sábado, 21 de novembro de 2020

A pirâmide de Guilherme Boulos


Acredite se puder: Guilherme Boulos sugeriu que contratar mais servidores é a forma de combater o déficit da Previdência do funcionalismo paulistano. Editorial da Gazeta do Povo:


O petismo inventou a “contabilidade criativa”, e o PSol resolveu levar a criatividade a níveis nunca vistos antes neste país. O candidato da legenda à prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos, apresentou uma fórmula mágica para acabar com o déficit da Previdência do funcionalismo público paulistano: contratar ainda mais servidores. Em sabatina realizada pelo jornal O Estado de S.Paulo, questionado sobre o tema, afirmou: “Sabe por que a Previdência do serviço público se torna deficitária? Porque não se faz concursos. Para a Previdência se equilibrar, tem de ter gente contribuindo, não só gente recebendo. Você tem mais gente se aposentando, virando inativo para receber na Previdência, e como não se faz concurso, tem menos gente contribuindo para a Previdência pública. Fazer concurso é uma forma de arrecadar mais para a Previdência pública e equilibrar a conta com os inativos. É isso que vou fazer”, disse, continuando a resposta com as áreas prioritárias nas quais ele abriria concursos no início do mandato.

O único fiapo de lógica que existe neste tipo de raciocínio é o fato de que, se o quadro de servidores da ativa for ampliado, a Previdência paulistana realmente terá mais receita pelo aumento do número de contribuintes. Mas o raciocínio do candidato de extrema-esquerda é tão absurdo que, muito provavelmente, ele não tem a menor ideia de quantas pessoas seria preciso contratar para “equilibrar a conta com os inativos”. O município de São Paulo tem hoje 126 mil servidores na ativa, que em 2018 geraram receita de R$ 1,4 bilhão para o sistema previdenciário municipal, contra 112 mil aposentados e pensionistas, com despesa de R$ 9 bilhões naquele mesmo ano. Em outras palavras, para “equilibrar a conta” a receita teria de aumentar mais de seis vezes. Seria preciso inchar o funcionalismo paulistano de maneira inédita para fazer valer a peculiar matemática de Boulos.

E, por fim, o buraco mais evidente na solução mágica do líder sem-teto é o simples fato de que todo esse exército de novos funcionários públicos um dia também irá se aposentar e passar para o lado da despesa, o que exigiria, na lógica do candidato do PSol, ainda mais contratações... São Paulo se tornaria a maior pirâmide previdenciária pública do mundo, crescendo até que todos os moradores do município acabassem na folha de pagamento da prefeitura, ou que o sistema colapsasse de vez. O fato de Boulos ter cumprido de forma tão acintosa o aforismo de H.L. Mencken segundo o qual “para todo problema complexo existe sempre uma solução simples, elegante e completamente errada”, merecendo a ridicularização de economistas e de qualquer pessoa com bom senso, levou o psolista a gravar um vídeo alegando que sua fala foi “retirada de contexto” e que ele jamais defendera o que havia defendido na sabatina, cujo vídeo está disponível para que todos tirem suas dúvidas (a resposta está no minuto 39). Por mais que estejamos em uma campanha eleitoral e não em um filme de ficção, o que Boulos pede é uma “suspensão da descrença” semelhante à exigida para alguém se convencer de que mais contratações realmente resolveriam o problema do déficit.

Boulos não está inventando nada; ele apenas levou ao ridículo extremo o que parece ser uma dificuldade clássica de políticos, principalmente da esquerda, em entender como funcionam as contas públicas. Em 2017, uma CPI do Senado, presidida pelo petista Paulo Paim e que tinha como relator Hélio José, do Pros, concluiu – contra toda a realidade atestada pelo Tribunal de Contas da União e até mesmo pela Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita (Anfip), a criadora da tese da “farsa do déficit” – que a Previdência brasileira não era deficitária. Em defesa do psolista, ao menos ele admite que há um rombo a ser sanado, mostrando que alguma evolução é possível.

Esse tipo de mentalidade atrasou em muitos anos uma reforma abrangente da Previdência, que só se tornou realidade em 2019, e que mesmo assim ainda pode não ser capaz de solucionar definitivamente o problema. Mas o pensamento mágico não se resume apenas à questão previdenciária: ele se estende às contas públicas como um todo. Há uma dificuldade quase que intransponível, em certos setores de Brasília, em aceitar o fato básico de que a geração espontânea de dinheiro não passa de lenda urbana. Assim como na história da criança que vive na cidade, nunca viu uma vaca e acha que o leite vem da caixinha, políticos ignoram (ou esquecem) que os valores que brotam nas planilhas do orçamento não surgiram magicamente, mas vieram do trabalho de muitos milhões de brasileiros. E há os que são conscientes desse fato, mas simplesmente consideram que se pode sempre tirar um pouco mais da sociedade sem maiores consequências; são os que precisam urgentemente ser apresentados à Curva de Laffer.

O absurdo da pirâmide previdenciária de Guilherme Boulos era tão evidente que foi captado de imediato pela população, mas ainda há todo um arsenal de ideias que, embora mais sutis, têm o mesmo potencial daninho às contas públicas. Estão em planos de governo e projetos de lei, quase sempre camuflados sob o manto das melhores intenções. Identificar e expor o pensamento mágico por trás dessas iniciativas é um ato de respeito ao cidadão e contribuinte, que entrega ao Estado parte considerável do que produz e espera em troca que o poder público use esse dinheiro com responsabilidade.

Um comentário:

Land disse...

Não se chega a ser um Boulos na vida sem ser também um vigarista.