terça-feira, 27 de outubro de 2020

Duas concepções antagônicas de ciência


De alguma maneira, a imagem galileana do cientista vem desaparecendo da cabeça dos letrados. Em seu lugar, vem se inflando cada vez mais a noção do cientista como o burocrata da Verdade. Bruna Frascolla, para a Gazeta do Povo:


A palavra “ciência” é capaz de evocar duas imagens completamente diferentes: uns ouvem “ciência” e pensam numa curiosidade inabalável a mover o Homem, que não se detém em sua busca por conhecimento nem mesmo quando está sob a ameaça das chamas da Inquisição. Já outros ouvem “ciência” e imaginam uma tabela gigante cheia de estatísticas, da qual os especialistas tiram resposta para tudo. Trocando em miúdos, uns ouvem “ciência” e pensam em Galileu; outros ouvem “ciência” e pensam num asséptico burocrata de jaleco. Um tipo especial de burocrata que pode ser definido como o burocrata da Verdade.

Embora a maioria dos homens admire a ciência, poucos têm a pretensão de se considerar cientistas. A maioria prefere cuidar da vida, ao passo que os cientistas históricos tinham que encantar mecenas para arranjar um sustento. Este dependia de sua boa vontade – era uma forma de mendicância.

Por isso, uma vez que as sociedades aprenderam a apreciar a ciência, o Estado passou a ocupar o lugar do mecenas. Patrocina cientistas (por meio de centros de pesquisa) e têm-nos a seu serviço. Nos centros de pesquisa, em tese, deve haver autonomia intelectual frente ao Estado – e é a isso que a noção de “autonomia universitária” deveria remeter, e não à farra de sindicalistas político-partidários que bajulam as autoridades do Estado com o fito de sugar o máximo do dinheiro dos impostos com o mínimo de trabalho e responsabilidade.

O cientista que está a serviço direto do Estado está mais para um técnico; é responsável por resolver problemas da população. Se o governante tem um problema crônico de recursos hídricos, não deverá chamar o Cacique Cobra Coral, senão um grupo incumbido de solucioná-lo com base em conhecimentos técnicos e científicos.

Idealmente, um homem como Galileu teria seu lugar na sociedade de hoje em uma universidade: autônomo, não deveria satisfação a políticos que porventura não gostassem de suas teorias. Essa autonomia não implicaria um autismo frente a sociedade, e ele poderia ser chamado para contribuir com a solução de problemas que estejam em sua alçada.

O burocrata da Verdade

De alguma maneira, a imagem galileana do cientista vem desaparecendo da cabeça dos letrados. Em seu lugar, vem se inflando cada vez mais a noção do cientista como o burocrata da Verdade. A Verdade está pronta e acabada, os dilemas da liberdade não existem, e qualquer problema humano pode ser resolvido pela “ciência”. O cientista, ou antes o especialista, é como que uma pitonisa sem charme a decifrar números-oráculos e traduzi-los em imperativos para os governados e governantes: “tem que fazer isso, isso e aquilo”.

O crescimento do burocrata foi tamanho, que se espalhou pela sociedade civil. Hoje os cidadãos pagam em privado a essas figuras para se especializarem dos seus problemas individualíssimos. Quem está infeliz ou tem filho malcriado deve procurar psicólogos e psiquiatras para resolverem o problema. Quem está gordo deve procurar um nutricionista para fazê-lo emagrecer. Quem não arruma namorado, nem conseguiu emagrecer, deve procurar os especialistas foucaultianos para encontrar um jeito de culpar os homens, os médicos e o capitalismo, enquanto toma o Rivotril.

Não estou dizendo aqui que ninguém deve ir ao psicólogo ou ao nutricionista: o estranho é as pessoas considerarem de primeira que os outros devem resolver os seus problemas, em vez de cada um considerar o próprio bom senso a primeira instância na tentativa de resolver os próprios problemas. É à passividade que chamo a atenção. Passividade, e falta de brios.

Mas voltemos ao burocrata da Verdade.

Uma vez que a Verdade é conhecida, ele pode dividir os humanos em dois grupos: o que aceitam a Verdade e os que não a aceitam. Como bom burocrata, ele lida com governados, não com homens dotados de agência e liberdade. O grupo dos que aceitam a Verdade (ou a “Ciência”, como dizem) merece ser tutelado qual guaranis dóceis em mãos jesuíticas. Já o grupo dos que não aceitam a Verdade deve ser enviado para uma fogueira moral, condenado “obscurantista” e xingado de todos os nomes. E nesse caso aquele que tiver a postura inquisitiva de Galileu será tratado como um inquisidor – embora não tenha poder burocrático nenhum!

Uma concepção de ciência é oposta à outra. Quando a autoridade política resolve pontificar sobre a verdade, Galileu lhe é essencialmente insubmisso. E um burocrata é, por definição, autoridade política.

Um mal entendido sobre a importância política de Galileu

Embora seja, nessa circunstância, essencialmente insubmisso, Galileu não é essencialmente um revolucionário político. Afinal, nem sempre a autoridade política resolve pontificar sobre o que é a Verdade. Assim, toda aura politicamente revolucionária que Galileu possa ter decorre do fato de, à sua época, a autoridade política ter se arrogado esse direito. Cabia à Igreja determinar o ordenamento do sistema solar, e os reis eram submissos ao Papa. A figura de Galileu teve importância política por ter posto as autoridades política e eclesiástica em seus devidos lugares, no que concerne ao conhecimento.

Seu feito foi mal interpretado. O Ocidente, sobretudo a matriz francesa, tende a dividir a autoridade apenas entre Estado e Igreja, como se o laicismo resultasse de uma batalha entre Yin e Yang, Razão e Fé, do qual a Razão saíra vitoriosa. Não é isso. O laicismo consiste na redução do poder do Estado, que deixa de mandar em assuntos da fé. O Rei não diz mais: “seja católico e pague impostos!”. Diz: “seja você um católico ou um protestante, pague impostos!”. Dada a sujeição dos chefes de Estado ao Papa, era como se, antes de Galileu, o Rei dissesse: “seja católico, acredite no geocentrismo e pague impostos!”.

Depois de Galileu, o Ocidente começou a achar que era uma boa ideia separar conhecimento e fé, antes mesmo de separá-la do Estado. No entanto, não se percebe que é no mínimo tão importante separar autoridade estatal de autoridade religiosa quanto separá-las da científica. Dai a César o que é de César. O Reino da Ciência e o dos Céus têm cada qual sua regra de soberania. Um homem pode ser tripla cidadania, só não pode confundir os reinos.

O maior perigo que livre investigação corre, hoje, é quando os burocratas da Verdade tomam conta da lei e criminalizam a dúvida. Por isso, atentemos ao que alimenta a ciência em sua origem: a curiosidade independente de César e de Deus. Não precisamos ser todos cientistas, mas podemos, talvez até devamos, nutrir um pouco da fagulha que anima o cientista. Duvidemos da autoridade, e tentamos formular sempre bem o nosso próprio juízo.

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