele interna a si mesmo na própria instituição como o único paciente e morre ali.

A pequena sátira de Machado talvez fique mais evidente em nosso tempo do que na época em que foi escrita. O psiquiatra iconoclasta Thomas Szasz publicou há alguns anos um artigo satírico no Lancet, uma revista médica que não costuma ser conhecida por seu senso de humor, em que propunha que a felicidade daquele momento em diante fosse categorizada como uma doença mental por se mostrar: a) muito rara; e b) irreal e delirante, não sendo apropriada para a situação em que a pessoa feliz se encontrava. Em comparação com os felizes, os deprimidos têm uma compreensão melhor da realidade.

Em um dos hospitais psiquiátricos em que trabalhei no passado havia um psiquiatra sênior baixo, gordo e arredondado que sempre usava roupas de couro típicas de motoqueiro e raramente tirava o capacete, mesmo quando falava com pacientes. Ele parecia um extraterrestre recém-chegado do espaço sideral.

Um dia foi chamado para o presídio local, onde um paciente estava sendo detido. Ele chegou à prisão, e o agente penitenciário no portão telefonou para o hospital para avisar que um dos pacientes tinha fugido e ido para a prisão afirmando ser um psiquiatra.

“Sim”, respondeu o agente penitenciário.

“É o doutor H mesmo”, confirmou a telefonista. “Pode deixá-lo entrar, ele é bem inofensivo.”

Na primeira fase, quando está colocando praticamente a população inteira da cidade no asilo, o Dr. Bacamarte provou ser um precursor presciente da quinta edição do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, da Associação Mericana de Psiquiatria, mais conhecido como DSM-5: um manual de diagnóstico visto com uma reverência supersticiosa mundo afora, como se todos tivessem perdido suas faculdades críticas ao mesmo tempo.

O número de diagnósticos psiquiátricos aumentou muito com o passar dos anos, algo que está mais relacionado à quantidade de psiquiatras do que à de doentes mentais, desconfio eu. É claro, isso não quer dizer que psiquiatras tenham dificuldade de encontrar pacientes: eles conseguiram convencer uma boa parcela da população de que a psiquiatria é a resposta para seus problemas. Como o dr. Colin Brewer, um psiquiatra britânico, afirmou certa vez, como uma lei mais ou menos psicossociológica, pelo menos nos países desenvolvidos, “a infelicidade aumenta para ir ao encontro dos meios disponíveis para aliviá-la”. Existe um interesse próprio na infelicidade e no uso das oportunidades que ela oferece para aqueles que afirmam ser capazes de aliviá-la.

O DSM-5 dá alta incidência às centenas de doenças que ele define e descreve. Em uma ocasião, eu contei todas essas incidências, e parece que o cidadão médio dos Estados Unidos ou da Europa Ocidental sofre, em qualquer dado momento, de duas doenças psiquiátricas e meia. Não surpreende que exista uma falta de psiquiatras! No mundo moderno, a sátira se torna não apenas uma profecia, mas uma regra.

Se questões psiquiátricas necessitam de psiquiatras para ser curadas, o asilo do Dr. Bacamarte em Itaguaí teria sido um passo na direção certa, e a única atividade econômica do mundo seria o cuidado dos doentes mentais.

Se você somar a incidência máxima fornecida no DSM-5 para os vários tipos de distúrbio de personalidade, chegará à conclusão de que até 35% da população sofre, ou faz os outros sofrer, de um desses distúrbios. Um distúrbio de personalidade é definido como “um padrão duradouro de comportamento e experiência pessoal que desvia das expectativas da cultura do indivíduo, é imutável e inflexível, leva a um significativo comprometimento ou dificuldade e tem início na adolescência ou começo da vida adulta”. Um distúrbio de personalidade não é tanto algo que você tem quanto algo que você é.

Sem dúvida todos nós nos desviamos, de forma duradoura, de algum aspecto das expectativas daqueles à nossa volta, o que causa dor para nós mesmos ou para os demais. Assim, é normal para nós ser anormal, e anormal ser normal, como o Dr. Bacamarte concluiu. Pensar sobre esses paradoxos é suficiente para deixar a cabeça de qualquer um em parafuso.

Na minha juventude, R. D. Laing, um psiquiatra que depois se tornou guru, conseguiu insinuar na cultura geral da época a ideia de que era insano ser são em um mundo insano. A insanidade era a verdadeira sanidade e, portanto — o que viria a seguir —, nenhum meio coercitivo deveria ser usado para impedir que os loucos se expressassem da maneira que quisessem, porque, na realidade, eles eram sãos. Em vez disso, o problema era fazer os sãos se comportarem de modo insano, ou seja, com a verdadeira sanidade. Quando entrou na segunda fase de sua carreira no asilo, o Dr. Bacamarte fez exatamente isso, e aqueles que tinham sido internados porque eram racionais não podiam sair até que dessem sinais de estar loucos.

O verdadeiro alvo de Machado de Assis (ao que me parece) era o positivismo cientificista da época, que perdura hoje e é uma tentação permanente para os não religiosos: que existe uma resposta científica para todos os problemas que a vida apresenta, e que, se estudarmos o cérebro humano o suficiente e o compreendermos o suficiente, e atentarmos para as lições da evolução, vamos automaticamente solucionar todos os nossos dilemas e, a partir daí, aprender como viver. Essa é uma esperança vã.

Theodore Dalrymple é o pseudônimo do psiquiatra britânico Anthony Daniels. Daniels é autor de mais de trinta livros sobre os mais diversos temas. Entre seus clássicos (publicados no Brasil pela editora É Realizações), estão A Vida na Sarjeta, Nossa Cultura… Ou O Que Restou Dela e A Faca Entrou. É um nome de destaque global do pensamento conservador contemporâneo. Colabora com frequência para reconhecidos veículos de imprensa, como The New Criterion, The Spectator e City Journal.

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