sexta-feira, 5 de março de 2021

Allan Kardec, o sobrenatural e a tolerância.


A verdade é importante, mas nem sempre "totalmente importante". Theodore Dalrymple via Oeste:


Meu apartamento em Paris é próximo ao Père Lachaise, provavelmente o mais famoso e certamente o mais visitado cemitério do mundo. É um lugar maravilhoso para o devaneio, que mesmo as mais rigorosas precauções de saúde não podem proibir ou impedir completamente.

Há muitas pessoas famosas enterradas lá. Há também nomes não tão célebres, mas que se destacaram nas suas áreas de atuação. Como, por exemplo, Alphonse Bertillon, o inventor de um sistema de identificação de criminosos por meio de antropometria. Ou Dupré Barbancourt, o francês que foi cônsul liberiano no Haiti no século 19. Ele fundou a primeira destilaria de rum no Haiti que ainda funciona e faz o melhor rum que já provei.

O túmulo no Père Lachaise que é de longe o mais constante e elaboradamente adornado com flores não é o de Balzac ou o de Chopin ou o de Oscar Wilde. É o de Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869). Rivail é mais conhecido como Allan Kardec. A atenção dedicada a seu túmulo se deve principalmente aos esforços dos visitantes brasileiros do cemitério, seus fiéis devotos.


Sem dúvida é evidência da minha ignorância culposa, mas, até que eu fizesse caminhadas regulares no cemitério, o nome de Allan Kardec era completamente desconhecido para mim. Não sabia que ele era espírita e, fato que rapidamente descobri, que esmagadoramente o seu maior número de seguidores está e tem estado há muito tempo no Brasil. Isso me intrigou. Por quê? Ainda não encontrei a resposta. Existe uma explicação satisfatória, ou é apenas uma daquelas curiosidades inexplicáveis da história?

Quando eu era jovem, intolerante e muito satisfeito com minha própria esperteza, considerava qualquer ideia ou opinião que batesse no sobrenatural com desdém. Pensei que já entendia tudo e, portanto, que qualquer um que acreditasse em algo que eu não acreditava era deficiente em inteligência. Sabia como o universo funcionava, exceto talvez pelos poucos detalhes que ainda precisavam ser preenchidos. Naqueles dias, esperava que, no final da minha vida, todos os mistérios tivessem sido resolvidos.

Ainda não acredito no sobrenatural. Se perguntado, eu diria que esperava que minha morte fosse uma entrada em um estado de não ser. Meu principal arrependimento é que não serei capaz de dizer a ninguém: “Eu avisei” — dizer “eu avisei”, afinal, é um dos grandes prazeres da vida, pelo menos para um intelectual.

Mas a opinião contrária não me irrita mais como na minha juventude. Estou perfeitamente satisfeito que as pessoas devem pensar diferente de mim sobre os assuntos e nunca faria esforço algum para convertê-las aos meus pontos de vista — a menos que elas insistissem em tentar me converter aos delas.

Uma das razões, além da placidez natural da idade, para a minha mudança de atitude em relação a tais assuntos é que eu costumava frequentar uma livraria de segunda mão com uma imensa seção sobre espiritismo. O proprietário era comunista de linha albanesa — ele acreditava que a Albânia de Enver Hoxha era a portadora da luz para a humanidade, uma crença que fazia o espiritismo parecer puramente racional por comparação. Mas negócios eram negócios, e o espiritismo vendia muito mais do que o comunismo representado por Marx, Engels, Lenin, Stalin e as memórias injuriosas de Enver Hoxha em muitos volumes. O livreiro havia comprado toda a biblioteca, entre as décadas de 1930 e 1940, de um espírita local que recentemente havia passado para o outro lado, como a morte era chamada. Entre os volumes adquiridos estava Trinta Anos entre os Mortos, escrito por um cirurgião espírita norte-americano, um título que poderia não ter tranquilizado ou encorajado seus pacientes.

Havia por várias décadas na Inglaterra um próspero clube do livro espírita, assim como havia um clube do livro da esquerda florescente, e a livraria do comunista oferecia para os dois grupos numerosos títulos. Um deles teve um grande efeito na minha atitude para com o espiritismo, tornando-me muito mais simpático a ele, mesmo que não tenha mudado minha atitude com relação às suas crenças.

O livro, publicado em 1940, informava aos leitores como entrar em contato com o espírito de seus cães falecidos. O contexto histórico aqui é muito importante: nos primeiros meses da 2ª Guerra Mundial na Grã-Bretanha, 250 mil cães foram mortos porque acreditava-se que logo não haveria comida suficiente para alimentá-los. Como um grande amante dos cães, eu sabia quão doloroso deve ter sido para muitas pessoas ter seus amados companheiros caninos abatidos, quanta culpa deve ter causado a elas, e quanta saudade deve ter permanecido depois.

Os seres humanos têm a capacidade de acreditar com muita convicção em “verdades” criadas que proporcionam conforto. De modo que imaginar os cães vivendo num plano espiritual não pareceu, em tempos de guerra, um completo absurdo. E isso certamente não foi nocivo. Se trouxe conforto ao luto, tanto melhor. A verdade é importante, mas nem sempre totalmente importante: eu não tentaria privar alguém de seu consolo apenas porque acreditava em algo falso, pelo menos se fosse inofensivo.

O livrinho me ajudou um pouco a crescer, embora não por causa de qualquer verdade doutrinária que contivesse. E a saudade dos donos de cães pelo contato com seus animais era apenas o que qualquer um sente quando sofre uma perda. O livro, então, modesto e talvez tolo como era, falava da condição humana inevitável.

Há um outro livreiro antiquário não muito longe do meu apartamento em Paris, e um dia notei em sua janela uma edição inicial (1863) do Le Livre des Médiums, de Allan Kardec. Sem nunca ter lido uma palavra de Kardec, comprei. Na introdução, ele conta que vários espíritos o ajudaram com a edição revisada e melhorada de seu trabalho, e eu não consegui conter completamente um sorriso. Se ao menos os espíritos me ajudassem dessa forma!

Mas tive a impressão de que Kardec não era uma fraude, que ele acreditava que uma “força” escrevia por ele e que, além disso, era um homem inteligente. Era, de qualquer forma, bem mais honesto do que muitos intelectuais franceses famosos da safra pós-guerra. Kardec deixou muito claro o significado do que escreveu e, assim, abriu-se para a crítica. Não me preocupa nem um pouco que suas ideias me soem equivocadas ao ponto do absurdo. E não sinto nenhum desejo de tentar mudar a convicção de qualquer um que acredite nele.

Um comentário:

Antonio Henrique Oliveira Medici disse...

O Espiritismo é a pior negação do Cristianismo.

Deturpam o Messias para vender um peixe estragado, se infiltrando sorrateiramente e destruindo a fé Cristã.

Mas eu também não poderei dizer: - Eu avisei.