sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Donald Trump e a força das coisas


E não era sequer pelos seus espalhafatosos defeitos que o contestavam. Contestavam-no por ter tentado assumir, com sucesso popular, uma agenda nacional-conservadora. Artigo de Jaime Nogueira Pinto para o Observador:


O lamentável espectáculo de Quarta-Feira, 6 de Janeiro, no Capitólio de Washington, marcou o fim da presidência de Donald Trump com um triste balanço humano – quatro manifestantes mortos pela Polícia e um polícia morto. E interrompeu a sessão em que os congressistas ainda com dúvidas sobre resultados eleitorais iriam, pela última vez, apresentá-las. Um dia talvez venhamos a saber tudo sobre esta eleição e sobre esta grotesca intentona, com centenas de rednecks e partidários de Trump a invadirem o Capitólio, primeiro como se fosse uma pacífica visita guiada, com conivência da segurança, depois como se fosse um assalto.

Deixou já de me impressionar a hipocrisia dos comentadores e analistas que, ao longo do ano, foram vendo Antifas e BLMs a vandalizar e a destruir estátuas, a saquear lojas, a ameaçar adversários políticos, a disparar sobre polícias, silenciando ou desculpando os episódios como “a justa revolta dos injustiçados”. Agora, que já não só podem como até devem dar largas à indignação, mostram-se, previsivelmente, indignadíssimos com “a cólera dos deploráveis” e falam de sacrilégio no ataque ao “Templo da Democracia”.

Já sabemos que têm dois pesos e duas medidas e que passaram a defender com argumentos “éticos”, ainda mais simplistas e populistas que os do outro lado, a supressão da liberdade de expressão pelos idóneos e desinteressados senhores da Big Tech.

O clima de radicalização ideológica e política nos Estados Unidos atingiu um grau nunca alcançado no pós-guerra. Seria preciso recuar até às polémicas sobre a intervenção na Segunda Guerra, nas vésperas de Pearl Harbour, e mesmo aí a divisão não era tão profunda.

O Culpado

Trump foi, desde a primeira hora da sua eleição, deslegitimado por parte do Partido Democrata, pela generalidade dos media e pela rua progressista. A “grande fraude eleitoral”, a suposta “Russian Connection”, da qual nunca houve prova, foi levada muito a sério e amplamente noticiada e explorada para ensombrar a legitimidade do novo Presidente. E veio a tentativa de Impeachment.

Aparentemente, nada disto revelava então “não-aceitação dos resultados eleitorais”, “mau perder” ou “atentado à Democracia”. Nada a ver com o que depois se passaria. Depois, sim, haveria não-aceitação, mau-perder e atentado à Democracia; depois sim, o facto de mais de metade dos eleitores republicanos desconfiarem da integridade da votação e da contagem dos votos seria já ridículo e desprovido de qualquer sentido. Os media tinham proclamado a vitória do duo Biden-Harris, muito antes de 14 de Dezembro, dia da votação do Colégio Eleitoral, e isso encerrava e selava o assunto. Não haveria nem poderia haver mais discussão.

A Esquerda sempre foi hábil na imputação de responsabilidades e o culpado da divisão na América, o único culpado, o culpado de tudo, fora, era e seria Trump e só Trump.

E não era sequer pelos seus espalhafatosos defeitos – narcisismo, falta de bases doutrinárias, agressividade, incontinência verbal – que o contestavam. Contestavam-no por ter tentado assumir, com sucesso popular, uma agenda nacional-conservadora. Agenda que anteriormente até lhe era estranha: America First, defesa da vida, combate aos fundamentalistas do globalismo, defesa de uma identidade americana e da liberdade de pensamento e de expressão. Foi isso essencialmente que o tornou o alvo de uma guerra sem quartel. Por cá, até chegaram a sugerir que se suicidasse (a eutanásia surge cada vez mais como um excelente instrumento para acabar com os deploráveis, os inúteis e os indesejáveis).

Os Anos de Trump

O balanço dos anos de Trump é misto e, nalguns pontos, foi mais o que disse que o que fez – o famoso muro México-Estados Unidos teve mais quilómetros construídos durante a Administração Obama que durante os quatro anos de Trump. Mas noutras coisas Trump pregou e cumpriu a agenda nacional-conservadora: trouxe de volta para a América muitas empresas e empregos; conteve o crescente poder chinês; obrigou os Europeus a contribuir para a Defesa; e ao contrário das administrações anteriores, não iniciou novas guerras no exterior. Internamente, defendeu as causas da vida e da família, combateu o aborto e os novos inquisidores da correcção política; trouxe mais eleitores latinos e negros para o campo republicano; nomeou juízes conservadores para o Supremo Tribunal e, no seu tempo, o desemprego atingiu mínimos históricos.

Provocação e Reacção

Mas então porquê este fim inglório, quando, com razão ou sem ela, o Presidente persistiu nas reclamações sobre a idoneidade da eleição contra a força das coisas e a ponderação dos riscos e das desvantagens que isso lhe poderia trazer e ao seu Partido? Porquê este encarniçamento que acabou por ser suicida? Porque Trump, aparentemente, não pondera, só reage aos provocadores e à provocação. E reage em excesso.

Na América – como em Portugal e mesmo na generalidade dos países europeus – a reacção popular às grandes linhas da globalização político-económica, ao ideário da correcção política e ao apoderamento da opinião e do sistema por “vanguardas” interessadas, é, por enquanto, só isso: essencialmente reactiva. É a antítese, a negação de um discurso que se quer impor como discurso único. E nesse discurso coincidem os bilionários da Big Tech, grande parte dos académicos e dos comentadores, quase todos os noticiaristas (agora autopromovidos a pensadores políticos) e os activistas Antifas e seus equivalentes europeus. Uns, porque ganham muito dinheiro, mais ainda que o que já ganhavam; outros porque impõem as suas ideias sobre o homem e o Estado ou porque vão com a maré; outros ainda porque passam por heróis, a derrubar ou a vandalizar estátuas de “fascistas”, como Abraham Lincoln ou como o Padre António Vieira. O apetite do lucro de uns junta-se ao zelotismo utópico ou ao instinto de saque de outros. E à ignorância e ao simplismo populismo de quase todos.

A Força das Coisas

Também a Trump, que derrotou os tradicionais conservadores do Partido Republicano – de Jeb Bush e Marco Rubio a Ted Cruz – e se apoderou do lugar e da agenda deles, lhe faltou sempre aquele substrato de convicções e de princípios profundos, que vem das ideias e das concepções de vida de longa-duração. Talvez por isso, e por temperamento e circunstância, não tenha percebido que, a partir de um certo momento, não valia a pena persistir, mesmo com razão, numa batalha que a força das coisas já tornara perdida. A partir do resultado consagrado pelos poderes deste mundo na eleição presidencial o que passava a estar em jogo era conservar a maioria no Senado.

No momento em que o Presidente se afastasse, deixando o que houvesse a decidir aos tribunais, a coligação anti-Trump que elegeu Biden desmobilizava. Com a sua insistência, usando o peso da popularidade entre o eleitorado republicano, e com o seu pouco ou nulo empenho na campanha senatorial da Geórgia, os Republicanos acabaram por perder dois senadores, perdendo assim a maioria no Senado.

O Partido Republicano que Trump ajudou a construir, um partido mais popular, mais baixa classe média e trabalhadora, mais chegado aos latinos e aos negros, era um bloco de 74 milhões de eleitores, face a uma coligação negativa que ia dos megabilionários de Silicon Valley – e de outros vales – aos Antifas, passando, claro, pelos novos “cabeças de ovo” da Academia e dos media, habituados, como bons puritanos, a justificar os próprios excessos pela bondade das suas causas e a demonizar e perseguir o inimigo, as suas causas e os seus excessos. A invasão do Capitólio por adeptos de Trump serviu-lhes na perfeição para confirmar e justificar a estratégia de Redutio ad Hitlerum que há muito prosseguiam.

A Urgência de uma Trégua

Fez falta a Trump a formação, a base doutrinária e ideológica e o entendimento de que a luta política, como qualquer conflito, tem essencialmente que ver com unir e reunir os Amigos e dividir os Inimigos. O novo Partido Republicano, com a sua mistura étnica e social, era uma força que, além de poder ter ganho o Senado na Geórgia, iria com certeza ter uma retumbante vitória nas próximas eleições para os Representantes. Já não será bem assim.

A principal urgência da América, neste momento, é reconhecer o fosso aberto entre “o povo de Trump” e o “povo anti-Trump”, negociar uma trégua e ir depois, progressivamente, restaurando um espaço comum.

Mas há muito quem, pelas melhores e piores razões, não queira que isso aconteça:

No campo de Trump, há os que se acham vítimas de uma fraude gigantesca e querem repará-la, deslegitimando Biden ou fazendo-lhe o que muitos dos que agora o apoiam fizeram a Trump desde o princípio do mandato.

Do lado dos Democratas há os que querem perseguir Trump para o punirem, e assim pôr fim à diabólica origem de todos os males. Ou os que, mais sofisticados, querem persegui-lo para o obrigarem a ficar na política e a usar a sua popularidade nas bases republicanas para pressionar o partido e as suas cúpulas, dividindo-o entre pró-Trump e anti-Trump – e condenando-o assim a uma longa marcha pelo deserto.

E há Trump. Se o Presidente se afastar voluntariamente (o que é uma incógnita) e deixar acontecer dentro do partido uma sucessão natural que beneficie da dinâmica popular criada em torno dos valores e dos princípios do nacionalismo conservador norte-americano, valores cristãos, patrióticos, familiares, de liberdade económica temperada pela solidariedade, o Partido Republicano poderá voltar a ter a força que teve nos tempos da presidência de Ronald Reagan, quando, em plena Guerra Fria, a América foi um farol de liberdade e força para o Mundo Livre.

Em 12 de Janeiro, o Vice-Presidente Mike Pence, em resposta a Nancy Pelosi, que a oito dias do termo do mandato de Trump quer invocar, pela primeira vez na História, o artigo 4º da 25ª Emenda à Constituição para pedir o Impeachment do Presidente por incapacidade, escreveu que assim se abria um perigoso precedente e se trilhava um caminho de vingança e castigo que não lhe parecia de todo desejável:
“Depois dos terríveis acontecimentos da última semana, as energias da Administração estão dirigidas para garantir uma transição ordeira. A Bíblia diz: “Para tudo há um momento e um tempo para cada coisa que se deseja debaixo do céu … um tempo para curar, um tempo para construir”. […] No meio de uma pandemia global, num momento de crise económica para milhões de Americanos e perante os trágicos acontecimentos de 6 de Janeiro, o tempo é agora para nos unirmos, para nos curarmos.”
São palavras sábias e prudentes de um homem a que os mais radicais do seu partido chamaram “traidor” mas que tem um passado de seriedade e coerência moral e política.

Talvez não pudesse dizer outra coisa, mas também não havia outra coisa a dizer. Para o bem e para o mal, o assunto está encerrado – como o próprio Trump já o reconheceu. E para o bem de todos, no mundo que nos espera, é urgente que a América seja uma nação forte e livre.

Um comentário:

rosaalegre0@gmail.com disse...



O comentarista parece esquecer que o mundo gira e a lusitana roda. Agora há pouco foi presa no Texas uma senhora que pelo vídeo mostrado fraudava a eleição. Ela não ficará calada. Na suposta tentativa de assalto ao capitólio pelos conservadores, foi preso um rapaz da antifa. Ele não ficará calado.Existem outros vídeos como os da famosa mesa de onde retiravam debaixo caixas e caixas de votos. as pessoas envolvidas não ficarão caladas. Não seesqueçam da delação premiada que foi inventada nos USA. Os problemas de Hunter Biden que a imprensa resolveu ocultar virão à tona. Em suma será apenas um questão de tempo até sabermos toda a verdade. O mundo gira. A lusitana roda. E Trump será sempre Trump.