sábado, 6 de março de 2021

Nem Stálin, nem Hitler, nem Mussolini: nenhum teve culpa de nada.


A História dos povos não pode ser desenhada com as cores preta e branca, ela é muito mais complexa e, por isso, exige maior cuidado da parte dos historiadores. José Milhazes para o Observador:


1 Na véspera do aniversário da morte do ditador comunista José Estaline, que ocorreu a 5 de Março de 1953, o filho de um funcionário do NKVD, a polícia política soviética, decidiu apresentar uma queixa na polícia contra o bisneto de uma das vítimas do pai, acusando-o de estar a denegrir o nome deste último.

Em 1938, Alexei Mitiuchov, agente do NKVD em Novosibirsk, participou no fuzilamento de Stepan Karagodin, acusado de “espionagem a favor dos serviços secretos militares japoneses”.

Denis Karagodin, bisneto do “espião”, decidiu investigar nos arquivos o processo que foi instaurado contra o seu antepassado e as causas que levaram ao seu fuzilamento. Depois de consultar, com as devidas autorizações e com base na lei “sobre a reabilitação das vítimas das repressões políticas”, os arquivos do Serviço Federal da Rússia (herdeiro dos órgãos repressivos soviéticos), da Procuradoria Militar, dos ministérios da Defesa e do Interior da Rússia, bem como de diversos arquivos estatais e políticos, decidiu publicar numa página da internet as conclusões da sua pesquisa, nomeadamente os nomes dos carrascos que assassinaram o seu bisavô.

Serguei Mitiuchov, filho do agente do NKVD, dirigiu-se à esquadra da polícia “Dzerjinski”, em Novosibirsk, e apresentou queixa contra Denis Karagodin por tentativa de desacreditar o nome do seu pai.

(Não sou muito dado a misticismos, mas há coisas muito estranhas neste mundo. Será mera coincidência, o facto da queixa ter sido apresentada numa esquadra da polícia que tem o nome de Felix Dzerjinski, fundador da polícia política soviética?)

A polícia russa chamou Denis, a 2 de Março, e interrogou-o a propósito da publicação, tendo dado seguimento à queixa.

Não sabemos como este caso irá terminar, mas é de extrema importância, pois poderá servir de precedente num país onde são numerosas as tentativas para reabilitar figuras tenebrosas da história soviética.

Ainda recentemente, foi decidido avançar com um inquérito sobre se a estátua de Felix Dzerjinski deve voltar à praça onde se situa a sede da polícia política russa ou se o lugar deverá ser ocupado por Alexandre Nevski, figura histórica que pouco ou nada tem a ver com a cidade de Moscovo e continua a provocar enorme polémica entre os historiadores russos. Por razões misteriosas, Serguei Sobianin, Presidente da Câmara da capital russa, decidiu suspender o inquérito quando Nevski levava algum avanço sobre Dzerjinski.

Vladimir Medinski, antigo ministro da Cultura da Rússia e actual conselheiro do Presidente Putin, iliba Estaline assim: “Pessoalmente, o mau Estaline não é a causa das repressões. O mais provável é que se no lugar estivesse um mau Ivanov, Petrov, Sidorov, nada mudaria. Poderia haver, como sempre, pequenos pormenores, é o papel do indivíduo na História.”

“A causa é o sistema que foi criado depois de 1917. E este sistema – poderíamos falar disso durante muitas horas, conduziu, no fim de contas, a um mecanismo de repressões que é, sem dúvida, criminoso” – acrescenta Medinski, que também dirige a Sociedade de História Militar da Rússia, citado pela agência oficial Ria-Novosti.

Ora, imaginem o barulho que iriam fazer Medinski, que também é conhecido por ter plagiado partes da sua tese de doutoramento, e outros “historiadores” que tais, se o mesmo fosse dito em relação, por exemplo, a Hitler, personagem de igual calibre sanguinário de Estaline. O “coitado” do Führer, afinal não passou de uma “vítima da máquina”!

Por este andar, toca a reabilitar todos os facínoras de esquerda e de direita.

Vladimir Medinski, um dos actuais controladores ideológicos da “verdade histórica” na Rússia, passa ao lado de uma questão que é fundamental: quem é que dirigiu a construção desses aparelhos repressivos? Será que eles caíram do Céu já prontinhos a funcionar? Qualquer pessoa com algum conhecimento da História da Rússia sabe que José Estaline foi um dos principais arquitectos e mestres-de-obras do regime repressivo soviético. Ainda Vladimir Lenine estava vivo, quando um dos seus mais fiéis discípulos já tecia intrigas para controlar os aparelhos do Partido Comunista (Bolchevique) e do Estado soviético.

Quando adversários políticos seus, como Lev Trotsky e muitos outros, deram conta, já era tarde. Trotsky viu-se despojado de muitas das suas ideias por Estaline e, depois, da própria vida.

A edificação do sistema nazi alemão ocorreu sob a direcção de Hitler, tendo ocorrido o mesmo com Mussolini em Itália, Salazar em Portugal ou Mao na China.

2 Pelos nossos lados, a História de Portugal continua a ser vítima de partidarização descarada e de interpretações vulgares. Em vez de basearem a narrativa histórica em factos, alguns andam atrás ou inventam mesmo factos para provar a sua narrativa histórica previamente elaborada ou importada de outras paragens. A História dos povos não pode ser desenhada com as cores preta e branca, ela é muito mais complexa e, por isso, exige maior cuidado da parte dos historiadores.

Além do mais, é necessário proteger o nosso passado dos “treinadores de bancada” e de “analfabetos encartados”. Na História não devem existir tabus, é indispensável analisar todo e qualquer tema, mesmo temas difíceis como o colonialismo, a “guerra colonial” ou o PREC, etc., mas com cuidado, de forma responsável, com apoio em arquivos e factos e não em construções ideológicas pré-definidas.

Caso contrário, ouviremos constantemente apelos a guerras contra estátuas, monumentos e personagens históricas.

Um comentário:

Anônimo disse...

Guerrear contra estátuas é sinal, se não de grande inteligência, de grande valentia.