segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

O Brasil em risco


A paz e a ordem internas vão se dilacerando com antagonismos incríveis entre governadores e governo central; a segurança interna é discutível. Artigo de Marcos L. Susskind para a Gazeta, recordando a história de Roma:


Há alguns dias li algo que pode perfeitamente ser adaptado ao Brasil. Trata-se do motivo pelo qual não se coloca os Dez Mandamentos nas sedes políticas da nação. Afinal, causaria tremendo rebuliço escrever nos prédios públicos: “não roubarás”, “não cometerás adultério” e, principalmente, “não darás falso testemunho”. Imagine estas normas em locais cheios de políticos, juízes e advogados!

Ironias à parte, este artigo se baseia no que escreveu Evan Andrews em 2014, e que é – infelizmente – atual para o Brasil. Andrews analisava os motivos para a derrocada de Roma, o maior império da Antiguidade, que abarcava toda a Europa, a Ásia, todo o Norte da África e o Oriente Médio sob jugo romano. Lembremo-nos de que o fim da hegemonia romana se deu quando o sistema imperial provou ser incapaz de manter a paz e a ordem internas, e Roma não podia mais manter aquelas instituições e políticas das quais dependiam a unidade, segurança e prosperidade das terras mediterrâneas.

Isto lembra, por acaso, o Brasil de 2021? A paz e a ordem internas vão se dilacerando com antagonismos incríveis entre governadores e governo central; a segurança interna é discutível, com medo presente entre todos os cidadãos, o desemprego e a quebra de empresas corroendo a prosperidade dos cidadãos.

Andrews menciona diversas razões, mas me aterei a poucas delas, muito importantes para serem ignoradas. A vastidão do Império Romano gerava dificuldades de comunicação, apesar de excelentes estradas e meios de contato. O Brasil tem imensidão geográfica (somos o quinto maior país do mundo) e não deveria haver problemas de comunicação – temos bom sistema telefônico, internet, comunicações terrestres e aéreas e, principalmente, uma só língua. E ainda assim temos uma dificuldade imensa de comunicação, função de diferenças ideológicas e de confrontos de personalidade.

A falta de entendimento entre a presidência e certos governadores, e entre estes e prefeitos, cria uma balbúrdia de comunicação e, consequentemente, de tomada de decisões, que acabam sendo postergadas ou tomadas mais em função de posição política do que em função das necessidades da população – o que leva ao desperdício de recursos financeiros, humanos e materiais.

Um outro fator comum entre a derrocada de Roma e os riscos atuais no Brasil é a crescente corrupção. Lideranças ineficientes e inconsistentes, somadas à corrupção endêmica, formam uma perigosa sopa. O Brasil tem importantes políticos presos ou aguardando prisão. Recentemente tivemos na cadeia, condenados ou indiciados ex-presidentes da nação, ex-presidentes da Câmara dos Deputados e ex-presidentes do Senado. A podridão nos altos escalões políticos faz com que um sem-número de senadores, deputados federais, governadores, prefeitos e membros do Judiciário sejam investigados em casos de fraudes, desvios, subornos e todo tipo de crime de corrupção. A ineficiência e a leniência do Judiciário, infelizmente, não coíbem estas ocorrências, pois o acusado pode ser julgado e recorrer a inúmeras instâncias em processos longos, cheios de recursos e “pedidos de vistas” que quase funcionam como garantia de impunidade, estimulando a continuidade deste perverso sistema.

Há mais um fator que não pode ser desprezado: o baixo nível educacional da população. Tomemos o exemplo da engenharia. Em 2010 o Brasil registrou 184 patentes de tecnologia. No mesmo ano, a Rússia registrou 5.698; o Japão, 7.334; os EUA registraram 11.905; e a China, 60.908. Infelizmente, em 2020 estes números nos colocaram ainda mais distantes dos países líderes. Esta defasagem se dá em muitas outras áreas, o que talvez explique a baixa produtividade nacional. Um trabalhador norte-americano produzia quatro vezes mais que um brasileiro em 2018. Em 2019 (último dado disponível), a produtividade do brasileiro caiu 1% enquanto nos EUA subiu 1,7%. E não estamos comparando com a Coreia do Sul ou a China...

A mudança das crenças e valores romanos foi outro fator importante para a queda daquele império. E em nossa sociedade, o que ocorre? Os valores familiares atacados diuturnamente na televisão e no cinema, as músicas de duplo sentido incentivando rompimento com valores tradicionais, a quebra do respeito aos pais, a “deusificação” da juventude e o abandono do conhecimento e experiência dos mais velhos vão criando uma ruptura pela qual já estamos pagando, mas pagaremos muito mais em poucos anos. Aliado a isso, vemos a difusão das drogas e a defesa da liberação das mesmas sem preocupação alguma com a capacidade dos sistemas de saúde para enfrentar as consequências inevitáveis de agravamento da saúde física e mental, bem como do incremento de absenteísmo laboral, rompimentos familiares e queda de renda entre os dependentes químicos.

Para terminar, há de se lembrar que Roma sofreu com o desengajamento da juventude sadia em seu exército. Jovens deixaram de ver a necessidade de lutar e defender seu país. No Brasil isto se verifica tanto na área política como educacional. A potência das nações já não se mede por sua força militar, mas por seu sistema educacional e sua liderança política. Infelizmente o Brasil há muito não atrai sua juventude para estas áreas cruciais.

Sim, ainda há tempo para mudanças. Mas elas precisam se iniciar o quanto antes. Talvez ainda hoje – para que não seja tarde.

Marcos L. Susskind é ativista comunitário, palestrante e guia de turismo em Israel.

4 comentários:

AHT disse...

Corrupção, Educação Falida e Cidadania Fragilizada


A aceitação da corrupção e dos corruptos começa nos municípios, onde os eleitores, mesmo conhecendo e conscientes de quem é quem, elegem corruptos em troca de algum favor, ou “apenas por amizade ou consideração aos seus pais e familiares, boas pessoas”.

Os vícios e terríveis defeitos da política no Brasil também são reflexos históricos do mandonismo do coronelismo originado no período colonial, quando era absoluto o poder do chefe local, evoluindo para formas mais elaboradas de controle e, enfim, ao atual e explícito jogo do toma lá dá cá, ao ponto de paralisar planos, medidas e mudanças mais do que necessárias à recuperação do país. Inevitavelmente, a corrupção se faz presente.

O comportamento do povo, tornado submisso, dependente e manso pelos coronéis de então - os senhores de engenhos e fazendeiros -, ajuda-nos a entender a cidadania passiva e a existência dos currais eleitorais até os dias de hoje.

Assim como podemos entender o porquê da cidadania passiva e a existência de currais eleitorais, também é possível notar que os valores e atitudes herdados do período do coronelismo continuam influenciando o modus operandi do mundo político brasileiro atual. Os “coronéis” do passado agora são os empoderados e respeitados “chefes políticos” e, como em toda hierarquia, coordenados por um “poderoso chefão". Enfim, trata-se de um poder político cuja prioridade não é o país, são os seus próprios interesses e a gana por fortunas.

Esse poder político e seus partidos é representado por verdadeiras organizações político-empresariais. São praticamente imbatíveis e, vez ou outra, sofrem alguns arranhões causados por alguns competentes e corajosos agentes da lei e da ordem, logo recolocados em seus devidos lugares.

Ora, se os seus membros cometem ilicitudes oportunizadas pelo poder conferido pelo exercício de cargos públicos, então são organizações criminosas político-empresariais. Para esses, a corrupção virou um direito e a impunidade uma quase certeza absoluta.

Diante dessa aberração político-criminosa, entende-se porque a Educação é uma das últimas prioridades do governo. Pelos interesses e objetivos a longo prazo dos “chefes e poderosos chefões”, a Educação está e será mantida falida. Assim fica mais fácil manter as novas gerações como se fossem bezerros e garrotes, futuros bovinos em pastos que, ao invés de produção de leite e carne, garantem a eles, políticos e empresários corruptos, desviarem o máximo possível do dinheiro dos cofres públicos federais, estaduais e municipais.

Nos poderes estaduais e no federal, o poderio dos políticos é concentrado nas respectivas capitais, onde têm, bancados pela União e Estados, os seus gabinetes, assessorias especializadas em diversas áreas e, se não bastasse, também contando com experts e consultores externos em operações que vão de interpretações e proposições de leis, portarias, normas e propositais brechas, até de balcões de negócios atendendo lobistas e clientes especiais, além de doleiros e lavadores de dinheiro.

Ao contarem com a profissionalização tanto no ambiente institucional como em atividades paralelas relativas aos seus interesses não institucionais, são aquinhoados com as seguintes vantagens: os riscos são minimizados; maior certeza de impunidade; boas perspectivas de sucesso em reeleições; apadrinhamentos para indicações de cargos desde baixos escalões até para a alta corte; acompanhamento do Orçamento e distribuição de verbas que contribuirão para a manutenção de currais eleitorais. Essa comunidade corrupta preza o lema, “No Orçamento nada se perde, tudo se aproveita”.

Pelo visto, essa aberração político-criminosa conseguiu seus intentos. A cidadania está tão fragilizada, que o povo não está reagindo contra os mandos e desmandos à Saúde Pública, mesmo com essa pandemia causando mais de 210 mil óbitos e mais de 8,5 milhões casos de Covid-19.

Neste atual ambiente político está cada vez mais difícil encontrar os políticos honestos e justos.


AHT
18/01/2021

Mais um amador disse...

Ok

Concordo, em termos.

Se o autor se desse ao trabalho, com o devido respeito, de sair da sua "bolha"
e pesquisar um pouco sobre, por exemplo, o dono da página "Escola de Salgados", um fluminense que encontrou na culinária popular e no uso das redes sociais um caminho para o, suponho, sucesso de seus negócios, não sugeriria, apesar dos elementos apontados, tão grave destino para o país.

Por incrível que pareça, pelo menos imagino, milhões e milhões de brasileiros estão conectados e comunicando-se entre si a partir de assuntos e interesses comuns que não fazem parte, necessariamente, do universo limitadíssimo de interesses, negociatas e jogos que fazem parte do mundo da política institucional.

Com todas as limitações tecnológicas, desafios do cotidiano e obstáculos os mais diversos, os brasileiros de todos os estados fazem questão de dizer ao dono da "Escola de Salgados" qual sua origem, que gostaram muito de suas receitas, poderão utilizá-las para ganhar algum extra e são-lhes muito agradecidos por isso.

Elementos de culinária, religiosos, gozações as mais diversas, sarros de futebol, angústias e esperanças são compartilhadas por brasileiros de todos os estados todos os dias. Não há questões essenciais de discórdia entre eles. Há, imagino, sim, uma cada vez maior desconfiança e descrença em relação ao que as chamadas elites políticas têm a oferecer. Não tenho a mínima ideia de até onde isso vai.

Mas a unidade territorial, a ideia de uma "nação" brasileira, por enquanto, continua.

Anônimo disse...

Vivemos numa democracia representativa. Qualquer autoridade só têm esse status porque o povo lho concedeu. Temos de aprimorar cada vez mais nossas escolhas e de poder tirar antes da hora marcada os que "mijam fora do pinico".

AHT disse...

“ESTE GOVERNO NÃO CAIRÁ
PORQUE NÃO É UM EDIFÍCIO.
SAIRÁ COM BENZINA
PORQUE É UMA NÓDOA.”

- “O Conde de Abranhos”
- EÇA DE QUEIRÓS

OLHA O QUEIROZ AÍ, GENTE!

O tempo passa
É um entra e sai de presidentes.
O saco do povo enche e, quando assa,
FORA BOLSONARO!


AHT
19/01/2021