domingo, 29 de novembro de 2020

Dois anos de paralisia: governar para quê?


Após 2 anos, o governo atual se encontra, mais ou menos, onde Dilma nos deixou. Coluna de J. R. Guzzo para o Estadão - no alvo:


Uma das palavras mais ouvidas no governo federal nesses últimos meses é “governabilidade”. O que seria esse bicho? Segundo nos contam, trata-se daquele balaio de decisões moralmente lamentáveis e tecnicamente ineptas que os governos, coitados, são obrigados a tomar para conseguirem governar – ou fazem essas coisas feias, mas tidas como indispensáveis, ou não governam nada (em política, argumentam os que estão mandando, a prática deliberada do erro nem sempre é uma desvantagem). O governo do presidente Jair Bolsonaro, como sabem até as crianças com dez anos de idade, decidiu tempos atrás tornar-se governável em modo extremo – está fazendo tudo o que lhe pedem, e muito do que não lhe pedem, com o elevado propósito de governar o Brasil. Está dando certo para os governantes, ao que parece. E para os governados?

A “governabilidade” pode ser uma coisa admirável na teoria política, mas na vida prática a pergunta que se tem de fazer é a seguinte: governar para quê? Se for para dar ao Brasil uma espécie de Dilma-2, o Retorno, com anos de crescimento zero que se alternam com anos de recessão, e com a população escalada para exercer a mesmíssima função, como escrava que trabalha dia e noite para sustentar a máquina estatal – bem, muito obrigado. É onde se encontra, após dois anos inteiros no comando, o governo atual: mais ou menos onde Dilma Rousseff nos deixou. O Estado continua a engolir (e a gastar) a maior fatia da renda nacional. A economia está onde estava em 2018. A alta burocracia deita e rola. O Centrão, o inimigo número 1 do erário nacional, é de novo a grande estrela do governo. As leis continuam servindo para proteger os políticos dos cidadãos, em vez de fazer o contrário. Praticamente nenhum índice de “performance”, salvo no agronegócio, saiu do lugar. O que adianta governar desse jeito?

Nesses dois anos, o governo não fechou, não de verdade, uma única empresa estatal – uma meia dúzia de subsidiárias foram vendidas por suas controladoras, e ficou nisso. De concreto, a única coisa que aconteceu foi a demissão do secretário-ministro encarregado da privatização, que nunca teve o que fazer. Não conseguiram fechar nem a empresa do “trem-bala”, um dos maiores contos do vigário do governo Dilma – o ministro dos Transportes acha que a empresa, que jamais colocou um metro de trilho no chão, é indispensável. Outra joia da coroa petista, a TV Brasil inventada por Lula, continua intacta.

Não foi cortado nenhum privilégio nas altas castas do funcionalismo. A população continua sendo extorquida pela mesma carga de impostos de sempre – 30%, ou mais, numa conta de luz, de telefone ou de farmácia. A economia permanece como uma das mais fechadas e menos capazes de competir do mundo. Na hora de fazer a indicação mais importante de seu governo, a de um novo ministro para o STF, Bolsonaro veio com o dr. Kassio, o preferido do Centrão e de um senador processado por corrupção.

O governo está no seu quarto ministro da Educação em dois anos, e não se mexeu um milímetro nos índices brasileiros na área, que continuam entre os piores do planeta; falaram o tempo todo de política, e os livros didáticos lidos nas escolas continuam insultando abertamente os militares, chamados de “torturadores”, os agricultores, acusados de viverem às custas do “trabalho escravo”, e o próprio governo eleito em 2018, que é denunciado nas aulas como fascista, racista, homofóbico, genocida e destruidor da Amazônia.

Quando lembrado de qualquer dessas coisas, Bolsonaro diz: “Então vota no Haddad”. É melhor mudar o disco. Uma hora dessas ele ainda vai ouvir: “E daí? Qual é a diferença?"

9 comentários:

Anônimo disse...

Concordo com o descrito pelo jornalista J.R.Guzzo.
Gostaria saber o que os bolsonaristas têm em defesa do Mito que está cuspindo no prato oferecido pelos eleitores que acreditaram nas promessas que ele fez.

Carla Micheline disse...

Lamentavelmente Guzzo so traz verdades neste artigo......votei no Bolsonaro justamente para ao termos mais da lama petista, mas o que tem sido ate aqui so decepciona e é mais do mesmo....

Vandeco disse...

Queiram ou não o Brasil tem no poder público o seu maior empregador (Governos Federal, Estadual e Municipal).
Os governantes brasileiros, em todos os tempos, consideram que o Estado deve centralizar as ações econômicas. Brasília o centro do poder e de tudo, ainda mais agora com o STF governando também.
O complicadíssimo e grande sistema tributário, além de prejudicar o sistema o privado virou um gigante indomável.
Privatizar, mesmo que em pequenas parcelas é impossível com o quase total domínio do Estado e dos políticos.
Esperar o quê de um país que coloca no poder, além do pouco que escrevi, verdadeiros ladrões para tomar conta do cofre da nação? Até parece que pelo menos os roubos nos cofres públicos quase sumiram. Talvez isto já seja bom demais. Pobre Brasil do futuro!

Anônimo disse...

O Bolsonaro não tem o mínimo de preparo para o desempenho no mínimo regular que se espera para um presidente da república. Para alegria e glória do Centrão saiu Dilma e entrou ele. Uma aloprada de esquerda por um aloprado que se diz de direita. Foi seis por meia dúzia.

Unknown disse...

Caro Guzzo, vejo que o amigo demorou quase 2 anos pra perceber o óbvio: fomos enganados por esse pilantra, inclusive o nobre articulista que o defendeu todo esse tempo. No Brasil, vai acontecer o mesmo que na Argentina. Efeito Orloff. A esquerda vai voltar ao poder pela inépcia do governo e pela ganância de políticos e empresários corruptos. Com um stablishment desses, não há como viabilizar uma 3a via. Moro, que seria um bom nome, é temido por ser justo e os colocar na cadeia. Se ficar o bicho come, se correr o bicho pega. É isso aí, vamos nos tornar uma Venezuela, é nossa sina com a qualidade de nossos políticos e eleitores.
Roberto

Anônimo disse...

O presidente Lula se reelegeu e depois colocou a Dilma tomando conta da cadeira pra ele. Ela também conseguiu se reeleger. Absurdo, mas ela conseguiu. Precisou de um impeachment para bota-la pra fora. Se Dilma foi reeleita, em 2022 o Bolsonaro também conseguirá?
Como de costume, o Centrão decidirá.

Anônimo disse...

Admiro o Guzzo, sempre escrevendo com clareza e qualidade. Mas cá entre nós, temos alta fragmentação partidária, crise política diária, siglas que nem sabemos que existem e que a cada eleição aparecem, um sistema presidencialista falido que não funciona mais, um Congresso Nacional inchado, com deputados e senadores das mais diferentes matizes, com opiniões políticas e ideológicas as mais diversas. Não é de agora que temos problemas de governabilidade, com o famoso "toma lá, dá cá", troca de favores e uma dependência extrema na relação executivo - legislativo. Nem falo de outros poderes. Com tudo isso, uma velha conhecida: o Brasil não é para amadores. Presidencialismo ou parlamentarismo? Enfim, um presidente com a chefia de estado e de governo ou uma dualidade de chefia? Uso a última frase de Guzzo em seu artigo: “E daí? Qual é a diferença?"

Anônimo disse...

Guzzo falou no agronegócio mas se esqueceu do seu entorno: as obras de infraestrutura, algumas paradas há décadas, que avançam sem muito alarde. A percepção do povo é bem diferente da dos letrados dos grandes centros, mesmo os não saudosos dos tempos em que se afinavam com a esquerda hegemônica.

Anônimo disse...

Se estarmos no mesmo lugar, até que estamos bem, pois milhões trabalham diuturnamente para nos levarem ao precipício! Depois desse ano catastrófico, o Guzzo queria o quê? Que tivéssemos virado uma Dinamarca? Cada um que me aparece!!!!