quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Jogador como metáfora nacional: a sina de argentinos e brasileiros.


Com poucas narrativas de identidade nacional, futebolistas tornam-se símbolos poderosos inclusive, ou principalmente, quando fracassam. Vilma Gryzinski:


Tendo nascido para a grandeza olímpica, o lugar reservado a apenas um punhado de escolhidos, Diego Maradona viveu uma vida bem menor do que era em campo.

Como tantos outros, propulsionados da infância pobre para a celebridade incomparável do futebol, Maradona não conseguiu coadunar o que era em campo com o que deveria ser fora dele.

Um pouco como as duas grandes nações do futebol, Argentina e Brasil, não correspondem ao padrão que seus vastos territórios e grandes riquezas fariam prever. Somos sempre gigantes patinando, erguendo-nos para tropeçar em seguida, num ciclo que parece interminável.

Os jogadores como metáfora dos países onde nasceram, e do qual se vão tão cedo – “Vivemos muito tempo fora e sentimos saudade”, dizia El Diez –, são um lugar comum quase irresistível. Inclusive pelo que carrega de verdadeiro.

Como a Argentina das crises ciclotímicas, Maradona caiu, caiu e caiu mais um pouco. A cada vez que se levantou, retornou a um lugar um pouco menor do que antes.

A Argentina é viciada em populismo e Maradona foi viciado em cocaína – duas substâncias poderososíssimas.

“A droga é como um Pac-Man que vai engolindo toda a sua família”, definiu ele.

Os melodramas, as milongas, a malandragem, as cirurgias plásticas, as dívidas com o fisco, o Che Guevara tatuado no braço, tudo em Maradona encarnou a argentinidade popular – embora, obviamente, o pessoal do country club, os refúgios da elite, o venerasse com a mesma paixão do povão.

O esportista que chega ao Olimpo e destrói a si mesmo não é uma exclusividade argentina ou brasileira, mas nos diz mais justamente por sermos países enormes, em grande parte feitos por imigrantes, com buracos na narrativa nacional que o futebol ocupou e projetou de maneira incomparável.

A ideia do jogador como um provedor de momentos de felicidade ao povão sofrido também é comum aos dois países.

“Se morrer, quero voltar a nascer e quero ser jogador de futebol. E quero voltar a ser Diego Armado Maradona. Sou um jogador que deu alegria ao povo e isto me basta e sobra” dizia ele.

Mais recentemente, na última entrevista que deu, ao Clarín, Maradona se definiu assim:

“Fui e sou muito feliz. O futebol me deu tudo o que tenho. E se não tivesse tido esse vício, poderia jogar muito mais. Mas tudo isso é passado”.

O jornalista Julio Chiappetta, que publicou a entrevista, escreveu: “Morreu Diego Armando Maradona e o mundo já não é o mesmo”.

Definiu, praticamente, a essência da argentinidade.

9 comentários:

Anônimo disse...

RIP, bailarino. Será que los hermanos o porão num panteão, à la Evita? Quando morreu o grande e inexplicável Garrincha, também castigado pela vida, lamentamos muito mas não fizemos um escarcéu.

Anônimo disse...

Teve alguém por aí que disse que "Dieguito" foi escalado no time de São Pedro, por isso foi-se! Aí vem a pergunta: Será que "lá" também vale gol de mão? Eis a questão!!!

Antônio Henrique disse...

Comunistas não vão para o céu.

Anônimo disse...

Pelé, elegante e com fair play, diz que quer jogar com ele no céu - vê-se que errou de endereço.

Mauro Moreira disse...

Jamais tive qualquer simpatia por esse senhor. Como cristão, acredito que terá uma acolhida carinhosa no plano espiritual, como sói acontecer a todos aqueles que fazem a passagem. Contudo, terá que prestar contas, sim, por todos os seus atos aqui praticados. A dívida dele é grande e terá que ser paga. Deus não paga o mal com o mal ou o mal com o bem, Deus paga o mal com a justiça. Quanto à comparação, que me perdoem os hermanos, mas nosso Pelé é "O Rei". Foi considerado o atleta do século, algo que Dieguito jamais foi considerado. Pelé, como atleta, como craque, como homem, superou Maradona em todos os quesitos. Se eu tivesse que escolher entre uma vida errática entre os gênios da bola, eu escolheria um atleta que foi o meu ídolo do futebol; Manuel Francisco dos Santos, Mané Garrincha, a "Alegria do Povo". Mas Dieguito foi um craque, sim, ele foi um craque. Mas prefiro o futebol genial e alegre do nosso Mané, o futebol genial e elegante de nosso Pelé. Os hermanos jamais terão dois gênios do futebol mundial como Garrincha e Pelé. E tenho dito!

Gaudêncio disse...

Triste sina dos povos que se apegam a ídolos com pés de fétido barro.
Se Maradona não fosse socialista, amigo de Fidel e fá de Guevara, não estaria sendo chorado pelo povo espoliado por seguidos governos corruptos, nem merecedor de veneração e atenção total pela progressista mídia mundial.
Não será surpresa quando o Pelé pegar suas chuteiras e subir para outra dimensão, com essa mesma mídia fingindo secas considerações, ao mesmo tempo que começa a "cancelar" o lado cidadão do maior jogador de futebol de todos os tempos.
Pele, almejamos vida longa e respeito para você.

Land disse...

Nunca vi o Papa-Paj. Bergoglio se pronunciar tão rápido em relação a uma tragédia! Quantos às igrejas queimadas no Chile, às decapitações de cristãos mundo afora etc etc etc: silêncio sepulcral! Fala sério!!!

Land disse...

* Papa-Pajé

Mauro Moreira disse...

Fiz um comentário quinta-feira, novembro 26, 2020 6:16:00 AM.
Não havia atentado para um detalhe. Em um comentário lido ainda há pouco, um leitor, em uma outra fonte, afirmou: "Quantos gols Maradona deve ter feito completamente drogado". Tem lógica. Afinal, a cocaína é um estimulante poderoso, alucinante. Atentei para uma reportagem antiga em https://patadasygambetas.blogosfera.uol.com.br/2016/11/16/por-que-a-droga-e-o-doping-rondam-a-argentina-bem-antes-do-caso-lavezzi/. Há fotos de Maradona com expressões assustadoras.