sexta-feira, 5 de março de 2021

Evolução e eugenia das ideias


Os vigilantes da correção política e instigadores dos "cancelamentos" são os eugenistas da mente, os racistas das ideias. Carlos M. Fernandes para o Observador:


No princípio, o darwinismo tão-só substituiu a tautologia divina, “Eu sou Aquele que sou” (Êxodo 3:14), por outra, secular e universal: “eu sou aquele que sobrevive”. Sem as sofisticações posteriores, as hipóteses a respeito da origem e variação das espécies através da selecção natural teriam ficado retidas no terreno da intuição e destituídas de defesas contra todas as classes de imposturas.

Entre os promotores contemporâneos das interpretações equivocadas da ideia de Charles Darwin, encontram-se aqueles que, convencidos da existência de uma seta temporal indicadora do caminho para o paraíso evolutivo, se dedicam à entronização do progresso. Do lado oposto, os partidários de um darwinismo duro concebem os humanos como mísseis pré-programados, escravos da genética ou, no mínimo, da epigenética. Uns e outros têm sido os obreiros da nossa queda. No entanto, presentemente, são os progressistas da nova esquerda, na condição de autoproclamados guias da evolução humana, quem prescreve os códigos de boa conduta, transformando sociedades livres, ou que se julgava estarem a caminhar nesse sentido, em infernos persecutórios. E fazem-no, adaptando as estratégias do darwinismo social mais drástico ao campo das ideias.

A etimologia de evolução remonta ao verbo latino evolvere, que significa abrir, desdobrar. Utilizado no inglês desde o início do século XVII para descrever o crescimento e maturação dos organismos, o termo seria aplicado no âmbito do desenvolvimento embrionário pelo cientista suíço Albrecht von Haller em 1744. Mais tarde, o biólogo Charles Lyell conferiu-lhe o significado moderno. Quanto a Darwin, só recorreu ao vocábulo na última frase de A Origem das Espécies (1859). O naturalista preferia “descendência com modificação”, talvez porque as implicações teleológicas de um conceito de progresso no sentido de uma finalidade eram estranhas à sua argumentação. Por razões análogas, Darwin não gostava da expressão “sobrevivência do mais forte” (que, ainda assim, viria a usar na quinta edição da sua obra seminal), sentença da lavra de Herbert Spencer, pai do darwinismo social. Os enganos que têm marcado a história do darwinismo entraram em jogo no momento da distribuição da nomenclatura.

As indecisões baralharam a comunidade científica, viciaram a opinião pública e conduziram a uma sequência de abusos retóricos. A evolução, no discurso corrente, tornou-se sinónimo de aperfeiçoamento do organismo, de viagem biológica em rumo da forma e função perfeitas, definições desvirtuadas que convidaram à adesão dos mais variados artificies do Homem Novo. Contudo, Friedrich Nietzsche cedo reparou que “a evolução de uma coisa, de um costume, de um órgão, não é uma progressão para um fim”. E até Marx, que fora atraído, num primeiro momento, pela teoria, se virou para interpretações mais adaptadas às suas crenças, como a defendida por Pierre Trémaux, quando percebeu que na hipótese original não tinham lugar o progresso e a revolução. Curiosamente, Trémaux foi o precursor do equilíbrio pontuado, formalizado pelo biólogo marxista Stephen Jay Gould em 1972. As reiteradas promessas de neutralidade do método científico são sempre um tanto exageradas.

Por infelicidade, as explicações imprecisas da biologia evolutiva escondem a correcta (e fundamentalmente bela): a evolução é a consequência histórica da variação aleatória e do erro – ou, pedindo de novo palavras emprestadas a Nietzsche, “uma sucessão constante de fenómenos mais ou menos independentes e violentos, de coisas subjugadas por outras coisas”. Como é sabido, o erro e o acaso e os “fenómenos independentes” são inconciliáveis com o historicismo das ideologias colectivistas. O progresso incorpora a supremacia da humanidade sobre as vidas dos homens, aquela guiada por um plano absoluto que exclui o imprevisto, estas submetidas como títeres, em conformidade com o valor relativo e descartável que lhes é concedido.

Se determinadas leituras abusivas do darwinismo foram feitas por cépticos das suas consequências metafísicas, outras deveram-se aos seus aliados. O sobredito darwinismo social, tese quase-racista avançada pelo pacifista Spencer para alargar a acção da selecção natural à cultura, foi enjeitado por Darwin, mas difundiu uma caricatura da sua teoria que ainda hoje ecoa nos corredores das ciências sociais e políticas.

A extensão lógica do darwinismo social foi a eugenia, princípio proposto por Francis Galton que advogava o aperfeiçoamento da espécie humana através da supressão activa de características indesejáveis – por outras palavras, o apuramento da raça por selecção artificial, tal qual praticado nos cães. Da doutrina à esterilização dos inadaptados (como aconteceu em diversos países ocidentais) e ao extermínio étnico, foi um passo. O Homem, depois de substituir Deus pela História no poder sobre o destino dos homens, era posto ao comando dessa mesma História, política, social e agora biológica. A ideia de Darwin, ainda que isenta de culpas, ficou associada a tais despautérios.

A polémica acompanhou o darwinismo desde a sua génese. Hoje, pretende-se circunscrever as controvérsias à fronteira entre criacionistas e evolucionistas, mas esse conflito entre duas facções intransigentes faculta uma visão muito estreita das guerras científicas e filosóficas que agitam a comunidade há mais de 150 anos. É um facto histórico que a Igreja e a Biologia entraram em rota de colisão por diversas vezes, mesmo antes da revolução darwinista. Erasmus Darwin, avô de Charles e de Galton, ao tomar conhecimento de que o seu Zoonomia (1794) havia sido mal recebido pelo clero local, resolveu apagar da carruagem da família, por precaução, o lema e conchis omni, tudo vem das conchas, que resumia a sua convicção de que a vida procede de uma única forma. Porém, ao longo do tempo, foram vários os cientistas que alinharam no assalto à teoria da selecção natural. Limito-me a assinalar um exemplo, antes que estes parágrafos se confundam com uma sinóptica e mal-amanhada História do darwinismo.

Rudolf Virchow foi um consagrado biólogo alemão. Foi também progressista, anticatólico, ateu, provavelmente mação, e incansável no combate à eugenia e aos credos na superioridade da raça ariana. Apesar disso, não se deixou entusiasmar pelas conjecturas de Darwin, e chegou a ser agressivo na rejeição, em particular com a hipótese da ascendência pitecóide do homem. Na sua opinião, os fósseis de hominídeos encontrados até à época eram apenas monstruosidades patológicas e não certificavam qualquer parentesco entre os homens e os primatas ancestrais. Virchow, como outros antes e depois dele, não estava disposto a admitir a imagem de um “macaco sublime que é o homem” (Lautréamont).

Ao mesmo tempo, a Igreja tentava adaptar-se ao darwinismo e encontrar um equilíbrio entre este e os dogmas (sem tocar, obviamente, nas questões da origem da vida, do livre-arbítrio e da imortalidade da alma): veja-se o exemplo do entomologista e padre jesuíta Erich Wasmann, partidário da evolução. Só mesmo as interpretações literais das escrituras é que mantiveram a biologia evolutiva ao largo. O evolucionista Ernst Haeckel, em 1905, numa conferência em Berlim, já defendia o diálogo entre as ciências biológicas e a religião, afirmando que, se o conhecimento da natureza “é inconciliável com os dogmas místicos”, “o alto valor ético da moral cristã” deveria ser admitido pelos cientistas.

Sintetizando, o darwinismo foi fabricado por erros, heresias, conflitos, dissensões e dúvidas, foi perturbado por aderentes e reforçado por adversários, foi atacado por cientistas e defendido por sacerdotes, e se encontrou na religião um rival combativo, também não teve a vida facilitada no domínio da ciência. A sua história é um fascinante encadeamento de avanços e recuos. Só uma sociedade doente e apartada dos valores fundamentais pode elevar um oximoro como o consenso científico ao estatuto de dogma laico.

Acrescente-se que a biologia evolutiva e a genética são, ao dia de hoje, muito mais perigosas para o progresso do que para a religião. O fascínio da extrema-esquerda por Darwin e pelo ADN esgota-se no potencial para irritar os criacionistas. Empenhados em cruzadas contra “estereótipos2 e “condicionamentos culturais”, os neomarxistas apelam a versões distorcidas da ciência para validar os seus preconceitos, declinando dados e análises que os questionem, nomeadamente aqueles que abordam os atributos biológicos dos sexos e das etnias ou as grandes causas ecológicas do momento. Tudo o que ameace a estrutura ideológica que edificaram para controlar a vida dos outros é marcado com o rótulo de heresia. Se a ciência divulga resultados que confirmem as suas convicções, eis o consenso. Se põe em causa a ideologia do género ou as construções pseudocientíficas da Teoria Crítica sobre o racismo e a luta de classes, é positivismo ou ciência do patriarcado. A postura seria caricata e risível se não viesse acompanhada de um novo tipo censura assaz produtiva. Neste contexto, o darwinismo oferece-se como fonte de analogias.


Como vimos pelo exemplo de Spencer, o alargamento da teoria da selecção ao território da cultura foi praticado desde a publicação da Origem. Mais recentemente, o biólogo Richard Dawkins tentou o mesmo e cunhou um termo de inspiração evolutiva que, como o darwinismo original, deu azo a uma pseudociência e a uma multidão de discípulos deslumbrados. Refiro-me ao meme como unidade de informação cultural e análogo psicológico de gene. O conceito, apesar dos excessos, apresenta algumas virtudes.

De acordo com a metáfora, os memes, como os genes, estão sujeitos ao labor da selecção. A seguinte descrição não é a mais correcta mas, por exigências de simplicidade, vou associar os memes a ideias e alinhar nas definições rudimentares da evolução: no reino da memética, as ideias mais adaptadas sobrevivem e reproduzem-se – isto é, evoluem.

O meme de Dawkins não é totalmente original, pois insinua-se no pensamento evolucionista desde o século XIX e encontra-se, em forma embrionária, na obra de Arthur Koestler. Porém, Dawkins cobriu-o de um formalismo que nos permite articular hipóteses interessantes. Por outro lado, cria-nos problemas quando consideramos memes, como o comunismo, que, numa primeira análise, parecem conduzir a regiões inóspitas do espaço cultural: o comunismo tem como resultado, fatalmente, a miséria material e moral. A sobrevivência (e prosperidade) do meme marxista é um mistério. Enferma então, a memética de Dawkins, de um défice de generalidade e de uma inconsistência irresolúvel? Não necessariamente. Em primeiro lugar, a quantificação da aptidão é um exercício complicado e constrangido, principalmente na esfera cultural, por interacções complexas. Em segundo, podemos sempre expandir a analogia biológica e caracterizar o comunismo como um vírus: um vírus endémico que, em determinadas circunstâncias e locais, causa surtos violentos, e que em ocasiões ameaça mesmo progredir para uma fase pandémica. Além do mais, actua no comportamento dos hospedeiros, transfigurando-os em polícias dos anticorpos e dos memes que concorrem com o seu jugo parasitário. Os vigilantes da correcção política e instigadores dos «cancelamentos» são os eugenistas da mente, os racistas das ideias.

Desta forma, a nova censura não precisa de leis nem polícia política. Os progressistas praticam métodos mais eficientes, que laboram na génese, desenvolvimento e difusão das ideias. A repressão cultural refinou-se, é mais precisa e localizada, quase científica – no sentido corrompido do termo com que habitualmente se categoriza o nazismo. E quando tem que actuar nos veículos do conhecimento, como os livros, não é mister queimá-los, basta retirá-los dos currículos escolares ou bloqueá-los, nas editoras, antes de serem dados à estampa. Vergílio Ferreira, nos seus diários, revela que a censura do regime durante o Estado Novo não era tão acutilante como a exercida, em paralelo, pelos comunistas que controlavam o mercado editorial e critico. Desde então, esse controlo foi aperfeiçoado com o auxílio de uma rede de patrulhas doutrinárias e de um substrato teórico criados nos viveiros académicos. A censura adaptou-se. Na actualidade, aquilo que enfrentamos é um poderoso mecanismo de selecção artificial de ideias.

Em Meridiano de Sangue, Cormac McCarthy apresenta o mais forte, complexo e ininteligível vilão da literatura contemporânea: o Juiz Holden. Holden é um evolucionista. Estuda os bichos e as eras geológicas e à invocação das escrituras responde com as pedras e os «ossos das criaturas», as coisas através das quais, diz, “Deus fala”. Nas pausas dos massacres, desenha as plantas e os pássaros para logo matá-los. Nos descansos de uma missão sem termo, representa os artefactos e a arte nativa para depois os destruir. Holden é o mensageiro da ciência de Keats, o agente da “filosofia fria” que revoga os encantos do universo natural.

No cosmos de Holden não há lugar para a espiritualidade, não há bem nem mal, apenas a pulsação amoral dos fenómenos. A dada altura, o juiz propõe uma eugenia radical: “[às crianças], deviam pô-las num fosso como cães selvagens. Deviam obrigá-las a escolher entre três portas, unicamente com base nos seus raciocínios e deduções, qual a que não alberga leões esfomeadas.” Os novos censores são os leões da alegoria do juiz. Mas estas feras não deixam a selecção ao julgamento imparcial da natureza: devoram as crianças tendo as suas crenças como único critério.

A referência, em modo de remate, a uma personagem tão sinistra e capaz de uma violência singular, pode parecer exagerada. Defendo a bondade da alusão invocando a convicção de que, caso consintamos que a eugenia das ideias siga o seu caminho, um dia nos encontraremos perante as mesmas paisagens estéreis e manchadas de sangue através das quais cavalga a quadrilha de Holden. Nessa altura, seremos todos “seres de uma época pretérita”.

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